Total Recall
A Formiga elétrica
AS QUATRO E QUINZE da tarde, T.S.T., Garson Poole despertou, tomou conhecimento de que estava em uma cama de hospital numa enfermaria de três leitos e percebeu, além disso, duas coisas: que não tinha mais a mão direita e que nãos entia dor.
Eles me deram um analgésico forte — disse consigo mesmo olhando pela janela da perede a sua frente, de onde divisava o centro de Nova York. Teias nas quais veículos e pdes corriam e rodavam, rebrilhando ao sol de fim de tarde, e o brilho da luz sazonada agradava-lhe. Ainda não se foi, pensou ele. E nem eu.
Havia um phone sobre a mesinha ao lado da cama; ele hesitou, e afinal pegou-o e discou uma linha externa. Um momento depois estava diante de Louis Danceman, o encarregado das atividades da Tri-Plan quando ele, Garson Poole, estava em outros lugares.
— Graças a Deus você está vivo — disse Danceman ao vê-lo; seu rosto grande e carnudo, com uma superfície lunar de marcas de varíola, achatou-se de alívio. — Estive ligando para todos os...
— Eu simplesmente não tenho mais a mão direita — disse Poole.
— Mas você vai ficar em ordem. Quero dizer, eles podem enxertar uma nova.
— Há quanto tempo estou aqui? — disse Poole. Perguntou-se aonde tinham ido as enfermeiras e os médicos; porque não estavam cacarejando e criando caso por ele estar fazendo uma chamada?
— Quatro dias — disse Danceman. — Tudo aqui na fábrica vai indo espluncamente bem. De fato, nós espluncamos pedidos de três sistemas policiais diferentes, todos aqui na Terra. Dois em Ohio, um em Wyoming. Pedidos bons e consistentes, com um terço de adiantamente e a opção usual de arrendamente por três anos.
— Venha me tirar daqui — disse Poole.
— Não posso tirá-lo daí até que a nova mão...
— Mando fazer isso depois. — Ele queria desesperadamente voltar para um ambiente familiar. A lembrança do busca-pé mercante assomando grotescamente na tela do piloto resvalou pelo fundo de sua mente; se fechasse os olhos, sentir-se-ia de volta em sua embarcação danificada, enquanto ela se precipitava de um veículo para outro, causando prejuízos enormes enquando caía... acho que tive sorte, pensou.
— Sarah Benton está aí com você? — perguntou Danceman.
— Não. — Mas é claro. Sua secretária particular, nem que apenas por considerações de trabalho, deveria estar por perto, protegendo-o maternalmente ao seu modo imaturo, pueril. Todas as mulheres robustas gostam de bancar as mães com os outros, pensou. E elas são perigosas. Se caem em cima de você, podem matá-lo. — Talvez tenha sido isto o que aconteceu comigo — disse em voz alta. — Talvez Sarah tenha caído em cima do meu busca-pé.
— não, não; um pino de amarração do estabilizador de leme do seu busca-pé rachou ao meio durante a hora de transito mais pesado, e você...
— Eu me lembro. — Ele voltou-se na cama quando a porta da enfermaria se abriu; um médico vestido de branco e duas enfermeiras de azul apareceram e encaminharam-se para sua cama. — Falo com você mais tarde — disse Poole, e desligou o phone. Inspirou profunda e expectantemente.
— Você não deveria estar phonando assim tão cedo — disse o médico, estudando o seu gráfico. — Sr. Garson Poole, proprietário da Tri-Plan Eletrônica. Fabricante de identi-dardos que rastreiam a vítima em um raio de mil milhas, reagindo a padrões específicos de encefalondas. É um homem de sucesso, Sr. Poole. Mas o senhor não é um homem. É uma formiga elétrica.
— Cristo — disse Poole, aturdido.
— Assim, não podemos relamente tratá-lo aqui, agora que descobrimos. Ficamos sabendo, é claro, assim que examinamos a sua mão direita ferida; vimos os componentes eletrônicos e então fizemos radiografias do tórax que, naturalmente, confirmaram a nossa hipótese.
— O que — disse Poole — é uma "formiga elétrica"? — Mas ele sabia, era capaz de decifrar o termo.
— Um robô orgânico — disse uma enfermeira.
— Sei — disse Poole. Uma perspiração frígida despontou à superfície de sua pele, em todo o corpo.
— Você não sabia — disse o médico.
— Não — Poole balançou a cabeça. O médico disse:
— Aparece por aqui uma formiga elétrica a cada semana, mais ou menos. Trazida depois de um acidente de busca-pé, como no seu caso, ou procurando admissão voluntária... Uma, como no seu caso, a quem nunca contaram, e que vinha funcionando lado a lado com humanos, acreditando ser, ela mesma, humana. Quanto à sua mão... — Ele fez uma pausa.
— Esqueça a minha mão — disse Poole selvagemente.
— Fique calmo. — O médico curvou-se sobre ele e fitou intensamente o rosto de Poole. —Vamos fazer com que um barco-hospital o transporte para um posto de manutenção onde possam consertar ou substituir a sua mão por um custo razoável, seja para você, se for auto-proprietário, seja para os seus proprietários, se houver. Qualquer que seja o caso, você estará de volta à sua mesa na Tri-Plan funcionando tão bem como antes.
— Exceto — disse Poole — que agora eu sei. — Gostaria de saber se Danceman, ou Sarah, ou qualquer um dos outros no escritório sabia. Eles, ou um deles o teria comprado? Ou projetado? Um testa-de-ferro, pensou, isso é tudo o que sempre fui. Na verdade, eu nunca devo ter dirigido a companhia; era uma ilusão implantada em mim quando fui fabricado... juntamente com a ilusão de que sou humano e vivo.
