Testemunha da Acusação

Agatha Christie · Capítulo 5 de 7

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Testemunha da Acusação

Ato um

 

CENÁRIO: Escritório de SIR WILFRID ROBARTS, Q.C. À tarde.

A cena se passa na sala particular do escritório de SIR WILFRID. Trata-

se de uma peça estreita, com aporta à E e uma janela à D. A janela é construída em uma profunda reentrância, o que permite que a parede abaixo dela forme um grande banco, e se abre para uma parede lisa de tijolos vermelhos. Há uma lareira ao C da parede do fundo, ladeada por estantes repletas de pesados tomos legais, uma escrivaninha, à DC, com uma cadeira giratória à sua D, e uma cadeira de espaldar alto e reto, de couro, à sua E. Uma segunda cadeira, igual, fica encostada à estante à E da lareira. No canto à DA há uma espécie de pequena escrivaninha muito alta, própria para leituras de pé, e no canto, à EA, alguns cabides presos à parede. A noite, a sala é iluminada por luz elétrica, com lâmpadas em forma de vela em arandelas à D e E da lareira, e uma lâmpada sobre a escrivaninha, que só ilumina a área onde se escreve. O comutador fica abaixo da porta à E. Há um cordão para tocar a campainha à E da lareira, e um telefone sobre a escrivaninha, apinhada de documentos legais. Há as costumeiras caixas de documentos de clientes e uma imensa pilha de documentos no banco formado pela janela.

Quando o pano sobe, o sol brilha pela janela à D. A sala está vazia.

GRETA, a datilógrafa de SIR WILFRID, entra imediatamente. É uma moça um tanto fanhosa, muito convencida dos próprios encantos. Cruza até a lareira, dançando um passo de quadrilha no caminho, e tira um papel de uma caixa de documentos sobre a lareira. Entra CARTER, o chefe de escritório, trazendo algumas cartas. GRETA vira-se, vê CARTER, cruza e sai silenciosamente. CARTER cruza até a escrivaninha e pousa as cartas sobre a mesma. O telefone toca, CARTER atende.

CARTER: (Ao telefone.) Escritório de Sir Wilfrid Robarts... Ah, é você, Charles... Não, Sir Wilfrid está no tribunal... Não volta já, não...

Sim, o caso Shuttleworth... O quê — com Myers na promotoria e Banter julgando? ... Já faz quase duas horas que ele está formulando sua sentença... Não, esta tarde de jeito nenhum. As horas estão completamente preenchidas... Eu poderia marcar-lhe uma entrevista amanhã... Não, impossível. Estou esperando Mayhew, de Mayhew e Brinskill, a qualquer momento... Está bem, até logo. (Desliga e arruma os documentos na escrivaninha.)

GRETA: (Entra pintando as unhas.) Quer que eu faça chá, Sr. Carter?

CARTER: (Olhando o relógio.) Ainda não está na hora, Greta.

GRETA: No meu, está.

CARTER: Então seu relógio está errado.

GRETA: Eu acertei pelo rádio.

CARTER: Então o rádio está errado.

GRETA: O rádio não, Sr. Carter. Ele não pode estar errado.

CARTER: Este relógio era do meu pai. Nunca atrasa nem adianta. Não se fazem mais relógios assim, hoje em dia. (Pausa. Pega uma folha datilografada.) Mas, a sua datilografia! Sempre cheia de erros. Omitiu uma palavra.

GRETA: Ora — só uma palavra. Qualquer um faz isso.

CARTER: A palavra que você omitiu foi não. Sua omissão altera completamente a frase.

GRETA: É mesmo? Pensando bem, não é engraçado?

CARTER: Não é nada engraçado. (Rasga a carta.) Torne a batê-la. É possível que se lembre do caso que lhe contei na semana passada. O célebre caso Bryant e Horsfall. Sobre um testamento e um usufruto que, exclusivamente por causa do erro de um escriturário...

GRETA: Já sei. A mulher errada recebeu tudo.

CARTER: Uma mulher de quem ele se divorciara havia quinze anos. Completamente ao contrário dos desejos do falecido, como admitiu o próprio Meritíssimo. Mas foi necessário respeitar a redação. Não havia o que fazer.

GRETA: Eu acho que isso também é muito engraçado.

CARTER: O escritório de um advogado não é um lugar engraçado. A Lei, Greta, é um assunto sério e como tal deve ser tratada.

GRETA: Não é o que parece — quando a gente ouve algumas piadas dos Juízes.

CARTER: Tais pilhérias são prerrogativas do Judiciário.

GRETA: E volta e meia eu leio nos anais que houve “riso no Tribunal”.

CARTER: Quando ele não é causado por algum comentário do Juiz, verificará que invariavelmente ele ameaça mandar evacuar a sala.

GRETA: (Em tom baixo.) Velhinho chato. Sabe o que eu li outro dia, Sr. Carter? “A Lei É Uma Besta.” Não estou sendo grosseira, não. Estou só citando.

CARTER: Uma citação de natureza lamentável. Não é para ser levada a sério. (Olha o relógio.) Pode ir preparar o chá, Greta... (Espera o segundo preciso.) ...agora.

GRETA: Ah, obrigada, Sr. Carter.

CARTER: O Sr. Mayhew, de Mayhew e Brinskill, está para chegar. Esperamos, também, um Sr. Leonard Vole. Podem vir juntos ou separados.

GRETA: Leonard Vole? Mas esse é o nome — estava no jornal...

CARTER: O chá, Greta.

GRETA: Um pedido para ele se comunicar com a polícia porque podia ter informações valiosas.

CARTER: O chá!

GRETA: Foi só ante... (CARTER fulmina GRETA com o olhar.) O chá, Sr. Carter. (Sai.)

CARTER: (Arrumando e resmungando.) Essas mocinhas. Sensacionalistas — ineficientes — não sei onde acabará o Direito.

GRETA: (Entra e anuncia.) O Sr. Mayhew.

(O SR. MAYHEW e LEONARD VOLE entram. MAYHEW é um típico advogado de meia-idade, perspicaz e um tanto seco e preciso em seu modo de ser. LEONARD é um rapaz simpático e amável, com cerca de 27 anos. Parece ligeiramente preocupado. MAYHEW carrega uma pasta.)

MAYHEW: Sente-se, Sr. Vole. Boa-tarde, Carter.

(GRETA pega os chapéus de ambos e pendura-os nos cabides acima da porta; depois sai, olhando para LEONARD por sobre o ombro.)

CARTER: Boa-tarde, Sr. Mayhew. Sir Wilfrid não deve demorar, embora nunca se possa saber, com o Juiz Banter. Irei imediatamente ao Vestiário para avisar que o senhor está aqui... com...

MAYHEW: Com o Sr. Leonard Vole. Obrigado, Carter. Temo que tenhamos marcado este encontro muito em cima da hora. Porém, neste caso, é... um tanto urgente. Como vai o lumbago?

