Trilogia do adeus

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 1 de 3 · parte 1/3

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Trilogia do adeus

Caderno de um ausente

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

SUMÁRIO

 

Caderno de um ausente

Menina escrevendo com o pai

A pele da terra

Sobre o autor

Créditos

Para Juliana

De que modo ensinais as coisas futuras,

ó Senhor, para quem não há futuro?

SANTO AGOSTINHO

 

[...] mas que doce amargura dizer as coisas [...] RADUAN NASSAR

Filha, acabas de nascer, mal eu te peguei no colo, e pronto, já chega, disse a enfermeira, e te recolheu de mim, foi apenas pra gravarmos uma cena, agora os pais assistem ao parto, e tudo é filmado, antes não havia nada disso, eu nasci das mãos de uma parteira, já na época do teu irmão — um meio-irmão, de quinze anos, é bom que logo saibas —, a moda era o registro fotográfico, outro dia ele se viu numa foto comigo, logo que veio à luz, e sorriu, e, em seguida, silenciou, e então eu imagino o que ele, como um rio rumo à foz, leu nas águas daquele momento inicial, e, agora, eu também só concordei com a filmagem pelo mesmo motivo, pra que te vejas, no futuro, junto a mim, eu te recebendo nesta hora primeira, dando-te as boas-vindas, se assim se pode dizer, vais descobrir por ti mesma que este é um mundo de expiação, embora haja ocasionalmente umas alegrias, não há como negar — as verdadeiras vêm travestidas, é preciso abrir os olhos dos teus olhos pra percebê-las. Acabas de nascer e eu tenho de te explicar, como se já pudesses entender, e, da mesma forma, estou dizendo a mim, que não vamos passar muito tempo juntos, que deves te preparar pra viver mais longe de mim do que perto — eu farei parte, pra sempre, só do início de tua história; não há outro jeito, mesmo com a maior das esperanças, de te ver crescer como vi o teu irmão e continuarei a vê-lo até se tornar adulto, ele à beira de ser o homem que será, talvez até dê tempo pra que eu o veja se casar e me dar, quem sabe, um ou dois netos. Mas tu, não. Vens

com esta marca, de minha ausência, a envolver inteiramente a tua vida, e este é um dos primeiros sustos que temos nesta existência, somos o que somos, não há como alterar a nossa história, sobretudo se ela já começa no meio, ou mais próxima ao fim — esta porta do hospital, de vaivém, foi a tua porta de entrada, talvez seja a minha de saída —, se há destinos emaranhados, o meu e o teu apenas vão se resvalar feito fitas, ainda que o toque possa abrir em nós uma ferida, como as folhas de papel. Dependendo da maneira como as pegamos, as folhas de papel, inocentes, em sua aparência, nos rasgam a pele, até mesmo as peles mais rudes, de lavradores como o teu avô, meu pai, que já se foi, folhas de papel, especialmente em branco, podem, de súbito, se encher de sangue, pela tua própria ação intempestiva, imagine, então, quando nelas as palavras irrompem em incontrolável hemorragia. Ali, naquela bacia, a placenta

que até há pouco te envolvia, como a casca de um ovo, ela te mantinha protegida, preparando-te pra vida do lado de cá; deves estar sentindo frio, depois de tanto tempo no calor do ventre, a tua mãe agora dorme, tu, que vens de dentro dela, deves saber o quanto ela padeceu, e esse é outro fato inescapável de teu destino, uma mãe de saúde débil, mas que correu todos os riscos pra te trazer aqui, amor não te faltará, eu te asseguro, ela é dessas mulheres que deseja a proximidade o tempo inteiro, capaz até de te sufocar, de tanto amor, mas de tua mãe falarei depois, pelo cordão umbilical tu já a conheces mais no âmago do que eu, apesar do que dizem sobre os casais — que tanto se conhecem a ponto de se confundirem —, o mistério de cada um só a ele pertence, há regiões nossas às quais nem nós mesmos alcançamos. Desculpe-me por te dizer isso quando ainda mal chegaste, eu sou saudável pra um homem de cinquenta e tantos anos que cometeu lá os seus excessos, tenho vitalidade de sobra, há manhãs que me sinto em plenitude, com um desejo de viver maior do que em menino, quando queria crescer logo e imaginava existir um abre-te sésamo pra me revelar os mistérios do mundo, eu acreditava que havia uma escrita cifrada em algum documento oculto, por meio da qual todo o sem-sentido da existência, de repente, se iluminaria, eu supunha que podia encontrar o pergaminho, a chave lendária, o livro sagrado que explicaria o engenho humano e o segredo das divindades — tu descobrirás, filha, que sonhar nos salva da rotina, mas, também, nos desliga da única coisa que nos mantém em vigília: o muro concreto do presente.

