Trilogia do adeus

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 3 de 3

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Trilogia do adeus

A pele da terra

Para Lucas, que caminha comigo

O que é viver?

caminhar sem pausa

rumo ao anoitecer.

ADONIS

 

[…] cada começo

é só continuação

e o livro dos eventos

está sempre aberto no meio.

WISLAWA SZYM BORSKA

0

 

Rabanal está ali — e nós aqui. Vivemos muitos anos depois daquele dia até hoje. Aqui estamos: você, sentado à beira de minha cama, não a do beliche daquele albergue, e eu, com os meus olhos, eu digo, falta pouco, e eu, com os meus olhos, não engano você e digo, falta menos do que você imagina, eu fecho os olhos, que reabrirei algumas vezes, e com eles eu digo a você, já vamos chegar, João. Ou

melhor, só eu vou chegar. E, enquanto eu não chego, ouça, João, ouça, acima dos sons urbanos, o rumor da vida. Ouça e saiba que é bom estar aqui com você, eu estou feliz, eu (ainda) estou vivo, e há paz no bairro, e o vento é agradável, e o sol ilumina todo aquele caminho, que nós dois, naquele dia, juntos trilhamos.

1

 

Foi então que senti, de novo, aquele susto — a consciência se ligando lá no fundo de mim, alçando-me do nada e dizendo, você está vivo, o meu corpo envolto na escuridão daquele albergue, assim como a minha mente que começava a perceber a expansão vagarosa, quase mínima, de um ponto de luz que concentrava, na sua delicada condição de fagulha, a minha vida inteira, e, então, aquele susto, outra vez, aquele susto, que — um dia, tão próximo agora — eu não mais experimentarei. O mundo se reiniciava em mim, com todo o seu tempo para se fazer e se refazer, as lembranças já em pé, prontas para que, se eu as evocasse, saíssem das sombras e me contassem, com as mesmas, ou outras, imagens e palavras, a minha história. O mundo se reiniciava em mim, alheio ao meu despertar, o mundo mundo sem fim, ao contrário de nós, com o avanço das horas, o mundo mundo só para si, sabendo, tanto quanto eu, mas como se não soubesse, que

você, João, estava na cama de cima do beliche, liberto do sono, de volta também à sua vida, sem se

dar conta de quantos movimentos o universo tivera que fazer para você estar ali, ao meu lado, abrindo seus olhos.

2

 

Eu podia sentir a correnteza da vida, àquela hora, fluindo calma e silenciosa, e estava grato por mais aquele susto, a dádiva (que noutras épocas fora maldição) de ganhar um novo dia, ainda recluso no útero da madrugada, eu estava grato pelo contentamento que me envolvia como a penumbra, e, por isso, era quase imperceptível em meu rosto, e assim seria, igualmente, como noutros dias, quando o sol ardesse em nossa pele, quando os nossos pés tivessem ultrapassado os trechos de pedra, areia e relva que nos esperavam à frente. Eu feliz, apesar de sonolento, como havia anos não me sentia, e, para evitar que as velhas dores e culpas — no meu encalço — derretessem, num instante, o meu contentamento, eu me mantive quieto, para distraí-las, gozando de uma indescritível bem-aventurança, eu ali, com você,

para caminhar, como se sempre, como se nunca, como se não.

3

 

Antes de ouvir o roçar de seu corpo no saco de dormir, comunicando que havia acordado, sabia que você sentira o mesmo susto, ainda que ignorasse que era a vida a lhe dizer, levanta e anda com seu pai, como ocorrera nos últimos dias, desde que iniciáramos a peregrinação. E era bom estar naquele albergue, em Santibáñez de Valdeiglesias, pai e filho entre outros peregrinos que, em minutos, iriam também se erguer e, na agonia da madrugada, retomar a trilha que, pelos próximos quilômetros, seria de variados campos e pastos e lavouras. Você se sentou na cama — eu podia imaginar seus olhos lendo as volutas da escuridão — e disse, pai, e eu, à espera de seu chamado, respondi, sim, e você, num sussurro, são cinco e meia, vamos?, e eu, vamos! Ergui-me e fui recolhendo o saco de dormir, enrolando-o com a perícia que eu não tinha nos primeiros dias da caminhada, vendo você descer silenciosamente do beliche e fazer o mesmo, seu vulto próximo ao meu, movendo-se com leveza, eu você, sem que um pudesse ver o outro às

claras, mas, ainda assim, se reconhecendo como uma escuridão reconhece a outra.

4

 

Eu você na tarefa menor de arrumar nossas mochilas, que nada tinham senão umas poucas roupas, e

era bom não ter nada, senão a sua presença, eu e você e os nossos joelhos doloridos, eu você e a

alegria de um pai que vai amanhecer com seu filho, e um filho que vai amanhecer com seu pai. Eu você ganhando um novo dia, com o seu tudo-nada àquela hora, sendo quem éramos, apenas eu e você. E você, mais rápido, terminou a sua parte, ficou um segundo imóvel, talvez pensando para que lado, naquele albergue, era o banheiro. Então você se voltou e, como se os seus olhos já soubessem decifrar o alfabeto inteiro das sombras, caminhou para a esquerda, desviando-se dos outros beliches — e desapareceu num instante, como um lampejo, pelo corredor.

5

 

Acabei de recolher meus pertences, vesti o anoraque, segui também para o banheiro onde o encontrei diante do espelho, escovando os dentes, e, ainda com os olhos enevoados de sono, pude flagrar no seu rosto uns traços do meu, o silêncio da madrugada no fundo de mim, onde outro você, o você das

minhas lembranças, se movia, dizendo, estou aqui e sempre estarei, embora o você à minha frente nem perceba que os dois, meu filho feito de passado e meu filho povoado de presente, se encontravam para fortalecer o meu sentimento de gratidão para reverenciar o tempo, por me conceder aquela regalia de ver (dentro da minha alma) todas as suas fases, e (aqui fora) o seu atual estágio de menino-homem.

6

 

Retornamos ao quarto, sentamos na cama do beliche onde eu dormira, colocamos as meias, calçamos os tênis quase ao mesmo tempo, eu ouvindo, entre os roncos dos peregrinos, a sua respiração; e se eu tinha vivido manhãs tristes, nas quais não queria me levantar, aquela ia me injetando, a cada instante, uma vontade poderosa de viver, de sair com a mochila às costas, você a me seguir, você que havia dez

anos não morava comigo, você que eu via só nos fins de semana, você, que, quando eu buscava na casa de sua mãe depois de dias de espera, tinha tomado todo o meu ser, você que talvez não desconfiasse quanto afeto as minhas palavras carregavam, quanto grito (de contentamento) a minha quietude serenava no momento em que entrava no carro e dizia, oi, pai. Cada um daqueles seus ois apagava, num átimo, como uma anestesia, todas as dores que a sua ausência me causava, e cada vez que, em retribuição, eu dizia, oi, filho, minha saudade oceânica se encolhia numa gota, e eu começava a perguntar como você estava indo na escola, e você, João, nunca soube que, cada palavra sua emitida, às vezes a

contragosto, era água paciente a quebrar os meus rochedos.

