Um Amor Para Lady Johanna

Julie Garwood · Capítulo 2 de 2 · parte 4/15

Páginas do PDF

Um Amor Para Lady Johanna

Sinopse

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 15 partes.

— Tem opiniões tolas. Preferiria um a esposa que estivesse sem pre

de acordo com igo.

Irritada, Johanna com eçou a tam borilar os dedos sobre o peito do

hom em e Gabriel pôs a m ão em cim a da dela para detê-la.

Johanna soltou um sonoro bocej o indicando que desej ava dorm ir.

Um m arido gentil teria cessado im ediatam ente com essa sucessão de ofensas. Mas Gabriel não era particularm ente gentil.

— A coisa m ais insignificante a sssusta — assinalou, recordando a

expressão do rosto de Johanna quando viu o cão. — Teria gostado de um a m ulher que assustasse m eu cão — acrescentou.

O calor que irradiava do corpo de Gabriel a deixava letárgica.

Johanna cruzou um a perna sobre as coxas do m arido e se aproxim ou m ais.

— É m uito m agra. — disse então Gabriel — O prim eiro vento do

norte a levaria. Queria um a m ulher m aior e forte.

Estava m uito sonolenta para discutir com o m arido e a fúria exigia

m uita concentração. Johanna adorm eceu ouvindo com o o m arido continuava enum erando seus incontáveis defeitos.

— Esposa, é m uito ingênua — disse, ao recordar o que Johanna lhe

disse sobre o clim a quente das Highlands: tinha acreditado na flagrante m entira do irm ão.

— Sim , é m uito ingênua — repetiu.

Passaram alguns m inutos até que por fim Gabriel decidiu

responder à pergunta da m ulher.

— Johanna?

A j ovem não lhe respondeu. Gabriel se inclinou, beij ou-a no alto

da cabeça e m urm urou:

— É verdade: estou contente de ter m e casado com você.

Capítulo 6

 

Johanna despertou escutando golpes, seguidos de um estalo.

Acreditou que o teto tinha desabado. Ergueu-se de repente no m om ento em que a porta se abria e Gabriel entrava. Johanna agarrou as m antas e as ergueu para cobrir os seios.

Im aginou que teria um aspecto horroroso. O cabelo caía sobre o

rosto lhe obstruindo a visão. Segurou as m antas com um a das m ãos e com a outra afastou o cabelo do rosto.

— Bom dia, lorde MacBain.

O pudor da m ulher pareceu divertido Gabriel ao lem brar que

nessa noite tinha percorrido cada centím etro de seu corpo. Além disso, Johanna estava ruborizada.

— Depois da noite passada acho que não precisa se envergonhar

diante de m im , Johanna.

A m ulher assentiu:

— Tentarei não m e sentir incom odada — prom eteu.

Gabriel se aproxim ou dos pés da cam a. Com as m ãos nas costas

olhou carrancudo para a esposa.

Johanna sorriu.

— Não é de am anhã —a inform ou — m as sim de tarde.

Johanna abriu os olhos surpresa.

— Estava esgotada. — se defendeu, por ter dorm ido parte do dia

— Milorde, costum o acordar ao am anhecer, m as a viagem até aqui foi exaustiva. O que é esse barulho que ouço? — perguntou, para não continuar falando de sua preguiça.

— Os hom ens estão fazendo o novo teto do salão principal.

Gabriel notou as olheiras de Johanna e a palidez e lam entou tê-la despertado. Então, recom eçaram as m arteladas e com preendeu que, de qualquer m aneira, o barulho a teria despertado. Pensou que não devia ter perm itido que o trabalho do telhado com eçasse nesse dia: a noiva necessitava descanso, não distração.

— Queria algo, m ilorde?

— Queria lhe dar instruções.

Johanna sorriu, esperando que isso dem onstrasse que estava

disposta a aceitar qualquer tarefa que Gabriel indicasse.

— Hoj e usará a túnica dos MacBain e am anhã a m udará pela que

tem as cores dos MacLaurin.

— Sério?

— Sim .

— Por quê?

— É a senhora dos dois clãs e não tem que pender para nenhum a

das duas facções. Seria um insulto se usasse as m inhas cores por dois dias seguidos. Entende?

O lorde acreditou ser m uito claro.

— Não. — respondeu a esposa — Não entendo. Acaso não é o

lorde dos dois clãs?

— Certam ente.

— E, portanto é o líder de todos?

— Sim .

A voz e a expressão de Gabriel eram arrogantes. E sua presença...

autoritária. Pairava acim a da cam a. Mesm o assim , na noite passada tinha sido extrem am ente gentil. A lem brança do ato de am or fez Johanna suspirar.

— Agora m e entende? — perguntou Gabriel, perplexo pela

expressão confusa da esposa.

Johanna m oveu a cabeça tratando de esclarecê-las idéias.

— Não, ainda não com preendo. — confessou — Se for...

— Não é sua tarefa com preender — afirm ou.

A m ulher ocultou sua exasperação. Pelo j eito, o m arido queria sua

aceitação, m as não a teria. Lim itou-se a olhá-lo fixam ente, esperando outra afirm ação irritante.

— Darei m ais um a instrução. — disse Gabriel — Não quero que

se encarregue de nenhum tipo de trabalho. Quero que descanse.

Johanna achou que não tinha escutado direito.

— Que descanse?

— Sim .

— Quer m e explicar por quê?

Ao ver a expressão incrédula da m ulher, Gabriel franziu o

sem blante. Parecia-lhe óbvio que precisava descansar, m as se queria voltar a ouvi-lo, repetiria.

— Levará tem po para se recuperar.

— Me recuperar do que?

— Da viagem .

— Mas j á m e recuperei, m ilorde. Dorm i toda a m anhã e j á m e

sinto descansada.

O hom em se voltou para sair, m as Johanna cham ou:

— Gabriel!

— Pedi que não m e cham asse assim .

— Ontem à noite m e pediu que dissesse seu nom e — recordou.

— Quando?

Johanna se ruborizou.

— Quando estávam os... nos beij ando.

Gabriel recordou.

— Isso é diferente — disse.

— O que é diferente? Beij ar-m e ou m e pedir que pronuncie seu

nom e?

O hom em não respondeu.

— Gabriel é um nom e bonito.

— Não pretendo discutir — afirm ou.

Johanna não soube com o reagir e decidiu deixar de lado no

m om ento a questão do nom e. O m arido j á tocava o puxador da porta, m as Johanna queria lhe pedir algo antes que partisse.

— Poderia ir caçar esta tarde?

— Acabo de dizer que quero que descanse. Não m e obrigue a

repeti-lo.

— Milorde, o que diz não tem sentido.

Gabriel voltou e se aproxim ou outra vez da cam a. Parecia um

tanto irritado.

