Total Recall
Não julgue pela capa
O VELHO, MAL-HUMORADO PRESIDENTE da Livros Obelisco disse, irritado:
— Eu não quero vê-lo, srta. Handy. O item já está sendo impresso; se houve algum erro no texto, nada poderemos fazer agora.
— Mas, sr Masters — disse a srta Handy —, é um erro tão importante. Se é que o Sr. Brandice está certo. Ele diz que o capítulo inteiro...
— Eu li a carta dele, e também falei com ele pelo vidifone. Sei o que ele diz. — Masters caminhou até a janela do seu escritório, olhou soturnamente para a superfície árida de Marte, desfigurada por crateras que ele se acostumara a ver por tantas décadas. Cinco mil exemplares impressos encadernados, ele pensou. E desses, metade em pele de wub marciano. O material mais elegante e caro que pudemos encontrar. Já estamos perdendo dinheiro com esta edição, e agora isto.
Sobre sua mesa estava um exemplar do livro De Rerum Natura, na altiva e nobre tradução de John Dryden. Zangado, Barney Masters folheou as páginas brancas e novas. Quem poderia esperar que alguém em Marte conhecesse tão bem um texto tão antigo?, refletiu ele. E o homem que estava esperando na ante-sala era um entre os oito que haviam escrito ou telefonado para a Livros Obelisco a respeito de uma passagem controversa.
Controversa? Não havia controvérsia; os oito eruditos latinistas locais estavam certos. Era simplesmente uma questão de fazê-los ir embora calmamente e esquecer que havia lido a edição Obelisco e encontrado a parte adulterada em questão.
Tocando o botão do intercom de sua mesa, Masters disse à recepcionista:
— Está bem, mande-o entrar.
De outra forma, o homem nunca iria embora; um tipo como ele seria capaz de ficar esperando na rua. Os eruditos em geral são assim: parecem Ter uma paciência infinita.
A porta se abriu, e assomou um homem alto, de cabelos grisalhos, usando antiquados óculos estilo Terra, uma pasta na mão.
— Obrigado, Sr. Masters — disse ele entrando. — Permita-me explicar por que minha organização considera um erro como este tão importante. — Ele sentou-se diante da mesa, abriu o zíper da pasta energicamente. — Afinal, somos um planeta-colônia. Todos os nossos valores, costumes, artefatos e hábitos nos vêm da Terra. A GUCONDET ART FORGE considera a publicação deste livro...
— GUCONDET ARTFORGE? — interrompeu Marters. Nunca ouvira falar dela, mas mesmo assim ele gemeu. Obviamente, era uma das muitas organizações vigilantes malucas que perscrutavam tudo o que era impresso, fosse publicado aqui em Marte ou na Terra.
— Guardiões Contra a Deturpação e os Artefatos Forjados em Geral — explicou Brandice. — Tenho aqui uma edição terrena correta de De Rerum Natura, tradução de Dryden, como a sua edição local. — Sua ênfase na palavra "local" dava a entender algo de fraudulento e de Segunda categoria; como se, remou Masters, a Livros Obelisco estivesse fazendo algo totalmente condenável ao publicar livros. — Vamos verificar as interpolações inautênticas. O senhor deve estudar primeiro o meu exemplo — disse ele, colocando aberto sobre a mesa de Marters um velho e maltratado livro impresso na Terra —, no qual a passagem aparece corretamente. E depois uma cópia da sua própria edição, com a mesma passagem. — Ao lado do pequeno e velho livro azul, ele colocou um dos grandes e bonitos exemplares encadernados em pele de wub publicados pela Livros Obelisco.
— Deixe-me chamar o meu editor de textos — disse Masters. Apertando o botão do intercom, disse à srta. Handy: — Peça ao Jack Snead para vir até aqui, por favor.
— Sim, Sr. Masters.