7

 

Envoltos no breu do albergue, às apalpadelas, tateamos cada um seu colchão do beliche, você o de cima, eu o debaixo, a procurar por algo que tivéssemos, sem querer, esquecido, não que fosse valioso, mas poderia nos evitar problemas, como dias antes, quando eu perdera o boné, e tivera de improvisar com uma camiseta sobre a cabeça, feito um tuaregue, e você ria toda vez que me olhava, eu era de novo o

pai divertido que eu fora quando você, criança, me pedia para imitar gatos e cachorros, e eu atendia seu pedido, lavando a minha noite com o seu sol, o pai divertido que, ao vestir você, não sabia combinar as roupas, o pai que parodiava as letras das músicas que sua mãe cantava. Continuamos a procurar por algo que talvez tivéssemos esquecido, não que fosse valioso, não estávamos carregando nada que não pudéssemos perder. Terminei a busca, você em seguida, e disse, não esquecemos nada, pai!, e, então, eu disse, vamos!, sem dizer vamos!, mas dando os primeiros passos rumo ao corredor que conduzia à porta do albergue, você atrás, nós em meio ao mundo, ao tudo, ao giro contínuo dos astros, peregrinos a retomarem a jornada de um dia rumo a outro. De outro dia rumo ao próximo. Até o dia rumo ao nada.

8

 

Eu você, naquele dia, rumo a Rabanal, eu amanhecendo-me e amanhecendo-te em mim, e você

desanoitecendo-se e me desanoitecendo de ti, o vento frio, o céu negro cortado pela lasca prateada da lua, as casas de Santibáñez de Valdeiglesias imersas na alvorada, a luz amarela dos postes, a sombra dos trigais se espraiando pelo horizonte em sfumatto. Tão bom começar um novo dia com você, mas começar sentindo toda a sua vida em cada um de seus passos, ladeando os meus, toda a sua vida em meu ser, como agora eu sinto toda a minha vida em cada uma dessas palavras que vão comigo até você. E porque nada se movia na paisagem senão nós, e tudo o que não era o mundo naquele ali e agora estava paralisado para que apenas os nossos passos, na linguagem com a qual se escrevem os caminhos, estivessem dizendo, a vida está aqui, em nós, a vida está aqui, frágil, se capturada nas duas silhuetas que se deslocavam, mas uma potência bruta, se auscultada sobre o meu peito e o seu. E porque nada se movia senão nós, fomos saindo de Santibáñez de Valdeiglesias, de olho nas setas amarelas que nos arrastavam aos campos de trigo, deixando mais uma cidade deserta de nós.

9

 

Fomos nos infiltrando na trilha, com ajuda da luz da lua e da lanterna que eu apontava para a terra, querendo dizer a você que o mundo dentro de mim estava em calmaria só para que o mundo, do lado de fora, ondulando como a brisa nos trigais, pudesse nos acolher, enquanto nossos olhos iam se habituando à paisagem adiante, duas criaturas com suas histórias a se desdobrar, como novelos, aos pés do tempo. Fomos nos infiltrando na trilha, e, como tínhamos visto antes no guia, estávamos a oito quilômetros da próxima cidade, sabíamos que, naquele compasso, desacostumados com o espanto que o despertar nos causara, lá chegaríamos em duas horas. Lá chegaríamos, e, sem um sentimento prévio, atravessaríamos as ruas, e seguiríamos, comentando, como de fato se deu, detalhes que nos teriam atraído a atenção, olha, um ninho de cegonha na torre da igreja!, eu disse, e você, nunca vi um ninho assim, e seguiríamos, satisfeitos, depois de parar e ver de perto aquele ninho, eu retendo o seu ímpeto de querer já retomar a trilha, eu dizendo, daquela maneira, que o caminho eram também as paradas, que a chegada está em nós no instante mesmo da partida, que no trajeto é que nasce o afeto, que são as pausas, como facas cortando o silêncio, que geram a música; eu dizendo que eram e são os dias de você em mim, que aceleravam e, ao mesmo tempo, acalmavam, meu coração.

10

 

Porque meu coração sempre a bater inquieto, como se fugindo do ritmo inevitável das suspeitas, meu coração a perceber o sentimento que o seu, filho, herdou de mim, meu coração a me ajustar, de novo, ao compasso das lembranças. A cadência dessas batidas me traz à memória a sua brincadeira favorita, João — espalhar no assoalho da sala as cartas do Jogo da Memória, nós dois sentados como índios um diante do outro, você a sorrir para mim a cada vez que eu errava a combinação dos pares, enquanto você

acertava, o tigre e o tigre, a raposa e a raposa, o rinoceronte e o rinoceronte, e eu a zebra e o leão, eu a girafa e o elefante, eu a onça e o macaco, eu procurando na folhagem da família a rama, rara, que precedeu você, João, procurando quem possuía idêntica habilidade, quem não esquecia facilmente

da posição das coisas, do lugar que os fatos ocupam em nossa convivência, aquele que não esquecia a cor das palavras (mesmo as repetidas nas horas desatentas do cotidiano), eu a encontrar atrás das ramagens antigas o seu avô João, e eu, Mateus, a pensar na dádiva que é, às vezes, podermos esquecer, e eu, às vezes, a agradecer, como agora, o milagre de poder, detalhadamente, me lembrar.

11

 

Fomos abrindo o chão com os nossos pés, e o breu nos deixava ver apenas uns rendilhados de sombra, e, então, eu apontei a lanterna para clarear uns metros à frente, e o pálido facho hesitava em nos mostrar a paisagem que, à luz, era outra paisagem, e também a mesma. Eu ia adiante e você me seguindo, nós

dois avançando, dispostos a aceitar a manhã sobre nossos ombros, eu você acariciando com nossos

passos os volteios do caminho, como se acaricia, com a ponta do dedo, as linhas de uma cicatriz.

12

 

Atravessamos o descampado, e já era fácil discernir os meus traços no seu rosto, e os seus no meu, era possível ver em você não só eu, mas também Gisele, sua mãe, era possível testemunhar o milagre de perceber seu corpo inteiro, de menino-homem, refeito para o mundo, detalhe por detalhe, pelos meus olhos. Meus olhos cheios de noite, e lembranças de você em outros momentos, como na sua infância, dormindo na cama comigo, depois que eu e sua mãe havíamos nos separado, meus olhos cheios de sua ausência a semana inteira, saciados somente nos entardeceres das sextas-feiras, quando você vinha

ao meu encontro. A manhã crescia, vagarosa, e nós só notaríamos se recordássemos o quão mínima ela era quando despertáramos, e a maré do vento fazia ondular as searas de trigo, e os fardos de feno, em rolos, deixados como tapetes na paisagem, já podiam ser vistos, estávamos tão longe de casa, numa etapa entre Santibáñez de Valdeiglesias e Rabanal, tão longe do nosso destino diário, e tão perto um do outro, tão longe da tristeza que um dia viria, e tão perto do silêncio que, se fosse pleno, nos pulverizaria o entendimento. Tão perto do silêncio, que, de repente, movidos pelo mesmo instinto, começamos a conversar, as palavras a sair de um e de outro, sem que eu me lembrasse de quem partiram primeiro; estávamos atravessando um descampado, um descampado de nós mesmos, e já podíamos nos ver, pai

filho, na luminosidade da manhã.

