Testemunha da Acusação
Ato Três
Cena I
CENÁRIO: Escritório de SIR WILFRID ROBARTS, Q.C., na mesma noite.
Quando o pano sobe, o palco está vazio e escuro. As cortinas estão
abertas. GRETA entra imediatamente e segura aporta aberta. MAYHEW e SIR WILFRID entram. MAYHEW carrega sua pasta.
GRETA: Boa-noite, Sir Wilfrid. A noite está muito feia, senhor. (Sai, fechando aporta atrás de si.)
SIR WILFRID: Droga de fog! (Acende as arandelas no comutador abaixo da porta e cruza até a janela.)
MAYHEW: (Tirando o chapéu e o sobretudo.) Está uma noite desgraçada.
SIR WILFRID: Será que não existe justiça? Saímos de um Tribunal abafado, loucos por um pouco de ar fresco, e o que encontramos? (Acende a lâmpada da mesa.) Fog!
MAYHEW: Mas não está tão denso quanto aquele em que estamos metidos por causa da exibição da Sra. Heilger.
SIR WILFRID: Mulher mais desgraçada! Desde o primeiro momento em que botei os olhos nela senti cheiro de confusão. Eu sabia que alguma ela estava tramando. Uma figurinha inacreditavelmente vingativa e muito sonsa para aquele rapaz simplório no banco dos réus. Mas qual será a jogada dela, John? O que será que está querendo? Diga lá.
MAYHEW: Presumivelmente, parece, conseguir que o jovem Leonard Vole seja condenado por assassinato.
SIR WILFRID: Mas por quê? Pense em tudo o que ele fez por ela.
MAYHEW: Provavelmente fez demais.
SIR WILFRID: E ela o despreza por isso. É bem provável. As mulheres são uns bichos muito mal-agradecidos. Mas por que ser vingativa? Afinal, se estivesse cansada dele, bastava ir embora. Não parece haver nenhum interesse financeiro em ficar com ele.
GRETA: (Entra.) Trouxe o seu chá, Sir Wilfrid. E também uma xícara para o Sr. Mayhew.
SIR WILFRID: Chá? O que nós precisamos é de alguma coisa mais forte.
GRETA: Ora, o senhor sabe muito bem que gosta mesmo é do seu chá. Como foram as coisas hoje?
SIR WILFRID: Mal.
GRETA: Ah, não, senhor. Espero que não. Porque não foi ele. Eu tenho certeza de que não foi ele.
SIR WILFRID: Você continua a ter certeza de que não foi ele. Por que será?
GRETA: Porque ele não é do tipo que faz isso. Ele é bonzinho, sabe como é? — muito bonzinho. Imaginem só se ele ia ser capaz de bater com coisas na cabeça de uma velha. Mas o senhor vai livrá-lo de tudo isso, não vai?
SIR WILFRID: Eu — vou — livrá-lo. (GRETA sai.) Só Deus sabe como. E apenas uma mulher no júri — uma pena — é óbvio que as mulheres gostam dele — não imagino por quê — ele não é particularmente — atraente. É possível que tenha algo que desperte o instinto materno. Todas as mulheres querem tomar conta dele.
MAYHEW: Enquanto que a Sra. Heilger não é do tipo maternal.
SIR WILFRID: Não. É do tipo passional. Sangue quente por trás daquela fachada fria. É do tipo que enfia uma faca no homem que a enganar. Meu Deus, como eu gostaria de conseguir quebrá-la. Mostrar onde está mentindo. Mostrar quem ela é.
MAYHEW: Desculpe, Wilfrid, mas será que não está deixando isso virar um duelo pessoal entre você e ela?
SIR WILFRID: Será? É possível. Porém ela é uma mulher má, John. Estou convencido disso. E a vida de um jovem depende do resultado desse duelo.
MAYHEW: Não creio que o júri tenha gostado dela.
SIR WILFRID: Não, nisso você tem razão. Não creio que tenham gostado. Para início de conversa, ela é estrangeira; e eles desconfiam dos estrangeiros. Depois, não é casada com ele — e está mais ou menos confessando que é bígama. Nada disso cai bem. E, para concluir, não está sendo leal a seu homem na hora do aperto. Não gostamos disso neste país.
MAYHEW: Tudo isso é vantagem.
SIR WILFRID: É. Mas não basta. Não há nenhuma corroboração para as declarações dele. De espécie alguma. Ele confessa que esteve com a Srta. French naquela noite, há impressões digitais dele por toda parte, não conseguimos encontrar ninguém que o tenha visto a caminho de casa e ainda há a desgraçada da questão do testamento. A história da agência de viagens não ajuda. A mulher faz um testamento que o beneficia e imediatamente ele sai indagando a respeito de cruzeiros de luxo. Não podia ser pior.
MAYHEW: Concordo. E a explicação dele ficou longe de ser convincente.
SIR WILFRID: (Com repentina mudança; muito humano.) E no entanto, sabe, John, minha mulher faz dessas coisas.
MAYHEW: O quê?
SIR WILFRID: Vai a agências de viagens e elabora itinerários para cruzeiros caros. Para nós dois. (Oferece o pacote defumo a MAYHEW.)
MAYHEW: Obrigado, Wilfrid. (Senta-se e começa a encher o cachimbo.)
SIR WILFRID: Ela investiga todos os detalhes e lamenta, por exemplo, que o navio não faça determinada conexão nas Bermudas. Explica-me que daria tudo certo se fôssemos de avião, mas que de avião não se vê nada do país e pergunta o que é que eu acho. E eu digo: “Para mim tanto faz, querida. Resolva como preferir.” Nós dois sabemos que é só uma brincadeira e que vamos acabar fazendo o de sempre: ficar em casa.
MAYHEW: Com a minha mulher, são casas.
SIR WILFRID: Casas?
MAYHEW: Autorização para visitar. Às vezes eu acho que dificilmente haverá uma única casa em toda a Inglaterra que tenha sido anunciada para vender que minha mulher não tenha examinado. Ela faz planos de como vai distribuir o espaço e até calcula o que terá de ser gasto em obras... Chega a escolher as cortinas, as fazendas para os estofados e a determinar o esquema geral de cores. (Guarda o pacote defumo na lareira, procura fósforos.)
