Um Amor Para Lady Johanna

Julie Garwood · Capítulo 2 de 2 · parte 8/15

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Um Amor Para Lady Johanna

Sinopse

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 15 partes.

Tam bém não a agradou o tom de voz do m arido, m as não

acreditava que lhe afetasse nesse m om ento. "Será m elhor que tente lhe obedecer", pensou.

Mas, por desgraça, as pernas de Johanna se negaram a obedecê-

la. Tinha ficado m uito tem po agarrada ao galho e quando quis descer pelo tronco sentiu com o se fossem de geléia.

Finalm ente, Gabriel teve que ir resgatá-la. Teve que lhe arrancar

as m ãos do galho porque Johanna não conseguia soltar.

Gabriel colocou as m ãos de Johanna em volto de seu próprio

pescoço e a apertou contra ele. Com um braço a segurou pela cintura e com o outro se agarrou ao galho para evitar que am bos caíssem .

Deixou passar um m inuto antes de m over-se. Johanna não tinha percebido quão gelada estava até que o corpo de Gabriel com eçou a aquecê-la. Nesse instante, com eçou a trem er.

Percebeu que Gabriel tam bém trem ia. Quão furioso estaria?

— Gabriel.

O tom tem eroso de Johanna fez Gabriel explodir.

— Maldita sej a, deixará de m e tem er! — disse-lhe em um

m urm úrio furioso — Deus é testem unha que desej aria te estrangular, m ulher, para ver se recupera a razão! Mas não a m achucarei.

A repreensão lhe doeu. Johanna não tinha feito nada para desgostá-

lo tanto... Exceto ignorar a absurda ordem de descansar. "É verdade, — pensou Johanna — não levei em conta a sugestão".

— Maldição, j á não tenho m edo de você! — m urm urou Johanna,

com a boca apoiada contra o pescoço do m arido, e deixou escapar um suspiro. Gabriel preferia a sinceridade e Johanna im aginou que o zangaria m ais ainda se não lhe dissesse toda a verdade.

E certam ente, nesse instante parecia disposto a estrangulá-la.

— Na m aior parte do tem po não tenho m edo de você. — disse

Johanna — Por que está tão zangado com igo?

O hom em não respondeu: não podia. Ainda sentia vontade de

gritar. Prim eiro tentaria acalm ar-se e em seguida lhe diria que o susto tinha tirado vinte anos de sua vida.

Gabriel a estreitou com m ais força. Era evidente que a pergunta

de Johanna o tinha perturbado, e a j ovem não entendia por quê. Acaso era capaz de ler a m ente? Pensou em dizer-lhe, m as em seguida desistiu. Não lhe convinha provocar a fúria de Gabriel. Era a esposa e tinha que tentar acalm á-lo.

Decidiu m udar de assunto. Para agradá-lo, com eçaria com um

elogio:

— Tinha razão, m arido: o bosque está infestado de feras.

Foi um erro: soube ao sentir que Gabriel a estreitava m ais e

deixava escapar um suspiro trêm ulo.

— Estou m olhando-o todo, m ilorde — exclam ou Johanna, em um a

tentativa de distrai-lo da infeliz m enção aos lobos.

— Você está ensopada — alfinetou Gabriel — Pegará um

resfriado e m orrerá em um a sem ana.

— Não, não m e acontecerá nada disso. — afirm ou a j ovem —

Colocarei roupa seca e estarei perfeitam ente bem . Esposo m eu, aperta-m e tanto que não posso respirar. Solte um pouco.

Gabriel não deu atenção. Soltou um a blasfêm ia e com eçou a

m over-se. Johanna se segurou com m ais força no pescoço do m arido e fechou os olhos. Deixaria que Gabriel se ocupasse de afastar os galhos enquanto desciam .

Não a deixou cam inhar. Carregou-a até seu próprio cavalo,

ergueu-a e a deixou cair sobre a sela sem m uita gentileza.

Johanna tentou arrum ar as anáguas, m as o tecido grudava na pele.

Com preendeu que nesse m om ento não tinha o aspecto de um a dam a decente, e soltou um a exclam ação de horror ao notar que tinha a roupa rasgada sobre o peito. Im ediatam ente, pegou o cabelo entre os dedos e o j ogou para frente para cobrir-se.

Por sorte, os soldados não lhe prestavam a m enor atenção.

Gabriel, de costas para ela, ordenou que levassem os lobos. Calum e Keith saltaram de seus cavalos e ataram cordas nos pescoços dos anim ais m ortos.

— Arrastem até a colina e queim em — ordenou Gabriel. Entregou

as rédeas do cavalo de Johanna a Lindsay e ordenou que voltasse com os outros hom ens para o castelo. Queria ficar um m om ento a sós com a esposa.

Antes de partir, Calum lançou a Johanna um olhar de sim patia:

tinha certeza de que receberia um a severa repreensão. Pela expressão sinistra de Keith, sem dúvida pensava o m esm o.

Johanna m anteve a cabeça erguida, j untou as m ãos e fingiu estar

calm a.

Gabriel esperou que os soldados partissem e em seguida se virou

para Johanna. Colocou a m ão sobre a coxa para lhe cham ar a atenção.

— Esposa, não tem nada que m e dizer?

Johanna assentiu, e Gabriel esperou.

— E então? — perguntou ao fim .

— Queria que não estivesse zangado.

— Isso não é o que quero escutar.

Johanna apoiou a m ão sobre a de Gabriel.

— Espera um a desculpa, não é? Muito bem : lam ento ter ignorado

sua sugestão de descansar.

— Sugestão?

— Não é necessário que grite, m arido. É um a grosseria.

— Um a grosseria?

"Tem que repetir tudo o que digo?", perguntou-se Johanna. Gabriel,

por sua parte, espantava-se que não estivesse histérica depois do encontro com os lobos. Acaso não com preendia o que poderia ter passado? Por Deus, a idéia não se afastava de sua m ente! As bestas selvagens poderiam tê-la feito em pedaços!

— Johanna, quero que m e prom eta que não voltará a sair do

castelo sem a com panhia adequada.

A voz de Gabriel soou rouca e Johanna pensou que devia ser pelo

esforço que fazia para não gritar. Se a dedução fosse correta, isso significava que levava em consideração os sentim entos de Johanna.

— Milorde, não quero converter-m e em prisioneira em seu lar. —

disse — Já tive que recorrer a subterfúgios para sair para caçar. Deveria poder entrar e sair conform e m eu desej o.

— Não.

— E com escolta?

— Maldição, m ulher, isso é o que acabo de...!

— Sugerir?

— Não o sugeri: exigi que prom etesse.

A m ulher lhe deu um a palm adinha na m ão, m as não conseguiu acalm á-lo. Gabriel m ostrou a túnica esm igalhada de Johanna que estava atirada sobre o chão, ao pé da árvore.

— Não com preende que poderia ter ficado tão rasgada quanto

essa túnica?