13

 

Continuamos a conversar, coisas miúdas, como as folhas dos pinheiros, porque as maiores, como troncos, são sempre as mesmas e não se vergam com o cotidiano; continuamos a conversar sobre o nosso avanço naquela manhã, o canto dos pássaros que já se ouvia, e olha, João, uma ponte medieval, e abaixo dela o rio, e que rio é aquele, pai?, e eu abrindo o guia, rio Tuerto, e, depois, umas ruínas, e você curioso

para ler a história que lá se depositara, e eu a dizer, são ruínas de um claustro, e você apontando para a placa quase oculta pelos ramos de um castanheiro, só mais cinco quilômetros até Astorga, pai, e nós dois conversando, coisas miúdas, enquanto atravessávamos a carretera, avistando, lá adiante, os campos de trigo, nós dois conversando sobre o nosso dia anterior em La Virgen del Camino, comentando o banho frio no albergue de Bercianos, a subida até os Montes de Oca, e o meu tropeço quando saímos de San Juan de Ortega, e você com dor de barriga, entrando às pressas na cafeteria de Grañon, à procura do banheiro, e nós dois rindo, de novo, recordando o que tínhamos vivido ali, até que, aos poucos, estávamos, imperceptivelmente, enveredando pelas nossas próprias paisagens.

14

 

Nossas próprias paisagens. Tão bonitas, João, são as folhas dos pinheiros, que, quase sempre, ao nosso olhar, parecem as mesmas, mas, a uma observação cuidadosa, se mostram distintas, no seu verde claro e escuro, em sua textura, macia ou rude, em seu farfalhar ostensivo ou discreto aos ouvidos. As folhas dos pinheiros, como as conversas, a variar nas muitas horas do dia. E as conversas, coisas miúdas, ocultando as coisas grandes, como as folhas dos pinheiros, que, nascidas sobre seus galhos, os escondem.

15

 

E se das folhas se chega aos galhos, dos galhos se chega ao tronco, e do tronco às raízes. E, como todos os dias, nas praças dos pueblos onde parávamos para abastecer o cantil, quando encontrávamos outros peregrinos e a conversa com eles começava, eu dizia, este é meu filho João. Como se já não estivesse claro em seu rosto que eu era o seu pai, e fosse impossível não notar em seu jeito o meu jeito. E como estávamos vivendo juntos os dias inteiros, abastecendo-nos ao máximo um do outro, talvez você

quisesse saber mais de mim, para, então, saber mais de si mesmo, e, por isso, perguntou, de repente, como era meu pai. Eu, surpreso, mas feliz com a sua pergunta, tirei os olhos da terra e respondi. Respondi, porque aquele era um trecho da minha vida que você desconhecia — a sua pergunta vinha de um trecho seu que eu ignorava —, respondi, contando o que havia em seu avô de folhagem bonita, mas também de espinho. Respondi, contando não fatos mas rastros dele em mim, respondi, contando que seu avô João morrera quando você era bebê, que eu sentia a falta dele — como sentia a sua, mas isso eu não disse —, respondi, fazendo um resumo do que ele fora, porque de tudo o que se vive, só podemos mesmo dar, para os outros provarem, o sumo.

16

 

A terra, sob os seus pés. Você devia estar sentindo, a terra, a cada passo, porque os seus pés eram e são, como os meus, também terra, e em nosso solado o caminho, àquela hora, se fazia. A terra sob os seus pés. Porque antes, quando nos preparávamos para a peregrinação, o treino era a própria caminhada, embora nela você, tanto quanto eu, pensasse na trilha que, naquele então, estávamos, e, enquanto nela

seguíamos, a discernir o campanário de uma igreja, também tínhamos o pensamento noutras veredas, porque o pensamento vai por rotas várias, mas os pés não, os pés escolhem uma direção e nela registram suas marcas. A terra sob os seus pés, diferente da água, onde os círculos feitos por uma pedra nela atirada somem no ato, a terra não se desfaz do caminhante, a terra aceita que deixem sulcos em sua superfície, raízes em suas profundezas, a terra, tecido onde se desenham destinos, a terra, rosto do chão em retalhos, a terra, página onde deixamos, como roupas atiradas, nossos vestígios. A terra, mesmo vestida de folhas secas, a terra, mesmo com uma capa de asfalto, abaixo de uma cidade de milhares de prédios, continua lisa para receber o que nela escrevem os nossos passos.

17

 

Ali estávamos — e agora estamos de novo, na precariedade das minhas palavras —, ali estávamos, e estávamos tão vivos que nem percebíamos a vida resistindo à força dos abismos, meu coração bombeando sangue, e você nele, se misturando à minha frágil realidade, se misturando à realidade

ainda mais frágil dos meus sonhos, ali estávamos, meu coração bombeando sangue, dando ordem para que os meus braços continuassem quietos — e não dessem, de repente, o abraço que sempre quiseram dar em você —, o mundo inteiramente mudo, enquanto os nossos passos falavam, um para o outro, na linguagem da poeira, o que as nossas vozes calavam. Meu coração bombeando sangue, para que ali estivéssemos, João, e ali estávamos.

18

 

A claridade lavara a paisagem das sombras da noite, o sol se firmara, espalhando sua luz pela amplidão do horizonte, e, então, vimos uma área de descanso rodeada de árvores floridas, e, como tínhamos andado dez quilômetros em jejum, e como seria agradável fazer uma pausa, não apenas para comer, mas para contemplar, de um lado, as mesetas, e, do outro, os moinhos, em linha, girando suas pás enormes, e como seria oportuno tirar os tênis para os pés respirarem, também, o ar fresco da manhã, eu disse, vamos parar ali, e sabíamos que seria a hora do nosso café, e que não haveria café algum senão as caixinhas de suco de laranja, o pão, os cubos de queijo, as bananas, que comprávamos quando íamos jantar, apenas uns víveres que não pesassem muito, porque tudo era peso na mochila, e o peso, a cada passo, ganhava o peso também do tempo, e, então, você disse, vamos, e, num instante ali chegamos, e ali paramos, e ali nos livramos das mochilas, e ali sentamos, e ali descalçamos os tênis, e ali tiramos as meias, e ali comemos. Ali permanecemos uns minutos, conversando novamente coisas menores, não o mesmo pai e o mesmo filho, mas outro pai e outro filho, porque aquele era um novo dia, que ia entrando em nós, como nós na paisagem, e ali ficamos, um pai e um filho, naquele momento, e era tudo o que tínhamos, nós dois com o mundo que seguia dentro de nós, se fazendo e se refazendo na memória. Você fez um gesto de quem ia levantar-se e retomar a caminhada, mas eu disse, não tenha pressa, João, veja os moinhos!, os moinhos girando velozmente, e você atendeu ao meu pedido. Eu sabia que era preciso ensinar

você a desfrutar do tempo quando o tempo está na plenitude de sua consciência, quando ainda é tempo de senti-lo passando e saboreá-lo, e, então, você ficou ali comigo, quieto, e aquele foi um momento

bom, embora eu sentisse cansaço, não do trecho que havíamos percorrido desde Santibáñez de Valdeiglesias, mas o cansaço que, por toda a vida, fora se depositando em meu ser.

19

 

Seguimos, reanimados com a parca ração, cujo sabor continuava em nossa boca, e era bom levar na ponta dos dedos o cheiro da banana, na saliva o gosto do queijo, e era simples caminhar, e nós seguimos, reanimados por aquela pausa — e quanto vigor uma pausa, mesmo mínima, é capaz de repor num corpo! Quantas flores para o nada uma árvore pode dar, quantas flores para si mesmas as flores de uma árvore podem dar, sem que ninguém as veja. E seguimos, a mesma gana de andar de quando havíamos despertado, o céu sobre nossas cabeças sendo o que tinha de ser, céu somente, e nós alegres por termos retomado a marcha, nós já com quatro horas de nascimento naquele dia, o vento trazendo o aroma de poeira — e quanta, quanta vontade, a minha, de abaixar os sons da natureza, e ouvir novamente, acima deles, a sua voz.