SIR WILFRID: Pois é... (Novamente o advogado.) O azar é que os sonhos de nossas mulheres não estão em julgamento. Mas pelo menos eles nos ajudam a compreender por que o jovem Vole foi pegar aqueles folhetos de viagens.
MAYHEW: Sonhando de olhos abertos.
SIR WILFRID: (Oferecendo-lhe uma caixa de fósforos.) Tome aí, John.
MAYHEW: Obrigado, Wilfrid.
SIR WILFRID: Creio que tivemos um pouco de sorte com Janet Mackenzie.
MAYHEW: Você quer dizer na interpretação dos fatos?
SIR WILFRID: Exato. Obvias ideias preconcebidas fizeram-na exagerar.
MAYHEW: Você usou lindamente a questão da surdez.
SIR WILFRID: É. Ali nós ganhamos. Mas ela ganhou na questão do rádio. (MAYHEW constata que não há fósforos na caixa, joga-a na lareira e guarda o cachimbo no bolso.) Não está fumando, John?
MAYHEW: Não, agora não.
SIR WILFRID: John, o que será que aconteceu realmente naquela noite? Será que foi realmente roubo com violência? A polícia tem de admitir que poderia ter sido.
MAYHEW: Mas acham que não foi e que raramente se enganam. Aquele inspetor está inteiramente convencido que foi coisa de alguém da casa, e que a tentativa de arrombamento da janela foi feita pelo lado de dentro.
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Bem, ele pode estar enganado.
MAYHEW: Será?
SIR WILFRID: Mas, nesse caso, quem era o homem com quem Janet Mackenzie ouviu a Srta. French conversar às nove e meia? A mim parece que há duas respostas para isso.
MAYHEW: Que são...?
SIR WILFRID: Primeira, que ela inventou a coisa toda quando viu que a polícia não estava satisfeita com a teoria do roubo.
MAYHEW: (Chocado.) Mas por certo ela não faria uma coisa dessas.
SIR WILFRID: Bem, então o que foi que ela ouviu? Não me diga que era um ladrão conversando amistosamente com a Srta. French — antes de bater na cabeça dela, seu palhaço velho. (Bate na cabeça de MAYHEW com seu lenço.)
MAYHEW: Bem, não há dúvida de que é pouco provável.
SIR WILFRID: Eu não creio que aquela velha amargurada hesitasse em inventar uma coisa assim. E não creio que ela hesite diante de nada, sabe? Não — não creio que — hesite — diante — de — nada.
MAYHEW: Santo Deus! Você quer dizer...?
CARTER: (Entra e fecha a porta atrás de si.) Perdão, Sir Wilfrid. Há uma moça querendo falar com o senhor. Diz ela que é a respeito do caso de Leonard Vole.
SIR WILFRID: Desequilibrada?
CARTER: Oh, não, Sir Wilfrid. Esses tipos eu reconheço logo.
SIR WILFRID: Que espécie de moça?
CARTER: Um tanto vulgar, senhor, com vocabulário um tanto grosseiro.
SIR WILFRID: E o que ela quer?
CARTER: (Citando, com certa repugnância.) Diz ela que “sabe uns troços que podem dar uma mãozinha ao réu”.
SIR WILFRID: Muito pouco provável. Mande-a entrar. (CARTER sai, levando as xícaras.) O que você acha, John?
MAYHEW: Bem, acho que não estamos em situação de deixar de examinar qualquer possibilidade.
(CARTER entra escoltando uma mulher. Ela parece ter uns 35 anos e suas roupas são vistosas e baratas. O cabelo louro cai sobre um lado do rosto. A maquilagem é exagerada e grosseira. Carrega uma bolsa surrada. MAYHEW levanta-se.)
CARTER: A jovem, meu senhor. (Sai.)
MULHER: Que história é essa? Dois? Não falo com dois, coisa nenhuma.
SIR WILFRID: Este é o Sr. Mayhew. Ele é o advogado de Leonard Vole. Eu sou Sir Wilfrid Robarts, encarregado da defesa.
MULHER: (Olhando para SIR WILFRID.) É mesmo, querido. Não o reconheci, sem a peruca. É tão bacana ver vocês todos lá, de peruca. ‘Tão’ fofocando um pouco, não é? Pois olha, pode ser que eu possa ajudar, se vocês fizerem valer a pena.
SIR WILFRID: Não sei se sabe, Srta....
MULHER: Nada de nomes. E se eu dissesse um nome, podia ser falso, não podia?
SIR WILFRID: Como preferir. Não sei se sabe que tem a obrigação de depor a respeito de qualquer prova da qual tenha conhecimento.
MULHER: Ora, sai dessa! Eu não disse que sabia de nada, disse? Eu tenho uma coisa. Que é mais importante.
SIR WILFRID: E poderíamos saber o que é?
MULHER: Sim, senhor! Eu estava no julgamento, hoje. E vi a — aquela vagabunda testemunhando. Toda metida a besta. Ela é má de verdade. Uma Jezebel, isso é o que ela é.
SIR WILFRID: Muito bem. Mas quanto a essa informação especial que a senhora tem...
MULHER: (Ardilosa.) Ah, mas o que é que eu levo nisso? O que eu tenho é muito valioso. E cem libras é quanto eu quero.
MAYHEW: Temo que não poderíamos sequer pensar em nada desse gênero; mas, se nos pudesse dizer um pouquinho mais a respeito do que tem a oferecer...
MULHER: Não compram nada sem uma manjada, não é?
SIR WILFRID: Uma manjada?
MULHER: Uma olhada na mercadoria.
SIR WILFRID: Ah, sim. Exato, exato.
MULHER: Estou com ela na palma da mão, direitinho. (Abre a bolsa.) São cartas. O que eu tenho são cartas. Dela.
SIR WILFRID: Cartas escritas por Romaine Heilger ao réu?