— Antes de você partir para o posto de manutenção — disse o médico —, poderia por gentileza acertar a sua conta na recepção?
— Como pode haver uma conta se vocês aqui não tratam formigas? — perguntou Poole, acidamente.
— É pelos nossos serviços — disse a enfermeira — até o momento em que ficamos sabendo.
— Ponham na minha conta — disse Poole, com uma raiva furiosa, impotente. — Debitem à minha firma. — Com esforço concentrado, conseguiu sentar; com a cabeça rodando, desceu vacilante os pés da cama para o chão. — Fico contente em sair daqui — disse, colocando-se em posição vertical. — E obrigado pela sua atenção humana.
— Também agradecemos, Sr. Poole — disse o médico. — Ou deveria dizer apenas Poole? No posto de manutenção, sua mão foi reposta.
Provou ser algo fascinante, a mão; ele a examinou por um bom tempo antes de permitir que os técnicos a instalassem. Superficialmente, parecia orgânica. Na superfície, era de fato. Pele natural cobria a carne natural, e sangue de verdade enchia as veias e capilares.
Mas, embaixo daquilo, reluziam fios e circuitos, e componentes miniaturizados. Olhando no fundo do pulso, viu comportas de compensação, motores, válvulas de múltiplos estágios, tudo muito pequeno. Intrincado. E... a mão custava quarenta rãs. O salário de uma semana, pelo menos o que até agora vinha recebendo pela folha de pagamento da companhia.
— Isso tem garantia? — perguntou ao técnicos enquanto eles fundiam a parte "óssea" da mão ao resto do corpo.
— Noventa dias, para componentes e mão-de-obra — disse um dos técnicos. — a não ser que seja submetida a abusos anormais e intencionais.
— Isto soa vagamente sugestivo — disse Poole.
O técnico, um humano — eram todos humanos —, disse, olhando-o intensamente.
— Você andou se fazendo passar por humano?
— Não intencionalmente — disse Poole.
— E afora, é intencional?
— Exatamente — disse Poole.
— Você sabe por que nunca percebeu? Deve ter havido indicações... estalidos e zumbidos dentro de você de vez em quando. Você nunca percebeu porque foi programado para não perceber. Agora terá a mesma dificuldade para descobrir por que foi construído e para quem vem funcionando.
— Um escravo — disse Poole —, um escravo mecânico.
— Você se divertiu.
— Tive uma boa vida — disse Poole. — Trabalhei duro.
Pagou ao posto as quarenta rãs, movimentou os novos dedos, testou-se pegando diversos objetos, como moedas, e partiu. Dez minutos depois estava a bordo de um transportador público, a caminho de casa. Fora um dia e tanto.
Em casa, em seu apartamento de quarto-e-sala, serviu-se de uma boa dose de Jack Daniels Purple Label de sessenta anos, sentou-se e ficou bebericando enquanto olhava, através de sua única janela, para o edifício do outro lado da rua. Deveria ir até o escritório?', perguntou-se. E, neste caso, por quê? E, se não, por quê? Escolha. Cristo, ele pensou, como é desgastante saber disto. Sou uma aberração, observou. Um objeto inanimado macaqueando como um animado. Mas... estava vivo. E no entanto... sentia-se diferente agora. A respeito de si mesmo. E conseqüentemente a respeito de todos, especialmente Danceman e Sarah, todos na Tri-Plan.
Acho que vou me matar, disse consigo mesmo. Mas provavelmente estou programado para não fazer isto; seria um desperdício oneroso, que o meu proprietário teria que absorver. E ele não gostaria disso.
Programado. Dentro de mim, em algum lugar, existe uma matriz bem ajustada em seu lugar, um anteparo de grade que me isola de certos pensamentos, certos atos. E me força a outros. Não sou livre. Nunca fui, mas agora sei; isto torna tudo diferente.
Depois de tornar a janela opaca, ele acendeu a luz de cima e começou cuidadosamente a tirar as roupas, peça por peça. Observara atentamente quando os técnicos do posto de manutenção acoplaram a nova mão: tinha agora uma noção bastante clara de como seu corpo fora construído. Dois painéis principais, um em cada coxa; os técnicos haviam removido os painéis para verificar o complexo de circuitos embaixo. Se eu estiver programado, ele refletiu, a matriz provavelmente poderá ser encontrada lá.
O labirinto de circuitos o desconcertava. Preciso de ajuda, pensou. Vamos ver... qual é o código phônico para o computador classe BBB que arrendamos lá no escritório?
Pegou o phone, discou para o computador na sua base permanente em Boise, Idaho.
— O uso deste computador está prefixado a uma base de cinco rãs por minutos — disse uma voz mecânica no phone. — Queira colocar a sua placa masterdebicred diante da tela.
Ele obedeceu.
— Ao soar o sinal, você será conectado com o computador — continuou a voz. — Consulte-o o mais rapidamente possível, levando em conta o fato de que a resposta será fornecida em termos de microssegundos, enquanto que a sua pergunta será... — Ele abaixou o volume. Mas rapidamente levantou-o de novo quando o audio-input em branco apareceu na tela. Naquele momento, o computador se transformara em um ouvido gigante, ouvindo-o — bem como o cinqüenta mil outros consultantes em toda a Terra.
— Faça uma exploração visual em mim — instruiu. — E diga-me onde poderei encontrar o mecanismo de programação que controla os meus pensamentos e comportamento. — Ele aguardou. Na tela do phone, um grande e ativo olho com lentes múltiplas o fitava; expôs-se ao olho ali mesmo, em seu apartamento quarto-e-sala.
