Um Amor Para Lady Johanna

Julie Garwood · Capítulo 2 de 2 · parte 1/15

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Um Amor Para Lady Johanna

Sinopse

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 15 partes.

Capítulo 21

 

Sinopse

 

Um a j ovem viúva. Um guerreiro escocês fascinante. Duas vidas

transform adas pelo am or e por um a paixão avassaladora. Quando Lady Johanna soube que estava viúva, ela prom eteu que j am ais se casaria novam ente. Com apenas dezesseis anos, ela j á possuía um a força de vontade que im pressionava a todos que enxergavam além de sua beleza avassaladora. Contudo, quando o Rei John ordenou que ela se casasse outra vez – e selecionou um noivo para ela – pareceu que a m oça deveria se conform ar com esse destino. Seu irm ão, no entanto, sugere ao Rei um novo pretendente: o belo guerreiro escocês Gabriel MacBain. No início, Johanna estava tím ida, m as, conform e Gabriel revelou com ternura os prazeres m agníficos a serem com partilhados, ela com eçou a suspeitar que estava se apaixonando por seu novo e rude m arido. Logo ficou claro para todo o clã das Terras Altas, portanto, que o ríspido e galante lorde rendera com pletam ente seu coração. Porém , a im inência de um a intriga da realeza am eaça separar o casal e destruir o hom em que ensinou a Johanna o significado do verdadeiro am or, que a transportou além de seus sonhos m ais selvagens.

 

Prólogo

Monastério Barnslay, Inglaterra, 1200

 

 

— Santo bispo Hallwick, poderia nos explicar as hierarquias no Céu

e na terra? Quem é m ais valioso aos olhos de Deus? — perguntou o estudante.

— Não estão acaso prim eiro os apóstolos na Graça de Deus? —

perguntou o segundo estudante.

— Não. — respondeu o sábio bispo — O arcanj o Gabriel, protetor

das m ulheres e das crianças, o defensor dos inocentes, está acim a de todos.

— E em seguida, quem ? — perguntou o prim eiro estudante.

— Todos os outros anj os, é obvio — respondeu o bispo — depois

vêm os apóstolos, com Pedro a frente dos doze, depois os profetas e os fazedores de m ilagres, e os bons professores da palavra de Deus na Terra. Os outros Santos são os últim os na hierarquia do Céu.

— Mas, quem é o m ais im portante na Terra, bispo Hallwick?

Quem é o m ais abençoado por Deus aqui?

— O hom em . — foi a resposta im ediata — E o m ais elevado e

im portante entre os hom ens é nosso Santo Padre.

Os dois estudantes fizeram gestos afirm ativos. Thom as, o m ais

velho dos dois j ovens, encarapitado sobre o m uro de pedra, fora do santuário, inclinou-se para frente com expressão de intensa concentração.

— Continuando; no am or de Deus, seguem os cardeais, e logo os

outros hom ens consagrados a Deus — interveio.

— Sim — adm itiu o bispo, satisfeito com a dedução do discípulo.

— E quem o segue em im portância? — perguntou o segundo

j ovem .

— Os que governam os reinos terrestres, certam ente — explicou o

bispo. Sentou-se no centro do banco de m adeira, estendeu suas vestes de profusos adornos, e acrescentou — Os m ais am ados por Deus são aqueles chefes que aum entam os tesouros da Igrej a, m ais que os que acum ulam ouro para seu próprio benefício.

Outros três j ovens se aproxim aram para ouvir as palavras do santo

líder e se sentaram aos pés do bispo form ando um sem icírculo.

— Logo estão os hom ens casados e depois os solteiros? —

perguntou Thom as.

— Sim — respondeu o bispo — E estes estão na m esm a posição

que os m ercadores e os com issários, e acim a dos servos da gleba.

— E quem os segue, bispo? — perguntou o segundo estudante.

— Os anim ais, com eçando pelo cão, o m ais leal ao hom em —

respondeu o bispo — e concluindo com o estúpido boi. E acredito que j á lhes enunciei a hierarquia com pleta, para que a ensinem a seus discípulos quando forem ordenados hom ens de Deus.

Thom as sacudiu a cabeça.

— Bispo Hallwick, esqueceu-se das m ulheres. Onde se situam no

am or de Deus?

Refletindo sobre a pergunta, o bispo esfregou a testa.

— Não as esqueci — disse por fim — São as últim as no am or de

Deus.

— Abaixo dos torpes bois? — perguntou o segundo estudante.

— Sim , abaixo dos bois.

Os três j ovens sentados sobre o chão apressaram -se a assentir.

— Bispo — disse Thom as.

— O que, m eu filho?

— O que você enunciou, é a hierarquia de Deus ou a da Igrej a?

A pergunta escandalizou o bispo: soou-lhe com o blasfêm ia.

— É o m esm o, certo?

Muitos dos hom ens que viviam naqueles tem pos estavam convencidos de que a Igrej a interpretava fielm ente as idéias de Deus.

