Total Recall

Philip K. Dick · Capítulo 4 de 7

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Total Recall

Revanche

 

NÃO SE TRATAVA de um cassino comum. E isto, para a polícia de L.A.S., colocava um problema especial. Os seres do espaço exterior que haviam instalado o cassino colocaram sua gigantesca nave diretamente acima das mesas para que, no caso de uma batida policial, os jatos as destruíssem. Eficiente, pensou consigo mesmo o oficial Joseph Tinbane, taciturno. Com uma única descarga, os alienígenas deixariam a Terra e simultaneamente destruiriam toda a evidência de sua atividade ilegal.

E, o que era pior, matariam todo e qualquer jogador humano que pudesse, de alguma maneira, ter sobrevivido para prestar testemunho.

Ele estava agora sentado em seu aerocarro estacionado, inalando pitadas e pitadas de fino rapé importando Dean Swift inch-kenneth, transferindo-o depois para a latinha amarela, que continha tempero-de-passarinho. O rapé o animou, mas não muito. À sua esquerda, na obscuridade do anoitecer, ele podia distinguir a forma da nave aprumada dos alienígenas, negra e silenciosa, com o grande espaço murado por baixo, enganadoramente escuro e silencioso.

— Poderíamos entrar lá — disse ele ao seu companheiro menos experiente —, mas isto resultaria apenas em nossa morte. — Teremos que confiar nos robôs, percebeu ele. Mesmo eles sendo desajeitados e sujeitos a erros. De qualquer forma, não são vivos. E não ser vivo, num projeto como este, constituía uma vantagem.

— O terceiro deles entrou — disse quietamente o oficial Falkes, ao seu lado.

A figura esguia, vestida com roupas humanas, parou diante da porta do cassino, bateu, esperou. Logo depois a porta se abriu. O robô forneceu a senha apropriada e foi admitido.

— Você acha que eles vão sobreviver à descarga da decolagem? — perguntou Tinbane. Falkes era um especialista em robótica.

— Possivelmente um deles. Não todos, entretanto. Mas um será suficiente. — Ansioso pelo ataque, o oficial Falkes se inclinou para espiar além de Tinbane; seu rosto juvenil estava tenso de concentração. — Use o megafone agora. Diga a eles que estão presos. Não vejo razão para esperar.

— A razão que eu vejo — disse Tinbane — é que é mais confortador ver a nave inerte e a ação acontecendo embaixo. Vamos esperar.

— Mas não virá mais nenhum robô.

— Espero que eles enviem suas videotransmissões — disse Tinbane. Assim eles teriam uma prova — de certo tipo. E no QG da polícia estava, agora gravando de maneira permanente. Mas, mesmo assim, seu companheiro oficial designado para este projeto tinha uma certa razão. Uma vez que o último dos três informantes humanóides já entrara, nada mais iria acontecer por ora. Até que os alienígenas percebessem que tinha infiltração e pusessem em ação seu típico plano de retirada. — Está certo — disse ele, e apertou o botão que ativava o megafone.

Curvando-se, Falkes falou no megafone. Imediatamente, o megafone disse:

COMO REPRESENTANTE DA ORDEM DE LOS ANGELES SUPERIOR, EU E OS HOMENS QUE ESTÃO COMIGO ORDENAMOS A TODOS OS QUE ESTÃO DO LADO DE DENTRO QUE SAIAM À RUA COLETIVAMENTE; ORDENO TAMBÉM QUE...

Sua voz, no megafone, desapareceu quando a descarga inicial de decolagem rugiu através dos jatos primários da nave dos alienígenas.

Falkes encolheu os ombros, sorriu amarelo e rígido para Tinbane. Eles não precisaram muito tempo, sua boca articulou em silêncio.

Como era de esperar, ninguém saiu. Ninguém no cassino escapou. Nem mesmo quando a estrutura que formava o edifício derreteu. A nave se afastou, deixando para trás uma massa encharcada e empoçada, de um material que lembrava cera. E, ainda assim, ninguém emergiu.

Todos mortos, percebeu Tinbane, chocado e mudo.

— É hora de entrar — disse Falkes estoicamente. Ele começou a se arrastar para dentro d sua roupa de neo-asbesto e, depois de uma pausa, Tinbane fez o mesmo.

Juntos, os dois oficiais entraram na poça quente e gotejante que tinha sido o cassino. No centro, formando uma elevação, estavam dois dos três robôs humanóides; tinham conseguido no último momento cobrir alguma coisa com seus corpos. Do terceiro, Tinbane não viu sinal; evidentemente fora demolido, como tudo o mais. Tudo o que era orgânico.

Me pergunto o que eles consideraram — à sua própria e vaga maneira — que valia a pena ser preservado, pensou Tinbane enquanto examinava os restos contorcidos dos dois robôs. Alguma coisa viva? Um dos alienígenas serpentiformes? Provavelmente não. Uma mesa de jogo, então.