CARTER: Só o sinto quando o vento vem do Leste. Obrigado por lembrar-se, Sr. Mayhew. (Sai.)

(MAYHEW senta-se. LEONARD caminha como uma fera enjaulada.)

MAYHEW: Sente-se, Sr. Vole.

LEONARD: Obrigado — eu prefiro andar. Eu — este tipo de coisa me deixa um tanto nervoso.

MAYHEW: Sim, sim; compreendo...

GRETA: (Entra e fala com MAYHEW, embora olhando fascinada para LEONARD.) Aceita uma xícara de chá, Sr. Mayhew? Acabei de fazer.

LEONARD: Obrigado, até que era...

MAYHEW: Não, obrigado.

LEONARD: (Para GRETA.) Desculpe. (Sorri para ela, que corresponde ao sorriso, e sai.) O que eu quero dizer é que não consigo acreditar que é comigo que isso está acontecendo. Fico pensando — que tudo é um sonho e que vou acordar daqui a pouco.

MAYHEW: Sim, imagino que deve sentir-se assim.

LEONARD: Eu quero dizer — parece uma coisa tão tola.

MAYHEW: Tola, Sr. Vole?

LEONARD: É isso mesmo. Quero dizer, eu sempre fui um sujeito tranquilo e amável — que se dá bem com as pessoas, sabe como é. Não sou do tipo de sujeito que faz — sei lá, coisas violentas. (Pausa.) Bem, acho que no fim tudo vai dar certo, não é? Quero dizer, ninguém é condenado neste país por coisas que não fez, não é?

MAYHEW: O nosso sistema judiciário, na Inglaterra, é, na minha opinião, o melhor do mundo.

LEONARD: E claro que houve o caso daquele — como é o nome dele? — Adolf Beck. Eu li a respeito ainda outro dia. Depois de ficar na cadeia não sei quantos anos, descobriram que tinha sido um outro sujeito, chamado Smith. E aí lhe deram um indulto: isso é o que me pareceu muito esquisito — alguém ser perdoado por alguma coisa que não fez.

MAYHEW: É apenas o termo legal necessário.

LEONARD: (Sentando-se.) Pois para mim continua sem muito sentido.

MAYHEW: O importante é que Beck foi libertado.

LEONARD: É. Com ele foi tudo bem. Mas se fosse caso de assassinato — se tivesse sido, então seria tarde demais. Ele teria sido enforcado.

MAYHEW: Vamos, Sr. Vole, não há necessidade de tomar uma atitude — mórbida.

LEONARD: (Patético.) Desculpe. Mas, sabe, eu estou meio aflito.

MAYHEW: Bem, pois tente ficar calmo. Sir Wilfrid Robarts chegará logo e quero que lhe conte sua história exatamente como a contou a mim.

LEONARD: Sim, senhor.

MAYHEW: Mas, nesse meio tempo, talvez pudesse dar-me um pouco mais de informações sobre os — detalhes — antecedentes. Pelo que compreendi, no momento o senhor está desempregado?

LEONARD: Estou, mas tenho algum dinheiro guardado. Não é muito, mas se o senhor pudesse admitir...

MAYHEW: Ora, eu não estou pensando em — hum — honorários. É apenas o quadro geral que estou tentando ver com clareza. O seu mundo e — hum — suas condições. Há quanto tempo está desempregado?

LEONARD: (Prontamente, com encantadora amabilidade.) Há cerca de dois meses.

MAYHEW: E o que fazia antes disso?

LEONARD: Trabalhava numa firma de manutenção de motores — eu era uma espécie de mecânico.

MAYHEW: E quanto tempo trabalhou lá?

LEONARD: Uns três meses.

MAYHEW: Foi despedido?

LEONARD: Não. Eu me despedi. Discuti com o chefe da oficina. Um f... (Interrompe-se.) Quero dizer, ele era um sujeito muito mesquinho, sempre implicando e reclamando.

MAYHEW: Hum! E antes disso?

LEONARD: Trabalhei em um posto de gasolina, mas as coisas ficaram meio desagradáveis e eu fui embora.

MAYHEW: Desagradáveis? De que modo?

LEONARD: Bem — a filha do patrão — ela era uma menina, mas começou a — bem, a ir com a minha cara — e não aconteceu nada de mau entre nós, mas o velho ficou um pouco amolado e disse que era melhor eu ir embora. Ele foi muito gentil, e me deu uma boa carta de recomendação. E antes disso, eu vendia batedeiras, ganhando comissão.

MAYHEW: Não diga.

LEONARD: (Com ar de menino.) Que aliás eram uma droga de ruins. Até eu teria inventado uma batedeira melhor. O senhor está pensando que eu não esquento lugar. De certo modo é verdade — mas eu não sou realmente assim. O serviço militar alterou minha vida um pouco — isso e o fato de ter ido para o estrangeiro. Eu estive na Alemanha. Lá era ótimo. Foi lá que conheci minha mulher. Ela é atriz. Desde que voltei para a Inglaterra, por uma razão ou outra parece que não consigo assentar a vida em lugar nenhum. Na verdade eu não sei o que quero fazer — eu gosto de trabalhar com carros e de inventar uma porção de maquininhas e aparelhinhos novos para eles. É muito interessante. E, sabe...

(Entra SIR WILFRID ROBARTS, Q.C., seguido por CARTER. SIR WILFRID está usando seu paletó e peitilho de Q.C. E carrega sua peruca e toga. CARTER carrega o paletó e a gravata-borboleta de SIR WILFRID.)

SIR WILFRID: Olá, John.

MAYHEW: Ah, Wilfrid.

SIR WILFRID: (Entregando a peruca e a toga a CARTER.) Carter lhe disse que eu estava no tribunal? Banter realmente estava a todo vapor. E este é o Sr. — eh —Vole?

MAYHEW: Este é o Sr. Leonard Vole.

LEONARD: Como está o senhor?

SIR WILFRID: Como está, Vole? Não quer sentar-se? Como vai a família, John? (CARTER ajuda-o a tirar o peitilho e a mudar o paletó.)

MAYHEW: Molly pegou, de leve, essa gripe de 24 horas.

SIR WILFRID: Que pena!

MAYHEW: É. Um azar. Você ganhou o caso, Wilfrid?

SIR WILFRID: Alegro-me em poder dizer que sim.

MAYHEW: Você sempre fica satisfeito de ganhar do Myers, não é?

SIR WILFRID: Eu fico satisfeito de ganhar de qualquer um.

MAYHEW: Mas com Myers é especial.

SIR WILFRID: Sim, Myers é especial. Ele é um — cavalheiro — irritante. (Pondo a gravata.) Tem a capacidade de despertar o que há de pior em mim.