Johanna dem orou em com preender a verdade e arregalou os

olhos, surpresa. Gabriel pensou que por fim com eçava a entender o risco que tinha corrido.

— Sim , esposa, poderia ter m orrido.

Johanna sorriu: essa não era a reação que Gabriel esperava. Com o

conseguiria lhe ensinar a ser cautelosa se não tinha noção dos perigos?

Frustrado, Gabriel franziu o sem blante.

— Johanna, tentei m e adaptar a ter um a esposa, m as você torna

isso m uito difícil. Em nom e de Deus! Por que sorri?

— Acabo de com preender que seu aborrecim ento se deve ao fato

de que estive a ponto de m orrer. Eu acreditei que estava furioso porque tinha ignorado sua sugestão de descansar. Agora entendo. — acrescentou com um gesto afirm ativo — Certam ente, com eça a sentir carinho por m im . Seu coração se abrandou, não é, m arido?

Gabriel não estava disposto a perm itir que tirasse sem elhante

conclusão e m oveu a cabeça.

— É m inha esposa, e sem pre a protegerei, Johanna: é m eu dever.

Mas acim a de tudo sou um guerreiro. Acaso esqueceu?

Johanna não com preendeu do que falava.

— O que tem a ver que sej a um guerreiro com sua atitude para

com igo?

— Não m e interessam os assuntos do coração — explicou o

hom em .

Johanna endireitou os om bros.

— A m im tam pouco — replicou, para que Gabriel não acreditasse

que a tinha ferido — E eu tam bém queria m e adaptar a conviver com você.

Pela expressão de Johanna, Gabriel com preendeu que tinha ferido

seus sentim entos. Aproxim ou-se, pôs a m ão na nuca, atraiu-a para ele e lhe deu um beij o ardente e prolongado. Johanna lhe envolveu o pescoço com os braços e respondeu ao beij o. Quando o hom em se afastou, Johanna quase caiu do cavalo e Gabriel a segurou pela cintura.

— Prom eta-m e isso antes de irm os.

— Prom eto-o.

Diante da im ediata aceitação de Johanna, Gabriel se anim ou. Mas

isso não durou m uito. Essa m ulher o provocava...!

— Milorde, o que é que prom eti?

— Prom eteu não sair do castelo sem um a escolta apropriada!

Gabriel tinha proposto a si m esm o não gritar, m as esta m ulher o

enlouquecia. Do que estiveram falando nos últim os m inutos?

Johanna acariciou o pescoço de seu m arido, pois o viu carrancudo

e quis acalm á-lo. E acrescentou um elogio a esse gesto carinhoso:

— Para falar a verdade, quando m e beij a esqueço de tudo. Por

isso m e esqueci do que tinha prom etido, m ilorde.

Gabriel não podia lhe reprovar por adm itir a verdade. Em algum as

ocasiões, ele tam bém foi afetado pelos beij os. "Mas não tão freqüentem ente quanto ela", disse a si m esm o.

Johanna passou a perna sobre a sela e tentou descer do cavalo,

m as Gabriel a segurou com força pela cintura e lhe im pediu de m over-se.

— Queria te m ostrar algo. — disse Johanna — Pretendia esperar

até am anhã, pois então teria esquecido o incidente de hoj e, m as m udei de idéia, Gabriel. Quero m ostrar isso agora. Sem dúvida, m inha surpresa o alegrará. Deixe-m e descer.

— Nunca esquecerei o incidente de hoj e. — m urm urou o hom em ,

sem abandonar a expressão som bria. Aj udou-a a descer e a segurou pela m ão quando Johanna tentou afastar-se.

Gabriel se esticou para pegar o arco de Johanna da parte traseira

da sela e em seguida a seguiu ao interior da caverna. Custou-lhe passar pela entrada: teve que se encolher e baixar a cabeça, m as assim que entrou e viu os barris deixou de resm ungar a respeito das m oléstias que a esposa o obrigava a suportar.

O entusiasm o de Johanna pelo achado alegrou m ais a Gabriel que

o tesouro em si.

— Agora tem algo com o qual negociar. — afirm ou a j ovem — Já

não terá que roubar. O que m e diz, m ilorde?

— Ah, Johanna, tira-m e a satisfação da caçada! — replicou.

Isso não agradou Johanna.

— Esposo m eu, é m eu dever salvar sua alm a, e Por Deus que o

tentarei com ou sem sua cooperação.

Gabriel riu e sua risada ressoou em toda a caverna, ricocheteando

de pedra em pedra.

Gabriel conservou o bom hum or até que notou que sua esposa

tinha entrado na caverna sozinha.

— Poderia ter topado com a toca dos lobos! — ralhou de repente.

A abrupta m udança de hum or pegou Johanna de surpresa e a fez

retroceder. Im ediatam ente, Gabriel suavizou o tom .

— O que teria feito se os lobos a tivessem seguido até aqui?

Johanna soube que Gabriel tentava conter-se: na verdade, era um

hom em de bom coração. Com o sabia que não gostava que gritassem , esforçava-se por agradá-la.

Pela expressão do m arido com preendeu que o esforço era terrível.

Não se atreveu a sorrir: Gabriel pensaria que não o levava a sério.

— É verdade, m ilorde, não pensei nessa possibilidade. Estava tão

entusiasm ada quando encontrei a caverna que esqueci toda precaução. Entretanto, — se apressou a acrescentar ao ver que ia interrom per — acho que teria m e virado m uito bem . Sim , sem dúvida. — acrescentou com um gesto afirm ativo — Teria j ogado os barris neles. Na verdade, subi na árvore para escapar dessas bestas horrorosas. Um deles alcançou a bainha da túnica e...

Ao ver a expressão espantada de seu m arido com preendeu que

não devia ter dado tantos detalhes, pois Gabriel com eçou a enfurecer-se outra vez.

Soube então que na verdade o m arido com eçava a querê-la. O

coração de Gabriel com eçava a abrandar-se, em bora ele não quisesse adm itir. Se Johanna não lhe im portasse não teria se inquietado assim ...

Johanna se sentiu satisfeita com essa prova de afeto até que

com preendeu o quanto lhe im portava e então com eçou a preocupar-se. O que im portava que ele a quisesse? Acaso tam bém seu coração se abrandava? "Bom Deus! — pensou — estarei m e apaixonando por este bárbaro?"

Essa perspectiva a perturbou e sacudiu a cabeça. Não tinha

intenções de colocar-se em um a situação tão vulnerável.

Ao ver que franzia o sem blante e em palidecia, Gabriel se sentiu

aliviado e fez um gesto de satisfação: por fim a m ulher com preendia o que poderia ter acontecido.

— Com eçava a achar que carecia com pletam ente de bom senso

— m urm urou.

— Tenho bom senso — alardeou Johanna.

Gabriel não estava disposto a discutir e a arrastou para fora da

caverna. Johanna esperou enquanto o hom em tam pava com pedras a entrada para que os anim ais não pudessem entrar.

