Total Recall
A pequena caixa preta
I
BOGART CORFTS, do Departamento de Estado, disse:
— Mis Hiashi, queremos enviá-la a Cuba para ministrar instrução religiosa à população chinesa de lá. É por causa de sua formação oriental. Ela vai ajudar.
Com um leve gemido, Joan Hiashi considerou que a sua formação oriental consistia em ter nascido em Los Angeles e ter freqüentados cursos na UCSB, a Universidade de Santa Bárbara. Mas tecnicamente, do ponto de vista do treinamento, ela era uma estudiosa asiática, e havia colocado devidamente isso no formulário de solicitação de emprego.
— Consideremos a palavra caritas — Crofts estava dizendo. — Segundo sua avaliação, o que ela significa realmente, da maneira como foi usada por Jerônimo? Caridade? Dificilmente. Mas então o quê? Amizade? Amor?
— Minha área é zen-budismo — disse Joan.
— Mas todo mundo — protestou Croft consternado — sabe o que significa caritas segundo o uso no fim do período romano. A estima de boas pessoas uma pela outra, é isto o que significa. — As dignas e grisalhas sobrancelhas se arquearam. — Quer este emprego, srta. Hiashi? E, se quer, por quê?
— Eu quero disseminar propaganda zen-budista entre os comunistas chineses de Cuba —disse Joan —, porque... — Ela hesitou. A verdade era simplesmente que aquilo significava um bom salário para ela, o primeiro emprego realmente bem pago que jamais tivera. Do ponto de vista de carreira, era o filé. — Ora bolas. Que tipo de mãos única é esta? Eu não tenho resposta.
— É evidente que o seu campo de trabalho lhe ensinou um método de evitar as respostas honestas — disse Crofts, azedo. — E a ser evasiva. Entretanto... — Ele encolheu os ombros. —Possivelmente isto apenas prova que você é bem treinada, e a pessoa indicada para o trabalho. Em Cuba, você vai cruzar com alguns indivíduos muito mundanos e sofisticados, que além disto estão muito bem de vida, mesmo do ponto de vista americano. Espero que você possa lidar com eles tão bem como está lidando comigo.
— Obrigada, Sr. Crofts. — Ela levantou-se. — espero ter notícias suas então.
— Estou impressionado com você — disse Crofts, meio consigo mesmo. — Afinal, é a jovem que primeiro teve a idéia de alimentar os grandes computadores da UCSB com enigmas zen-budistas.
— Eu fui a primeira a fazer isto — corrigiu Joan. — Mas a idéia partiu de um amigo meu, Ray Meritan. O harpista de jazz cinza-esverdeado.
— Jazz e zen-budismo — disse Crofts. — O Departamento de Estado poderia aproveitar você em Cuba.
Ela disse a Ray Meritan:
— Preciso sair de Los Angeles, Ray. Realmente não posso agüentar a maneia como estamos vivendo aqui. — Foi até a janela do apartamento dele e olhou para fora, para a monovia que se vislumbrava até muito longe. O carro prateado seguia a enorme velocidad, e Joan desviou rapidamente o olhar.
Se apenas pudéssemos sofrer, pensou ela. É isto o que nos falta, qualquer experiência real de sofrimento, porque conseguimos escapar de qualquer coisa. Até mesmo disso.
— Mas você está de partida — disse Ray. — Está indo para Cuba, para converter ricos mercadores e banqueiros em ascetas respeitáveis. E este é um genuíno paradoxo zen: você será paga por isso. — Ele deu uma risadinha. — Alimentar um computador com um pensamento como este iria causar estragos. De qualquer forma, você não vai precisar sentar no Salão de Cristal todas as noites para me ouvir tocar — se é que é disto que você está querendo escapar.
— Não — disse Joan —, eu espero continuar ouvindo você na TV. Pode ser até mesmo que eu possa usar a sua música em minhas aulas. — De cima de uma arca de jacarandá na extremidade da sala, ela pegou um revólver calibre 32. Pertencera à segunda esposa de Ray Meritan, Edna, que usara a arma para se matar, em fevereiro último, no fim de uma tarde chuvosa. — Posso levar isso comigo? — perguntou.
— Por sentimentalismo? — disse Ray. — Porque ela fez aquilo por sua causa?
— Edna não fez coisa alguma por minha causa. Edna gostava de mim. Eu não vou assumir nenhuma responsabilidade pelo suicídio de sua mulher, mesmo ela tendo descoberto que nós estávamos... nos venda, por assim dizer.
Ray sentou-se, meditativo.
— E você é a garota que está sempre dizendo às pessoas que aceitem a culpa e não a projetem no mundo. Como é mesmo aquele que você chama de seu princípio, querida? Ah.
— Ele arreganhou os dentes. — O Prinzip Anti-paranóia. A cura da doutora Joan Hiashi para as doenças mentais: absorva toda a culpa, tome-a sobre você. — Ele a olhou e disse vivamente: — Estou surpreso de você não ser uma seguidora de Wilbur Mercer.
— Aquele palhaço — disse Joan.
— Mas isto é parte do seu encanto. Venha, vou lhe mostrar. — Ray ligou o televisor do outro lado da sala, num gabinete preto sem pernas de estilo oriental. Ornamentado com dragões da dinastia Sung.
— É estranho que você saiba quando Mercer está no ar — disse Joan. Ray encolheu os ombros e murmurou:
— Estou interessado. Uma nova religião, substituindo o zen-budismo, estendendo-se a partir do Oriente Médio para engolfar a Califórnia. Você também deveria prestar atenção, já que afirma que a religião é a sua profissão. Voc~e está conseguindo um emprego por causa dela. A religião está pagando as suas contas, minha querida garota, portanto não a critique.
A TV se acendera, e lá estava Wilbur Mercer.
— Por que ele não está dizendo nada? — disse Joan.
— Ora, Mercer fez um voto esta semana. De completo silêncio. — Ray acendeu um cigarro.
— O Departamento de Estado deveria estar mandando a mim para Cuba, não você. Você é uma fraude.
— Pelo menos não sou uma palhaça — disse Joan —, ou seguidora de um palhaço.