Sim, estou ótimo pra alguém da minha idade, ao menos é como me sinto, quero permanecer ainda um tempo por aqui, mas, preciso te dizer, filha, sei bem distinguir quando aquilo que capto, na configuração das nuvens, é apenas uma suspeita ou um fato a caminho, ineludível, aprendi a ler o que está escrito nas altas esferas, e também no rodapé da nossa rotina. Apesar de vítimas dia a dia de

enganos, há uma hora em que aprendemos a reconhecer a verdade em qualquer rosto, mesmo num rosto disfarçado com máscara grosseira, ou refeito por mil cirurgias, haverá sempre quem diga, mirando a tua face rubra, ainda amassada, depois de rascunhada e, ao longo dos últimos meses, envelhecida dentro de tua mãe — este processo nunca para, é a silenciosa bomba-relógio de nossa existência —, que tens alguns de meus traços, talvez os menos marcantes; por isso, eu te peço perdão, filha, por não ser o anfitrião ideal, por te recepcionar com estas palavras rascantes, mas não há como esconder a morte ante a estreia de uma vida.

A tua mãe, tão reservada, pediu a filmagem do parto apenas pra rebobinar as lembranças quando quisesse te ver chegando, novamente, jamais pra exibir à visita ou a familiar distante, ela preferiu o “livro do bebê”, no qual se registram o primeiro banho, a primeira palavra, o primeiro dentinho e tudo o mais ao longo de um ano, amanhã vai começar a assinalar cada progresso teu, e com qual idade tu o lograrás, pra depois dizer ao pediatra, e conferir, com orgulho, que estarás crescendo forte, apesar de ser fruto de um esperma velho e de um amor tardio. Tua tia Marisa tentou convencê-la a fazer um

álbum de fotografias, desses anunciados na internet, vinte reais a cópia, sete tamanhos, quatro estilos de capa, cinco tipos de papel, mais de mil opções de layout, a história do bebê contada com desconto de até sessenta por cento — enfim, vai te acostumando com a matemática, filha, os números vão reger as tuas decisões —, mas ela não se motivou, talvez tenha se enfastiado com tantas dicas que recebeu pra cuidar de ti, sobretudo os guias práticos das mamães, A encantadora de bebês resolve todos os seus problemas, Pequena biblioteca do bebê, O que esperar quando você está esperando, Nana nenê, O primeiro ano de seu bebê mês a mês, mas a tua mãe optou por este caderno de notas, registro de tuas iniciações, poderia já preencher a primeira página, a caligrafia dela é linda, as letras bem definidas, tu verás, fácil pra qualquer leitor reconhecer — diferente do meu “j” que parece “g”, de meu “l” que se confunde com o “i” —, as palavras grafadas com limpidez, igual água dentro do vidro, exibindo toda a transparência de sua escritura líquida e, ao mesmo tempo, escondendo resíduos de substâncias, milagrosas ou nocivas, a revelar e ocultar seu segredo em qualquer punhado de correnteza que colhemos; a tua vida, filha,

é um texto que há tempos começamos a escrever, mas, daqui em diante, também te cabe pegar esta tinta e delinear o teu curso, tome só cuidado com o que retiras do nada e trazes à superfície, é comum borrar ou rasurar um trecho, mas é impossível apagá-lo, a palavra se faz carne, e a carne se lacera, a carne apodrece aos poucos, mas é também pela carne que a palavra se imortaliza. Não há borracha para um fato já vivido, pode-se erguer represas e costões, muralhas e fortalezas para barrar o fluxo das horas, mas, uma vez que o sol se torne sombra, que o luar penda no céu em luto, a névoa se disperse na paisagem pendurada à parede, o dedo acione o gatilho, nada mais se pode fazer; nossa jornada, aqui, é única, a ninguém será dada a prerrogativa, salvadora ou danosa, da reescrita. Filha, tua mãe,

amanhã, vai abrir o teu livro de bebê e anotar na primeira página o que, em verdade, já está escrito — a mão dela vai apenas confirmar, como um compositor confirma, ouvindo seu ritmo interior, as notas que ele dispõe na partitura. Nome do bebê: Beatriz Sexo: feminino Tamanho: 50 centímetros Cor da pele: branca Cor dos olhos: cinza (tua mãe gostaria que se tornassem azuis, mas serão castanhos) Cor dos cabelos: preto Dia de chegada: 30 de abril Ano: 2002 Horário: 14h21 Lugar: Maternidade Santa Catarina Cidade: São Paulo País: Brasil Nome da mãe: Juliana Nome do pai: João. Imagino os