— Eles agiram depressa — disse Falkes, impressionado. — Para robôs.

— Mas temos alguma coisa aqui — observou Tinbane. Ele cutucou cuidadosamente o metal fundido e quente em que se transformaram os dois robôs. Uma parte, muito provavelmente um torso, escorregou para o lado, revelando o que os robôs tinham preservado.

— Uma máquina de fliperama.

Tinbane perguntou-se por quê. Qual era o valor daquilo? Valia alguma coisa? Pessoalmente, ele duvidava.

No laboratório de polícia, em Sunset Avenue, no centro de Los Angeles, um técnico apresentou uma longa análise por escrito a Tinbane.

— Na realidade, não é de construção comum — disse o técnico, correndo os olhos por seu próprio relatório, como se já o tivesse esquecido; seu tom, como o do próprio relatório, era seco, monótono. Aquilo para ele era obviamente rotina. Ele também concordava que a máquina de fliperama salva pelo robô não tinha valor — ou, pelo menos, assim achava Tinbane. — Quero dizer com isso que não se parece com nenhuma outra que eles tenham trazido à Terra antes. Você poderá provavelmente Ter ume idéia melhor da coisa diretamente; sugiro que ponha nela uma moeda de um quarto de dólar e jogue uma partida. — E acrescentou: — O laboratório lhe fornecerá uma moeda, que retiraremos da máquina depois.

— Eu tenho a minha própria moeda — disse Tinbane, irritado.

Seguiu o técnico através do grande e superlotado laboratório, passando pelo elaborado —e em muitos casos obsoleto — sortimento de dispositivos analíticos e estruturas parcialmente quebradas, até a área de trabalho nos fundos.

Ali, limpa e consertada, estava a máquina de fliperama que os robôs haviam protegido. Tinbane inseriu uma moeda; cinco bolas de metal rolaram imediatamente para o reservatório, e o painel na parte traseira de máquina acendeu-se numa variedade de cores cambiantes.

— Antes de soltar a primeira bola — disse-lhe o técnico, em pé ao lado dele para poder assistir também —, aconselho dar uma olhada cuidadosa em toda a máquina, nos compartimentos por onde a bola vai passar. A área horizontal embaixo do visor protetor é algo interessante. Uma aldeia em miniatura, completa, com casas, ruas iluminadas, grandes edifícios públicos, rúneis elevados para expressonaves... não uma aldeia da Terra, é claro. Uma aldeia ioniana, do tipo ao qual estão acostumados. Um trabalho soberbo nos detalhes.

Curvando-se, Tinbane olhou. O técnico rinha razão: os detalhes do modelo em escala o surpreenderam.

— Os testes que medem o desgaste nas partes móveis desta máquina — informou o técnico — indicam que ela já foi bastante usada. Há uma tolerância considerável. Calculamos que, antes de completar mais uns mil jogos, a máquina teria que ir para a oficina. A oficina deles, lá em Io. Que é onde, ao que entendemos, eles constróem e mantêm equipamentos deste tipo. — Ele explicou: — Estou falando de aparatos de jogo em geral.

— Qual é o objetivo do jogo — perguntou Tinbane.

— Temos aqui — explicou o técnico — o que chamamos de variável de câmbio total. Em outras palavras, o território através do qual a bola de aço se move nunca é o mesmo. O número possível de combinações é... — ele folheou seu relatório, mas não conseguiu encontrar o número exato. — De qualquer forma, é muito grande. Da ordem de milhões. É excessivamente intricado, em nossa opinião. De qualquer forma, se você lançar a primeira bola, poderá ver.

Apertando o êmbolo, Tinbane deixou que a primeira bola rolasse para fora do reservatório, de encontro à barra impulsionadora. Ele então puxou a barra de mola e soltou-a com um estalido. A bola disparou canaleta acima e ricocheteou livre contra um coxim de pressão, que lhe conferiu velocidade adicional.

A bola agora quicava para baixo, na direção do perímetro superior da aldeia.

— A linha inicial de defesa — disse o técnico atrás dele —, que protege a região da aldeia, é uma série de montículos com cores, formas e superfícies que lembram a paisagem ioniana. A fidelidade reflete um trabalho meticuloso. Provavelmente, foi feita com a ajuda de satélites em órbita ao redor de Io. Você pode facilmente imaginar que está vendo um autêntico fragmento daquela lua, de uma distância de dez ou mais quilômetros acima dela.

A bola de aço chegou ao perímetro de território acidentado. Sua trajetória foi alterada, e a bola oscilou instável, sem tomar qualquer direção em particular.

— Desviada — disse Tinbane, notando quão satisfatoriamente os contornos do terreno privavam a bola de seu movimento de avanço descendente. — Vai passar completamente ao largo da aldeia.

A bola, com o impulso seriamente reduzido, rolou para uma dobra lateral, seguiu impassível por ela e então, bem quando parecia estar desviando para a fenda inferior de recolhimento, foi abruptamente arremessada de volta ao jogo por um coxim de pressão.