O computador disse:
— Remove o painel peitoral. Pressione o esterno e depois mova-o cuidadosamente para fora.
Ele obedeceu. Uma seção de seu peito de deslocou; aturdido, colocou-a no chão.
— Posso distinguir módulos de controle — disse o computador —, mas não consigo determinar qual deles... — Ele fez uma pausa enquanto seu olho vagueava pela tela do phone. — Posso distinguir um rolo de fita perfurada instalado acima do seu mecanismo cardíaco. Pode vê-lo? — Poole curvou o pescoço e olhou. E viu, também. — Terei que interromper a comunicação — disse o computador. — Depois de examinar os dados disponíveis voltarei a contatá-lo e fornecerei uma resposta. Tenha um bom dia. — A tela escureceu.
Vou arrancar a fita para fora de mim, disse Poole consigo mesmo. Pequenina... Não maior do que dois carretéis de linha, com um cabeçote explorador instalado entre o tambor de alimentação e o tambor de recolhimento. Não conseguia notar nenhum sinal de movimento; os carretéis pareciam inertes. Devem intervir como anuladores, refletiu, quando ocorrem situações específicas. Anuladores do meu processo encefãlico. E vêm fazendo isso durante toda a minha vida.
Ele estendeu a mão e tocou no tambor de alimentação. Tudo o que tenho a fazer é arrancar isto, pensou, e...
A tela do phone iluminou-se novamente.
— Placa masterdebicred número 3-BNX-882-HQR446-T — veio a voz do computador. —Aqui BBB-307DR recontatando em resposta à sua consulta com duração de dezesseis segundos de 4 de novembro de 1992. O rolo de fita perfurada acima do seu mecanismo cardíaco não é uma torreta de programação, mas um mecanismo suscitador de realidade. Todos os estímulos sensoriais recebidos por seu sistema neurológico central emanam dessa unidade, e tentar interferir nela seria arriscado, se não terminal. — Ele acrescentou: — Você parece não possuir circuito de programação. Questão respondida. Bom dia. — E desligou.
Poole, nu diante da tela do phone, tocou novamente no tambor de fita com calculado e enorme cuidado. Entendo — pensou ele, desordenadamente. — Ou será que entendo? Esta unidade...
Se eu cortar a fita, deu-se conta, meu mundo desaparecerá. A realidade continuará existindo para os outros, mas não para mim. Porque minha realidade, meu universo, vem a mim desta minúscula unidade. Alimentada ao cabeçote explorador e de lá ao meu sistema nervoso central, a medida que se desenrola, arrastando-se como uma lesma.
Está se desenrolando há anos, concluiu.
Pegou as roupas, vestiu-as de volta e sentou-se na ampla poltrona poltrona — um luxo importado para seu apartamento do escritório central de Tri-Plan — e acendeu um cigarro de tabaco. Suas mãos tremiam quando pôs de lado o isqueiro com monograma; reclinando-se, soprou a fumaça para frente, criando um nimbo cinzento.
Tenho que ir devagar, pensou. O que estou tentando fazer? Passar por cima da minha programação? Mas o computador não encontrou nenhum circuito de programação. Quero interferir com a fita de realidade? E, se quero, por quê?
Porque, ele pensou, se eu controlar isto, controlo a realidade. Pelo menos na medida em que ela me concerne. Minha realidade subjetiva... Mas ela é tudo o que existe. A realidade objetiva é um mecanismo sintético, lidando com a hipotética universalização de múltiplas realidades subjetivas.
Meu universo está entre meus dedos, percebeu. Se apenas pudesse descobrir como a maldita coisa funciona. Tudo o que comecei a fazer originalmente foi procurar e localizar o meu circuito de programação para que eu pudesse conseguir um verdadeiro funcioamento homeostático: o controle de mim mesmo. Mas com isto...
Com isto, ele não apenas ganhava controle sobre si mesmo; ele ganhava controle sobre tudo.
E isto me diferencia de todos os seres humanos que jamais viveram e morreram, pensou sombriamente.
Foi até o phone e ligou para o escritório. Quando Danceman apareceu na tela, disse rispidamente:
— Quero que você me mande um jogo completo de microinstrumentos e tela ampliadora para o meu apartamento. Precisa trabalhar em alguns microcircuitos. — E, não querendo discutir o assunto, cortou a conexão.
Meia hora depois ouviu uma batida na porta. Ao abrir, defrontou-se com um dos capatazes da fábrica, carregado de microinstrumentos de todos os tipos.
— O senhor não disse exatamente o que queria — disse o capataz entrando no apartamento. — Então o Sr. Danceman me fez trazer tudo.
— E o sistema de lentes ampliadoras?
— No carro, em cima da capota.
Pode ser que o que eu estou querendo fazer, pensou Poole, seja morrer. Acendeu um cigarro e ficou fumando e esperando, enquanto o capataz da fábrica transportava a pesada tela ampliadora, com sua fonte de energia e seu painel de controle, para dentro do apartamento. Isso é suicídio, o que estou fazendo aqui. Ele estremeceu.
— Alguma coisa de errado, Sr. Poole? — perguntou o capataz ao erguer-se, aliviado do fardo do sistema de lentes ampliadoras. — O senhor ainda deve estar com as chavetas meio frouxas por causa do acidente.
— Sim — disse Poole quietamente. Continuou aguardando, tenso, até que o capataz foi embora.