outros dados desta página inaugural e das seguintes que precisam ser preenchidos, a primeira roupa que te vestiram, e quem a deu, se era verão ou inverno, se naquela noite chovia, quem foi a tua primeira visita, e se há alguma marca em teu corpo, se tu espirras, se choras, se tuas unhas estavam crescidas, o teu primeiro arroto, o primeiro vômito, o primeiro peido, não há fronteiras, filha, para a criatividade — e para a pieguice — humana, tudo pra honrar a tua história, pra te conferir uma aura de singularidade, embora sejas apenas mais um, entre milhares de neófitos, que vai se igualar a todos no espanto de te descobrir finita, no aprendizado do amor e da inveja, na dolorida jornada rumo à conscientização de tuas misérias, no sonho de encontrar a explicação que te salve de ti mesma, a magia que retire de teu corpo o limite que o aprisiona, e de tua imaginação o medo que a refreia. Logo, tua mãe terá tantos afazeres, que se esquecerá deste livro, concebido, aliás, só para esses primeiros dias de espanto; em breve, filha, os teus progressos não serão mais anotados no papel, mas em nossa carne e em nossa memória, especialmente na tua, porque a dor de dente é menor na boca alheia, as angústias não podem ser partilhadas ainda que queiramos, somente nós mesmos sabemos (sabemos?) o bem e o mal de ser quem somos. Deveriam inventar um livro correspondente para os pais, eu e tua mãe poderíamos anotar nele o que tu, mesmo involuntariamente, nos causou com a tua vinda e o que vais nos causar adiante: o primeiro susto (será que ela é mesmo normal, sem nenhum defeito?), a primeira decepção (é tão feia quanto qualquer recém-nascido), a primeira tristeza (ainda que tenhamos amor por ti, não é um amor grande o suficiente pra ter te deixado só no sonho), a primeira dor (afinal, somos responsáveis por ter te trazido aqui — aqui, onde terás de conviver diariamente com o não, quando todo o teu ser suplicará pelo sim).

Bia, já posso pronunciar o teu nome com a força da verdade, estás ali, acontecendo, naquele berçário à meia-luz, entre paredes verdes — um verde erva-doce, distinto do verde-musgo dos meus olhos —, entre outras crianças, também egressas de outros úteros; na certa te sentes exilada e, talvez, como muitos de nós, continuarás por muitos anos, senão pra sempre, a te sentir assim, imprópria pra este mundo, transplantada pra um terreno que muda de estação pelo teu olhar mais do que pelas formas que o determinam, porque, às vezes, há mais seca numa inundação do que num deserto, mais verão numa folha do que num bosque inteiro; tu estás começando a te adaptar do lado de cá, onde os nervos vivem

expostos e as garras crescem, adaptar-te a esta sólida certeza, tão sólida que há quem precise da vida inteira pra se ajustar a ela, pra entender a sua lógica, pra tingir o seu cinza de tanta realidade até que se torne negro; o único jeito de te violentar menos, Bia — agora pronuncio o teu nome, não mais temeroso —, é aceitar que as tuas vísceras são de vidro, que o teu sistema de amar é falível, que os teus sonhos se desregulam, e na entrega está o germe de nossa resistência; não há, Bia, é bom que aprendas

cedo, não há outra maneira de avançar senão experimentar, seja o que for, pena ou regozijo, ternura ou estupidez, o seu máximo limite, não se bebe o momento em pequenos goles, mas em longos

tragos, afogando-se nele até sentir, em tuas entranhas, a vertigem de ser quem tu és inteiramente, de saberes desde já, sem que tenhamos te ensinado, que vão te reconhecer pelos traços que teu rosto ganhará nos próximos anos, pelo timbre de tua voz, talvez até pelo teu jeito de andar, vão te reconhecer, Bia, se conseguires alinhar o ritmo de tuas células ao giro dos astros, pelo tom do teu silêncio mais do que pela qualidade de tua fala. Ainda hoje, provavelmente de madrugada, após o sono inaugural fora de

tua redoma, acordarás com fome e compreenderás que não estás conosco no paraíso, e, então, vão te trazer a este quarto e te entregar à tua mãe, e só depois que tu e ela conseguirem se encaixar, a água salgada na face de ambas, a tua boca finalmente a sugar o seio dela, a tua cruz se tornará leve por um instante, e seguirás, assim, pela vida afora, em busca de experimentar novamente esse êxtase. A

fome maior, Bia, a gente mata comendo os próprios lábios, mastigando com a gengiva os nossos dentes e engolindo a nossa própria garganta. Tua mãe, os mamilos rasgados pela abundância de leite e

