Trilogia do adeus

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 1 de 3 · parte 2/3

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Trilogia do adeus

Caderno de um ausente

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

doença e crepusculava, e veja o teu avô André nesta foto três por quatro e, nesta maior, a tua tia Marisa novamente, agora acompanhada deste rapaz, se não me engano, um namorado dela, e o primo Tiago de mãos dadas com o tio Frederico, eis aí, Bia, os teus-meus parentes, eles estão nesta caixa,

embaralhados em imagens de papel, pra que tu lhes dês outra vez um rosto, se, um dia, quiseres a eles conceder a ressurreição.

E, já que aqui estamos, Bia, vamos viver juntos o teu período de levezas, pois então eu poderei inflar em teu juízo o ar das brincadeiras, e te colocar sobre meus ombros, pra que tenhas, como toda criança, a ilusão de que alcançarás com as tuas mãos as estrelas, vamos viver essa era que dói pela sua brevidade e pelo encanto das coisas simples, e quem sabe, Bia, tenhamos a sorte, tão comum à maioria dos pais e filhos (eu já a tive com teu irmão), de nos abandonarmos às tardes de preguiça, de nos esquecermos, hora após hora, na modorra dos dias cálidos, e que possamos num feriado qualquer montar juntos um imenso quebra-cabeça de mil peças — pra que, sem te dares conta, comeces a entender o quanto somos feitos de fragmentos, o quanto somos desinteirados de nós mesmos —, e, depois, possamos sair ao sol certos de que, vistos pelo destino como figuras furta-cor, nós o enganamos, ao menos por um tempo; e já

 

que aqui estamos, quem sabe possamos ir a um desses parques da cidade, um próximo à nossa casa, e ao qual chegaremos caminhando, e, ao entrar lá, tu queiras andar num pedalinho em forma de cisne, e a tua mãe esteja conosco, o rosto fulgurante de gratidão à vida, como quando ela sorri, de repente, abrindo o seu território íntimo, e nós três nos afundemos nessa diversão, sob a sombra fresca de um ipê, e, então, desfrutemos, calmamente, da vista verde dos arbustos, das folhagens à margem da lagoa, e conversemos sobre o mundo ao redor e o fato de estarmos ali, sem percebermos a densidade de nossa própria presença; e depois, Bia, talvez queiras correr atrás das pombas, ou sejas atraída aos quiosques

pelo cheiro de cachorro-quente e de pipoca, e, então, acriançaremos novamente; e, como se num surto de calmaria, ficaremos ali, a viver com os pés fundos no momento, gratos pelo céu azul sobre nossas cabeças, e pra ele apontando o dedo, de súbito, olha, filha, um avião!, deitados sobre a relva a farejar o aroma das ervas; sim, Bia, há tantas formas de divertimento, de capturarmos, num flagrante

fotográfico, o movimento da eternidade no instante em que ele passa por nós, a tua mãe, por exemplo, poderia te colocar sobre as minhas costas, e eu te levaria por uma estrada frondosa, nascida, de repente, das paredes da sala, e eu trotaria por ela, garboso, e os meus solavancos te levariam a gargalhar e, por instinto, para não caíres, me puxar com força as crinas curtas — estes cabelos, já escassos e alvos —;

ou eis que estamos, os três, esparramados na cerâmica fria da varanda, numa tarde de verão, com lápis de cor te incentivando a fazer e a colorir garranchos numa tira de papel, casa, árvore, sol, pai, mãe, na esperança de remover das coisas seus toscos contornos, a casa (com a chaminé a soltar um fiapo de fumaça), a árvore (com flores vermelhas), o sol (círculo amarelo rodeado de riscos), eu (e uma suja barba na face), tua mãe (e os compridos braços dela, que me receberam, com a leveza de plumas, como se em preparativo pra te acolher depois); e seja sobre o selim de uma bicicleta, seja diante da

tela de um computador imantados a um game, seja num jogo de cartas, quem pegou o mico?, seja queimada, passa-anel, esconde-esconde, seja qual for a brincadeira em que estejamos absortos, no chão da sala, nós, de repente, debulhando letras e tirando a casca das palavras, sem perceber a nascente de uma escrita silenciosa em nossas mãos, seja o que estivermos fazendo, Bia, devemos fazê-lo com a paciência daqueles eleitos, mas nunca chamados; e já que aqui estamos, quem sabe possamos

aprender com as aves a conter no corpo o horizonte, desdobrar os braços para quando for preciso rasgar a terra ou desventrar um animal, e já que aqui estamos, Bia, venha, vou misturar a minha vida à