No fundo iluminado, registrou-se um tento. Vitória, de um tipo momentâneo, para o jogador. Mas uma vez a bola ameaçou a aldeia. Mais uma vez ela foi se esquivando pelo território acidentado, seguindo virtualmente o mesmo caminho de antes.

— Agora você vai notar algo mais ou menos importante — disse o técnico. — Quando ela se dirigir para o mesmo coxim de pressão que você atingiu agora mesmo, não observe a bola; observe o coxim.

Tinbane observou. E viu, saindo do coxim, um fino fio de fumaça cinzenta. Ele voltou-se para o técnico, interrogativo.

— Agora observe a bola! — disse bruscamente o técnico.

Novamente a bola atingiu o coxim de pressão instalado um pouco antes da fenda inferior de recolhimento. Desta vez, entretanto, o coxim não reagiu ao impacto da bola.

Tinbane piscou quando a bola rolou em frente, inofensiva, para dentro da fenda e para fora do jogo.

— Não aconteceu nada — disse ele em seguida. — Aquela fumaça que você viu. Emergindo da fiação do coxim. Um curto circuito elétrico. Por que um ricochete naquele ponto colocaria a bola numa posição ameaçadora — ameaçadora para a aldeia.

— Em outras palavras — disse Tinbane —, alguma coisa notou o efeito que o coxim estava fazendo sobre a bola. O conjunto opera de maneira a proteger-se contra a atividade da bola.

— Ele já tinha visto aquilo antes, em outro equipamento alienígena de jogo: circuitos complicados que mantinham o tabuleiro do jogo em constante mudança, de modo a parecer vivo — de modo a reduzir as chances de vitória do jogador. Neste equipamento em particular, o jogador obtinha uma contagem positiva induzindo as cinco bolas de aço a passarem para o traçado central: a réplica da aldeia ioniana. Portanto, a aldeia tinha que ser protegida. E este coxim de pressão em particular, estrategicamente localizado, tinha que ser eliminado. Pelo menos no momento. Até as configurações gerais da topografia se alteram decisivamente.

— Nada de novo aqui — disse o técnico. — Você já viu isto antes uma dúzia de vezes; eu já vi isso antes uma centena de vezes. Digamos que esta máquina de fliperama já viu dez mil jogos diferentes, e a cada vez houve um cuidadoso reajustamento dos circuitos, visando neutralizar as bolas de aço. Digamos que as alterações são cumulativas. Portanto, a contagem de um determinado jogador não é provavelmente maior do que uma fração das contagens anteriores, antes que os circuitos tivessem uma oportunidade de reagir. A tendência da alteração — como em todos os mecanismos de jogo dos alienígenas — é para um fator zero de vitórias como o limite em cuja direção se movimenta. Apenas tente atingir a aldeia, Tinbane. Nós instalamos um dispositivo repetidor mecânico de liberação de bolas e jogamos cento e quarenta partidas. Nem uma vez a bola chegou suficientemente perto da aldeia para causar dano. Temos o registro das contagens obtidas. Uma pequena mas significativa queda foi registrada a cada vez. — Ele deu um largo e forçado sorriso.

— E então? — disse Tinbane.

— Então, nada. Como eu lhe disse, e como diz o meu relatório. — O técnico fez uma pausa.

— Exceto por uma coisa. Olhe para isto. — Curvando-se, ele percorreu com o dedo o vidro protetor do tabuleiro até um dispositivo perto do centro da aldeia em miniatura. — Um registro fotográfico mostra que a cada jogo este componente específico se torna mais articulado. Está sendo erigido pelos circuitos que estão por baixo, obviamente, como todas as outras mudanças. Mas esta configuração não lhe lembra alguma coisa?

— Parece uma catapulta romana — disse Tinbane. — Mas com um eixo vertical em vez de horizontal.

— Esta também foi a nossa reação. E olhe para a funda. Nos termos da escala da aldeia, ela é desproporcionalmente grande. Imensa, de fato; especificamente, ela não está em escala.

— Parece que ela quase poderia conter...

— Não é "quase" — disse o técnico. — Nós medimos. O tamanho da funda é exato; uma dessas bolas de aço caberia ali perfeitamente.

— E então? — perguntou Tinbane, sentindo um calafrio.

— E então ela poderia lançar a bola de volta ao jogador — disse calmamente o técnico de laboratório. Está apontada diretamente para a frente da máquina, para a frente e para cima. —Ele acrescentou: — E está intacta.

A melhor defesa, pensou Tinbane consigo mesmo enquanto estudava a máquina de fliperama ilegal dos alienígenas, é o ataque. Mas quem já ouviu falar disso neste contexto?