pelos teus sorvos sedentos, daqui alguns dias em carne viva, te passará — tão mínima neste mundo, tão pequena e leve tu és, caberias numa caixa de sapato, como as cartas e as fotos e tudo o mais acumulado pela maioria das pessoas —, te passará pros meus braços, Bia, e aí eu poderei pronunciar, não mais mentalmente, ou apenas sangrando no papel, o teu nome com a minha voz, soprando-o diante de teu rosto, e tu sentirás o meu hálito, nada divino, tão (e irremediavelmente) humano, Bia, pois é essa fragilidade, esse abandono forçado de cada um na sua própria solidão, que nos configura, que nos inunda de esperança, embora, também, nos prenda ao chão e faça de nossos pés raízes vivas, rastejantes. Contigo em meus braços, poderei dizer o teu nome, Bia, com a paciência dos compassivos, certo de que, a partir de então, ele nomeará a tua vida; vida que acompanha o meu ritmo respiratório, a tua cabeça encostada em meu peito, a ouvir meu coração; o coração de tua mãe conheces há tempos, os filhos não aprendem a amar a mãe, Bia, os filhos amam a mãe desde o início, mas o pai, o pai os filhos têm de aprender a amar, porque sempre estiveram fora dele, e, mesmo dizendo o teu nome diariamente, desde que soubemos pelo médico, é uma menina!, mesmo sussurrando o teu nome junto ao umbigo de tua mãe, como se tu pudesses me ouvir, como se a pele não fosse também uma casca de mentira, capaz de enganar o toque que nela reverbera, só agora eu posso dizer o teu nome, com a força dos conjuros, o

nome é que nos inicia no mundo dos signos, Bia, o nome é a sombra que vais carregar minuto a minuto, como os teus braços, e, junto ao nome, há uma estrela com a data de tua chegada, quando ela então começa a luzir, e terá de luzir sem parar, mesmo que não queiras, ou odeies o esplendor, luzir até que se apague será a tua sina, Bia, assim se passa com cada um de nós; sem que o saibamos de largada, o que nos eleva, embora também nos dilacere, são as grandes feridas. O nome, Bia, é a primeira delas,

e continuará edema aberto pra sempre — mesmo quando, ao lado dessa estrela, colocarem uma cruz, confirmando o teu regresso à escuridão —, o nome, que lhe demos, jamais deixará de ser a cicatriz primeira de teu destino.

Como toda história, não sei aonde a tua vai dar, se vamos passear pelo parque nas manhãs de domingo, se andaremos juntos por rudes paragens, se tu serás silenciosa, como a tua mãe, se terás febre por longas noites, se o sol ou a tempestade será teu primeiro alumbramento, se cairás incontáveis vezes até te arvorares sobre as duas pernas, não sei, Bia, qual será a tua cor preferida, não sei quantas bolhas

terão teus pés depois de te arrastares por essas ruas de piche, quantas rugas arrasarão o teu rosto toda vez que a realidade violentar a tua inocência, eu não sei, Bia, qual é o teu ascendente zodiacal, nem a

tua pedra no jogo das runas, eu não sei se vais gostar de agrião como o meu pai, não sei se será prazerosa ou dolorida ou traumática a tua primeira transa, não sei tanta coisa de ti, Bia, e nem saberei, não apenas pelo tempo, estreito, que vamos conviver, mas porque há coisas que nunca saberemos de nós mesmos, muito menos dos outros, e há coisas que não devemos saber, para que nos doam menos eu não

sei, Bia, quantas vezes vão te espremer o nariz no vidro blindado da verdade, não sei o quanto o teu coração suportará as flechas românticas, não sei, Bia, embora saiba tantas coisas, eu não sei se o

cisco em teu olhar vai te impedir de ver a arquitetura do destino, se o tempo vai se abrir, como uma gaveta, pra te mostrar o que existe na fenda entre o dia e a noite, se as membranas do passado se desfolharão pra que te reencontres comigo nos eventos que vamos viver, não sei se o tempo que se deposita nas coisas feito pó permitirá que o recuperes na campa funda de tuas experiências, não

sei, Bia, quase nada de ti, mas sei que somente o silêncio pode cortar a língua das palavras; sei que muito se fala da morte das estrelas, já apagadas quando sua luz chega até nós, mas ninguém nos lembra que há outras estrelas em gestação, a vida, contra a própria vida, se ergue do nada, a vida, eu sei, rasga