MULHER: Ao réu? Deixe de piadas. Pobre do bobalhão do réu, ela passou ele para trás direitinho. (Pisca.) Eu tenho mercadoria aqui para vender, querido. Não se esqueça disso.
MAYHEW: Se nos deixar ver as cartas, poderemos informá-la se elas são ou não importantes.
MULHER: A mesma coisa no seu vocabulário, não é? Bem, como eu disse, não espero que comprem sem ver. Mas trato é trato. E se as cartas forem a chave do negócio, se elas libertarem o rapaz e mandarem aquela vagabunda estrangeira para o lugar onde já devia estar, então as cem libras são minhas. Está bem?
MAYHEW: (Tirando uma nota de dez libras da carteira.) Se essas cartas contiverem informação útil à defesa — para ajudar suas despesas em vir até aqui — estou pronto a oferecer-lhe dez libras.
MULHER: (Aos gritos.) Dez porcarias de libras por isso? Acho melhor pensar de novo.
SIR WILFRID: (Indo até MAYHEW e tirando-lhe a carteira.) Se a senhora tiver alguma carta que possa ajudar a provar a inocência do meu cliente, creio que vinte libras não seriam uma quantia injusta para cobrir suas despesas. (Tira mais dez libras da carteira de MAYHEW, pega a nota na mão deste.)
MULHER: Por cinquenta eu fecho o negócio. Quero dizer, se gostarem das cartas.
SIR WILFRID: Vinte libras. (Coloca as notas sobre a mesa.)
MULHER: Está bem, que diabo. Pronto, estão aqui. Uma pilha de cartas. (Tira as cartas da bolsa.) A que está em cima resolve o problema. (Pousa as cartas na escrivaninha e vai pegar o dinheiro. SIR WILFRID é mais rápido e pega-os antes. Ela recolhe as cartas.)
SIR WILFRID: Um momento. Suponho que essa seja a letra dela?
MULHER: Sem tirar nem pôr. Ela é que escreveu. Está tudo em ordem.
SIR WILFRID: Para isso só temos a sua palavra.
MAYHEW: Um momento. Eu tenho uma carta da Sra. Vole. Não aqui, mas no meu escritório.
SIR WILFRID: Muito bem, minha senhora, parece que teremos de acreditar em confiança... (entrega as notas) por enquanto. (Ele pega as cartas, abre-as, estica o papel, começa a ler. A MULHER conta as notas vagarosamente, observando os dois nesse meio tempo. MAYHEW aproxima-se de SIR WILFRID e espia por sobre seu ombro.) É incrível. É absolutamente incrível.
MAYHEW: Gelidamente vingativa.
SIR WILFRID: (Para a MULHER.) Como as conseguiu?
MULHER: Dedo-duro eu não sou.
SIR WILFRID: O que é que a senhora tem contra Romaine Vole?
(A MULHER cruza até a escrivaninha, repentina e dramaticamente vira a cabeça, inclina a lâmpada para que brilhe em seu rosto do lado que até então estivera afastado da plateia, ao mesmo tempo empurrando o cabelo para trás, deixando à mostra a face retalhada, deformada por cicatrizes. SIR WILFRID recua com uma exclamação.)
MULHER: Viu isso?
SIR WILFRID: Ela lhe fez isso?
MULHER: Ela, não. O cara com quem eu andava. Era coisa séria, mesmo. Ele era um pouquinho mais moço do que eu, mas gostava de mim e eu amava o cara. Aí ela apareceu. Cismou com ele e tirou ele de mim. Começou a se encontrar com ele escondido e um dia ele sumiu. Eu sabia para onde ele tinha ido. Fui atrás e peguei ele com ela. Eu disse o que pensava dela e ele pulou em cima de mim. Era de um bando que usava navalha. Me cortou direitinho. E falou: “Pronto; agora nenhum homem mais vai querer olhar para você.”
SIR WILFRID: A senhora deu parte à polícia?
MULHER: Eu? Pois sim! E nem foi culpa dele. Não de verdade. Foi dela, toda dela. Tirando ele de mim e virando ele contra mim. Mas eu fiquei de olho. Sempre atrás dela, controlando. Eu sabia de umas coisas em que ela tinha andado metida. Eu sei onde mora o sujeito que de vez em quando ela vai encontrar, escondido. E foi assim que consegui as cartas. De modo, velhinho, que agora já sabe de toda a minha história. (Levanta-se, lança o rosto para a frente afastando o cabelo.) Quer me dar um beijo? (SIR WILFRID recua com um arrepio.) Não é de admirar.
SIR WILFRID: Sinto muito. Sinto profundamente. Tem cinco aí, John? (MAYHEW mostra-lhe a carteira vazia. SIR WILFRID pega sua própria carteira no bolso e tira cinco libras.) Bem — aqui estão mais cinco.
MULHER: (Agarrando a nota.) Escondendo o leite, não é? Ainda estava disposto a subir mais cinco. (Avança para SIR WILFRID, que recua.) E, eu sabia que estava sendo mole com vocês. As cartas são boas, não são?
SIR WILFRID: Eu creio que serão de muita utilidade. (Apresenta uma carta a MAYHEW.) Aqui, John; dê uma manjada. (A MULHER escapole pela porta.)
MAYHEW: Teremos de fazer um exame grafológico, para ter certeza; se for necessário, o tal homem poderá testemunhar.
SIR WILFRID: Precisamos do sobrenome e endereço do homem.
MAYHEW: (Virando-se.) Ora, onde é que ela foi? Não pode ir embora sem nos dar maiores detalhes.
SIR WILFRID: (Sai pela porta, chamando.) Carter! Carter!
CARTER: (De fora.) O que foi, Sir Wilfrid?
SIR WILFRID: (Fora.) Onde é que foi aquela mulher?
CARTER: (Fora.) Saiu logo, senhor.
SIR WILFRID: (Fora.) Não devia tê-la deixado sair. Mande Greta atrás dela.
CARTER: (Fora.) Muito bem, Sir Wilfrid. (SIR WILFRID entra.)
MAYHEW: Foi embora?