— Existe um dito zen — Ray lembrou-lhe suavemente. — "O Buda é um pedaço de papel higiênico." E outro: "O Buda muitas vezes..."
— Fique quieto — ela disse rispidamente. — Quero assistir o Mercer.
— Você quer assistir. — A voz de Ray estava carregada de ironia. — Por Deus, é isso que você quer? Ninguém assiste o Mercer, aí é que está. — Atirando o cigarro à lareira, ele caminhou até o televisor; ali, diante do aparelho, Joan viu uma caixa de metal com duas manoplas, ligadas a ele por um cabo duplo. Ray segurou as duas manoplas, e imediatamente uma careta de dor surgiu em seu rosto.
— O que foi? — perguntou ela, ansiosa.
— N-nada. — Ray continuou a segurar as manoplas. Na tela, Wilbur Mercer caminhava lentamente por sobre a árida, irregular superfície de uma encosta, a face erguida, uma expressão de serenidade — ou vacuidade — em suas feições magras de meia-idade. Arquejante, Ray soltou as manoplas e disse: — Desta vez, só consegui segurá-las pro quarenta e cinco segundos. — Explicou a Joan: — Esta é a caixa de empatia, querida. Não posso contar a você como conseguir — para dizer a verdade, eu realmente não sei. Eles trouxeram isto, a organização que a distribui: Wilcer, Incorporated. Mas posso lhe dizer que, quando você segura essas manoplas, não está mais assistindo Wilbur Mercer. Você está na realidade participando de sua apoteose. Ora, você sente o que ele sente!
— Parece doer — disse Joan. Mansamente, Ray Meritan disse:
— Sim. Porque Wilbur Mercer está sendo morto. Ele está caminhando para o lugar onde vai morrer.
Horrorizada, Joan afastou-se da caixa.
— Você disse que era tudo o que precisávamos — disse Ray. — Lembre-se, eu sou um telepata bastante razoável. Não tenho que fazer um grande esforço para ler os seus pensamentos. "Se apenas pudéssemos sofrer." Era isto que você estava pensando, só um momento atrás. Bem, esta é a sua chance, Joan.
— Isto é... mórbido.
— O seu pensamento foi mórbido?
— Sim! — disse ela.
— Wilbur Mercer tem agora vinte milhões de seguidores — disse Ray Meritan. — Em todo o mundo. E eles estão sofrendo juntos, enquanto ele caminha rumo a Pueblo, Colorado. Pelo menos é para onde lhes disseram que ele estava indo. Pessoalmente, tenho minhas dúvidas. De qualquer forma, o mercerismo é agora o que o zen-budismo já foi; você está indo a Cuba para ensinar aos ricos banqueiros chineses uma forma de ascetismo que já é obsoleta, que já passou do tempo.
Em silêncio, Joan voltou o corpo e ficou olhando Mercer caminhar.
— Você sabe que eu tenho razão — disse Ray. — Posso captar as suas emoções. Você não pode estar consciente delas, mas estão lá.
Na tela, uma pedra foi atirada contra Mercer. Ele foi atingido no ombro. Todas as pessoas que estão segurando suas caixas de empatia, percebeu Joan, sentiram aquilo junto com Mercer. Ray assentiu:
— Você está certa.
— E... E depois que ele for realmente morto? — ela estremeceu.
— Veremos então o que acontece — disse Ray quietamente. — Nós não sabemos.
II
Douglas Herrick, Secretário de Estado, disse a Bogart Crofts:
— Acho que você está errado, Bog. A garota pode ser amante de Meritan, mas isto não quer dizer que ela sabe.
— Vamos esperar o Sr. Lee nos contar — disse Crofts, irritado. — Quando ela chegar a
Havana, ele estará lá esperando.
— O Sr. Lee não pode sondar Meritan diretamente?
— Um telepata sondar outro telepata? — Bogart Crofts sorriu com a idéia. Seria uma situação absurda: o Sr. Lee leria a mente de Meritan, e Meritan, sendo também um telepara, leria a mente do Sr. Lee e descobriria que o Sr. Lee estava lendo a sua mente; e Lee, lendo a mente de Meritan, descobriria que Meritan sabia... E assim por diante. Regressão infinita, terminando com uma fusão de mentes, dentro da qual Meritan resguardaria cuidadosamente seus pensamentos para não pensar em Wilbur Mercer.
— É a similaridade dos nomes que me convence — disse Herrick. — Meritan, Mercer. As primeiras letras...?
— Ray Meritan não é Wilbur Mercer — disse Crofts. — Vou lhe dizer como sabemos. Lá na CIA, fizemos um vídeo-tape Ampex da transmissão de Mercer, e mandamos ampliar e analisar. Mercer foi mostrado contra o fundo desolado de sempre, de cactos, e areia, e pedras... Você sabe.
— Sim — disse Herrick, assentindo. — O Deserto Bravio, como o chamam.
— Na ampliação, alguma coisa apareceu no céu. Ela foi estudada. Não é Luna. É uma lua, mas muito pequena para ser Luna. Mercer não está na Terra. Eu diria que ele não é terrestre.
Curvando-se Crofts pegou uma pequena caixa de metal, evitando cuidadosamente pegar nas duas manoplas, e prosseguiu:
— E isto aqui não foi projetado e construído na Terra. Todo o Movimento Mercer é completamente zero-R, e este é o fato com o qual temos que nos satisfazer.
— Se Mercer não é um terráqueo, então ele pode ter sofrido, e mesmo morrido antes, em outros planetas — disse Herrick.
— Oh, sim — disse Crofts. — Mercer, ou qualquer que seja seu nome verdadeiro, pode ser altamente experiente nisto. Mas ainda não sabemos o que queremos saber. — E isso, naturalmente, era: "O que acontece com essas pessoas quando seguram as manoplas das suas caixas de empatia?"
Crofts sentou-se à sua mesa e examinou a caixa que estava diretamente diante dele, com suas duas convidativas manoplas. Nunca as tinha tocado, e nem pretendia fazê-lo. Mas...
— Quando Mercer vai morrer? — perguntou Herrick.
— Estão esperando para qualquer momento na próxima semana.