— Citando da edição original — disse Brandice —, temos a seguinte tradução metrificada do latim. Aham. — Pigarreou, constrangido e começou a ler:
De todo pesar e dor nos livraremos; Não os sentiremos, pois já não seremos. Terra em mar, mares em céus foram perdidos Mas, imóveis, só seremos sacudidos.
— Conheço a passagem — disse Marters rispidamente, sentindo-se espicaçado; o homem o estava tratando como se ele fosse uma criança.
— Esta quadra — disse Brandice — está ausente na sua edição, e a seguinte quadra espúria, sabe Deus de que origem, aparece em seu lugar. Permita-me. — Pegando a suntuosa edição Obelisco encadernada em pele de wub, ele a folheou e encontrou o lugar; e então leu em voz alta:
De todo pesar e dor nos livraremos; Depois de sepultados, não os veremos. Mares de sonho forjaremos na morte: Esta terra prenuncia a eterna sorte.
Olhando intensamente para Marters, Brandice fechou de maneira brusca o exemplar encadernado em pele de wub.
— O que aborrece mais — disse Brandice — é que esta quadra prega uma mensagem diametralmente oposta à do livro inteiro. De onde ela veio? Alguém deve tê-la escrito. Dryden não foi; Lucrécio não foi. — Ele olhou para Masters como se achasse que ele, pessoalmente, fizera aquilo.
A porta do escritório se abriu e Jack Snead, o editor de textos da firma, entrou.
— Ele está certo — disse resignadamente ao seu patrão. — E esta é apenas uma das alterações no texto, entre trinta tantas. Estive revendo o livro todo, desde que as cartas começaram a chegar. E agora estou começando a examinar outros itens de catálogos recentes em nossa listagem de outono. — Ele acrescentou, resmungando: — Também encontrei alterações em diversos deles.
Disse Masters:
— Você foi o último editor a revisar o texto antes de ir para a composição. Esses erros não estavam lá, então?
— Absolutamente não — disse Snead. — E eu revisei as provas pessoalmente; as mudanças também não estavam nas provas. As mudanças não apareceram até que os exemplares finais encadernados ficassem prontos — se é que isto faz algum sentido. Ou, mais especificamente, os exemplares encadernados em ouro e pele de wub. Os comuns, em brochura, estes estão corretos.
Masters piscou.
— Mas eles são todos da mesma edição. Passaram pela impressora juntos. Na verdade, nós nem planejamos originalmente uma encadernação exclusiva, de alto preço; foi apenas no último minuto que rediscutimos o assunto, e o escritório central sugeriu que metade da edição fosse oferecida em encadernação de pele de wub.
— Eu acho — disse Jack Snead — que vamos ter de fazer um trabalho de intenso escrutínio sobre a questão da pele de wub marciano.
Uma hora depois, o idoso, vacilante Masters, acompanhado pelo editor de textos Jack Snead, estava sentado diante de Luther Saperstein, agente comercial da firma de peles A impecável Associados; com eles, a Livros Obelisco obtivera a pele de wub com que seus livros foram encadernados.
— Antes de mais nada — disse Masters numa voz enérgica e profissional —, o que é pele de wub?
— Basicamente — disse Saperstein —, no sentido em que está perguntando, é a pele extraída do wub marciano. Seu que isto não explica muito, senhores, mas pelo menos é um ponto de referência, um postulado sobre o qual podemos concordar, e de onde podemos partir e construir alguma coisa mais consistente. Para ajudar mais, deixem-me colocá-los a par da natureza do próprio wub. Sua pele é muito apreciada porque, entre outras razões, é rara. As peles de wub são raras porque wub raramente morre. Com isto quero dizer que é quase impossível matar um wub — mesmo um wub doente, ou velho. E, mesmo que o wub seja morto, sua pele continua vivendo. Este atributo lhe confere um valor singular para a decoração de interiores ou, como no seu caso, para encadernar por toda a vida livros preciosos, feitos para durar.
