Testemunha da Acusação

Agatha Christie · Capítulo 6 de 7

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Testemunha da Acusação

Ato Dois

 

CENÁRIO: Tribunal Criminal Central de Londres, mais conhecido como

Old Bailey. Seis semanas mais tarde. Manhã.

O trecho visível da sala do Tribunal tem uma plataforma alta, que é a

mesa do Tribunal, correndo da EB ao CA. Nela estão as cadeiras de braços e mesas para o juiz, seu escrivão e o vereador. Tem-se acesso a essa plataforma por uma porta no canto à DA e por degraus, à DA, subindo do chão do Tribunal. Abaixo da plataforma estão pequenas mesas e cadeiras para o escrivão do Tribunal e para o taquígrafo do Tribunal. Há um banquinho à D das escrivaninhas para o meirinho. O banco das testemunhas fica logo abaixo da porta ao CA da plataforma. Ao CA, uma porta leva ao vestiário dos advogados e, à EA, uma porta de duas folhas, envidraçada, leva a um corredor e outras partes do edifício. Ao CE, entre as portas, há dois bancos, em degraus, para os advogados, e, abaixo destes, uma mesa, com três cadeiras e um banco. O recinto do banco fica à E e entra-se para ele por uma porta na parede à E e uma cancela na balaustrada ao alto. Há cadeiras para o réu e um guarda. O recinto do júri fica à DB, sendo que só as costas de três assentos são visíveis pela plateia.

Quando o pano sobe, o Tribunal está em sessão. O Juiz, o MERITÍSSIMO

WAINWRIGHT, está ao C, o ESCRIVÃO, à sua D e o VEREADOR, à sua E. O ESCRIVÃO DO TRIBUNAL e o TAQUÍGRAFO estão em seus lugares. O SR. MYERS, Q.C., pela promotoria, está sentado à D da fila da frente de advogados, com seu assistente à sua E. SIR WILFRID, pela defesa, está sentado à E da fila da frente, com seu assistente à sua D. Quatro advogados, um deles uma mulher, estão sentados na segunda fila dos assentos para advogados. LEONARD está de pé, no banco dos réus, com o guarda a seu lado. O DR. WYATT está sentado no banquinho à D da mesa. O INSPETOR está sentado na cadeira acima da extremidade da mesa. MAYHEW está sentado à E da mesa. Um POLICIAL está de pé junto à porta envidraçada. Três jurados são vistos: O PRIMEIRO é o que falará por todos, o segundo é uma MULHER e o TERCEIRO, um homem. O MEIRINHO está tomando o juramento da jurada, que está de pé.

JURADA: (Segurando a Bíblia e o cartão com o juramento.) ...senhora a Rainha e o réu neste julgamento que está sob minha custódia e darei um veredicto fiel segundo as provas. (Entrega a Bíblia e o cartão ao MEIRINHO e se senta.) (O MEIRINHO entrega a Bíblia e o cartão ao 1° JURADO.)

JURADO: (Levantando-se.) Juro, por Deus Todo-Poderoso, que eu julgarei bem e verdadeiramente e trarei acerto entre nossa soberana senhora a Rainha e o réu neste julgamento que está sob minha custódia e darei um veredicto fiel segundo as provas. (Entrega a Bíblia e o cartão ao MEIRINHO e se senta.)

(O MEIRINHO coloca a Bíblia e o cartão sobre a balaustrada do recinto do júri, depois vai sentar-se em seu banquinho à DB.)

ESCRIVÃO: (Levantando-se.) Leonard Vole é indiciado sob acusação do assassinato de Emily Jane French, no dia 14 de outubro, no condado de Londres. O que diz, Leonard Vole, é culpado ou inocente?

LEONARD: Inocente.

ESCRIVÃO: Senhores jurados, o réu foi indiciado como autor do assassinato, no dia 14 de outubro, de Emily Jane French. Diante de tal acusação ele se declarou inocente, e é tarefa dos senhores dizer, após ter ouvido as provas, se ele é ou não culpado. (Manda LEONARD sentar-se, com um gesto, depois também se senta. MYERS levanta-se.)

JUIZ: Um momento, Sr. Myers. (MYERS curva-se ante o JUIZ e torna a sentar-se. Para o júri.) Senhores Jurados, o momento adequado para dirigir-me aos senhores, resumir as provas e instruí-los quanto à lei é sempre após haverem os senhores ouvido todos os depoimentos. Entretanto, como tem havido considerável publicidade acerca deste caso na imprensa, gostaria apenas de dizer-lhes o seguinte, agora: cada um dos senhores segundo o juramento prestado há pouco, assumiu o compromisso de julgar este caso segundo as provas. Isso significa os depoimentos e as provas que os senhores vão ouvir e ver. Significa que não devem levar em consideração qualquer coisa que tenham visto ou ouvido antes de prestarem o juramento. Devem afastar de suas mentes tudo a não ser o que acontecerá neste Tribunal. Não devem deixar qualquer outra coisa influenciar suas mentes a favor ou contra o réu. Estou certo de que cumprirão conscienciosamente seu dever, do modo que acabo de sugerir. Pois não, Sr. Myers.

(MYERS levanta-se, pigarreia e ajeita a cabeleira exatamente do modo que SIR WILFRID imitou na cena anterior.)

MYERS: Às suas ordens, Meritíssimo. Senhores Jurados, represento neste caso, com meu nobre colega Sr. Barton, a Promotoria, enquanto que meus nobres colegas Sir Wilfrid Robarts e Sr. Brogan-Moore, a defesa. Trata-se de um caso de assassinato. Os fatos são simples e, até certo ponto, não são contestados. Serão informados, aqui, de que o réu, um homem jovem e, poderão pensar alguns, não destituído de atrativos, veio conhecer a Srta. Emily French, uma mulher de cinquenta e seis anos. Que ele foi tratado por ela com bondade e, até mesmo, afeição. Quanto à natureza dessa afeição, os senhores terão de tirar suas próprias conclusões. O Dr. Wyatt irá declarar que, em sua opinião, a morte ocorreu a algum momento entre as nove e meia e as dez horas da noite de 14 de outubro último. Ouvirão, igualmente, o depoimento de Janet Mackenzie, que era a governanta fiel e devotada da Srta. French. O dia 14 de outubro — uma sexta-feira — era dia de saída de Janet Mackenzie, mas nessa ocasião aconteceu voltar ela a casa por alguns instantes às nove horas e vinte cinco minutos. Ela entrou com sua própria chave e ao subir as escadas passou pela porta da sala de estar. Ela lhes dirá que na sala de estar ouviu as vozes da Srta. French e do réu, Leonard Vole.

LEONARD: (Levantando-se.) Não era eu!

(O GUARDA segura LEONARD e obriga-o a sentar-se novamente.)

MYERS: Janet Mackenzie ficou surpreendida, já que, ao que soubesse, a Srta. French não esperava que Leonard Vole a visitasse naquela noite. Entretanto, saiu novamente e, quando finalmente voltou, às onze horas, encontrou a Srta. Emily French assassinada, a sala em desordem, uma janela quebrada e as cortinas esvoaçando loucamente. Apavorada, Janet Mackenzie imediatamente chamou a polícia. Devo dizer-lhes que o réu foi preso a 20 de outubro. A Promotoria afirma que a Srta. Emily French foi assassinada entre as nove e meia e as dez horas da noite, a 14 de outubro, por golpe na nuca e que esse golpe foi desferido pelo réu. Chamarei agora o Inspetor Hearne.

(O INSPETOR levanta-se. Tem na mão uma pasta de arquivo, cheia de papéis, aos quais vai referir-se com frequência durante a cena. Ele entrega uma folha datilografada ao ESCRIVÃO e uma outra ao TAQUÍGRAFO. Depois dirige-se ao banco das testemunhas. O MEIRINHO se levanta, vai até a testemunha. O INSPETOR pega o cartão com o juramento que está pousado no parapeito do recinto destinado às testemunhas.)

INSPETOR: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. Robert Hearne, Inspetor Detetive, Departamento de Investigações Criminais, New Scotland Yard. (Recoloca o cartão e a Bíblia no parapeito. O MEIRINHO volta a seu lugar.)

MYERS: Inspetor Hearne, o senhor estava de serviço na noite de 14 de outubro quando houve um chamado de emergência?

INSPETOR: Sim, senhor.

MYERS: E o que fez então?

INSPETOR: Dirigi-me, com o Sargento Randell, ao n° 23, Ashburn Grove. Fui admitido na casa e verifiquei que sua ocupante, que mais tarde identifiquei como a Srta. Emily French, estava morta. Ela estava deitada de bruços e havia recebido ferimentos graves na parte posterior da cabeça. Verifiquei que foi feita uma tentativa de forçar uma das janelas com um instrumento que poderia ter sido um formão. A janela foi quebrada perto do trinco. O vidro espalhava-se pelo chão e posteriormente também encontrei fragmentos de vidro no chão do lado de fora da janela.

MYERS: Há alguma significação especial no fato de ter encontrado fragmentos de vidro tanto do lado de dentro quanto do lado de fora da janela?

INSPETOR: O vidro quebrado do lado de fora não é coerente com a hipótese da janela ter sido forçada pelo lado de fora.

MYERS: O senhor quer dizer que, caso ela tenha sido forçada pelo lado de dentro, houve uma tentativa de dar a impressão de que ela foi forçada pelo lado de fora?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Objeção. O meu nobre colega está pondo palavras na boca da testemunha. É realmente necessário que ele observe as regras de depoimento. (Torna a sentar-se.)