No cam inho de volta ao castelo Johanna foi sentada no colo do

m arido. Quando chegaram à colina, o sol brilhava outra vez.

Johanna se esforçou para deixar de lado as preocupações. Afinal

de contas, podia controlar suas próprias em oções e, se não queria am ar Gabriel, pois não o am aria.

— Esposa m inha, está tensa com o a corda de seu arco e,

certam ente, posso entender. Por fim com preendeu o quanto esteve perto da m orte. Apóie-se contra m im e feche os olhos. Tem que descansar.

Johanna fez o que lhe sugeria, m as de qualquer m odo quis ter a

últim a palavra.

— Milorde, em m om ento algum achei que m orreria. Sabia que você ou os soldados m e achariam . Em cim a da árvore estava a salvo.

— Mesm o assim , estava inquieta.

— Claro que estava: debaixo de m im havia lobos selvagens

rondando.

Ficou tensa outra vez, e Gabriel a estreitou.

— Tam bém estava aflita, pois pensou que tinha m e decepcionado

— observou.

Johanna revirou os olhos: sem dúvida este hom em era egocêntrico.

— Im agina que achei que tinha te decepcionado?

Ao detectar o tom divertido de sua voz, Gabriel franziu o

sem blante.

— Claro que sim — respondeu.

— Por quê?

— Por que, o que?

— Por que acreditaria ter te desiludido?

Gabriel exalou um prolongado suspiro.

— Porque com preendeu que tinha m e causado um a preocupação

desnecessária.

— Adm ite que estava aflito por m im ?

— Maldição m ulher, acabo de adm itir!

A j ovem sorriu: outra vez o tom de Gabriel era áspero e, sem

voltar-se para olhá-lo, Johanna soube que estava carrancudo. Deu-lhe um tapinha no braço tentando acalm á-lo.

— Alegra-m e que se preocupasse por m im , em bora não de ter

incom odado.

— Certam ente, foi assim .

Johanna não fez caso da ironia.

— Mesm o assim , deveria confiar em m im , m ilorde. Sei m e

cuidar.

— Johanna, não estou com hum or para suas brincadeiras.

— Não é um a brincadeira.

— Sim , é.

Johanna desistiu de continuar discutindo. Depois de refletir uns

m inutos, com preendeu que na verdade não podia culpá-lo por acreditar que ela era incapaz de cuidar-se. Quando se conheceram , com portou-se com o um a m edrosa e depois sem pre m ostrou acanham ento. Não, não podia culpá-lo por acreditar que Johanna necessitava constante vigilância. Mas esperava fazê-lo m udar de opinião. Não queria que seu m arido continuasse pensando que era um a adoentada.

— Johanna, não quero que conte a ninguém sobre os barris.

— Com o desej ar, m arido. Sabe o que fará com eles?

— Falarem os disso m ais tarde, depois do j antar — prom eteu.

Johanna assentiu e m udou de assunto.

— Com o m e encontrou? Pensei que caçaria o dia todo.

— Houve um a m udança de planos. — explicou — Surpreendem os

Lorde MacInnes e dez de seus soldados cruzando a fronteira.

— Acredita que iam para sua casa?

— Sim .

— O que eles podem querer?

— Saberei quando chegarem — respondeu Gabriel.

— E quando chegarão?

— A últim a hora da tarde.

— Ficarão para j antar?

— Não.

— Seria um a descortesia não convidá-los para com er com você.

Gabriel encolheu os om bros, m as sua falta de interesse não deteve

Johanna. Com o esposa, sentia-se na obrigação de lhe ensinar certas m aneiras.

— Darei ordens aos criados para que preparem lugares na m esa

para seus convidados — afirm ou Johanna.

Esperava que Gabriel discutisse e se sentiu gratam ente surpresa ao

com provar o contrário.

Johanna se concentrou em pensar no m enu. De repente, lhe

ocorreu algo e soltou um a exclam ação:

— Bom Deus! Gabriel, não terá roubado os MacInnes, não é?

— Não — respondeu Gabriel, sorrindo ao perceber o horror na voz

da esposa.

Johanna voltou a relaxar.

— Então não há porque se preocupar de que tenham vindo brigar.

— Brigar com dez soldados? Não, não há porque se preocupar

com isso — disse Gabriel reforçando as palavras. O tom divertido de Gabriel fez Johanna sorrir: seu m arido estava outra vez de bom hum or. Possivelm ente porque teria com panhia.

Johanna se asseguraria de que a refeição fosse agradável. O

guisado de coelho seria insuficiente, a m enos que fosse caçar outra vez, m as desprezou a idéia. Os bichinhos teriam que cozinhar um longo tem po, pois do contrário estariam duros e j á não havia tem po. Johanna resolveu que m udaria de roupa e em seguida iria com entar o problem a com a cozinheira. Hilda saberia com o esticar a com ida e, certam ente, Johanna lhe ofereceria aj uda.

Desej ou poder livrar-se dos MacLaurin por essa noite: eram m uito

ruidosos, bagunceiros e grosseiros. O m odo com o com petiam para ver quem soltava o arroto m ais estrepitoso era m uito desagradável!

Entretanto, não queria feri-los: faziam parte do clã de Gabriel e

não podia deixá-los à parte.

Chegaram ao pátio do castelo. Gabriel desm ontou prim eiro e se

voltou para aj udar Johanna. Sustentou-a m ais tem po do necessário e ela sorriu enquanto esperava que a soltasse.

— Johanna, não se m eterá em m ais problem as. Quero que entre

e...

— Deixe-m e adivinhar, m ilorde. — o interrom peu — Quer que

descanse, não é verdade?

Gabriel sorriu. Deus, ela era encantadora quando se zangava!

— Sim , quero que descanse.

Inclinou-se, beij ou-a e em seguida se voltou para levar o cavalo

para o estábulo.

Pensando nas ordens absurdas do m arido, Johanna sacudiu a

cabeça. Com o ia descansar se esperavam visitas para o j antar?

Correu para dentro, atirou o arco e o coldre ao pé da escada e

subiu ao dorm itório. Em pouco tem po, colocou roupa seca e, com o ainda tinha o cabelo m uito úm ido para trançá-lo, prendeu-o com um a fita na nuca e correu outra vez escada abaixo.

Megan estava j unto à porta, olhando para fora.

— Megan, o que está fazendo?

— Os soldados MacInnes chegaram .

— Tão cedo? — perguntou Johanna aproxim ando-se de onde

Megan estava — Não teríam os que abrir as portas e lhes dar as boas vindas?

Megan negou com a cabeça. Afastou-se para que a senhora

pudesse olhar para fora e m urm urou:

— Algo não está bem , senhora. Note que expressões som brias

trazem . Mas trouxeram um presente para nosso lorde. Vê aquele em brulho envolto em estopa sobre as pernas do lorde MacInnes?

