Tempestade no Paraíso
— Não fugirei — Blair asseverou, ciente…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Não fugirei — Blair asseverou, ciente de que mais uma vez estava implorando. — Conheço os riscos e dou-lhe minha palavra...
— Blair! — ele interrompeu, ansioso embora quisesse ser razoável. — Sob circunstâncias normais, sua palavra me bastaria. Mas agora estou cansado demais, e deitar-me a seu lado é minha única garantia de que perceberei qualquer movimento.
— Não irei para a cama com você! — A frase soou aguda, quase histérica.
Todo sinal de racionalidade abandonou a voz de Taylor.
— Escute, mulher! Meu corpo não mudou da noite para o dia. É o mesmo com o qual você se sentiu confortável, faz vinte e quatro horas. Portanto, você tem duas escolhas: aceitar-me a seu lado ou ser amarrada na cama, pelos pulsos e tornozelos, para eu ter certeza de que não vai se aventurar lá fora.
— Você não faria isso! — Blair arfou.
— Prefiro não fazer — disse Taylor —, porém a escolha é sua. Repito: estou exausto demais para discutir, mas...
Ele permitiu que a frase se alongasse em uma fria advertência. Blair vacilou, confusa e desorientada com o curso dos acontecimentos. Também não se dispunha a discutir, sabendo que perderia o confronto.
Como a hesitação persistiu, Taylor deu o primeiro passo ameaçador em direção a ela.
Capítulo VIII
— Espere aí! — Blair interrompeu o avanço de Taylor, formando uma barreira com as mãos. — Concordo em ficar no meu canto da cama. — Esticou o corpo com fingida frieza, de costas para o lado de seu raptor.
— Obrigado — ele emendou secamente.
— É evidente que você conhece meu pai — ela murmurou com acidez. — Não poderia imaginar que ele tivesse criado uma completa idiota!
Taylor não respondeu e, claro, Blair não viu que ele franzia a testa. Julgava sua posição bastante mim, mas a de Andrew Huntington seria pior, quando tentasse explicar toda aquela confusão à sua filha temperamental. Bem, seria um problema para o outro. Ele já tinha o seu.
De uma gaveta embutida, Taylor retirou um lençol extra. Puxou de um só golpe aquele
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a que Blair se agarrava e lançou sobre seu corpo a peça limpa e fresca, antes que ela pudesse protestar.
— Acho que não está bordado "ele" e "ela" nesses lençóis — Taylor gracejou, preparado para subir à cama e cobrir-se até os ombros, não para proteger-se da aragem procedente da escotilha, mas para controlar suas necessidades instintivas.
Os minutos então se tornaram uma eternidade. Nenhum dos dois ousava mexer-se, ambos plenamente conscientes um do outro, atentos a cada respiração, a cada leve movimento. A selva era terrivelmente silenciosa à noite, nenhum rumor vinha das margens. Até mesmo o bater da água contra o casco do barco se mostrava suave.
Duas noites antes, apenas duas noites, pensou Taylor, ele tivera Blair em seus braços, em um frenesi de paixão que, este sim, poderia de bom grado durar uma eternidade.
Mas tudo era diferente. Ao céu sucedera-se o inferno ao qual os dois haviam sido condenados. Mas ele não conseguiria agir de outro modo sem renegar as ordens de seus superiores. Quando dormisse, gozaria de um sono profundo. Ele não considerava Blair uma idiota, longe disso. Ela conhecia os perigos envolvidos naquela operação, e também estava desesperada. Taylor não poderia correr o risco, ainda que remoto, de que ela escapasse, dando preferência a algum predador venenoso da floresta.
Blair desconsiderava a hipótese de confiar cegamente nele. Porém, em sua avaliação, não merecia aquele olhar de ódio que percebera quando ela o flagrara comunicando-se por sinais luminosos, no descampado.
Incapaz de adormecer, Taylor calculou que, em quarenta e oito horas, havia dormido menos de três. Sentia-se como que fora do mundo. Em sua vida, já se deitara na grama e no lodo, em meio a tiroteios e conflitos. Mas naquele momento não conseguia serenar-se, ao lado de Blair. Sentindo calor, afastou o lençol que o cobria e ficou apenas com a calça, de tecido grosso e desconfortável. Impaciente, resolveu tirá-la, para dormir praticamente nu, como fazia na privacidade de sua casa ou de uma barraca de campanha.
— O que está fazendo? — Sem olhar, Blair sentiu a movimentação.
— Tirando a calça — ele anunciou, surpreso com a malícia com que pronunciara a resposta. — E não me importo se você não gostar.
Gostar não era a questão. Como Blair, em seu canto da cama, poderia conciliar o sono com um homem como Taylor a seu lado, semi-despido e cheio de uma sensualidade prestes a aflorar? Ela já conhecia sua força viril, e por isso conteve um suspiro, mais de desejo que de contrariedade.