MAYHEW: Parece que o sentimento é mútuo. Você o irrita porque parece que jamais consegue deixá-lo terminar uma única frase.

(CARTER sai, levando peruca, toga, paletó e peitilho.)

SIR WILFRID: Ele me irrita por causa daquele cacoete dele. É assim — (Ele Pigarreia e ajeita uma peruca imaginária.) e é isso que me leva à loucura, além de sua insistência de me chamar de Ro-barts — Ro-barts. Mas é um advogado muito hábil, e só precisava se lembrar de não fazer perguntas que orientem a testemunha, quando sabe perfeitamente que não deveria fazê-las. Mas, vamos ao trabalho.

MAYHEW: Certo. Eu trouxe Vole aqui porque estou muito ansioso para que você ouça a história dele exatamente como ele a contou a mim. Parece haver alguma urgência no caso. (Entrega papéis a SIR WILFRID.)

SIR WILFRID: Ah, é?

LEONARD: Minha mulher acha que eu vou ser preso. (Embaraçado.) Ela é muito mais inteligente do que eu — pode ser que tenha razão.

SIR WILFRID: Preso por quê?

LEONARD: (Ainda mais embaraçado.) Bem — por assassinato.

MAYHEW: É o caso da Srta. Emily French. É possível que tenha visto as reportagens nos jornais. (SIR WILFRID acena com a cabeça.) Era uma senhora solteirona, que vivia isolada, tendo por companhia uma governanta idosa, em uma casa em Hampstead. Na noite de 14 de outubro a governanta voltou às onze horas e constatou que a casa parecia ter sido arrombada e que sua patroa havia recebido um golpe na nuca e estava morta. (Para LEONARD.) Não é isso?

LEONARD: Isso mesmo. É uma coisa que acontece a toda hora, hoje em dia. E então, no outro dia, os jornais disseram que a polícia estava à procura de um Sr. Leonard Vole, que havia visitado a Srta. French na noite em questão, e que, segundo eles, poderia fornecer informações valiosas. Então, naturalmente, eu fui até a Delegacia e eles me fizeram uma porção de perguntas.

SIR WILFRID: Eles o avisaram devidamente?

LEONARD: Eu não sei bem. Quero dizer, eles perguntaram se eu gostaria de fazer uma declaração, que eles anotariam e depois ela poderia ser usada no tribunal. Isso é um aviso?

SIR WILFRID: (Mais para MAYHEW.) Bem, agora não tem mais remédio. (Cruza para a E da escrivaninha.)

LEONARD: Bem, de qualquer modo aquilo tudo me parecia uma grande asneira. Eu disse o que podia e eles foram muito gentis, e pareciam satisfeitos, e tudo o mais. Quando eu cheguei em casa e contei a Romaine o caso — quero dizer, à minha mulher —, ela ficou danada. Parece que ela achava que eles — bem —, que eles tinham-se agarrado à ideia de que eu podia ter feito aquilo. Então eu achei que talvez fosse bom arranjar um advogado — (para MAYHEW) e procurei o senhor. Pensei que pudesse me dizer o que eu devia fazer.

SIR WILFRID: Conhecia bem a Srta. French?

LEONARD: Claro. Ela tinha sido muito boa para mim. Para falar a verdade, às vezes era meio maçante — de tanto que se preocupava comigo, mas eu sei que tinha boas intenções e quando vi no jornal que ela tinha sido morta, sabe, fiquei muito perturbado, porque na verdade eu gostava muito dela.

MAYHEW: Conte a Sir Wilfrid, exatamente como me contou, o modo pelo qual travou conhecimento com a Srta. French.

LEONARD: (Obedientemente.) Bem, foi um dia em Oxford Street. Eu vi uma velhinha atravessando a rua carregando uma porção de embrulhos e no meio da rua deixou cair tudo, tentou pegar de novo e, quando levantou, viu que um ônibus estava quase em cima dela. Mal conseguiu chegar na calçada a tempo. Bem, eu apanhei os embrulhos na rua, limpei a lama o melhor que pude, tornei a amarrar um deles, que tinha arrebentado, e tentei acalmar a pobrezinha. Sabe como é, não sabe?

SIR WILFRID: E ela ficou grata?

LEONARD: Ah, sim, parecia muito grata. Agradeceu muito e tudo o mais. Dava até para pensar que eu tinha salvo a vida dela, em vez de pegar os embrulhos.

SIR WILFRID: Mas não houve, na realidade, algo assim como lhe ter salvo a vida?

LEONARD: Não. Nada de heróico. Eu pensava nunca mais tornar a vê-la.

SIR WILFRID: Cigarro?

LEONARD: Não, obrigado; eu não fumo. Mas, por uma coincidência extraordinária, dois dias mais tarde eu me vi sentado atrás dela no teatro. Ela se virou, me reconheceu, nós começamos a conversar e ela acabou me convidando para ir visitá-la.

SIR WILFRID: E o senhor foi?

LEONARD: Fui. Ela insistiu para eu marcar um dia e achei que seria grosseiro recusar. Então eu disse que iria no sábado seguinte.

SIR WILFRID: E foi visitá-la em sua casa em... (Olha os papéis.)

MAYHEW: Hampstead.

LEONARD: Isso.

SIR WILFRID: Sabia algo a respeito dela quando a visitou pela primeira vez?

LEONARD: Bem, para falar a verdade, nada, a não ser o que ela tinha me contado — que vivia sozinha e que não tinha muitos amigos. Uma coisa assim.

SIR WILFRID: Ela vivia só com uma governanta?

LEONARD: Isso mesmo. Mas tinha oito gatos. Oito! A casa era muito bem mobiliada e tudo isso, mas cheirava um pouco a gato.

SIR WILFRID: O senhor tinha algum motivo para julgar que ela fosse rica?

LEONARD: Bem, ela falava como se fosse.

SIR WILFRID: E quanto a você?

LEONARD: (Alegre.) Ora, eu estou praticamente quebrado, já faz muito tempo.

SIR WILFRID: Lamentável.

LEONARD: É. Eu sei. Ah, o senhor quer dizer que as pessoas vão pensar que eu estava agradando a velhinha por causa do dinheiro?

SIR WILFRID: (Sem graça.) Bem, eu não usaria exatamente esses termos, mas, em resumo, sim, é possível que dissessem isso.

LEONARD: Mas não é verdade, sabe? Eu sentia pena dela. Achava que ela se sentia sozinha. Eu fui criado por uma tia velha, a tia Betsy, e gosto de velhas.

SIR WILFRID: Você está falando de velhas. Sabe quantos anos tinha a Srta. French?

LEONARD: Bem, eu não sabia, mas li no jornal depois que ela foi assassinada. Tinha cinquenta e seis anos.

SIR WILFRID: Cinquenta e seis. O senhor considera isso velhice, Sr. Vole. Mas duvido muito que a Srta. French se considerasse velha.