— E você acha que até lá o Sr. Lee terá conseguido tirar alguma coisa da cabeça da garota? Alguma pista sobre onde Mercer realmente está?
— Espero que sim — disse Crofts, ainda sentado diante da caixa de empatia, mas sem tocá-la. Deve seu uma estranha experiência, ele pensou, colocar as mãos em duas manoplas de metal de aparência comum e descobrir, de repente, que você não é mais você; você é totalmente um outro homem, em um outro lugar, subindo penosamente um longo e árido plano inclinado rumo à uma extinção certa. Pelo menos, assim dizem. Mas apenas de ouvir falar... O que, na verdade, isto comunica? Suponhamos que eu mesmo tente.
A sensação de dor absoluta... Era isto que o apavorava, que o segurava.
Era inacreditável que as pessoas pudessem deliberadamente procurar aquilo, ao invés de evitar. Agarrar as manoplas da caixa de empatia não era certamente um ato de alguém procurando escapar. Não era evitar alguma coisa, mas procurar alguma coisa. E não era a dor em si; Crofts sabia que era um engano supor que os merceritas eram simples masoquistas que desejavam o desconforto. Era, ele sabia, o significado da dor que atraía os seguidores de Mercer.
Os seguidores estavam sofrendo por alguma razão. Em voz alta, disse ao seu superior:
— Eles querem o sofrimento como um meio de negar suas existências privadas, pessoais. É uma comunhão na qual todos sofrem e vivenciam juntos a provação de Mercer. — Como a Ultima Ceia, ele pensou. Esta é a verdadeira chave: a comunhão, a participação que está por trás de toda religião. Ou deveria estar. A religião une os homens em uma entidade compartilhada, incorporada, deixando de fora todos os demais.
— Mas, basicamente, trata-se de um movimento político, ou deve ser tratado como tal.
— Do nosso ponto de vista — concordou Crofts. — Não do deles. O intercom sobre a mesa soou, e a secretária disse:
— O Sr. Lee está aqui.
— Mande-o entrar.
O jovem chinês, alto e esguio, entrou sorrindo, a mão estendida. Usava um antiquado terno de lapela simples e sapatos pretos de bico. Enquanto apertavam as mãos, o Sr. Lee perguntou:
— Ela ainda não partiu para Havana, partiu?
— Não — disse Crofts.
— Ela é bonita?
— Sim — disse Crofts, com um sorriso para Herrick. — Mas... difícil. O tipo de mulher intratável. Emancipada, se me entende.
— Oh, do tipo suffragette — disse o Sr. Lee, sorrindo. — Eu detesto esse tipo de fêmea. Vai ser dureza, Sr. Crofts.
— Lembre-se — disse Crofts —, o seu serviço é simplesmente ser convertido. Tudo o que tem a fazer é ouvir a propaganda dela sobre zen-budismo, aprender a fazer umas poucas perguntas, tais como "Este bastão é o Buda?" e contar com algumas pancadas inexplicáveis na cabeça — uma prática zen, segundo entendo, que supostamente instila bom senso.
Com um largo sorriso, o Sr. Lee disse:
— Ou falta de senso. Veja bem, eu estou preparado. Com senso, sem senso; em zen, é a mesma coisa. — Ele então ficou sério. — eu mesmo sou um comunista, é claro — disse. — A única razão por que estou fazendo isto é que o Partido em Havana assumiu a posição oficial de que o mercerismo é perigoso e deve ser eliminado. — Ele parecia desalentado. — É preciso reconhecer, esses merceritas são fanáticos.
— É verdade — concordou Crofts. — E devemos trabalhar para a sua extinção. — Apontou a caixa de empatia. — O senhor já...
— Sim — disse o Sr. Lee. — É uma forma de punição. Auto-infligida, sem dúvida, por motivos de culpa. A ociosidade extrai das pessoas esse tipo de emoção, se for adequadamente utilizada; de outra forma, não.
Crofts pensou: Este homem não entende nada do assunto. Ele é um materialista simplório. Típica pessoa nascida de uma família comunista, criada numa sociedade comunista. Tudo é ou branco ou preto.
— O senhor está enganado — disse o Sr. Lee. Ele havia captado os pensamentos de Crofts. Corando, Crofts disse:
— Desculpe, eu esqueci. Sem ofensas.
— Vejo em sua mente — disse o Sr. Lee — que o senhor acredita que Wilbur Mercer, como ele chama a si mesmo, pode ser não-T. Conhece a posição do partido a respeito? Foi debatida há uns poucos dias. O Partido assume a posição de que não existem raças não-T no sistema solar e de que acreditar que os remanescentes de antigas raças superiores ainda existem é uma forma de misticismo mórbido. Crofts suspirou.
— Decidir uma questão empírica por votação, decidir em bases estritamente políticas... Eu não posso entender isto.
Neste ponto, o Secretário Herrick, apaziguando ambos os homens:
— Por favor, não vamos nos desviar do caminho por causa de assuntos teóricos sobre os quais não concordamos. Vamos nos ater ao básico: o Partido Mercerita e seu rápido crescimento em todo o planeta.
— O senhor tem razão, é claro.
III
No aeroporto de Havana, Joan Hiashi olhou em volta, enquanto os outros passageiros caminhavam apressados da aeronave para a entrada da sala de desembarque número vinte.
Parentes e amigos haviam invadido cautelosamente a pista, como sempre faziam, desafiando os regulamentos do campo. Ela viu entre eles um jovem chinês alto e esguio, com sorriso de boas-vindas no rosto.
Caminhando em sua direção, ela chamou:
— Sr. Lee?
— Sim. — Ele se apressou em sua direção. — É hora do jantar. Gostaria de comer? Vou levá-la ao restaurante Hang Far Lo. Eles têm pato prensado e sopa de ninhos de passarinho, à moda de Cantão... Muito doce, mas bom de vez em quando.
Logo estavam no restaurante, em um reservado de couro vermelho e imitação de teca. Cubanos e chineses conversaram à toda volta; o ar recendia a fritura de porco e fumaça de charuto.
— Você é o presidente do Instituto de Estudos Asiáticos de Havana? — perguntou ela, apenas para se certificar de que não havia enganos.