MYERS: (Para o INSPETOR.) O senhor já se ocupou em várias ocasiões de casos de roubo e arrombamento?

INSPETOR: Já, sim, senhor.

MYERS: E, segundo a sua experiência, quando uma janela é forçada pelo lado de fora, onde se encontram habitualmente os estilhaços de vidro?

INSPETOR: Do lado de dentro.

MYERS: Em algum outro caso no qual a janela tenha sido forçada pelo lado de fora, já lhe aconteceu alguma vez encontrar estilhaços de vidro no chão, do lado de fora, a alguma distância da janela?

INSPETOR: Não.

MYERS: Não. Quer fazer o favor de continuar?

INSPETOR: Foi feita uma busca, foram tiradas fotografias e tiraram-se impressões digitais de todo o local.

MYERS: De quem eram as impressões digitais?

INSPETOR: Da Srta. French, de Janet Mackenzie e algumas outras que, posteriormente, constatou-se serem as do réu, Leonard Vole.

MYERS: Mais nenhuma outra?

INSPETOR: Nenhuma.

MYERS: Posteriormente o senhor teve uma entrevista com Leonard Vole?

INSPETOR: Tive, sim, senhor. Janet Mackenzie não soube dar-me seu endereço, mas, depois de um apelo pelo rádio e pelos jornais, o Sr. Leonard Vole veio procurar-me.

MYERS: E no dia 20 de outubro, ao ser preso, o que disse o prisioneiro?

INSPETOR: Disse “O.K. Estou pronto.”

MYERS: O senhor disse, Inspetor, que a sala tinha o aspecto de um local onde um roubo tivesse sido cometido?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Exatamente isso foi o que o Inspetor não disse. (Para o JUIZ.) Se o Meritíssimo ainda se lembra, isso foi apenas uma sugestão feita pelo meu colega — aliás muito indevidamente — à qual fiz objeções.

JUIZ: Sim, absolutamente correto, Sir Wilfrid. Ao mesmo tempo não estou certo de que o Inspetor não tenha o direito de testemunhar quanto a fatos que possam levar a provar que a desordem na sala não foi resultado de uma tentativa de arrombamento com intuito de roubo.

SIR WILFRID: Meritíssimo, respeitosamente concordo com o que disse V. Excia., mas insisto em que esse testemunho não seja apenas mera expressão de opinião e ainda mais nem sequer corroborada por fatos. (Senta-se.)

MYERS: É possível, Meritíssimo, que, se eu enunciasse minha pergunta da seguinte maneira, o meu colega ficasse mais satisfeito: Inspetor, era-lhe possível determinar, pelo que viu na sala, se tinha ou não havido um arrombamento bona fide da casa, feito de fora para dentro?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, é realmente necessário que eu continue objetando. Meu nobre colega está novamente tentando obter uma opinião da testemunha. (Senta-se.)

JUIZ: Muito bem. Sr. Myers, tenho a impressão de que o senhor deve conseguir algo melhor do que isso.

MYERS: Inspetor, o senhor encontrou alguma coisa que o levasse a considerar implausível a hipótese de arrombamento pelo lado de fora?

INSPETOR: Apenas o vidro, meu senhor.

MYERS: Nada mais?

INSPETOR: Não, senhor; nada mais.

JUIZ: Parece que nesse ponto não chegamos a lugar algum, Sr. Myers.

MYERS: A Srta. French estava usando alguma joia valiosa?

INSPETOR: Um broche e dois anéis de brilhantes, valendo cerca de novecentas libras.

MYERS: Que não foram tocados?

INSPETOR: Exato.

MYERS: Na realidade foi roubada alguma coisa?

INSPETOR: Segundo Janet Mackenzie não faltava absolutamente nada.

MYERS: Segundo sua experiência, Inspetor, quando alguém arromba uma casa, é costume esse alguém ir embora sem levar nada?

INSPETOR: Não; a não ser que seja interrompido por algum motivo.

MYERS: Neste caso, porém, ao que tudo indica, o ladrão não foi interrompido.

INSPETOR: Não, senhor.

MYERS: O senhor tem um paletó para nos apresentar, Inspetor?

INSPETOR: Tenho, sim, senhor.

(O MEIRINHO vai até a mesa, apanha o paletó e entrega-o ao INSPETOR.)

MYERS: É esse?

INSPETOR: É, sim, senhor. (Devolve-o ao MEIRINHO.)

MYERS: Onde o obteve?

INSPETOR: Encontrei-o no apartamento do réu algum tempo depois de sua prisão, e mais tarde entreguei-o ao Sr. Clegg, do laboratório, para que o examinasse e verificasse se tinha manchas de sangue.

MYERS: E, por fim, Inspetor, o senhor tem a apresentar-nos o testamento da Srta. French?

(O MEIRINHO pega o testamento na mesa e entrega-o ao INSPETOR.)

INSPETOR: Tenho, sim, senhor. (Devolve-o ao MEIRINHO.)

MYERS: À exceção de algumas doações, a fortuna foi deixada para o réu?

INSPETOR: Isso mesmo, meu senhor.

MYERS: E qual é o valor líquido da herança?

INSPETOR: Deve ser, pelo que foi possível verificar até o momento, de aproximadamente oitenta e cinco mil libras. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) O senhor diz que as únicas impressões digitais encontradas na sala foram as da própria Srta. French, do réu Leonard Vole e de Janet Mackenzie. De acordo com sua experiência, um ladrão, ao arrombar uma casa, normalmente deixa suas impressões digitais ou tem por costume usar luvas?

INSPETOR: Ele costuma usar luvas.

SIR WILFRID: Invariavelmente?

INSPETOR: Quase que invariavelmente.

SIR WILFRID: Quer dizer que a ausência de impressões digitais em um caso de roubo dificilmente o surpreenderia?

INSPETOR: Não, senhor.

SIR WILFRID: Muito bem. E quanto às marcas de formão na janela, apareciam do lado de fora ou do lado de dentro dos batentes?

INSPETOR: Do lado de fora, senhor.

SIR WILFRID: E isso não é coerente — e digo apenas coerente — com a hipótese de um arrombamento feito pelo lado de fora?

INSPETOR: Ele poderia ter saído da casa depois para fazer as marcas, senhor, ou então fazê-las pelo lado de dentro.

SIR WILFRID: Pelo lado de dentro, Inspetor? E como conseguiria isso?

INSPETOR: Naquele ponto há duas janelas muito juntas. Ambas com batentes de madeira. Seria fácil para qualquer pessoa, estando dentro da sala, debruçar-se e forçar o trinco da outra.

SIR WILFRID: Diga-me, o senhor encontrou algum formão perto do local do crime ou no apartamento do réu?

INSPETOR: Encontrei sim, senhor. No apartamento do réu.

SIR WILFRID: Ah, sim?

INSPETOR: Mas não combinava com as marcas na janela.

SIR WILFRID: A noite de 14 de outubro foi uma noite de muito vento, não foi?

INSPETOR: Eu realmente não me lembro.

SIR WILFRID: Segundo o meu nobre colega, Janet Mackenzie declarou que as cortinas estavam esvoaçando. Talvez o senhor tenha constatado o fato pessoalmente?

INSPETOR: Bem, sim; sem dúvida, elas estavam esvoaçando.

SIR WILFRID: O que indica que havia muito vento. Consideremos um ponto: se um ladrão houvesse forçado a janela e, depois, aberto a mesma, um pouco do vidro espatifado poderia facilmente ter caído do lado de fora da janela, desde que esta, ao abrir-se, sofresse violento impulso pelo vento. Isso é possível, não é?

INSPETOR: É, sim, senhor.

SIR WILFRID: A violência criminosa, como todos nós sabemos, infelizmente, tem aumentado muito nos últimos tempos. O senhor concordaria com isso?

INSPETOR: Ela tem andado um pouco acima do normal, senhor.

SIR WILFRID: Suponhamos que alguns jovens marginais arrombassem a janela com a intenção de atacar a Srta. French e efetuar um roubo; e, no caso de um deles golpeá-la na cabeça e descobrir que a matara, seria possível que entrassem em pânico e fossem embora sem levar nada? Ou até mesmo que estivessem atrás de dinheiro e tivessem medo de tocar em joias ou coisas desse tipo?

MYERS: (Levantando-se.) Sugiro que seja totalmente impossível ao Inspetor Hearne adivinhar o que se passaria na mente de alguns jovens marginais totalmente hipotéticos que podem muito bem não existir. (Senta-se.)

SIR WILFRID: O réu apresentou-se voluntariamente e fez seu depoimento de livre e espontânea vontade?

INSPETOR: Exatamente.

SIR WILFRID: Inspetor Hearne, poderia ter a bondade de examinar aquela faca? (O MEIRINHO pega a faca e entrega-a ao INSPETOR.) Já viu esta faca antes?

INSPETOR: É possível que sim.

SIR WILFRID: Essa é a faca tirada da mesa da cozinha do apartamento de Leonard Vole e para a qual sua atenção foi chamada pela esposa do réu na primeira vez em que a interrogou.

MYERS: (Levantando-se.) Meritíssimo, para poupar tempo ao Tribunal, permita-me dizer que aceitamos que esta seja a faca na posse de Leonard Vole e mostrada ao Inspetor pela Sra. Vole. (Senta-se.)

SIR WILFRID: Isso é exato, Inspetor?

INSPETOR: É sim, senhor.