LEONARD: Mas não dá para chamar de gatinha, dá?

SIR WILFRID: Bem, vamos continuar. Visitava a Srta. French frequentemente?

LEONARD: Bem, uma ou duas vezes por semana.

SIR WILFRID: Alguma vez levou sua esposa consigo?

LEONARD: Não, não; nunca.

SIR WILFRID: Por que não?

LEONARD: Bem — bem, francamente, acho que não teria funcionado muito bem...

SIR WILFRID: Com sua esposa ou com a Srta. French?

LEONARD: Ora, com a Srta. French.

MAYHEW: Continue, continue.

LEONARD: Sabem, ela ficou gostando um bocado de mim.

SIR WILFRID: Está querendo dizer que ela se apaixonou pelo senhor?

LEONARD: Meu Deus, nem pensar nisso. Ela só gostava de me agradar e de me paparicar; sabe como é.

SIR WILFRID: (Pausa.) É preciso que compreenda, Sr. Vole, que não há dúvida de que parte do caso que a polícia tem contra o senhor, se é que há um caso contra o senhor, o que ainda não temos razões suficientemente boas para supor, serão as razões pelas quais o senhor, jovem, de bom aspecto, casado, haveria de passar tanto tempo com uma mulher de meia-idade com quem o senhor dificilmente teria muita coisa em comum.

LEONARD: É, eu sei que vão dizer que eu andava atrás dela por causa do dinheiro. E, de certa forma, talvez seja verdade. Mas só de certa forma.

SIR WILFRID: Bem, pelo menos o senhor é franco, Sr. Vole. Será que poderia explicar um pouco melhor?

LEONARD: Bem, ela não fazia segredo do fato de que nadava em dinheiro. Como eu já lhe disse, Romaine e eu — é minha mulher — andamos um bocado apertados. Confesso que eu esperava que, se eu ficasse apertado, mesmo, ela poderia me emprestar algum dinheiro. Estou sendo honesto com o senhor.

SIR WILFRID: O senhor lhe pediu um empréstimo?

LEONARD: Não, não pedi. Quero dizer, nós não estávamos desesperados. (Repentinamente mais sério.) É claro que percebo — que as coisas não parecem muito boas para mim.

SIR WILFRID: A Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Ah, sabia.

SIR WILFRID: Mas não sugeriu que levasse sua esposa para visitá-la?

LEONARD: Não. Ela — bem, ela parecia ter certeza de que minha mulher e eu não nos dávamos bem.

SIR WILFRID: E o senhor lhe deu essa impressão de propósito?

LEONARD: Não. É claro que não. Mas ela parece que — bem, estar convencida, e então eu pensei que, se eu ficasse insistindo em falar de Romaine durante nossa conversa, ela podia, bem, perder seu interesse por mim. Eu não queria exatamente arrancar dinheiro dela, mas eu havia inventado um acessório para carro — uma ideia realmente boa — se eu tivesse podido persuadi-la a financiar o projeto, bem, ia ser dinheiro dela, e poderia ter trazido bons lucros para ela. Ora, é muito difícil de explicar — mas eu não estava sugando a velha. Não estava, mesmo, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Quanto dinheiro o senhor obteve, nesse tempo todo, da Srta. French?

LEONARD: Nenhum. Absolutamente nenhum.

SIR WILFRID: Fale-me a respeito da governanta.

LEONARD: Janet Mackenzie? É uma tirana, das boas, a Janet. Mandava e desmandava na pobre da Srta. French. Tomava conta dela muito bem, e tudo o mais, mas a pobre-coitada não podia nem pensar, com Janet por perto. Janet não gostava de mim.

SIR WILFRID: Por que não?

LEONARD: Acho que era ciúme. Acho que ela não gostava que eu ajudasse a Srta. French em seus negócios.

SIR WILFRID: Ah, então o senhor ajudava a Srta. French em seus negócios?

LEONARD: Ajudava. Ela andava preocupada com uns investimentos e coisas assim. E às vezes achava difícil preencher formulários e coisas no gênero. É, com coisas desse tipo eu ajudava bastante.

SIR WILFRID: E agora, Sr. Vole, vou fazer-lhe uma pergunta muito séria. E à qual é vital que me dê uma resposta absolutamente verídica. O senhor não andava bem de finanças e estava em condições de manipular os negócios daquela senhora. Pois bem, em alguma ocasião o senhor manipulou em seu próprio benefício os títulos com os quais lidou? (LEONARD esboça uma reação.) Espere um momento antes de responder, Sr. Vole. Devo compreender que há dois pontos de vista. Podemos proclamar sua probidade e honestidade ou, se o senhor de algum modo enganou aquela mulher, poderemos argumentar que o senhor não tinha motivos para assassiná-la, já que ela representava para o senhor uma boa fonte de renda. Há de perceber que ambos os pontos de vista oferecem grandes vantagens. O que desejo é saber a verdade. Se quiser, pense um pouco antes de responder.

LEONARD: Eu lhe garanto, Sir Wilfrid, que sempre agi com a maior correção e que o senhor jamais encontrará qualquer indício em contrário. Com a maior correção.

SIR WILFRID: Obrigado, Sr. Vole. Fico muito aliviado. Faço-lhe o cumprimento de julgá-lo por demais inteligente para mentir sobre questão tão vital. E agora chegamos à noite de...

MAYHEW: 14 de outubro.

SIR WILFRID: 14. A Srta. French convidara-o para ir lá, nesse dia?

LEONARD: Não, para falar a verdade, não. Mas eu tinha encontrado uma invençãozinha nova e achei que ela ia gostar. Então dei um pulo até lá de noite, mais ou menos às sete horas e quarenta e cinco minutos. Era dia de saída de Janet Mackenzie e eu sabia que ela podia estar se sentindo um tanto só.

SIR WILFRID: Então era dia de saída de Janet Mackenzie e o senhor sabia disso.

LEONARD: Claro que eu sabia que Janet saía às sextas-feiras.

SIR WILFRID: Isso não é muito bom.

LEONARD: Por que não? Parece muito natural que eu escolhesse essa noite para ir visitá-la.

SIR WILFRID: Continue, por favor, Sr. Vole.

LEONARD: Bem, cheguei lá mais ou menos às sete horas e quarenta e cinco minutos. Ela tinha acabado de jantar, mas eu tomei uma xícara de café com ela e jogamos uma partida de paciência para dois. E então, às nove horas, eu dei boa-noite e fui para casa.

MAYHEW: O senhor me disse que a governanta declarou que naquela noite voltou à casa alguns minutos antes da hora de costume.

LEONARD: É, a polícia me disse que ela voltou para pegar alguma coisa que tinha esquecido e que ouviu — ou acha que ouviu — alguém conversando com a Srta. French. Bem, seja quem for, não era eu.