Zero, ele percebeu, não é uma contagem suficientemente baixa para os circuitos de defesa daquela coisa. O zero não basta. Ela precisa esforçar-se por conseguir menos que zero. Por quê? Porque, ele decidiu, ela não está realmente se movendo na direção do zero como limite; ao contrário, está se movendo na direção do melhor padrão defensivo. É bem projetada demais.

Ou será que é?

— Você acha — ele perguntou ao magro e alto técnico do laboratório — que os alienígenas tinham esta intenção?

— Isto não vem ao caso. Pelo menos, não imediatamente. O que importa são dois fatores: a máquina foi exportada — violando a lei da Terra — para cá e tem sido usada por terráqueos. Intencionalmente ou não, isto poderia ser, e de fato logo será, uma arma mortal. — Ele acrescentou: — Calculamos que dentro dos próximos vinte jogos. Cada vez que uma moeda é inserida, a construção recomeça. Chegue a bola perto da aldeia ou não. Tudo o que ela exige é um fluxo de energia da bateria central de hélio do dispositivo. E isto é automático, a cada vez que começa um jogo. — E acrescentou ainda: — Ela está trabalhando na construção da catapulta neste momento, enquanto estamos aqui parados. É melhor você soltar as outras quatro bolas, para que ela se desligue. Ou então nos dar a permissão para desmontá-la, ou pelo menos para tirar do circuito o suprimento de energia.

— Os alienígenas não têm a vida humana em muito alta conta — refletiu Tinbane. Ele estava pensando na carnificina causada pela decolagem da nave. E aquilo, para eles, era rotina. Mas, diante daquela destruição generalizada de vida humana, isto parecia desnecessário. O que mais aquilo seria capaz de fazer?

Ponderando, ele disse:

— Esta coisa é seletiva. Ela eliminaria o jogador.

— Ela eliminaria todos os jogadores. Um após o outro — disse o técnico.

— Mas quem iria jogar — perguntou Tinbane — depois da primeira fatalidade?

— As pessoas vão lá sabendo que, se houver uma batida, os alienígenas queimarão tudo e todos — observou o técnico. — A necessidade de jogar é uma compulsão que causa dependência; certos tipos de pessoa jogam, não importa qual seja o risco. Você já ouviu falar em roleta russa?

Tinbane disparou a segunda bola de aço, observou-a ricochetear e rolar na direção da réplica de aldeia. Ela conseguiu passar através do território acidentado; aproximou-se da primeira casa na área da aldeia. Talvez eu a atinja, pensou ele selvagemente. Antes que ela me atinja. Foi tomado de uma estranha, nova excitação, quando a bola chocou-se contra a casinha, arrasando sua estrutura, e rolou em frente. A bola, embora pequena para ele, assomava por sobre todos os edifícios, todas as estruturas que compunham a aldeia.

Todas as estruturas, menos a catapulta central. Ele observou, ávido, a bola se aproximar perigosamente da catapulta e então, desviada por um grande edifício público, seguir rolando e desaparecer na fenda de recolhimento. Imediatamente, ele arremessou a terceira bola em velocidade canaleta acima.

— Os riscos — disse suavemente o técnico — são altos, não são? A sua vida contra a dela. Isto deve ser extraordinariamente empolgante para alguém com o tipo certo de temperamento.

— Acho — disse Tinbane — que posso atingir a catapulta antes que ela entre em ação.

— Pode ser. Mas pode ser que não.

— Estou fazendo a bola chegar mais perto a cada tentativa. Disse o técnico:

— Para que a catapulta funcione, precisa de uma das bolas de aço; elas são a sua munição. Você está tornando cada vez mais provável que ela consiga ter acesso a uma das bolas. Você a está ajudando. — E acrescentou sombriamente: — Na realidade, ela não pode funcionar sem você; o jogador não é apenas o inimigo, ele é também essencial. É melhor desistir, Tinbane. A coisa está usando você.

— Desistirei — disse Tinbane — depois que atingir a catapulta.

— É certo que desistirá. Você estará morto. — Ele fitou Tinbane atentamente. — Talvez seja por isso que os alienígenas a construíram. Para se desforrar de nós por nossas batidas. Muito provavelmente é para isto que ela serve.

— Você tem mais uma moeda? — perguntou Tinbane.

No meio de sua décima partida uma surpreendente, inesperada alteração na estratégia da máquina se manifestou. De repente, ela deixou de encaminhar as bolas de aço totalmente para um lado, longe da réplica da aldeia.

Observando, Tinbane viu a bola de aço rolar diretamente — pela primeira vez — através do centro. Diretamente na direção da maciça catapulta.

Obviamente, a catapulta estava terminada.

— eu sou seu superior hierárquico, Tinbane — disse, tenso, o técnico do laboratório. — E estou lhe ordenando que pare de jogar.

— Qualquer ordem que você me dê — disse Tinbane — deve ser por escrito, e aprovada por alguém do departamento ao nível de inspetor. — Mas, relutantemente, parou de jogar. — Eu posso atingi-la — disse, pensativo —, mas não aqui parado. — Tenho que estar longe, suficientemente distante para que ela não possa me localizar. — Para que ela não possa me distinguir e mirar, percebeu ele.