tua, vou te ninar com canções imemoriais nesta noite e em muitas outras, vou tentar não me desesperar com o teu choro, quando tua mãe adormecer, exausta, vou inventar uma senha para acessarmos o riso juntos, e vou me repovoar de perdão, sim, vou me repovoar de perdão, Bia; e já que aqui

estamos, vou tentar também ser menos quebrável aos golpes do mundo, vou cuidar, enquanto puder, das assaduras de tua pele nova, vou te insuflar o ar da compaixão — porque, às vezes tristes, às vezes alegres, somos sempre solitários —; e já que aqui estamos, vou te mostrar como reconhecer no

canto dos pássaros a sagração da primavera, se uma colônia letal de bactérias me poupar, se um motorista embriagado não atravessar a minha frente, se uma lâmina não me rasgar a jugular, quero continuar, Bia, a contar esta história pra ti; vais demorar anos pra entender o que eu te digo, terás de passar por milhares de dias e tuas células terão de se reproduzir incontáveis vezes, mas, já que estás aqui, no meu colo, fiquemos em silêncio, embalados pela paz deste momento, alheios à (invisível, mas não despercebida) brutalidade do fim.

A tua história, Bia, é o bem mais precioso que tens, ainda que não venha a ser grandiosa, é a tua história que te dará a medida de estar no mundo, ela é que exorbita ou reduz o teu valor perante ti mesma e perante a misteriosa avaliação dos outros não há como te esterilizar do passado (que veio de

mim e de tua mãe e já se aderiu ao teu espírito feito solda), qualquer história, enquanto se desdobra, é um reino de possibilidades, uma história, quando a escrevemos, delineia aquilo que poderia ser, nunca o que foi nem o que é, porque a memória (o passado) só se revigora se a formulamos de novo (no presente), retocando a luz de sua trama com o grafite das trevas, a tua história, Bia, há de ser mais uma cicatriz que se somará a outras nas páginas de rosto da nossa família, e eu te louvo, filha, por aqui estar, fio de água, no broto de tua nascente, pra cumprir o teu curso, e eu te peço perdão, outra vez, por não poder te poupar das chagas que te esperam lá na frente, nem ter o unguento que amenizará a ausência, seja a minha, seja a de quem um dia te abandonar, eu não posso te dizer o contrário, que é possível a gente se curar dos outros — eu, nem de mim, até hoje, me curei —, e é justo, embora seja precoce pra teu entendimento, deixar claro que é um erro qualquer tentativa de esconder a verdade, ninguém sabe, filha, se o que bebe é água ou vinho, se só um deles provou, e, mesmo assim, há quem soube (e continuará sabendo) transformar um em outro, há quem consiga andar displicente sobre ondas em fúria, há quem consiga serenar a plateia com relatos desesperados; o limão, Bia, nunca brotará em laranjeira, a árvore sabe quanta doçura,

quanto amargor, doa a cada um de seus frutos; eu sou o pai que a vida te deu, e esta, que te toma nos braços agora, que tenta, sem jeito, te dar o mamilo pra sugares o teu primeiro alimento do lado de cá, é a mãe que a vida te reservou, a dádiva (ou a dor) que cabe carregar em teu ser, mas, como a tua história está em botão, enquanto ela se abre, devagar, poderás te dar um pai e uma mãe, fora de ti, melhor ou pior do que somos, porque aquilo que a vida nos dá não é o que nos determina, apenas o que nos inicia, o que nós mesmos nos damos, no empuxo de viver nossos instantes, é o que pode virar esse jogo; mesmo que empunhe com ímpeto a caneta pra impor a tua escritura, tu não a farás só, Bia, o destino segurará a tua mão, como um mestre, não há caminhos que o mal não conheça, é o alvo que se

compadece da bala perdida e conserta a sua rota, atraindo-a para o próprio coração; por isso é que ouvir a história do outro nos alivia (ilusoriamente) o ardor da ferida, como sopro curativo, desligamos de súbito a consciência, por isso é que contamos histórias aos filhos, a fim de adormecê-los, por isso eu te conto, Bia, esta primeira história: era uma vez uma princesa, era uma vez uma bruxa, era uma vez

um gato, assim eu gostaria de começar, mas eu só sei mexer com a tinta fresca da verdade, eu só posso começar assim, filha, era uma vez um homem, era uma vez uma mulher, era uma vez os teus pais, e o que vem adiante tem a mesma espessura de todas as outras histórias, porque os grãos sobre a mesa em nada diferem um do outro, só variam os detalhes, onde há um sorriso agora se tem um ricto, a catedral se transformou em ermida, o faminto virou pródigo, são os detalhes, filha, que dão a luz ao dia esmaecido, e o detalhe, Bia, em teu (nosso) caso, é que um broto irrompeu deste lenho velho em contato com a terra, e, nele, a primavera germina, impiedosa, com todo o seu vigor.