SIR WILFRID: E o senhor pode prová-lo, Sr. Vole?

LEONARD: Claro que posso. A essa altura eu já estava de novo em casa, com minha mulher. Era isso que a polícia não parava de me perguntar. Onde é que eu estava às nove e meia. Bem, acontece que há uns dias que a gente não se lembra de onde é que estava. Mas, por acaso, eu me lembro muito bem que eu fui diretamente para casa e que Romaine e eu não saímos mais naquela noite.

SIR WILFRID: O senhor mora em apartamento?

LEONARD: Moro. Em um apartamento pequeno em cima de uma loja perto da Estação de Euston.

SIR WILFRID: Alguém o viu voltando ao apartamento?

LEONARD: Acho que não. Por que haveriam de ver?

SIR WILFRID: Seria uma vantagem se o vissem.

LEONARD: Mas na certa o senhor não está pensando — bem, se ela morreu mesmo às nove e meia, eu só preciso do testemunho da minha mulher, não é?

MAYHEW: E sua esposa afirmará, sem sombra de dúvida, que o senhor estava em casa nessa hora?

LEONARD: Mas é claro que sim.

MAYHEW: O senhor gosta muito de sua mulher e ela do senhor?

LEONARD: Romaine gosta muito de mim. É a mulher mais devotada que um homem poderia querer.

MAYHEW: Compreendo. Seu casamento é feliz?

LEONARD: Não podia ser mais. Romaine é maravilhosa, absolutamente maravilhosa. Gostaria que o senhor a conhecesse, Sr. Mayhew.

(Batem à porta.)

SIR WILFRID: (Em voz alta.) Pode entrar.

GRETA: (Entra trazendo um jornal.) O jornal da tarde, Sir Wilfrid. (Aponta para um parágrafo ao entregá-lo.)

SIR WILFRID: Obrigado, Greta.

GRETA: Quer uma xícara de chá, Sir Wilfrid?

SIR WILFRID: Não, obrigado. Ah, quer uma xícara, Vole?

LEONARD: Não, senhor, obrigado.

SIR WILFRID: Não, obrigado, Greta.

(GRETA sai.)

MAYHEW: Seria aconselhável que tivéssemos um encontro com a sua esposa.

LEONARD: O senhor quer dizer uma conferência, uma mesa-redonda de verdade?

MAYHEW: Eu me pergunto, Sr. Vole, se o senhor está encarando este assunto com a devida seriedade.

LEONARD: Estou. Claro que estou, mas parece — quero dizer, é tudo tão parecido com um pesadelo, quero dizer, isso, acontecendo comigo. Assassinato. Isso é coisa que se lê em livro ou jornal, mas eu nunca acreditei que pudesse acontecer com a gente, mesmo. Talvez por isso eu fique tentando fazer piada, mesmo sabendo que não é piada.

MAYHEW: Não, infelizmente acho que não há do que fazer piada, no caso.

LEONARD: Mas, eu quero dizer, está tudo bem, não está? Porque, quero dizer, se eles acham que a Srta. French foi morta às nove e meia e eu estava em casa com Romaine...

MAYHEW: Como é que o senhor foi para casa? De metrô ou ônibus?

LEONARD: Fui a pé. Levei vinte e cinco minutos, mas a noite estava agradável — ventando um pouco.

MAYHEW: Viu alguém conhecido no caminho?

LEONARD: Não, mas faz diferença? Quero dizer, Romaine...

SIR WILFRID: O testemunho de uma esposa devotada não corroborado por nenhuma outra prova pode não ser totalmente convincente, Sr. Vole.

LEONARD: Ah, o senhor quer dizer que iam pensar que Romaine mentiria por mim?

SIR WILFRID: Já aconteceu antes, Sr. Vole.

LEONARD: E aposto que mentia, mesmo; só que neste caso ela não vai mentir. Porque foi assim mesmo. O senhor acredita, não é?

SIR WILFRID: Sim, acredito no senhor, Sr. Vole, mas não é a mim que terá de convencer. O senhor sabe, não sabe, que a Srta. French deixou um testamento que o faz herdeiro de todo o seu dinheiro?

LEONARD: (Estarrecido.) Herdeiro de todo o dinheiro dela? O senhor está brincando!

SIR WILFRID: Não estou brincando, não. Está no jornal da tarde.

LEONARD: (Lendo.) Mas eu nem acredito.

SIR WILFRID: Não sabia de nada a respeito?

LEONARD: Absolutamente nada. Ela nunca disse uma palavra.

MAYHEW: Tem absoluta certeza disso, Sr. Vole?

LEONARD: Absoluta. Fico muito grato a ela — mas de certo modo eu agora preferia que não tivesse feito isso. Quero dizer — é meio esquisito do jeito que as coisas estão, não é?

SIR WILFRID: Dá ao senhor motivo suficiente, isto é, se estivesse informado do assunto. E o senhor me diz que não estava. A Srta. French nunca comentou nada a respeito de um testamento?

LEONARD: Certa vez ela disse a Janet: “Você fica com medo que eu refaça o meu testamento.” Mas não teve nada a ver comigo. Quero dizer, foi só durante uma das briguinhas entre elas. O senhor realmente acha que vão me prender?

SIR WILFRID: Creio, Sr. Vole, que deve estar preparado para tal eventualidade.

LEONARD: O senhor — o senhor vai fazer tudo o que puder por mim, não vai?

SIR WILFRID: Pode ficar certo, meu caro Sr. Vole, que farei tudo o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo. Não se preocupe. Deixe tudo em minhas mãos.

LEONARD: O senhor vai tomar conta de Romaine, não vai? Quero dizer, ela vai ficar arrasada — para ela vai ser uma coisa horrível.

SIR WILFRID: Não se preocupe, meu rapaz. Não se preocupe.

LEONARD: (Para MAYHEW.) Há também a questão do dinheiro. Tenho umas poucas libras, mas é pouco dinheiro, mesmo. Talvez eu não devesse ter pedido ao senhor para fazer alguma coisa por mim.

MAYHEW: Creio que poderemos organizar uma defesa adequada. O Tribunal tem verbas para casos como esse.

LEONARD: Eu não acredito. Não acredito que eu, Leonard Vole, possa estar diante de um júri dizendo: “Inocente.” E gente olhando para mim. (Estremece. Para MAYHEW.) Eu não sei por que não admitem que tenha sido um ladrão. Quero dizer, parece que a janela foi forçada e quebrada e havia uma porção de coisas jogadas por todo lado, pelo que os jornais disseram. Quero dizer, parece tão mais provável.

MAYHEW: A polícia deve ter boas razões para julgar que não se trata de assalto e roubo.

LEONARD: Bem, me parece... (Entra CARTER.)

SIR WILFRID: O que é, Carter?