SIR WILFRID: E ela é, creio, o que se conhece como uma faca para cortar verduras, na cozinha francesa?

INSPETOR: Creio que sim, senhor.

SIR WILFRID: Por favor, examine com o dedo o fio da faca — com muito cuidado. Concorda que o fio e a ponta estão tão afiados quanto uma navalha?

INSPETOR: Concordo sim, senhor.

SIR WILFRID: E se o senhor estivesse cortando — ou trinchando — alguma coisa, digamos um pedaço de presunto, e se sua mão escorregasse nessa faca, ela seria capaz de cortar sua mão, de fazer nela um bom corte e de provocar sangramento considerável?

MYERS: (Levantando-se.) Objeção. Isso é uma questão de opinião, até mesmo de opinião médica. (Senta-se.)

(O MEIRINHO recebe a faca do INSPETOR.)

SIR WILFRID: Retiro a pergunta. Perguntarei, em vez disso, Inspetor, se o réu, quando interrogado a respeito das manchas de sangue em seu paletó, chamou a sua atenção para uma cicatriz recente em seu pulso e declarou que ela havia sido provocada por um ferimento feito com faca de cozinha enquanto cortava presunto?

INSPETOR: Foi o que ele disse.

SIR WILFRID: E a mesma coisa lhe foi dita pela mulher do réu?

INSPETOR: Da primeira vez. Mais tarde...

SIR WILFRID: Um simples sim ou não, por favor. A mulher do réu, ao mostrar-lhe esta faca, disse que seu marido havia ferido o pulso cortando presunto?

INSPETOR: Disse sim, senhor. (SIR WILFRID senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O que foi que, de início, chamou sua atenção para este paletó, Inspetor?

INSPETOR: A manga parecia ter sido recentemente lavada.

MYERS: E lhe contaram essa história a respeito do acidente com a faca?

INSPETOR: Sim, senhor.

MYERS: E sua atenção foi chamada para a cicatriz no pulso do réu?

INSPETOR: Foi sim, senhor.

MYERS: Dado que a cicatriz tenha sido provocada por um corte com esta faca, não há o que revele se este foi acidental ou deliberado?

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Realmente, Meritíssimo, se o meu nobre colega vai responder a suas próprias perguntas, a presença da testemunha me parece supérflua. (Senta-se.)

MYERS: Retiro a pergunta. Obrigado, Inspetor. (O INSPETOR desce e sai pela porta à EA que o policial fecha assim que ele sai.) Dr. Wyatt.

(O DR. WYATT levanta-se e entra no recinto destinado às testemunhas, levando algumas notas consigo. O MEIRINHO cruza até ele, entrega-lhe a Bíblia e segura o cartão com o juramento.)

WYATT: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (O MEIRINHO retoma a Bíblia e o cartão, recoloca-os no lugar e senta-se.)

MYERS: O senhor é o Dr. Wyatt?

WYATT: Sou.

MYERS: O senhor é médico-legista da polícia, servindo na Divisão de Hampstead?

WYATT: Sim.

MYERS: Dr. Wyatt, poderia ter a bondade de contar ao júri o que sabe a respeito da morte da Srta. Emily French?

WYATT: (Lendo suas notas.) Às onze horas da noite do dia 14 de outubro, eu examinei o corpo da mulher mais tarde identificada como Emily French. Pelo exame do corpo concluí que a morte havia resultado de um golpe na cabeça, com instrumento contundente. A morte seria virtualmente instantânea. Pela temperatura do corpo e outros fatores, situei a hora da morte entre não menos do que uma hora antes, ou, digamos, uma hora e meia antes. Isto é, entre as nove e meia e as dez horas da mesma noite.

MYERS: Houve qualquer luta entre a Srta. French e seu adversário?

WYATT: Não há indícios de que tenha havido. Eu diria que, ao contrário, ela estivesse inteiramente despreparada. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Doutor, exatamente onde, na cabeça, foi desferido o golpe? E foi apenas um golpe, não foi?

WYATT: Apenas um. Na parte esquerda da junção temporal.

SIR WILFRID: Perdão? Onde?

WYATT: Na têmpora esquerda. A junção dos ossos parietal, occipital e temporal.

SIR WILFRID: Ah, sei. E, em linguagem de leigo — onde é que fica isso?

WYATT: Atrás da orelha esquerda.

SIR WILFRID: E isso indicaria que a pessoa que vibrou o golpe é canhota?

WYATT: É difícil determinar. O golpe parece ter sido desferido diretamente por trás, porque o esfolamento corre perpendicularmente. Eu diria que é realmente impossível dizer se o golpe foi desfechado por um homem destro ou canhoto.

SIR WILFRID: Não sabemos ainda se foi aplicado por um homem, doutor. Mas o senhor concorda que, pela posição do golpe, há maiores probabilidades no sentido de que tenha sido desferido por uma pessoa canhota?

WYATT: É possível. Mas eu preferiria dizer que isso é incerto.

SIR WILFRID: No momento em que o golpe foi desferido, é provável que o sangue atingisse a mão e o braço do agressor?

WYATT: Certamente.

SIR WILFRID: E exclusivamente essa mão e esse braço?

WYATT: É possível que exclusivamente essa mão e esse braço, mas é difícil ser dogmático sobre esse ponto.

SIR WILFRID: Muito bem, doutor. E agora, seria necessário muita força para desferir tal golpe?

WYATT: Não. Pela posição do ferimento podemos dizer que não seria preciso muita força.

SIR WILFRID: Não seria necessariamente um homem que poderia desferir tal golpe; uma mulher também poderia fazê-lo?

WYATT: Certamente.

SIR WILFRID: Obrigado. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Obrigado, doutor. (Ao MEIRINHO.) Chame Janet Mackenzie. (WYATT levanta-se e sai à EA. O POLICIAL abre a porta.)

MEIRINHO: Janet Mackenzie.

(JANET MACKENZIE entra à EA. É uma escocesa alta e de ar amargo. Seu rosto é uma máscara sombria. Sempre que olha para LEONARD demonstra ódio e repugnância. O POLICIAL fecha a porta e JANET cruza para o recinto das testemunhas. O MEIRINHO aproxima-se, ela segura a Bíblia com a mão esquerda.)

MEIRINHO: Com a outra mão, por favor. (Segura o cartão com o juramento.)

JANET: (Passando a Bíblia para sua mão direita.) Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Entrega a Bíblia ao MEIRINHO, que a repõe com o cartão sobre o parapeito e volta ao seu lugar.)

MYERS: Seu nome é Janet Mackenzie?

JANET: É. Meu nome é esse.

MYERS: A senhora era acompanhante e governanta da falecida Srta. Emily French?

JANET: Eu era sua governanta. Não tenho nada a ver com acompanhantes, que são umas criaturas molengas, que têm medo de qualquer trabalho doméstico honesto.

MYERS: Exato, exato. Eu quis apenas dizer que a senhora gozava da estima e afeição da Srta. French e vivia em termos amistosos com ela. Não em termos de patroa e empregada.

JANET: (Para o JUIZ.) Fiquei vinte anos com ela, tomando conta dela. Ela me conhecia e confiava em mim e não foi uma nem duas vezes que eu impedi que ela fizesse asneiras!

JUIZ: Srta. Mackenzie, faça o favor de dirigir suas declarações ao júri.

MYERS: Que tipo de pessoa era a Srta. French?

JANET: Tinha o coração quente, às vezes quente demais, eu acho. E um pouco impulsiva, também. Às vezes não tinha juízo de espécie alguma. Sabe, era fácil de ser bajulada.

MYERS: Quando viu o réu, Leonard Vole, pela primeira vez?

JANET: Ele apareceu lá em casa, pelo que me lembro, no fim de agosto.

MYERS: Quantas vezes ele esteve naquela casa?

JANET: A princípio uma vez por semana, depois, mais. Às vezes, dois ou três dias por semana. E ficava lá, sentado, bajulando a pobre, dizendo que ela parecia moça e reparando na roupa que ela usava.

MYERS: (Um tanto precipitadamente.) Certo, certo. Será que poderia agora, Srta. Mackenzie, com suas próprias palavras, falar ao júri a respeito dos acontecimentos do dia 14 de outubro?

JANET: Era uma sexta-feira, dia de minha folga à noite. Fui visitar uma amiga minha em Glenister Road, que fica só a uns três minutos da casa, a pé. Eu tinha prometido à minha amiga levar a receita de um casaco de tricô de que ela gostava muito. Quando cheguei lá, verifiquei que tinha esquecido a receita, de modo que, depois do jantar, eu disse que daria um pulinho em casa. Cheguei lá, às nove e vinte e cinco. Entrei com minha própria chave e subi para o meu quarto. Quando passei pela porta da sala ouvi o réu lá dentro, conversando com a Srta. French.

MYERS: Tem certeza de que foi a voz do réu que a Senhorita ouviu?

JANET: Tenho. Conheço muito bem a voz dele depois de tantas visitas! Uma voz muito agradável, não vou dizer que não. Estavam falando e rindo. Mas como não era da minha conta, subi, peguei a receita do tricô, desci, saí e voltei para a casa da minha amiga.

MYERS: Bem, eu quero que seja muito precisa a respeito das horas. Disse que tornou a entrar em casa às nove horas e vinte e cinco minutos.

JANET: E. Foi logo depois das nove e vinte que eu saí de Glenister Road.

MYERS: E como sabe disso, Srta. Mackenzie?