Sob o sistema de lentes ampliadoras, a fita plástica assumiu uma nova forma: uma ampla trilha ao longo da qual centenas de milhares de perfurações foram introduzidas. Como eu pensei, refletiu Poole. Não registradas como cargas elétricas numa camada de óxido de ferro, mas realmente aberturas perfuradas.
Sob a lente, a faixa de fita deslizava visivelmente para a frente. Muito lentamente, mas movia-se, a uma velocidade uniforme, na direção do cabeçote explorador.
Da maneira como entendo, pensou ele, as aberturas perfuradas são registros de circuitos fechados. Isto funciona como uma pianola. Sólido é "não", furo é "sim". Como eu poderia testar isso?
Obviamente, obstruindo um certo número de furos.
Ele mediu a quantidade de fita restante no carretei de alimentação, calculou — com grande esforço — a velocidade de avanço da fita e chegou a um número. Se alterasse a fita visível na borda de admissão do cabeçote explorador, cinco a sete horas se passariam antes que aquele período de tempo específico chegasse. Ele estaria, de fato, obliterando estímulos que deveriam ocorrer em poucas horas a contar de agora.
Com um micropincel, aplicou verniz opaco, obtido no estojo de suprimentos que acompanhava os microinstrumentos, em uma grande — relativamente grande — extensão de fita. Eliminei estímulos para cerca de meia ora, ponderou. Recobri pelo menos uns mil furos.
Seria interessante ver que mudanças, se houvesse, ocorreriam ao seu meio ambiente dali a seis horas.
Cinco horas a meia depois, estava sentado no Kracker's, um soberbo bar em Manhattan, tomando um drinque com Danceman.
— Você parece mal — disse Danceman.
— Eu estou mal — disse Poole. Terminou seu drinque, um Scotch sour, e pediu mais um.
— Por causa do acidente?
— De uma certa forma, sim.
— Seria... por algo que descobriu sobre você mesmo? — perguntou Danceman. Erguendo a cabeça, Poole encarou-o à luz sombria do bar.
— Então você sabe.
— Eu sei — disse Danceman — que deveria chamar você de "Poole" e não de "Sr. Poole". Mas prefiro a última forma, e continuarei a usá-la.
— Há quanto tempo você sabe? — perguntou Poole.
— Desde que você assumiu o comando da firma. Me disseram que os verdadeiros proprietários da Tri-Plan, que estão sediados no Sistema Prox, queriam que a Tri-Plan fosse dirigida por uma formiga elétrica que eles pudessem controlar. Eles queriam um brilhante e energético...
— Os verdadeiros proprietários? — Era a primeira vez que ouvira aquilo. — Temos dois mil acionistas. Espalhados por toda a part.
— Marvis Bey e seu marido Ernan, em Prox-4, controlam cinqüenta e um por cento das ações preferenciais. É assim desde o começo.
— Por que eu não fiquei sabendo?
— Me disseram para não contar. Você deveria pensar que estava determinando toda a política da empresa. Com a minha ajuda. Mas, na realidade, eu estava alimentado você com aquilo que os Beys me forneciam.
— Eu sou um testa-de-ferro — disse Poole.
— De uma certa forma, sim — Danceman assentiu. — Mas você sempre será o "Sr. Poole" para mim.
Uma parte da parede oposta desvaneceu-se. E, com ela, diversas pessoas sentadas em mesas próximas. E...
Do outro lado da grande lateral de vidro do bar, a vista a cidade de Nova York bruxuleou e deixou de existir.
Vendo a expressão dele, Danceman disse:
— O que foi?
— Olhe em volta — Poole disse roucamente. — Está vendo alguma mudança? Depois de correr os olhos pelo salão, Danceman disse:
— Não. Como o quê?
— Ainda está vendo a paisagem?
— É claro. Poluída, como sempre. As luzes piscam...
— Agora eu sei — disse Poole. Ele estava certo: cada furo recoberto significava o desaparecimento de algum objeto em seu mundo de realidade. Levantando-se, ele disse: —Vejo você depois, Danceman. Tenho que voltar ao meu apartamento; é um trabalho que estou fazendo. Boa noite. — Saiu do bar para a rua, procurando um táxi.
Não havia táxis.
Eles também, pensou. Fico imaginando o que mais eu cobri de verniz. Prostitutas? Flores? Prisões?
Ali, no estacionamento do bar, o busca-pé de Danceman. Vou levá-lo, decidiu. Ainda existem táxis no mundo de Danceman; ele pode conseguir um mais tarde. De qualquer forma, é um carro da companhia, e tenho uma cópia da chave.
Pouco depois estava no ar, virando na direção de seu apartamento.
A cidade de Nova York não havia retornado. À esquerda e à direita, veículos e prédios, ruas, esteiras de peds, placas... e no centro, nada. Como eu posso entrar voando naquilo?, perguntou-se. Eu desapareceria.
Ou será que não? Ele voou para o nada.
Fumando um cigarro após o outro, voou descrevendo um círculo durante quinze minutos... e então, silenciosamente, Nova York reapareceu. Ele podia terminar a viagem. Apagou o cigarro (um desperdício de algo tão precioso) e lançou-se na direção do apartamento.
Se eu inserir uma estreita faixa opaca, ponderava ele enquanto destrancava a porta do apartamento, poderei...
Seus pensamentos se interromperam. Alguém estava sentado na poltrona da sala de estar, assistindo a um capitão-kirk na TV.
— Sarah — disse ele, exasperado.
Ela levantou-se, bem fornida mas graciosa:
— Você não estava no hospital, então vim aqui. Ainda tenho a achave que você me deu em março, antes de termos aquela horrível discussão. Oh... Mas você parece tão deprimido. — Aproximou-se dele e olhou-o no rosto, ansiosa. — O seu ferimento dói tanto assim?