Registro aqui, Bia, que hoje saíste da maternidade e vieste pra casa, agora estás no quarto que fizemos pra ti, tua mãe escolheu os motivos florais do papel de parede, o móbile de borboletas, o berço onde te deitamos pela primeira vez. Fico te mirando porque tu és o elemento vivo que a realidade me

entrega neste instante, o teu corpo frágil, encoberto por tantas camadas de roupas — deverás sentir o frio e o calor com a mesma resignação! —, o teu corpo frágil é uma âncora pros meus olhos cheios de águas turvas, e pro meu pensamento à deriva em meio às aflições, nem distingo entre as sombras os teus traços, embora minha memória desenhe a curva de teu nariz, de teus lábios, de teu queixo, e esse é um método que aprendi ainda menino, desenhar com a imaginação o retrato das pessoas queridas e ausentes, porque nada é capaz de reacender alguém em nós mais rapidamente do que a vida experimentada à mesma hora;

fico te mirando em silêncio, sem nenhuma expectativa de que despertes e sorrias pra mim, como se reconhecesses neste vulto vergado sobre o teu berço alguém que te ama, eu apenas te miro porque o tempo, com seu manejo secreto, me trouxe até aqui, depois de ter atravessado a mares tempestuosos — a tua mãe quem serenou as minhas ondas desgovernadas —, eu te miro em silêncio, ciente da natureza justa das coisas; eu me sinto, Bia, como naqueles tempos, menino entre meninos, descalço e sem camisa, jogando futebol num campinho improvisado, esquecido dos deveres, e que, de repente, se dá conta de que a noite desceu, tão mansa que nem notou, pois o aroma das árvores no escuro se intensificou, o vento veio refrescar os rostos em fogo, assim, Bia, é que percebemos o abrir das flores, há um minuto estavam fechadas, e, eis que agora, revelam a sua intimidade, eis que a tarde, então, começa a cair como uma folha, é nesse mínimo tempo, Bia, que tudo se dá pra se ver e rever, e há quem não verá senão a

própria sombra, e, mesmo os dotados de ampla visão, serão incapazes de capturar o todo num lance de olhos, é por meio dessas frestas, enevoadas, que espiamos o universo; então, eu te miro em

silêncio, apenas um pai que chega do trabalho e assiste na obscuridade de um quarto o sono de sua filha, que captura a vida sendo gasta de forma desigual — rápida pra mim, vagarosa pra ti; eu te miro

em silêncio, que em mim abafa recordações, eu retiro de meu olhar tudo o que não é o teu pequeno corpo, envolvido nessas mantas perfumadas, eu viro a chave da impaciência dentro de mim, eu pinço esta cena do universo, como se pudesse extrair dele um fragmento só pro meu deleite; eu te miro, Bia, em

silêncio, e, agora, que tua mãe também entra neste quarto e se põe do outro lado de teu berço, somos dois, um mais apto a fazer da árvore caibros, outro a tirar dela os ramos para muda, somos dois, um pai que talvez não saiba erguer a ponte entre o mundo e a tua compreensão, filha, uma mãe, cujo ventre tu rompeste em perigo, que, não obstante tenha desejado tanto a tua vinda, arriscou-se à perda dupla, passando uma gravidez entre dias de sobreaviso; eis aqui o teu dote, Bia, as companhias que te

deram pra que não começasses a trilhar tão sozinha a tua via; eis nós dois, ao teu redor, nem te

vigiando, nem te velando, apenas te vendo viver, como nós mesmos o fazemos; eis os braços,

únicos, que podem te acolher e recolher sem nenhuma exigência em troca, eis o teu pai e a tua mãe, Bia, um de cada lado de teu berço, em torno do qual não há reis magos com prendas e mimos, nem o hálito de animais (uma vaca, um burro, um carneiro) pra te aquecer, eis um espaço de tijolo, cimento e cal, que não se assemelha a nenhuma manjedoura, eis os objetos de teu quarto, um criado-mudo, um abajur, uns brinquedos, e o lençol, que não cheira como capim verde nem como restilo de cana, sobre o qual te pusemos pra dormir, as mãozinhas fechadas, tentando prender o mundo; e, pela janela, Bia, não

vejo lá no horizonte nenhuma estrela, eu vejo um nevoeiro que se esgarça, deixando à mostra a noite a mover os seus ponteiros; é isso que somos neste quarto, filha, um quadro onde a vida, aparentemente estática, se esbate senão com desespero, com a fúria de ser o que ela é — rosa que, a um só tempo, brota e se deteriora —; é pra enrubescer a nossa face que o sangue corre, Bia, o presente, valoroso, só vem à tona, se temos coragem de mergulhar na ninharia do instante.