JANET: Pelo relógio que fica em cima da lareira da casa da minha amiga, que eu comparei com o meu relógio para ver se estavam iguais.

MYERS: A Senhorita diz que leva apenas três ou quatro minutos para fazer este trajeto de modo que entrou na casa às nove horas e vinte e cinco minutos e permaneceu lá...

JANET: Um pouco menos de dez minutos. Levei alguns minutos para encontrar a receita, porque não me lembrava bem onde a deixara.

MYERS: E o que fez então?

JANET: Voltei à casa da minha amiga. Ela gostou muito da receita do tricô. Mas muito, mesmo. Eu fiquei lá até as vinte para as onze e então disse boa-noite a eles e voltei para casa. Fui até a sala para ver se minha patroa queria alguma coisa antes de ir deitar-se.

MYERS: E o que viu?

JANET: Lá estava ela no chão, pobre-coitada, com a cabeça toda amassada, e todas as gavetas da escrivaninha no chão, tudo jogado por toda parte, o vaso quebrado no chão e as cortinas esvoaçando.

MYERS: E o que foi que a Senhorita fez?

JANET: Chamei a polícia.

MYERS: E pensou, realmente, que tivesse havido um roubo?

SIR WILFRID: (Levantando-se de um salto.) Realmente, Meritíssimo, tenho de protestar. (Senta-se.)

JUIZ: Não permitirei que essa pergunta seja respondida, Sr. Myers. Ela não deveria ter sido feita à testemunha.

MYERS: Então deixe que lhe pergunte isto, Srta. Mackenzie: o que fez depois que chamou a Polícia?

JANET: Revistei a casa.

MYERS: Para quê?

JANET: Para ver se havia algum intruso.

MYERS: E o encontrou?

JANET: Não. Não havia nenhum sinal de qualquer desarrumação, a não ser na sala.

MYERS: O que é que a Senhorita sabia a respeito do réu?

JANET: Sabia que ele precisava de dinheiro.

MYERS: Ele pediu dinheiro à Srta. French?

JANET: Era esperto demais para isso.

MYERS: Ele ajudava a Srta. French em seus negócios — no preenchimento de seu formulário de Imposto de Renda, por exemplo?

JANET: É. Não que fosse necessário.

MYERS: O que quer dizer com não que fosse necessário?

JANET: A cabeça da Srta. French era muito boa e certa para negócios.

MYERS: A Senhorita tinha conhecimento da forma pela qual a Srta. French pretendia dispor de seu dinheiro ao morrer?

JANET: Ela fazia testamentos como lhe dava na cabeça. Era uma mulher rica, tinha muito dinheiro para deixar e não tinha parentes próximos. “É preciso que o dinheiro vá para onde trouxer maiores benefícios”, costumava ela dizer. Às vezes deixava para os órfãos, outras para asilos de velhos, uma outra para hospitais de cachorros e gatos, mas sempre dava na mesma coisa. Brigava com a gente daquele lugar, chegava em casa, rasgava o testamento e fazia outro.

MYERS: Sabe quando ela fez seu último testamento?

JANET: No dia 8 de outubro. Eu a ouvi falando com o Sr. Stokes, o advogado. Dizendo que ele viesse no dia seguinte, que ela ia fazer um novo testamento. Ele estava lá, na hora — quero dizer, o réu — assim meio protestando, dizendo: “Não, não.” (LEONARD rapidamente faz uma anotação.) E a patroa disse: “Mas eu quero, meu querido rapaz. Eu quero. Lembre-se daquele dia em que quase fui atropelada por um ônibus. Pode acontecer a qualquer momento.” (LEONARD inclina-se e entrega a anotação a MAYHEW, e este a SIR WILFRID.)

MYERS: A Senhorita sabe quando é que a sua patroa tinha feito o último testamento antes desse de que nos falou?

JANET: Foi na primavera.

MYERS: A Senhorita sabia que Leonard Vole era casado?

JANET: Claro que não. Nem a patroa, tampouco.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Objeção. O que a Srta. French pudesse ou não saber é pura conjectura por parte de Janet Mackenzie. (Senta-se.)

MYERS: Vamos dizer assim: a Senhorita formou a opinião de que a Srta. French julgava que o Sr. Vole fosse solteiro? Há fatos que comprovem essa sua opinião?

JANET: Os livros que ela mandou buscar na biblioteca. A vida da Baronesa Vurdett Coutts e um a respeito de Disraeli e sua mulher. Todos dois sobre mulheres que se casaram com homens vários anos mais moços do que elas. Eu sabia em que ela estava pensando.

JUIZ: Temo que não possa admitir isso.

JANET: Por quê?

JUIZ: Senhores jurados, é possível que uma mulher leia a vida de Disraeli sem planejar casar-se com um homem mais moço do que ela.

MYERS: Alguma vez, o Sr. Vole mencionou sua mulher?

JANET: Nunca.

MYERS: Obrigado. (Senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se. Gentil e bondoso.) Creio que todos nós apreciamos e avaliamos o quanto a Senhorita era devotada à sua patroa.

JANET: É. Era, mesmo.

SIR WILFRID: E a Senhorita tinha grande influência sobre ela.

JANET: É. Pode ser que sim.

SIR WILFRID: No último testamento que a Srta. French havia feito — quero dizer, naquele que ela fez na última primavera, a Srta. French deixava praticamente toda a sua fortuna para a Senhorita. A Senhorita tinha conhecimento desse fato?

JANET: Ela me contou. “Essas instituições de caridade são todas uma bandalheira só” — foi o que ela disse. “Despesas aqui e despesas ali, e o dinheiro não vai para o objetivo no qual se pensa. Eu o deixei para você, Janet, e você poderá fazer com ele o que achar que for bom e certo.”

SIR WILFRID: O que era uma expressão de grande confiança por parte dela. No atual testamento, se não me engano, ela lhe deixou apenas uma anuidade. O maior beneficiado é o réu, Leonard Vole.

JANET: Vai ser uma injustiça, um pecado, se algum dia ele puser o dedo em um penny daquele dinheiro.

SIR WILFRID: A Senhorita disse que a Srta. French não tinha muitos amigos ou conhecidos. Por que razão?

JANET: Ela não saía muito.

SIR WILFRID: Quando a Srta. French iniciou sua amizade com Leonard Vole, a Senhorita ficou muito ressentida e zangada, não é?

JANET: Eu não gostava de ver ninguém abusar da minha querida patroa.

SIR WILFRID: Mas admitiu que o Sr. Vole não abusava dela. Talvez queira dizer que não gostava de ver que alguém a suplantava em sua influência sobre a Srta. French?

JANET: Ela se apoiava muito nele. Talvez mais do que era seguro, na minha opinião.

SIR WILFRID: Muito mais do que a Senhorita, pessoalmente, gostava?

JANET: Claro. Já disse que sim. Mas eu só estava pensando no bem dela.

SIR WILFRID: Então o réu tinha grande influência sobre a Srta. French, e, ela, uma grande afeição por ele?

JANET: Foi nisso que deu.

SIR WILFRID: Mas ele nunca recebeu dela qualquer soma em dinheiro?

JANET: Pode ser que não, por falta de tentar.

SIR WILFRID: Voltando à noite de 14 de outubro. A Senhorita diz que ouviu o réu e a Srta. French conversando. O que foi que o ouviu dizer?

JANET: Não cheguei a ouvir nada do que ele disse.

SIR WILFRID: Quer dizer então que apenas ouviu vozes — o murmúrio de vozes.

JANET: Eles estavam rindo.

SIR WILFRID: A Senhorita ouviu uma voz de homem e uma de mulher, rindo, foi isso?

JANET: É.

SIR WILFRID: E eu sugiro que foi exatamente isso o que a Senhorita ouviu. A voz de um homem e de uma mulher, rindo. Não ouviu o que estava sendo dito. O que a faz dizer que a voz fosse de Leonard Vole?

JANET: Eu conheço a voz dele muito bem.

SIR WILFRID: A porta estava fechada, não estava?

JANET: É. Estava fechada.

SIR WILFRID: A Senhorita ouviu murmúrio de vozes através de uma porta fechada e jura que uma das vozes era de Leonard Vole. Eu sugiro que isso seja apenas uma suposição de sua parte.

JANET: Era Leonard Vole.

SIR WILFRID: Pelo que eu compreendi, a Senhorita passou duas vezes pela porta, uma ao subir e outra ao descer, para sair?

JANET: É isso mesmo.

SIR WILFRID: A Senhorita, sem dúvida, estava com pressa de pegar sua receita de tricô e voltar para a casa de sua amiga?

JANET: Não estava com tanta pressa assim. Tinha a noite toda.

SIR WILFRID: O que estou sugerindo é que em ambas as ocasiões a Senhorita passou rapidamente pela porta.

JANET: Estive lá o suficiente para ouvir o que ouvi.

SIR WILFRID: Ora, vamos, Srta. Mackenzie, tenho certeza de que não está querendo dar ao júri a impressão de que estivesse escutando atrás da porta.

JANET: Não estava fazendo nada disso. Tenho mais o que fazer com meu tempo.

SIR WILFRID: Exatamente. A Senhorita está inscrita, naturalmente, no Plano Nacional de Seguro de Saúde?

JANET: Estou, sim. Quatro xelins e seis pence por semana, eu tenho de pagar. É uma quantia enorme para uma pobre mulher que trabalha como eu.

SIR WILFRID: Sim, sim; há muita gente que pensa do mesmo modo. Eu creio, Srta. Mackenzie, que recentemente a Senhorita entrou com um pedido para um aparelho auditivo?