De repente, Johanna descobriu que não a intim idava e sorriu. Não

entendia por que se sentia desse m odo, m as era assim . Na realidade, estava expressando o que sentia e era a prim eira vez depois de m uitíssim o tem po. Era um a sensação... libertadora.

— Já disse que m e recuperei da viagem — o recordou.

Gabriel segurou-a no queixo e a obrigou a olhá-lo nos olhos. Quase

sorriu ao ver a expressão zangada da m ulher.

— Há outro m otivo pelo qual quero que descanse.

Johanna afastou a m ão do hom em com suavidade: doía-lhe o

pescoço de olhar para cim a.

— Que m otivo poderia ser, m ilorde?

— É delicada.

Johanna negou com a cabeça.

— Meu m arido, ontem à noite disse isso, m as não era verdade e

tam pouco o é agora.

— É delicada, Johanna. — repetiu Gabriel, sem dar atenção ao

protesto — Levará um tem po para fortalecer-se. Em bora você não saiba, eu sou consciente de suas lim itações.

Não lhe deu tem po para discutir: inclinou-se, beij ou-a e saiu do

quarto.

Assim que a porta se fechou atrás do hom em , Johanna afastou as

m antas e saltou da cam a.

Com o era possível que o m arido form asse um a opinião tão

inflexível a respeito de suas características em tão pouco tem po? Ignorava as lim itações de Johanna, pois fazia m uito pouco que a conhecia. Era ilógico que tirasse conclusões a respeito dela.

Enquanto se lavava e se vestia, Johanna continuou refletindo sobre

o m arido. O padre MacKechnie tinha lhe explicado que vestim entas usar debaixo da túnica. Colocou o traj e das Highlands: um a blusa branca de m angas longas, um a saia e em seguida colocou a túnica dos MacBain. Arrum ou-a em dobras perfeitas em torno da cintura, passou sobre o om bro direito um a ponta do longo tecido de m odo que lhe cobrisse o peito e o prendeu com um cinturão estreito de couro castanho.

Pensou em procurar seu arco e suas flechas sem dar atenção à

ordem do m arido, m as logo desistiu. Talvez não fosse conveniente enfrentá-lo de m aneira direta. Já tinha com preendido que era um hom em orgulhoso e duvidava de que ganharia algum a coisa se o desafiasse.

Mas havia m ais de um m odo de entrar em um castelo. A m ãe de

Johanna costum ava m urm urar quando discutia com seu pai. A m ãe de Johanna era um a m ulher sábia. Claro que era leal ao m arido, m as ao longo dos anos, tinha aprendido com o vencer a obstinação do m arido e Johanna aprendeu pelo exem plo da m ãe. A m ulher era cheia de provérbios sábios que tinha passado à filha. Explicava que não tentava m anipular o m arido porque isso teria sido desonroso e, afinal de contas, nem sem pre os fins j ustificavam os m eios. No entanto, era m uito inteligente e geralm ente encontrava a m aneira de conciliar a todos os habitantes da casa.

Sem que a m ãe soubesse, o pai tam bém levava Johanna à parte

quando tinha discutido com a esposa. Tam bém lhe dava conselhos, explicava os delicados m étodos que em pregava para sair-se bem com a esposa quando esta se m ostrava teim osa. Para Johanna, as recom endações da m ãe tinham m ais sentido que as do pai, em bora deste tenha aprendido algo m uito im portante: que am ava à esposa e que teria feito qualquer coisa para vê-la feliz. Só que não queria que a m ulher soubesse. Os dois j ogavam esse j ogo de esconde-esconde no qual am bos eram vencedores. Para Johanna parecia que o casam ento dos pais era um tanto estranho, m as tinham sido m uito felizes j untos e isso era o m ais im portante.

Johanna só pretendia viver um a vida tranqüila e agradável. Para

conseguir isto, se asseguraria de não introm eter-se no cam inho do m arido. Não se m eteria nos assuntos de Gabriel e faria um sincero esforço para dar-se bem com ele. Em retribuição, esperava que ele tam bém tentasse dar-se bem com ela e não se introm etesse em seu cam inho. Depois dos anos passados com Raulf, Johanna estava convencida de que seria feliz se a deixassem em paz.

Concentrou-se em arrum ar o quarto. Fez a cam a, varreu o chão,

desem pacotou a roupa e a guardou no baú e em seguida colocou suas três sacolas debaixo da cam a. Tinha pressa em sair, pois o dia estava esplêndido. Quando tirou a pele que cobria a j anela, a luz do sol inundou o quarto e o cheiro das Highlands perfum ou o ar. A vista era tão bela que tirava o fôlego: o cam po j unto ao rio, verde com o as esm eraldas, m ais adiante as colinas povoadas de pinheiros gigantes e carvalhos. Manchas de cor salpicavam a paisagem : as flores silvestres eram verm elhas, rosadas e purpúreas e m argeavam um a trilha sinuosa que parecia o cam inho ao paraíso.

Depois de se refrescar, Johanna decidiu levar o pequeno Alex para

dar um passeio pelo cam po e subir por essa trilha. Colheria m uitas flores na saia para colocar sobre a saliência da lareira.

Não foi fácil encontrar o m oço. Desceu as escadas e parou na

entrada do grande salão esperando que algum dos soldados reparasse nela. Havia quatro hom ens derrubando a parede do lado oposto e outros três sobre o teto, trabalhando com as tábuas.

Todos a viram im ediatam ente e os golpes cessaram . Os hom ens a

olharam e Johanna fez um a pequena reverência a título de saudação e lhes perguntou se sabiam onde estaria Alex.

Nenhum respondeu e Johanna se sentiu desconfortável. Repetiu a

pergunta, m as com o olhar fixo no soldado que estava de pé diante da lareira. O hom em lhe sorriu, coçou a barba e deu de om bros.

Por fim , o prim eiro com andante de Gabriel explicou:

— Eles não a entendem , m ilady.

Voltou-se sorrindo para o soldado.

— Só falam gaélico, senhor?

— Sim . — respondeu o hom em — Só falam gaélico. Por favor,

não m e cham e de senhor. Sou só um soldado aqui. Prefiro que m e cham e de Calum .

— Com o quiser Calum .

— É um a garota bonita para usar nossas cores.

Pareceu envergonhado ao fazer o elogio.

— Obrigado — respondeu Johanna, perguntando-se o que quisera

dizer com "bonita".

Voltou-se para os hom ens que a observavam e repetiu a pergunta

em gaélico, com a testa sulcada por rugas de concentração. Esse idiom a era difícil, quase im possível de pronunciar, ainda m ais levando em conta que estava nervosa, m as quando term inou a pergunta só o m ais velho dos hom ens fez um a careta. Outros sorriram .