As primeiras visitas que tu recebes já estão no esquecimento, assim é o vaivém das pessoas em nossa vida, e, enquanto te passam de mão em mão, o tempo vai ajustando a tua expressão, Bia,

fechando pra sempre a tua moleira, atingindo a cor definitiva de teus olhos e de teus cabelos; o

tempo já cavouca profundezas naquilo que é só superfície, por isso, Bia, não tardará pra que comeces a distinguir, pela palavra, objeto, ou coisa, ou gente, o que está diante de ti, pai, mãe, pai-mãe, pai e pai, mãe e mãe e mãe, brinquedo, boneca, boneca-brinquedo, a palavra, aos poucos, nomeando, como Adão o fez, o que antes era apenas visto, o que se atinha ao inominável, a palavra incendiando, com seu signo-fogo, sua fala-faísca, a folha ressecada da verdade, a palavra é que põe o som na cítara, a

suavidade na seda, a palavra, filha, engravida o solo árido, irriga a boca de saliva, embora ela, só ela, a palavra, nada signifique se solitária, tanto quanto nós, ela só move mundos se outras a acompanham, uma conta colorida ganha um tom inesperado se outras, uma de cada lado, são acrescidas ao fio do colar,

mas a palavra, Bia, chegará o tempo em que tu entenderás, também pode dizer o que ela mesmo cala, e afirmar o que literalmente nega, sob a superfície das palavras, encadeadas em série num

comentário, os sentidos são arrastados como troncos num rio, engolfam-se, turvam, e por vezes, em milagre, reluzem, basta ouvir o que dizem as visitas sobre ti, é tão linda (o teu rosto, mal traçado, não se desenformou ainda do ventre de tua mãe), parece com o pai quando era garoto (não lembro de minhas antigas feições; e, estas, de agora, quase nem me reconheço nelas), posso pegá-la um pouquinho? (queria ter uma filha assim! ), porque as palavras dizem também outras coisas quando enunciam o que

enunciam, Bia, “eu te amo” nem sempre é um incêndio, infinitas vezes é monotonia, o que vai do

coração à língua perde muito de sua seiva no caminho, como a água é menos água entre o copo e a boca, o mel é menos mel no percurso do pólen ao favo; mas, se falta algo pra se compreender a palavra

dita, algo que ela mesma evita, tu precisas prestar atenção, Bia, a mudez guarda em suas funduras o mundo inteiro, assim como a palavra “mundo” contém a sua cota de silêncio, o teu choro, por exemplo, depois de peregrinares de colo em colo, talvez diga, quero estar só, comigo, ou, mãe, me acolhe em seus braços; mas, aos poucos, todos irão embora, e não me refiro apenas a este dia, e, sim, a todas as

outras estações de tua vida, as pessoas hão de se aproximar, dóceis ou ameaçadoras, às vezes pra te inquietar, às vezes pra te serenar, e, em ambas situações, podem até, por preguiça ou estratégia, nem se valer das palavras, uma mulher calada à tua frente pode ser um grito, o olhar manso de um velho pode te sussurrar mil imundícies, as pessoas, porque a si não se bastam, vêm nos assuntar, Bia, cheirar os nossos cabelos, percorrer as nossas dobras, desenhar-nos com a ponta da língua, e, depois, a favor ou contra a própria vontade, se vão, invariavelmente; veja, mal se passaram duas horas e quase não há mais

ninguém aqui, só restaram nós, tua avó Helena está na cozinha com tua mãe, preparando o almoço, teu avô Carlos lê o jornal, teu irmão vê um programa esportivo na tevê, tua tia Marisa te vigia, ao meu lado, e diz a mim, eu fico com ela, pode cuidar de suas coisas, e eu lembro quando éramos crianças, dividíamos eu e ela o mesmo quarto e, uma noite, o silêncio tão sufocante, de repente, me assustei, Marisa, tô ouvindo o meu coração!, e ela, É assim mesmo, tenta dormir!, e eu, Mas tá batendo muito forte!, Não é nada, é só o silêncio, Marisa, e se eu parar de ouvir o meu coração?, e ela, Isso não vai acontecer, e eu, Não? Tem certeza, Marisa?, Tenho, agora, vê se dorme!, e eu me inclino sobre teu peito, Bia, pra ouvir aí o ruído da vida, ninguém pode ouvir a última batida do próprio coração, só a dos outros, aprendi naquela noite com ela, embora tenha demorado até agora pra me dar conta de tal lição, e esta nossa impossibilidade, Bia, de fazer coincidir o que somos com o que seremos, o minuto-pré com o minuto-pós, resume e diz tudo, absolutamente tudo, sobre a nossa condição.