Masters suspirou e olhou entediado pela janela, enquanto Saperstein prosseguia com sua fala monótona. Ao lado dele, o editor de textos fazia alguma breves anotações com uma expressão sombria em seu rosto jovem e enérgico.
— O que lhes fornecemos — disse Saperstein — quando vieram a nós — e, lembre-se, vocês vieram a nós, nós não os procuramos — consistia nas mais selecionadas, mais perfeitas peles de nossa enorme reserva. Essas peles vivas brilham com uma intensidade única, muito peculiar; não há nada em Marte, ou lá em casa, na Terra, que se pareça com elas. Quando se rasga, ou é arranhada, a pele se recompõe sozinha. Ela cresce no decorrer dos meses, criando um pelo cada vez mais viçoso; as capas dos seus volumes, portanto, se tornarão progressivamente luxuriosas. O que vai valorizá-los muito. Daqui a dez anos, a qualidade do espesso pêlo desses livros encadernados em pele de wub... interrompendo-o, Snead disse:
— Então, a pele ainda está viva. Interessante. E o wub, como diz, é tão esperto que é virtualmente impossível de matar. — Ele lançou um olhar rápido a Masters. Todas as trinta e tantas alterações feitas nos textos de nossos livros tratam da imortalidade. A simbologia de Lucrécio é típica; o texto original ensina que o homem é efêmero e que, mesmo que ele sobreviva após a morte, não terá qualquer memória de sua existência aqui. Em lugar disso, a nova passagem espúria aparece e categoricamente fala sobre uma vida futura que é prevista nesta aqui. Como você disse, divergindo totalmente de toda a filosofia de Lucrécio. Você percebe o que estamos vendo, não percebe? A filosofia do maldito wub superposta à de diversos autores. Aí está: começo e fim. — Ele interrompeu-se e voltou às suas notas, silenciosamente.
— Como pode uma pele — demandou Masters —, mesmo perpetuamente viva, exercer influência sobre o conteúdo de um livro? Um texto já impresso, páginas cortadas, cadernos colados e costurados — é contra a lógica! Mas se a encadernação, a maldita pele está realmente viva, e eu dificilmente poderia acreditar nisso — ele olhou para Saperstein —, se ela está viva, do que vive?
— Partículas diminutas de alimentos em suspensão na atmosfera — disse Saperstein brandamente.
Levantando-se, Masters disse:
— Vamos embora. Isto é ridículo.
— Ela inala as partículas — disse Saperstein — através dos poros. — Seu tom era digno, até reprovador.
Estudando suas notas, sem levantar-se com seu patrão, Jack Snead disse pensativamente:
— Algumas das emendas feitas são fascinantes. Elas variam desde uma inversão total da passagem original e da intenção do autor, como no caso de Lucrécio, até correções muito sutis, quase invisíveis — se é que é esta a palavra —, tornando os textos mais de acordo com a doutrina da vida eterna. A verdadeira questão é a seguinte: estamos nos defrontando meramente com a opinião de uma forma de vida em particular, ou o wub sabe do que está falando? O poema de Lucrécio, por exemplo, é muito grandioso, muito bonito, muito interessante — como poesia. Mas, como filosofia, talvez esteja errado. Eu não sei, não é minha função; eu simplesmente edito livros, não os escrevo. A última coisa que um bom editor de textos faria é escrever editoriais, por sua própria conta, no texto do autor. Mas é isto que o wub ou, de qualquer forma, a pele de wub, está fazendo. — Ele então silenciou.
— Eu teria interesse em saber — disse Saperstein — se ela acrescentou alguma coisa de valor.
— Poeticamente? Ou quer dizer filosoficamente? De um ponto de vista poético ou literário, estilístico, suas interpolações não são melhores ou piores do que os originais; ela consegue fundir-se com o autor suficientemente bem para que você, se já não conhece o texto, jamais fique sabendo. — E acrescentou, ensimesmado: — Você jamais saberia que era uma pele falando.
— Eu queria dizer do ponto de vista filosófico.