— Não se preocupe — ele avisou. — Se você rolar para o meu lado, não encostará em nada que já não conheça.
— Infelizmente, é verdade — disse Blair apenas para rebater o insulto.
Mais do que nunca, Taylor sentiu vontade de esganá-la. Não era uma intenção legítima, claro, mas a tensão contida no ar havia se tornado uma batalha por autocontrole. E ela a estava ganhando.
Blair não sentia senso de triunfo algum. Os fatos podiam ter mudado, mas não os corpos de ambos e suas exigências. Um magnetismo animal eletrizava o ar entre eles. Taylor guardava distância, porém Blair podia senti-lo inteiro e seu corpo clamava por ele, como se um fogo involuntário lhe tomasse as terminações nervosas, sugerindo o êxtase do prazer compartilhado. Podia dizer a si mesma que o odiava, mas a memória carnal era mais forte.
"Foi tudo planejado", ela pensou no escuro, em busca de energia para combater a vontade de fazer amor com Taylor. Ele a havia sequestrado em seu proveito próprio, visando algum lucro secreto. Apenas por isso, ela não via cabimento em cair outra vez nos braços
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dele, embora seguisse torturada pela lembrança do belo corpo nu e dos atributos masculinos, tudo tão próximo. Restava-lhe a infelicidade de passar algumas horas na cama, ao lado de Taylor, ambos imóveis, sem qualquer tentativa de movimento ou ação. De madrugada, o sono finalmente a venceu. Inconsciente, ela deslizou para cima de Taylor.
Isso encerrou o sono que ele finalmente encontrara. Não se moveu, porque Blair se ajustara como uma luva a seu corpo. A pele, os cabelos, o aroma excitante o deixaram em estado de alerta. Ela havia se curvado sobre seu tórax, fazendo com que os respectivos lábios quase se tocassem. Tinha se livrado do lençol, e por isso a única barreira restante entre eles era o brim rústico da roupa de camponesa.
Inútil resistir.
Taylor afagou os cabelos ruivos de Blair, desceu a mão por suas costas e acariciou os quadris que se elevavam tentadoramente. Imersa no sono, com um leve suspiro, ela fez um movimento natural e sensual de ajuste. Logo acordaria, previu ele, e com toda a firmeza poderia alegar inocência. Ela é que se deitara sobre ele!
Respirando fundo, Taylor deu-se por vencido. Seus braços envolveram o corpo delicado de Blair, a fim de lhe propiciar conforto na travessia entre a terra dos sonhos e a exótica realidade que viviam.
Blair não despertou de imediato. Parecia serena e satisfeita, em sono profundo, até começar a mover os membros com adorável preguiça. A respiração acompanhou a transição, tornando-se mais rápida e mais quente.
Ao abrir os olhos, ela deparou diretamente com o olhar penetrante de Taylor. Percebeu-se semi-reclinada sobre ele, um joelho dobrado, a outra perna em paralelo com a dele. Consciente da proximidade dos corpos, sentiu um calor que começava na raiz dos cabelos e terminava no ventre, no ponto onde se dava o contato mais íntimo.
— Tire as mãos de mim! — gritou, à beira do pânico.
Taylor ergueu as mãos, que já não a tocavam, e sorriu com a divertida certeza da inocência. Tinha sido a vítima.
— Droga! — ela explodiu ao dar-se conta de que fora a inadvertida agressora. Saltou da cama, xingando como um marinheiro, de modo a convencer Taylor sobre o que pensava dele.
— Não esqueceu nenhum palavrão? — ele ironizou, menos calmo do que aparentava estar. Estava frustrado, e até furioso, com o resultado da aventura.
Blair o fitou por um segundo, confusa, então procurou o banheiro, onde pretendia recuperar o brio e a dignidade, longe de Taylor, mas não conseguiu fechar a porta. Ele saiu da cama, sem a menor preocupação com sua nudez, e esticou a mão pela fresta, agarrando o braço dela.
— Gostaria de ser um cavalheiro e deixá-la usar o banheiro antes, mas... — Com um puxão, tirou Blair do aposento e entrou. — Você há de convir que eu preciso de um banho frio sem demora. A não ser que tenha em mente outra alternativa para remediar a situação...
Como que ofendida pela ousadia dele, Blair apanhou um caco de louça e atirou-o contra a porta, mas Taylor, mais rápido, já a havia fechado. Com raiva, ela pisou no fragmento de cerâmica, propositalmente para cortar a sola do pé. Tratar do ferimento seria tratar também de seu orgulho, comprometido após os eventos daquela noite.
Pelo bom senso, ela deveria ter recolhido os cacos anteriormente. Agora seu pé começava a doer e um filete de sangue se formava no chão. Não se tratava de um corte
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profundo, mas continuava a sangrar, a despeito de seus esforços para estancar o fluxo. "Ótimo", pensou sombriamente, "agora é que não terei meios de fugir. Que ao menos não apareça uma gangrena."