E foi que hoje, revirando o armário à procura de um documento, dei, inesperadamente, entre as lembranças que povoam as gavetas, com um pertence de teu bisavô João, o relógio de bolso que ele usou a vida inteira e legou ao meu pai, e o meu pai a mim, dizendo um dia, toma, é seu, por obrigação e por justiça, e eu, eu sabia que, sob a égide daquele tique-taque, o tempo rugia, movendo, como o vento no temporal, os galhos todos de nossa árvore genealógica, e, mesmo quando deixou de ir colado ao meu corpo, continuava a marcar não só as horas mortas, mas também os nossos vívidos mandamentos, e na surpresa de reencontrar este objeto, lembrei-me das coisas ao teu redor, ao alcance de teus lábios, veja aqui o chocalho, tão perto de teus dedos, e ali a fronha perfumada de teu travesseiro, os bichos de pelúcia, o babador, os teus sapatinhos de lã, a janela, os lenços de papel, os meus óculos (tu, tateando-os, desajeitada, só te aquietas depois de retirá-los, como se, assim, pudesses me livrar da miopia), e logo será o tempo dos lápis de cor, dos brinquedos eletrônicos, do garfo e faca e haverá o tempo do

espelho (a era em que amarás estar diante dele, e a era em que o odiarás), o tempo das flores, das joias, das drogas, os objetos o tempo todo, Bia, circulando pelas voltas do teu caminho, o bisturi e o fio de sutura, o copo de cristal e a caneca de lata, o porta-retratos e a foto-ferida, os objetos te

apresentam aos outros, derretem posições ideológicas e, então, Bia, saiba que, muito além dos objetos, está o que os configura nos campos do vazio, aquilo que o verbo, incontinenti, designa sobre todas as coisas, como por exemplo: Filho: planta em solo de vidro. Vidro: areia e sol. Sol: luz de fora.

Fora: luz de dentro. Dentro: estado bruto do silêncio. Silêncio: palavras-estátuas. Estátuas: vida em represa. Represa: o mar acorrentado. Acorrentado: Prometeu. Prometeu: pobre abutre. Abutre: negro labor. Labor: a dor adormecida. Adormecida: um quase morrer. Morrer: inteiramente. Inteiramente: nada que determina a nossa experiência. Experiência: o vivido intransferível. Intransferível: o que sentimos com este corpo e o que reverbera só em nossa alma. Alma: a flor abstrata. Flor: esconderijo perfeito. Perfeito: o jardineiro. Jardineiro: mãos no barro. Barro: nós. Nós: nós e todos os outros; e, em

meio a esses incontáveis objetos, Bia, enunciados que nos resumem — a vida é o resumo de algo que não podemos alcançar —, eu não sei e, certamente, ninguém sabe, aonde nós, navios sem portos, vamos chegar, e muito menos, Bia, muito menos por quê, por quê, por quê.

Sim, tu vais perguntar, por quê?, todo mundo, um dia, há de se fazer esta pergunta. E então, eu te respondo, Bia, com a certeza de que não vou te convencer, mas ainda assim não posso me furtar a dizê-lo: porque os famintos têm na imobilidade da espera o desespero, porque os saciados aprenderam a plantar apenas indiferença, porque a dor migra como os pássaros pra onde há luz e harmonia,

porque mesmo uma greta de terra pode abrigar uma árvore centenária, porque certas carícias

fendem até homens de ferro, porque as entranhas são ninhos de segredos, porque a espada atravessa a pele sem sentimento algum, porque pelos rastros se notam os pés do peregrino, porque abrasivo pode ser o sopro de amor no rosto de um filho, porque o escuro reluz na retina dos

videntes, porque nada explica a tão curta e dolorida jornada, e de nada adiantaria se algo explicasse, pois mesmo o muito é sempre pouco, porque não há ninguém que não anseie, ao menos por um

minuto, ser outro, porque quanto mais o corpo cede mais a alma pede, porque sobrevivem

meninas no espanto das velhas senhoras, porque até os mais maciços sonhos se evaporam ao tempo, porque é o olhar que põe rugas na paisagem, porque a vida é oceano e a memória, lago, porque

não cabe tudo na palavra “tudo”, porque minha rala alegria, somada a tudo que me contentou a

vida inteira, é incapaz de neutralizar um único dia de tua tristeza, Bia, porque não há anjos pra

corrigir a rota daqueles que o desejo extraviou, porque um sorriso abre janelas e um grito, paredes,

porque o fim sempre nos surpreenderá a meio caminho e, queira ou não, deixaremos sempre algo por fazer, uma casa no papel, uma roupa suja, um liquidificador no conserto, porque a equação é

simples, Bia, vida menos poesia igual vazio, pássaro menos canto igual angústia, você menos eu igual seu futuro. Por quê? Porque mesmo o dilaceramento do quase nada é melhor do que o nada.