20

 

E a sua voz veio, natural, como o dia que crescia nas coisas, tingindo de luz os espaços à frente, a sua voz veio, chamada pela minha, porque eu havia dito, naquelas manhãs e tardes e noites do passado, quando treinávamos — para as manhãs e tardes e noites às quais, então, tínhamos chegado e estávamos vivendo —, e ali mesmo, no dia anterior, eu havia dito, quando conversamos, damos corda no tempo, e o tempo vai mais depressa, e a sua voz veio novamente, se entrelaçando à minha, que a chamara, dizendo, olha lá, você está vendo?, uma serralheria movida a água, a sua voz veio e se pôs a caminhar com a minha, legal, você disse, e eu estava de acordo e feliz com seu comentário, você também via

beleza naquela serralheria, e era um prêmio ver com você aquela serralheria, porque eu não estava apenas vendo com você uma serralheria, eu estava sentindo todo o tempo que pelo meu corpo havia transcorrido, eu estava sendo o máximo da minha vida com você, mirando a serralheria, àquela hora. A sua voz seguiu com a minha, as duas se reconhecendo por meio de assuntos esquecidos, que, de súbito, subiam à pele do momento, e então falamos da comida em Navarrete, do trecho de barro, escorregadio, perto de Azofra, e falamos dos vinhedos, e você me perguntou se os vinhos que eu bebia, todas as noites, eram bons, e eu, sim, a maior parte é de Rioja, e falamos de outras coisas, do caminho, até que, na espontaneidade do sem-querer, recomeçamos a falar de nós, e, então, eu contei uns detalhes do meu trabalho que, embora você conhecesse, eu nunca tinha dito, e você me contou sobre os jogos de

basquete a que assistia pela tevê, nomeando os jogadores como se fossem seus amigos, e também os videoclipes que gostava de ver, as bandas que ouvia, e eu ora mudo, ora fazendo perguntas — como se fossem apenas perguntas —, ia dando corda no seu tempo, para que andasse depressa em mim, e, então, eu pudesse conhecer uma parte sua que ainda não palmilhara.

21

 

E, então, conheci uma parte sua que ainda não palmilhara. E estava tão grato que comecei a assobiar. E, como queria também que você conhecesse um trecho de mim ao qual eu mesmo quase nunca ia — não porque não quisesse, mas porque a camada de tudo o que vivemos é inevitavelmente soterrada pelo agora —, passei a falar dos seriados de sua infância a que assistíamos juntos, deles saltei para os da minha infância, e falei de minhas brincadeiras de menino, falei daquele que eu fora antes de sua existência, falei, aos saltos e vaivéns, de músicas que ainda me faziam cantar, falei de quem eu fora para o eu que eu era naquele ponto da viagem, falei da bicicleta que ganhei num Natal, falei de outros assuntos até chegar ao homem que se fizera em mim com a sua vinda. E você, eu podia sentir, fiando-se nas minhas

palavras, que se moviam, de silêncio em silêncio, às vezes ria, concordando com um gesto de cabeça, às vezes me fazia perguntas, e eu seguia, contando outras vivências, e, enquanto eu contava, fomos nos enchendo, a cada instante, daquela vida e morte peregrina.

22

 

Chegamos a Astorga, onde paramos para visitar a catedral gótica e o palácio episcopal, onde renovamos a água dos cantis e lavamos o rosto numa fonte ao lado das muralhas, onde, numa cafeteria, compramos queijo e azeitonas e mantecadas, onde sentamos num banco de praça e descansamos sob a copa das árvores, contemplando crianças que passavam de mãos dadas com os pais, separando com os olhos os habitantes dos turistas e os turistas dos peregrinos. Era quase meio-dia, o sol refulgia sobre os telhados e as ruas e as calçadas, e, sem que um precisasse avisar o outro, nós nos erguemos, e eu disse, adelante, adelante, e você sorriu; desde o primeiro dia eu repetia, em algum momento, a fala do hospitaleiro no albergue de Roncesvalles, quando lá chegamos, adelante, adelante. E entramos, outra vez, na trilha, como pássaros no ar, na trilha que, como um novelo se desfiaria adiante, sem pressa, em renovadas plantações de milho, e pequenas haciendas, e hortas, e florestas, adelante, adelante. Nós dois, outra vez, na trilha, assim como nós dois, de novo, na vida, ao despertarmos horas antes, em Santibáñez de Valdeiglesias, o susto por ganhar mais um dia, nós dois na trilha que se desfiaria adiante, em renovadas plantações de milho, e pequenas haciendas, e hortas, e florestas, que não eram o que eram ainda, senão quando os nossos olhos as avistassem e os nossos pés as povoassem com a história que ia colada em nós como a pele ao corpo, a membrana do sim ao caroço do não. Naquele ponto, saindo de Astorga por uns becos e vielas, a trilha, estreita, revelava timidamente a estrada de Castrillo de los Polvazares, que, logo, se abriria em toda a sua beleza, e nós voltamos a conversar, e você disse, preciso mandar notícias pra minha mãe, e eu, em Rabanal vai ser fácil encontrar bares com Wi-Fi, no albergue mesmo talvez tenha, e você, ela deve estar preocupada, e eu nada disse, apenas pensei — e digo agora — o quanto havia de sua mãe em você, e o quanto de mim não havia, como se na folha do trigo, pendulando ao vento, não houvesse uma história de grãos castigados pelo sol e pela chuva, como se não houvesse em mim todos os mortos da nossa família, como se você fosse só você, e não aquele nós (meu e dela) que o

fazia ser o nosso filho.

23

 

Eu estava feliz por sentir que, de repente, estava feliz, e, para suportar a ferocidade de meu sentimento, permiti que o silêncio caminhasse em mim, e você, por respeito, você por saber que eu, mesmo

distraidamente, era quem ditava a cadência, você, então, se ateve também ao seu mutismo, guardando na boca as palavras, e, assim, continuamos, e continuamos, e continuamos, até que você disse, vou parar pra mijar. E paramos. E depois continuamos, e continuamos, e continuamos. E eu disse, olha lá, deve ser Santa Catalina de Somoza, e você confirmou no guia. E continuamos, e continuamos, e atravessamos essa cidadezinha, e, na saída, colhemos de uma árvore umas maçãs pequeninas. E continuamos, e continuamos, e continuamos, e a minha vontade de dizer o que eu digo agora confluindo para o meu inconsciente, para nele se guardar bem no fundo e, depois de atravessar tanto tempo, entregar-se finalmente aqui, como aquelas maçãs, pequeninas, à nossa colheita.

