Trilogia do adeus

João Anzanello Carrascoza · Capítulo 2 de 3 · parte 1/3

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Trilogia do adeus

Menina escrevendo com o pai

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Para meu pai, é claro,

e para Catarina

O presente é tão grande, não nos

afastemos. Não nos afastemos muito,

vamos de mãos dadas.

CARLOS DRUM M OND DE ANDRADE

 

[…] o homem só conhece a verdade

em fragmentos, não na soma total,

mostrada de uma só vez.

M URILO M ENDES

Só agora o caderno que o pai escreveu há anos chegou às minhas mãos, embora eu já soubesse que existia, não era uma brincadeira dele, das tantas que me ensinou, como aquela de falar sem conectivos, como se fosse o próprio pensamento a saltar de um assunto a outro — a minha preferida. Também não era uma invenção da avó Helena, que, um dia, perguntou a ele, João, por que você não deu ainda o caderno pra Bia?, e eu, curiosa, que caderno, pai?, e ele, um que escrevi quando você nasceu, e a avó Helena, não, um que ele escreveu pra você, e eu, pra mim, pai?, e ele, sim, Bia, mas deixa pra lá, é uma história que já passou, e, hoje, eu poderia dizer, toda história já passou, pai, aprendi com você, história não é o que está começando, nem no meio, história é o que acabou, por isso é que a contamos, ninguém escreve o que é, mas o que foi. Em outra ocasião, a avó Helena insistiu, dá o caderno pra Bia, João, e o pai, já contei pra ela, de outro jeito, o que escrevi lá, e, agora, eu sei que ele tinha razão: ao longo de meus vinte anos, o pai me contou, devagar, a história de meu nascimento, de seus erros, da morte de minha mãe, além de outra história, não de ausência, mas de sua presença em minha vida. O caderno represa outro tempo, não o que se move, como água corrente, em mim. Tudo o que o pai escreveu nele já passou, mas, com a minha leitura, recomeça a acontecer. Ler, tanto quanto escrever, é fazer a ressurreição de um mundo.

A primeira lembrança. O ponto onde começamos a tomar consciência de nós mesmos. Eu não preciso revolver o passado para encontrar essa lembrança número um. É só fechar os olhos e, outra vez, ela me vem: eu sou bebê, estou numa cadeirinha improvisada atrás do selim de uma bicicleta, e ele, meu pai, com as mãos no guidão, pedala sem pressa. Eu ouço a sua voz, meu pai me pergunta se estou gostando do passeio, eu digo que sim, eu vejo árvores manchando com sua sombra o caminho por onde passamos, mas, até aquela hora, eu não sei ainda o que são árvores, eu sinto no rosto uma carícia — invisível, eu não sei ainda que é o vento me lambendo, eu vejo a paisagem envolta por uma forte claridade que entra nos meus olhos, eu não sei ainda que é o sol, eu ouço meu pai cantarolar e tenho vontade de rir, e eu rio, eu estou me divertindo, e eu vejo, na direção contrária, uma mulher e um cachorro, mas eu não sei plenamente que é uma mulher e um cachorro, as coisas estão ainda se nomeando para mim. Paramos um instante, meu pai me oferece água, e eu bebo, mirando os seus cabelos que eu não sei ainda o quanto são ralos e grisalhos, eu apenas vejo os seus cabelos e tenho vontade de tocá-los, sinto que minhas mãos têm vida própria, elas querem apanhar o céu e as nuvens, as casas e os carros, e eu não entendo porque eu as movo e elas não apanham nada, eu ainda não sei que o céu e as nuvens, as casas e os carros não podem ser apanhados. Meu pai me dá um beijo, e, de repente, sua face se altera, abre-se como a manhã, que eu não sei ainda que é a manhã, e essa mudança se chama sorriso, e eu agito as pernas, eufórica, porque meu pai se senta no selim e se põe novamente a pedalar, e eu percebo que o mundo vem vindo em nossa direção, apenas o mundo que os meus sentidos apreendem, não é o mundo — mundo, é apenas o mundo em mim, o mundo que me adentra, e eu ainda não sei que as calçadas são calçadas, o meio-fio meio-fio, os postes postes, as avenidas avenidas, eu estou na cadeirinha atrás do selim da bicicleta, meu pai pedala sem pressa, e ele diz algo que me alegra, eu não sei bem se são as suas palavras, ou se é o tom de sua voz, mas eu me sinto além dali, eu flutuo, eu não sei ainda que é um voo de dentro, eu não sei se é outra manhã, ou a mesma manhã, o tempo está se alfabetizando em minha memória, eu sou apenas mais uma pessoa onde o tempo vai se escrever, e, então, estranhamente o vento se enfurece, agora eu sei, é o vento, o vento derruba coisas, são tantas para nomear que eu digo somente coisas, o vento descabela as árvores, agora eu sei que são árvores, e aquela claridade forte que envolvia a paisagem, agora eu sei, é o sol, e o sol, inesperadamente, começa a ser engolido pela escuridão — eu sei que é a escuridão —, eu percebo que apagaram a luz do dia, percebo que meu pai pedala mais depressa, ele agora não para de falar, ele, eu vou descobrir depois, que é tão mais de calar, ele grita, mas eu não entendo as suas palavras, eu só sei que, de súbito, algo me arranha o rosto, o vento me entra pela boca, eu dou uma golada nele, quase me afogo, meu pai diminui abruptamente a velocidade, desvia de uma pedra, a bicicleta oscila, nós dois quase caímos, agora eu sei que somos