JANET: Já faz seis meses que eu pedi e ainda não recebi.

SIR WILFRID: Então sua audição não é muito boa, não é? (Baixa a voz.) Quando digo que não poderia de modo algum reconhecer uma voz através de uma porta fechada, o que me responde? (Pausa.) Pode repetir o que eu disse?

JANET: Eu não escuto quem resmunga.

SIR WILFRID: Na realidade, a Senhorita não escutou o que eu disse, embora eu esteja a apenas alguns passos de distância, em um tribunal aberto. Entretanto, afirma que, por trás de uma porta fechada, com duas pessoas usando tom normal de conversa, a Senhorita positivamente reconheceu a voz de Leonard Vole ao passar por essa mesma porta por duas vezes.

JANET: Era ele. Estou dizendo que era ele.

SIR WILFRID: O que quer dizer é que deseja que tenha sido ele. Porque tem ideias preconcebidas a respeito.

JANET: Então, quem mais poderia ter sido?

SIR WILFRID: Exatamente. Quem mais poderia ter sido? Foi assim que a sua mente raciocinou. E agora, diga-me, Srta. Mackenzie, havia ocasiões em que a Srta. French se sentia solitária, quando ficava sozinha à noite?

JANET: Não, não ficava solitária. Tinha os livros da biblioteca.

SIR WILFRID: E também ouvia rádio?

JANET: É, também ouvia rádio.

SIR WILFRID: Gostava de ouvir uma boa palestra, ou talvez alguma boa peça, pelo rádio?

JANET: É. Gostava de boas peças.

SIR WILFRID: Não seria possível que naquela noite, ao voltar para casa e passar pela porta, o que realmente ouviu tenha sido o rádio ligado, em uma estação na qual a voz de um homem e de uma mulher estivessem rindo? Uma peça chamada A corrida do amor foi transmitida naquela noite.

JANET: Não era o rádio.

SIR WILFRID: E por que não?

JANET: Porque naquela semana o rádio estava na oficina, sendo consertado.

SIR WILFRID: (Levemente abalado.) Deve tê-la perturbado bastante, Srta. Mackenzie, pensar realmente que a Srta. French pudesse casar-se com o réu.

JANET: É claro que me perturbou. Era coisa de gente maluca.

SIR WILFRID: Para início de conversa, se esse casamento tivesse sido realizado, é perfeitamente possível, não é, que ele tivesse persuadido a Srta. French a despedi-la?

JANET: Ela nunca faria uma coisa dessas, depois desses anos todos.

SIR WILFRID: Mas nunca se sabe o que as pessoas são capazes de fazer, não é? Não quando são fortemente influenciadas por alguém.

JANET: Ele teria usado sua influência, ele teria feito tudo para se livrar de mim.

SIR WILFRID: Compreendo. A Senhorita sentia que o réu era uma ameaça muito palpável ao seu modo de vida naquele momento.

JANET: Ele teria mudado tudo.

SIR WILFRID: Sim, isso é muito perturbador. Não é de espantar que tenha ressentimentos tão amargos contra o réu. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Meu nobre colega despendeu muita energia para arrancar da Senhorita uma admissão de sentimentos de vingança contra o réu...

SIR WILFRID: (Sem levantar-se, porém em tom audível para o júri.) Extração sem dor — absolutamente sem dor.

MYERS: (Ignorando-o.) A Senhorita realmente acredita que sua patroa viesse a casar-se com o réu?

JANET: Acredito. Se acredito. Pois não acabo de dizer que sim?

MYERS: Não há dúvida de que acaba. A seus olhos o réu tinha tanta influência sobre a Srta. French que poderia persuadi-la a despedi-la de seu emprego?

JANET: Eu só queria ver ele tentar. Aposto que não conseguiria.

MYERS: O réu demonstrou não gostar da Senhorita, de alguma forma, em alguma ocasião?

JANET: Não, ele tinha bons modos.

MYERS: Apenas mais uma questão. A Senhorita disse que reconheceu a voz de Leonard Vole através da porta fechada. Pode dizer ao júri como sabe que era a voz dele?

JANET: Pode-se reconhecer a voz de uma pessoa sem saber exatamente o que ela está dizendo.

MYERS: Obrigado, Srta. Mackenzie.

JANET: (Para o JUIZ.) Bom-dia. (Desce e sai pela porta à EA.)

MYERS: Chamem Thomas Clegg. (O POLICIAL abre aporta.)

MEIRINHO: Thomas Clegg.

POLICIAL: (Chamando.) Thomas Clegg.

(JANET sai. THOMAS CLEGG entra à EA; carrega um caderno de notas. O POLICIAL fecha a porta. O MEIRINHO pega a Bíblia e o cartão com o juramento. CLEGG vai para o banco das testemunhas, e pega a Bíblia.)

CLEGG: (Dizendo o juramento de cor.) Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei é a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Devolve o cartão e a Bíblia ao MEIRINHO.)

MYERS: O senhor é Thomas Clegg?

CLEGG: Sou sim, senhor.

MYERS: O senhor é assistente no laboratório de medicina legal da New Scotland Yard?

CLEGG: Sim.

MYERS: Reconhece aquele paletó?

(O MEIRINHO pega o paletó.)

CLEGG: Reconheço. Foi-me dado pelo Inspetor Hearne e examinado por mim para a verificação de vestígios de sangue. (O MEIRINHO recoloca o paletó na mesa e senta-se.)

MYERS: Pode dizer-me o que encontrou?

CLEGG: As mangas do paletó haviam sido lavadas, embora não adequadamente passadas, posteriormente; mas, por meio de certos exames, posso afirmar que havia vestígios de sangue nos punhos.

MYERS: Esse sangue é de algum grupo especial?

CLEGG: Sim. (Olha em seu caderno.) É do tipo O.

MYERS: Foi-lhe dada também, para exame, uma amostra de sangue?

CLEGG: Foi-me dado um vidrinho rotulado “Sangue da Srta. Emily French”. O sangue era do mesmo grupo — O. (MYERS torna a sentar-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Diz o senhor que havia vestígios de sangue em ambos os punhos?

CLEGG: Exatamente.

SIR WILFRID: Eu sugiro que havia vestígios de sangue apenas em um dos punhos — o da manga esquerda.

CLEGG: (Olhando seu caderno de notas.) Ah, é. Desculpe. Eu tinha me enganado. Foi apenas no punho esquerdo.

SIR WILFRID: E apenas a manga esquerda foi lavada?

CLEGG: Isso mesmo.

SIR WILFRID: E o senhor está informado de que o réu havia dito à polícia que cortara o pulso e que esse era o sangue que existia em seu paletó?

CLEGG: Sim, fui informado. (SIR WILFRID pega uma certidão da mão de seu assistente.)

SIR WILFRID: Tenho aqui uma certidão de que Leonard Vole é doador de sangue no Hospital do Norte de Londres, e que seu sangue é do grupo O. É o mesmo grupo, não é?

CLEGG: É.

SIR WILFRID: Então o sangue poderia igualmente ter vindo de um corte no pulso do réu?

CLEGG: Realmente. (SIR WILFRID torna a sentar-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O grupo de sangue O é muito comum, não é?

CLEGG: Muito. Pelo menos o de 42% das pessoas pertence ao grupo O.

MYERS: Chamem Romaine Heilger. (CLEGG desce e sai à EA.)

MEIRINHO: Romaine Heilger.

POLICIAL: (Abrindo a porta.) Romaine Heilger.

(CLEGG sai. ROMAINE entra à EA. Há um murmúrio geral de conversa no Tribunal enquanto ela cruza para o banco das testemunhas. O POLICIAL fecha a porta. O MEIRINHO pega a Bíblia e o cartão.)

MEIRINHO: Silêncio! (Entrega a Bíblia a ROMAINE e segura o cartão à sua frente.)

ROMAINE: Juro, por Deus Todo-Poderoso, que o testemunho que darei é a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade.

(O MEIRINHO recebe de volta a Bíblia e o cartão e retoma seu lugar.)

MYERS: Seu nome é Romaine Heilger?

ROMAINE: É.

MYERS: Tem vivido como mulher do réu, Leonard Vole?

ROMAINE: Tenho.

MYERS: E é, efetivamente, sua mulher legal?

ROMAINE: Nós tivemos uma espécie de cerimônia de casamento, em Berlim. Meu antigo marido ainda está vivo, de modo que o casamento não é...

MYERS: Não é válido.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, tenho as mais graves objeções ao fato de se permitir a esta testemunha dar seu depoimento. Nós temos o fato inegável do casamento entre esta testemunha e o réu, e nenhuma prova da existência desse dito casamento anterior.

MYERS: Se meu nobre colega não tivesse abandonado sua costumeira paciência e houvesse esperado mais uma pergunta, o Meritíssimo teria sido poupado dessa nova interrupção. (SIR WILFRID senta-se.) Sra. Heilger, esta é uma certidão de seu casamento com Otto Gerthe Heilger, realizado a 14 de abril de 1946 em Leipzig? (O MEIRINHO se levanta, leva a certidão e mostra-a a ROMAINE.)

ROMAINE: É.

JUIZ: Eu gostaria de ver a certidão. (O MEIRINHO entrega a certidão ao ESCRIVÃO, que a entrega ao JUIZ.) Esta será aprova número 4, se não me engano.

MYERS: Creio que sim, Meritíssimo.