Já tinha notado que ela se virara ligeiramente. Através de algum sistema de lentes, já o detectara. Ou, possivelmente, ela era termotrópica, percebera-o pelo calor de seu corpo.

Se assim fosse, sua ação defensiva seria relativamente simples: uma bobina resistiva suspensa em um outro local. Por outro lado, ela poderia estar usando algum tipo de índice cefálico, registrando todas as emanações cerebrais nas proximidades. Mas o laboratório da polícia já saberia disto.

— Qual é o seu tropismo? — Perguntou. O técnico disse:

— Aquele conjunto não tinha sido desenvolvido quando a inspecionamos. Está sem dúvida tomando forma agora, juntamente com a conclusão da arma.

Tinbane disse, pensativamente:

— Espero que ela não possua equipamento para registrar um índice cefálico. — Porque, pensou ele, se ela o possuir, armazenar o padrão não seria problema. Poderia reter a memória de seu adversário para usá-la na eventualidade de futuros encontros.

Algo naquela idéia o assustava — além e acima da ameaça imediata da situação.

— vamos fazer um acordo — disse o técnico. — Você continua a operá-la até que ela dispare o tiro inicial contra você. E, então, você se afasta e nos deixa desmontá-la. Precisamos conhecer o seu tropismo; ele pode aparecer outra vez, de uma forma mais complexa. Concorda? Você estará correndo um risco calculado, mas acredito que o tiro inicial será dado com a intenção de usá-lo para efeito de realimentação; será feita a correção para o segundo tiro... que jamais acontecerá.

Deveria ele contar ao técnico seus temores?

— O que me incomoda — disse — é a possibilidade de que ela retenha uma memória específica de mim. Para propósitos futuros.

— Que propósitos futuros? Ela será completamente desmontada. Assim que disparar. Relutantemente, Tinbane disse:

— Acho que é melhor eu fazer o acordo. — Posso já ter ido longe demais, pensou. É possível que você tivesse razão.

A bola seguinte errou a catapulta apenas por uma questão de fração de polegada. Mas o que o enervou não foi o fato de ela ter passado perto, foi a rápida, sutil tentativa por parte da catapulta de capturar a bola quando ia passando. Um movimento tão rápido que ele poderia facilmente não ter percebido.

— Ela quer a bola — observou o técnico. — Ela quer você. — Ele também vira.

Com hesitação, Tinbane tocou o êmbolo que liberaria a próxima — e, para ele, possivelmente a última — bola de aço.

— Desista — aconselhou, nervoso, o técnico. — Esqueça o acordo; pare de jogar. Vamos desmontá-la como está.

— Precisamos do tropismo — disse Tinbane. E apertou o êmbolo.

A bola de aço, que subitamente lhe parecia grande, dura e pesada, rolou sem hesitação até a catapulta, que a aguardava; cada contorno da topografia da máquina colaborou. A aquisição da munição ocorreu antes mesmo que ele entendesse o que acontecera. Ficou parado, olhando.

— Corra! — O técnico saltou para trás e arremessou-se; chocando-se contra Tinbane, atirou-o para longe da máquina.

Com um estrépito de vidro quebrando, a bola de aço passou junto à têmpora direita de Tinbane, ricocheteou na parede oposta do laboratório e foi parar embaixo de uma bancada de trabalho.

Silêncio.

Depois de algum tempo, o técnico disse, trêmulo:

— Ela tinha velocidade de sobra. Massa de sobra. Tudo o que precisava, de sobra. Vacilante, Tinbane levantou-se e deu um passo na direção da máquina.

— Não solte outra bola — disse o técnico, em tom de advertência.

— Não é preciso — disse Tinbane. Voltou-se e correu para longe. A máquina soltara a bola sozinha.

Na ante-sala, Tinbane fumava, sentado diante de Ted Donovan, o chefe do laboratório. A porta do laboratório fora fechada, e cada um dos vários técnicos fora convocado a algum lugar seguro. Atrás da porta fechada, o laboratório estava em silêncio. Ela estava inerte, pensou Tinbane, e aguardando.

Perguntou-se se ela estava aguardando que qualquer pessoa, qualquer humano, qualquer terráqueo, chegasse ao seu alcance. Ou... apenas ele.

Este último pensamento o divertiu ainda menos do que originalmente. Mesmo sentado lá fora, sentia-se retrair de medo. Uma máquina construída em outro mundo, enviada À Terra vazia de instruções, meramente capaz de escolher entre todas as possibilidades defensivas até afinal dar com a chave. A casualidade em ação, através de centenas, ou mesmo milhares de jogos... através de uma pessoa após outra, um jogador após o outro. Até afinal chegar a uma tendência crítica, e a última pessoa a jogar, também selecionada pelo processo aleatório, se torna unida a ela em um contrato de morte. No caso, ele próprio. Desafortunadamente. Ted Donovan disse:

— Vamos atingir sua fonte de energia de longe; isto não deve ser difícil. Vá para casa; esqueça isso tudo. Quando tivermos seus circuitos de tropismo esquematizados, notificaremos. A não ser, é claro, que seja muito tarde da noite, e neste caso...