nós, eu na cadeirinha atrás do selim, ele à frente, ele ali, desde sempre, na minha vida, eu ainda

do lado de fora dele, e eu começo a sentir algo que ainda não sei verbalizar, mas um dia eu saberei, e agora já é o dia que eu sei, agora eu sei, e então, então é aí que se faz um imenso silêncio, é aí que eu ouço a respiração forte do meu pai, é aí que a chuva desaba sobre nós, é aí que a vida começa a se definir, é aí que o universo, o universo inteiro que eu desconheço, se inicia para mim.

Eu não sei direito o que sinto, na verdade não sei é dizer o que sinto, vou aprender mais adiante, minha mão pequena está sendo segurada por outra, maior, que me conduz, será o meu primeiro dia na Escola Serelepe, serelepe, gosto de pronunciar essa palavra, mas só vou me dar conta depois, Serelepe é pertinho de casa, tanto que vamos a pé, duas ou três quadras — por enquanto o mundo é só isso, daqui ali, o meu redor —, e eu sou um tiquinho, quer dizer, eu posso me ver assim, um tiquinho — andando, mas, naquela hora, essa que eu revivo, eu só era eu, não tinha consciência do que era, apenas a Bia, a caminho de outro começo; eu seria entregue a outras mãos, devia ser algo grande, esse gesto, mas eu estava presa aos meus passos, eu arrastava uma mochila com rodinhas, e ela tropeçava e tropeçava no relevo da calçada, a mochila era uma Bia coisa, e eu a Bia menina, eu zelava pelo seu bem, olhava para trás o tempo todo, queria saber se ela estava inteira, se não se machucara com uma pedra, uma greta, o sobe e desce do chão, eu olhava para trás sem saber que, dessa manhã para a frente, eu seria outra — agora eu sei que essa outra Bia segue aqui comigo. Eu estou de maria-chiquinha, a Neuza que fez, a Neuza cuidadosa com os meus cabelos, hoje vamos fazer uma trança, eu arrasto a mochila com rodinhas, verde, a tia Marisa que me deu, me querendo a cor-de-rosa, a verde!, eu escolhi, tenho os meus motivos, eu tenho, mas não sei ainda que são esses motivos que me guiam, não sei direito o que sinto, nem que lá, na Escola Serelepe, vou viver um tiquinho da minha história, eu não sei o que é professor, nem aluno, mas, quando viramos a esquina, damos com aquela claridade forte, eu já sei que aquela claridade forte é o sol, o sol todo-poderoso, só que solitário, e o sol me impede de ver o rosto de quem me leva, eu sinto a sua mão frágil, os ossos sob a pele enrugada, parece que seguro uma fruta mole, que já passou do ponto, mas eu só sei dessa comparação agora, eu tenho de colocar a minha outra mão acima dos olhos, para ver o seu rosto, eu coloco a minha outra mão acima dos olhos, para o sol não me ofuscar, eu coloco a minha outra mão acima dos olhos para ver o rosto que eu quero ver, eu não sei direito o que sinto, mas, antes mesmo de ver, eu já sei quem está ao meu lado — João, o pai. Outra vez, presente.

 