No entanto, nenhum respondeu, m as todos olharam para a bainha

do vestido de Johanna. A j ovem se olhou para ver qual era o problem a e em seguida voltou-se para Calum em busca de um a explicação. Notou que os olhos do hom em brilhavam divertidos.

— Milady, na realidade lhes perguntou se sabiam onde estão os

seus pés.

— O que quis perguntar é se tinham visto o filho de Gabriel —

explicou.

Calum lhe disse a palavra correta e Johanna repetiu a pergunta.

Os hom ens negaram com a cabeça. Agradeceu-lhes a atenção e

dando-a volta partiu. Calum se apressou a adiantar-se para abrir a porta.

— Tenho que m elhorar m inha pronúncia. — afirm ou — Pela

expressão de um dos cavalheiros notei que estava fazendo um a confusão.

"Sim ", pensou Calum . Mas não disse nada, pois não queria ferir os

sentim entos da senhora.

— Milady, os hom ens valorizam o fato de ter tentado.

— É esse “r” gutural, Calum . — disse Johanna — Ainda não m e

sai bem . É um idiom a difícil. — acrescentou — Se você quisesse, poderia m e aj udar.

— Com o? — perguntou o hom em .

— A partir deste m om ento, dirij a-se a m im só em gaélico. Acho

que se for o único que eu escute, aprenderei m ais rápido,

— Certam ente — disse Calum , em gaélico.

— Com o?

— Disse "certam ente", m ilady.

A j ovem sorriu.

— Viu Alex?

Calum negou com a cabeça.

— É provável que estej a nos estábulos — respondeu em gaélico,

apontando em direção aos estábulos para aj udá-la a entender.

Com o Johanna se concentrou em entender o que Calum lhe dizia,

não notou o que acontecia no pátio. Tinha soldados em toda parte, m as a j ovem não prestou atenção ao que estavam fazendo.

Por fim entendeu o que Calum dizia, agradeceu e correu através

do pátio.

De repente se encontrou no m eio de um exercício de treinam ento.

Calum a agarrou pelos om bros e a afastou para trás bem a tem po: um a lança tinha estado a ponto de cravar-se no m eio do seu corpo.

Um dos soldados MacLaurin soltou um a blasfêm ia. Gabriel, que observava o exercício do lado oposto, viu o incidente e im ediatam ente deu ordem para parar o treinam ento.

Johanna ficou horrorizada com seu próprio com portam ento.

Envergonhou-se do seu descuido. Ergueu a lança que o soldado tinha deixado cair e a entregou. O rosto do hom em estava rubro e Johanna não soube se de fúria ou de desconforto.

— Rogo que m e perdoe, senhor. Não prestei atenção aonde ia.

O soldado m oreno fez um breve gesto de assentim ento. Calum

ainda a segurava pelos om bros e a fez retroceder com suavidade.

Johanna se voltou para agradecer pela velocidade com que tinha

ido ao seu socorro e então viu o m arido que se aproxim ava dela. Quando viu sua expressão, o sorriso de Johanna se apagou.

Todos os soldados a observavam . Os guerreiros MacBain sorriam e

os MacLaurin franziam o sem blante.

Essa reação contraditória a confundiu. Mas Gabriel j á estava

diante dela e lhe obstruía a visão. A atenção de Gabriel estava fixa em Calum e Johanna com preendeu que o hom em ainda a segurava pelos om bros. No instante em que a soltou, o lorde voltou para sua esposa o rosto carrancudo.

O m edo acelerou os batim entos do coração de Johanna. Fez um a

tentativa desesperada para m anter a com postura, pois não desej ava revelar a Gabriel o quão assustada estava.

Não quis lhe dar tem po para que a repreendesse:

— Milorde, estava distraída e sei que estava errada. Poderiam ter

m e m atado.

Gabriel negou com um gesto.

— Não teriam m atado. Insultou Calum ao sugerir que ele poderia

perm itir que lhe ferissem .

Não pensava discutir com o m arido.

— Não quis ofender. — disse, e se voltou para Calum — Por favor,

aceite m inhas desculpas. Quis suavizar o aborrecim ento de m eu m arido m e adiantando e adm itindo m inha estupidez.

— Tem problem as de visão? — perguntou Gabriel.

— Não.

— Então por que, em nom e de Deus, não viu que m eus hom ens

estavam lutando com arm as?

A j ovem interpretou a irritação do m arido com o aborrecim ento.

— Já expliquei, m ilorde, estava distraída.

O m arido se lim itou a continuar olhando-a fixam ente, esperando

que passase a exasperação. Ao vê-la tão perto da m orte o assustou m uito e levaria um tem po para superar.

Fez-se um prolongado silêncio e Johanna acreditou que seu m arido

estava pensando em com o castigá-la.

— Desculpe-m e por ter interrom pido esta tarefa tão im portante.

— disse — Se quer m e castigar, por favor, faça-o agora. A espera é insuportável.

Calum não podia acreditar no que ouvia.

— Milady...

Gabriel o interrom peu com um gesto.

No m esm o instante em que ergueu a m ão, Johanna retrocedeu.

Era um a reação aprendida no passado e quando notou o que fazia voltou para seu lugar.

Seria m elhor que ele com preendesse que não perm itiria a

repetição desse passado.

— Milorde, quero preveni-lo de algo. Não posso im pedir que m e

castigue, m as no instante em que o faça partirei daqui.

— Não acha que nosso lorde...

— Calum , não interfira — disse Gabriel em voz dura.

Estava furioso pelo insulto que sua esposa acabava de lhe desferir,

m as com preendeu que o tem or era genuíno. Teve necessidade de lem brar que Johanna não o conhecia bem e, em conseqüência, tinha tirado conclusões precipitadas.

Pegou na m ão de Johanna e com eçou a subir os degraus, m as ao

ouvir as m arteladas, m udou de direção. Queria que tivessem privacidade para esta im portante conversa.

Quando Gabriel voltou-se, Johanna tropeçou em um degrau,

endireitou-se e se apressou a segui-lo. Calum sacudiu a cabeça ao ver o lorde arrastar a sua dam a atrás dele. O que o preocupava não era a estupidez de Johanna e sim a palidez que viu no rosto da senhora. Achava que o lorde a levaria a um lugar discreto para poder golpeá-la sem testem unhas?

Keith, o ruivo chefe dos soldados MacLaurin, aproxim ou-se do

Calum .

— O que o preocupa? — perguntou.

— Lady Johanna. — respondeu Calum — Alguém lhe encheu a

cabeça de contos terroríficos a respeito de nosso lorde. Acho que o tem e.

Keith soprou.

— Há m ulheres que dizem que a senhora tem e a sua própria

som bra. Já lhe deram um apelido. — acrescentou — Assim que a viram , apelidaram -na de "Valente". É um a vergonha que zom bem dela, que a j ulguem sem dar oportunidade de conhecê-la.