— Me deixem olhar — disse o padre MacKechnie às costas das

duas m ulheres.

Ao voltar-se, Johanna chocou com o sacerdote. Pediu-lhe

desculpas por sua estupidez e lhe explicou por que estava observando os visitantes.

— Com portam -se de m aneira m uito contraditória. — disse —

Têm expressões hostis, m as pelo j eito, trouxeram um presente para o lorde. Possivelm ente essas expressões sej am pura arrogância.

— Não, não acredito. — replicou o padre MacKechnie — Moça,

os highlanders não são com o os ingleses.

— O que quer dizer, padre? Não im porta com o se vestem , os

hom ens sem pre são hom ens.

Antes de responder, o clérigo fechou a porta.

— Em m inha experiência com os ingleses notei um a característica

m uito particular: sem pre parecem ter um a intenção oculta.

— E os highlanders? — perguntou Johanna.

O padre MacKechnie sorriu.

— Som os pessoas sim ples, tal com o nos vê. Entende? Não tem os

tem po para abrigar intenções ocultas.

— Os MacInnes têm essa expressão porque estão zangados por

algo. — interveio Megan — Não são inteligentes o bastante para dissim ulações.

O sacerdote assentiu.

— Nós não gostam os dos subterfúgios. Lorde MacInnes parece tão

furioso quanto um a vespa na qual acabam de bater. Não há dúvida de que está furioso.

— Farei o m elhor que puder para acalm á-lo. Além de tudo, é um

visitante —raciocinou Johanna — Megan, por favor, vá dizer à cozinheira que terem os onze pessoas a m ais para j antar. Não se esqueça de lhe oferecer nossa aj uda para preparar a com ida. Eu irei num m inuto.

Megan correu para cum prir o encargo da am a.

— A cozinheira não se incom odará. — disse por cim a do om bro

enquanto percorria o corredor que conduzia à porta dos fundos — Afinal de contas, é um a MacBain. Sabe que não deve queixar-se.

Ao escutar um a afirm ação tão vaga, Johanna franziu o sem blante.

Que im portância tinha se a cozinheira era MacBain ou MacLaurin? Megan j á tinha desaparecido e Johanna decidiu deixar para m ais tarde as explicações.

Em seguida, o sacerdote atraiu a atenção de Johanna ao abrir a

porta. Johanna se colocou atrás do padre.

— Qual deles é o lorde? — perguntou em um sussurro.

— O ancião de olhos saltados que está sobre o cavalo m anchado

— respondeu o padre MacKechnie — Moça, é preferível que fique aqui até que seu m arido diga se os deixará entrar ou não. Eu sairei e falarei com eles.

Johanna fez um gesto afirm ativo. Ficou atrás da porta, m as espiou

o sacerdote. O padre desceu os degraus e saudou em voz alta.

Os soldados MacInnes o ignoraram . O sem blante dos recém

chegados parecia de pedra. A Johanna pareceu que se com portavam de um m odo estranho: nenhum deles tinha sequer desm ontado. Acaso não sabiam que essa conduta era ofensiva?

Johanna prestou atenção ao lorde. Pensou que o padre

MacKechnie tinha razão: tinha os olhos saltados. Era um ancião de pele enrugada e sobrancelhas espessas. Tinha o olhar fixo em Gabriel. Johanna divisou seu m arido, que estava cruzando o pátio e se deteve a poucos passos dos soldados MacInnes.

O lorde disse algo que enfureceu Gabriel e a expressão de seu

m arido se tornou som bria e gelada. Johanna nunca o tinha visto assim e estrem eceu. Gabriel tinha o aspecto de um hom em disposto a com eçar um a batalha.

Os guerreiros MacBain se colocaram atrás do lorde e os

MacLaurin se uniram a eles.

O lorde dos MacInnes fez um gesto a um de seus hom ens. O

soldado desm ontou rapidam ente e correu até aproxim ar-se do chefe. Eram parecidos e Johanna pensou que devia ser filho. Viu que erguia o grande pacote do colo do pai. Acom odou o peso nos braços, girou e cam inhou até ficar diante do cavalo m anchado. Parou a alguns passos de Gabriel, ergueu o pacote e o j ogou no chão.

O pacote se abriu. O pó flutuou no ar e quando se dissipou Johanna

viu no que consistia o presente do lorde: um a m ulher, tão ensangüentada e m achucada que quase não se reconhecia, caiu do em brulho e rodou até ficar de lado. Estava nua e não tinha um lugar no corpo que não estivesse m achucado.

Johanna cam baleou, afastando-se da porta e soltou um gem ido.

Achou que ia vom itar. A im agem da m ulher ferida a perturbou de tal m odo que quis chorar de vergonha... e gritar de fúria.

Não fez nenhum a das duas coisas, m as sim pegou o arco e as

flechas.

Capítulo 11

 

As m ãos de Johanna trem eram e o único que pensou foi que não

lhe falhasse a pontaria quando m atasse os canalhas que tinham com etido um ato tão perverso.

Gabriel tam bém trem ia de fúria e levou a m ão ao cabo da espada.

Custava-lhe acreditar que um highlander se rebaixasse a com eter um ato tão covarde, m as tinha a prova diante de si.

Lorde MacInnes exibia um ar de com placência consigo m esm o e

Gabriel resolveu que o m ataria prim eiro.

— Você é o responsável por ter golpeado esta m ulher até a m orte?

— Não form ulou a pergunta: uivou-a.

O chefe dos MacInnes franziu o sem blante.

— Não está m orta: ainda respira.

— Você é o responsável? — insistiu Gabriel.

— Sou. — respondeu o lorde, tam bém gritando —. Asseguro.

Para Gabriel soou com o um a bravata e com eçou a tirar a espada.

Ao notar, lorde MacInnes com preendeu o precário de sua situação e se apressou a explicar por que tinha golpeado à m ulher.

— O pai de Clare MacKay a deixou em m inha casa. — gritou —

Estava prom etida a Robert, m eu filho m ais velho. — Fez um a pausa, indicando com um gesto o soldado que estava j unto a seu cavalo e prosseguiu — Eu pretendia unir os dois clãs e assim m e converter em um poder difícil de igualar, MacBain, m as esta cadela se desgraçou faz três m eses e o culpado foi um dos seus. Seria em vão negar, pois três de m eus hom ens viram a túnica com as cores MacBain. Clare MacKay passou toda a noite com esse hom em . A princípio, m entiu; disse que tinha passado a noite com as prim as e eu fui tolo o bastante para acreditar. Mas quando descobriu que estava prenhe teve a ousadia de se gabar do pecado. Não é assim , Robert?

— Sim . — respondeu o filho — Não m e casarei com um a ram eira

— berrou — Um MacBain a desgraçou, e um MacBain pode ficar com ela.

Concluída a afirm ação, o soldado voltou o olhar para a m ulher.