CARTER: Perdão, senhor, há dois cavalheiros procurando o Sr. Vole.

SIR WILFRID: Da polícia?

CARTER: Sim, senhor.

SIR WILFRID: Pode deixar, John, eu vou falar com eles. (Sai, seguido por CARTER.)

LEONARD: Meu Deus! Já é... hora?

MAYHEW: Infelizmente acho que sim, meu rapaz. Vá com calma. Não perca a coragem. Não faça mais nenhuma declaração — deixe tudo conosco.

LEONARD: Mas como é que sabiam que eu estava aqui?

MAYHEW: É provável que um dos policiais o estivesse vigiando.

LEONARD: Então eles realmente suspeitam de mim.

(Entram SIR WILFRID, o INSPETOR DETETIVE HEARNE e um DETETIVE à paisana. O INSPETOR é um homem alto e de boa aparência.)

INSPETOR: (Para SIR WILFRID.) Desculpe incomodá-lo, meu senhor.

SIR WILFRID: Este é o Sr. Vole.

INSPETOR: Seu nome é Leonard Vole?

LEONARD: É.

INSPETOR: Sou o Inspetor Detetive Hearne. Tenho aqui uma ordem judiciária para prendê-lo sob a acusação de haver assassinado Emily French no dia 14 de outubro último. Devo avisá-lo que qualquer coisa que disser será anotada e usada como prova.

LEONARD: O.K. (Pega o chapéu.) Estou pronto.

MAYHEW: Boa-tarde, Inspetor Hearne. Meu nome é Mayhew. Vou representar o Sr. Vole.

INSPETOR: Boa-tarde, Sr. Mayhew. Perfeitamente. Agora nós vamos levá-lo e formalizar a acusação. (LEONARD e o DETETIVE saem. Para MAYHEW.) O tempo anda muito agradável, não é? A geadazinha da noite de ontem estava ótima. Creio que o veremos mais tarde, não é? Espero não o ter importunado, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: O senhor jamais me importuna. (O INSPETOR sorri e sai, fechando a porta.) Devo dizer, John, que aquele rapaz está em uma embrulhada bem maior do que pensa.

MAYHEW: Se está. O que achou dele?

SIR WILFRID: Impressionantemente ingênuo. Entretanto, sob certos aspectos, bastante esperto. Diria que inteligente. Mas certamente não compreendeu ainda o quanto é perigosa a sua posição.

MAYHEW: Você acha que foi ele?

SIR WILFRID: Não tenho a menor ideia. A grosso modo, diria que não. Concorda comigo?

MAYHEW: Concordo.

SIR WILFRID: Bem, ele parece ter impressionado favoravelmente a nós dois. Não sei por quê. Nunca ouvi história mais fraca. Deus sabe o que poderemos fazer com ela. O único testemunho em seu favor parece ser o da esposa — e você sabe que ninguém no mundo acredita em esposa.

MAYHEW: Bem, parece que já aconteceu algumas vezes...

SIR WILFRID: E além do mais ela é estrangeira. Nove de cada doze jurados acreditam que os estrangeiros estão sempre mentindo. Ela vai ficar emocionada e perturbada e não vai compreender o que os advogados da promotoria vão dizer. Mesmo assim, teremos de entrevistá-la. Você vai ver só, minha sala tomada por ataques histéricos.

MAYHEW: Talvez você prefira não aceitar o caso.

SIR WILFRID: Quem falou em não aceitar? Só por que eu disse que a história do rapaz é perfeitamente idiota?

MAYHEW: Mas verdadeira.

SIR WILFRID: Tem de ser verdadeira. Não poderia ser tão idiota se não fosse verdadeira. É só pôr os dados em preto e branco e não há um que não o condene. E, no entanto, quando se fala com o rapaz, e ele parece um repuxo com indícios contra ele caindo para todos os lados, percebe-se que a coisa toda poderia ter acontecido exatamente como ele contou. Que diabo! Eu mesmo tive o equivalente da tia Betsy. E adorava a velha.

MAYHEW: Ele tem uma boa personalidade, acho. Simpática.

SIR WILFRID: É, deve causar boa impressão no júri. Mas com o Juiz isso não adianta. E ele é o tipo do sujeito simplório que pode se atrapalhar todo na hora de depor. Muita coisa depende da moça. (Batem na porta. Ele fala em voz alta.) Pode entrar. (GRETA entra, excitada e um pouco assustada. Fecha a porta.) Sim, Greta, o que foi?

GRETA: (Num sussurro.) A Sra. Leonard Vole está aí.

MAYHEW: A Sra. Vole.

SIR WILFRID: Venha cá. Você viu aquele rapaz? Ele foi preso por assassinato.

GRETA: Eu sei. Não é excitante?

SIR WILFRID: Você acha que foi ele?

GRETA: Não, senhor. Tenho certeza que não.

SIR WILFRID: Ah, é? Por que não?

GRETA: Ele é bonzinho demais.

SIR WILFRID: (Para MAYHEW.) Então somos três. (Para GRETA.) Faça a Sra. Vole entrar. (GRETA sai.) E é provável que sejamos três idiotas crédulos... enganados pela personalidade agradável de um jovem.

CARTER: (Entra e anuncia.) A Sra. Leonard Vole.

(ROMAINE entra. É uma estrangeira de forte personalidade e demonstra muita calma. Sua voz é estranhamente irônica.)

MAYHEW: Minha cara Sra. Vole. (Está sob forte emoção, inibida, entretanto, pela personalidade dela. CARTER sai, fechando aporta atrás de si.)

ROMAINE: Ah! O senhor é o Sr. Mayhew.

MAYHEW: Sou. Este é Sir Wilfrid Robarts, que concordou em aceitar o caso de seu marido.

ROMAINE: Como está, Sir Wilfrid?

SIR WILFRID: Como está?

ROMAINE: Acabo de vir de seu escritório, Sr. Mayhew. Disseram-me que o encontraria aqui, com meu marido.

MAYHEW: Exato, exato.

ROMAINE: Ao chegar tive a impressão de ver Leonard entrando em um carro, com dois homens.

SIR WILFRID: Vamos, minha cara Sra. Vole; não precisa ficar angustiada, Sra. Vole. (ROMAINE não demonstra a menor angústia e ele fica desconcertado.) Não quer sentar-se aqui?

ROMAINE: Obrigada.

SIR WILFRID: Por enquanto não há razão para ficar alarmada e não deve se deixar abater.

ROMAINE: (Pausa.) Não vou me deixar abater de forma alguma.

SIR WILFRID: Deixe-me então dizer-lhe que, como talvez já suspeite, seu marido acaba de ser preso.

ROMAINE: Pelo assassinato da Srta. Emily French?

SIR WILFRID: Temo que sim. Mas por favor não se perturbe.