SIR WILFRID: Foi. Mandei Greta atrás dela, mas com esse fog não há a menor esperança. Não deu o nome e escapuliu como uma enguia, enquanto nós estávamos ocupados com as cartas. Não se arriscaria a aparecer no banco das testemunhas. Basta ver o que o homem fez da outra vez.
MAYHEW: Mas poderíamos protegê-la.
SIR WILFRID: Poderíamos? Por quanto tempo? No fim, ele ou os amigos acabariam por pegá-la. Para ela, vir aqui já foi um risco. Não quer que o homem apareça. Ela só quer pegar Romaine Heilger.
MAYHEW: E que bela figura é a tal Romaine! Mas finalmente temos algo em que nos agarrar. A melhor maneira de proceder...
(CAI O PANO)
Cena II
CENÁRIO: Tribunal Old Bailey. Na manhã seguinte.
Quando o pano se abre, o Tribunal aguarda a entrada do JUIZ.
LEONARD e o GUARDA estão sentados no recinto dos réus. Dois advogados estão sentados na ponta E da fila de trás dos bancos dos advogados. SIR WILFRID e seu ASSISTENTE estão em seus lugares. MAYHEW, de pé à E da mesa, conversa com SIR WILFRID. O ESCRIVÃO DO TRIBUNAL, o ESCRIVÃO DO JUIZ e o TAQUÍGRAFO estão em seus lugares. Os três JURADOS — visíveis pela plateia — estão sentados. O POLICIAL está junto à porta à EA, e o MEIRINHO no alto dos degraus ao CD. MYERS, seu ASSISTENTE e dois ADVOGADOS entram ao CA. MYERS vai até SIR WILFRID e começa a falar, muito zangado. O ASSISTENTE e os dois ADVOGADOS tomam seus lugares. Há três batidas na porta do JUIZ. O MEIRINHO desce os degraus até o CD.
MEIRINHO: Todos de pé. (Todos ficam de pé. O JUIZ e o VEREADOR entram pela porta do JUIZ e tomam seus lugares.) Todos aqueles que tiverem mais a tratar diante dos juízes de audiência e julgamentos criminais de nossa senhora a Rainha, na jurisdição do Tribunal Criminal Central, aproximem-se e deem sua atenção. Deus salve a Rainha.
(O JUIZ inclina-se para o Tribunal e todos se sentam. O MEIRINHO vai sentar-se em seu banco à DB.)
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, desde a suspensão da sessão, certas provas de natureza surpreendente chegaram-me às mãos. São provas tais que tomei a resolução de pedir a permissão do Meritíssimo para tornar a chamar a última testemunha da acusação, Romaine Heilger.
(O ESCRIVÃO se levanta e sussurra no ouvido do JUIZ.)
JUIZ: Exatamente quando, Sir Wilfrid, tomou conhecimento de tais provas?
SIR WILFRID: Elas me foram trazidas depois que a sessão foi suspensa, ontem à noite, Meritíssimo. (O ESCRIVÃO senta-se.)
MYERS: (Levantando-se.) Meritíssimo, devo objetar ao pedido do meu nobre colega. O caso já foi encerrado pela Promotoria e... (SIR WILFRID senta-se.)
JUIZ: Sr. Myers, não era minha intenção tomar uma decisão a respeito deste ponto sem observar a formalidade rotineira de pedir para ouvir seus comentários sobre o mesmo. Pois não, Sir Wilfrid? (MYERS senta-se.)
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, em um caso no qual provas vitais para o réu chegam às mãos de seus conselheiros legais a qualquer momento antes de o júri apresentar seu veredicto, minha posição é a de que tais provas não só são admissíveis, como também desejáveis. Por felicidade existe clara jurisprudência para apoiar meu ponto de vista, a ser encontrada no caso do Rei contra Stillman, relatada à página 643 do volume sobre Recursos de 1926. (Abre um volume de obra legal que está à sua frente.)
JUIZ: Não precisa citar sua fonte, Sir Wilfrid; conheço-a muito bem. Gostaria de ouvir a Promotoria, agora, Sr. Myers. (SIR WILFRID senta-se.)
MYERS: (Levantando-se.) Respeitosamente sugiro, Meritíssimo, que o caminho ora proposto por meu nobre colega, a não ser em circunstâncias excepcionais, não tem precedentes. E em que consistem, se me permitem perguntar, essas espetaculares novas provas das quais Sir Wilfrid fala?
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Cartas, Meritíssimo. Cartas escritas por Romaine Heilger.
JUIZ: Gostaria de ver as cartas a que se refere, Sir Wilfrid.
(SIR WILFRID e MYERS sentam-se. O MEIRINHO levanta-se, cruza até SIR WILFRID, pega as cartas, entrega-as ao ESCRIVÃO, que as leva ao JUIZ. O JUIZ estuda as cartas. O MEIRINHO retoma seu lugar.)
MYERS: (Levantando-se.) Meu nobre colega teve a bondade de informar-me, apenas no momento em que entrávamos no Tribunal, de que pretendia fazer este pedido, de modo que não tive a oportunidade de consultar quaisquer fontes de jurisprudência. Porém parece-me lembrar de um caso, creio que de 1930, o Rei contra Porter...
JUIZ: Não, Sr. Myers. O Rei contra Potter, de 1931. Eu representava a Promotoria.
MYERS: E, se não me falha a memória, a objeção que o Meritíssimo fez então foi sustentada.
JUIZ: Desta vez a sua memória realmente falha, Sr. Myers. A minha objeção, naquele momento, foi derrubada pelo Meritíssimo Juiz Swindon — exatamente como agora a sua o é por mim. (MYERS senta-se.)
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Chamem Romaine Heilger.
MEIRINHO: Romaine Heilger.
POLICIAL: (Abrindo a porta e chamando.) Romaine Heilger.
JUIZ: Se estas cartas forem autênticas, ficam levantados vários problemas muito graves. (Entrega as cartas ao ESCRIVÃO.)