Cuspiu no chão e se adiantou para parar diante da m ulher inconsciente com os braços apoiados na cintura e um a expressão m aliciosa.

Calçava botas. Tom ou im pulso com um pé para dar um chute na

m ulher, m as um a flecha o parou no ar. Robert soltou um grito de dor e cam baleou para trás. A flecha tinha cravado na coxa e, sem deixar de gritar, levou a m ão à perna e girou para ver quem o tinha ferido.

Johanna estava de pé sobre a escada, diante da torre do castelo

com o olhar fixo no soldado. Pôs outra flecha no arco sem afastar o olhar do hom em .

Esperava um pretexto para m atá-lo.

Todos a observavam . Gabriel com eçou a m over-se para intervir

quando Robert elevou outra vez a perna para chutar à m ulher, m as a flecha o feriu antes que pudesse fazê-lo. Gabriel girou, viu a expressão de sua esposa e se dirigiu im ediatam ente para ela.

Durante um longo m om ento, ninguém m ais se m oveu. Era

evidente que os MacLaurin estavam perplexos pelo que acabavam de presenciar e tam bém os MacBain.

O soldado ferido se aproxim ou m ais da m ulher e Johanna pensou

que tentava m achucá-la outra vez.

Não perm itiria que isso acontecesse.

— Tente chutá-la outra vez, e j uro por Deus que lhe atravessarei o negro coração com um a flecha!

A fúria que vibrava na voz de Johanna se abateu sobre o grupo de

soldados. Robert deu um passo atrás. O sacerdote se adiantou. Aj oelhou-se j unto à m ulher caída, fez o sinal da cruz e m urm urou um a bênção.

— Está louca! — sussurrou Robert.

Os seguidores de Gabriel o ouviram e três dos MacBain se

adiantaram , m as Calum os deteve com um gesto.

— Nosso lorde decidirá o que deve ser feito. — afirm ou.

Keith se colocou ao lado de Calum . Não podia conter-se:

— Não está louca. — berrou — Mas certam ente inform arei nosso

lorde o que diz de sua esposa.

— Meu filho não pretendia ofendê-la. — defendeu lorde MacInnes

— Só disse a verdade: olhe seus olhos. Enlouqueceu. E tudo por quê? Por um a ram eira j ogada no chão?

Nesse m om ento, Gabriel não prestava atenção a nada além de

Johanna. Aproxim ou-se dos degraus, m as não a tocou; lim itou-se a colocar-se j unto dela.

Johanna ignorou seu m arido. Virou-se lentam ente até que lorde

MacInnes ficou diante dela.

Sentiu-se satisfeita ao ver que o feio rosto do guerreiro estava

com pletam ente branco e os grossos lábios desenhavam um a careta de m edo.

— Qual de vocês golpeou esta m ulher?

O lorde não respondeu e girou o olhar à esquerda e à direita, com o

se procurasse um a via de escape.

— Não pode m atá-lo. — ordenou Gabriel em tom baixo, para que

só Johanna ouvisse, m as ela não se alterou.

Repetiu a ordem e Johanna m oveu a cabeça. Sem afastar o olhar

do lorde MacInnes, disse ao m arido:

— Acredita que esta m ulher m erecia sem elhante tratam ento?

Pensa que é m enos im portante que um estúpido boi?

— Você sabe o que penso. — replicou Gabriel — Dê-m e seu arco

e suas flechas.

— Não.

— Johanna...

— Olhe o que fizeram ! — exclam ou.

Doeu o coração de Gabriel ao perceber a dor que perm eava a voz

da esposa. Johanna estava a ponto de perder o controle com pletam ente e ele não podia perm itir.

— Não deixe que notem sua angústia — disse — Isso seria um

triunfo para eles.

— Sim — m urm urou Johanna. Trem eram -lhe as m ãos e em itiu

um gem ido.

— Quanto m ais tem po ficam os aqui, m ais tem po passa sem que a

m oça receba cuidados. Dê-m e a arm a.

Johanna não podia:

— Não posso perm itir que a m achuquem m ais, não posso. Não

entende? Tenho que aj udá-la. Roguei que alguém m e aj udasse, m as ninguém o fez. Mas eu sim posso. Tenho que fazê-lo...

— Eu não perm itirei que a m achuquem — prom eteu Gabriel.

Outra vez, Johanna negou com a cabeça e Gabriel resolveu agir de

outro m odo. Pareceu-lhe que tinha transcorrido um a hora desde que se aproxim ara dela; só tinham passado uns m inutos. Mas não im portava a Gabriel o tem po Johanna precisasse para recuperar o controle. Esses canalhas MacInnes teriam que esperar. Claro que Gabriel poderia ter lhe tirado a arm a, m as não quis: queria que ela a entregasse.

— Muito bem . — disse — Então, ordenarei a m eus hom ens que os

m atem a todos. Isso te agradaria?

— Sim .

Gabriel não pôde ocultar seu espanto. Suspirou e se dispôs a dar a

ordem . Não era hom em de alardear. Se a esposa queria que ordenasse m atar aos m iseráveis, a satisfaria. De qualquer m odo, estava esperando um pretexto para fazê-lo! Escutar sua esposa seria desculpa suficiente.

— Calum ! —gritou.

— Sim , MacBain.

— Não! — exclam ou Johanna.

Gabriel se voltou para a esposa.

— Não?

Com lágrim as nos olhos, Johanna disse:

— Não podem os m atá-los.

— Sim , podem os.

Johanna m oveu a cabeça.

— Se deixarm os que a fúria nos faça perder o controle, serem os

tão m aus quanto eles. Faça com que partam : revolvem -m e o estôm ago.

A voz de Johanna tinha recuperado a firm eza e Gabriel fez um

gesto de satisfação.

— Prim eiro, m e dê o arco e as flechas.

Johanna baixou lentam ente os braços. O que aconteceu a seguir a

surpreendeu a ponto de não ter tem po de reagir. Gabriel lhe arrebatou a arm a, fez um sem i-giro, apontou e lançou a flecha com incrível velocidade e pontaria.

Ouviu-se um uivo de dor: a flecha cravou no om bro do m esm o

soldado MacInnes que Johanna tinha ferido. Robert, o filho do lorde, tinha tirado a adaga do cinturão e j á ia arrem essar a arm a quando Gabriel captou o m ovim ento. Nem Calum nem Keith tiveram tem po de lançar um grito de advertência.

Lorde MacInnes sofreu um ataque de raiva, m as a fúria de

Gabriel era pior. Em purrou Johanna colocando-a atrás de si, atirou ao chão o arco e pegou a espada.

— MacInnes, saia de m inhas terras ou o m ato agora m esm o!

Os soldados MacInnes não perderam tem po. Gabriel não deixou

Johanna m over-se até que o pátio ficou livre.

— Keith, que dez soldados MacLaurin os sigam até a fronteira —

ordenou.

— Com o ordenar, MacBain — respondeu Keith.