— Correto. Ele não é muito bem visto pelo Partido Comunista Cubano por causa do aspecto religioso. Mas muitos dos chineses aqui na ilha freqüentam as conferências, ou estão em nossa listagem de correspondência. E, como você sabe, muitos eruditos notórios vieram da Europa e da Ásia Meridional para falar para nós... Aliás, há uma parábola zen que eu não entendo. O monge que cortou o gatinho ao meio... Eu a estudei e pensei sobre ela, mas não vejo como o Buda poderia estar presente quando tal crueldade era cometida contra um animal. — Ele apressou-se em acrescentar: — Não estou discutindo com você, estou apenas procurando informação.
— De todas as parábolas zen, esta é a que está causando maior dificuldade — disse Joan. —A pergunta a fazer é: "Onde está o gatinho agora?"
— Isto lembra a abertura do Bhagavad-Gita — disse o Sr. Lee inclinando rapidamente a cabeça. — Lembro-me de Arjura dizendo:
O arco Gandiva escorrega de minha mão...
Angúrios do mal!
O que podemos esperar desta matança de parentes?
— Correto — disse Joan. — E, é claro, você se lembra da resposta de Krishna. É a mais profunda afirmação em toda a religião pré-budista sobre a questão da morte e da ação. O garçom veio anotar o pedido. Era um cubano, vestido de cáqui e boina na cabeça.
— Experimente o won ton frito — aconselhou o Sr. Lee. — E o chow yuk e, é claro, o pãozinho de ovo. Vocês têm pãozinho de ovo hoje? — perguntou ao garçom.
— Si, senor Lee. — O garçom cutucava os dentes com um palito. O Sr. Lee fez o pedido para ambos, e o garçom se afastou.
— Sabe — disse Joan —, quando uma pessoa fica por perto de um telepata tanto tempo quanto eu fiquei, começa a ter consciência de quando uma sondagem intensa está sendo feita... Eu sempre podia dizer quando Ray estava tentando escavar alguma coisa de dentro de mim. Você é um telepata. E está me sondando muito intensamente, bem agora.
Sorrindo, o Sr. Lee disse:
— Gostaria de estar, srta. Hiashi.
— Não tenho nada a esconder — disse Joan. — Mas me pergunto por que você está tão interessado no que estou pensando. Você sabe que sou funcionária do Departamento de Estado dos Estados Unidos; não há nada de secreto quanto a isto. Está com medo de que eu tenha vindo a Cuba como espiã? Para estudar instalações militares? É alguma coisa assim? — Ela sentiu-se deprimida. — Este não é um bom começo — disse. — Você não está sendo honesto comigo.
— É uma mulher muito atraente, srta. Hiashi — disse o Sr. Lee, sem perder nada de sua pose. — Eu estava meramente curioso por ver... Posso ser franco? Sua atitude para com o sexo.
— Você está mentindo — disse Joan calmamente. Desta vez, o sorriso ameno desapareceu; ele encarou-a.
— Sopa de ninho de passarinho, senor. — O garçom tinha retornado; ele colocou a sopeira fumegante no centro da mesa. — Chá. — Colocou na mesa uma chaleira e duas pequenas xícaras sem asa. — Señorita, quer os pauzinhos?
— Não — ela disse, distante.
Do lado de fora do reservado veio um brado de angústia. Joan e o Sr. Lee ficaram em pé de um salto. O Sr. Lee afastou a cortina; o garçom também estava olhando, e rindo.
A uma mesa do lado oposto do restaurante, estava sentado um idoso cavalheiro chinês, com as suas mãos agarradas a uma caixa de empatia.
— Aqui também! — disse Joan.
— Eles são uma praga — disse o Sr. Lee. — Perturbando a nossa refeição.
— Loco — disse o garçom. Ele balançou a cabeça, ainda rindo.
— Sim — disse Joan. — Sr. Lee, eu vou continuar aqui, tentando fazer o meu trabalho, apesar do que ocorreu entre nós. Não sei por que eles deliberadamente mandaram um telepata me receber — possivelmente são suspeitas comunistas paranóicas contra estrangeiros —, mas de qualquer forma tenho um trabalho a fazer aqui, e pretendo fazê-lo. Assim, vamos discutir o gatinho esquartejado?
— Na hora da refeição? — disse debilmente o Sr. Lee.
— Você levantou a questão — disse Joan, e prosseguiu, apesar da expressão de aflição aguda no rosto do Sr. Lee, enquanto tomava sua sopa de ninhos de passarinho.
Sentado diante de sua harpa no estúdio da emissora de televisão KKHF de Los Angeles, Ray Meritan aguardava sua deixa. Como é alta a Lua, decidira, seria seu primeiro número. Ele bocejou, olhando para a cabine de controle.
Ao seu lado, junto ao quadro-negro, o comentarista de jazz Glen Goldstream limpava os óculos sem aro com um fino lenço de linho e dizia:
— Acho que vou ficar com Gustav Mahler esta noite.
— Quem diabos é ele?
— Um grande compositor do final do século dezenove. Muito romântico. Escreveu longas e peculiares sinfonias, e canções do tipo popular. Estou pensando, no entanto, nos padrões rítmicos em O Ébrio na Primavera de Cântico da Terra. Você nunca ouviu?
— Não — disse Meritan, impaciente.
— Muito cinza-esverdeado. — Ray Meritan não se sentia muito cinza-esverdeado aquela noite. Sua cabeça ainda doía da pdra que fora atirada em Wilbur Mercer. Meritan tinha tentado largar a caixa de empatia quando viu a pedra se aproximar, mas não foi bastante rápido. Ela atingiu Mercer na têmpora direita, tirando sangue.
— Cruzei com três merceritas esta tarde — disse Glen. — E todos eles pareciam estar muito mal. O que aconteceu com Mercer hoje?
— Como eu poderia saber?
— Você hoje está se comportando do mesmo jeito que eles. É sua cabeça, não é? Eu o conheço suficientemente bem, Ray. Você se envolveu em algo de novo e estranho. Que me importa se você é um mercerita? Apenas pensei que talvez pudesse tomar um comprimido contra a dor.