(O ESCRIVÃO entrega as cartas ao MEIRINHO, que as devolve a SIR WILFRID. Durante a ligeira espera que se segue LEONARD parece muito agitado. Ele fala com o GUARDA, depois cobre o rosto com as mãos. O MEIRINHO senta-se em seu banco. MAYHEW levanta-se, fala com LEONARD e o acalma. LEONARD sacode a cabeça e parece perturbado e preocupado. ROMAINE entra à EA, cruza e se dirige ao banco das testemunhas.)
SIR WILFRID: Sra. Heilger, a senhora compreende que continua sob juramento?
ROMAINE: Compreendo.
JUIZ: Romaine Heilger, foi chamada a voltar ao banco das testemunhas, a fim de que Sir Wilfrid pudesse fazer-lhe mais algumas perguntas.
SIR WILFRID: Sra. Heilger, conhece um certo homem cujo primeiro nome é Max?
ROMAINE: (Reage violentamente quando o nome é mencionado) Eu não sei do que o senhor está falando.
SIR WILFRID: (Muito agradavelmente.) E, no entanto, é uma pergunta muito simples. A senhora conhece um homem chamado Max?
ROMAINE: Claro que não.
SIR WILFRID: Tem absoluta certeza disso?
ROMAINE: Eu nunca conheci ninguém chamado Max. Nunca.
SIR WILFRID: E, no entanto, creio ser nome — ou apelido — bastante comum em seu país. Está querendo dizer que jamais conheceu qualquer pessoa com esse nome?
ROMAINE: (Duvidosa.) Ah, na Alemanha — é — é possível. Talvez; não me lembro. Já faz tanto tempo.
SIR WILFRID: Não pedirei que volte sua lembrança para época tão remota. Algumas semanas serão suficientes. Digamos... (abre uma das cartas, com gesto teatral) 17 de outubro último.
ROMAINE: (Assustada.) O que é que o senhor tem aí?
SIR WILFRID: Uma carta.
ROMAINE: Eu não sei do que o senhor está falando.
SIR WILFRID: Estou falando a respeito de uma carta. Uma carta escrita a 17 de outubro. A senhora talvez se lembre dela.
ROMAINE: Não me lembro particularmente. Por quê?
SIR WILFRID: Sugiro que, nesta data, a senhora escreveu certa carta — uma carta endereçada a um homem chamado Max.
ROMAINE: Não fiz nada disso. O senhor esta contando mentiras. Não sei o que está querendo dizer.
SIR WILFRID: Essa carta é parte de toda uma série, escrita ao mesmo homem, ao longo de considerável período de tempo.
ROMAINE: (Agitada.) Mentira! Tudo mentira!
SIR WILFRID: As cartas dão a impressão de que a senhora tivesse uma — amizade muito íntima com esse homem.
LEONARD: (Levantando-se.) Como ousa dizer uma coisa dessas? (O GUARDA levanta-se e tenta conter LEONARD. Este o afasta.) Não é verdade!
JUIZ: O prisioneiro, em seu próprio interesse, permanecerá sentado.
(LEONARD e o GUARDA sentam-se.)
SIR WILFRID: Não me preocupa o teor geral da correspondência. Estou interessado apenas em uma carta específica. (Lendo.) “Meu adorado Max. Aconteceu uma coisa extraordinária. Acho que todos os nossos problemas vão acabar...”
ROMAINE: É mentira — eu nunca escrevi isso. Como é que o senhor conseguiu essa carta? Quem a deu ao senhor?
SIR WILFRID: O método por meio do qual a carta veio ter às minhas mãos é totalmente irrelevante.
ROMAINE: O senhor roubou. Além de mentiroso, é ladrão. Ou será que alguma mulher é que as deu ao senhor? Foi isso, não foi?
JUIZ: Faça o favor de limitar-se a responder às perguntas feitas pelo advogado.
ROMAINE: Mas eu não vou escutar nada disso.
JUIZ: Continue, Sir Wilfrid.
SIR WILFRID: Até aqui a senhora só ouviu a primeira frase da carta. Devo compreender que nega definitivamente tê-la escrito?
ROMAINE: É claro que nunca escrevi isso. É falsa. É um ultraje que eu seja obrigada a ouvir um montão de mentiras — de mentiras inventadas por uma mulher ciumenta.
SIR WILFRID: A minha sugestão é a de que a senhora é que esteve mentindo. A senhora mentiu flagrante e persistentemente neste Tribunal, estando sob juramento. E a razão pela qual mentiu se torna clara por meio — desta carta, que aqui está, em preto e branco, escrita pela senhora.
ROMAINE: O senhor está louco. Por que haveria eu de escrever um monte de asneiras?
SIR WILFRID: Porque diante da senhora abria-se um caminho para a liberdade — e ao planejar trilhar tal caminho o fato de um homem inocente ser condenado à morte não significava nada para a senhora. Imaginou e executou até mesmo o requinte final de, pessoalmente, ferir Leonard Vole com a faca.
ROMAINE: (Furiosa.) Eu nunca escrevi nada disso. Eu escrevi que ele se feriu quando cortava o presunto... (Sua voz some. Todos os olhares do Tribunal se voltam para ela.)
SIR WILFRID: (Triunfante.) Quer dizer então que sabe o que está escrito na carta — mesmo antes de eu a ler.
ROMAINE: Desgraçado! Desgraçado! Maldito!
LEONARD: (Gritando.) Deixe-a em paz. Não a atormente.
ROMAINE: (Olhando selvagemente em torno.) Deixem-me sair daqui — eu quero ir embora. (Sai do recinto das testemunhas. O MEIRINHO levanta-se e segura ROMAINE.)
JUIZ: Meirinho, dê uma cadeira à testemunha. (ROMAINE cai no banco à D da mesa, soluça histericamente e esconde o rosto entre as mãos. O MEIRINHO cruza e senta-se no banco à D.) Sir Wilfrid, agora leia a carta em voz alta para que o júri possa ouvir.