Calum estava furioso. Claro que ao cham á-la "Valente" queriam

dizer exatam ente o contrário: consideravam -na um a covarde.

— Será m elhor que MacBain não saiba disto. — advertiu — Quem

com eçou com este absurdo?

Keith não estava disposto a dar o nom e, pois a m ulher era um a

MacLaurin.

— Não im porta quem . — respondeu — O apelido pegou. O m odo

com o lady Johanna trem eu ao ver o cão do lorde fez com que algum as m ulheres sorrissem zom beteiras, e quando viram a expressão tem erosa que adotava cada vez que MacBain lhe dirigia a palavra, as levou a conclusão de que...

Calum o interrom peu:

— Talvez sej a tím ida, m as não acho que sej a covarde. Keith, seria conveniente que incutisse o tem or a Deus em suas m ulheres. Acham -se m uito astutas com esse j oguinho. Se escutar o apelido de algum MacLaurin, tom arei represálias.

Keith fez um gesto de assentim ento.

— Para você é m ais fácil aceitá-la — disse — Mas para os

MacLaurin custa perdoar. Recorda que foi o prim eiro m arido de lady Johanna quem destruiu tudo o que nos deu tanto trabalho construir. Levará tem po para esquecer.

Calum m oveu a cabeça.

— Um highlander nunca esquece e você sabe tão bem quanto eu.

— Perdoar, então — sugeriu Keith.

— A m ulher não teve nada a ver com as atrocidades que

com eteram aqui. Não precisa que ninguém a perdoe. Recorde às m ulheres essa im portante verdade.

Keith assentiu, em bora não achasse que isso servisse m uito. As

m ulheres estavam contra Johanna e não lhe ocorria o que podia dizer para fazê-las m udar de opinião.

Os dois guerreiros, com o olhar fixo sobre o lorde e a esposa,

observaram -nos até que desapareceram atrás da colina.

Gabriel e Johanna j á estavam sozinhos, m as o hom em ainda não

se detinha. Continuou cam inhando até chegar ao cam po. Queria livrar-se da cólera antes de falar com sua esposa.

Finalm ente, deteve-se e voltou-se para Johanna. A m ulher não o

olhou. Tentou largar da m ão de Gabriel, m as ele a im pediu.

— Infligiu-m e um a grave ofensa ao sugerir que eu fosse capaz de

m achucá-la.

Surpresa, Johanna abriu os olhos: Gabriel parecia tão furioso a

ponto de m atar alguém . Mas se sentia ferido e Johanna achou que bateria nela.

— Esposa, não tem nada para m e dizer?

— Interrom pi o treinam ento.

— Sim !

— Quase fiz com que um soldado m e ferisse.

— Sim !

— E você parecia m uito zangado.

— Estava zangado!

— Gabriel! Por que grita?

O hom em suspirou.

— Eu gosto de gritar.

— Estou vendo.

— Pensei que chegaria a confiar em m im , m as agora m udei de

idéia: confiará em m im . — ordenou — Agora m esm o.

Disse com o se fosse tão sim ples.

— Não sei se é possível, m ilorde. A confiança se conquista.

— Nesse caso, resolva que conquistei, dem ônios! — ordenou —

Diga que confia em m im , m aldição, e diga-o a sério!

Sabia que estava pedindo o im possível e suspirou outra vez.

— Aqui, nenhum hom em pode bater na esposa. Johanna, só um

covarde seria capaz de m altratar um a m ulher e nenhum de m eus hom ens é covarde. Neste lugar não há nada a tem er nem de m im nem de nenhum outro. Perdoarei o insulto porque não sabia. Mas no futuro não serei tão tolerante e convém que o recorde.

Johanna o olhou nos olhos.

— E se no futuro o insulto? O que fará?

Gabriel não tinha a m enor idéia, m as não estava disposto a adm iti-

lo.

— Não voltará a acontecer.

Johanna assentiu. Voltou-se e com eçou a cam inhar de volta ao

pátio, m as em seguida m udou de idéia.

Seu m arido m erecia um a desculpa.

— Às vezes reaj o sem pensar. Com preende, m ilorde? Pelo j eito, é

um instinto. Na verdade, tentarei confiar em você e agradeço sua paciência.

A j ulgar pelo m odo com o retorcia as m ãos, Gabriel com preendeu

que a confissão não era nada fácil para Johanna. Tinha a cabeça encurvada e a voz soou angustiada quando acrescentou:

— Não sei por que espero o pior. Se tivesse acreditado que m e

m altrataria j am ais teria m e casado com você e, m esm o assim , há um a pequena parte de m im que resiste a acreditar.

— Você m e agrada, Johanna.

— Sim ?

A surpresa no tom de Johanna o fez sorrir.

— Sim . — repetiu — Sei que essa confissão foi difícil. Aonde ia

quando tentou passar através da lança? — A pergunta foi um a m aneira de m udar de assunto. Pareceu-lhe que sua esposa estava a ponto de chorar e queria acalm á-la.

— À procura de Alex. Pensei em dar um passeio para conhecer a

propriedade.

— Ordenei que descansasse.

— Faria um a cam inhada tranqüila. Gabriel, atrás de você tem um

hom em andando de gatinhas.

Disse em um m urm úrio, aproxim ando-se do m arido, m as Gabriel

não se virou. Não era necessário.

— É Augie — inform ou.

Johanna se aproxim ou m ais de seu m arido para poder ver m elhor

o hom em .

— O que está fazendo?

— Cavando buracos.

— Por quê?

— Usa o bastão para golpear um a pedra e colocá-la nos buracos.

É um j ogo que adora.

— É m aluco? — m urm urou, para que o hom em não a ouvisse.

— Não te fará m al. Deixe-o sossegado. Conquistou o direito de

fazer o que tiver vontade.

Gabriel pegou sua m ão e com eçou a cam inhar colina acim a.

Johanna seguiu olhando sobre o om bro o suj eito que cam inhava engatinhando pelo cam po.

— É um MacBain. — exclam ou — Usa suas cores.

— Nossas cores. — corrigiu o m arido — Augie é um de nós.

Johanna, Alex não está aqui. Hoj e cedo, pela m anhã, enviei-o para a casa do tio, irm ão da m ãe.

— Quanto tem po ficará ali?

— Até que o m uro fique pronto. Quando o castelo for seguro, Alex

voltará para casa.

— Quanto tem po será? — perguntou Johanna — Gabriel, um filho

necessita de seu pai.

— Esposa, sou consciente de m eus deveres, não preciso que m e

lem bre isso.

— Mas posso dar m inha opinião — respondeu a j ovem .

Gabriel se encolheu de om bros.