Bruscamente, Ray Meritan disse:
— Isto iria invalidar toda a idéia, não é? Um comprimindo contra dor. Aqui está, Sr. Mercer, enquanto o senhor sobe a encosta, que tal uma injeção de morfina? O senhor não vai sentir nada. — Ele dedilhou algumas cadências na harpa, liberando as emoções.
— Vocês estão no ar — falou o produtor, da sala de controle.
O tema musical, Isto é Bastante, avolumou-se a partir do tape-deck na sala de controle, e a câmera de vídeo número dois, que estava diante de Goldstream, acendeu a luz vrmelha. De braços cruzados, Goldstream disse:
— Boa noite, senhoras e senhoras. O que é jazz?
É o que eu digo, pensou Meritan. O que é o jazz? O que é a vida? Ele esfregou a testa rachada, atormentada de dor, e perguntou-se como poderia agüentar a próxima semana. Wilbur Mercer estava chegando perto agora. Cada dia ficaria pior...
— E, depois de uma pequena pausa para um importante mensagem — Goldstream estava dizendo —, estaremos de volta para falar mais dos homens e mulheres cinza-esverdeados, essas pessoas peculiares, e do universo da arte do primeiro e único, Ray Meritan.
A fita do comercial apareceu no monitor que estava diante de Meritan. Ele disse a Goldstream:
— Vou tomar um comprimindo contra dor. Um tablete chato e amarelo foi oferecido a ele.
— Paracodeína — disse Goldstream. — Altamente ilegal, mas efetiva. Uma droga que causa dependência... estou surpreso por você, justamente você, não trazer alguns consigo.
— Eu costumava trazer — disse Ray, pegando um copo plástico com água e engolindo o comprimido.
— Você, agora, é dependente do mercerismo.
— Afora eu estou... — Ele deu uma olhada para Goldstream; conheciam um ao outro, em suas funções profissionais, há anos. — Eu não sou um mercerita — ele disse —, portanto esqueça isso, Glen. é apenas uma coincidência que tenha arranjado uma dor de cabeça bem na noite em que Mercer foi atingido por uma pedra cortante atirada por algum sádico imbecil, que é que devia estar se arrastando por aquela encosta acima. — Ele fez uma careta para Goldstream.
— Eu entendo — disse Goldstream — por que o Departamento de Saúde Mental dos Estados Unidos está à beira de pedir ao Departamento de Justiça para enquadrara os merceritas.
Subitamente, ele se voltou para a câmera dois. Um leve sorriso tocou seu rosto e ele disse suavemente:
— O cinza-esverdeado começou há cerca de quatro anos, em Pinole, Califórnia, no agora justamente famoso Clube Dose Dupla, onde Ray Meritan tocava, nos idos de 1933 e 34. Esta noite, Ray vai nos dar a oportunidade de ouvir um de seus números mais conhecidos e apreciados, Apaixonado por Amy.— Ele gesticulou na direção de Meritan: — Ray... Meritan!
Plim, plim, fez a harpa quando os dedos de Ray Meritan tangeram suas cordas.
Uma lição prática, ele pensou enquanto tocava. É nisto que o FBI quer me tranformar aos olhos dos adolescentes, para mostrar-lhes o que não devem ser quando crescer. Antes viciados em paracodeína, agora em Mercer. Cuidado, garotos!
Por trás da câmera, Glen Goldstrean segurava um letreiro em que havia rabiscado:
MERCER É UM NÃO-TERRESTRE?
Abaixo disto, Goldstream escreveu com um marcador:
É ISTO QUE ELES QUEREM SABER
Invasão de alguém lá fora, pensou Meritan enquanto tocava. É disso que eles têm medo. Medo do desconhecido, como criancinhas. Assim são nossos círculos governamentais: pequenas, apavoradas criancinhas jogando jogos ritualísticos com brinquedos superpoderosos.
Um pensamento lhe ocorreu, vindo de um dos funcionários da rede na sala de controle: Mercer foi ferido.
Imediatamente, Ray Meritan voltou sua atenção para aquele lado, sondando o mais intensamente que podia. Seus dedos tangiam a harpa em um ato reflexo.
Governo declara ilegais as chamadas caixas de empatia.
Ele pensou imediatamente em sua própria caixa de empatia, diante do televisor, na sala de visitas do apartamento.
Organização que distribui e vende as caixas de empatia declarada ilegal e FBI efetua prisões em diversas das maiores cidades. Espera-se que outros países sigam esse exemplo.
Muito ferido? Morrendo? — ele se perguntou.
E... quanto aos merceritas que estava, segurando as manoplas de suas caixas de empatia naquele momento? Como estariam agora? Recebendo cuidados médicos?
Será que devemos pôr no ar as notícias agora?, o funcionário da rede estava pensando. Ou seria melhor esperar até os comerciais?
Ray Meritan parou de tocar sua harpa e falou claramente para o microfone:
— Wilbur Mercer foi ferido. Isto é o que esperávamos, mas continua sendo uma grande tragédia. Mercer é um santo.
Glen Goldstream olhou para ele com os olhos arregalados.
— Eu acredito em Mercer — disse Ray Meritan, e através de todo o território dos Estados Unidos sua audiência de televisão ouviu esta confissão de fé. — Eu acredito que seu sofrimento, ferimento e morte têm significado para cada um de nós.
Estava feito. Passara à história. E nem fora preciso tanta coragem.
— Orem por Wilbur Mercer — disse ele, e recomendou a tocar a harpa em seu estilo cinza-esverdeado.
Seu maluco, Glen Goldstream estava pensando. Entregar-se desta maneira! Você estará na cadeia em uma semana. Sua carreira está arruinada!
Plim, plim, Ray tocava sua harpa, e sorria sem humor para Glen.
IV
O Sr. Lee disse:
— Você conhece a história do monge zen que estava brincando de esconder com as crianças? Será que é Basho que conta isso? O monge se escondeu na privada do lado de fora e as crianças não pensaram em procurar lá, e assim o esqueceram. Ele era um homem muito simplório. No dia seguinte...