SIR WILFRID: (Lendo.) “Meu adorado Max. Aconteceu uma coisa extraordinária. Acho que todos os nossos problemas vão acabar. Poderei encontrá-lo sem pôr em risco o precioso trabalho que está realizando neste país. A velha de que lhe falei foi assassinada e creio que suspeitam de Leonard. Ele foi lá, mais cedo, na mesma noite, e há impressões digitais dele pela casa toda. A hora parece ter sido nove e meia. Leonard, a essa hora, já estava em casa, mas seu álibi depende de mim — de mim. Suponhamos que eu diga que ele chegou muito mais tarde e que havia sangue em sua roupa — havia mesmo sangue em sua manga, porque ele cortou o pulso na hora do jantar, de modo que tudo se junta direito. Poderei até dizer que ele me confessou que a matou. Oh, Max, meu bem-amado! Diga que posso levar isso avante — seria tão maravilhoso ficar livre de ter de interpretar o papel de esposa amante e grata. Eu sei que a Causa e o Partido vêm em primeiro lugar, mas se Leonard fosse condenado por assassinato, eu podia ir ter com você com toda a tranquilidade e ficaríamos juntos para sempre. Sua apaixonada Romaine.”
JUIZ: Romaine Heilger, quer fazer o favor de voltar ao banco das testemunhas? (Ela volta ao banco das testemunhas.) A senhora ouviu a leitura daquela carta. O que tem a dizer?
ROMAINE: Nada.
LEONARD: Romaine, diga a ele que não escreveu aquilo. Eu sei que você não escreveu.
ROMAINE: (Cuspindo as palavras.) É claro que escrevi.
SIR WILFRID: Meritíssimo, fica então concluído o caso da defesa.
JUIZ: Sir Wilfrid, o senhor tem algum indício a respeito da pessoa a quem essas cartas foram dirigidas?
SIR WILFRID: Meritíssimo, elas chegaram anonimamente às minhas mãos e ainda não houve tempo para verificar quaisquer outros fatos. A impressão que dá é a de que ele tenha entrado ilegalmente no país e esteja engajado em atividades subversivas aqui...
ROMAINE: Vocês jamais descobrirão quem é ele... jamais. Pouco me importa o que possam fazer comigo. Nunca saberão.
JUIZ: Deseja reinquiri-la, Sr. Myers?
MYERS: (Levantando-se.) Na verdade, Meritíssimo, julgo que seria um tanto difícil, em vista desses últimos dados surpreendentes. (Para ROMAINE.) Sra. Heilger, creio que tem temperamento extremamente nervoso. Sendo estrangeira pode ser que não compreenda integralmente as responsabilidades que repousam sobre a sua pessoa quando presta um juramento diante de uni tribunal inglês. Se acaso foi intimidada a ponto de confessar alguma coisa que não fez, se escreveu uma carta em circunstâncias de grande tensão ou dentro de alguma ideia de um mundo de fantasias, não hesite em dizê-lo agora.
ROMAINE: Será necessário continuar a me torturar? Eu escrevi a carta. Agora deixem-me ir embora.
MYERS: Meritíssimo. Sugiro que a testemunha está em tal estado de agitação que dificilmente saberá o que está dizendo ou admitindo.
JUIZ: Poderá lembrar-se, Sr. Myers, que Sir Wilfrid advertiu a testemunha antes de seu depoimento anterior e salientou-lhe a natureza sagrada do juramento que prestara. (MYERS senta-se.) Sra. Heilger, desejo avisá-la de que este não será o fim da questão. Neste país não se pode cometer perjúrio sem responder por ele e posso afirmar-lhe que, sem sombra de dúvida, dentro em breve as medidas cabíveis em caso de perjúrio serão tomadas contra a senhora. A sentença por perjúrio pode ser muito pesada. Pode retirar-se. (ROMAINE desce. O POLICIAL abre aporta, ela sai. O POLICIAL fecha a porta.) Sir Wilfrid, poderá agora dirigir-se ao júri pela defesa?
SIR WILFRID: (Levantando-se.) Senhores Jurados, quando a verdade é clara e evidente, ela fala por si. Não há palavras minhas, estou certo, que pudessem acrescentar algo à impressão causada pelo depoimento simples e correto prestado pelo réu e pela maldosa, pecaminosa, tentativa feita para incriminá-lo, segundo o testemunho que acabaram de ouvir...
(Enquanto SIR WILFRID fala as luzes baixam até apagarem-se por completo. Após alguns segundos, as luzes se acendem. Os JURADOS, que haviam saído, estão retomando seus lugares.)
ESCRIVÃO: (Levantando-se.) Vole, levante-se. (LEONARD levanta-se.) Senhores Jurados, estão todos de acordo quanto ao seu veredicto?
1° JURADO: (Levantando-se.) Estamos.
ESCRIVÃO: E consideram o réu, Leonard Vole, culpado ou inocente?
1° JURADO: Inocente, Meritíssimo. (Murmúrios de aprovação no Tribunal)
MEIRINHO: Silêncio!
JUIZ: Leonard Vole, o senhor foi considerado inocente do assassinato de Emily French ocorrido a 14 de outubro último. Fica portanto dispensado e está livre para deixar o Tribunal. (Levanta-se.)
(Todos ficam de pé. O JUIZ curva-se para o Tribunal e sai à DA, seguido do VEREADOR e do ESCRIVÃO DO JUIZ.)
MEIRINHO: Todos aqueles que tiverem mais a tratar diante dos juízes de audiências e julgamentos criminais de nossa senhora a Rainha, na jurisdição do Tribunal Criminal Central, podem partir e apresentar-se novamente amanhã às dez horas e trinta minutos da manhã. Deus salve a Rainha.
(O MEIRINHO, os JURADOS e o TAQUÍGRAFO saem pela EB. Os ADVOGADOS, ASSISTENTES e o ESCRIVÃO DO TRIBUNAL saem ao CA. O GUARDA e o POLICIAL saem pela EA. LEONARD sai do banco dos réus e cruza até MAYHEW.)
MAYHEW: Parabéns, meu rapaz.
LEONARD: Não sei como agradecer.
MAYHEW: (Indicando SIR WILFRID.) Este é o homem a quem terá de agradecer.