JUIZ: (Após examinar o documento.) Creio, Sir Wilfrid, que a testemunha tem a devida competência para depor. (Entrega a certidão ao ESCRIVÃO.)

(O ESCRIVÃO leva a certidão ao MEIRINHO, e este, a MAYHEW. O MEIRINHO volta a seu lugar. MAYHEW mostra a certidão a SIR WILFRID.)

MYERS: De qualquer forma, Sra. Heilger, a senhora está disposta a depor contra o homem que vem chamando de seu marido?

ROMAINE: Perfeitamente disposta. (LEONARD se levanta, imitado pelo GUARDA.)

LEONARD: Romaine! O que é que você está fazendo aqui? — o que é que está dizendo?

JUIZ: É preciso que haja silêncio. Como o seu advogado poderá informá-lo, Sr. Vole, dentro de muito pouco tempo o senhor terá a oportunidade de falar em sua própria defesa. (LEONARD e o GUARDA tornam a sentar-se.)

MYERS: (Para ROMAINE.) Quer relatar, com suas próprias palavras, o que aconteceu na noite de 14 de outubro?

ROMAINE: Eu passei toda a noite em casa.

MYERS: E Leonard Vole?

ROMAINE: Leonard saiu às sete e meia.

MYERS: E a que horas ele voltou?

ROMAINE: Às dez horas e dez minutos. (LEONARD e o GUARDA levantam-se.)

LEONARD: Isso não é verdade. Você sabe que não é verdade. Eu cheguei em casa por volta das nove e vinte e cinco. (MAYHEW se levanta e segreda a LEONARD para que fique quieto.) Quem é que a está obrigando a dizer isso? Eu não compreendo. (Ele se encolhe, pondo o rosto entre as mãos, quase sussurrando.) Eu — não compreendo. (Torna a sentar-se. MAYHEW e o GUARDA sentam-se.)

MYERS: Leonard Vole voltou, a senhora disse, às dez horas e dez minutos? E então o que aconteceu?

ROMAINE: Ele estava com a respiração alterada, muito excitado. Arrancou o paletó e examinou as mangas. Depois disse-me para lavar os punhos. Estavam sujos de sangue.

MYERS: Ele falou a respeito do sangue?

ROMAINE: Ele disse: “Droga, estão sujos de sangue.”

MYERS: E o que foi que a senhora disse?

ROMAINE: Eu disse: “O que foi que você fez?”

MYERS: E o que foi que o réu respondeu?

ROMAINE: Ele respondeu: “Eu a matei.”

LEONARD: (Levantando-se, frenético.) Não é verdade. Estou dizendo que não é verdade. (O GUARDA segura LEONARD.)

JUIZ: Por favor, controle-se.

LEONARD: Não há uma só palavra de verdade em tudo isso. (Senta-se. O GUARDA permanece de pé.)

JUIZ: (Para ROMAINE.) A senhora sabe o que está dizendo, Sra. Heilger?

ROMAINE: Eu devo dizer a verdade, não devo?

MYERS: O réu disse: “Eu a matei.” A senhora sabia a quem ele se referia?

ROMAINE: Sim, sabia. Era à velha que ele andava visitando a toda hora.

MYERS: E o que aconteceu então?

ROMAINE: Ele me recomendou que eu devia dizer que ele tinha passado a noite toda comigo em casa e, particularmente, eu devia dizer que ele estava em casa às nove e meia. Eu disse a ele: “A polícia sabe que você a matou?” E ele respondeu: “Não, eles pensam que foi roubo. Mas, seja como for, lembre-se que eu estava em casa com você às nove e meia.”

MYERS: E posteriormente a senhora foi interrogada pela polícia?

ROMAINE: Fui.

MYERS: E perguntaram-lhe se Leonard Vole estava com a senhora às nove e meia da noite?

ROMAINE: Perguntaram.

MYERS: E qual foi a sua resposta?

ROMAINE: Eu disse que sim.

MYERS: Mas, agora, alterou seu depoimento. Por quê?

ROMAINE: (Com paixão repentina.) Porque é um assassinato. Não posso continuar a mentir para salvá-lo. Sou grata a ele, sim. Ele casou comigo e me trouxe para este país. O que ele me pediu até hoje eu sempre fiz porque era grata.

MYERS: Por que o amava?

ROMAINE: Não, nunca o amei.

LEONARD: Romaine!

ROMAINE: Eu nunca o amei.

MYERS: A senhora era grata ao réu. Ele a trouxe para este país. Ele lhe pediu que lhe desse um álibi e, a princípio, a senhora concordou, porém mais tarde julgou que fazer aquilo que ele lhe pedira era errado?

ROMAINE: Sim, foi exatamente isso.

MYERS: E por que julgou que era errado?

ROMAINE: Porque é assassinato. Não posso vir ao Tribunal e mentir, afirmando que ele estava lá, quando não estava, na hora em que o crime foi cometido. Não posso fazê-lo. Não posso fazê-lo.

MYERS: Então o que fez?

ROMAINE: Eu não sabia o que fazer. Não conheço o seu país e tenho medo da polícia. Então escrevi uma carta ao meu Embaixador e disse que mentiras eu não quero mais contar. Quero dizer a verdade.

MYERS: E esta é a verdade: que Leonard Vole voltou, naquela noite, às dez horas e dez minutos. Que tinha sangue nas mangas de seu paletó e que disse à senhora: “Eu a matei.” Essa, diante de Deus, é a verdade?

ROMAINE: Essa é a verdade. (MYERS senta-se.)

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Quando o réu passou por aquela cerimônia de casamento com a senhora, sabia ele que seu primeiro marido ainda estava vivo?

ROMAINE: Não.

SIR WILFRID: Ele agiu de boa-fé?

ROMAINE: Agiu.

SIR WILFRID: E a senhora ficou muito grata a ele?

ROMAINE: Sim, fiquei muito grata a ele.

SIR WILFRID: E demonstrou sua gratidão vindo aqui e depondo contra ele.

ROMAINE: Eu tenho de dizer a verdade.

SIR WILFRID: E disse a verdade?

ROMAINE: Sim.

SIR WILFRID: Eu sugiro à senhora que na noite de 14 de outubro Leonard Vole estava em casa em sua companhia às nove horas e vinte e cinco minutos, que é a hora em que foi cometido o crime. Sugiro que toda essa sua história é uma fabricação maldosa e que a senhora tem, por alguma razão, ressentimentos contra o réu e este foi o seu meio de expressá-los.

ROMAINE: Não.

SIR WILFRID: A senhora compreende que está sob juramento?

ROMAINE: Compreendo.

SIR WILFRID: Eu a estou avisando, Sra. Heilger, que, se não se importa com o réu, deve ter cuidado por si própria. As penas por perjúrio são muito pesadas.

MYERS: (Levantando-se e intervindo.) Realmente, Meritíssimo. Não sei se essas explosões teatrais têm em mira os jurados, mas eu devo objetar respeitosamente que não há o que nos faça supor que esta testemunha tenha dito algo que não seja a expressão da verdade.

JUIZ: Sr. Myers, esta é uma acusação de pena capital e dentro dos limites razoáveis eu gostaria de oferecer à defesa a maior latitude possível. Pois não, Sir Wilfrid. (MYERS torna a sentar-se.)

SIR WILFRID: Muito bem. A senhora disse — que havia sangue nos dois punhos?

ROMAINE: Disse.

SIR WILFRID: Nos dois punhos?

ROMAINE: Eu já afirmei que foi isso que Leonard disse.

SIR WILFRID: Não, Sra. Heilger. A senhora afirmou: “Ele me disse para lavar os punhos. Havia sangue neles.”

JUIZ: Essa é exatamente a minha anotação, Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: Obrigado, Meritíssimo. (Para ROMAINE.) O que a senhora estava dizendo é que lavou os dois punhos.

MYERS: (Levantando-se.) Agora é a vez do meu colega de ser impreciso. Em momento algum a testemunha disse que lavou ambos os punhos, ou que sequer tenha lavado um. (Senta-se.)

SIR WILFRID: Meu colega está certo. Muito bem, Sra. Heilger, a senhora lavou os punhos?

ROMAINE: Agora eu me lembro. Foi só um punho que eu lavei.

SIR WILFRID: Obrigado. Talvez sua memória mereça pouca confiança também quanto a outros pontos da sua história. Creio que sua versão inicial, dada à polícia, foi a de que o sangue no paletó vinha de um corte causado ao cortar um presunto?

ROMAINE: Foi o que eu disse. Mas não era verdade.

SIR WILFRID: E por que mentiu?

ROMAINE: Eu repeti o que Leonard havia mandado dizer.

SIR WILFRID: Chegando mesmo a apresentar a própria faca com a qual ele o estava cortando?

ROMAINE: Quando Leonard descobriu que havia sangue nele, ele se cortou de propósito, para fazer parecer que o sangue era dele.

LEONARD: (Levantando-se.) Jamais fiz uma coisa dessas.

SIR WILFRID: (Silenciando LEONARD.) Por favor, por favor. (LEONARD senta-se. Para ROMAINE.) Então confessa que seu primeiro depoimento para a polícia era todo mentiroso? Parece ser excelente mentirosa.

ROMAINE: Leonard me disse o que falar.

SIR WILFRID: O problema é sabermos se estava mentindo naquele momento ou se está mentindo agora. Se ficasse realmente tão horrorizada ante a ideia de se cometer um assassinato, poderia ter dito a verdade à polícia quando foi interrogada pela primeira vez.