— Admito que o zen parece de certa forma um disparate — disse Joan Hiashi. — Ele exalta as virtudes de ser simplório e crédulo. E, lembre-se, crédulo é quele que acredita em qualquer coisa, portanto é fácil de enganar. — Ela tomou um gole de seu chá e percebeu que já estava frio.
— então você é uma verdadeira praticante de zen — disse o Sr. Lee. — Porque você foi enganada. — Ele enfiou a mão no paletó e puxou um revólver, que apontou para Joan. — Você está presa.
— Pelo governo cubano? — ela conseguiu dizer.
— Pelo governo dos Estados Unidos — disse o Sr. Lee. — Eu li a sua mente e descobri que você sabe que Ray Mertian é um mercerita preeminente, e que você mesma se sente atraída pelo mercerismo.
— Mas eu não sinto!
— Inconscientemente, você se sente atraída. Está a ponto de passar para o lado dele. Posso captar esses pensamentos, mesmo que você os negue para si mesma. Vamos voltar para os Estados Unidos, você e eu, lá vamos encontrar o Sr. Meritan, e ele nos levará a Wilbur Mercer; é simples assim.
— E foi por isso que fui enviada a Cuba?
— Sou membro do Comitê Central do Partido Comunista Cubano — disse o Sr. Lee. — E o único telepata no comitê. Nós votamos por trabalhar em cooperação com o Departamento de Estados dos Estados Unidos durante a atual crise Mercer. Nosso avião, srta. Hiashi, parte para Washington, D.C., em meia hora; vamos para o aeroporto imediatamente.
Joan Hiashi correu o olhar desamparado pelo restaurante. Outras pessoas comendo, os garçons... Ninguém prestava atenção. Ela levantou-se quando o garçom passou segurando uma bandeja sobrecarregada.
— Este homem — ela disse apontando para o Sr. Lee — está me seqüestrando. Ajude-me, por favor.
O garçom olhou para o Sr. Lee, viu quem era, sorriu para Joan e encolheu os ombros.
— O Sr. Lee, ele é um homem importante — disse o garçom, e seguiu em frente com sua bandeja.
— O que ele disse é verdade — falou o Sr. Lee.
Joan correu para fora do reservado e para o outro lado do restaurante.
— Ajude-me — disse ao idoso mercerita cubano que estava sentando diante de sua caixa de empatia. — Sou uma mercerita. Eles estão me prendendo.
O rosto velho e marcado se ergueu; o homem a examinou atentamente.
— Ajude-me — disse ela.
— Glória a Mercer — disse o velho.
Você não pode me ajudar, ela percebeu. Voltou-se para o Sr. Lee, que a seguira, ainda empunhando o revólver apontado para ela.
— Este velho não vai fazer coisa alguma — disse o Sr. Lee. — Nem mesmo vai se levantar. Ela se curvou:
— Está bem. Eu sei.
O aparelho de televisão no canto interrompeu subitamente sua algazarra de lixo cotidiano; a imagem de um roso de uma mulher e uma garrafa de detergente desaparecer abruptamente e só restou escuridão. E, então, um noticiarista começou a falar em espanhol.
— Ferido — disse o Sr. Lee, ouvindo. — Mas Mercer não está morto. Como se sente, srta. Hiashi, sendo uma mercerista? Isto a afeta? Ah, mas é claro. Precisa segurar as manoplas primeiro, para que isto a atinja. Deve ser um ato voluntário.
Joan pegou a caixa de empatia do velho cubano, segurou-a um instante e então agarrou as manoplas. O Sr. Lee olhou para ela surpreso; avançou na direção dela, estendendo a mão para a caixa...
Não foi dor o que ela sentiu. Então é assim?, ela se perguntou, enquanto via o restaurante se turvar e desaparecer em sua volta. Talvez Wilbur Mercer esteja inconsciente; deve ser isto. Estou escapando de você, Sr. Lee, ela pensou. Você não pode, ou pelo menos não vai, me seguir para o lugar aonde fui: ao mundo tumular de Wilbur Mercer, que está morrendo em algum lugar numa encosta árida, cercado por seus inimigos. Agora eu estou com ele. E assim eu escapo de algo pior. De você. E você jamais conseguirá me trazer de volta.
Ela viu, à sua volta, uma vastidão desolada. O ar cheirava a florescências rudes; este era o deserto, e não havia chuva.
Um homem estava ao seu lado, uma luz de pesar em seus olhos cinzentos, embebidos de dor
— Sou seu amigo — ele disse —, mas você deve prosseguir como seu eu não existisse. Pode entender isto? — ele abriu as mãos vazias.
— Não — disse ela —, não posso entender isto.
— Como eu poderia salvá-la — disse o homem — se não posso salvar a mim mesmo? — Ele sorriu. — Você não vê? Não há salvação.
— Então para que tudo isto?
— Para mostrar a você — disse Wilbur Mercer — que não está sozinha. Eu estou aqui com você, e sempre estarei. Volte e enfrente-os. E diga-lhes isso.
Ela largou as manoplas.
— Bem? — disse o Sr. Lee, apontando a arma para ela.
— Eu não vou lhe contar.
— Mas eu posso ficar sabendo de qualquer forma. Pela sua mente. — Ele estava sondando agora, ouvindo com a cabeça inclinada para o lado. Os cantos de sua boca se curvavam para baixo, como se ele estivesse fazendo um muxoxo.
— Eu não chamaria isto de grande coisa — disse ele. — Mercer olha você de frente e diz que não pode fazer nada para ajudá-la... É este o homem pelo qual você deu a vida? Você e os outros? Vocês estão doentes.
— Na sociedade dos insanos — disse Joan — os doentes estão bem.
— Que absurdo! — disse o Sr. Lee.
O Sr. Lee disse a Bogart Crofts:
— Foi interessante. Ela se transformou numa mercerita bem na minha frente. A latência se transformando em realidade... Isto provou que eu estava correto naquilo que tinha lido antes em sua mente.
— Pegaremos Meritan a qualquer momento agora — disse Crofts ao seu superior, o Secretário Herrick. — Ele saiu do estúdio de televisão em Los Angeles, onde recebeu a notícia do grave ferimento de Mercer. Depois disto, ninguém parece saber aonde foi. Ele não voltou ao seu apartamento. A polícia local foi para lá apreender a sua caixa de empatia e, sem a menor sombra de dúvida, ele não estava no recinto.