— Não é isso. — Ele triou o casaco, a gravata, a camisa e depois o painel peitoral; ajoelhando, ergueu os olhos para ela e disse: — Descobri que sou uma formiga elétrica. O que, de um certo ponto de vista, abre determinadas possibilidades, que estou explorando agora. — Curvou os dedos e, na ponta do valdo esquerdo, uma microchave de fenda, tornada visível pelo sistema de lentes ampliadoras, se moveu. — Você pode assistir — informou-a —, se quiser.
Ela começara a chorar.
— Qual é o problema? — ele perguntou selvagemente, sem erguer os olhos do seu trabalho.
— Eu... é que isto é tão triste. Você foi um empregador tão bom para todos nós na Tri-Plan. Nós o respeitamos tanto. E agora tudo mudou.
A fita plástica tinha margens não perfuradas em cima e embaixo; ele cortou uma tira horizontal, muito estreita, e depois de um momento de grande concentração cortou a própria fita, quatro horas antes do cabeçote explorador. Girou então a fita cortada para colocá-la num ângulo reto em relação ao cabeçote, fundiu-a no lugar com um microelemento térmico e recolocou os rolos de fita em seus lugares à esquerda e à direita. Iria fazer efeito — de acordo com os seus cálculos — poucos minutos depois da meia-noite.
— Você está se consertando? — perguntou Sarah timidamente.
— Estou me libertando — disse Poole. Além desta, ele tinha diversas alterações em mente. Mas, primeiro, tinha que testar sua teoria: uma fita virgem, não perfurada, significava ausência de estímulos; neste caso, a ausência de fita... — essa expressão no seu rosto — disse Sarah. Ela começou a recolher a bolsa, o casaco, a revista audivid enrolada. — Vou embora. Posso ver como você se sente por me encontrar aqui.
— Fique — disse ele. — Vou assistir ao capitão-kirk com você. — Vestiu a camisa. — Você se lembra de como era anos atrás, quando havia... Quantos eram mesmo? Vinte ou vinte e dois canais de TV? Antes de o governo fechar os independentes?
Ela assentiu.
— Como seria — disse ele — se este aparelho de TV projetasse todos os canais ao mesmo tempo na tela de raios catódicos? Você distinguiria alguma coisa na mistura?
— Acho que não.
— Talvez pudéssemos aprender. Aprender a ser seletivos: a fazer nós mesmos o trabalho de distinguir o que queremos e o que não queremos. Pense nas possibilidade, se o nosso cérebro pudesse manipular vinte imagens simultâneas; pense na quantidade de conhecimentos que poderiam ser armazenados num determinado período. Me pergunto se o cérebro, o cérebro humano... — Ele interrompeu-se. — O cérebro humano não poderia fazer isso — disse ele em seguida, refletindo consigo mesmo. Mas, teoricamente, um cérebro quase orgânico poderia.
— E é isso o que você tem?
— Sim — disse Poole.
Eles assistiram ao capitão-kirk até o fim, e então foram para a cama. Mas Poole ficou reclinado em seus travesseiros, fumando e matutando. Ao seu lado, Sarah virava-se agitada, perguntando-se por que ele não apagava a luz.
Onze e cinqüenta. Aconteceria a qualquer momento, agora.
— Sarah — disse ele —, eu quero a sua ajuda. Daqui a alguns minutos, algo de estranho vai acontecer comigo. Não vai durar muito tempo, mas quero que você me observe cuidadosamente. Veja se eu... — ele gesticulou — demonstro alguma alteração. Se eu pareço ter adormecido, ou se falo coisas sem nexo, ou... — ele quis dizer "se eu desapareço". Mas não disse. — Não vou fazer mal algum a você, mas acho que seria uma boa idéia estar amada. Você está com sua arma antiassalto?
— Na minha bolsa. — Ela despertara completamente agora. Erguendo-se da cama, olhou para ele atemorizada, os ombros largos, bronzeados e sardentos expostos à luz do quarto.
Ela foi pegar a arma.
O quarto enrijeceu-se numa imobilidade paralisada. E então as cores começaram a se desvair. Os objetos diminuíram até que, como fumaça, desapareceram nas sombras. A escuridão toldou tudo, enquanto os objetos do quarto ficavam cada vez mais enfraquecidos.
Os últimos estímulos estão se desvanecendo, percebeu Poole. Apertou os olhos, tentando ver. Distinguiu Sarah Benton, sentada na cama: uma figura bidimensional que, como uma boneca, fora colocada ali para depois desbotar e definhar. Lufadas erráticas de substância desmaterializada se esfacelaram em nuvens instáveis; os elementos se juntaram, se esfacelaram e se juntaram mais uma vez. E então os últimos resquícios de calor, energia e luz se dissiparam. O quarto se fechou e desmoronou sobre si mesmo, como que isolando-se da realidade. A essa altura, a negritude absoluta substituiu tudo o mais, espaço sem profundidade, não noturno, mas antes rígido e inflexível. E, somando-se a isso, ele também não ouvia mais nada.
Tentou estender a mão para tocar em alguma coisa. Mas não havia nada para estender. A consciência do seu próprio corpo desaparecera, juntamente com todo o resto do universo. Não tinha mãos e, mesmo se tivesse, não havia nada para sentir com elas.
Continuo certo quanto à maneira como a maldita fita funciona. Disse consigo mesmo, usando uma boca inexistente para comunicar uma mensagem invisível.