— Bem, é sempre a mesma mensagem, monotonamente repetida. Não existe morte. Nós vamos dormir, nós acordamos — para uma vida melhor. O que ela fez ao De Rerum Natura é típico. Se você leu aquilo, leu tudo.
— Seria uma experiência interessante — disse Masters pensativamente — encadernar um exemplar da Bíblia em pele de wub.
— Já mandei fazer isso — disse Snead. —E...?
— É claro que não tive tempo de ler tudo. Mas corri os olhos pelas epístolas de Paulo aos coríntios. Ela só fez uma modificação: a passagem que começa com "Eis que vos digo um mistério", ela pôs inteira em letras maiúsculas. E repetiu as linhas "Túmulo, onde está tua vitória? Morte, onde está teu aguilhão?" dez vezes seguidas; dez vezes inteira, tudo em maiúsculas. Obviamente, o wub concordou; esta é a sua própria filosofia, ou melhor, teologia. — Ele disse, então, sopesando cada palavra: — Isto é basicamente uma disputa teológica... entre o público leitor e a pele de um animal marciano que parece o cruzamento de um porco com uma vaca. Estranho. — E novamente voltou às suas notas.
Depois de uma pausa solene, Masters disse:
— Você acha que o wub tem informações secretas ou não? Como disse, isto pode não ser apenas a opinião de um determinado animal que conseguiu evitar a morte; isto pode ser a verdade.
— O que me ocorre — disse Snead — é o seguinte. O wub não aprendeu meramente a evitar a morte; ele realmente faz o que prega. Ao ser morto, esfolado e ter sua pele, ainda viva, transformada em capa de livros, ele venceu a morte. Ele continua vivendo, vivendo aquilo que aparentemente vê como uma vida melhor. Nós não estamos apenas lidando com uma teimosa forma de vida local; estamos lidando com um organismo que já fez aquilo a respeito do que ainda temos dúvidas. Certamente ele sabe. É uma confirmação viva de sua própria doutrina. Os fatos falam por si. Minha tendência é acreditar nisto.
— talvez a vida seja contínua para ele — discordou Masters —, mas isto não significa necessariamente que o seja também para o restante de nós. O wub, como o senhor Saperstein demonstrou, é único. Nenhuma pele de nenhuma outra espécie de vida, seja de Marte, de Luna ou da Terra, continua vivendo, absorvendo vida de microscópicas partículas em suspensão na atmosfera. Justamente porque ele é capaz de fazer isto...
— É uma pena que não possamos nos comunicar com uma pele de wub — disse Saperstein. — Já tentamos, aqui na A impecável, desde que percebemos pela primeira vez sua sobrevivência post-mortem. Mas não conseguimos descobrir um meio.
— Mas nós, na Obelisco — observou Snead —, conseguimos. De fato, eu já fiz uma experiência. Mandei imprimir um texto de uma só sentença, uma única linha dizendo: "O wub não é como qualquer outra criatura viva: ele é imortal". Mandei então encaderná-lo em pele de wub, e depois o li outra vez. O texto tinha sido mudado. Aqui está. — Ele passou a Masters um livrinho fino, elegantemente encadernado. — Veja como está agora.
Masters leu em voz alta:
— O wub é como qualquer outra criatura viva: ele é imortal. Devolvendo o exemplar a Snead, ele disse:
— Bem, tudo o que ele fez foi eliminar o "não"; não é uma grande mudança, três letras.
— Mas, do ponto de vista do significado — disse Snead —, trata-se de uma bomba. Estamos recebendo uma resposta do além-túmulo, por assim dizer. Quero dizer, vamos encarar os fatos: a pele de wub está tecnicamente morta, porque o wub no qual ela cresceu está morto. Isto está tremendamente perto de fornecer uma confirmação indiscutível da sobrevivência da vida consciente após a morte.