— Onde está Joan Hiashi? — perguntou Crofts.
— Ela está detida em Nova York — disse o Sr. Lee.
— Sob que acusação? — perguntou Crofts ao Secretário Herrick.
— Agitação política prejudicial à segurança dos Estados Unidos. Sorrindo, o Sr. Lee disse:
— E presa por um funcionário comunista em Cuba. É um paradoxo zen que, sem dúvida, não deve encantar a srta. Hiashi.
Enquanto isto, Bogart Crofts refletia, as caixas de empatia estavam sendo recolhidas em enormes quantidades. Logo iriam começar sua destruição. Dentro de quarenta e oito horas, a maior parte das caixas de empatia nos Estados Unidos não existiriam mais, inclusive a que estava ali, no seu escritório.
Ela ainda estava sobre a mesa, intocada. Tinha sido ele que originalmente pedira que fosse levada para lá e, durante todo aquele empo, tinha mantido as mãos afastadas, e não capitulara. Caminhou em sua direção.
— O que aconteceria — ele perguntou ao Sr. Lee — se eu segurasse estas duas manoplas? Não há aparelho de televisão aqui. Não tenho idéia do que Wilbur Mercer possa estar fazendo neste momento; de fato, até onde sei, ele já deve finalmente estar morto.
— Se segurar as manoplas, senhor — disse o Sr. Lee —, o senhor entrará numa.... Hesito em usar a palavra, mas ela parece se aplicar. Numa comunhão mística. Com o Sr. Mercer, onde quer que ele esteja; o senhor compartilhará seu sofrimento, como sabe, mas isto não é tudo. O senhor também participará da sua... — o Sr. Lee refletiu. — "Visão de mundo" não é o termo correto. Ideologia? Não.
O Secretário Herrick sugeriu:
— Que tal estado de transe?
— Talvez seja isso — disse o Sr. Lee, franzindo as sobrancelhas. — Não, também não é. Nenhuma palavra serviria, e este é o ponto. Não pode ser descrito, precisa ser vivenciado.
— Vou tentar — decidiu Crofts.
— Não — disse o Sr. Lee. — Não, se o senhor quiser seguir o meu conselho. E eu o aconselharia aficar afastado. Vi a srta. Hiashi fazer isto, e vi a mudança que ocorreu nela. O senhor experimentou a paracodeína quando era popular entre as massas cosmopolitas desenraizadas? — ele parecia zangado.
— Eu experimentei paracodeína — disse Crofts. — Não fez absolutamente nenhum efeito em mim.
— O que você quer que seja feito, Boge? — perguntou-lhe o Secretário Herrick. Encolhendo os ombros, Bogart Crofts disse:
— O que quero dizer é que não vejo razão para alguém gostar disso, para querer ficar dependente disto. — E, afinal, segurou as duas manoplas da caixa de empatia.
V
Caminhando lentamente pela chuva, Ray Meritan disse para si mesmo: Eles pegaram minha caixa de empatia e, seu eu voltar ao apartamento, eles vão me pegar.
Seu talento telepático o havia salvo. Ao entrar no edifício, captara os pensamentos do bando de policiais municipais.
Já era mais de meia-noite. O problema é que sou muito conhecido, ele percebeu, por causa do meu maldito programa de televisão. Não importa aonde vá, serei reconhecido.
Pelo menos em qualquer lugar da Terra.
Onde está Wilbur Mercer?, ele se perguntou. Neste sistema solar, ou em algum lugar além dele, sob um sol completamente diferente? Talvez jamais venhamos a saber. Ou pelo menos eu nunca venha a saber.
Mas fazia diferença? Wilbur Mercer estava em algum lugar; isto era tudo o que havia de importante. E havia sempre uma maneira de alcançá-lo. A caixa de empatia estava sempre ali — ou pelo menos tinha estado, até as batidas da polícia. E Meritan tinha a sensação de que a companhia de distribuição que fornecera as caixas de empatia, e que tinha de qualquer forma uma existência nebulosa, iria encontrar um meio de driblar a polícia. Se estivesse certo quanto a eles...
Adiante, na escuridão chuvosa, viu as luzes vermelhas de um bar. Ele voltou-se e entrou. Perguntou ao barman:
— Escute, você tem uma caixa de empatia? Dou-lhe cem dólares se me deixar usá-la. O barman, um homenzarrão troncudo com os braços cabeludos, disse:
— Não, não tenho nada de parecido. Vá andando. As pessoas no bar assistiam, e uma delas disse:
— Elas são ilegais agora.
— Ei, é Ryan Meritan — disse outra. — O homem do jazz. Um outro homem disse preguiçosamente:
— Toque um pouco de jazz cinza-esverdeado para nós, homem do jazz. — E tomou um gole de sua caneca de cerveja.
Meritan fez menção de sair do bar.
— Ei! — disse o barman. — Espere aí, companheiro. Vá até este endereço. — Escreveu numa carteira de fósforos, que entregou a Meritan.
— Quanto lhe devo? — perguntou Meritan.
— Oh, uns cinco dólares devem dar.
Meritan pagou e saiu do bar, com a carteira de fósforos no bolso. É provavelmente o endereço da delegacia de polícia local, disse consigo mesmo. Mas vou tentar de qualquer jeito.
Se eu pudesse ter acesso a uma caixa de empatia só mais uma vez...
O endereço que o barman lhe dera era de um velho, decadente edifício de madeira no centro de Los Angeles. Bateu na porta e ficou esperando.
A porta entreabriu-se. Uma mulher robusta, de meia-idade, de roupão de banho e chinelos felpudos o espiava.
— Não sou da polícia — disse ele —, sou um mercerita. Posso usar a sua caixa de empatia? A porta gradualmente se abriu. A mulher o perscrutou atentamente e evidentemente acreditou, embora sem nada dizer.
— Desculpe-me incomodá-la tão tarde — desculpou-se.
— O que aconteceu com você, moço? — perguntou a mulher. — Você parece mal.