24

 

E continuamos, e continuamos, e era uma subida, e era, depois vimos, o povoado de El Ganso, a mil metros de altitude, e continuamos, naquele ritmo, vigoroso para dois peregrinos que haviam madrugado e percorrido mais de trinta quilômetros, e continuamos, cientes de que havia ainda um trecho penoso, até atingirmos Rabanal. E continuamos, naquele ritmo, porque não havia, nem haverá nunca, como acelerar o ponteiro das horas quando queremos chegar logo, nem como acelerar o ponteiro dos segundos quando não suportamos mais a dor e pedimos seu fim. Continuamos, e continuamos, naquele ritmo, porque leva tempo para sermos quem já somos. Leva tempo para o caminho já feito se fazer, plenamente, em nós. Leva tempo para o dia que atravessa nossos passos atravessar-nos inteiramente. Leva tempo para a paisagem, a mesma, lá adiante, se tornar o que ela já é, quando distante dos nossos olhos. Leva tempo para morrer em nós o que, há muito, estava morto. Leva tempo — esses anos todos! — para você se transformar naquele que sempre foi em mim. Leva tempo para as palavras sentidas alcançarem o destino que as espera — o de palavras ditas. Leva tempo para a dor ser a dor que ela é, quando se transforma em nossa dor. Leva tempo. Para acabar. O que já nasceu. Acabado. E se eu digo o que digo a você é para desfazer a ordem do passado e inaugurar a do agora; e se eu digo o que digo a você, é para impedir que o seu rosto daquele dia se apague na minha memória, mesmo que o seu rosto, real, esteja diante do meu neste instante. Eu digo o que digo para afastar — como se afasta ternamente com o dedo um lábio do outro — o ponto de partida e o de chegada.

25

 

E continuamos, e continuamos, e continuamos, e o sol, abrasador, também seguia seu curso pelo céu, e nós voltamos a conversar, embora a fadiga e a fome já se insinuassem pelo nosso corpo, nós voltamos a conversar e, então, embora conhecesse você desde o início do seu mundo, eu não sabia o que você fazia às cinco da tarde de todos os dias que não vivia comigo. Eu não sabia que você gostava de tortilha, eu não sabia que você trocava as lâmpadas da casa para a sua mãe, eu não sabia quem você era, senão quem você era quando estava em minha casa. Eu não sabia que você fazia amizade rapidamente — você sempre conversando com os peregrinos, e eles sem saber o quanto você não estava no meu dia a dia, o quanto havia de sua ausência nos meus últimos anos, eles sem saber que eu sonhara com aquela viagem apenas para passar um mês em sua companhia. E nós fomos conversando, misturando as nossas palavras com o silêncio da estrada, misturando os nossos olhos desde onde estávamos até onde se estendia a Puente de Pañoto, e conversando, conversando, conversando, eu soube, aos poucos, coisas e mais coisas que não sabia de você, João.

26

 

Meus passos, naquele chão de pedriscos, diziam, estamos aqui, vivos, meus passos diziam, estamos aqui, vivos e juntos e fortes, apesar de exaustos, estamos aqui, vivos, apesar de estarmos morrendo nesse instante, meus passos diziam, estamos vivos e nunca andamos tantos dias juntos, e, para trás, ia se assentando a névoa do não ser mais, e, para trás, ia morrendo-nos a paisagem, e, para trás, ia morrendo-nos — enquanto eu ia vivendo você e você vivendo-me — os castelos, as bodegas e os

claustros cansados de peregrinos, meus passos diziam, lindo é tudo o que passou, João, mas já passou, meus passos diziam, e tudo o que foi triste até aqui também passou, meus passos diziam, o céu, com seus olhos azuis, não para de nos ver, caminhando, e era bom estar ali, com você, o mundo sem ninguém senão nós dois pela estrada, e era bom, meus passos diziam, àquela hora, era como se meus passos, sendo dados, pudessem parar o tempo e salvar do esquecimento aqueles nossos dias — gravetos incendiados pela finitude.

27

 

E, conforme andávamos, eu me recordava de nós dois no meio de outros dias, felizes por sermos quem éramos, embora, tantas vezes, queiramos ser outro: eu me recordava daquelas tardes no quintal de casa, nós dois a jogar futebol, você e seu talento para dribles que ninguém na família antes revelou,

você querendo ser o centroavante e, de repente, noutra tarde, pedindo para ser o goleiro, e, assim também em mim, essa vontade de ser ora o zagueiro, ora o lateral, assim também eu a sentir essa dor de ser alegre por (apenas) me passar por outro.

28

 

E, conforme andávamos, as folhas dos castanheiros se moviam ao vento para si, sempre para si, mas, àquela hora da tarde, também para nós, que ali passávamos. E a terra era terra por si; mas, estando nós dois a caminhar sobre ela, naquele trecho, a terra era a terra para si, e para nós, sua pele. E eu você

sendo eu e você por si, e por nós. O mundo sendo apenas mundo, sem nós; mas nós, passando dali, nós no mundo, e, então, o mundo sendo mundo e também nós.

29

 

E se eu, Mateus, disse o que disse, com meus passos, eu não disse que, enquanto caminhava, comigo levava, em cada respiração, meu pai, João, e você, meu filho, outro João. Eu não disse, com meus

passos, que levava comigo meu pai, João, morto para o mundo, mas vivo em mim, e você, meu filho,

João, que herdara o nome dele, o avô que mal conheceu, mas que está em todas as suas células, e estará até o seu último suspiro. Assim, também, seguem ambos comigo, João meu pai, e você, João meu

filho, meu pai morto, mas tanto dele ainda em mim, e você, meu filho vivo, mas morrendo comigo a

cada passo meu e seu que diziam o que diziam — e por dizer o que diziam, não podiam dizer o que eu digo agora.

30

 

Eu digo que a cada passo sabemos mais do caminho, embora menos tempo tenhamos para aproveitarmos esse saber. Eu digo que a cada passo o caminho se crava em nosso ser, embora seja diferente do nosso ser cravado no caminho. Eu digo que a cada passo ultrapassamos o minuto e, no ganho de ultrapassá-lo, o perdemos. Eu digo que tudo, às vezes, é tão depressa, tão inesperado, tão saudade, que a paisagem, bonita e real, se torna névoa em nossos olhos no instante em que ainda é paisagem, bonita e real. Eu digo que o tempo não tem cura, o tempo é, o tempo nos faz saber, nem muito, nem pouco, mas o suficiente, e o suficiente é o que podemos suportar — embora o suficiente para um não o seja para outro. Eu digo que amava pentear seus cabelos de menino: era manhã, eu abria a janela de seu quarto para o dia entrar, venha, sol, lamber o rosto do João, e você ria, e eu digo que eu ajudava você a vestir o seu

uniforme, enquanto a sua mãe fazia o café, eu digo que você tinha sete anos, eu digo que depois eu penteava seus cabelos e sorria, eu amava aquela hora de pentear seus cabelos, eu penteava e sorria, e eu sabia que meu sorriso já era a saudade que eu hoje sinto por não poder mais pentear seus cabelos de menino, eu digo que eu sorria e você fazia uma careta em resposta ao meu sorriso, eu digo que, em meus passos, rumo a Rabanal, estavam todas aquelas nossas manhãs, todos aqueles meus sorrisos, todo aquele meu filho João.

31

 

O tempo era tanto, em mim, que eu penteava seus cabelos na memória, e, então, fiquei quieto, você

também ficou quieto, como se falar consumisse nossas forças que se exauriam depois de sete horas de caminhada. Fiquei triste, como se fosse aquele pai penteando seus cabelos em criança e pensando, anos à frente, no momento ali, ao seu lado. Fiquei triste, mas deveria estar feliz, porque você estava comigo, filho feito e forte, e eu com você, pai pai e pai. Eu devia estar feliz, porque havia penteado seus

cabelos naquelas manhãs, mas estava triste, as águas se misturavam em mim e era nos meus olhos que elas se encontravam.