— Com eçou a trabalhar na parede? — perguntou Johanna.

— Chegam os à m etade.

— E então, quanto tem po...?

— Mais alguns m eses. — respondeu o hom em — Não quero que

cam inhe pelas colinas sem um a escolta apropriada — acrescentou carrancudo — É m uito perigoso.

— É m uito perigoso para qualquer m ulher ou só para m im ?

Gabriel ficou em silêncio e essa resposta foi suficiente. Johanna

conteve a irritação.

— Me explique esses perigos.

— Não.

— Por que não?

— Não tenho tem po. Lim ite-se a obedecer m inhas ordens e nos

darem os m uito bem .

— Claro que nos darem os bem se eu obedecer cada um a de suas

ordens. —m urm urou Johanna — Sério, Gabriel, não acho que...

— Os cavalos são excelentes.

A interrupção distraiu Johanna.

— O que disse?

— Que os seis cavalos que m e deu são excelentes.

Johanna exalou um suspiro.

— Estávam os falando de obediência, não é?

— Sim .

Johanna riu.

Gabriel sorriu.

— Devia fazê-lo com m ais freqüencia.

— O que?

— Rir.

Tinham chegado ao início do pátio e os m odos de Gabriel

sofreram um a m udança radical. Sua expressão se endureceu. Johanna pensou que o sem blante grave era para as testem unhas: todos os soldados os observavam .

— Gabriel?

— Sim ? —disse em tom im paciente.

— Poderia dar m inha opinião?

— Do que se trata?

— Usar o pátio para o treinam ento é tolo e perigoso.

Gabriel m eneou a cabeça.

— Não era perigoso até esta m anhã. Quero que m e prom eta algo.

— Sim ?

— Nunca am eace m e deixar.

A intensidade com que falou surpreendeu Johanna.

— Prom eto — respondeu.

Gabriel assentiu e seguiu cam inhando.

— Nunca a deixarei ir. Sabe disso, não é?

Não esperava um a resposta. Johanna ficou observando enquanto

seu m arido recom eçava a sessão de treinam ento. Gabriel era um hom em com plexo. Nicholas disse que o lorde se casaria com ela para apropriar-se das terras, no entanto Gabriel agia com o se Johanna tam bém fosse im portante para ele.

Com preendeu que esperava que isso fosse verdade. Se agradasse

seu m arido, dariam -se m uito m elhor. Viu que Gabriel falava com Calum . O soldado olhou na direção de Johanna, assentiu e se encam inhou para ela. A j ovem não esperou para saber qual era a ordem que seu m arido tinha dado ao prim eiro com andante. Voltou-se e correu colina abaixo, para o cam po. O MacBain cham ado Augie a intrigava: queria saber que tipo de j ogo era esse para o qual tinha que cavar buracos na terra.

O ancião tinha um a abundante cabeleira branca. Quando Johanna o cham ou se levantou. Pelas profundas rugas que tinha em torno da boca e dos olhos, Johanna calculou que devia ter pelo m enos cinqüenta anos, talvez m ais. Tinha lindos dentes brancos, belos olhos castanhos e um sorriso cálido e am istoso.

Antes de dirigir-se a ele, Johanna fez um a ligeira reverência e se

apresentou, falando em gaélico.

O ancião entrecerrou os olhos e fez um a careta de dor intensa.

— Moça, está assassinando nosso belo idiom a — disse.

Falava rápido, as palavras tropeçavam entre si e o acento era tão

denso quanto o guisado de sua m ãe. Augie se viu obrigado a repetir a acusação três vezes até que Johanna entendeu.

— Por favor, senhor, m e diga quais palavras pronuncio errado.

— As engendra para danificá-las todas.

— Queria aprender bem o idiom a — insistiu a j ovem , sem dar

im portância à zom badora expressão de horror que adotou o velho diante do seu acento.

— Um a inglesa precisaria de m uita disciplina para falar com

fluidez nossa língua. — disse — Tem que se concentrar. Eu duvido que os ingleses tenham essa capacidade.

Johanna não entendeu grande coisa do que dizia e Augie deu um a

dram ática palm ada na testa.

— Por tudo que é m ais sagrado, m oça, tira toda a graça dos m eus

insultos! Não com preende um a palavra do que digo!

O ancião aclarou a voz e voltou a falar, m as em francês: o

dom ínio que tinha do idiom a era im pressionante, e Johanna se surpreendeu: Augie era um hom em educado.

— Vej o que a surpreendi. Tom ou-m e por um m aluco?

Johanna com eçou a sacudir a cabeça, m as em seguida se deteve.

— Estava você de gatinhas, cavando buracos e eu deduzi que

estava um pouco...

— Louco?

A j ovem assentiu.

— Peço desculpas, senhor. Quando aprendeu a falar...?

Augie a interrom peu.

— Faz m uitos anos. — explicou — Pois bem , para que

interrom peu m eu j ogo?

— Tinha curiosidade de saber que tipo de j ogo era. — disse

Johanna — Por que faz buracos?

— Porque ninguém os faz por m im — respondeu o ancião,

celebrando com risadas sua própria brincadeira.

— Mas, para que?

— Neste j ogo, precisa de buracos para que as pedras caiam

dentro, se é que se m ira bem . Utilizo o bastão para golpear pedras redondas. Você gostaria de experim entar, garota? Tenho este j ogo no sangue e talvez você tam bém pegue a febre.

Augie a pegou pelo braço e a levou onde tinha deixado o bastão.

Mostrou-lhe com o tinha que segurar o bastão de m adeira, e quando Johanna pôs os om bros e as pernas na posição exata que o ancião indicava, Augie se afastou para continuar explicando.

— Agora, dê um bom golpe. Aponte para o buraco que tem diante

de você.

Johanna se sentiu ridícula: na verdade, Augie estava um pouco

louco. Mas, por outro lado, era um indivíduo gentil e o interesse que Johanna dem onstrava o agradava. A j ovem não quis ofendê-lo.

Golpeou a pedra redonda que rolou até a borda do buraco, vacilou

e em seguida entrou.

Em seguida quis tentar de novo e Augie ficou encantado:

— A febre a pegou — afirm ou com um gesto de assentim ento.

— Com o se cham a o j ogo? — perguntou Johanna, enquanto se aj oelhava para recuperar a pedra. Retrocedeu até a posição original, tentou lem brar a postura correta e esperou a resposta de Augie.

— O j ogo não tem nom e, m as é m uito antigo. Um a vez que tenha

dom inado as tacadas curtas, levarei você com igo à colina para que experim ente com tacadas longas. Mas você terá que colaborar conseguindo suas próprias pedras. Claro que quanto m ais redondas, m elhor.

Johanna errou a segunda tacada e Augie disse que não prestava

atenção. Obviam ente, voltou a tentar. Concentrou-se tanto em agradá-lo e em acertar o buraco, que não notou que falavam em gaulês.