— É Wilbur Mercer — disse Ray. — Ele está ferido.
— Pode ligar — disse a mulher enquanto o levava, arrastando os chinelos, até uma sala escura e fria onde um papagaio dormia numa enorme e torta gaiola de arame de latão. Lá, sobre um antiquado gabinete de rádio, ele viu a caixa de empatia. Ao vê-la, sentiu o alívio percorrê-lo.
— Fique à vontade — disse a mulher.
— Obrigado — disse ele, e segurou as duas manoplas. Uma voz disse ao seu ouvido:
— Usaremos a garota. Ela nos levará a Meritan. Eu estava certo quando a contratei, desde o início.
Ray Merian não reconheceu a voz. Não era de Wilbur Mercer. Mas mesmo assim, desnorteado, ele segurou firmemente as manoplas, ouvindo; ficou ali, paralisado, os braços estendidos, segurando firme.
— A força não-T apelou para o segmento mais crédulo da nossa comunidade, mas esse segmento — eu acredito firmemente — está sendo manipulado de cima por uma cínica minoria de oportunistas, tais como Meritan. Eles estão ganhando em cima desta mania de Wilbur Mercer, para os seus próprios bolsos. — A voz, segura de si, continuou com a lengalenga.
Ray Meritan sentiu medo ao ouvi-lo. Pois tratava-se de alguém do outro lado, ele percebeu. De alguma forma, entrara em contato com essa pessoa, e não Wilbur Mercer.
Ou teria Mercer arranjado isto deliberadamente? Ele continuou escutando, e então ouviu:
— ... temos que tirar a garota Hiashi de Nova York e trazê-la para cá, onde poderemos questioná-la mais. — A voz acrescentou: — Como eu disse para Herrick...
Herrick, o Secretário de estado. Aquilo ea alguém do Departamento de Estado pensando, percebeu Meritan, lembrando-se de Joan. Talvez aquele fosse o funcionário do Departamento de Estado que a contratara.
Então ela não estava em Cuba. Estava em Nova York. O que teria dado errado? O que estava implícito era que o Departamento de Estado havia usado Joan meramente para chegar a ele.
Ele soltou as manoplas e a voz desapareceu de sua presença.
— Você o encontrou? — perguntou a mulher de meia-idade.
— S-sim — disse Meritan, desconcertado, tentando se orientar na sala pouco familiar.
— Como ele está? Ele está bem?
— Eu... Eu não sei neste momento — respondeu Meritan com sinceridade. — Devo ir a Nova York, ele pensou. E tentar ajudar Joan. Ela está metida nisto por minha causa; não tenho escolha. Mesmo se me pegarem por causa disto... Como eu poderia abandoná-la?
— Eu não captei Mercer — disse Bogart Crofts.
Ele afastou-se da caixa de empatia, depois voltou-se e olhou malevolamente para ela.
— Captei Meritan. Mas não sei onde ele está. No momento em que segurei as manoplas desta caixa, Meritan também segurou em algum outro lugar. Fomos conectados, e agora ele sabe tudo o que eu sei. E nós sabemos tudo o que ele sabe, o que não é muito. — Aturdido, voltou-se para o Secretário Herrick. — Ele não sabe mais sobre Wilbur Mecer do que nós sabemos; estava tentando alcançá-lo. Ele, definitivamente, não é Mercer. — Crofts silenciou.
— Ainda há mais — disse Herrick, voltando-se para o Sr. Lee. — O que mais ele tirou de
Meritan, Sr. Lee?
— Meritan está vindo para Nova York, para tentar encontrar Joan Hiashi — disse o Sr. Lee obedientemente, lendo a mente de Crofts. — Ele captou isto de Meritan durante o momento em que suas mentes estiveram fundidas.
— Vamos nos preparar para receber o Sr. Meritan — disse o Secretário Herrick, com uma careta.
— Isto que eu vivenciei é o que vocês, telepatas, fazem o tempo todo? — perguntou Crofts ao Sr. Lee.
— Somente quando um de nós se aproxima de outro telepata — disse o Sr. Lee. — Pode ser desagradável. Nós evitamos isto, porque, se as duas mentes forem completamente diferentes e entrarem em choque, isso pode ser psicologicamente prejudicial. Eu percebi que o senhor e o Sr. Meritan entraram em choque.
— Escutem — disse Crofts —, como poderemos continuar com isto? Sei agora que Meritan é inocente. Ele não sabe coisa alguma sobre Mercer ou sobre a organização que distribui essas caixas, a não ser o nome.
Houve um silêncio momentâneo.
— Mas ele é uma das poucas celebridades que se juntaram aos merceritas — observou o Secretário Herrick, entregando a Crofts um formulário de teletipo. — E ele fez isso abertamente. Se você se der ao trabalho de ler isto aqui...
— Sei que ele afirmou sua lealdade a Mercer no programa de TV desta noite — disse Crofts, trêmulo.
— Quando você lida com uma força não-T originária de um outro sistema solar completamente diferente — disse o Secretário Herrick -, deve agir com cuidado. Ainda vamos tentar pegar Meritan e, definitivamente, usando a srta. Hiashi. Vamos libertá-la da prisão e fazer com que seja seguida. Quando Meritan fizer contato com ela...
O Sr. Lee disse a Crofts:
— Não fale o que está pretendendo, Sr. Crofts. Vai prejudicar permanentemente a sua carreira.
— Herrick, isto está errado — disse Crofts. — Meritan é inocente, e também Joan Hiashi. Se você preparar uma armadilha para Meritan, pedirei demissão do Departamento de Estado.
— Escreva o seu pedido de demissão e entregue-o para mim — disse o Secretário Herrick. Seu rosto estava sombrio.
— Isto é uma infelicidade — disse o Sr. Lee. — Eu diria que o seu contato com o Sr. Meritan perturbou o seu julgamento, Sr. Crofts. Ele o influenciou de maneira maligna. Livre-se disso, pela sua longa carreira e pelo seu país, para não mencionar sua família.
— O que estamos fazendo é errado — repetiu Crofts.
***
Você terminou Total Recall
Philip K. Dick