Rindo da própria insensatez, Blair nem notou que Taylor estava de volta.
— O que aconteceu? — ele se afligiu, vendo o pé dela ensanguentado.
— Nada — ela resmungou, desviando o olhar.
— Deixe-me ver seu pé — ele pediu, aproximando-se.
— Não permito que me toque — Blair começou de novo, mas apesar de seus protestos Taylor agarrou-lhe a perna e deixou-a sem equilíbrio.
— Você é mesmo uma boboca — ele acusou, soltando a perna e procurando refúgio debaixo da escotilha.
Ela o observou perplexa, até que ele voltou em sua direção, portando um estojo de primeiros socorros.
— Obrigado — disse Taylor ao vê-la sentar-se e ergueu o pé ferido.
— O que é isso? — Blair preocupou-se com o líquido incolor no qual Taylor molhou um chumaço de algodão. Parecia álcool.
— Pode arder um pouco — ele preveniu —, mas não me consta que você seja covarde. — Terminou de limpar o ferimento e só então respondeu: — E água oxigenada.
— Ah! — Ela mostrou-se aliviada, enquanto os olhos brilhavam em novo surto de hostilidade. — Não foi minha culpa. O caco de vidro estava no chão e eu pisei nele.
— Bem, não estaria se você tivesse varrido o chão da cozinha. — Taylor empunhou um frasco cheio de um líquido vermelho. — Mertiolate — explicou. — Agora sim, vai arder.
Desafiada, Blair não gemeu, mas a ardência foi intensa. Taylor encerrou os cuidados ao enrolar-lhe uma comprida atadura no pé.
— Enquanto não surge o tétano — ele gracejou cruelmente —, por que não faz um café?
Em retribuição ao curativo, ela poderia dizer "sim", mas não conseguiu. Taylor a irritava além da conta, e isso só tinha uma explicação: estava apaixonada por ele! A consciência da verdade relampejou na mente de Blair, incapaz de escondê-la de si mesma, mas tinha de escondê-la de Taylor. Não era tão idiota ou ingênua a ponto de confessar-se enamorada de seu raptor.
— Não vou fazer — retrucou.
Ela notou uma sombra de desapontamento nos olhos de Taylor, que foi para a cozinha. Pouco depois, sentiu o aroma de café fresco, junto com o de toucinho e ovos. Curiosa, aproximou-se do recinto e viu que a cozinha havia sido caprichosamente arrumada e que não restava um só caco de louça no piso. De pé junto ao fogão, Taylor passava o conteúdo da frigideira para um prato-
Blair foi lavar o rosto e escovar os dentes. Quando retornou, deparou com Taylor confortavelmente sentado, fazendo sua refeição. Depois de esvaziar o prato, ele o pôs de lado e acendeu um cigarro, para fumar com a segunda xícara de café.
Tudo bem. Se ele se recusava a cozinhar para ela, Blair daria um jeito e repetiria o cardápio depois que Taylor subisse, preparando algo para si mesma. Decidiu ir ao convés enquanto ele ocupasse a cabine. Depois trocariam de lugar. Simples e sem problemas.
Mas existia um problema, sim. Antes de chegar à escada, Blair fez menção de servir-se de um cigarro dos de Taylor, que reclamou.
— Lamento, sra. Teile. Esses cigarros são meus.
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— Ótimo — ela disse, desistindo de fumar. — Vou viver mais tempo.
Sentada no convés, ela bem que gostaria de um cigarro, embora não fosse uma fumante compulsiva e por isso mesmo não comprasse maços ou pacotes.
— Se é assim, vou parar de fumar — disse em voz alta.
Era incrível como essas trivialidades a aborreciam. Só que agora ela já conhecia o motivo.
Em guerra silenciosa, por três dias Blair não dirigiu a palavra a Taylor. Estabelecera-se uma rotina: quando ele subia, ela descia, e vice-versa; quando ele cozinhava, ela esperava que comesse e depois preparava a própria refeição.
Na quarta manhã, ele lhe ofereceu uma muda de roupas, alegando que os trajes que ela usava logo apodreceriam se ela não os tirasse e lavasse. Blair não respondeu. Lavaria a roupa, sim, desde que ele não estivesse por perto e pedisse para cuidar também de seus andrajos.
Blair fritava alguns ovos quando ouviu vozes. Falando em espanhol, Taylor parecia chamar o piloto de outro barco próximo.
— Necesito un favor, amigo!
O diálogo que se seguiu desenvolveu-se entre risos e elogios. Foi quando Blair percebeu que o barco estava parado. Essa não! O indomável Taylor havia encalhado sua embarcação! Com toda a sua arrogância, o sabichão não conseguira desviar-se de um obstáculo. Depois dos ventos fortes da noite anterior, faltara-lhe a habilidade para atracar em segurança.