Agora estou sentada no sofá da sala, quase seca do choro que até há pouco garoava dos meus olhos, e ele, agachado à minha frente, cuida com desvelo do ferimento de meu joelho; tropecei no degrau da escada e caí abraçando o chão — é a primeira queda de que me recordo. Só a primeira, tantas vieram depois, tantas aguardam o momento para sair do nada e me derrubar. Foi um raspão e tanto, o piso áspero lacerou as camadas da pele, eu observo, aflita, o vermelho-vivo da carne, sinto a dor latejar ali, como se quisesse saltar, mas ela se mantém fiel, pulsa e se contrai, se afasta sem se desprender de mim, retorna forte e se mantém, só não é mais forte porque eu me distraio com o silêncio do pai. Se fosse a avó Helena, estaria dizendo, calma, Bia, não é nada, já vai passar, assim foi também outra vez, mais adiante, quando queimei a mão na água fervente, duas mulheres, duas mulheres diante da dor, uma sentindo-a, outra captando nela o eco de suas antigas dores, mas, não, é o pai que está comigo, ele não diz não é nada, ele não diz já vai passar, porque é um machucado, vai demorar para passar, o silêncio dele me distrai, me diz que tudo respeita a ordem do tempo, e, assim, ele não aumenta nem diminui minha dor, ele não ignora nem valoriza minha ferida, ele se dedica apenas a tratá-la, mais com a sua presença do que com o iodo, ele sabe — e, agora, eu também! — que não pode curá-la, ninguém pode curar o outro lá no fundo, tampouco se curar de si mesmo. O silêncio-pai me distrai, embora o joelho continue a arder, e me leva a esticar a memória, como um ramo (preso à raiz da dor), até anos à frente dessa queda, quando o pai, ao descascar laranjas, cortou o dedo — e, fosse porque eu já tivesse olhos atentos para perceber, fosse porque o mundo se apresentasse mais explícito às minhas suspeitas, notei que o seu machucado, depois de uns dias, ainda não cicatrizara, e perguntei se não era prudente ir à farmácia ou procurar um médico, mas ele disse, é assim mesmo, Bia, a recuperação só era rápida nos jovens, quando o corpo tem mais força, mas ele era um velho, e para os velhos tudo era devagar, a ferida tardava para curar. Eu mirei seus cabelos grisalhos e fiquei pensando se era mesmo assim, se não haveria pessoas,

independentemente da idade, que demoravam mais para cicatrizar seus machucados. Fiquei pensando no pai, se minha mãe, e outras feridas vivas nele, que, sob a pele do passado, eu desconhecia, ainda sangravam, se tinham se regenerado em casca, ou se, mesmo curadas, não continuavam, lentamente, se delineando em marcas. Estou sentada no sofá da sala, a minha primeira queda, o pai em silêncio, limpando a ferida de meu joelho. Seu silêncio me distrai, e eu sinto vontade de tocar seus cabelos, não que eu não seja de afagos — herdei a doçura de minha mãe? —, os seus cabelos pedem as minhas mãos, e eu vou em frente, eu, no meio da minha dor, acaricio os seus cabelos, sem pressa, e aí o seu rosto se ergue para mim, surpreso pelo meu toque, e eu vejo que ele é, naquele momento, com os seus machucados — e o meu —, ele é bonito, bonito e triste. Triste e bonito. Bonito triste. Triste bonito. Meu pai.

Não, bonito não, triste, o que eu fiz. A Catarina tinha dois lápis da Minnie, ali sobre a carteira, iguaizinhos, vermelhos, se fosse um de cada cor talvez eu me inibisse. E a Catarina, do jeito dela, nem te ligo, deixava tudo espalhado, esquecia onde punha as coisas, a Catarina era desatenta para o mundo de perto, vivia, como se diz, com o corpo aqui e o pensamento longe, a Catarina nada de recolher as miudezas, a Catarina se sentava no chão-chão, como se num tapete, a saia toda amarrotada. Então, suave-suave, eu apanhei um dos lápis, assim como fruta, que está lá no pé, à espera de uma mão para lhe dar um destino. Mas, à noite, o sorriso nos dedos, eu desenhando — com o lápis da Minnie da Catarina — uma menina, uma casa, um sol gigante, e o pai, o pai em volta da mesa, a me radiografar, em silêncio, sempre em silêncio, até dizer, bonito lápis, Bia, e, logo perguntando, quem te deu, filha?, e eu, sem erguer os olhos, continuando minha arte, a voz docinha, a Catarina, pai, e ele, ele era bom em desconfiar, por que a Catarina podia ter me dado mesmo o lápis, ele disse, Beatriz!, e eu olhei, eu olhei para ele, está na cara da gente o que não é nosso, e ele viu. Ele viu e disse, não como escrevo aqui — o que roubamos não é nosso, está só em nossa posse —, ele disse lá da sua maneira, o pai não era de transbordar o copo d’água, ele era professor, ele ensinava como quem respira, sem alarde, e aquele foi só o começo da lição, eu mesma, sozinha, antes de dormir, descobri outros de seus ângulos: pensei na Catarina, no que eram as coisas dela para ela, não para mim; pensei nos bens que nos rodeiam, e que afirmamos, com a maior das certezas, serem nossos. Pensei no pai, meu pai, velho para os outros, mas novinho para mim, e pensei na mãe que eu perdi com um ano de vida, no meu irmão Mateus, na avó

Helena, na tia Marisa, na cor dos olhos de meu avô André, na curva do queixo de minha avó Luíza, na minha bisavó Sara e seus cabelos em coque (ela tão bonita naquelas fotos amareladas), pensei no meu bisavô João, nas pernas compridas do tio Frederico. Pensei, pensei, pensei. E dormi convicta de que a minha história era a única coisa que, de fato, eu tinha. Era apenas uma história, como o lápis da Minnie. Mas ninguém conseguiria roubá-la. O bonito era nem tentar. O que é nosso — mesmo se triste — é nosso, ninguém pode ter.