Assim que seu m arido se m oveu, Johanna deu a volta e baixou

correndo os degraus. Enquanto atravessava o pátio correndo, tirava o cinto. Antes de aj oelhar-se j unto à m ulher j á tinha tirado a túnica e coberto com ela à ferida. Tocou a lateral do pescoço da m ulher golpeada para sentir o pulso e quase chorou de alívio.

O padre MacKechnie pôs um a m ão no om bro de Johanna.

— Será m elhor que a levem os para dentro — m urm urou.

Calum se apoiou sobre um j oelho e se inclinou para levantar a

m ulher, m as Johanna lhe gritou:

— Não a toque!

— Milady, não podem os deixá-la aqui — argum entou Calum ,

tentando fazer com que a senhora fosse razoável. — Deixe que a leve para dentro.

— Gabriel a levará. — disse Johanna, inspirando profundam ente

para acalm ar-se — Não quis gritar com você, Calum ; perdoe-m e, por favor. De qualquer m odo, você não tem que carregá-la, pois os pontos poderiam soltar-se.

Calum assentiu: a desculpa da senhora o surpreendeu e o satisfez.

— Está m orta? — perguntou Keith.

Johanna fez um gesto negativo. Gabriel a aj udou a levantar-se e

em seguida se inclinou para levantar em seus braços à m ulher MacKay.

— Tom e cuidado com ela — m urm urou Johanna.

— Onde quer que a leve? — perguntou Gabriel. Ergueu-se com a

m oça ferida nos braços.

— Dêem -lhe m eu quarto. — propôs o padre MacKechnie — Por

esta noite, encontrarei outro lugar onde dorm ir.

— Acredita que viverá? — perguntou Calum , cam inhando j unto ao

lorde.

— Com o dem ônios posso sabê-lo?

— Viverá — afirm ou Johanna, rogando estar certa.

Calum se adiantou para abrir as portas e Johanna entrou atrás de

seu m arido. Nesse m om ento, Hilda entrava no salão pela porta dos fundos. Viu a senhora e a cham ou.

— Poderia falar um m inuto sobre o m enu desta noite para os

convidados?

— Não terem os convidados. — respondeu Johanna — Preferiria

j antar com o próprio dem ônio ou até com o rei John antes de suportar os MacInnes.

Hilda abriu os olhos, surpresa. Johanna com eçou a subir a escada,

m as se deteve.

— Pelo j eito, hoj e grito com todo m undo. Perdoe-m e, Hilda, por

favor. Não é um bom dia para m im .

Não esperou que Hilda aceitasse a desculpa e correu escada

acim a. Instantes depois, a estranha estava deitada. Gabriel ficou j unto a ela enquanto Johanna a exam inava para ver se tinha ossos quebrados.

— Pelo j eito, está inteira. — m urm urou Johanna — O que m e

preocupa são os golpes na cabeça. Gabriel, olhe o inchaço que tem sobre a têm pora. Não sei quão grave pode ser. Talvez não recupere a consciência.

Johanna não se deu conta de que estava chorando até que seu

m arido lhe ordenou que cessasse de fazê-lo.

— Se desm oronar, não fará nenhum bem a ela. O que precisa é

sua aj uda, não suas lágrim as.

É obvio, tinha razão. Johanna secou as lágrim as com o dorso das

m ãos.

— Por que cortaram seu cabelo desse m odo?

Inclinou-se e tocou a cabeça da m ulher. Clare MacKay tinha

espesso cabelo castanho escuro que caía escorrido, m as que apenas lhe cobria as orelhas. As m echas desiguais indicavam que os MacInnes não tinham usado tesouras e sim um a faca.

Johanna com preendeu que queriam hum ilhá-la: sim , por isso

com eteram um ato tão vil.

— É um m ilagre que ainda respire. — disse Gabriel — Johanna,

faça o possível. Agora, farei o padre MacKechnie entrar para que lhe adm inistre os últim os sacram entos.

Johanna quis gritar que não: a extrem a-unção só se dava às pobres

alm as às portas da m orte. A razão lhe dizia que era algo j usto, m as a m ulher ainda respirava, e não queria sequer pensar que não se recuperasse.

— É só por precaução — insistiu Gabriel, tentando convencê-la.

— Sim . — m urm urou Johanna — É só um a precaução. — ergueu-

se — A deixarei m ais confortável — anunciou em seguida. Atravessou o quarto para pegar a j arra de água e a tigela que estavam sobre a arca e os levou j unto à cam a. Ia deixá-los no chão, m as Gabriel aproxim ou a arca e em seguida se encam inhou para a porta enquanto Johanna corria outra vez pelo quarto em busca de um a pilha de panos de linho.

Gabriel agarrou o trinco da porta, m as de repente se deteve e girou

para sua esposa. Nesse m om ento, Johanna não lhe prestava a m enor atenção. Aproxim ou-se da cam a, sentou-se na borda e m olhou um dos panos na tigela que acabava de encher com água.

— Me diga um a coisa — ordenou Gabriel.

— O que?

— Algum a vez lhe golpearam desta m aneira?

Sem olhá-lo, Johanna respondeu:

— Não.

Em seguida precisou:

— Quase nunca m e batia no rosto ou na cabeça. Mas em um a

ocasião teve m enos cuidado.

— E em outras partes do corpo?

— A roupa ocultava os m achucados — respondeu Johanna, sem

notar o quanto sua resposta afetava Gabriel. Era um m ilagre que ela tivesse aceitado casar-se com ele. Sentiu-se com o um tolo: em lugar de Johanna, certam ente j am ais voltaria a confiar em ninguém !

— Não ficarão cicatrizes. — m urm urou Johanna — Quase todo o

sangue que tinha no rosto era do nariz. É um m ilagre que não o tenham quebrado. É um a linda m ulher, não acha, Gabriel?

— Tem o rosto m uito inchado para saber.

— Não deveriam ter lhe cortado o cabelo. Pelo j eito, esse castigo

insignificante a obcecava.

— Cortar o cabelo foi o m ais leve que lhe fizeram , Johanna. Não

deveriam tê-la golpeado. Tratam m elhor os cães.

Johanna assentiu. "E aos bois", pensou.

— Gabriel?

— O que?

— Me alegro de ter m e casado com você.

Muito envergonhada para olhá-lo, Johanna fingiu estar m uito

atarefada retorcendo o pano para tirar toda a água.

O hom em sorriu:

— Eu sei, Johanna.

Na verdade, essa arrogância era excessiva! Mas o coração de

Johanna se enfraqueceu ao ouvi-lo. Moveu a cabeça e em seguida se concentrou em tirar o sangue do rosto de Clare MacKay. Enquanto o fazia, m urm urava palavras de consolo. Em bora não acreditasse que Clare a ouvisse, a própria Johanna se sentia m elhor repetindo um a e outra vez que agora Clare estava a salvo. Tam bém lhe prom eteu que ninguém voltaria a m achucá-la.