Rindo, Blair deu-se conta de que gritar por socorro, ao passarem pelo vilarejo, beirava o ridículo. Não seria ouvida nem salva por pescadores sem autoridade ou iniciativa própria. Mas, agora, o barco ao qual Taylor pedia reboque devia ser chefiado por um comandante, um homem de certo prestígio e alguma vivência, apto a resgatá-la e conduzi-la até um lugar civilizado.
Os marujos já estavam atando cordas, enquanto os passos de Taylor podiam ser ouvidos no convés. Ela rumou para a escada, esquecendo as bandagens no pé ferido e suportando a dor que surgia ao pisar. Colocou a cabeça para fora da vigia e sorriu com satisfação. A embarcação que os socorria era grande, e, na atarefada tripulação, viam-se muitos pescadores gravitando em torno do comandante, este um profissional maduro, com uma protuberante barriga. Taylor achava-se entretido com o leme, ao mesmo tempo em que guiava uma corda para a melhor posição.
Aparecendo no convés, Blair passou como um raio por seu raptor. Na amurada, atraiu a atenção do outro comandante com uma frase chorosa.
— Ayudame! Ay, por favor! Ayudame!
— Que pasa? — A menos de dez metros dela, sobre a água, o homem interessou-se.
Blair abriu a boca para explicar, mas Taylor já se colocara atrás dela, puxando-a com inesperada força.
— Saia! Deixe-me em paz! — ela exclamou em desespero, para depois gritar em espanhol: — Sou refém deste homem! Ele me raptou! Sou norte-americana e preciso ir a uma embaixada, ao consulado...
O agarrão vigoroso no braço causava dor e indicava que Taylor não estava para brincadeiras.
— Mi esposa... — gritou para o colega, simulando tristeza. — Mi esposa está un poço
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loca, mala de la cabeza, sabe... — Depois murmurou para Blair: — Abaixe-se aí e cale-se!
Vergada, lutando contra ele, Blair ainda conseguiu dizer:
— Ele não é meu marido! É um criminoso e está me retendo aqui contra a minha vontade.
Taylor aumentou a pressão no braço dela, denotando ódio no olhar. Não importava, pensou Blair, desde que o estratagema desse resultado. Mas os marinheiros, incluindo o comandante, apenas riram, dizendo a Taylor que ele havia procurado encrenca ao casar-se com uma norte-americana.
— Mas é bonita! — comentou um marujo gorducho. — Conte-me, amigo, ela é um furacão na cama? Daria tudo o que tenho por uma hora...
Divertido em vez de insultado, Taylor enlaçou sua prisioneira pela cintura, cravando os dedos entre as costelas como advertência para que se calasse.
— Si, senores. Minha esposa é um furacão, mas não está disponível, nem mesmo por um minuto.
— Fique de olhos abertos, amigo — interveio o comandante. — Mulher ruiva e norte-americana é sinônimo de muito transtorno.
Esboçando um falso sorriso, Taylor concordou. Blair nunca se sentira tão humilhada, e não obstante agarrava-se ao que poderia ser sua última chance de escapulir. Deu uma cotovelada em Taylor e, contente, ouviu-o gritar de dor.
Mas a satisfação foi efêmera. Já que os marinheiros nativos nem imaginavam que uma esposa pudesse agir assim, consideravam normal o tratamento cruel aplicado por Taylor.
— Pare, Blair. Realmente não quero machucá-la. — O tom dele foi categórico.
— Tudo vai passar — falou o outro comandante, feliz por poder dar conselhos ao homem mais jovem. — Talvez ela esteja nervosa por causa de uma gravidez.
— Não vou ter nenhum filho deste homem. Ele não é meu marido! — ela gritou, na tentativa de convencer os pescadores. — Não entendem?
— Sra. Teile, já avisei que não quero machucá-la.
Subitamente, Blair sentiu a cabeça girando. Um baque seco a conscientizou de que Taylor acabara de esbofeteá-la, com a perícia de sempre. Atordoada, ela se viu apertada nos braços dele, os corpos unidos com uma força ameaçadora. Os dedos fortes puxaram a cabeça dela para trás, pelos cabelos, em um gesto que poderia ser de algoz ou de amante. Blair lutou em vão contra a raiva punitiva daquele homem. Como prisioneira, devia submeter-se a ele.
Aquele foi o alerta definitivo. Taylor faria o que quisesse. A ela cabia apenas obedecer.
Por outro lado, o que acontecera fora um espetáculo para os rudes marujos do barco maior. Tanto que eles aplaudiram Taylor, em total solidariedade masculina.