Passou grande parte da tarde com Augie. Evidentem ente, Calum

tinha recebido ordem de vigiá-la: de tem pos em tem pos aparecia no topo da colina e confirm ava que continuava ali. "E que não m e m eto em problem as", supôs Johanna. Depois de algum as horas, Augie suspendeu o j ogo e lhe fez gestos para que fossem para o lado oposto do cam po, onde tinha deixado seus pertences. Puxou-a pelo braço e soltou um gem ido quando sentou sobre a terra. Em seguida lhe indicou que se sentasse j unto a ele e entregou um odre de couro.

— Garota, vou te convidar para algo. — anunciou — Isto é

uisgebreatha.

— Fôlego de vida — traduziu Johanna.

— Não, m oça, "água da vida". Eu fabriquei m eu próprio recipiente

para ferver, estudando aquele que tinha no feudo dos MacKay. Nosso lorde m e perm itiu trazê-lo quando viem os para a terra dos MacLaurin. Todos nós som os uns ingratos, sabe? Antes de m e unir aos MacBain, eu era um MacLead.

Johanna estava confusa.

— Ingratos? Não com preendo, senhor.

— Todos nós fom os j ogados de nossos respectivos clãs por diversos

m otivos. O destino de seu m arido foi selado no dia em que nasceu bastardo. Quando se tornou um hom em , reuniu-nos e treinou os m ais j ovens para transform á-los em excelentes guerreiros. Certam ente, cada um de nós tem um a destreza. Se deixasse de hesitação, poderia receber um a dem onstração da m inha. Eu m esm o quero provar um traguinho.

Teria sido um a grosseria rej eitar o convite. Johanna ergueu o odre,

tirou a cortiça e bebeu um gole.

Achou que tinha tragado fogo líquido. Em itiu um som abafado e

com eçou a tossir. Augie adorou a reação da m oça. Prim eiro, bateu nos j oelhos e em seguida golpeou-lhe as costas para aj udá-la a recuperar o fôlego.

— É forte, né?

Johanna só pôde assentir.

— Agora vá para casa, garota. — ordenou o ancião — Lorde

MacBain deve estar te procurando.

Johanna se levantou e em seguida estendeu a m ão para aj udar

Augie.

— Obrigado, Augie: passei um a tarde encantadora.

O velho sorriu.

— Captou o acento, garota. Alegro-m e. É inteligente, não? Deve

ter um pouco de sangue highlander nas veias.

Johanna com preendeu que Augie brincava. Fez um gesto de

saudação e se virou para partir.

— Augie, vai querer m e levar am anhã à colina? — perguntou por

cim a do om bro.

— Talvez — respondeu o ancião.

Johanna não pôde deixar de sorrir: o dia tinha sido m agnífico.

Claro que tinha com eçado irritando seu m arido, m as aquele pequeno incidente não foi m uito grave e o resto da tarde foi delicioso. Tam bém tinha descoberto algo im portante com relação ao esposo Gabriel: era capaz de controlar-se, não se deixava dom inar pela cólera. Enquanto subia pela trilha da colina, Johanna avaliou a im portância dessa descoberta.

Calum estava esperando-a. Inclinou a cabeça com o saudação e

cam inhou j unto dela até o castelo.

— Vi que j ogava o j ogo de Augie — com entou o soldado.

— É m uito divertido. — respondeu Johanna — Sabe, Calum ? Acho

que Augie é um dos hom ens m ais interessantes que conheci, à exceção de m eu pai, claro.

Calum sorriu diante do entusiasm o da j ovem .

— Além disso, Augie lem bra m eu pai. Conta o m esm o tipo de

histórias interessantes sobre os tem pos passados e enfeita os fatos com lendas, com o m eu pai sem pre fazia.

Pensando em lhe fazer um cum prim ento, Calum disse:

— Augie ficaria satisfeito que o com parasse com seu pai.

Johanna riu.

— Ao contrário, se sentiria insultado. Meu pai era inglês, Calum .

Augie não poderia digerir esse fato.

Mudando de assunto, acrescentou — Tenho certeza que você tem

responsabilidades m ais im portantes que cuidar de m im . Acaso m eu m arido espera que você m e siga todos os dias?

— Milady, não há tarefa m ais im portante que proteger a m inha

senhora. —respondeu o soldado — Mas am anhã atribuirá esta tarefa a Keith.

— Keith é o prim eiro com andante dos soldados MacLaurin, não é

verdade?

— Sim . Só responde perante nosso lorde.

— E você com anda os soldados MacBain?

— Sim .

— Por quê?

— Por que o quê, m ilady ?

— Por que não há um só chefe para os MacBain e os MacLaurin?

— Acho que terá que perguntar isso a seu m arido. — sugeriu

Calum — Tem fortes m otivos para deixar que os MacLaurin tenham seu próprio chefe.

— Sim , perguntarei. — disse Johanna — Tenho interesse em

aprender todo o possível sobre este país e seus habitantes. Onde está m eu m arido?

— Caçando. — respondeu Calum — Deve estar quase retornando.

Milady, deu-se conta que estam os falando em gaélico? É im pressionante com o dom ina bem nosso idiom a, levando-se em conta que só esteve aprendendo um as poucas sem anas antes de chegar aqui.

Johanna negou com a cabeça.

— Não, Calum , estive estudando quase quatro m eses sob a

supervisão do padre MacKechnie. Quando conheci seu lorde estava m uito nervosa, m as não acho que tenha notado porque sei dissim ular m uito bem m inhas reações. Quando MacBain m e perguntou quanto tem po tinha estudado o gaulês eu respondi a prim eira coisa que m e ocorreu. A sua expressão dem onstra que ainda não dom ino bem o "r" gutural.

Por estranho que parecesse, assim que Calum a fez notar que

estavam falando em gaélico, Johanna com eçou a titubear e a pronunciar pior que nunca.

Acabavam de cruzar o pátio quando Calum enxergou o lorde.

— Aqui está seu m arido, m ilady.

Johanna girou para saudar Gabriel enquanto apressava a arrum ar-

se um pouco. Jogou um fio de cabelo sobre o om bro, beliscou as bochechas para lhes dar cor e arrum ou as dobras da túnica. Então olhou as m ãos: estavam salpicadas de barro seco por ter estado cavando buracos a tarde toda com Augie. Já não havia tem po para lavar e as ocultou atrás das costas.

A terra estrem eceu quando o grupo de guerreiros subiu a cavalo a

últim a ladeira. Gabriel conduzia os soldados. Montava um dos anim ais que Johanna tinha lhe dado com o presente de casam ento. A égua que tinha escolhido era a m ais tem peram ental do grupo. Na opinião de Johanna, tam bém era a m ais linda. Tinha a pelagem branca com o a neve, sem um a só m ancha. Era m uito m ais encorpada que os outros cavalos, de boa m usculatura e suportava sem dificuldades o peso de Gabriel.