Gabriel abriu a porta e viu que o corredor estava cheio de

m ulheres com a túnica dos MacBain. Diante do grupo estava Hilda.

— Querem os nos oferecer para aj udar a cuidar da m ulher —

disse.

— Antes que entrem , o padre MacKechnie tem que lhe

adm inistrar os últim os sacram entos.

O sacerdote esperava atrás do grupo de m ulheres. Ouviu as

palavras do lorde e im ediatam ente abriu cam inho entre as m ulheres, pedindo paciência. Entrou no quarto, aproxim ou-se dos pés do leito onde apoiou seu saco e tirou um a estola púrpura, longa e estreita. Beij ou am bos os extrem os, m urm urou um as orações e colocou a estola no pescoço.

Gabriel fechou a porta e desceu. Calum e Keith o esperavam ao

pé das escadas e seguiram o chefe ao salão.

Gabriel viu a túnica sobre o chão, diante da lareira e viu que o cão

não estava.

— Onde diabos está Dum fries?

— Rondando por aí — especulou Calum .

— Saiu cedo esta m anhã. — acrescentou Keith.

Gabriel sacudiu a cabeça. Se Johanna soubesse que o cão se foi,

arm aria um escândalo: preocupavam -na os pontos na ferida do anim al.

Com um esforço, Gabriel se concentrou em assuntos m ais

im portantes.

— Calum , reúna todos os soldados MacBain — ordenou — Quero

que cada um deles m e assegure que não tocou em Clare MacKay.

— E acredita...?

Ao ver o sem blante do lorde, Keith se interrom peu.

— Keith, nenhum de m eus guerreiros m entirá a m im — alfinetou

Gabriel.

— E se um deles adm ite ter passado a noite com a m ulher? O que fará nesse caso?

— Isso não é assunto teu, Keith. Quero que vá até o território de

lorde MacKay e lhe conte o que aconteceu hoj e aqui.

— Digo-lhe que a filha está m oribunda ou suavizo as coisas?

— Diga que lhe adm inistraram a extrem a-unção.

— E lhe digo que um MacBain...?

— Conte exatam ente a acusação do lorde MacInnes — ordenou

Gabriel, im paciente — Maldito sej a! Por que não m atei esses m iseráveis quando tive a oportunidade?

— MacBain, se o tivesse feito, teria desencadeado um a guerra —

argum entou Keith.

— A guerra j á foi declarada — disse Gabriel em tom cortante —

Acredita acaso que deixarei passar o fato de que o filho do lorde tentou m atar m inha esposa?

Ao term inar a pergunta, estava gritando. O guerreiro MacLaurin

sacudiu a cabeça.

— Não, lorde — se apressou a exclam ar — Não esquecerá, e eu

estarei do seu lado.

— Melhor para você! — replicou Gabriel.

Calum se adiantou para eles.

— É provável que os MacKay tam bém declarem guerra se

acreditarem que um MacBain com prom eteu Clare MacKay.

— Nenhum de m eus hom ens é capaz de com eter um ato tão

desonroso — afirm ou Gabriel.

Calum fez um gesto afirm ativo, m as Keith não estava convencido.

— MacInnes disse que viram suas cores — recordou ao lorde.

— Estava m entindo — argum entou Calum .

— Lorde MacInnes tam bém assegurou que Clare MacKay adm itiu ter passado a noite com um MacBain — disse Keith.

— Então ela tam bém m entiu.

Gabriel deu-lhes as costas.

— Já atribuí suas tarefas. Cum pram .

Im ediatam ente, os dois soldados partiram do salão e Gabriel ficou

um longo m om ento de pé j unto à cham iné.

Tinha nas m ãos um problem a bastante com plicado. Estava

absolutam ente seguro de que nenhum de seus hom ens era responsável pela desgraça de Clare MacKay. E, entretanto, tinham visto um m anto com as cores dos MacBain... Três m eses atrás.

— Dem ônios! — m urm urou. Se lorde MacInnes dizia a verdade,

havia só um a resposta possível, só um hom em podia ser responsável por esta confusão.

Nicholas.

Capítulo 12

 

Clare MacKay não despertou até a m anhã seguinte. Johanna

perm aneceu com ela quase toda a noite, até que Gabriel entrou no quarto e quase a arrastou para fora. Hilda a substituiu de boa vontade no cuidado da doente.

Johanna acabava de retornar ao quarto e de sentar-se em um a

cadeira j unto à cam a de Clare quando a m oça abriu os olhos e lhe falou.

— Ouvi que m e sussurrava.

Johanna se sobressaltou. Levantou-se de um salto e se aproxim ou

de Clare.

— Está acordada — m urm urou, aflita de alívio.

Clare assentiu.

— Com o se sente? — perguntou-lhe Johanna.

— Dói-m e tudo, da cabeça até os pés.

— Você está m achucada da cabeça aos pés — respondeu Johanna

— Tam bém dói a garganta? Está rouca.

— É que gritei m uito. — disse Clare — Poderia m e dar um pouco

de água?

Johanna correu procurar a taça. Aj udou Clare a sentar-se com a

m aior suavidade possível e, m esm o assim , a m ulher fez um a careta de dor. Quando agarrou a taça, a m ão lhe trem ia.

— Um sacerdote esteve aqui? Acho que ouvi alguém rezar.

— O padre MacKechnie lhe adm inistrou os últim os sacram entos.

— explicou Johanna. Deixou a taça sobre a arca e voltou a sentar-se na cadeira — Não sabíam os se sobreviveria. Foi só um a precaução — acrescentou depressa.

Clare sorriu: tinha form osos dentes brancos e olhos castanho-

escuros. Claro que o rosto ainda estava m uito inchado e, ao ver que tentava não se m over, Johanna soube que devia sofrer dores intensas.

— Quem lhe fez isto?

Clare fechou os olhos e evitou a pergunta form ulando outra.

— A outra noite... você disse que eu estava a salvo. Recordo que

m e disse isso baixinho. Era verdade? Estou segura aqui?

— É obvio que sim .

— Onde estam os?

Sem dem ora, Johanna se apresentou e lhe explicou o acontecido,

sem m encionar que tinha cravado um a flecha na coxa de Robert MacInnes e que o m arido tinha lançado outra no om bro. Quando finalizou, Clare com eçava a ficar sonolenta.

— Falarem os m ais tarde. — prom eteu — Agora durm a, Clare.

Pode ficar conosco o tem po que desej ar. Dentro de um instante Hilda lhe trará algo para com er. Você...

Ao ver que Clare MacKay estava profundam ente adorm ecida,

Johanna parou de falar. Agasalhou a m oça, arrastou a cadeira para trás e saiu.

Quando Johanna entrou na antecâm ara conj ugal, Gabriel estava

colocando as botas.

— Bom dia, m ilorde. — o saudou — Dorm iu bem ?