ROMAINE: O senhor fica dizendo a mesma coisa. Eu não estou perturbada, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Não. Não. Já percebi que é de ânimo forte.

ROMAINE: Se preferir dizer assim.

SIR WILFRID: O importante é manter a calma e enfrentar tudo isto de maneira sensata.

ROMAINE: Exatamente como eu gosto. Mas não me deve ocultar nada, Sir Wilfrid. Não tente poupar-me. Eu quero saber de tudo. (Ligeira mudança de tom.) Quero saber — o pior.

SIR WILFRID: Esplêndido. Esplêndido. É assim que se enfrenta a situação. E agora, minha cara senhora, não vamos ficar alarmados ou desanimados; vamos olhar tudo de modo sensato e direto. Seu marido ficou amigo da Srta. French há cerca de seis semanas. A senhora tinha — conhecimento dessa amizade?

ROMAINE: Ele me disse que tinha ajudado uma velha cheia de embrulhos, um dia, no meio da rua. Disse que ela o havia convidado para visitá-la.

SIR WILFRID: Tudo muito natural, penso eu. E seu marido foi visitá-la?

ROMAINE: Foi.

SIR WILFRID: E eles se tornaram grandes amigos.

ROMAINE: Evidentemente.

SIR WILFRID: Não se sugeriu que a senhora o acompanhasse em nenhuma das visitas que ele fez?

ROMAINE: Leonard achava melhor eu não ir.

SIR WILFRID: Ele achava melhor. Sei. Aqui entre nós, por que razão ele achava melhor?

ROMAINE: Julgava que seria o que a Srta. French preferiria.

SIR WILFRID: (Um pouco nervoso e evitando o assunto.) Sei, sei, ótimo. Bem, poderemos falar nisso em outra ocasião. Seu marido, então, tornou-se amigo da Srta. French, prestou-lhe vários pequenos serviços e, sendo uma velha muito só, com muito tempo vago, ela achava agradável a companhia de seu marido.

ROMAINE: Leonard sabe ser encantador.

SIR WILFRID: Ora, não tenho dúvida. Ele sentia, sem dúvida, que era uma boa ação por parte dele ir alegrar aquela senhora.

ROMAINE: Vai ver que sim.

SIR WILFRID: A senhora, pessoalmente, não fazia objeções à amizade de seu marido com a velha, fazia?

ROMAINE: Não creio que fizesse qualquer objeção.

SIR WILFRID: A senhora tem, naturalmente, confiança total em seu marido, Sra. Vole. Conhecendo-o como o conhece...

ROMAINE: Sim, conheço Leonard muito bem.

SIR WILFRID: Não tenho palavras para expressar minha admiração por sua calma e coragem, Sra. Vole. Sabendo, como sei, o quanto lhe é devotada.

ROMAINE: Ah, então sabe o quanto eu lhe sou devotada?

SIR WILFRID: Naturalmente.

ROMAINE: Ora, desculpe-me, sou estrangeira e nem sempre compreendo as suas expressões. Mas não existe por aqui um ditado que diz algo como — saber mesmo, só quando se sabe pessoalmente? O senhor não sabe, pessoalmente, que eu seja devotada a Leonard, sabe, Sir Wilfrid? (Sorri.)

SIR WILFRID: (Ligeiramente desconcertado.) Não, não; claro que isso é verdade. Mas soube por seu marido.

ROMAINE: Leonard disse ao senhor que eu era devotada a ele?

SIR WILFRID: Sem dúvida. Ele falou nesse devotamento em termos comoventes.

ROMAINE: Às vezes eu acho que os homens são muito estúpidos.

SIR WILFRID: Perdão?

ROMAINE: Não importa. Continue.

SIR WILFRID: Essa Srta. French era uma mulher consideravelmente rica. Não tinha parentes próximos. Como muitas outras senhoras idosas e excêntricas, ela gostava de fazer testamentos. Já havia feito vários outros em sua vida. Pouco depois de conhecer seu marido fez um outro. A não ser por pequenas doações, deixou toda a sua fortuna para seu marido.

ROMAINE: Sei.

SIR WILFRID: A senhora sabe disso?

ROMAINE: Eu li no jornal da tarde.

SIR WILFRID: Bem, bem. Mas antes de ler o jornal não tinha conhecimento desse fato? Nem seu marido tinha conhecimento dele?

ROMAINE: (Pausa.) Foi isso o que lhe disse?

SIR WILFRID: Foi. Não está sugerindo qualquer outra coisa, está?

ROMAINE: Não. Não, não. Não sugiro nada.

SIR WILFRID: Parece não haver qualquer dúvida de que a Srta. French considerava seu marido como um filho, ou talvez um sobrinho favorito.

ROMAINE: (Com óbvia ironia.) O senhor acha que a Srta. French considerava meu marido como um filho?

SIR WILFRID: (Sem graça.) Sim, é o que penso. Positivamente. Creio que isso poderia ser considerado natural, perfeitamente normal, nessas circunstâncias.

ROMAINE: Como são hipócritas as pessoas neste país.

SIR WILFRID: Minha cara Sra. Vole!

ROMAINE: Eu o choquei? Sinto muito.

SIR WILFRID: Claro, claro. Tem um ponto de vista diferente do nosso sobre tais assuntos. Mas, asseguro-lhe, minha cara Sra. Vole, que essa não é a linha a ser adotada no caso. Seria extraordinariamente imprudente sugerir, de qualquer modo, que a Srta. French tivesse — hum — quaisquer — hum — sentimentos em relação a Leonard Vole a não ser os de mãe ou — digamos — de tia.

ROMAINE: Ora, então diremos tia, se assim julgar melhor.

SIR WILFRID: Temos de pensar no efeito que todas essas coisas exercerão sobre o júri, Sra. Vole.

ROMAINE: Sei. E eu quero fazer o mesmo. Tenho pensado muito.

SIR WILFRID: Exato. Devemos trabalhar juntos. E agora chegamos à noite do dia 14 de outubro. Faz pouco mais de uma semana. A senhora se lembra da noite em questão?

ROMAINE: Lembro-me muito bem.

SIR WILFRID: Leonard Vole visitou a Srta. French nessa noite. A governanta, Janet Mackenzie, havia saído. A Srta. French jogou uma partida de paciência para dois com o Sr. Vole e finalmente ele se despediu dela cerca das nove horas. Voltou para casa a pé, segundo me disse, chegando aproximadamente às nove horas e vinte e cinco minutos. (Olha para ela com ar interrogativo.)

ROMAINE: (Inexpressiva, reflete.) Nove e vinte e cinco.