— Notifíquem-me — disse Tinbane — à hora que for. Por favor. — Ele não precisou explicar; o chefe do laboratório entendeu.

— Obviamente — disse Donovan — este dispositivo visa as equipes policiais que dão batidas nos cassinos. Como eles manobram nossos robôs para cima dele, nós, é claro, não sabemos — ainda. Pode ser que encontremos este circuito também. — Ele pegou o relatório já existente do laboratório e olhou-o com hostilidade. — Isto aqui foi superficial demais, ao que me parece agora. "Apenas mais um dispositivo alienígena de jogo." Pois sim! — Ele jogou o relatório de lado.

— Se é isto o que eles tinham em mente — disse Tinbane —, conseguiram o que queriam; me pegaram direitinho. — Pelo menos atraíram sua atenção. E sua cooperação.

— Você é um jogador, está no sangue. Mas não sabia. Possivelmente ela não teria funcionado de outra forma. — E Donovan acrescentou: — Mas é interessante.. Uma máquina de fliperama que revida. Que fica irritada com as bolas de aço rolando por cima dela. Só espero que eles não construam uma máquina de tiro-ao-prato. Isto já é suficientemente ruim.

— Como um sonho — murmurou Tinbane.

— Como?

— Não verdadeiramente real. — Mas, pensou ele, é real. E levantou-se. — Vou fazer como você disse. Vou para casa, para o meu conapt. Você tem o número do vidifone. — Ele estava cansado, e assustado.

— Você está com uma aparência horrível — disse Donovan, examinando-o. — Isto não deveria perturbar você a este ponto; é uma máquina relativamente benigna, não é? É preciso atacá-la para que ela entre em ação. Se deixá-la em paz...

— Eu a estou deixando em paz — disse Tinbane. — Mas sinto que ela está esperando. Ela quer que eu volte. — Ele a sentia aguardando por ele, antevendo o seu retorno. A máquina era capaz de aprender, e ele a ensinara — a ensinara sobre si mesmo.

Ensinara que ele existia. Que havia na terra uma pessoa como Joseph Tinbane. E isto era demais.

Quando destrancou a porta de seu conapt, o telefone já estava tocando. Morosamente, pegou o fone.

— Alô — ele disse.

— Tinbane? — Era a voz de Donovan. — Ela é mesmo encefalotrópica. Encontramos um registro dos padrões da configuração do seu cérebro e, naturalmente, o destruímos. Mas... —Donovan hesitou. — Também encontramos uma outra coisa, que ela construiu depois que fizemos a análise inicial.

— Um transmissor — disse Tinbane roucamente.

— Receio que sim. Meia milha de alcance, ou duas milhas se a transmissão for direcional. E estava ligado a antenas direcionais, portanto temos que assumir o alcance de duas milhas. Não temos absolutamente nenhuma idéia de em que consiste o receptor, nem mesmo se está ou não na superfície. Provavelmente está. Em um escritório, em algum lugar. Ou em um hover-car daqueles que eles usam. De qualquer jeito, agora você sabe. Ela é, decididamente, uma arma de vingança; a sua intuição infelizmente estava certa. Quando os nossos brilhantes especialistas examinaram mais detidamente chegaram à conclusão de que você é, por assim dizer, aguardado. Ela viu você vindo. Para começar, o instrumento pode nunca ter funcionado como um autêntico dispositivo de jogo; as tolerâncias que observamos podem ter sido programadas, e não causadas pelo uso. E isto é tudo.

— O que você sugere que eu faça? — perguntou Tinbane.

— "Fazer"? — Uma pausa. — Não muito. Fique em seu conapt, não compareça ao trabalho, não por enquanto.

Para que, caso eles me peguem, pensou Tinbane, ninguém mais no departamento seja atingido ao mesmo tempo. Mais vantajoso para vocês; entretanto, não para mim.

— Acho que vou sair da área — disse em voz alta. — Pode ser que a estrutura seja limitada no espaço, confinada a L.A.S., ou apenas a alguma parte da cidade. Se você não vetar isto. —Ele tinha uma amiga em La Jola, poderia ir para lá.

— Como quiser.

— Mas você não pode fazer nada para me ajudar — disse ele.