Sim, o que é nosso ninguém pode ter. Assim, também aquilo que a gente sente não pode ser dado. Seja o que for: orgulho, medo, gratidão. E se pudesse, o resultado continuaria igual, sem a exatidão da verdade. Lembro-me de um sorriso que o pai me deu — eu estava no palco, dentro de uma fantasia de borboleta, era uma apresentação de dança da escola — e tanta era a minha timidez, não maior que o meu receio de errar um passo, que eu tremia toda, eu precisava tanto de uma calma, e eu procurei o pai na plateia, eu achei, e eu olhei o pai, o pai era professor, o pai sabia quando a gente titubeia no voo, e o pai me deu aquele sorriso, e eu o peguei como uma corda — milagrosa. Mas aquilo que a gente sente não pode ser dado. Se o pai me desse o sentir inteiro que subiu ao seu rosto e fez com que abrisse aquele sorriso, eu continuaria pendurada no penhasco da dúvida, sem a mão salvadora que me ergueria: sim,

seria preciso eu viver toda a sua história para saber, pela métrica dele, o tamanho daquele sentir. A gente, cada um de nós, é uma dor, uma alegria. O que é nosso é só nosso. Aquele ali, que tremula no líquido de minha memória, dando-me um sorriso, aquele é o meu pai. Eu sou a Bia, sua filha.

No parque, onde viemos muitas vezes, eu e a avó Helena, eu e a Neuza, eu e ele. No parque agora, só eu e ele. E ele acaba de me comprar um balão, escolhi o verde, da cor de seus

olhos, a cor que se entremeou, como dupla serpente, ora se apagando, ora se acendendo, no

rosto de meus familiares, a avó Luíza, o avô André, o primo Tiago, eu gostaria tanto de conhecê-los, como minha mãe, mas já nasci com essas baixas em meu enxoval de bebê, a coluna das perdas grande perto da coluna de ganhos. O pai me leva até um banco à sombra das árvores, estamos fugindo do sol, o sol, tão forte e luminoso, tão forte e luminoso que eu gostaria de vê-lo assim n vezes — e eu o verei, no futuro, no pátio da escola, pela janela do meu quarto, deformado numa poça d’água, imenso e vermelho como uma laranja na linha do mar —, eu gostaria de vê-lo, mesmo que ele nem ligue pra mim, que siga brilhando se eu o vejo ou não, que siga sol sem minha existência, ele está ali só para ser, sol. E nós também estamos aqui, no parque, para ser quem somos, eu sua filha, ele meu pai, e só por isso eu conto esse episódio, é mais um quadro de sentimento do que a descrição de um instante, porque nada mais acontece dentro dessa moldura, senão nós dois, sob a trama da sombra, eu com meu balão verde, já sonhando com um sorvete, com o algodão-doce, e o pai quieto de sorrisos, ao meu lado — com os seus machucados, claro —, mas, dessa vez, bonito e alegre. Alegre-bonito. Ele. Em minutos vou perder esse balão, não que eu não soubesse que todos os balões serão perdidos, mas no momento eu o tenho, eu seguro firme esse balão leve, cheio de ar, esse nada — que é meu tudo —, e esse nada me deixa alegre, igualzinho o pai, o pai, no momento, eu percebo, o pai é bonito e alegre. Alegre e bonito. Bonito-alegre. A coluna de ganhos aumenta com o seu nome, que eu repito: João, João, João. Bonito e alegre. João, meu pai. Balão verde entre meus dedos.