Blair mal podia respirar. Novamente havia sido traída por Taylor, da pior maneira possível e, ainda assim, não conseguia ter desprezo ou repugnância por ele. O gosto salgado de suas lágrimas lhe chegou aos lábios, enquanto pensava se um dia poderia realmente odiar seu raptor. Ele não tinha sugerido nenhum tipo de rendição, concluiu. Só havia executado um ato teatral, destinado a completar o espetáculo que julgava dever a quem o socorria. Mas ela não podia ignorar a incrível sensação de ter sido agarrada possessivamente, sentindo o atrito de corpo Taylor dele nos seios, na cintura, na virilha, nas pernas...
Quando Taylor a soltou, Blair sofreu uma série de espasmos, em parte por raiva e humilhação, em parte por pura excitação sexual. Mesmo em uma situação inusitada, ele tinha o poder de estimular seus sentidos.
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A tontura então aumentou, e ela desabou contra o querido inimigo. Taylor a sustentou parcialmente nos braços, indicando a vigia.
— Vá para baixo e fique lá — ordenou.
— Meu pé... — ela disse num sussurro.
Ele experimentou culpa e remorso ao ver as bandagens ensanguentadas, como se houvesse provocado a ferida ou, pelo menos, agravado o corte na sola do pé.
— Um momento — pediu ao colega mais maduro, antes de acomodar o corpo de Blair em seu ombro e, com a outra mão, apoiar-se para descer os degraus.
Na cabine, os ovos e a frigideira tinham queimado. O cheiro era intolerável. Imprecando, Taylor desligou o gás e acomodou Blair na cama, com todos os músculos tensionados. Então segurou-lhe o tornozelo para examinar o pé cortado.
— Idiota! — ele xingou, mas em tom resignado. — O que tinha em mente? Você viu e escutou aqueles homens. Achou que eles a resgatariam e levariam até uma cidade? Até poderia acontecer, mas você seria violentada pelo menos umas dez vezes...
— Taylor! — ela gritou, tomada de infelicidade.
— Bem, desculpe-me. Mas não faça mais isso. Fique quieta na cabine, e não pise com esse pé.
Era incrível como, de um instante para outro, Taylor se tornava meigo e gentil. Alterada e nervosa, Blair já não sabia se fugiria de um beijo, um toque no lugar certo, uma cena de amor total.
Sua imaginação voava quando Taylor levantou-se para retornar ao convés. Não era insensível ao apelo subliminar da refém, mas sua prioridade era desencalhar o barco.
O que estava acontecendo com ela?, Blair ponderou, excitada. Taylor não era, pela própria índole, um homem violento, seu poder vinha mais da mente que do corpo. Continuava sendo perigoso, indigno de confiança, mas não escondia a atração e o desejo por ela.
Assim, Blair recordou o olhar leonino de seu raptor, a maestria dos toques manuais, o calor humano... ou selvagem?... na hora de fazer sexo. Céus! Como queria viver novamente aquele delírio de paixão!
Logo a seguir, ela recriminou-se por pensar desse modo, preferindo lembrar a humilhação e a raiva que Taylor lhe impusera.
O barco moveu-se, devidamente rebocado para fora de um banco de areia. Blair ouviu saudações mútuas e percebeu que a embarcação retomava seu curso pelo rio. O tormento iria recomeçar.
Capítulo IX
Blair devia ter dormido por longo tempo, pois quando abriu os olhos notou que o barco balançava, mas não ia para frente. Taylor se encontrava na cabine, lidando com uma nova frigideira à beira do fogão.
Com seu sexto sentido, ele soube que Blair havia acordado.
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— Você quase incendiou o barco, esta manhã — disse.
— E por que me importaria com isso? — Sentando-se na cama, ela escovou mecanicamente os cabelos.
— Porque sim — Taylor irritou-se, mas desistiu de avançar e ameaçar Blair. — Prezo o meu refúgio, sra. Teile. Você também deveria prezar o seu. Cresça um pouco. Não conseguirá fugir de mim, e com suas tentativas pode nos matar.
Ela aceitou o prato que ele lhe entregou, porque estava faminta.
— Fugir de você nada tem a ver com crescimento pessoal. Alguém se esqueceu de lhe dizer que vítimas de rapto nem sempre são amáveis e cooperadoras.
— Você poderia ao menos confiar em mim — ele recitou em tom de lamento.
Era uma proposta tentadora, mas Blair concentrou a atenção na comida. Ele suspirou e foi sentar-se à mesa. Sentindo-se ridícula no canto da cama, ela ergueu-se a fim de tomar o mesmo rumo.
— Não! — Taylor ordenou sem demora. — Não saia da cama, se quiser que seu pé sare.
— Não consigo ficar deitada o dia todo.
— Hoje será uma exceção — ele disse com firmeza. Recolheu os pratos usados e os levou à pia. Voltou até Blair, acomodando-se ao lado dela na cama, e utilizou o estojo de primeiros socorros para refazer o curativo e trocar a atadura manchada de sangue.
— Pode tirar o dia de folga — afirmou Taylor com óbvia ironia.