— Vou lhe dizer uma coisa — disse Donovan. — Vamos alocar alguns fundos, uma quantia moderada, a melhor que pudermos, com a qual você possa se arranjar. Até que consignamos localizar o maldito receptor e descobrir ao que ele está vinculado. Para nós, a dor de cabeça principal é que rumores já começaram a circular pelo departamento. Vai ser difícil conseguir formar equipes de repressão para enfrentar as futuras operações de jogo dos alienígenas... Que é, é claro, especificamente o que eles tinham em mente. Mais uma coisa que podemos fazer. Podemos fazer com que o laboratório construa um escudo cerebral para você, para que você não emane mais um padrão reconhecível. Mas você terá que pagar isto do seu próprio bolso. Possivelmente, poderá ser descontado do seu salário, em várias mensalidades. Se você estiver interessado. Para ser franco, se quer minha opinião pessoal, eu o aconselho a fazer isto.

— Está certo — disse Tinbane. Ele sentia-se obtuso, morto, cansado e resignado, tudo isso ao mesmo tempo. E tinha a profunda e aguda intuição de que sua reação era racional. —Mais alguma coisa que você sugira? — perguntou.

— Ande armado. Até quando for dormir.

— Dormir? — disse ele. — Você acha que eu vou conseguir dormir? Talvez consiga, depois que a máquina for totalmente destruída. — Mas isto não fará diferença, ele percebeu. Não agora. Não depois que ela enviou minhas ondas cerebrais para alguma outra coisa, uma coisa sobre a qual nada sabemos. Sabe Deus que equipamento poderá ser; os alienígenas aparecem com toda a sorte de coisas complicadas.

Desligou o telefone, caminhou até cozinha e, pegando uma garrafa de bourbon Antique meio vazia, preparou um whisky-sour.

Que trapalhada, disse consigo mesmo. Perseguido por uma máquina de fliperama que veio do outro mundo. Teve vontade — mas não muita — de rir.

O que se pode usar, perguntou-se, para agarrar uma máquina de fliperama enfurecida? Uma que tem o seu endereço e está disposta a agarrá-lo? Ou, mais especificamente, o nebuloso amigo de uma máquina de fliperama...

Alguma coisa fez "toc-toc" na janela da cozinha.

Enfiando a mão no bolso, ele sacou sua pistola-laser regulamentar; caminhando ao longo da parede da cozinha, aproximou-se da janela de maneira para não ser visto e olhou para a noite lá fora. Escuridão. Não conseguiu distinguir nada. Uma lanterna? Tinha uma no porta-luvas do seu aerocarro, estacionado na cobertura do edifício conapt. Era hora de apanhá-la.

Um momento depois, de lanterna na mão, subiu correndo as escadas de volta à sua cozinha.

O facho de luz revelou, comprimida contra a superfície exterior da janela, uma entidade em forma de percevejo com pseudópodos alongados projetando-se do corpo. Os dois sensores haviam batido contra o vidro da janela, evidentemente explorando de seu jeito cego, mecânico.

A coisa-percevejo subira pelo lado do edifício; ele podia notar a esteira de sucção que marcava sua escalada.

Sua curiosidade, neste ponto, se tornou maior do que o medo. Com cuidado, abriu a janela — não havia necessidade de pagar ao comitê de reparos do edifício por causa daquilo —e, cautelosamente, apontou a pistola-laser. A coisa—percevejo não se moveu; evidentemente enguiçara no meio de um ciclo. Provavelmente suas reações, ele adivinhou, eram relativamente lentas, muito mais lentas do que as de um equivalente orgânico comparável. A não ser, é claro, que tivesse sido preparada para detonar; neste caso, ele não teria tempo para ponderações.

Disparou um delgado raio contra o lado de baixo da coisa-percevejo.

Mutilada, a coisa-percevejo descaiu para trás, as múltiplas pequenas ventosas soltando-se. Quando ia cair, Tinbane segurou-a, puxou-a rapidamente para dentro e soltou-a no chão, mantendo a pistola apontada para ela. Mas estava funcionalmente liquidada; não se moveu mais.

Colocando-a sobre a pequena mesa da cozinha, apanhou uma chave de fenda na gaveta de ferramentas ao lado da pia. Sentou-se e examinou o objeto. Sentia, agora que podia proceder com calma; a pressão, pelo menos no momento, se aliviaria.

Levou quarenta minutos para abrir a coisa; nenhum dos seus parafusos de fixação se adaptava a uma chave de fenda normal, e ele viu-se afinal usando uma faca de cozinha comum. Mas conseguiu enfim abri-la sobre a mesa diante dele, a carcaça dividida em duas partes: uma ôca e vazia, a outra atulhada de componentes. Uma bomba? Ele a manuseou com extremo cuidado, inspecionando pouco a pouco cada conjunto de peças.

Não era uma bomba — pelo menos, não uma que ele pudesse identificar. Um instrumento de morte, então? Não tinha lâminas, nem toxinas ou microorganismos, nenhum tubo capaz de expelir uma descarga mortal, explosiva ou qualquer outra. Então o que, em nome de Deus, ela fazia? Reconheceu o motor que a movera parede do edifício acima, e a torreta fotoelétrica de direção pela qual ela se orientava. Mas aquilo era tudo. Absolutamente tudo.