com seus galhos espinhentos a paisagem de seda, e eu, ainda que não saiba o quão fundo o capim-cidreira vai cortar a palma da tua mão quando alisares suas touceiras, eu sei o quanto um lápis, mesmo com seu grafite quebradiço, é capaz de obrar milagres contra a vontade do mundo, e, justo porque não sei se tu serás áspera como lixas de aço no trato com as tuas veleidades, eu te digo, Bia, o tempo, que,

pacientemente, te trouxe aqui, começou a contagem regressiva, o tempo é este alicate, o tempo puxa o fio da vida, estica-o, corta, emenda, torce, o tempo, Bia, vai te violar de mansinho, a ponto de nem perceber, senão quando, diante do espelho te espantar com o desenho perverso que, sorrateiro, ele moldou em teu corpo, o tempo é o inquilino que mora em cada uma de tuas células, e, como todo inquilino, ali se aloja pra gastar as tuas paredes, sorver o teu oxigênio e recolher em vasilhas, como se fosse goteira, o sol que entra pra te avivar, é o tempo, Bia, que vai te levar à porta da rua, e basta abri-la para tudo que é

estranho se entranhar em tua alma, como um prego enferrujado num osso, um caco de vidro na base do pé,

eu só sei, Bia, que a minha história talvez termine quando a tua estiver ao meio, eu não

sei um universo inteiro de coisas, não sei e nem terei tempo de aprender — e eu queria tanto aprender a tocar um instrumento! —, eu ignoro imensidões, que não cabem em minhas vivências, eu sei que há minas colossais de sabedoria, que uma pepita extraída delas me ensinaria mil maneiras de perdoar a mim mesmo e aos meus semelhantes, eu sei que a jornada dói mesmo nas estações floridas, eu sei que quase ninguém se melhora nesta jornada, Bia, as garras nunca param de crescer em nossas mãos e em nossos pés, apenas se tornam fracas e inofensivas, mas, por tudo isso que desconheço, eu sei que não

vão poupar a tua gengiva na hora de arrancar os dentes, não vão economizar saliva pra inundar de críticas as tuas conquistas, não economizarão mordaças pra amarrar a boca das palavras no teu silêncio, eu sei que as noites estreladas, se lindas e inesquecíveis, podem cegar as tuas lembranças, eu sei que certos sonhos têm a consistência dos rochedos, eu sei que o dardo dos gritos quase nunca atinge o alvo,

e há outras fomes que não se comem com garfo e faca, e há carícias que nos sugam mais que solos movediços, e tudo se apaga quando o medo não consegue dormir, Bia, e tudo se acalma quando cessa o torvelinho dos pensamentos, e tudo se ilumina quando temos a manhã em nosso corpo, e a âncora do perdão nunca mais se solta da consciência, e as ideias gagas por vezes nos salvam dos abismos, e os sonhos soluçantes nos mudam os olhos, e o azar quase sempre paga o preço da sorte, os desejos se rasgam tão facilmente como papelão e, igual às flores, as alegrias também apodrecem no dia seguinte, e o cortejo de aflições segue em fila dupla, de um lado as dores, do outro a sua sombra, e é com a ponta dos dedos, não com o nariz, Bia, que se fareja a história de fracassos na pele do outro, e quem começa qualquer empreitada com receio se fecha para o destino, e eu só sei, Bia, que, em breve, não

estaremos mais aqui, e, enquanto estivermos, eu quero, humildemente, te ensinar umas artes que aprendi, colher a miudeza de cada instante, como se colhe o arroz nos campos, cozinhá-la em fogo brando, e, depois, fazer com ela um banquete.

Eu ia te ensinar como desviar das trilhas tortas que vão se colar na sola de tuas sandálias, e como te manter em calmaria quando os ventos acusatórios te açoitarem, eu ia te ensinar a fugir das

 

circunstâncias que nos arrastam aos abismos, ia te treinar a distinguir os diferentes verdes da paisagem,

eu ia te explicar por que a chuva lavra a pele do solo e revolve as profundezas, eu ia te ensinar a aceitar as vicissitudes como aceitamos a curvatura dos planaltos, o curso sinuoso dos rios, a consistência do ferro e a sua vocação pra ferrugem, eu ia te exortar a defender uma causa perdida e a ela te entregar, ia te exercitar com as ferramentas que a verdade nos dá quando o motor da fé engasga, eu ia te mostrar que o invólucro das palavras pode ser mais doce que a sua gema, eu ia te mostrar com quais pedras e gravetos se faz um ninho, ia te treinar a desfazer o nó que invariavelmente cega as nossas ideias, eu ia provar, com mil exemplos, que se pode inventar metáforas em cores a partir de clichês cinzentos, e, em movimento oposto, eu não ia aplaudir o brilho do tecido se o que te agasalha é o forro, eu não ia te receitar fórmulas pra apaziguar tuas inquietações — eu só acredito no antídoto que, reagindo com a nossa química, é rebento do próprio veneno —, eu não ia falar em pétalas se o momento exigisse espinhos, não, Bia, eu não ia, jamais, te emprestar, se me fosse dada a prerrogativa do não, a minha miopia, pra