ROMAINE: Eu estava com medo de Leonard.

SIR WILFRID: A senhora estava com medo de Leonard — com medo do homem cujo coração e brio a senhora acaba de partir. Creio que o júri saberá em quem deverá acreditar. (Senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) Romaine Heilger, eu torno a perguntar-lhe: o depoimento que prestou é a verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade?

ROMAINE: É.

MYERS: Meritíssimo, está apresentado o caso pela Promotoria. (Senta-se.)

(ROMAINE desce e cruza para a porta à EA. O POLICIAL abre a porta.)

LEONARD: (Quando ROMAINE passa por ele.) Romaine!

MEIRINHO: (Levantando-se.) Silêncio!

(ROMAINE sai pela EA. O POLICIAL fecha aporta. O MEIRINHO torna a sentar-se.)

JUIZ: Sir Wilfrid.

SIR WILFRID: (Levantando-se.) Meritíssimo, Senhores Jurados, não lhes direi aqui, como poderia, que não há caso, não há acusação a ser respondida pelo réu. Existe um caso. Um caso de fortíssimas provas circunstanciais. Os senhores ouviram a polícia e outras testemunhas técnicas. Estas testemunharam justa e imparcialmente, como é do seu dever. Contra elas não tenho o que dizer. Por outro lado, ouviram Janet Mackenzie e a mulher que se chama de Romaine Vole. Podem acreditar que seus testemunhos não são deformados? Janet Mackenzie — eliminada do testamento de sua patroa rica porque sua posição foi inadvertidamente usurpada por este infeliz rapaz. (Pausa.) Romaine Vole — Heilger — ou seja lá como ela se chame, que armou uma reles farsa para casar-se com ele, embora já fosse casada. Aquela mulher deve-lhe mais do que jamais lhe poderá pagar. Ela o usou para que a salvasse de perseguições políticas. Mas admite que não o ama. Ele já serviu aos seus objetivos. Peço-lhes que tenham muito cuidado no modo pelo qual acreditarão em seu testemunho, o testemunho de uma mulher que pode ter sido educada para acreditar na doutrina perniciosa de que a mentira é uma arma para ser usada segundo a conveniência de cada um. Senhores Jurados, eu chamo o réu, Leonard Vole.

(O MEIRINHO levanta-se e vai ao banco das testemunhas. LEONARD levanta-se e vai testemunhar, seguido pelo GUARDA que fica de pé atrás dele. O MEIRINHO pega a Bíblia, entrega-a a LEONARD e segura o cartão do juramento.)

LEONARD: Juro por Deus Todo-Poderoso que o testemunho que darei será a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade. (Devolve a Bíblia ao MEIRINHO que a repõe junto com o cartão no seu lugar e volta a sentar-se.)

SIR WILFRID: Muito bem, Sr. Vole. Nós já sabemos de sua amizade com a Srta. French. Agora quero que nos diga quantas vezes a visitava.

LEONARD: Frequentemente.

SIR WILFRID: Por que razão?

LEONARD: Bem, ela era muito boa para mim e fiquei gostando dela. Era parecida com a minha tia Betsy.

SIR WILFRID: A tia que o criou?

LEONARD: Foi. Ela era muito querida. A Srta. French fazia-me lembrar dela.

SIR WILFRID: O senhor ouviu Janet Mackenzie dizer que a Srta. French pensava que o senhor era solteiro e que havia alguma possibilidade de vir a casar-se com o senhor. Há alguma verdade nisso?

LEONARD: Claro que não. É uma ideia absurda.

SIR WILFRID: A Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Sabia.

SIR WILFRID: Quer dizer que não havia nenhuma ideia de casamento entre o senhor e ela?

LEONARD: Mas é claro que não. Eu já lhe disse, ela me tratava como uma tia indulgente. Quase que como mãe.

SIR WILFRID: E, em troca, o senhor fazia tudo o que podia por ela.

LEONARD: Eu gostava muito dela.

SIR WILFRID: Quer contar ao júri, com suas próprias palavras, exatamente o que aconteceu na noite de 14 de outubro?

LEONARD: Bem, eu tinha encontrado um tipo novo de escova felina — uma coisa inteiramente nova, no gênero — e achei que ela poderia gostar. Nós a experimentamos em um dos gatos e foi um sucesso. Depois jogamos uma partida de paciência a dois — a Srta. French gostava muito de paciência a dois — e depois disso eu fui embora.

SIR WILFRID: Sim, mas o senhor não...

JUIZ: Sir Wilfrid, não entendi todo esse trecho do depoimento. O que é uma escova felina?

LEONARDO: Uma escova para escovar gatos.

JUIZ: Oh!

LEONARD: É uma espécie de escova misturada com pente. A Srta. French tinha gatos — oito gatos, e a casa cheirava um pouco...

SIR WILFRID: Sei, sei.

LEONARD: Eu pensei que a escova pudesse ser útil.

SIR WILFRID: O senhor viu Janet Mackenzie?

LEONARD: Não. A Srta. French me fez entrar pessoalmente.

SIR WILFRID: O senhor sabia que Janet Mackenzie tinha saído?

LEONARD: Bem, eu não pensei nisso.

SIR WILFRID: E a que horas o senhor saiu?

LEONARD: Logo, antes das nove. Fui a pé para casa.

SIR WILFRID: E levou quanto tempo?

LEONARD: Eu diria entre vinte minutos e meia hora.

SIR WILFRID: O que quer dizer que chegou em casa...?

LEONARD: Eu cheguei em casa às nove e vinte e cinco.

SIR WILFRID: E sua mulher — eu a chamarei de sua mulher — estava em casa, nessa hora?

LEONARD: Claro que estava. Eu — eu acho que ela deve ter enlouquecido. Eu...

SIR WILFRID: Não se importe com isso agora. Apenas continue sua história. O senhor lavou seu paletó ao chegar?

LEONARD: Não, claro que não.

SIR WILFRID: Quem lavou seu paletó?

LEONARD: Romaine, no dia seguinte, de manhã. Ela disse que tinha ficado sujo de sangue do corte no meu pulso.

SIR WILFRID: Um corte no seu pulso?

LEONARD: É. Aqui. (Ele mostra o pulso.) Ainda dá para ver a marca.

SIR WILFRID: Quando foi que teve notícia do assassinato pela primeira vez?

LEONARD: Quando li no jornal da tarde, no dia seguinte.

SIR WILFRID: E o que foi que sentiu?

LEONARD: Eu fiquei idiotizado. Mal conseguia acreditar. E fiquei muito perturbado, também. Os jornais disseram que tinha sido roubo. E eu jamais pensei que pudesse ser qualquer outra coisa.

SIR WILFRID: E depois disso, o que aconteceu?

LEONARD: Eu li que a polícia estava à minha procura, de modo que, naturalmente, fui até a delegacia.

SIR WILFRID: O senhor foi à delegacia e fez um depoimento?

LEONARD: É.

SIR WILFRID: E não estava nervoso? Relutante?

LEONARD: Não, claro que não. Eu queria ajudar, de alguma forma.

SIR WILFRID: Recebeu algum dinheiro da Srta. French?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor sabia que a Srta. French havia feito um testamento em seu favor?

LEONARD: Ela me disse que ia telefonar para os advogados dela e fazer um testamento novo. Eu perguntei se ela fazia testamentos novos muitas vezes e ela respondeu: “De tempos em tempos.”

SIR WILFRID: O senhor sabia quais seriam os termos desse novo testamento?

LEONARD: Juro que não.

SIR WILFRID: Ela havia sugerido, alguma vez, que deixaria alguma coisa para o senhor em seu testamento?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor ouviu o testemunho de sua mulher — ou daquela a quem o senhor considerava sua mulher — aqui neste Tribunal.

LEONARD: É, eu ouvi. Eu não compreendo — eu...

SIR WILFRID: Eu compreendo, Sr. Vole, que o senhor está muito perturbado, porém desejo pedir-lhe que deixe de lado qualquer emoção e responda às perguntas de forma clara e simples. O que aquela testemunha disse é verdadeiro ou falso?

LEONARD: Não, é claro que não é verdadeiro.

SIR WILFRID: O senhor chegou em casa às nove horas e vinte e cinco minutos e jantou com sua mulher?

LEONARD: Foi.

SIR WILFRID: O senhor tornou a sair?

LEONARD: Não.

SIR WILFRID: O senhor é destro ou canhoto?

LEONARD: Destro.

SIR WILFRID: Vou fazer-lhe apenas mais uma pergunta, Sr. Vole. O senhor matou Emily French?

LEONARD: Não, não a matei. (SIR WILFRID senta-se.)

MYERS: (Levantando-se.) O senhor já tentou alguma vez conseguir dinheiro de alguém?

LEONARD: Não.

MYERS: Desde quando, em seu relacionamento com a Srta. French, o senhor soube que ela era uma mulher muito rica?

LEONARD: Bem, eu nem sabia que ela era rica quando a fui visitar pela primeira vez.

MYERS: Mas, tendo obtido tal informação, resolveu cultivar mais assiduamente esse relacionamento?

LEONARD: Acho que é isso que parece. Mas, sabe, eu realmente gostava dela. O dinheiro não tinha nada a ver com a história.

MYERS: O senhor teria continuado a visitá-la, não importa o quão pobre ela fosse?

LEONARD: Teria, sim.

MYERS: O senhor, pessoalmente, é pobre?

LEONARD: O senhor sabe que sim.

MYERS: Por favor, responda sim ou não às perguntas.