Do ponto de vista de utilidade, aquilo era uma fraude.

Será que era? Ele olhou para o relógio. Havia gasto uma hora inteira com aquilo; sua atenção tinha sido desviada de todo o resto — e quem sabe o que poderia ser esse resto?

Nervoso, ele ergueu-se rigidamente, apanhou a pistola-laser e vasculhou todo o apartamento, ouvindo, pensando, tentando sentir alguma coisa, por pequena que fosse, fora da ordem usual.

Estou dando tempo a eles, percebeu. Uma hora inteira! Para o que quer que eles estejam realmente tencionando fazer.

Está na hora, pensou, de sair do apartamento. Cair fora e ir para La Jola, até que tudo aquilo estivesse acabado.

O vidifone tocou.

Quando ele atendeu, o rosto sombrio de Ted Donovan apareceu com um estalido.

— Temos um aerocarro do departamento monitorado o seu edifício conapt — disse Donovan. — E ele captou alguma atividade; achei que você gostaria de saber.

— Certo — disse ele, tendo.

— Um veículo, aéreo, pousou por alguns instantes no estacionamento da sua cobertura. Não era um aerocarro comum, era algo maior. Nada que pudéssemos reconhecer. Decolou de novo imediatamente, em grande velocidade, mas acho que eram eles.

— Largou alguma coisa?

— Sim. Receio que sim.

— Você pode fazer alguma coisa por mim a esta altura? Me ajudaria muito.

— O que você sugere? Não sabemos o que é; você certamente também não sabe. Estamos abertos a qualquer idéia, mas acho que teremos de esperar até que você conheça a natureza do... artefato hostil.

Algo bateu contra a porta, algo no vestíbulo.

— Vou deixar a linha aberta — disse Tinbane. — Não se afaste; acho que está acontecendo agora. — Neste estágio, ele já estava em pânico, um pânico aberto, infantil. Empunhando frouxa e entorpecidamente a pistola-laser, seguiu passo a passo até a porta da frente do conapt, parou, destrancou e abriu a porta. Ligeiramente. O mínimo que conseguiu.

Uma força enorme, incontida, empurrou mais a porta; a maçaneta escapou-lhe da mão. E, silenciosamente, a imensa bola de aço que estava encostada na porta entreaberta rolou para a frente. Ele recuou, sabendo que aquele era o adversário; o falso aparelho de escalar paredes desviara sua atenção daquilo.

Ele não podia sair. Não iria para La Jola agora. A grande e maciça esfera bloqueava totalmente o caminho.

Voltando ao vidifone, disse a Donovan:

— Estou encapsulado. Aqui no meu próprio conapt. — No perímetro externo, ele percebeu. Equivalente ao território acidentado na paisagem cambiante da máquina de fliperama. A primeira bola fora bloqueada ali, ficara alojada no vão da porta. Mas, e a Segunda? A terceira?

Cada uma chegaria mais perto.

— Você poderia construir uma coisa pra mim? — ele perguntou com a voz velada. — O laboratório poderia começar a trabalhar assim tarde da noite?

— Podemos tentar — disse Donovan. — Depende inteiramente do que você vai querer. O que tem em mente? O que acha que poderia ajudar?

Ele detestava pedir aquilo. Mas precisava. A próxima poderia irromper por uma janela, ou abater-se sobre ele através do teto.

— Eu quero — disse ele — algum tipo de catapulta. Suficientemente grande, suficientemente forte para suportar uma carga esférica de quatro e meio a cinco pés de diâmetro. Acha que pode conseguir? — Pediu a Deus que eles pudessem.

— É isso que você está enfrentando? — perguntou Donovan rispidamente

— A não ser que seja uma alucinação — disse Tinbane. — Uma projeção de terror deliberada, artificialmente induzida, com a intenção específica de me desmoralizar.

— O aerocarro do apartamento viu alguma coisa — disse Donovan. — E não era uma alucinação: tinha uma massa mensurável. E... — ele hesitou. — E ela deixou para trás algo grande. Sua massa ao partir estava consideravelmente diminuída. Portanto é real, Tinbane.

— Foi o que pensei — disse Tinbane.

— Levaremos a catapulta a você assim que for possível — disse Donovan. — Esperemos que haja um intervalo adequado entre cada... ataque. E é bom você contar com pelo menos cinco.

Tinbane, assentindo, acendeu um cigarro, ou pelo menos tentou acender. Mas suas mãos tremiam demais para levar o isqueiro até o lugar certo. Ele então tirou do bolso uma lata de rapé Dean's Own laqueada de amarelo, mas não conseguiu forçar a tampa apertada da lata; a lata escapou de seus dedos e caiu no chão.

— Cinco — ele disse — por jogo.

— Sim — disse Donovan relutantemente. — Também isso. A parede da sala de estar estremece.

A próxima estava vindo a ele do apartamento vizinho.