(LEONARD cruza para SIR WILFRID, porém dá de cara com MYERS, que lhe lança um olhar furioso e sai ao CA. SIR WILFRID cruza até LEONARD.)
LEONARD: (Para SIR WILFRID.) Muito obrigado, Sir Wilfrid. (Seu tom é menos espontâneo do que quando falava com MAYHEW. Parece não gostar muito de SIR WILFRID.) O senhor — senhor me tirou de uma encrenca dos diabos.
SIR WILFRID: Encrenca dos diabos! Ouviu essa, John? Seus problemas agora já acabaram, meu rapaz.
MAYHEW: Mas foi por pouco, sabe?
LEONARD: É, foi sim.
SIR WILFRID: Se nós não tivéssemos conseguido quebrar aquela mulher...
LEONARD: Era necessário o senhor atacá-la daquele jeito? Foi uma coisa horrível vê-la ali, aos pedaços. Eu não consigo acreditar...
SIR WILFRID: Escute aqui, Vole. Não é o primeiro rapaz que conheço louco por uma mulher a ponto de tornar-se cego quanto à sua verdadeira personalidade. Aquela mulher fez tudo o que pôde para amarrar uma corda no seu pescoço.
MAYHEW: É melhor que não o esqueça.
LEONARD: Mas por quê? Eu não compreendo. Ela sempre pareceu tão devotada a mim. Eu jurava que ela me amava — e, no entanto, esse tempo todo ela estava encontrando com esse outro sujeito. É inacreditável — há qualquer coisa na história toda que eu não compreendo.
GUARDA: (Entra pela EA.) Só mais uns minutinhos, senhor. Nós os faremos sair pela porta do lado.
LEONARD: Ainda há muita gente lá fora?
(ROMAINE, escoltada pelo POLICIAL, entra à EA.)
POLICIAL: É melhor a senhora esperar aqui. Aquela gente toda lá fora está perigosa. Eu, se fosse a senhora, esperava todos irem embora para sair.
ROMAINE: Obrigada.
(O GUARDA e o POLICIAL saem à EA. ROMAINE cruza na direção de LEONARD.)
SIR WILFRID: (Interceptando-a.) Nada disso.
ROMAINE: O senhor está tentando proteger Leonard de mim? Realmente, não há necessidade.
SIR WILFRID: A senhora já fez todo o mal suficiente.
ROMAINE: Não posso sequer dar parabéns a Leonard por estar livre?
SIR WILFRID: Não graças à senhora.
ROMAINE: E, além do mais, rico.
LEONARD: Rico?
MAYHEW: Sim, eu creio, Sr. Vole, que sem dúvida irá herdar muito dinheiro.
LEONARD: (Jeito de garoto.) Dinheiro não parece significar muita coisa, depois de tudo por que passei. Romaine, eu não compreendo...
ROMAINE: (Tranquila.) Leonard, eu posso explicar...
SIR WILFRID: Não! (Ele e ROMAINE se olham como dois antagonistas.)
ROMAINE: Diga-me. Tudo aquilo que o Juiz falou quer dizer que eu — eu irei para a prisão?
SIR WILFRID: A senhora certamente será acusada de perjúrio e julgada. É provável que vá para a prisão.
LEONARD: Estou certo de que — que tudo vai ficar bem, Romaine. Não se preocupe.
MAYHEW: Será que nunca vai criar juízo, Vole? Agora é hora de pensar em coisas mais práticas — como a aprovação do testamento.
(MAYHEW desce com LEONARD para a DB, onde conversam em tom baixo. SIR WILFRID e ROMAINE permanecem, medindo-se mutuamente.)
SIR WILFRID: Talvez a interesse saber que vi quem era desde o nosso primeiro encontro. Naquela hora resolvi que haveria de vencê-la em seu próprio jogo e, por Deus, consegui. Consegui libertá-lo — apesar da senhora.
ROMAINE: Apesar de mim...
SIR WILFRID: Não vai negar, vai, que fez tudo para que ele fosse enforcado?
ROMAINE: Eles iriam acreditar em mim se eu dissesse que ele estava em casa naquela noite? Iriam?
SIR WILFRID: (Ligeiramente constrangido.) E por que não?
ROMAINE: Porque diriam a si mesmos: aquela mulher ama aquele homem — por ele, ela faria qualquer coisa. Teriam pena de mim, sem dúvida. Mas não acreditariam em mim.
SIR WILFRID: Se estivesse dizendo a verdade, acreditariam.
ROMAINE: Será? (Pausa.) Eu não queria que sentissem pena — queria que não gostassem de mim, que desconfiassem de mim, que se convencessem que eu era mentirosa. E então, quando minhas mentiras fossem reveladas — então eles acreditariam... (Com o tom vulgar da MULHER que visitou o escritório de SIR WILFRID.) Então agora já sabe da história toda, velhinho — quer me dar um beijo?
SIR WILFRID: (Estarrecido.) Meu Deus!
ROMAINE: (Novamente em tom natural.) Sim, a mulher das cartas. Eu as escrevi. Eu as levei para o senhor. Eu era aquela mulher. Não foi o senhor quem conquistou a liberdade de Leonard. Fui eu. E por isso irei para a prisão. Mas quando tudo acabar Leonard e eu seremos felizes novamente — juntos, nos amando.
SIR WILFRID: (Comovido.) Mas, minha cara... Por que não confiou em mim? Nós acreditamos, sabe, que o sistema da justiça inglesa defende a verdade. Nós o teríamos livrado.
ROMAINE: Isso era um risco que eu não podia correr. (Lentamente.) Sabe, o senhor pensava que ele era inocente.
SIR WILFRID: (Com admiração.) Enquanto que a senhora sabia que ele era inocente. Eu entendo...
ROMAINE: Mas não entendeu tudo. Eu sabia que ele era culpado.
SIR WILFRID: (Estarrecido.) E não tem medo?
ROMAINE: Medo?
SIR WILFRID: De ligar sua vida à de um assassino.
ROMAINE: O senhor não compreende — nós nos amamos.
SIR WILFRID: Na primeira vez em que nos encontramos, eu disse que a senhora era uma mulher notável — não vejo motivos para mudar de opinião. (Cruza e sai ao CA.)