— Gostaria de subir ao convés — ela insistiu, sentindo a censura nos olhos dele. — Serei cuidadosa ao pisar. — Mudou de estratégia ao perceber-se implorando. — Não, farei o jantar hoje, pois assim não precisarei me mover.
— Então você tem um compromisso, sra. Teile.
Tinha mesmo, mas não havia contado com a proximidade de Taylor, determinado a ampará-la.
— Fique aí deitada — ele instruiu. — Quanto ao jantar, veremos depois. Amanhã, com o início da cicatrização, poderá andar um pouco.
Uma estranha paz desceu sobre o rio naquela noite. O barco avançava por águas tranquilas, sob uma brisa suave que espalhava o farfalhar da vegetação e os odores da floresta. Se estivessem vestidos a rigor, Blair pensou, poderiam representar o casal mais perfeito das Américas.
Mas a cena real era uma anedota: ela, cheia de desejo contido, misturado à raiva; ele, tão seguro de sua masculinidade que se permitia ser sensível.
Mais tarde, à mesa, Taylor e Blair brindaram com um copo de vinho ácido. Ele próprio tinha preparado o jantar, impedindo-a de colaborar. Por quê? Blair tivera seu coração invadido por um homem incrível, que não era nem um criminoso brilhante nem um fanático político.
— Você me surpreende com sua habilidade culinária — ela murmurou causticamente. — E não segue receitas ou instruções.
— Mas sigo ordens, sra. Teile — ele retrucou com frieza.
— Ordens de quem?
— Nós o chamamos simplesmente de chefe.
— É engraçado. Não está desperdiçando seu tempo?
— Explique-se melhor.
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— Não. — Ela engoliu o vinho, contrafeita. Por que cometera aquele deslize? Porque se sentia ansiosa, depois de horas de solidão na cabine, sonhando com a presença de Taylor.
Ele era um homem e tanto. Pena que não fosse honesto.
— Gostaria de ouvir uma explicação sobre suas desconfianças — ele a despertou do devaneio.
Explicação? Se ela tentasse, ele compreenderia? Blair reabasteceu seu copo de vinho. Ácida ou não, a bebida causava um efeito maravilhoso. Não sentia o pé latejar nem a tensão que se irradiava de Taylor. Podia simular a coragem que não tinha.
— Você concorda com tudo o que seu chefe diz. Detesto ser testemunha de tanto desperdício. Vejo em você um enorme potencial, mas ele está sendo empregado na direção errada. — Ela fez uma pausa, destinada a medir a reação do interlocutor. — Enfim, você não passa de um lacaio. E se não está atrás de dinheiro por meu resgate, então é um terrorista, sem noção do que faz. Diz que sente muito, que não quer me machucar, mas cumpre as ordens recebidas sem contestar, sempre dizendo "sim". Será que não consegue pensar por si próprio?
Ela havia falado o que guardava fazia tempo, sem adicionar combustível na fogueira. No entanto, os músculos faciais de Taylor estavam visivelmente tensos.
— Cuidado, sra. Teile — ele advertiu. — Posso ser um lacaio dos poderosos, mas ganhei total liberdade para lidar com você, sem prestar contas. Conheço diversas maneiras de calar sua boca, mas vou me esforçar para ser decente. Apenas não me provoque demais, princesa.
Um sorriso desafiador pairou nos lábios de Blair. Ela não acreditava que Taylor ousasse feri-la fisicamente. Mas, sensatamente, desistiu de falar ante a ameaça expressa nos olhos dele. Engoliu em seco e declarou apenas:
— Odeio ver tudo isso, Taylor.
— Odeia ver o quê? — ele espicaçou. — Você não faz ideia da missão na qual estou envolvido. Então, como pode me julgar? Sigo ordens, sim, porque acredito no que faço. Acredito nos que me passam as ordens. Se você me concedesse um mínimo de confiança, nada disto seria necessário.
— Não posso fingir que estou passeando de barco.
— Mas está, de um modo ou de outro.
— E devo dizer que está tudo bem... — ela completou com sarcasmo. — Por que eu confiaria em você, Taylor?
Ele nada falou, mas os olhos faiscaram.
Embora sorrisse, a fim de impor uma certa distância entre eles, Blair estava próxima das lágrimas. Somente os dois estavam ali, sob o céu e sobre a água. Tanto para pedir quanto para dar...
— Você deve ser maluco — ela investiu. — Totalmente maluco. Está trabalhando para algum lunático e me mantendo prisioneira aqui, em um rio escondido na mata, e me pede para confiar em você! Onde estamos, Taylor? Por que não começa a explicação por aí?
— Não importa onde, mas como. Você ficará segura comigo.
Blair soltou uma risada amarga e emendou sem pensar:
— Uma serpente venenosa não estaria segura com você.
— Por quê? — ele contra-atacou sem demora, dando a parecer que sua tensão crescia em vez de se amainar.