Será que isto vai passar em dez minutos!, perguntou-se. Estaria certo também quanto a isto? Ele aguardou... Mas sabia intuitivamente que sua noção de tempo desaparecera com todo o resto. Posso apenas aguardar, percebeu. E esperar que não seja por muito tempo.
Entra num ritmo, ele pensou. Farei uma enciclopédia. Tentarei listar tudo o que começa com "A". Vamos ver, ele pensou. Abacate, automóvel, acksetron, atmosfera. Atlântico, aspic de tomate, anúncio... Ele prosseguiu pensando e pensando, as categorias resvalando através de sua mente assombrada pelo medo.
De repente a luz tremeluziu e acendeu,
Ele estava deitado no sofá da sala a luz amena do sol entrava pela única janela, espalhando-se pelo ambiente. Dois homens estavam curvados sobre ele com as mãos cheias de instrumento. Homens de manutenção, observou. Estão trabalhando em mim.
— Ele está consciente — disse um dos técnicos. Endireitou-se e deu um passo atrás, e ele viu Sarah Benton, trêmula de ansiedade.
— Graças a Deus! — disse ela. — Eu estava com tanto medo. Liguei afinal para o Sr. Danceman a respeito do...
— O que aconteceu? — interrompeu Poole rudemente. — Comece do começo e, pelo amor de Deus, fale devagar. Para que eu possa assimilar tudo.
Sarah se recompôs, fez uma pausa para esfregar o nariz e então desatou a falar nervosamente:
— Você desmaiou. Ficou só ali deitado, como se estivesse morto. Esperei até duas e meia e você não fez nada. Liguei para o Sr. Danceman, infelizmente o acordei, e ele ligou para a manutenção de formigas elétricas... Quero dizer, o pessoal da manutenção de robôs orgânicos, e estes dois homens vieram às quatro e quarenta e cinco, e desde então estão trabalhando em você. Agora são seis e quinze da manhã. Eu estou com muito frio, e você precisa ir para a cama. Não vou conseguir ir para o escritório hoje, realmente não posso. —Virou-se para o outro lado fungando. O som o incomodou.
Um dos homens uniformizados disse:
— Você andou mexendo na sua fita de realidade.
— Sim — disse Poole. Por que negar? Obviamente eles tinham encontrado o pedaço de fita sólida que inserira. — Eu não deveria ter ficado apagado tanto tempo — disse ele. — Inseri um pedaço de apenas dez minutos
— Ele obstruiu o mecanismo de transporte da fita — explicou o técnico. — A fita parou de se mover para a frente; o pedaço que você inseriu o fez engripar, e ele se desligou automaticamente para evitar romper a fita. Por que você tinha que mexer com aquilo? Sabe o que poderia causar?
— Não tenho certeza — disse Poole.
— Mas tem uma boa noção.
— É a razão porque estou fazendo isso — disse Poole, mordaz.
— Sua conta — disse o homem da manutenção — será de noventa e cinco rãs. Pagáveis em prestações, se quiser.
— Certo — disse ele. Sentou-se, aturdido, esfregou os olhos e fez uma careta. Sua cabeça doía, e o estômago parecia totalmente vazio.
— Da próxima vez, tire as rebarbas da fita — disse-lhe o primeiro técnico. — Assim, ela não emperrará. Não ocorreu a você que ela tivesse um fator de segurança embutido? Que ela iria parar, em vez de...
— O que acontece — interrompeu Poole, a voz baixa e deliberadamente cautelosa — se nenhuma fita passar pelo cabeçote explorador? Nenhuma fita, nada, a fotocélula brilhando para cima sem impedância?
Os técnicos se olharam. Um deles disse:
— Todos os neurocircuitos formariam pontes sobre suas sinapses e entrariam em curto.
— O que quer dizer... ? — disse Poole.
— Quer dizer o fim do mecanismo.
Poole disse: — examinei o circuito. Ele não transmite voltagem suficiente para fazer isto. Metais não se fundem sob cargas tão pequenas de corrente, mesmo que os terminais encostem um no ouro. Estamos falando de um milionésimo de watt ao longo de um canal de césio com talvez 1/16 de polegada de comprimento. Vamos assumir que exista um bilhão de combinações possíveis surgindo das perfurações da fita em um determinado instante. A saída total não é cumulativa; a quantidade de corrente depende do que a bateria designa para cada módulo, o que não é muito. Com todas as passagens abertas e funcionando.
— Acha que iríamos mentir? — perguntou um dos técnicos, com um ar cansado.
— Por que não? — disse Poole. — Tenho aqui uma oportunidade de vivenciar tudo. Simultaneamente. Conhecer o universo e a sua integridade, estar momentaneamente em contato com toda a realidade. Algo que nenhum humano pode fazer. Uma partitura sinfônica entrando em meu cérebro fora de tempo, todas as notas, todos os instrumentos soando simultaneamente. E todas as sinfonias. Percebe?
— Isto vai queimar os seus circuitos — os dois técnicos disseram juntos.
— Não acho — disse Poole. Sarah disse:
— Aceita um café, Sr. Poole?
— Sim — disse ele. Abaixou as pernas, pressionou os pés frios contra o piso, estremeceu. E então levantou-se. Seu corpo doía. Eles me deixaram deitado a noite inteira no sofá, percebeu. Levando tudo em consideração, eles bem que poderiam ter feito coisa melhor que aquilo.
Garson Poole estava sentado à mesa de cozinha no outro canto da sala, diante de Sarah, tomando café. Os técnicos já tinham ido há muito.