Então, hoje não sei o que se passa comigo, não sei explicar, meu corpo de sete anos, mas parece que a Bia dentro dele tem mais, chegou aqui bem antes. Eu me escondi no quarto, deitei na cama e abracei a boneca-de-pano que o pai me deu dias atrás. Sou um lugar-comum, como todas as pessoas em algum momento, embora muitas sejam o tempo inteiro, uma menina de mal com a vida, não quero brincar mais desse jeito, uma menina no seu quarto, querendo distância de tudo, inclusive dela mesma, da menina que ela é e que ela não gosta de ser, Beatriz, essa mesma que só eu conheço um pouco e desconheço imensamente. E essa é tão somente a crise inaugural, das inúmeras que eu terei pela vida afora, e, claro, eu nem imagino como afastá-la, xô, xô, eu estou nela como no agora, sem esperanças de não estar no minuto seguinte, estou muda e não quero falar, também não sei o que quero, eu apenas sou o que sou ali deitada, não me interessa nada mais, sou essa Bia tentando se desprender dela mesma, mas eu continuo sombria, como se parada num labirinto, à espera de que algo aconteça. E não por milagre, mas pelo tempo, que não deixa nada igual — o tempo inicia as sementes e finaliza as flores, o tempo, a gente nem percebe, rói até os rochedos —, e então, não por milagre, mas pelo tempo que passa, algo acontece: ele bate na porta. Bia, o pai me chama, posso entrar?, ele vai dizer isso no futuro quando eu for adolescente, mas ainda sou garota, ele abre a porta e a fecha, para que o espaço seja unicamente nosso, embora não haja mais ninguém em casa, Neuza já foi embora, deixou a janta pronta para nós, o sol está lá

fora, não tem lugar para o sol aqui, e o pai se senta ao pé da cama, não diz nada por enquanto, também não me acaricia, o dedo deslizando pelo meu nariz, como faz para me acordar, ele se mantém mudo, agora somos dois lugares-comuns, a filha brava consigo mesma, para não dizer com o universo, e o pai, o pai aguarda o momento para confortá-la, já que poupá-la seria apenas adiar o sofrimento, e salvá-la é impossível, pois uma vez aqui, nesse mundo, teremos de provar do doce e do amargo. Depois de longo tempo, finalmente, em vez de me fazer perguntas, ele disse para eu falar o que me inquietava, se eu quisesse, senão tudo bem, ele me deixaria ali, eu comigo, o pai nada de pode confiar em mim, nada de diga filhinha o que te dói, nada de deita aqui no meu colo, o pai sabe de mim — ramo-e-folha —, e aí eu falei o que sentia, na insuficiência da minha linguagem, aí eu falei que não sabia explicar, estava triste, sem saber de onde vinha o meu triste, e me calei. De novo o pai demorou um tempão para falar, mas aí falou, mais ou menos assim, porque eu só me lembro da essência, da gota-d’água que, a qualquer hora, vira mar na minha memória, eu não me lembro das palavras dele, essas são minhas, rastros de seu pensamento, ele falou que não havia apenas o triste ou o alegre, os dois estavam sempre juntos, um mais intenso, outro menos, às vezes em igual medida, um mais e outro menos, mas já se invertendo, porque a gente é tudo junto ao mesmo tempo, a gente alegre triste, a gente bom

mau sem parar, mais bom e menos mau nas horas azuis, mais mau e menos bom nas horas

escuras, a gente é tudo ao mesmo tempo, o ontem e o já e também o que vem vindo, a gente é pai

e filho, uma época mais filho e menos pai, depois mais pai e menos filho, às vezes

pai e filho e filho e pai, a gente um tecido, as linhas finas e as grossas misturadas, ora seda, ora estopa, a gente bonito-feio o tempo todo, um minuto mais bonito, outro minuto mais e mais feio, nesse instante feio- feio-bonito, daqui a pouco bonito-bonito-feio, a gente todos os sins e os nãos, todas as sombras e os sóis, a gente apesar de e por isso, a gente vai que e não diga?, a gente tomara e justo agora, a gente vamos lá? e não saio daqui!, a gente simples não, a gente complexo, a gente dos outros e de nós mesmos, tudo junto, tudo fazendo e se desfazendo a cada instante, e o mundo igual, o mundo todos nós e tudo ao mesmo tempo, e então a gente, se passasse por um mais que nos desagradava, aceitasse esse mais, ciente de que o menos do outro lado iria ganhar poder em breve, a gente de olho e mãos para diminuir não esse mais, mas esse breve. E aí o pai parou, caladinho. Coloquei a boneca-de-pano de lado. O confuso em mim já menos confuso. O claro, mais claro.

Dia dos pais, próximo domingo, lição da escola, fazer um desenho, a professora disse, pode ser um texto, se preferir, em homenagem a ele, entregar, como um presente, toma, pai, fiz pra você, é só o que posso dar, eu criança, eu a Bia, sem mãe, Juliana, o pai também, tadinho, sem ela, mas o pai comigo, e eu aquele estalo, escrever do jeito que a gente brinca, comendo palavras, cortando os detalhes, ou o contrário, a escrita apenas detalhes, em bloco, nada de cimento nelas, pedra com pedra e só, o pai criativo, inventor desses jogos, ele adivinho, eu ia gostar, o ele dentro de mim ia se divertir, como o meu eu no fora dele, o pai, João, filho de André e Luíza, neto de Sara e João, João que lhe passou o nome, igualzinho no passa-anel, agora está com você, João lavrador, João andaluz, João que lhe passou o nome e outras coisas, outras coisas lá do fundo, e também aqui de fora, a testa oval, os lábios finos, os cílios compridos, o pai, bonito e triste, meu pai, velho, pai avô para os outros, pai novinho pra mim, pai novinho, igual a manhã, manhã nascendo na voz do pai, pai que me acorda hoje, pai que me ninava ontem, ele e a Neuza, mas a Neuza a Neuza, e o pai, o pai, desajeitado o jeito dele, sempre, mas dele, do pai, e eu no gosto maior, feliz feliz por ter o pai,