— É claro, há uma outra coisa — disse Saperstein, hesitante. — Detesto ter que falar nela; não sei que relação tem com tudo isto. Mas o wub marciano, em que pese sua incomum ou mesmo milagrosa capacidade de se autopreservar, é, do ponto de visa mental, uma criatura estúpida. O cérebro de um gambá terrestre, por exemplo, tem um terço do tamanho do cérebro de um gato. E o cérebro do wub é um quinto do cérebro de um gambá. — Ele parecia desalentado.
— Bem — disse Snead —, a Bíblia diz: "Os últimos serão os primeiros". Talvez o humilde wub esteja incluído nesta categoria. Vamos esperar que sim.
Voltando os olhos para ele, Masters disse:
— Você quer a vida eterna?
— Certamente — disse Snead. — Todo mundo quer.
— Não eu — disse Masters, decidido. — Já tenho problemas suficientes agora. A última coisa que quero é continuar vivendo sob a forma de encadernação de um livro, ou sob qualquer outra forma que seja.
Mas, por dentro, ele havia começado a matutar silenciosamente. De maneira diferente. Muito diferente mesmo.
— Soa como algo que um wub iria apreciar — concordou Saperstein. — Ser a capa de um livro; apenas ficar lá deitado, passivamente, numa prateleira, ano após ano, inalando partículas diminutas do ar. E presumivelmente meditando. Ou o que quer que os wubs costumam fazer depois que estão mortos.
— Eles pensam em teologia — disse Snead. — Eles pregam. — Voltando-se ao seu patrão, disse: — Presumo que não vamos mais encadernar nenhum livro em pele de wub.
— Não para fins comerciais — concordou Masters. — Não para vender. Mas... — Ele não conseguia afastar a convicção de que havia ali alguma utilidade. — Fico pensando — disse ele — se a pele iria conferir o mesmo alto nível de fator de sobrevivência a qualquer coisa em que fosse transformada. Como cortinas de janelas. Ou o estofamento de um carro flutuante; talvez ela eliminasse a morte nas rotas de subúrbio. Ou forros para os capacetes das tropas de combate. E para jogadores de beisebol. — As possibilidades, para ele, pareciam enormes., mas vagas. Teria que pensar naquilo melhor, dedicar àquilo um bom tempo.
— De qualquer forma — disse Saperstein —, minha firma não poderá conceder nenhuma restituição; as características da pele de wub foram divulgadas publicamente em um folheto, que publicamos no início deste ano. Afirmamos ali, categoricamente...
— Está certo, o prejuízo é nosso — disse Masters, irritado, com um aceno de mão. —Esqueça. — E voltando-se para Snead: — Então eles, definitivamente, dizem, nas trinta a tantas passagens nas quais se interpolaram, que a vida após a morte é agradável?
— Sim, absolutamente. "Esta terra prenuncia a eterna sorte." Isto resume a questão, esta frase introduzida no De Rerum Natura; está tudo ali.
— A eterna dorte — ecoou Masters, assentindo. — Na verdade, nós não estamos atualmente na Terra, estamos em Marte. Mas suponho que seja a mesma coisa; significa apenas vida, onde quer que seja vivida. — Outra vez, ainda mais gravemente, ele ponderou: — O que fico pensando — disse pensativamente — é que uma coisa é falar abstratamente sobre a "vida após a morte". As pessoas vêm fazendo isso há cinquenta mil anos; Lucrécio estava fazendo isso há dois mil anos atrás. O que me interessa mais não é o quadro filosófico ampla e abrangente, mas o fato concreto da pele de wub, a imortalidade que ela carrega com ela. — E disse a Snead: — Que outros livros você encadernou com ela?
— Idade da Razão, de Tom Paine — disse Snead, consultando a sua lista.
— Quais foram os resultados?
— Duzentas e sessenta e sete páginas em branco. Exceto, bem no meio, uma única palavra: bleh.
— Continue.