que não visses no grão o grandioso, no cão o lobo, no lume a lama, eu não ia te dar copos pra

recolher rios e mares, nem consentir que pegasses o meu atalho pois a tua senda está na planta de teus pés, mas eu ia te ensinar a sentir, pelo toque, a temperatura da argila, pra que conhecesses a

matéria volátil com que é feita a nossa existência, eu ia te ensinar que certas ramas se entortam porque seguem o prumo das nuvens, eu ia degustar contigo o sumo dos imprevistos, eu ia, filha, revelar por inteiro o meu molde bruto, de granito lírico, e eu ia, nos dias rústicos, deitar o ouvido à terra de teu peito pra localizar os teus sismos (porque o coração é sempre a carne em vertigem), eu ia, à mesa,

apontar sobre a toalha de domingo o valor do farelo, eu ia te ensinar a ser paciente com o tempo, venerá-lo pela sua indiferença ante o orgulho e o sofrimento humano, porque sob o jugo dele todos os caminhos levam ao fim, todos os rumos (mesmo os mais belos), à ruína, eu ia, em noites brumosas, Bia,

evocar a ternura dos encontros familiares, a alegria das rodas de conversa, o fascínio das histórias antigas, eu ia adubar as flores no jardim de casa enquanto tu, de cócoras, ao meu lado, observarias, curiosa, o meu desvelo, e pra que me conhecesses, como a um pai se deve conhecer, eu ia te

dizer num instante qualquer, na cozinha, numa tarde de sábado, eu ia te dizer, com uma delicadeza feroz, que é pelo caminho de dentro que a larva alcança o voo, que a madeira estala furiosa ao fogo se a lambuzam de verniz, eu ia te aconselhar a não resistir à ordem das estações, porque dentro de

cada uma as outras também estão operando, eu ia te ensinar por que se vê retirantes nos poentes,

e por que não há hora certa pra inserir morte na paisagem, e por que aquele que sulca a terra e a rasga com uma artéria d’água para irrigar a lavoura merece a reverência do sol e o respeito da chuva, eu ia te ensinar, Bia, por que, subitamente, a linguagem frutifica, vazando primavera por todos os poros, por que é mais digno se molhar no sangue do presente do que no pó dourado do passado, eu ia te ensinar

por que de não em não o tempo se sacia de nós, o tempo nos nega os desejos e nos avilta os sonhos, por que não existe a terra prometida senão em nós, e porque ela está cercada de continentes barrentos e istmos movediços, eu ia te levar pra passear nos bosques que o meu imaginário esculpe, eu ia te

ensinar a podar os ramos mais altos das árvores, porque se é preciso aprender a plantá-las é igualmente vital que se saiba apará-las, se eu pudesse, Bia, eu ia te ensinar tudo isso e muito, muito mais, eu

ia até te contar baixinho, eu ia te contar o segredo do universo como quem sussurra uma canção de ninar, mas eu não posso, filha, eu só posso te garantir, agora que chegaste, a certeza da despedida.

Mas, por enquanto, aqui estamos, Bia, e é com essa certeza de existir que seguimos sob a ordem dos dias, e, assim, logo iremos pra casa e, já que tu entraste num certo ponto do mundo, trecho talvez final da minha jornada, vais ouvir falar de gente que te antecedeu, e com quem nunca poderás conviver, uns nomes bonitos e sonoros, Mateus, André, João, Sara, Luíza, Tiago, Marisa, e, então, eu vou te apresentar a eles, porque haverá, certamente, algo de um e de outro na cor de teus cabelos, no teu jeito de sentir a pele das horas, na constituição de tuas glândulas e no enredo de teus sonhos. Eu não sou de cultivar

imagens, mas eis aqui, nesta caixa de papelão, umas fotografias — as da família de tua mãe, veja a diferença, estão em pequenos álbuns, organizadas por data, com legendas e comentários —, e também há uns vídeos, poucos, sim, eu nunca fui de arquivar momentos em estantes, estão todos aqui, na memória, à espera do imprevisível para retornarem, e, mal acabo de abrir a caixa, eis a primeira delas,