32

 

Naquele ponto, a fome e a fadiga não eram mais como uma hora antes, suave e branda, a fome e a fadiga cresciam em nós, e o hálito do sol pesava em nossa pele, o sol com suas agulhas de luz drenava o suor dos nossos poros, e, naquele ponto, uns ciclistas passaram, alegres, como carreiros d’água, e disseram, buen camino, e nós, acostumados à saudação, repetimos, buen camino. E continuamos, você com a

sua curta vida em seus ombros, eu com todos os meus erros e acertos, você com todos os seus dias

movendo as suas pernas, eu com os vazios da solidão entre os meus braços, você com cada um dos

seus enganos — sobretudo aquele, quando comigo foi procurar uma casa nova para nós, onde você seria o filho dos fins de semana. E para que fosse bom e fosse caminho, seria melhor que deixasse de ser caminho a se percorrer, seria melhor que fosse descanso a ser percorrido, sede para as nossas águas, sonhos para os nossos músculos dormentes, porque, mesmo que desejemos, um buen camino não é bueno por todo el camino.

33

 

Sem nada dizer — nossos gestos o diziam —, paramos uns minutos à sombra de um pinheiro para beber água. Sorvi um gole do cantil e senti a sua presença, João, me inundar inteiro, eu me povoava de você presente, porque já transbordara de você passado, do menino cujos cabelos eu penteava antes de ir à escola, do menino que eu levava para a natação duas vezes por semana, para aprender a se mover na água, para aprender como os braços podiam mantê-lo à superfície, como seus braços, no bater constante, afastariam você do fundo dos rios, dos lagos e dos mares, embora na terra seca, João, também

possamos nos afogar; na terra seca, às vezes, somos tragados por redemoinhos às profundezas do instante. Eu sentia o vento na pele suada, e o vento dizia, eu sou esse que toca seu corpo agora, o vento dizia, eu sou o ontem que é e o hoje que foi, o vento dizia, eu faço você se lembrar de um dia com seu filho, quando sentiu o que sente agora com o meu toque, e eu lembrei, estávamos na praia, o mar lá a se perder de vista azul, e o vento dizia, eu sou o vento que faz você se recordar daquele sentimento, o mesmo que experimenta agora com o meu sopro, e, então, de súbito, eu disse, que vento bom!, e você disse, é mesmo, vento bom!, e tudo inerte, ali e ao redor, só o nosso silêncio se movendo entre as folhas daquele pinheiro.

34

 

Novamente nos pusemos em rota, e o silêncio nos seguia, e eu não sabia por que me lembrava de nós em outros dias, quando nada de especial havia ocorrido, dias que vivi sem imaginar que teria tantas saudades de tê-los vivido, dias-nada, dias-idos-e-havidos, dias-esquecíveis, como aquele em que você pediu à sua tia Bia para que fizesse tranças nos cabelos, e ela, claro, ela o fez, e você talvez nem

tenha percebido que, então, ela estava também fazendo tranças em sua história; dias-esquecíveis, sim, mas que eu não esquecera, e o meu silêncio, latejando-me nos ouvidos, me dizia ignorar o motivo de eu me lembrar de você noutros tempos. Não deveríamos sentir saudades de um filho que vive com a gente o mesmo instante, não deveríamos, mas eu sentia a saudade do instante que passa (no exato momento em que, para trás, ele ficava). O meu silêncio me dizia que a dor nos cura as mentiras da alegria, que os erros, nós os cometemos para nos acertar, que não são as histórias que se repetem, nós é que nelas nos repetimos. O meu pai João se separou de minha mãe Rosa, eu vivi a infância sem ele na minha rotina, como quem encontra na mesa do café da manhã a manteiga, mas não o pão, eu me separei de sua mãe,

e você, João, viveu igualmente sem mim seus anos de menino. O meu silêncio dizia: também

amamos por meio de lembranças que, embora agonizem, estão longe de morrer.

35

 

Lancei os olhos para trás e vi a carretera se espichando como uma linha negra ao sol, e vi, em meio ao sfumatto de minhas lembranças, o dia em que dei um tapa em seu rosto. Estava irritado por umas contrariedades, e você, criança, reclamava à mesa que já tinha comido o suficiente, e eu vi em seu

prato as salsichas que me pedira para cozinhar; eu despejara um tanto na água fervente da panela, e você, põe mais, pai, isso é pouco, e, depois, você reclamando que enjoara, e eu, cheio de entulhos do cotidiano, cheio de coisas mal resolvidas em minha mão, soltei-a em seu rosto. Caminhando à sua frente, sentia que ainda me doía, João, me doía na palma da mão a sua pele fina, surpresa com a violência do meu gesto; caminhando à sua frente, sentia uma tristeza sem bordas por não poder mais corrigir aquele atalho escrito pela minha mão em seu rosto. Em meio ao sfumatto de minhas lembranças, vi a brutalidade do tempo numas fotos que ainda guardo aqui em casa, ano a ano os meus cabelos mudando levemente de tom, rareando, e você crescendo, crescendo, e eu, arranhando o sfumatto de minhas lembranças, à procura daqueles anos todos (a soma dos dias em que não vivemos juntos), e eu encontrando uns míseros meses (a soma dos sábados e domingos que você vinha me ver), eu encontrando só umas migalhas na palma da mão. Eu continuo sem saber se doía em você, mais do que o tapa no rosto, a minha ausência em sua vida — assim fora comigo, vivi longe de meu pai, também cresci numa família partida. Em meio ao sfumatto de minhas lembranças, revi os meus erros, em fileira, e acelerei o passo, pisando firme aquela terra que nos levaria a Rabanal, por onde haviam passado cids e jimenas e roldáns e ferraguts e cizures e templários e jacobeus e reyes e virgens e varões e quixotes e sanchos e romanos e bascos e celtas e doentes e sonhadores e desesperados e niños e viejos e juans e pablos e santos, aquela terra por onde haviam passado santos, e, sobretudo, pecadores como o que ia à sua frente, João, eu, seu pai, Mateus. Seu pai, em silêncio, o rosto estapeado pelo chicote das lembranças.

36

 

Mas se eu disse o que disse com meus passos, se lacei do passado aquelas recordações, queria ter dito a você, na claridade quase cegante do presente, que o início de qualquer jornada é o mais difícil, daí porque tantas vezes os homens se lancem desesperadamente, carregados de palavras, ao abismo da escrita. Estávamos na vigésima primeira etapa do caminho, e, mesmo assim, eu queria ter dito a você que, às vezes, o início, sobretudo de uma conversa, é o passo mais fácil — vai-se entrando nela, como num rio, com leveza, os pés ondulando no fundo de areia, a água a cobrir lentamente nosso corpo. Eu não disse, mas queria ter dito, e o digo agora, que, em certos começos, muita coisa já está concluída, o primeiro passo pode dar aonde nem a maior das esperanças chega. Eu não disse, mas queria ter dito, que começar é para fora, não para dentro. Começar é para fora de nós — e, também, para o outro que somos e nos aguarda à saída. Eu queria ter dito a você, e o digo agora, em outro tempo, que não sei onde

começa o pai num filho, nem onde, num filho, o pai termina. Eu queria ter dito a você, que as nossas

águas eram águas do caminho em si mais do que da nossa partida — margem primeira que, um dia, com a outra se encontraria. Eu queria ter dito a você, que eu era o seu pai, apesar das minhas fronteiras

exíguas; eu sonhava que você reconheceria no peregrino, à sua frente, ou em sua memória, aquele que eu era. Eu sonhava que você, ao me ver, fosse qual fosse o dia, sentiria subir aos seus lábios a palavra pai, sem que precisasse enunciá-la, tanto quanto eu não preciso, ao vê-lo à cabeceira de minha cama, dizer agora, já está dito por todo meu ser, filho!