e nada de escrever como a Catarina, lápis da Minnie, letra redondinha, pro melhor pai do mundo, apenas o pai, menos ele meu, mais eu dele, que ele só o pai, com seu tudo, melhor pior, e eu o mesmo, todo mundo assim, com seu tudo, melhor pior, mas todo mundo no seu todo mundo, só eu com todo ele, um mundo inteiro o pai, pai bonito e triste, bonitriste, tristebonito, bonitalegre, pai cabelos grisalhos, pai poucas palavras, pai silêncio, pai psiu, pai

velho, mas não velhinho, pai professor, pai de Mateus, pai e mãe de Bia, pai viúvo, pai no parque, tá vendo ali, filha, uma margarida!, pai no parque, Bia, olhe, olhe, um avião, mostrando coisinhas da terra e do céu, de baixo e de cima, o pequeno e o grande, pai no parque, eu no balanço, pra lá e pra cá, pai longe e perto, longe e perto, pai no parque, gira-gira, empurra, pai, pai no parque, meu balão verde, pai sopro no meu umbigo, cócegas, cócegas, eu rindo, pai comigo, outras pessoas,

eu contente, de mãos dadas, este é meu pai, pai na praia, eu na areia, um menino, oi, balde amarelo, uma menina, oi, outra menina, oi, oi, pai ali, pai presente, pai mar, pai ondas, pai e eu, água, água, mesma — água eu e o pai, ondas eu e o pai, ondas, pai sal, pai sol, sol, sol, sorvete, Chicabon, obrigada, pai, eu toda melada, pai sorriso, dia maior, dia só meu, dia pra sempre, o menino, as meninas, tchau, tchau, eu contente, de mãos dadas, este é meu pai, então chuva, chuvarada, trovão, medo, trovão, medo, trovão, medo, pai colo, chuva, chuvarada, pai, vou te contar uma história, distrair o medo, era uma vez um trovão, pai pra mim, lembranças, lembranças novas, lembranças de fatos futuros, lembranças antigas, eu no lá atrás do tempo, aprendendo a ler, e a escrever, a escrever pro pai, depois, depois, agora, entregar a ele, como um presente, toma, pai, fiz pra você, é só o que posso dar, eu a Bia, ainda menina, e o pai, o pai com seu tudo, melhor pior,

tristealegre, não ausente, mas ainda, o pai ainda aqui.

Sim, o triste e o alegre, os dois sempre juntos, um mais forte, outro menos, eu já sei. Mas eu não sei ainda quando um deles é tanto, que o outro, na ponta oposta, nem parece existir, máximo esse, mínimo aquele. É noite de Natal, eu estou com um vestidinho branco, eu lembro bem, podia ter esquecido esse detalhe, podia ser um vestido de outra cor, mas é branco, e eu me sinto alegre, eu me sinto alegre com a Bia que eu sou nessa noite, um alegre calmo, sem euforia, mas um alegre que já percebe a sua iminente

 