Para que conheças o que é uma dor e, sobretudo, para que saibas desde já que, em todos os teus dias, manifestas ou à espreita, as dores estarão lá, eu te conto, Bia, que a gravidez de tua mãe foi de

máximo risco, a partir do sexto mês ela vivia em repouso, eu despertava sempre às seis, eu via a manhã saindo, aos poucos, da membrana da noite, e ela, sem se mover, os olhos no duplo escuro (das pálpebras e da penumbra), horas e horas no quarto fechado, enquanto o sol envelhecia lá fora e, filtrado pelas frestas da janela, instaurava uma era de paciência e resignação, até que eu retornava do trabalho

e, de novo, me deitava ao lado dela, exausto pelo longo expediente na universidade, e lhe dava a mão, imaginando o que ela pensava de si e do universo à medida que te fabricava, lentamente, Bia, e, às vezes, eu podia sentir, na imobilidade dela, o mecanismo da vida funcionando naquele ventre em relevo, parecia haver um perigo próximo, a todo momento — tão diversa havia sido minha experiência com o teu irmão, ele, destemido, estufando a barriga da mãe e esmagando com naturalidade tudo o que o impedia de nascer, e foi assim que agora, só agora, por não ter ficado à tua espera, tão confiante como da

primeira vez, mas, sim, por acompanhar de perto a tua feitura, superando as ameaças a cada minuto, eu cuidando de tua mãe um tanto comedido, sem revelar o meu exagero — a muito custo, eu fingia uma fé que, no entanto, vivia vacilante —, eu, receoso de que o caldo orgânico no qual ela te cozia pudesse desandar a qualquer gesto brusco, e, embora soubesse que, se o pinheiro adulto é débil ao temporal, mais ainda é a semente ante o sopro do imponderável, foi só depois de ver o quanto a tua mãe, no

rumo contrário à correnteza, se violentou pra seguir adiante, exaurindo todas as forças pra te germinar, útero virado, os antigos diziam, embora o nome atualmente seja mais melodioso, útero retrovertido fixo, foi acompanhando o teu avanço, Bia, de fagulha vital, que podia ter gorado a qualquer instante, a criatura que emergiu de dentro dela, pronta enfim, e suja de sangue, que eu me dei conta do quanto a ordem, cercada de caos, persiste em dar forma às sombras e, sobretudo, dotá-las de um esplendor que, aos poucos, vaza de seus contornos e desafia tudo ao redor; e, hoje, a contradizer o dia que se abriu

estupidamente ensolarado, como se as vicissitudes se resguardassem, em respeito a tanta luz, a tua mãe permaneceu na penumbra desde cedo, acometida por um daqueles súbitos desmaios, companheiros dela desde adolescente, descontrolando a nossa rotina, a solução foi chamar a tua avó Helena, que

veio prontamente — a dividir-se em cuidados entre ti e ela —, e, quando tua mãe passa por essas crises, em mim também ressoa a náusea, a certeza de que não posso retirar dela nenhum grama de seu desconforto, não se preocupe, estamos aqui pra isso, ela costuma dizer diante de qualquer alegria ou pesar, mais nova que eu e a alma já madura, e, então, Bia, o meu dia foi como tantos outros,

depois que a tua mãe encontrou o seu destino em mim, de muita inquietação em face da fragilidade dela, pois há pessoas que mal amanhecem entre nós, logo anoitecem, eu pensei que a juventude dela iria me dar, nesta segunda chance de abrir uma família, a paz e o recolhimento que todos desejam no inverno, mas, eis que, embora viver seja coisa grande, é também a força que lhe contraria, e não há como

vencê-la, senão aceitando que a dor desenha em nossa pele, com esmero, um itinerário de pequenos cortes, ora arde um, ora sangra outro, e, às vezes, todos, juntos, nos queimam, em uníssono.