GUARDA: (Fora, à EA.) Não adianta entrar, moça. Já acabou tudo.
(Há certo movimento fora, à EA, depois uma MOÇA entra, de lá, correndo. E uma loura-morango muito jovem, de atrativos baratos e óbvios. Corre para LEONARD por entre os bancos dos advogados e encontra-o ao CB.)
MOÇA: Len, meu amor, você está livre. (Abraça-o.) Não é maravilhoso? Eles queriam me segurar lá fora. Querido, tem sido horrível. Eu estava ficando maluca.
ROMAINE: Leonard — quem — é — essa — moça?
MOÇA: (Desafiadora, para ROMAINE.) Sou a garota de Len. Eu sei tudo a seu respeito. Você não é mulher dele. Nunca foi. Você é muito mais velha do que ele, mas conseguiu agarrá-lo e tem feito tudo para fazer ele ser enforcado. Mas agora tudo isso acabou. (Para LEONARD.) Nós vamos para o estrangeiro, como você disse, em um daqueles cruzeiros — vamos ver todas aquelas coisas lindas. Vamos nos divertir à vontade.
ROMAINE: Isso é — verdade? Ela é sua garota, Leonard?
LEONARD: (Hesita, depois decide que a situação tem de ser aceita.) É. E, sim.
ROMAINE: Depois de tudo o que eu fiz por você. O que é que ela pode fazer por você que se compare com isso?
LEONARD: (Abandonando todos os disfarces de sua personalidade e revelando uma grosseria brutal.) Ela tem menos quinze anos do que você. (Ri. ROMAINE reage como se tivesse sido chicoteada.) Consegui o dinheiro. Fui absolvido, de modo que não posso ser julgado de novo, e é melhor calar essa boca se não quiser arranjar um julgamento por cumplicidade. (Vira-se para a MOÇA e abraça-a.)
ROMAINE: (Pega a faca na mesa. Atira a cabeça para trás com repentina dignidade.) Não; isso não vai acontecer. Eu não serei julgada por cumplicidade. Nem serei julgada por perjúrio. Serei julgada por assassinato... (apunhala LEONARD pelas costas)... o assassinato do único homem a quem amei. (LEONARD cai. A MOÇA grita. MAYHEW inclina-se sobre LEONARD, sente seu pulso e sacode a cabeça. ROMAINE olha para a cadeira do JUIZ.) Culpada, Meritíssimo.
(CAI O PANO)
Produzida por Peter Saunders e apresentada no Winter Garden Theatre,
em Londres, em 28 de outubro de 1953, com o seguinte elenco:
(Por ordem de entrada em cena)
GRETA, datilógrafa de Sir Wilfrid Rosalie Westwater
CARTER, chefe do escritório de Sir Wilfrid Walter Horsbrugh
SR. MAYHEW, advogado Milton Rosmer
LEONARD VOLE Derek Blomfield
SIR WILFRID ROBARTS, Q.C David Home
INSPETOR HEARNE David Raven
DETETIVE À PAISANA Kenn Kennedy
ROMAINE Patrícia Jessel
ESCRIVÃO DO TRIBUNAL Philip Holles
JUIZ WAINWRIGHT Percy Marmont
VEREADOR Walter Horsburg
SR. MYERS, Q.C D. A. Clarke-Smith
MEIRINHO Nicolas Tannar
TAQUÍGRAFO DO TRIBUNAL John Bryning
GUARDA DO PRISIONEIRO Denzil Ellis
ESCRIVÃO DO JUIZ Muir Little
1° ADVOGADO George Dudley
2° ADVOGADO Jack Bulloch
3° ADVOGADO Lionel Gadsden
4° ADVOGADO John Farries Moss
5° ADVOGADO Richard Coke
6° ADVOGADO Agnes Fraser
1° JURADO Lauderdale Beckett
2° JURADO Iris Fraser Foss
3° JURADO Kenn Kennedy
UM POLICIAL David Homewood
DR. WYATT, médico da polícia Graham Stuart
JANET MACKENZIE Jean Stuart
SR. CLEGG, assistente de laboratório Peter Franklin
A OUTRA MULHER Rosemary Wallace
Direção de WALLACE DOUGLAS
Cenografia de MICHAEL WEIGHT
Produzida em Nova Iorque por Gilbert Miller e Peter Saunders e
apresentada no Henry Miller’s Theatre a 16 de dezembro de 1954, com o
seguinte elenco:
(Por ordem de entrada em cena)
CARTER Gordon Nelson
GRETA Mary Barclay
SIR WILFRID ROBARTS, Q.C Francis L. Sullivan
SR. MAYHEW Robin Craven
LEONARD VOLE Gene Lyons
INSPETOR HEARNE Claude Horton
DETETIVE À PAISANA Ralph Leonard
ROMAINE Patricia Jessel
3° JURADO Dolores Rashid
2° JURADO Andrew George
1° JURADO Jack Bittner
MEIRINHO Arthur Oshlag
ESCRIVÃO DO TRIBUNAL Ronald Dawson
SR. MYERS, Q.C Ernest Clark
SR. JUIZ WAINWRIGHT Horace Braham
VEREADOR R. Cobden-Smith
ESCRIVÃO DO JUIZ Harold Webster
TAQUÍGRAFA DA CORTE W.H. Thomas
GUARDA DO PRISIONEIRO Ralph Roberts
ADVOGADO Henry Craig Neslo
ADVOGADO Brace Conning ADVOGADO Ruth Green
ADVOGADO Albert Richards ADVOGADO Franklyn Monroe
ADVOGADO Sam Kramer
POLICIAL Bryan Herbert
DR. WYATT Guy Spaul
JANET MACKENZIE Una
O’Connor
SR. CLEGG Michael McAloney A OUTRA MULHER Dawn Steinkamp
Direção de ROBERTS LEWIS
Cenografia de RAYMOND SOVEY
Fontes arquivo .doc
Formatação .ePub
2013
Você terminou Testemunha da Acusação
Agatha Christie