expansão, embora eu não possa imaginar o quanto suas margens vão se dilatar. Eu uso umas pulseiras de metal, a tia Marisa quem me deu, e eu gostei — eu vou gostar de pulseira daqui em diante, pela minha vida afora —, eu nunca tinha usado, eu giro o braço toda hora para ouvir o seu tilintar, eu sou a única criança aqui, e eu ando pela sala de lá para cá, no meio do pai, da avó Helena e do avô Carlos, de outras pessoas que conversam e se servem de bebidas, eu ando de lá para cá, girando o braço toda hora para ouvir o tilintar das pulseiras, eu miro os pacotes coloridos de presentes junto à árvore de Natal, eu fico tentando adivinhar qual será o meu, eu me deslumbro com as bolas prateadas que pendem da árvore de Natal, como se fossem frutas, eu me deslumbro com as luzinhas que acendem-e-apagam em seus galhos, e eu vou me lembrar delas numa noite, anos depois, quando estiver subindo a serra com o pai. A noite vai seguir, a comida será levada à mesa, e eu quase não tenho fome, eu tenho curiosidade, e, daqui a pouco, eu vou ter sono, e eu vou guerrear com ele, porque eu quero ser ainda mais feliz nessa noite, e aí, notando que eu me sentei no sofá, as pulseiras em silêncio, notando que a minha esperança vacila, a tia Marisa diz pro pai, a Bia quer dormir, os olhinhos dela estão fechando, e o pai, sim, o pai diz algo que eu não ouço, mas ele se levanta, eu penso que ele vai pegar meu presente na árvore de Natal, mas o pai some pelo corredor, e logo ele volta carregando um embrulho grande, amassado, como se feito de última hora, um embrulho para esconder algo que não combina com o seu conteúdo, e eu não sei, pelo seu formato, o que tem dentro, mas a minha alegria começa a subir, e sobe mais e mais, quando o pai coloca o embrulho no chão e diz, esse é o seu presente, Bia, pode abrir!, e imediatamente as minhas mãos, obedecendo só à minha alegria, se põem a rasgar o papel com febre, febre de ser ainda mais feliz, as pulseiras tilintam, também desesperadas, e aí eu vejo só um pedacinho, o guidão, e eu continuo, eu estou chegando ao topo, e eu continuo, eu continuo rasgando com pressa, eu vejo a cesta, eu vejo as rodinhas, uma de cada lado do pneu de trás, eu vejo a minha bicicleta inteira, eu sinto 100% de felicidade e 0% de tristeza, embora não seja ainda essa a proporção, falta um grão de felicidade, mas esse grão eu vou colher daqui a pouco, amanhã, porque a força de meu contentamento é tanta, que depois dessa emoção, tão poderosa a ponto de ser quase insuportável, eu entro numa névoa, num universo vago, o branco do meu vestidinho sumindo aos poucos, a alegria não só daquele momento, mas de toda a minha vida, se deposita no meu rosto, e eu, sorrindo, eu mergulho na inconsciência de um sono profundo profundo. O dia seguinte vai

chegar, o seguinte chegou, a manhã explode de sol, eu estou na calçada de casa, com minha bicicleta, o pai me ajuda a subir — meus pés aguardam, impacientes, nos pedais —, e ele, em seguida, se ajeita na sua, e, então, o pai diz, agora, Bia!, e eu começo a pedalar, eu avanço, ele pertinho, de olho em mim, pedalando também, e aí eu não sou mais a alegria, eu sou algo maior no seu ápice, eu estou atingindo o que, depois, vou conhecer com o nome de glória.

Mas, ao contrário, teve um dia em que o próprio dia, e não eu, foi se entregando à tristeza até atingir o seu máximo. Ao menos eu senti assim, eu vivia atribuindo estados de ânimo às coisas, como se elas fossem gente: roupas tinham vontades, brinquedos protestavam, árvores resmungavam. Eu estou agora nesse dia, e esse dia já está se tornando tarde, a Neuza me deu tchau e foi embora, eu ouço o barulho da porta se fechar, eu estou deitada na cama, mando mensagens para a Catarina e leio posts no Facebook. Pela janela eu vejo o céu claro, o dia está alegre, um alegre calmo, como o começo daquela

 

noite de Natal, nada me diz que ele de repente vai ficar triste, mas o dia vai, e será daqui a pouco, então o daqui a pouco já chegou, eu nem notei, eu não percebi os sinais, eu preciso estar atenta para o que acontece quando nada acontece. Eu continuo na conversa com a Catarina, ela falando lá do Vitor, um menino bonito, bonito pra ela, eu continuo no Facebook, abrindo outras janelas no iPad, e navegando, eu salto de uma página à outra, mas a janela do meu quarto me alerta que o céu escurece velozmente, como se a tarde se adiantasse, a tarde tem um compromisso e quer sair mais cedo, a tarde está a fim de entregar logo o tempo nas mãos da noite, e eu continuo, mensagens, Facebook, mensagens, Facebook, e aí eu escuto o estrondo, um trovão, e vejo pela janela o céu negro, o dia subitamente ficou triste, e sua tristeza aumenta, não tem volta, é irreversível, tanto que as sombras assaltam meu quarto, apagam os objetos, agora eu mal vejo o contorno das paredes, o espaço ao redor se dissolve com inesperada rapidez, só a luz do iPad persiste, outro trovão estronda, o escuro vai se alastrando, e a chuva começa a cair com ternura, uma ternura que destoa da noite amedrontadora na qual a tarde, há pouco ensolarada, se transformou, e, de fato, num segundo a chuva já está violenta, o rumor de sua força descontrolada me assusta, eu tento me manter tranquila, o vento sopra enlouquecidamente, eu tento pensar que logo essa angústia do dia vai passar, mas sei que estou errada, essa é a minha vontade, mas não a do dia, o dia não vai me ouvir, o dia está decidido a ir até o Chuí de sua tristeza, a chuva aumenta, desaba mais agressiva, a internet cai, estou sozinha, o rastilho do escuro avança sobre tudo, parece que o mundo vai se acabar, e eu sozinha, sem poder dizer adeus a ninguém, eu suplico por mais um pouco de vida, e, de súbito, eu também estou triste, muito triste, mas não quero estar assim, essa tristeza é do dia, não minha, eu não posso sentir o que não é meu, o pai me ensinou, o pai professor, a mãe professora, João, Juliana, e eu não sei ensinar nada, eu tenho tanto a aprender, o pai não vai gostar, eu não vou agarrar a boneca-de-pano, não vou dar chance para o medo medo, eu vou esperar, e eu espero, um tempão, eu espero, eu