Gabriel ficou carrancudo. Johanna foi até a j anela e tirou as peles

que a cobriam . Ao ver o tom dourado do céu soube que fazia poucos m inutos que tinha am anhecido.

— Disse que ficasse na cam a. — disse o hom em — Acaso

esperou que dorm isse para voltar a sair?

— Sim .

O sem blante de Gabriel ficou m ais som brio e Johanna tratou de

suavizá-lo.

— Pensei em descansar uns m inutos antes de descer. Estou

fatigada.

— Parece m eio m orta.

— Minha aparência não tem im portância — afirm ou, enquanto

arrum ava uns cachos soltos e tentava colocá-los de novo na trança.

— Venha aqui, Johanna.

A j ovem atravessou o quarto e se deteve diante dele. Gabriel

desatou o cinto que segurava a túnica.

— Ficará onde eu a colocar. — Afirm ou.

Johanna deu-lhe um a palm ada nas m ãos.

— Milorde, eu não sou um a j óia nem um a quinquilharia que pode

tirar de um a prateleira quando assim o desej ar.

Gabriel segurou-lhe o queixo, inclinou-se e a beij ou. Só queria que

m udasse de hum or, m as os lábios de Johanna eram tão suaves e excitantes que esqueceu. Rodeou-a com os braços e a ergueu.

Os beij os de Gabriel a fizeram sentir-se fraca e aturdida. Rodeou-

lhe a cintura com os braços e apertou-se contra ele, pensando que estava tudo bem perm itir que a distraísse de seus pensam entos. Acaso não era seu m arido? Além disso, enquanto a beij ava não podia ficar carrancudo... nem recrim iná-la.

Não lem brava de ter se despido nem m etido na cam a. Gabriel

deve tê-la levado e ele tam bém se despiu. Cobriu-a com seu corpo, tom ou o rosto entre as m ãos e lhe deu um beij o arrasador, esfregando sua língua contra a de Johanna.

A j ovem adorava tocá-lo, sentir a pele cálida do m arido sob os

dedos, acariciar os m úsculos fortes dos antebraços e dos om bros. Ao envolvê-lo com os braços, Johanna sentia que captava a energia e a força do hom em .

Para Johanna, Gabriel era um a m aravilha, um a descoberta.

Em bora fosse o m ais hábil e forte dos guerreiros, quando a acariciava era incrivelm ente suave.

Saber que podia fazê-lo perder o controle a encantava e não

precisava im aginar: Gabriel o dizia. Com ele, sentia-se... livre, desinibida, pois o m arido gostava de tudo o que ela desej ava fazer.

Claro que Gabriel tam bém fazia Johanna perder o controle. Não

era que gritasse, m as quando Gabriel deixava de excitá-la e se m ovia para penetrá-la, Johanna estava desesperada para que ele pusesse fim a essa doce tortura.

A m ulher gritou quando a penetrou, e o hom em se deteve

im ediatam ente.

— Por Deus, Johanna, não quis...!

— Oh, Deus, espero que queira sim ! — m urm urou Johanna.

Cravou as unhas em suas costas, rodeou-lhe as coxas com as pernas e se apertou contra ele — Gabriel, agora não quero que se detenha, quero que se m ova.

Gabriel acreditou que tinha m orrido e estava no paraíso. Sem fazer

caso da exigência de Johanna, apoiou-se sobre os cotovelos e a olhou nos olhos. Ao ver neles tanta paixão, quase perdeu o controle. Senhor, era tão linda... E se entregava por inteiro!

— É um a m oça lasciva. — provocou com a voz rouca — Gosto

disso. — acrescentou com um gem ido, enquanto Johanna se rem exia contra ele.

Gabriel acendeu nela a paixão e agora se negava a lhe dar o alívio

ou a procurar o próprio.

— Marido, esta atividade requer sua participação. — protestou,

frustrada além de todo lim ite.

— Prim eiro queria te enlouquecer — disse Gabriel em um rouco

m urm úrio.

Resultou em um a am eaça vazia, pois Gabriel sentiu que era ele

quem perdia a cabeça quando Johanna o atraiu para si, beij ou-o com paixão e se m oveu provocadora contra ele. A força de vontade o abandonou. Com eçou a m over-se de m aneira com pulsiva e exigente, em bora não m ais que sua esposa.

Alcançaram o prazer j untos. Johanna abraçou o m arido sentindo

que sucessivas ondas de êxtase a inundavam . Entre seus braços fortes se sentia segura, saciada e quase am ada. Era m ais do que j am ais tinha tido e m ais do que tinha sonhado.

Dorm iu suspirando.

Gabriel acreditou que a tinha esm agado, pois Johanna soltou-se por

inteiro entre seus braços. Virou de lado, m urm urou o nom e da m ulher, e ela não respondeu. Mas respirava. Teria desm aiado de paixão? Gabriel sorriu, satisfeito com essa possibilidade, em bora não se enganasse. Na realidade, Johanna estava exausta. Tinha passado quase a noite toda cuidando da enferm a.

Inclinou-se sobre ela, beij ou-lhe a testa e saiu da cam a.

— Descansará — m urm urou, e sorriu. "Agora esta m ulherzinha

m e obedece". Claro que não escutou a ordem , pois j á estava profundam ente adorm ecida, m as m esm o assim regozij ava-se por ter dado um a ordem e saber que obedeceria.

Agasalhou a esposa, vestiu-se e saiu em silêncio do quarto.

O dia tinha com eçado de m aneira agradável, m as não dem orou a

desandar. Calum esperava o lorde no salão para anunciar que tinha chegado outro pedido do barão Goode solicitando um a audiência com lady Johanna. Outra vez, o m ensageiro chegava do feudo do lorde Gillevrey e esperava j unto a Calum para receber a resposta de Gabriel.

— O barão espera no lim ite de suas terras? — perguntou Gabriel.

— Não, lorde. Enviou um representante. Propõe-se a convencer

lady Johanna de que se encontre com o barão Goode perto da fronteira com a Inglaterra.

Gabriel m eneou a cabeça.

— Minha esposa não irá a lugar algum . Não quer falar com o

barão Goode. Agora a Inglaterra é parte de seu passado e aqui só pensa no futuro. Diga a seu lorde que agradeço por atuar com o interm ediário e que lam ento que o inglês lhe tenha causado aborrecim ento. Acharei um a form a de com pensar seus esforços por m anter o barão e seus vassalos longe de m inhas terras.

— O que quer que diga ao representante? — perguntou o soldado

— Eu m em orizarei cada palavra, lorde MacBain, e as transm itirei tal com o você as diga.

— Diga que m inha esposa não falará com nenhum barão e que

seria m uito tolo se continuasse im portunando-a.

O m ensageiro fez um a reverência e saiu do salão. Gabriel se

dirigiu a Calum .

— Não dirá a m inha esposa. Não tem nenhum a necessidade de

saber que o barão continua tentando vê-la.

Continuar: parte 9 de 15