— Você não vai mais fazer experiências com você mesmo, vai? — perguntou Sarah, suplicantemente.
Poole disse numa voz desagradável:
— Eu gostaria de controlar o tempo. Revertê-lo. — Vou cortar fora um segmento de fita, pensou, e fundi-lo de volta de cabeça para baixo. As seqüências causais vão então fluir ao contrário. Portanto eu vou descer de ré os degraus do campo de pouso da cobertura, andar de costas até a minha porta, empurrar uma porta trancada, andar de costas até a pia, de onde vou tirar uma pilha de pratos sujos. Vou me sentar a esta mesa, diante da pilha, encher cada um dos pratos com comida tirada do meu estômago... E então vou transferir a comida para a geladeira. No dia seguinte, vou tirar a comida da geladeira, colocá-la em sacos, levar os sacos até um supermercado, distribuir a comida aqui e ali pela loja. E, por fim, no balcão da frente, vão me dar dinheiro por isso, tirado da caixa registradora. A comida vai ser embalada junto com outros alimentos em grandes caixas plásticas e despachada para fora da cidade, às instalações hidropônicas do Atlântico, onde será devolvida a árvores e arbustos, ou aos corpos de animais mortos, ou enterrada fundo na terra. Mas o que isto provaria? Uma fita de vídeo girando de trás para diante... Eu não saberia mais do que sei agora, o que não é bastante.
O que quero, percebeu, é a definitiva e absoluta realidade, por um microssegundo. Depois não importa, porque tudo será conhecido. Não restará nada para entender, ou ver.
Posso tentar uma outra mudança, disse consigo mesmo. Antes de tentar cortar a fita. Vou abrir novas perfurações e ver o que emerge depois. Será interessante, porque não saberei o que significam os furos que estarei fazendo.
Usando a ponta de um microinstrumento, dez diversos furos a esmo na fita. O mais perto do cabeçote explorador que conseguiu... Ele não queria esperar.
— Fico pensando se você vai ver — disse a Sarah. Aparentemente não, até onde era capaz de extrapolar. — Alguma coisa pode aparecer — disse-lhe. — Eu só quero preveni-la; não quero que você fique com medo.
— Oh, querido — disse Sarah com uma voz metálica.
Ele examinou seu relógio de pulso. Um minuto se passou, depois um segundo, um terceiro. E então...
No centro da sala, apareceu um bando de patos verde-e-brancos. Eles grasnaram alvoroçados, alçaram-se do soalho e começaram a se debater contra o teto, numa massa agitada de penas e asas, frenéticos em seu vasto ímpeto, seu instinto, se escapar.
— Patos — disse Poole maravilhado. — Fiz a perfuração correspondente a uma revoada de patos selvagens.
Alguma coisa mais apareceu então. Um banco de jardim, no qual sentava-se um homem maltrapilho, lendo um jornal rasgado e dobrado. Ele ergueu os olhos, distinguiu Poole vagamente, sorriu de leve com uma dentadura malfeita e voltou ao seu jornal dobrado. Prosseguiu lendo.
— Você pode vê-lo? — Poole perguntou a Sarah. — E os patos? — Naquele momento, os patos e o vagabundo do jardim desapareceram. Nada restou deles. O intervalo em suas perfurações passara rapidamente.
— Eles não eram reais — disse Sarah. — Eram? Então como...
— Você não é real — ele disse a Sarah. — Você é um fator de estímulo na minha fita de realidade. Uma perfuração que pode ser coberta de verniz. Você também tem existência em outra fita de realidade, ou numa realidade objetiva? — Ele não sabia; não podia dizer. Talvez Sarah também não soubesse. Talvez ela existisse em mil fitas de realidade; talvez em todas as fitas de realidade já fabricadas. — Se eu cortar a fita — disse ele —, você estará em toda a parte e em lugar algum. Como tudo o mais no universo. Pelo menos até onde minha consciência alcançar.
— Eu sou real — ela balbuciou.
— Quero conhecer você completamente — disse Poole. — E, para fazer isso, preciso cortar a fita. Se eu não fizer isso agora, é inevitável que eventualmente eu faça de qualquer jeito. —Então, por que esperar? E há sempre a possibilidade de que Danceman tenha relatado tudo ao meu criador, e eles comecem a agir para me interceptar. Porque talvez eu esteja pondo em risco uma propriedade deles — eu.
— Você me faz ter vontade de ter ido para o escritório, afinal — disse Sarah, os cantos da boca descaídos num desalento com covinhas.
— Vá — disse Poole.
— Não quero deixar você sozinho.
— Vou ficar bem.
— Não, você não vai ficar bem. Você vai se desligar da tomada ou qualquer coisa assim, se matar porque descobriu que é só uma formiga elétrica e não um ser humano.
— Pode ser — disse ele depois de uma pausa. Talvez tudo se resumisse a isto.
— E eu não posso impedi-lo — disse ela.
— Não. — Ele concordou com a cabeça.
— Mas eu vou ficar — disse Sarah. — Mesmo não podendo impedi-lo. Porque, se eu for embora e você se matar, vou ficar me perguntando pelo resto da vida o que teria acontecido se eu tivesse ficado. Entende?
Ele assentiu novamente.
— Vá em frente — disse Sarah. Ele levantou-se.
— Não é dor o que vou sentir — disse-lhe. — Embora a você possa parecer. Tenha em mente o fato de que os robôs orgânicos só têm um mínimo de circuitos de dor. Eu estarei vivenciando a mais intensa...
— Não me diga mais nada — interveio ela. — Apenas faça o que tiver de fazer, ou não faça se não tiver.