A pele, tocando a tua pele com a ponta do meu dedo, desenhando os teus contornos, recordo

que essa roupa que nos cobre só capta as nossas sensações na superfície, onde os seus milhares de radares estão plantados; como as estradas, a pele não é profundidade mas extensão, a pele não é

como o mar, sem margem, os lados indefinidos — o mar é mais mar onde só alcançam os escafandristas, quanto mais dentro dele mais o mar é o que é; mas a pele, não, se mergulhamos na pele, Bia, encontramos o que ela já não é, carne e músculo e sangue e osso —, a pele é o raso, e é nele que a dor arrasa, é nessa superfície que a fome de outra pele se plasma, é nessa camada fina, mesmo quando lhe faltam maciez e elasticidade, que se leem os sinais do mundo e o alerta máximo do desejo; pulsante é este meu

dedo que percorre a ponta de teu nariz, uma das maçãs de teu rosto, a curva de teu queixo, reconhecendo, por meio desse caminho, que és minha filha, e assim sempre serás, a pele, o mapa que nos leva, como o rio leva o ramo na correnteza, à aflição e ao gozo, ao nirvana e ao Hades, e, ainda que não sinta

com intensidade o meu toque, ou que dele te esqueças, porque este momento já se afoga nas águas do vivido, tu, meses à frente (quem sabe anos), de olhos fechados, como agora em que dormes no teu berço, sentindo o meu dedo deslizar pela tua face, serás capaz de dizer — a tua pele a recordará —, este é o meu pai.

Também a tua pele haverá de reconhecer o toque de tua mãe — hoje, ela está mais disposta, saiu da cama e tomou café comigo — e ninguém senão ela logrou te tocar desde dentro, ao contrário de todos nós, repito, que sempre o faremos do lado de fora, e, no futuro, quando te tornares mulher e

descobrires que a pele é propriamente o caroço (cada um de teus poros o confirmará), chegará o

dia no qual, em contato com um desconhecido, nem será preciso que seja pelo roçar de uma pele a outra, um sopro vindo dele bastará pra que tu digas, com a certeza dos predestinados, este é o meu homem;

e, então, será o ponto de transformação de tua educação sentimental, Bia, daí em diante o sol que brilha desde o começo dos tempos se renovará em teus olhos, a extinta rosa dos trópicos surgirá de súbito em tuas mãos, as roldanas dos sonhos impossíveis voltarão a se mover, o mundo das esperanças mortas ressuscitará; afinal, basta uma gota-d’água pra almejarmos a chuva, basta o prenúncio da

chuva pra sentirmos o cheiro selvagem da erva, não há como evitar a fatalidade dos dias que te parecerão felizes, e talvez o sejam verdadeiramente, assim como, em trechos por vir, dias terríveis esperarão a tua passagem pra que, saltando às tuas costas, a recordem que há o reinado de Cronos e o de Kairós, que há o tempo da mão semear e o tempo da foice ceifar, há o tempo de ver e o de rever (ao fim da trilha palmilhada), pela escrita da memória, os fatos que vão te tornar a Bia de amanhã, e, se um

homem pode dormir salgado de mar e pela manhã se descobrir guardador de rebanho, e se um outro acordou inseto na mente de um escritor, e se dos dedos de uma pintora floresceu um abaporu, e se numa tela móvel irromperam formigas e um cão andaluz, e se campos e ramos e rosas pariram territórios imaginários, tu podes amanhecer tristeza, entardecer esperança e anoitecer sol, tu podes, Bia,

podes tocar, não com o pensamento, mas com o teu sentir, o que vibra entre as minhas palavras, e recolher, como roupas no varal, os significados dependurados em suas entrelinhas, e, também apanhar, no conjunto deles, a história que começam a contar; veja, a tua avó Helena te acomodou dentro do

carrinho e te trouxe até a varanda, assim vais te habituando ao lado de cá, onde o vento te toca pela primeira vez, e as coisas são o que são, coisas, independentemente de nós, eis ali um flamboaiã e

a sombra que dele se arvora, eis o casario que se estende rua abaixo, e eis um rapaz (abrindo o portão), teu irmão Mateus, e aquilo, o que é aquilo que se move, sem pressa, pela calçada?, é apenas um cachorro vadio, mas eis ali o canteiro de amores-perfeitos de tua mãe — neles, tão belos e frágeis, o

tempo se empoça com mais crueldade —, e eis a janela fechada do quarto onde ela se recupera,

os seios arrebentando de leite sem poder te amamentar, e, mesmo que ninguém tenha te alfabetizado nessa linguagem, Bia, basta um suspiro dela pra que imediatamente a reconheças e digas, esta é a minha mãe.