LEONARD: Sim.

MYERS: Que salário percebe?

LEONARD: Bem, para falar a verdade, no momento eu estou desempregado. Já faz tempo que não arranjo emprego.

MYERS: O senhor foi recentemente despedido de seu emprego?

LEONARD: Não fui, não — eu deixei o emprego.

MYERS: No momento em que foi preso, quanto dinheiro o senhor tinha no banco?

LEONARD: Bem, na verdade, só umas poucas libras. Eu estava esperando um dinheiro em mais uma ou duas semanas.

MYERS: Quanto?

LEONARD: Não muito.

MYERS: Eu lhe pergunto se não estava bastante desesperado por dinheiro?

LEONARD: Desesperado, não. Eu — bem, eu estava um pouco preocupado.

MYERS: O senhor estava preocupado com dinheiro, conheceu uma mulher rica e começou a cultivar assiduamente esse conhecimento.

LEONARD: O senhor torce tudo. Já disse que gostava dela.

MYERS: Ouvimos dizer que a Srta. French costumava consultá-lo a respeito de seus formulários de Imposto de Renda.

LEONARD: Consultava, sim. O senhor sabe como são esses formulários. Ninguém compreende — ou pelo menos ela não compreendia.

MYERS: Janet Mackenzie disse-nos que a Srta. French tinha ótima cabeça para negócios, e era inteiramente capaz de se ocupar de seus interesses.

LEONARD: Bem, não era isso o que a Srta. French me dizia. Ela costumava comentar que aqueles formulários a preocupavam muito.

MYERS: Preenchendo a declaração de renda dela, o senhor naturalmente ficou sabendo exatamente qual era a sua renda?

LEONARD: Não.

MYERS: Não?

LEONARD: Bem — quero dizer, naturalmente que sim.

MYERS: Sim, muito conveniente. Por que razão, Sr. Vole, o senhor jamais levou sua mulher para visitar a Srta. French?

LEONARD: Não sei. Parece que simplesmente a ideia não me ocorreu.

MYERS: O senhor afirma que a Srta. French sabia que o senhor era casado?

LEONARD: Afirmo.

MYERS: No entanto, ela jamais lhe pediu que levasse sua mulher consigo à casa dela?

LEONARD: Não.

MYERS: E por que não?

LEONARD: Eu não sei. Acho que ela não gostava de mulheres.

MYERS: Ela preferia, digamos, rapazes de boa aparência? E o senhor não insistia em levar sua mulher?

LEONARD: Não, claro que não. Olhe, ela sabia que minha mulher era estrangeira e ela — sei lá, ela parecia pensar que nós não nos dávamos muito bem.

MYERS: Foi essa a impressão que o senhor lhe deu?

LEONARD: Não, eu não. Ela — bem, eu acho que era isso que ela queria pensar.

MYERS: O senhor quer dizer que ela estava apaixonada pelo senhor?

LEONARD: Não, não estava apaixonada, mas... é como às vezes acontece com as mães com um filho.

MYERS: Como?

LEONARD: Não querem que ele goste de nenhuma moça ou que fique noivo ou coisa assim.

MYERS: O senhor esperava, não é mesmo, obter alguma vantagem monetária de sua amizade com a Srta. French?

LEONARD: Não do modo que o senhor está querendo dizer.

MYERS: Não do modo que eu estou querendo dizer? O senhor parece saber o que eu quero dizer melhor do que eu mesmo. De que modo o senhor esperava obter vantagens monetárias, então? (Pausa.) Eu repito, de que modo o senhor pensava obter vantagens monetárias?

LEONARD: O senhor sabe, eu inventei uma coisa. Uma espécie de limpador de pára-brisa que funcionava na neve. Eu estava procurando um financiador e pensei que talvez a Srta. French se interessasse. Mas não era só por isso que eu ia visitá-la. Eu já disse que gostava dela.

MYERS: Sim, sim — já ouvimos muitas vezes o senhor dizer que gostava muito dela.

LEONARD: Pois se é verdade.

MYERS: Eu creio, Sr. Vole, que cerca de uma semana antes da morte da Srta. Frech o senhor esteve pedindo informações sobre viagens para o exterior em uma agência de viagens.

LEONARD: E daí — isso é crime?

MYERS: De modo algum. Muitas pessoas fazem cruzeiros quando podem pagar por eles. Porém o senhor não podia pagar, podia, Sr. Vole?

LEONARD: Eu já lhe disse que estava sem dinheiro.

MYERS: E no entanto o senhor entrou em uma agência de viagens — com uma loura — uma loura-morango — pelo que soube — e...

JUIZ: Uma loura-morango, Sr. Myers?

MYERS: É um termo usado para uma dama de cabelos claros avermelhados, Meritíssimo.

JUIZ: Eu julgava saber de tudo sobre louras, mas uma loura-morango... Continue, Sr. Myers.

MYERS: (Para LEONARD.) Então?

LEONARD: Minha mulher não é loura, e foi só de farra, de qualquer jeito.

MYERS: O senhor admite que pediu detalhes, não a respeito de passeios baratos, mas sobre cruzeiros caros e luxuosos? Como esperava pagar esse tipo de coisa?

LEONARD: Mas eu não esperava.

MYERS: Eu sugiro que o senhor sabia que dentro de uma semana herdaria uma grande soma de dinheiro de uma pobre senhora idosa e confiante.

LEONARD: Eu não sabia de nada disso. Eu estava só cheio de tudo — e havia uns cartazes na vitrine — palmeiras e coqueiros e mares azuis, então eu entrei e perguntei. O funcionário me olhou um pouco atravessado — as minhas roupas estavam mais para o surrado — e eu fiquei irritado. Então resolvi representar um pouco... (ele repentinamente sorri, como se o divertisse lembrar-se da cena) e comecei a perguntar pelos cruzeiros mais metidos a besta — tudo de superluxo e só com cabine no convés mais elegante.

MYERS: E o senhor realmente espera que o júri acredite nisso?

LEONARD: Eu não espero que ninguém acredite em nada. Mas foi isso o que aconteceu. Pode ter sido faz-de-conta infantil, se quiser — mas foi muito divertido e eu achei ótimo. (Repentinamente patético.) Eu não estava pensando em matar ninguém para herdar dinheiro.

MYERS: Então foi apenas uma coincidência notável que a Srta. French tenha sido morta apenas alguns dias mais tarde, deixando-o herdeiro de tudo.

LEONARD: Eu já lhe disse — eu não a matei.

MYERS: A sua história é que na noite do dia 14 o senhor deixou a casa da Srta. French faltando quatro minutos para as nove, foi a pé para casa e chegou lá às nove horas e vinte e cinco minutos e ficou em casa o resto da noite.

LEONARD: É.

MYERS: O senhor ouviu Romaine Heilger negar essa história no Tribunal. Ouviu-a dizer que o senhor chegou não às nove horas e vinte e cinco minutos, mas, sim, às dez horas e dez minutos da noite.

LEONARD: Não é verdade!

MYERS: Que suas roupas estavam manchadas de sangue e que o senhor positivamente confessou a ela haver matado a Srta. French.

LEONARD: Não é verdade. Estou lhe dizendo que não é verdade. Nem uma só palavra.

MYERS: E o senhor pode sugerir alguma razão pela qual essa jovem, que vem passando por sua mulher, haveria de fazer deliberadamente o depoimento que fez se ele não fosse verdadeiro?

LEONARD: Não, não posso. E isso é o mais terrível. Não há razão alguma. Eu acho que ela deve ter ficado louca.

MYERS: O senhor acha que ela deve ter ficado louca? Ela parecia extremamente controlada e em seu juízo perfeito. Mas a insanidade é a única razão que o senhor consegue sugerir.

LEONARD: É que eu não compreendo. Meu Deus — o que será que pôde fazê-la mudar assim?

MYERS: Muito impressionante, sem dúvida. Mas neste Tribunal nós tratamos com fatos. E o fato é, Sr. Vole, que temos apenas a sua palavra de que deixou a casa de Emily French na hora em que disse tê-la deixado, ou que chegou em casa às nove e vinte e cinco, ou que não tornou a sair.

LEONARD: Alguém deve ter-me visto — na rua — ou entrando em casa.

MYERS: Certamente que é de se pensar que sim — porém a única pessoa que o viu entrar em casa diz que foi às dez horas e dez minutos. E essa pessoa diz que o senhor tinha sangue em suas roupas.

LEONARD: Eu cortei meu pulso.

MYERS: Uma coisa muito fácil de se fazer, para o caso de aparecer alguma pergunta.

LEONARD: O senhor torce tudo. O senhor torce tudo o que eu digo. O senhor me faz parecer uma pessoa diferente do que eu sou.

MYERS: O senhor cortou seu pulso deliberadamente.

LEONARD: Não cortei, não. Eu não fiz nada, mas o senhor faz parecer que eu fiz.

MYERS: O senhor chegou em casa às dez horas e dez minutos.

LEONARD: Não cheguei, não. O senhor tem de acreditar em mim. Tem de acreditar em mim.

MYERS: O senhor matou Emily French.

LEONARD: Não matei, não. (As luzes se apagam rapidamente, deixando dois refletores sobre LEONARD e MYERS. Tão logo este último acaba de falar os dois refletores também se apagam.) Eu não a matei. Eu nunca matei ninguém. Meu Deus! É um pesadelo. Parece um sonho mau, um sonho de terror.

(CAI O PANO RAPIDAMENTE)