Desajeitadamente, pois estava assustado, ele enfiou a mão na unidade de microluva e estendeu-a para apanhar uma minúscula ferramenta: uma lâmina de corte afiada.
— Vou cortar uma fita que está montada por dentro do meu painel peitoral — disse ele, olhando atentamente através do sistema de lentes ampliadoras. — Isto é tudo. — Sua mão tremia ao erguer a lâmina. Pode ser feito em um segundo. Completamente. E... terei tempo de refundir as extremidades cortadas uma na outra — constatou. Pelo menos meia hora. Se eu mudar de idéia.
Ele cortou a fita.
Olhando para ele, encolhida, Sarah sussurou:
— Não aconteceu nada.
— Tenho trinta ou quarenta minutos. — Sentou-se novamente à mesa, depois de tirar as mãos das luvas. Sua voz, percebeu, estava trêmula; sem dúvida Sarah notara isso, e ele zangou-se consigo mesmo, sabendo que a alarmara. — Sinto muito — disse, irracionalmente; ele queria desculpar-se. — Talvez fosse melhor você ir — disse, em pânico. Levantou-se outra vez. Ela também levantou, por reflexo, como se o estivesse imitando; lívida e nervosa, ficou ali, palpitando. — Vá embora — disse ele com a voz pastosa. — Volte para o escritório, onde deveria estar. Onde nós dois deveríamos estar. — Vou refundir as pontas da fita, declarou para si mesmo; a tensão é grande demais para agüentar.
Estendeu as mãos para as luvas, ele tateou para puxá-las por sobre os dedos esticados. Olhando para a tela ampliadora, viu o raio de luz da fotocélula brilhar para cima, apontando diretamente para o cabeçote explorador; ao mesmo tempo, viu a ponta da fita desaparecer sob o cabeçote... viu isto, e entendeu. É tarde demais, percebeu. Ela já passou. Deus, pensou ele, ajude-me. Ela começou a enrolar-se numa velocidade maior do que calcularia. Portanto é agora que...
Ele viu maças, e paralelepípedos, e zebras. Sentiu-se aquecido, sentiu uma textura sedosa de tecido; sentiu o oceano envolvê-lo, e um vento poderoso, do norte, que o puxava como se quisesse levá-lo a algum lugar. Sarah estava em toda parte à sua volta, e também Danceman. Nova York tremeluzia na noite, e os busca-pés em volta dele corriam e ricocheteavam pelos céus da noite e durante o dia e inundações e seca. Manteiga transformou-se em líquido na sua boca e ao mesmo tempo odores e sabores hediondos o assaltaram: a amarga presença de venenos e limões e grama de verão. Ele se afogou; ele caiu; ele deitou-se nos braços de uma mulher numa vasta cama branca, que fazia um ruído estridente em seu ouvido: o barulho de advertência de um elevador defeituoso num dos vetustos e arruinados hotéis do centro da cidade. Estou vivendo, vivi, jamais viverei, disse ele para si mesmo, e juntamente com seus pensamentos vinha cada palavra, cada som; insetos chiavam e corriam, e ele meio que mergulhou num corpo complexo de maquinaria homeostática localizado em algum lugar nos laboratórios da Tri-Plan.
Congelada contra a parede, Sarah Benton abriu os olhos e viu a voluta de fumaça subindo da boca semiaberta de Poole. E então o robô desabou sobre os joelhos e cotovelos para depois decompôr-se lentamente em um amontoado de peças quebradas e amarrotadas. Ela sabia, sem precisar examinar, que aquilo tinha "morrido".
Poole fez isto com ele mesmo, constatou ela. E aquilo não podia sentir dor; aquilo mesmo tinha dito. Pelo menos não muita dor; talvez um pouco. De qualquer forma, estava acabado
É melhor ligar para o Sr. Danceman e contar o que aconteceu, decidiu ela. Ainda trêmula, atravessou a sala na direção do phone. Pegou-o e discou de memória.
Pensei que era um fator de estímulo na fita de realidade dele, refletiu. Assim, pensei que ia morrer quando aquilo "morreu". Que estranho, pensou ela. Por que aquilo imaginou isto? Jamais fora conectado ao mundo real; aquilo "vivera" em seu próprio mundo eletrônico. Que coisa grotesca.
— Sr. Danceman — disse ela depois que se completou o circuito para o escritório. — Poole se foi. Destruiu-se sozinho, diante dos meus olhos. É melhor o senhor vir para cá.
— Então finalmente estamos livres daquilo.
— Sim. Vai ser bom, não vai? Danceman disse:
— Vou mandar um par de homens da fábrica. — Olhou para além dela e distinguiu Poole caído junto à mesa de cozinha. — E você, vá para casa e descanse — instruiu-a. — Você deve estar exausta com tudo isso.
— Sim — disse ela. — Obrigada, Sr. Danceman. — Desligou e levantou-se, desnorteada. E, então, notou alguma coisa.
Minhas mãos, ela pensou. Ergueu-as. Por que posso ver através delas?
As paredes da sala, também, tinham se tornado indefinidas.
Trêmula, ela caminhou de volta ao robô inerte, ficou em pé ao lado dele, sem saber o que fazer. Através das pernas aparecia o carpete, e depois o carpete ficou indistinto e ela viu, através e além dele, outras camadas de matéria em desintegração.
Talvez se eu conseguisse fundir as pontas da fita uma na outra de volta — pensou ela. Mas não sabia como. E Poole já se tornara vago.
O vento do começo da manhã soprou em volta; ela não sentiu. Começara, agora, a cessar de existir.
Os ventos continuaram a soprar.