vês?, este é o teu avô comigo, eu ainda menino, o teu avô André, homem maior, pena que nunca verás os olhos verdes dele — doía a gente mirar, tão bonitas eram aquelas esmeraldas vivas! —, e aquelas mãos vincadas de histórias, que muitas terras lavoradas deveriam agradecer, o teu avô sabia aprumar as sementes, nutrir as plantas com a justa medida de água e sol, recolher, sempre zeloso, os frutos sadios das árvores, as mãos dele viviam cheias de entrega, não cabia mais nelas tanta oferenda, uma pena que não podes ver, atrás desse tom sépia, a intensidade da vida vinda do chão onde ele pisava, humilde, veja que, entre tantas fotos, foi esta, de teu avô André, que saltou primeiro à nossa vista, embora não importe a sequência de cartas para o destino de um baralho, aqui, Bia, nesta caixa, jaz um tanto do que tu és e outro tanto do que serás. Este teu avô veio de Granada, ainda criança, com o pai e a mãe fugitivos do

franquismo, camponeses que, por acaso, foram encaminhados a fazendas de café no interior de São Paulo, onde continuaram cortando as mãos em folhas de capim, em cabos de foices e de enxadas, em terreiros de grãos, e, anos depois, quando foram viver na pequena cidade onde nasci, foi a vez de gastá-las na lavagem de louças e panelas, no restaurante de onde tiravam a renda pra nossa educação, e entre essas tarefas, laceraram-nas em colheres de pedreiro, tijolos, martelos, ripas de madeira e serrotes para erguer a casa, que meus pais, eles mesmos, construíram e moraram até o fim, aqui deve ter uma foto dele lá comigo e com a minha irmã no quintal às brincadeiras, se bem me lembro, era um dia ensolarado, o pé de romã que minha avó Sara havia plantado anos antes todo florido, o ventre das frutas aberto, deixando entrever os grânulos de um vermelho intenso, um dia que era só sol, sol, sol, e eu nem imaginava que seria o professor que, em parte, me tornei, e em parte, o mundo, à sua maneira, me torneou, eu diferente de qualquer outro, embora até às tampas das dúvidas de todo homem, a vida vingava, forte, e bastava a agulha no músculo com uma substância nociva, a delicada membrana de uma artéria vital se romper pra tudo se esvair. Olha só, esta é a tua tia Marisa, minha irmã, veja o laço enorme de fita azul nos

cabelos dela, era moda naquele tempo, era a festa de quinze anos dela, à direita o meu pai, à esquerda a minha mãe, tua avó Luíza, ela iria te querer muito, Bia, iria te mimar, como o fez nos poucos anos que conviveu com o teu irmão, Mateus, a tua avó Luíza amava crianças, se o teu avô não erguesse com as palavras muralhas entre ela e nós, seus filhos, ela teria nos asfixiado com seus afagos, talvez porque tenha sido tão difícil pra ela trazer a mim e a tua tia à vida, só dois filhos, enquanto, à época, os casais tinham sete, oito, nove, se eram muitas as bocas a nutrir, também era o dobro de braços pra ajudar no eito, o dobro de pernas pra perseguir a sorte, talvez por ter gerado tão pouco, a tua avó Luíza se exagerava em nós, o que pra outras mães havia sido fonte borbulhante pra ela foram gotas silenciosas, o que pra outras, seiva espessa, pra ela, fluido frágil, o que às outras chegara farto, a ela faltara, a tua avó era do tato, gostava de tocar, como se o corpo do outro lhe desse a segurança de que estava viva, de que o amor seguia seu andamento, como se a pele da gente, e mesmo dos objetos que ela apanhava, fosse o ancoradouro de que precisava pra se sentir inteira; bem diferente de teu avô André, que era da

fala, o teu avô, era fácil perceber, gostava de decantar as palavras — ele quem me ensinou que elas, as palavras, servem pra abrir e fechar; se bem combinadas, estreitam latifúndios e alargam veredas —, o teu avô as degustava como a um vinho, antes de pronunciá-las, ele as inundava com saliva, quando não as besuntava de silêncio, e era por isso, certamente, igual se azeita uma fechadura, que as palavras dele nos abriam sorrisos, nos abriam os olhos, nos devassavam a memória de fora a fora, e era justamente por essa habilidade, que, na via contrária, não raras vezes, as suas palavras nos fechavam a boca, nos encarceravam no espanto, zipavam a nossa ingenuidade, veja, Bia, nesta foto mesmo, os lábios

dele estão levemente separados, como se tivesse dito algo segundos antes do flash espocar, um comentário que, não obstante inapreensível pelo fotógrafo, havia guiado a foto, levando-a a ser o que ela era, registro perene de um momento e não de outro, e a tua avó Luíza, veja como está enlaçada à tua tia Marisa, um corpo a pedir a solidez do outro; esta foto revela cada um de nós, o teu avô André e as palavras, a tua avó Luíza e a sua ânsia pelo contato; o tempo todo, em qualquer gesto, estamos dizendo quem somos, Bia, mesmo aquilo que só roçamos é capaz de nos retratar, plenamente; a tua bisavó