37

 

Depois de atravessar silenciosamente aqueles campos, voltamos a conversar sobre fatos que haviam nos marcado nos dias anteriores, fragmentos de nada que, àquela hora, como grãos de poeira na contraluz, podiam ser vistos levitando ao sol, umas unhas do tempo crescidas na memória, que nos faziam esquecer quem éramos, duas vidas provando da mesma sensação de ser terra e céu, tão unidas às montanhas que, àquela hora, éramos também montanhas. Voltamos a conversar — sobre o vilarejo de Zuriáin, onde uma mulher de pijama varria a frente da casa, o ciclista que caiu ao passar por uma poça d’água perto de Iroz, voltamos a conversar sobre Maurizio, o italiano que se juntou a nós no jantar em Nájera e dias depois encontramos em Burgos, as longas mesetas que cortamos até chegarmos banhados de cansaço em Hontanas, o calor no quarto do albergue em Sahagún —, voltamos a conversar sobre aquelas coisas que só tinham e só têm sentido por que as vivemos e as recordamos, e com elas fazemos o unguento para a nossa ferida.

38

 

E continuamos, continuamos, continuamos, nossos pés movidos mais pela esperança da próxima parada do que pelo desejo, quase nulo, de caminhar mais, e, ainda assim, continuamos; e, de repente, você repetiu, preciso dar notícias pra minha mãe, e pensei no quanto havia do mundo dela em você, e me lembrei do oceano de cabelos loiros dela, das vezes em que meus dedos o abriram numa carícia, e me lembrei dos tempos em que eu e sua mãe vivíamos enrodilhados como vinhas humanas, e me lembrei de noites em que digitava minha febre no corpo dela, e me lembrei, entre o cascalho de tantos momentos a dois, de quando você crescia, escondido, dentro dela, e ainda não sabíamos que você seria João, não sabíamos que meu pai logo morreria, não sabíamos que anos depois eu e ela nos separaríamos, e que, agora, estaríamos aqui, eu dizendo a você o que digo, caminhando com as palavras nesse trecho inevitável de minha existência, tirando as cascas dos meus invernos, deixando no chão não apenas a pele velha mais recente, mas todas as outras, antigas.

39

 

Aquelas coisas que só têm sentido porque são, na bateia do tempo, o todo concentrado e (também) o farelo da nossa história, aquelas coisas que moemos no entra-e-sai do ar em nossos pulmões, que me levaram a ser esse homem no meio de um João, meu pai, e de outro João, você, meu filho. Aquelas

coisas que me impediram de estar com meu pai na hora final — a sua tia Bia era quem estava com ele —, aquelas coisas que me fizeram receber você, aqui, para lhe dar as boas-vindas; as boas-vindas num mundo onde sempre haverá, é preciso dizer, mesmo na hora da chegada, a iminência da despedida. Aquelas coisas que consagram a história, dos nossos antepassados, o seu bisavô André e a sua bisavó Sara, que você não conheceu, mas borbulham na carne que leva o seu nome, aquelas coisas que se revelam em seu jeito de ser mais do que em seu sangue; porque quando uns chegam, outros já se foram, e o encontro só poderá se dar nas linhas do rosto, no tamanho das pernas, na cor dos olhos e dos cabelos, o encontro só poderá se dar pela evocação da palavra. Naquela mesma Ibéria, décadas atrás, em Ávila, não muito distante de onde estávamos, uma freira copiava versos de San Juan de la Cruz, e ela está em você, e aquele tio que fugiu com uma negra para o Marrocos, e o carroceiro que cantava trovas, e o marinheiro que, às vezes, vinha exibir para os parentes no Brasil, tatuada no corpo inteiro, uma Ibéria que já naufragava no esquecimento, e aqueles nossos parentes que mal tiveram tempo de deitar na relva, e, de olhos fechados, sonhar grandezas, e aquele primo que morreu num acidente aéreo namorando as nuvens, e a sua tia-avó Marisa, que tantas vezes o levou a passear no parque Buenos Aires, todos eles estão em você, João. E em você estão também os italianos do Veneto que foram para Cravinhos e lá

geraram a sua avó Rosa, toda a linhagem de sua mãe, em você estão todos aqueles que nasceram e

atravessaram o curso cotidiano da existência e morreram, sem deixar vestígios senão em outros que, igualmente, desapareceram. Em você estou eu, João, eu e você rumo a Compostela, e a nós mesmos,

buscando sentido para essas coisas que fazemos enquanto o ar entra-e-sai de nossos pulmões.

40

 

Eu você. Eu, cheio de palavras envelhecidas dentro de mim. Você, um texto novo ecoando

juventude. Eu, com a destreza daqueles que desconfiam quando a ordem das coisas se mostra perfeita. Você, com a crença de que, na progressão dos dias, sua liberdade se alargaria. Eu, guardando uns fatos para contar mais tarde, e que, no entanto, iriam se embalsamar em meu esquecimento. Você, comentando no ato o que saltava à vista, a seta amarela encoberta pelo musgo. Eu, desidratado de esperanças. Você, encharcado. Eu entupido de lembranças fermentadas. Você se nutrindo do aqui-e-agora, sem se preocupar que o aqui-e-agora se transforma, inevitavelmente, em nunca-mais. Eu você retendo a felicidade

como fios de sol em nossas mãos, mas eu certo de que a perderíamos logo adiante — para, quem sabe, retomá-la —, e você não. Eu, sentindo prazer naquelas tardes ao sentar nas camas esquálidas dos albergues, depois de horas de caminhada, e saber que não era preciso dizer nada, apenas conferir a gravidade das bolhas nos pés, era o que bastava, a ninguém interessaria o meu prazer senão a mim; a ninguém, senão você, eu me sentia tão atado. Eu você, a abrir as mochilas ao mesmo tempo, e delas

apanhar a roupa limpa que vestiríamos, eu e você, após o banho, após o silêncio escorrer da nossa pele e pingar no chão junto às palavras dos peregrinos que chegavam, eles com eles. E eu com você.

41

 

Caminhamos e caminhamos e caminhamos. A paisagem parecia a mesma, mas, imperceptivelmente, ia se tornando outra à medida que a atravessávamos, mostrando-se para nós em variadas angulações, à semelhança de um corpo que descobrimos aos poucos, a paisagem parecia a mesma, assim como o tempo, sempre imóvel, mas que, em verdade, desloca-se, escondendo de nossos sentidos seu mistério. Caminhamos e caminhamos e caminhamos, e, como a paisagem parecia a mesma, eu não sabia se só nós dois existíamos ali, sobre a pele da terra, se o mundo não era invenção de minha virtude, ou de meu desejo, se o mundo não era fruto de minha dor dissoluta, ou um milagre para meu consolo. Caminhamos e caminhamos e caminhamos, e a paisagem parecia a mesma, e, então, naquela tarde, entre um passo e outro, me lembrei de seu nascimento — você, a girar de mão em mão, das minhas para as de seu avô, João, e dele para a de sua avó Rosa, e de sua avó Rosa para a sua tia Bia, e dela para os seus outros avós Leonor e Enrico —, eu lembrei que o meu coração ganhara nova força com a sua existência, mas, só depois de muitos e muitos anos, só depois de muita vida, só depois de entre nós ter se formado um feixe de vivências e recordações e sonhos, eu percebi — foi naquela tarde — que o amor não é de uma vez só, o amor se torna amor aos poucos, o amor parece ser sempre o mesmo, como a paisagem, mas o amor, imperceptivelmente, aumenta. O amor aumenta e se torna, como certas dores, maior do que suportamos.