SIR WILFRID: Às nove e meia a governanta voltou a casa para buscar algo que havia esquecido. Passando pela sala de estar ouviu a voz da Srta. French em conversa com um homem. Ela supôs que o homem com a Srta. French fosse Leonard Vole e o Inspetor Hearne afirma que foi essa declaração que levou à prisão de seu marido. O Sr. Vole, no entanto, diz que tem um álibi perfeito para aquele momento, já que estava em casa às nove e meia. (Pausa. ROMAINE não fala.) Esses fatos são verdadeiros, não são? Ele estava com a senhora às nove e meia? (Os dois homens a olham.)

ROMAINE: Foi isso que Leonard disse? Que estava em casa às nove e meia?

SIR WILFRID: Não é verdade? (Longo silêncio.)

ROMAINE: Mas é claro.

SIR WILFRID: (Suspirando de alívio.) É possível que a polícia já tenha interrogado a senhora sobre esse ponto?

ROMAINE: Já, sim. Vieram ver-me ontem à noitinha.

SIR WILFRID: E a senhora disse?...

ROMAINE: (Como se repetisse algo decorado.) Eu disse que Leonard chegou às nove e vinte e cinco é não tornou a sair.

MAYHEW: (Pouco à vontade.) A senhora disse?... Oh!

ROMAINE: Está certo, não está?

SIR WILFRID: O que quer dizer com isso, Sra. Vole?

ROMAINE: É isso que Leonard quer que eu diga, não é?

SIR WILFRID: É a verdade; a senhora acaba de afirmá-lo.

ROMAINE: Eu tenho de compreender — de ter certeza. Se eu disser que sim, que Leonard estava comigo às nove e meia — eles irão absolvê-lo? (SIR WILFRID e MAYHEW ficam perplexos.) Vão deixá-lo sair?

MAYHEW: Se ambos estiverem dizendo a verdade, então eles — bem — terão de absolvê-lo.

ROMAINE: Mas quando eu disse — isso à polícia, acho que não acreditaram em mim. (Não está perturbada, antes, parece vagamente contente.)

SIR WILFRID: O que a faz pensar que não tenham acreditado na senhora?

ROMAINE: (Com malícia repentina.) Talvez eu não tivesse dito muito bem?

(O olhar frio e desabusado de ROMAINE encontra o de SIR WILFRID. Há claro antagonismo entre os dois.)

SIR WILFRID: Sabe, Sra. Vole, não compreendo bem sua atitude em tudo isso.

ROMAINE: Quer dizer que não compreende? Bem, talvez seja um pouco difícil.

SIR WILFRID: Talvez a posição de seu marido não esteja bem clara para a senhora?

ROMAINE: Eu já disse que quero compreender perfeitamente até que ponto é preta a situação do caso contra — o meu marido. Eu disse à polícia que Leonard estava em casa às nove e meia e eles não me acreditaram. Mas será que ninguém o viu saindo da casa da Sra. French, ou na rua a caminho de casa?

MAYHEW: Seu marido não consegue se lembrar ou sugerir nada que nos possa ajudar, nesse ponto.

ROMAINE: Quer dizer então que será apenas a palavra dele — e a minha. Obrigada; é isso que eu queria saber.

MAYHEW: Mas, Sra. Vole, não se vá. Ainda há muito a discutir.

ROMAINE: Não por mim.

SIR WILFRID: E por que não, Sra. Vole?

ROMAINE: Eu vou ter de jurar, não vou, dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade? (Parece estar se divertindo.)

SIR WILFRID: Esse é o juramento.

ROMAINE: (Agora ironizando abertamente.) E suponha que, então, quando o senhor me perguntar... (Imita voz de homem.) “A que horas Leonard Vole chegou naquela noite?”, eu dissesse...

SIR WILFRID: Bem?

ROMAINE: Há tantas coisas que eu poderia dizer.

SIR WILFRID: Sra. Vole, a senhora ama seu marido?

ROMAINE: (Voltando seu olhar de caçoada para MAYHEW.) Leonard diz que amo.

MAYHEW: Leonard Vole acredita que a senhora o ama.

ROMAINE: Mas Leonard não é muito inteligente.

SIR WILFRID: A senhora sabe, Sra. Vole, que, por lei, não pode ser chamada a prestar testemunho prejudicial a seu marido?

ROMAINE: Mas que conveniente!

SIR WILFRID: E seu marido pode...

ROMAINE: Ele não é meu marido.

SIR WILFRID: O quê?

ROMAINE: Leonard Vole não é meu marido. Ele tomou parte numa espécie de cerimônia de casamento comigo em Berlim. Ele me tirou da zona russa e me trouxe para este país. Eu não disse a ele, mas tinha um outro marido, vivo, naquele momento.

SIR WILFRID: Ele a tirou do setor russo e a trouxe, sã e salva, para este país? Deveria ser muito grata a ele. Será que é?

ROMAINE: Pode-se ficar muito cansada da gratidão.

SIR WILFRID: Alguma vez Leonard Vole a magoou de alguma forma?

ROMAINE: Leonard? Magoar a mim? Ele adora o chão que eu piso.

SIR WILFRID: E a senhora? (Novo duelo de olhares entre eles, depois ela ri e lhe dá as costas.)

ROMAINE: O senhor quer saber demais.

MAYHEW: Creio que devemos ser muito claros sobre o assunto. Suas declarações têm sido um tanto ambíguas. Exatamente, o que foi que aconteceu na noite de 14 de outubro?

ROMAINE: Leonard chegou às nove e vinte e cinco e não tornou a sair. Eu lhe dei seu álibi, não dei?

SIR WILFRID: Deu. Sra. Vole... (Pausa.)

ROMAINE: O que é?

SIR WILFRID: A senhora é uma mulher notável, Sra. Vole.

ROMAINE: E o senhor está satisfeito, eu espero. (Sai.)

SIR WILFRID: Quero danar-me se estou satisfeito.

MAYHEW: Ou eu.

SIR WILFRID: Aquela mulher está arrumando alguma — mas o quê? Não estou gostando disso, John.

MAYHEW: O certo é que não teve nenhum acesso histérico.

SIR WILFRID: Uma pedra de gelo.

MAYHEW: O que acontecerá se a chamarmos para depor?

SIR WILFRID: Só Deus sabe!

MAYHEW: A Promotoria desarmará a Sra. Vole em um instante. Principalmente, se for Myers.

SIR WILFRID: Se não for o Promotor-Geral, certamente será ele.

MAYHEW: Então qual será nossa linha de ataque?

SIR WILFRID: A de sempre. Ficar interrompendo — e fazer todas as objeções que se possa imaginar.

MAYHEW: O que me deixa tonto é que o jovem Vole me havia persuadido do devotamento dela.

SIR WILFRID: Não confie nisso. Qualquer mulher pode enganar qualquer homem — se quiser e se ele estiver apaixonado por ela.

MAYHEW: E ele sem dúvida está apaixonado por ela. E tem total confiança nela.

SIR WILFRID: Então é um tolo. Ninguém deve confiar em mulher.

(CAI O PANO)