Como se houvesse tomado uma tangente, Blair apertara o botão certo para extrair algo de Taylor. Não havia maneira de se esconder dele, nem de pensar que ela possuía algum
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poder, algum controle. Ele se mostrava decidido, a seu modo, a perseguir e desenterrar tudo o que bloqueava o verdadeiro encontro entre os dois. Blair podia ler isso em seus penetrantes e incríveis olhos.
— Por que não confia em mim? — ele trovejou, dessa vez sacudindo-a pelos ombros. — Eu a machuquei? Amarrei você neste barco, violentei-a na cama? Responda honestamente. Tirei algo que não quisesse me dar?
Um turbilhão tomara conta da cabeça de Blair. O vinho que lhe dera coragem já toldava sua mente. Taylor esperava por respostas e perguntaria com insistência até que ela falasse alguma coisa.
— Sim, você me feriu profundamente. Está me aprisionando aqui contra a minha vontade. Raptou-me não sei por quê. Mas isso não é o pior.
— Bem, agora estamos chegando ao ponto, sra. Teile. Mal posso esperar para ouvir o resto.
— Não existe resto! — ela exclamou, tarde demais.
— Claro que existe, e não vá me dizer que o gato comeu sua língua. Deixe que eu complete seu pensamento. Você está me odiando porque confiou em mim e entregou-se de corpo e alma. E agora imagina que eu traí sua confiança, mas está equivocada. E ponha uma coisa na cabeça: você é que me procurou na minha barraca. Temos de ser honestos quanto a isso. Eu meramente cedi...
— Se quer saber, Taylor, você é asqueroso! — ela atalhou com raiva.
Nunca na vida Blair tivera tanta vontade de agredir alguém, de causar uma dor tão forte quanto a que a consumia, e tanto mais intensa quanto mais provocada pela verdade. Mas não possuía músculos para isso nem tinha a menor chance de mover-se.
— Não sou — Taylor rebateu, no mesmo tom de voz anterior. — Não, nem mesmo remotamente. Mas, se você chama de asqueroso o fato de eu ter aceitado e usufruído o que me ofereceu, então me confesso culpado. Desejei-a desde o momento em que a vi. Descobri que é passional, encantadora e sensual, mais do que qualquer mulher que conheci. Por isso, não tenho do que me desculpar. Somos dois seres humanos que necessitam um do outro. Você me confiou segredos de seu passado, e eu jamais trairei essa confiança.
A pressão dos dedos dele diminuiu, mas antes que Blair pudesse assimilar sua momentânea liberdade, a mão de Taylor já lhe afagava a cabeça, apertando-a como se quisesse introduzir ali cada palavra que dissera. Esse toque, espontâneo e rude, não era doloroso. Ao contrário, era tão insinuante que ela recolheu os cabelos, arqueou o pescoço e expôs a nuca, enquanto seus lábios se abriam à sedução.
Mais uma vez, Taylor não teve de forçar nada. Blair não pensava em resistir. Depois iria racionalizar a situação, talvez a atribuindo ao excesso de vinho. No entanto, todas as mentiras do mundo não faziam sombra a uma só verdade: ela queria ser beijada, tocada, possuída. Não existia outra vontade. Ou seria essa mais uma mentira?
Contraditória, imobilizada, Blair compreendeu que simplesmente se entregava a uma força maior quando Taylor lhe colheu os lábios com sede selvagem. Não deixava de ser um choque ceder assim à urgência dele. Nervosamente, os braços de Taylor lhe rodearam o pescoço e as mãos trabalharam sobre os seios e as coxas, fome criando fome, fogo consumindo fogo. O contato febril parecia fundir os dois em uma única massa de luxuriante desejo.
Do mesmo modo, ninguém forçou Blair a correr os dedos pelos cabelos de Taylor, a encontrar um profundo prazer ao acariciá-lo nos ombros e no peito, e depois descer a mão até a virilha, onde despontava o membro rígido, pronto para uma maravilhosa noite de amor.
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Era gloriosa aquela tensão mútua, que dispensava perguntas e respostas para se apoiar apenas nos instintos. Era correto, pensou Blair, ser apertada por músculos de aço, sentindo-se em perfeita segurança, à vontade para retribuir as carícias recebidas.
Havia acontecido. Ela não podia culpar Taylor ou a si própria. "Somos dois seres humanos que necessitam um do outro", ele dissera, e, na realidade, era mais do que isso. Raramente um homem e uma mulher alcançavam tamanho grau de entendimento, tantos laços invisíveis de ternura, tanta liberdade de existirem.
Havia acontecido. O Sol não iria parar de levantar-se, nem a Terra de girar. Um ditame do destino levava Blair a encaixar sua boca na de Taylor, em um longo e irrestrito beijo que abriu caminho para ele massagear-lhe os seios, sobre a blusa que logo arrancou. Ela segurou os dedos dele ali, fruindo as sensações crescentes de uma inexcedível volúpia.