— Monta m eu cavalo favorito — disse a Calum .

— É um a beleza.

— E ela sabe. — disse Johanna — Rachel é m uito vaidosa. Adora

dar saltos: é seu m odo de cham ar atenção.

— Se valoriza porque está orgulhosa de levar nosso lorde — afirm ou Calum .

Johanna achou que estava brincando e riu, m as viu que Calum

falava a sério.

Calum não com preendeu o que lhe parecia tão divertido. Virou-se

para ela para perguntar, viu as m anchas de barro que tinha nas bochechas e ele tam bém sorriu.

O galgo de Gabriel virou num canto do castelo e correu para o

am o. O enorm e anim al assustou a égua e Rachel tratou de retroceder e de saltar ao m esm o tem po. Gabriel a controlou e apeou. Um dos soldados levou a égua.

O galgo se precipitou para frente. De um só salto apoiou as patas

sobre os om bros de Gabriel. Nessa posição, era quase tão alto quanto seu am o e tinha o m esm o aspecto feroz. Ao contem plá-los, os j oelhos de Johanna am oleceram . Por sorte, o cão tinha um grande carinho por seu am o: esforçava-se para lam ber-lhe o rosto, m as Gabriel virou antes que o anim al o m olhasse. Deu-lhe um a palm ada carinhosa e dos pelos do cão se elevou um a nuvem de pó. Por fim , Gabriel fez o anim al descer e se voltou para a esposa.

Fez-lhe um gesto para que se aproxim asse. Johanna se perguntou

se esperava que tam bém posasse as m ãos sobre os om bros e lhe desse um beij o. A idéia pareceu divertida. Deu um passo adiante e se deteve quando o anim al com eçou a rosnar.

Teria que ser Gabriel a se aproxim ar dela. Alarm ada, Johanna não

afastou o olhar do cão enquanto seu m arido se adiantava. Viu que o cão se unia ao am o e cam inhava j unto dele.

Gabriel divertiu-se com o m edo de Johanna: era evidente que o

cão a assustava e não com preendia por que. Ouviu o rouco rosnado e Johanna tam bém . Johanna retrocedeu e Gabriel ordenou ao anim al que deixasse de fazer exibições de bravura.

Alguns soldados MacLaurin ainda estavam sobre os cavalos e

observavam o lorde e sua esposa. Alguns sorriram ao ver que Johanna tem ia o cão, m as outros m enearam as cabeças.

— Milorde, foi boa a caça? — perguntou Johanna.

— Sim .

— Havia grãos o bastante para pegar? — perguntou Calum .

— Mais que suficiente — respondeu Gabriel.

— Foi caçar grãos? — perguntou Johanna, confusa.

— E outras coisas que precisam os. — explicou o m arido — Tem o

rosto suj o. O que esteve fazendo?

Johanna tentou tirar o barro, m as Gabriel segurou suas m ãos e as

olhou.

— Aj udei Augie a cavar buracos.

— Não quero que m inha esposa tenha as m ãos suj as.

O tom de Gabriel indicava que estava lhe dando um a ordem

im portante e parecia bastante irritado com ela.

— Mas acabo de explicar que...

— Minha esposa não deve realizar tarefas vulgares.

Johanna se zangou.

— Milorde, tem m ais de um a?

— Mais de um a o quê?

— Esposa.

— Claro que não.

— Nesse caso, parece que sua esposa suj a as m ãos sim . — disse

— Lam ento que não o agrade, em bora não entenda por quê. Asseguro que m e suj arei novam ente.

Tentou em pregar a lógica para acalm á-lo, m as Gabriel não estava

com ânim o para ser razoável. Moveu a cabeça e a olhou carrancudo.

— Não o fará. — ordenou — Johanna, é a senhora deste lugar.

Não tem que se rebaixar fazendo tarefas sem elhantes.

Johanna não soube se ria ou se ficava zangada e ao fim se decidiu

por um suspiro. Esse hom em abrigava as idéias m ais estranhas.

Pelo j eito, Gabriel queria um a resposta e Johanna tentou acalm á-

lo.

— Com o desej ar, m ilorde — m urm urou, disposta a ocultar a

irritação que sentia.

Gabriel pensou que tentava ser dócil e sem dúvida lhe custava um

grande esforço. Tinha um olhar assassino, em bora continuasse sorrindo com aparente serenidade e falava em tom hum ilde.

Johanna perguntou a Calum :

— Onde as m ulheres se lavam ?

— Milady, atrás do castelo há um poço, m as a m aioria se banha no

Rush Creek.

Calum ia acom panhá-la, m as Gabriel tom ou seu lugar. Agarrou-

lhe a m ão e a levou.

— No futuro, levará a água para o banho — disse.

— No futuro, agradeceria se não m e tratasse com o um a m enina.

O tom colérico da voz de Johanna surpreendeu Gabriel: afinal de

contas não era nada tím ida.

— Tam bém agradeceria que não m e repreendesse diante dos

soldados.

O hom em assentiu e isso acalm ou a irritação de Johanna.

O m arido dava largas passadas. Dobraram a esquina e

com eçaram a descer a ladeira. Estava ladeada de cabanas e a base estava rodeada por um am plo círculo delas. Várias m ulheres MacLaurin, providas de baldes, esperavam na fila sua vez de pegar água fresca. Várias delas lançaram exclam ações de saudação ao lorde. Gabriel respondeu com um gesto e continuou seu cam inho.

O m uro ficava atrás da fileira de cabanas e Johanna quis parar

para olhar, m as Gabriel não deixou. Cruzaram a abertura da gigantesca estrutura e continuaram .

Johanna tinha que correr para m anter-se j unto do m arido. Quando chegaram na segunda ladeira, estava sem fôlego.

— Gabriel, dim inua um pouco o passo. Minhas pernas não são tão

longas quantoas suas.

Gabriel a obedeceu im ediatam ente, m as não soltou sua m ão e

Johanna, por sua vez, não tentou soltar-se. Ouviu as risadas das m ulheres a suas costas e se perguntou do que riam .

Rush Creek era um riacho largo e profundo. O m arido explicou

que corria por toda extensão da m ontanha, do topo até um lago aos pés, onde as terras deles faziam lim ite com o território do Gillevrey. As m argens da correnteza havia fileiras de árvores e as flores silvestres eram tão abundantes que pareciam nascer da água tanto quanto das bordas. O lugar era de um a beleza que tirava o fôlego.