Sara, que lia a mão das pessoas, era versada noutras leituras, dizia que era possível, no escuro do quarto, saber pela respiração a qualidade do nosso sono, se bom ou mau, ela podia adivinhar até com quem sonhávamos, posso ler o seu sonho como se lê uma história, ela dizia, a voz cheia de velhice, já com ecos do outro lado, igual ao cheiro, que recendia a caules em deterioração, a pele pedia o retorno à terra, a tua bisavó Sara, deve ter alguma foto dela no fundo desta caixa, despertava cedo, mas demorava pra amanhecer, é o que me lembro, porque eu só a conheci nos seus últimos anos, o sol já ia alto no céu, mas o dia ainda não tinha nascido nela, a gente percebia, a bisavó Sara na varanda; foi com ela, Bia, que eu aprendi a captar a hora da despedida, com ela eu descobri que a gente se agarra até mesmo a fiapos de vida, quando não ao seu próprio bagaço, o restolho mais macerado ainda guarda algum sumo, no ato consumado resta um nada a ser extraído, a tua bisavó Sara dizia com seus gestos, à mesa ou na cadeira de balanço, estou indo embora, a tua bisavó Sara escrevia nas folhas do silêncio, estou indo em paz, a tua bisavó Sara me dizia com aqueles olhos mouros, não se preocupe, a vida te prepara pra morrer; e eis aqui, de novo, Bia, o teu avô André, agora sorrindo, não sei direito onde ele está, talvez no adro da igreja, talvez seja a primeira comunhão do meu primo Tiago, naquele tempo só as festas mereciam registro, não era como hoje que se fotografa qualquer instante, há quem viva, inclusive, a retratar a si mesmo a toda hora, como a um pomo de ouro, há quem, diante de uma paisagem grandiosa, prefira capturá-la mais no monitor do que na alma; sim, Bia, havia umas poucas festas, um calendário

despojado de cerimônias — verás que não é preciso mais que tábuas fortes pra se fazer uma cumeeira —, mas cada uma delas era um rito, um sulco fundo na nossa memória, porque na família, teu bisavô João quem iniciou essa tradição, tanto quanto era lei fortalecer o sentimento do dever, também o era o dever de celebrar, sábio e piedoso era o Deus que inventara os encontros festivos, a Ele devíamos louvar e venerar com lautas homenagens, porque no refluir das horas as chagas cessavam de arder, os medos, de germinar, os crimes (imaginados) murchavam, as apreensões (reais) adormeciam, tão logo as festas terminavam, a alegria retornava a pingar, sua torneira a fechar e, agora, quase não mais

festejamos, não fosse a tua mãe cultivar novos cachos dessa tradição, ela, alegremente, promovendo, no improviso, umas reuniões modestas em iguarias e faianças se comparadas às mesas de teu bisavô João, a tua mãe, inábil pra encilhar vaidades e cavalgá-las, com as mãos nascidas só pra servir, a tua mãe, veja ela aqui, não na foto em si — tirada há dois anos, na qual eu estou sozinho, na formatura de uns alunos —, mas em mim, veja, ela já estava nos meus olhos; a tua mãe, Bia, se esmera tanto pra unir pessoas ao redor de umas fatias de pão e uma garrafa de vinho, e ela mal se vale desse usufruto, a tua mãe é um motivo mais que perfeito pra festejarmos, em qualquer data, o efeito de bálsamo dela em nosso cotidiano;

sim, depois, quando tiver forças, ela te mostrará os parentes do outro lado, com mais vagar e ternura, te apontando aqueles que fizeram cortes na terra e aqueles que se machucaram de cidades, e, sobretudo os que estão vivos, por sorte a maioria, e quais provavelmente terão maior influência no teu destino, não sendo apenas garatujas, mas textos inteiros no teu diário de presença; e eis aqui,

Bia, uma foto de teu irmão, vestido de Batman, veja, ao fundo, a luz solar, tão fúlgida, o teu irmão, aos sete anos, num daqueles momentos em que uma vida, então de extraordinárias descobertas — no futuro inteiramente de suspeitas —, atinge o último céu, sem perceber a tempestade se armando atrás de si, o teu irmão na graça de um instante, a provar este gosto infinito, que às vezes ainda me convulsiona, este gosto infinito de viver; e eis a tua avó Luíza de novo, neste retrato ela nem sabia que gerava uma

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