Taylor sabia que devia parar. Amava Blair, mas ela o odiaria ainda mais quando descobrisse que ele vinha sendo um lacaio para seu próprio pai e que o chefe da missão era George Merrill, o G. M. dos memorandos, velho amigo de Andrew Huntington. Havia um código de ética a respeitar. Havia razões poderosas para que ambos se afastassem. Contudo, ela entenderia, ou lhe perdoaria, se ele parasse naquele momento?
Mera ilusão. Taylor já não podia interromper o processo de entrega e posse, quando as mãos não se aquietavam, quando o contato das línguas provocava arrepios, quando a química do amor irrompia entre eles.
Sim, Taylor devia dar a Blair a chance de parar e partir. Mas esse conceito apenas o alertou para um fato decisivo: já não suportaria viver longe dela nem por um instante.
Ele a tomou nos braços e agiu com extrema suavidade, a fim de não quebrar o encanto. Criou uma prisão especial ao deitar-se sobre ela, ao remover-lhe a calça de brim, a boca seguindo os dedos sobre a pele exposta. Blair gemeu de expectativa, antes mesmo que ele a sugasse. Depois, o silêncio prevaleceu e o único ruído na cabine foi o do atrito dos corpos, o mais sensual e inebriante dos sons.
A respiração de ambos tornou-se arfante, como o vento que acompanha a tempestade. Então, um doce gemido, que resumiu todos os outros, escapou dos lábios de Blair. Os lábios e dentes de Taylor marcavam a pele macia da parte interna das coxas.
Depois...
Depois, os olhos de esmeralda se fecharam sob a sensação indescritível dos beijos molhados dele em sua secreta intimidade. Não havia experiência no mundo comparável ao delicado atrito que se seguiu.
Ela beijou Taylor.
— É bom, querida... Toque-me mais...
A calça dele já havia ficado pelo caminho. Blair ajudou-o a retirar a sunga e, no mesmo movimento, envolveu nas mãos o membro masculino como se o acolhesse em sua suave feminilidade. Os olhos dourados de Taylor a fitaram em um pedido silencioso, segundos antes de Blair levar a boca ao ponto sensível do corpo dele.
Cada vez mais atrevida, ela permitiu que um turbilhão de prazeres saciasse os dois parcialmente. Precisou interromper as carícias para não perder a dose de êxtase que lhe cabia. Quando o fez, tomou consciência de seu fôlego alterado, dos pelos claros do peito no qual repousara o rosto, da textura especial da pele de Taylor, do possessivo afago que as mãos dele, em torno de seus ombros, podia proporcionar.
— Oh! — De repente, ela recuou, tremendo horrorizada, e fechou os olhos.
Quando os abriu, encontrou o olhar de Taylor fixado nela. Desviou a vista e saiu da cama, passando a procurar obsessivamente sua roupa.
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— Querida... — ele começou.
— Cale-se! — devolveu ela.
— Eu não forcei nada e...
— Cale-se, pelo amor de Deus! — Ela voltou a vestir seu traje de camponesa, lutando contra a pressa e sem encarar Taylor.
Como podia ter perdido a noção das coisas, o senso do racional? Sentiu-se invadida de vergonha e culpa. Era uma refém e, mesmo assim, havia caído nos braços do sequestrador, trocando carícias íntimas com ele. "Seja séria, Blair", ela se recriminou mentalmente.
Enquanto Taylor não resolvia se vestir, talvez aguardando uma mudança de rumos, ele a observava o tempo todo, como sempre encantado com suas formas.
— Não vamos falar sobre o que aconteceu — ela propôs. — Quero dizer, nada aconteceu.
Despreparada para o passo seguinte, Blair sentiu-se agarrada pelos ombros e vergada até encostar no corpo de Taylor. O toque dele era rude e vigoroso.
— Sim, aconteceu, Blair.
— Não! — ela protestou em vão, virando-se de frente. — E não me toque mais!
Taylor pensou em falar algo que aplacasse a agitação dela, a culpa auto-induzida. Todavia, a raiva sublevou seu próprio sangue, e nada lhe ocorreu. Se ela se afastasse tão facilmente, jamais confiaria nele de novo. E se ele quebrasse seu código de ética, romperia algo importante dentro de si mesmo, ou tudo o que era como pessoa. Naquele caso, nada mais teria a oferecer a Blair.
Taylor não a deixou sair, e mudou a natureza de seu toque. Tinha sido severo, agora se tornava confortador. Enlaçou-a com imensa ternura, como se a mulher que havia abraçado com vigor houvesse se transformado numa frágil figura de porcelana. "Maldito Huntington!", chegou a refletir, deixando escapar um suspiro inaudível.
— Sinto muito — desculpou-se enfaticamente, sentindo o ritmo acelerado de seus batimentos cardíacos. — Queria que você confiasse em mim.