Johanna se aj oelhou na m argem , inclinou-se para frente e lavou as

m ãos. A água era tão transparente que se via o fundo. Gabriel se aj oelhou j unto a ela, e encheu as m ãos em concha com essa água gelada e a j ogou sobre a nuca. A m ascote de Gabriel apareceu do m eio das árvores, em itiu um rosnado e em seguida se pôs a beber no rio.

Johanna um edeceu o lenço de linho e lim pou o rosto. Gabriel se

j ogou para trás para contem plá-la: cada um dos m ovim entos de sua esposa estava repleto de graciosidade. Era um m istério para ele e supôs que sua curiosidade se devia ao fato de não ter passado m uito tem po j unto a nenhum a m ulher.

Johanna não prestava a m enor atenção. No fundo da correnteza

divisou um a pedra perfeitam ente redonda; pensou que serviria para o j ogo de Augie e se inclinou para agarrá-la.

O riacho era m uito m ais profundo do que tinha im aginado. Se o

m arido não a tivesse segurado e puxado para trás, teria caído de cabeça na água.

— É costum e tirar a roupa antes de banhar-se — disse Gabriel em

tom seco.

Johanna riu.

— Perdi o equilíbrio. Queria pegar um a pedra que eu gostei.

Pegaria para m im ?

Gabriel se inclinou para olhar.

— Esposa m inha, há m uitas pedras; qual é a que você gosta?

Johanna a m ostrou:

— Essa redonda.

Gabriel se esticou, levantou a pedra e a deu a Johanna. Esta lhe

sorriu agradecida.

— Augie gostará desta.

Johanna m oveu-se para trás sobre a ladeira coberta de gram a,

colocou os pés debaixo da túnica e deixou a pedra cair sobre seu regaço. O ar estava perfum ado pelo cheiro dos pinheiros e das urzes prem aturas. Era um lugar retirado e agradável.

— A Escócia é m uito bonita — disse Johanna.

Gabriel m oveu a cabeça.

— A Escócia não. — a corrigiu — As Highlands são belas.

Pelo j eito, Gabriel não tinha pressa em retornar a suas tarefas.

Apoiou as costas contra o tronco de um pinheiro, cruzou um tornozelo sobre o outro e acom odou a espada ao lado para que não riscasse. O cão se aproxim ou pelo outro lado e se esticou j unto ao am o.

Johanna contem plou o m arido por um m om ento antes de voltar a

falar. Esse hom em tinha a capacidade de enfeitiçá-la e achava que o m otivo devia ser por ser tão grande. Certam ente, era tão alto quanto Nicholas, m as m uito m ais m usculoso. Ao m enos, Johanna achava isso.

— Me diga o que está pensando.

O pedido do m arido a sobressaltou.

— Nunca vi Nicholas sem túnica. Isso era o que estava pensando.

Acho que é m ais m usculoso que m eu irm ão, m as com o nunca o vi... Eram idéias tolas, m arido.

— Sim , certam ente.

Johanna não se incom odou pela afirm ação, pois o sorriso lento de

Gabriel m ostrou que estava brincando. Gabriel parecia contente, com os olhos fechados e um sorriso suave no rosto. Na verdade, era um hom em arrebatador.

Johanna viu que o cão fuçava a m ão de Gabriel e foi

recom pensado im ediatam ente com um a rápida palm ada.

O m arido j á não a preocupava. Não só era capaz de controlar a

ira, m as, além disso, tinha tam bém um traço de gentileza em seu caráter. O m odo com o o galgo tinha respondido era um im portante indício do tem peram ento de Gabriel.

Gabriel a surpreendeu contem plando-o. Johanna se ruborizou e

baixou o olhar para seu regaço. Ainda não queria partir. Desfrutava desse m om ento agradável com seu m arido. Pensou em continuar a conversa antes que Gabriel sugerisse que retornassem .

— Milorde, acaso Escócia e as Highlands não são o m esm o?

— Não, não são. — respondeu Gabriel — Não nos consideram os

escoceses, com o nos cham am vocês, os ingleses. Som os "highlanders" ou "lowlanders", conform e o caso.

— Pelo tom com que disse "lowlanders", suponho que essa gente

não te agrade m uito.

— Não, não m e agradam .

— Por quê?

— Eles esqueceram quem são. — explicou Gabriel — Se

converteram em ingleses.

— Eu sou inglesa — deixou escapar Johanna, sem poder evitá-lo.

Gabriel sorriu:

— Eu sei.

— Claro que sabe. — concordou Johanna — Talvez, com o tem po

esqueça.

— Duvido m uito.

Johanna não soube se estava brincando ou não e preferiu m udar

para um assunto m enos delicado.

— Augie não é m aluco.

— Não, não é. São os MacLaurin que acham isso, não os MacBain.

— Meu m arido, na realidade ele é m uito inteligente. O j ogo que

inventou é divertido: deveria experim entar algum a vez. Requer habilidade.

O hom em assentiu para tranquilizá-la: pareceu-lhe adm irável que

defendesse o ancião.

— Augie não inventou o j ogo: existe há m uitos anos. Tem po atrás

se j ogava com pedras, m as tam bém com bolas esculpidas em blocos de m adeira. Alguns, até fabricaram pelotas de couro e as preenchiam com penas.

Johanna arm azenou a inform ação para usá-la no futuro. Talvez

pudesse fazer um as bolas de couro para o j ogo de Augie.

— Augie diz que contraí a febre.

— Que Deus nos aj ude! — disse Gabriel arrastando as palavras —

Augie j oga todo dia, todos os dias, chova ou faça sol.

— Por que se incom odou tanto com algum as pequenas

salpicaduras de barro no rosto e nas m ãos?

— Já expliquei isso: agora é m inha esposa e deve se com portar de

acordo com sua posição. Existe rivalidade entre os MacBain e os MacLaurin, e até que os dois clãs se habituem a conviver em paz, devo fazer exibição de força, não de vulnerabilidade.

— Acaso eu o faço vulnerável?

— Sim .

— Por quê? Eu gostaria de entender. — disse — Foi por m eu rosto

suj o ou pelo fato de ter passado a tarde com Augie?

— Johanna, eu não quero que fique de j oelhos. Tem que agir

corretam ente e com decoro em todos os m om entos. Minha esposa não fará tarefas vulgares.

— Já deu sua opinião.

— Não é um a opinião. — respondeu Gabriel — É um a ordem .

Johanna tentou não revelar o quanto se sentia exasperada.

— Para falar a verdade, espanta-m e que se preocupe a tal ponto

com as aparências. Não parece o tipo de pessoa que se preocupa com o que os outros pensam .

— Não dou um pingo de im portância para as opiniões dos outros.

— replicou Gabriel, irritado pela conclusão da esposa — O que m e im porta é que estej a a salvo.

— O que tem a ver m inha segurança com m inha conduta?

Continuar: parte 5 de 15