42

 

Lembrei que, dias antes daquele dia, tínhamos caminhado horas debaixo de uma chuva mansa que nos ensopara até a mente, o tempo inteiro só pensávamos nela em nossa roupa molhada, em nossos pés que pesavam ao pisar os charcos, e só a certeza de que ela demoraria para se recolher não se secava de nós. Mas, antes de chegarmos a Mansilla de las Mulas, a chuva cessou, e quando, na entrada do pueblo encontramos o refúgio de peregrinos, notei aquela árvore do outro lado da rua, notei sobre seus galhos sem folhas as gotas-d’água, minúsculas, brotando como frutas transparentes, e fiquei observando-as, atento, pensando em como defini-las. E aí eu disse, parecem jabuticabas de luz, e você perguntou, o quê?, e eu nada respondi, continuei a contemplar aquela formação de poesia diante de mim. Ouvi, então,

você, João, dizer, pai!, assim como ouvira tantas vezes a voz de meu pai João dizer, filho!, com a

mesma entonação firme mas doce, você disse, pai, está tudo bem?, e eu fiz um gesto para que esperasse, você aquiesceu, e eu posso dizer que me sentia feito um galho daquela árvore, o instante,

que eu estava vivendo, tremeluzia em mim como as minúsculas gotas-d’água — borbulhas de uma verdade que eu não compreendi senão ao ouvir você me dizer, agora, pai?, e, sem mover os lábios, somente com o silêncio do meu corpo, eu responder, filho!

43

 

Outras águas haviam me atraído, João, antes daquela tarde, diante do refúgio de Mansilla de las Mulas. E eu as movo novamente até os seus sentidos. Era manhã, tínhamos atravessado um vale ermo e extenso e, então, avistamos uma cascata, e seguimos em sua direção. Fomos nos acercando, devagar, pelo terreno rugoso, a observar a água já desprendida de sua foz, que se movia, célere, tropeçando nas pedras, e ainda assim avante, correndo, e a água fabricava uma branca e convulsionada espuma, e continuava a descer — um arroio que se alargava e se reduzia em variâncias, rumorejando, rumorejando. Ali paramos um momento, a ver as águas, fluindo, sem parar. Eu fechei os olhos e, na via contrária da realidade, fui me esgueirando imaginariamente pelos barrancos até o veio da cascata, de onde as águas, em alva espuma, manavam, estalando a alma líquida contra as rochas. Aprofundei a minha exploração, terra adentro, atrás do “ponto um” da cachoeira, de seu estado de fio d’água. E, por mais que me enfiasse no solo, só encontrava torrões de barro, não atingia o começo daquelas brancas espumas. Assim é, João — todo início, inalcançável. Qualquer início, desde sempre, uma queda. E, nessa queda, a máxima força de suas águas, a bruma de seus feitos — e todo o impacto de suas lembranças.

44

 

Passamos por El Ganso e, continuando a ascensão a Rabanal, fizemos uma pausa. Ficamos em silêncio, cada um consigo e com o outro, e eu podia sentir a minha e a sua satisfação por termos avançado tanto desde a madrugada. O ar fresco se dava para nós, movia nossos cabelos e a ramagem dos pinheiros com igual suavidade, nós dois fazendo uso do verão, nos saciando de vida, já que nada nos salva dela, nem o mundo, quando muito — é o que basta! — salva-se o dia. E aquele era o dia, e dentro dele o momento de afastar tristezas. Ficamos em silêncio, alegres por resistir à tentação de desembainhar palavras; e a nossa alegria não era a alegria dos ébrios, nem a das crianças, mas a dos guerreiros que, na trégua, sabem o quanto ela é rara no embate — sempre perdido — contra as horas. A alegria de quem não ignora que, sob sua pele, a navalha da dor já age.

45

 

As setas amarelas, o tempo inteiro nos guiando, embora o nosso caminho não fosse o mesmo de outros peregrinos. As setas amarelas nos atentando para seguir, as setas amarelas nos tentando a parar. As setas amarelas presentes a cada quinhentos metros, e a regra para o caminhante: se depois de meia hora na trilha não encontrar nova seta, volte à última. As setas amarelas, o tempo todo presentes. As setas amarelas — o tempo presente. Sempre gostei de pegá-lo, o presente, como quem pega um graveto com o canivete e o vai desbastando até fazer uma seta. Sempre gostei de ver as lascas caindo aos pés do meu passado, e a seta — a seta, depois de pronta, servindo para me atirar ao futuro. Mas o futuro, João,

é o tempo que seta alguma atinge. Toda seta, atirada, pulveriza-se a caminho.

46

 

E como não havia placas sinalizando a distância até Rabanal, senão as setas amarelas a indicar a direção, e como estávamos embrenhados num bosque que nos impedia de ver, lá adiante, no laço do horizonte a cidade com suas casas, onde tínhamos combinado pousar, e como não queríamos parar, abrir a mochila e consultar o guia, estando tão perto de nossa meta, e como ouvíamos apenas nossos passos na terra ensombrecida pela copa das árvores, e como não ouvíamos som algum de gente, nem de carro na rodovia que margeava o bosque, você, impaciente pelo cansaço, perguntou, falta muito pra chegar, pai?

47

 

Eu continuei uns metros sem nada dizer, como se não tivesse ouvido a sua pergunta, mas a sua pergunta não era só uma pergunta para aquela hora e situação, era uma pergunta para além de mim, em busca de uma resposta para sempre. As suas palavras retornam aos meus ouvidos, falta muito pra chegar, pai?, como se eu soubesse mais do futuro do que você — do caminho percorrido, eu certamente sabia, mas não do caminho que tínhamos a percorrer. Por isso é que eu penso naquele dia, e não em outros, depois da peregrinação encerrada, naquele dia, e não nos demais (ou nos de menos) que nos trouxeram até aqui, e então eu senti, na voltagem máxima, quase maior do que os meus sentidos eram capazes de registrar, falta muito pra chegar, pai?, senti o quanto gostaria que jamais chegássemos a Rabanal. Porque, mesmo exaustos, estávamos ali, e era bom, e havia paz, como no princípio, era bonito um pai e um filho vivendo o tudo da viagem naquele momento, era a nossa existência no seu ápice, falta muito pra chegar, pai?, a sua pergunta clareara com a luz de mil sóis o meu coração, e o desejo do meu coração era que não chegássemos jamais a Rabanal. Então eu não disse, falta pouco, João, para não agredir você com a lâmina da verdade, eu disse, com doçura, embora o gosto das palavras, sob minha língua, fosse amargo, eu disse, falta menos do que você imagina. Naquele dia, passei da linha que separa o entendimento da aceitação, saí da teoria de morrer para a prática de viver, eu estava com você, e só por isso eu o

relembro e o revivo aqui. Só por isso eu não queria que chegássemos jamais a Rabanal.

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João Anzanello Carrascoza

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