sozinha, no meu quarto, mas como se estivesse lá fora, no centro da tempestade, eu quieta, abraçada ao meu pequeno destino. Horas depois, foram horas tenho certeza, eu continuo aqui, ainda faz escuro, mas não tanto, o rumor da chuva diminuiu, eu ouço uma voz, Bia, Bia, e, em seguida, eu vejo um vulto, eu estou vendo, agora, eu sei que é o pai que acaba de chegar, na verdade ele nunca saiu daqui, ele esteve comigo o tempo todo, Bia, Bia, ele me chama, e, furando a bruma espessa do quarto, se aproxima da cama. Bia, ele diz mais uma vez — e o mundo alegre se reinicia em mim.

Estou de novo no quarto escuro, mas não no meu, estou no quarto da Catarina, eu adoro dormir na casa dela, e, toda vez, de luz apagada, como se não cansássemos de falar tudo o que já falamos, continuamos a conversar por muito tempo, é como se a vida, para que pudéssemos merecer o sono, onde o silêncio reina, nos pedisse palavras, palavras, palavras. Eu não lembro onde íamos buscar tanto assunto, mas eles estavam à mão, como hoje, a gente fala porque o momento pede, a gente cala pelo mesmo motivo, não temos como mudar essa verdade. Estou no quarto escuro, conversando com a Catarina e não lembro bem qual de nós solta a ideia no ar, a outra no ato a aprova, com euforia, e é isso que vamos fazer no dia seguinte, sábado, vamos fazer brigadeiro, vamos dormir felizes depois desse achado, vamos fazer brigadeiro e vender no prédio da Catarina, vamos bater na porta dos apartamentos e oferecer aos moradores. Nesse momento nós estamos fazendo brigadeiro, as duas latas de leite condensado na panela com Nescau, já temos os copinhos de plástico, o chocolate granulado, a mãe da Catarina comprou pra gente, estamos fazendo brigadeiro, sob a supervisão dela, e, lambendo os dedos, agora já terminamos e vamos vender, começando por aquele andar, e é o que fazemos, as duas meio envergonhadas, meio corajosas, uma aperta a campainha, a outra oferece, depois invertemos, e não é que a gente volta com um dinheirinho? Estamos dividindo, tanto pra mim, tanto pra Catarina, vendemos quase tudo, e aí comemos a parte que prudentemente guardamos para nós, eu pego o último copinho, vou levar pro meu pai, tudo bem?, a Catarina movendo a cabeça, sim, sim, tão contente quanto eu. E eu, agora, em casa, eu dou o brigadeiro para o meu pai, ele prova e diz, está gostoso, eu conto o que fizemos, mostro as moedas, ele ri, crianças, crianças. Mas aí, estamos novamente no quarto escuro, eu e a Catarina tramando uma nova arte, nós duas gostamos de histórias em quadrinhos, nós duas resolvemos produzir uma, eu escrevo o texto e a Catarina faz os desenhos; pronto, já é sábado outra vez, estamos terminando de imprimir a última das vinte cópias da nossa história. Vamos vender no prédio dela, e vendemos, as pessoas não nos recebem com sorrisos como na primeira vez, mas vendemos, não muito — história em quadrinhos não é brigadeiro —, mas vendemos, apesar do meu texto e dos desenhos da Catarina. Eu pego uma cópia da história, vou levar pro meu pai, tudo bem?, a Catarina movendo a cabeça, sim, sim. Meu pai recebe a folha de minhas mãos, e quando lê em voz alta texto de Beatriz, ele ri, ele ri e continua lendo em silêncio. Ele termina a leitura e ri, ele sussurra algo que eu não ouvi naquela hora, mas eu ouço agora, eu presto bem atenção nos lábios dele, o pai ri, alegre ele, seu riso é de reconhecimento, mas eu só descubro agora ao tirar essa lembrança do escuro, o pai ri, e eu posso ouvir o que ele sussurra: esta é minha filha.

Continuar: parte 2 de 3