Esta é a tua mãe, Bia, e tu a vês de teu berço, enquanto eu a vejo da banqueta que pusemos neste quarto pra te assistir, esta é a tua mãe e tu a vês dobrando com delicadeza as roupinhas que escolheu pra ti quando ainda eras um grão no ventre dela, é nos gestos mínimos, Bia, que nos revelamos,

inteiros, veja, ela de costas, tão entretida, sem perceber que a observamos, embora, no futuro, também não te lembrarás deste momento, nada incomum se passa aqui que exija registro, Bia, mas eu, eu leio nas espáduas da tua mãe o dia de hoje, o trabalho que as tuas cólicas lhe deram, e reconheço muitos outros dias acima deste, a escreverem o texto que vai sobre os ombros dela, a tua mãe, Bia, afeita ao

silêncio que antecede a percepção do silêncio, apenas o aceita, como a tudo, entregando-se, com abnegação, à matéria da vida, ela é quem inaugura a manhã em meus ouvidos, a voz que tu escutas desde embrião, e que certamente penetra até o fundo de teu íntimo, a voz que respeita o tempo de espera, a voz que não dá ordem, só faz o pedido sem cobrar nada do universo, e, mesmo sem ver o seu rosto, eu sei que ela, agora, sorri ao sentir a lavanda em teus sapatinhos de lã, Bia, assim como me comove vê-la,

de perfil, quando sentada na cama, o sol a lamber seus pés, pondo-se dentro de um vestido, e, então, parece que nunca haverá na história do tempo a hora em que essa cena não mais se repetirá, esta é a tua mãe, e ainda que pressintas, não sabes o que há de todas as mulheres nela, e o que há somente nela e em nenhuma outra mulher, embora um dia possas perceber que os gestos de tua mãe, Bia, são como uma língua nova que parece ter sido forjada para produzir onomatopeias, quando dela, em verdade, o que mais se pode extrair é a dor da poesia, e se isso eu te digo, é porque ela está em ti como o sal no

mar, ela, que foi nos primeiros anos professora substituta, aprendeu a ser paciente ante os desígnios do tempo, ela raramente sai de dentro de si, Bia, nem com os meus gritos à queima-rosto, quando, às vezes, fora de mim, eu esconjuro os meus defeitos, a tua mãe nada diz, ela sabe que contra o fel só o silêncio age como antídoto, ela jamais estende a mão nessas horas pra me acariciar os cabelos, a tua mãe,

Bia, retira-se até que minhas palavras retornem à calmaria, nem todo mundo é sagaz pra perceber que uma vida (de perdão) ante outra vida (de explosão) tem o efeito de uma ofensa, é sozinho que expurgamos o veneno de nossas contrariedades, por isso, ela se afasta de mim e vai pisar — inaudíveis são seus passos —, nas sombras da sala, cortar diligentemente o talo das flores, recolher as roupas no varal, o seu fino e longo pescoço, como uma figura de Modigliani, a avultar entre as minhas camisas, e eu não sei por que sempre penso em Perseu a ajeitar com ternura o pescoço da Medusa antes de decepá-lo,

a tua mãe, ao menos a que conheço, como homem, de um jeito que jamais a conhecerás, basta se virar e me ver, eu bem sei, pra que seus olhos atravessem a minha neblina, dotada ela é de sensores distintos dos meus, e eu me pergunto como sabe tanto se sou eu quem mais vida tem nesta casa, e eu me pergunto como seus braços de grilo conseguem não apenas te segurar, Bia — ganhastes muitos quilos desde aquele primeiro dia —, mas também segurar o peso da realidade que entra comigo por aquela porta, repare, ela segue agora para a cozinha, e, no entanto, eu a sinto aqui ainda, a se mover em mim, a tua mãe, a tua mãe que não me pediu véu e grinalda, nem me exigiu aliança e lua de mel, cartório e igreja ela dispensou, a tua mãe que vem vindo com o teu leite, e ela, por mais que faça, será pouco pra

ti — o mundo também a cobrará maior desvelo —, vais descobrir, Bia, em breve, essa nossa atávica insatisfação, item de série da espécie humana, e, então, um dia, talvez, numa hora negra, tu a culpes pelos mimos que te deu ou pelos melindres que te calou; nunca seremos, para o outro, o que ele pretende que sejamos, para isso fomos feitos, Bia, para amar e decepcionar a quem amamos, com esses braços

curtos incapazes de envolver o ser querido, com essas mãos que aprendem a acariciar ou a sangrar com a mesma indiferença, para isso fomos feitos, Bia, para uns se enriquecerem à sombra, e outros minguarem ao sol, alguns aqui aportam com habilidade para remover montanhas, outros para erguê-las, e não adianta dar cutelo para quem manobra lápis, nem pincéis e aquarela para quem desenha com espátula e aguarrás,

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