— A Enciclopaedia Britannica. Para ser preciso, ela não mudou nada, mas acresentou artigos inteiros. Sobre a lama, sobre a transmigração, sobre o inferno, danação, pecado ou imortalidade; toda a coleção de vinte e quatro volumes se tornou religiosamente orientada. —Ele ergueu o olhar: — Devo continuar?
— É claro — disse Masters, ouvindo e meditando simultaneamente.
— A Summa Theologica, de Thomás de Aquino. Ela deixou o texto intacto, mas inseriu periodicamente a frase bíblica "A letra mata, mas o espírito dá vida". Vezes e vezes seguidas.
— Horizonte Perdido, de James Hilton. Shangrilá vem a ser uma visão do pós-vida que...
— Está bem — disse Masters. — Já temos uma idéia. A questão é: o que podemos fazer com isto? Obviamente, não podemos encadernar livros; ou pelo menos os livros com os quais ela não concorda. — Mas ele estava começando a ver umaoutra utilidade, uma utilidade muito mai spessoal. E que pesava muito mais do que qualquer outra coisa que a pele de wub pudesse fazer com os livros, ou por eles; de fato, por qualquer objeto inanimado.
Assim que ele tivesse acesso a um telefone...
— Especialmente interessante — estava dizendo Snead — é sua reação a uma coletânea de ensaios sobre psicanálise de alguns dos maiores psicanalistas freudianos de nosso tempo. Ela permitiu que cada artigo permanecesse intacto, mas ao fim de cada um adicionou a mesma frase. — Ele deu uma risadinha. — "Médico, cura-te a ti mesmo." Um certo senso de humor aqui.
— Sim — disse Masters, pensando, incessantemente, no telefone e na chamada vital que iria fazer.
De volta ao seu escritório na Livros Obelisco, Masters tentava uma nova experiência —para ver se sua idéia daria certo. Cuidadosamente, embrulhou um conjunto de xícara e pires de fina porcelana amarela, dos favoritos de sua própria coleção, em pele de wub. E então, depois de muita hesitação e ansiedade, colocou o embrulho no chão do escritório e, com toda a sua força decadente, pisou nele.
A xícara não quebrou. Pelo menos não pareceu quebrar.
Ele desfez o embrulho e inspecionou-a. Estava certo: embrulhada em pele de wub, ela não podia ser destruída.
Satisfeito, sentou-se à sua mesa e ponderou uma última vez.
O envoltório de pele de wub havia tornado invulnerável um objeto frágil e efêmero. Portanto, a doutrina wub de sobrevivência eterna funcionara naprática — exatamente como ele esperava.
Pegou o telefone e discou o número de seu advogado.
— É sobre o meu testamento — disse ao advogado assim que ele atendeu do outro lado da linha. — Você sabe, aquele último que fiz há uns poucos meses. Tenho uma cláusula adicional para inserir.
— Sim, Sr. Masters — disse o advogado animadamente. — Pode dizer.
— Um pequeno item — disse Masters, satisfeito. — Tem a ver com meu caixão. Quero que isto seja obrigatório para os meus herdeiros. Meu caixão deverá ser inteiramente forrado, tampa, fundo e laterais, com pele de wub. De A Impecável Associados. Quero ir ao encontro do meu Criador, por assim dizer, envolto em pele de wub. Causa melhor impressão desta forma. — Ele riu displicentemente, mas seu tom era profundamente sério, e o advogado captou isso.
— Se é isto que você quer... — disse o advogado.
— E sugiro a você que faça o mesmo — disse Masters.
— Por quê? Masters respondeu:
— Consulte a enciclopédia doméstica de referências médicas que vamos publicar no mês que vem. E trate de conseguir um exemplar encadernado em pele de wub; este será diferente dos outros. — Ele então pensou mais uma vez em seu caixão forrado de pele de wub. Bem no fundo da terra, com ele dentro, com o pelo vivo de wub crescendo, crescendo.
Seria interessante ver a versão de si mesmo que uma encadernação em pele selecionada de wub produziria.
Especialemente depois de vários séculos.