Mas algum as m ulheres sabiam que não era verdade. Esta é a

história de um a delas.

 

Capítulo 1

Inglaterra. 1206

 

A notícia a destruiria.

Kelm et, o fiel m ordom o, que estava responsável pela casa desde

que o barão Raulf William son teve que sair às pressas da Inglaterra para ocupar-se dos assuntos pessoais do rei, tinha a responsabilidade de dar a terrível notícia à senhora. O serviçal não dem orou a fazê-lo, pois im aginou que lady Johanna gostaria de interrogar os dois m ensageiros antes que retornassem a Londres, caso estivesse em condições de falar com alguém depois de saber do ocorrido com seu bem am ado esposo.

Sim , tinha que dizer à gentil senhora o quanto antes. Kelm et era

m uito consciente de seu dever e em bora estivesse ansioso para acabar com isso de um a vez, arrastou os pés com o se estivesse atolado até os j oelhos enquanto se encam inhava para a capela recém construída onde lady Johanna se entregava às preces vespertinas.

O padre Peter MacKechnie, um clérigo que provinha da

propriedade MacLaurin, nas Highlands, as terras m ontanhosas da Escócia, subia pela plataform a do pátio inferior quando Kelm et o viu. O criado soltou um suspiro de alívio e logo elevou a voz para cham ar o sacerdote de sem blante severo.

— Necessito seus serviços, MacKechnie — gritou Kelm et, para

fazer-se ouvir acim a do barulho do vento.

O sacerdote assentiu e franziu o cenho. Ainda não tinha perdoado o

m ordom o pela sua conduta ofensiva de dois dias antes.

— Quer que ouça sua confissão? — gritou o padre, dando um

toque zom beteiro a seu pronunciado acento escocês.

— Não, padre.

MacKechnie m eneou a cabeça.

— Tem um a alm a negra, Kelm et.

Sem dar im portância à ironia, Kelm et esperou paciente, que o

escocês de cabelo escuro chegasse j unto a ele. Percebeu a zom baria nos olhos do sacerdote e com preendeu que o estava provocando.

— Há um assunto m uito m ais im portante que m inha confissão. —

com eçou Kelm et — Acabo de saber...

O clérigo não o deixou term inar a explicação.

— Hoj e é Sexta-feira Santa. — o interrom peu — Não há nada

m ais im portante que isso. Na m anhã de Páscoa não te darei a com unhão se hoj e não confessa teus pecados e pede perdão a Deus. Kelm et, poderia com eçar pelo desagradável pecado da grosseria. Sim , esse seria um bom com eço.

Kelm et se conteve.

— Padre, eu pedi perdão, m as vej o que você não m e perdoou.

— Com efeito, não o perdoei.

O m ordom o franziu o sem blante.

— Com o j á lhe expliquei ontem e antes de ontem , não perm iti sua

entrada no castelo por ordens explícitas do barão Raulf de não deixar ninguém entrar durante sua ausência. Disse-m e que inclusive im pedisse a entrada de Nicholas, o irm ão de lady Johanna, se viesse visitá-la. Padre, tente com preender-m e. Sou o terceiro m ordom o aqui em m enos de um ano, e o único que pretendo é m anter m eu posto m ais tem po que os outros.

MacKechnie bufou. Ainda não estava satisfeito com as

provocações ao m ordom o.

— Se lady Johanna não tivesse intercedido, eu ainda estaria

esperando lá fora, não é m esm o?

Kelm et assentiu.

— Sim . — adm itiu. — A m enos que você desistisse e retornasse ao seu país.

— Não irei a lugar algum até ter falado com o barão Raulf e o ter

inform ado dos estragos que seu vassalo está causando nas terras MacLaurin. Kelm et, ele está m atando inocentes e acredito que o barão não tem idéia do m alvado e am bicioso de poder que esse hom em , Marshall, m ostrou ser. Acredito que o barão Raulf é um hom em honrado e espero que sej a verdade, pois terá que pôr fim a estas atrocidades o m ais breve possível. Alguns dos soldados MacLaurin até recorreram ao bastardo MacBain em busca de aj uda. Um a vez que lhe tenham prom etido lealdade e o nom earem seu lorde, se desencadeará um inferno. MacBain irá à guerra contra Marshall e contra qualquer outro inglês que pretenda apoderar-se das terras MacLaurin. O guerreiro das Highlands não está alheio à fúria e à vingança, e aposto m inha alm a de que até a pele do próprio barão Raulf estará em perigo quando MacBain com provar a devastação que os infiéis enviados pelo barão estão perpetrando às terras MacLaurin.

Em bora Kelm et não se visse afetado de form a pessoal pelo

conflito dos escoceses, o relato do sacerdote o deteve. Além disso, sem pretender, o clérigo o aj udava a adiar a tem ida tarefa que lhe aguardava. "Não acontecerá nada se m e dem oro uns m inutos m ais", pensou Kelm et.

— Acaso insinua você que esse guerreiro MacBain viria à

Inglaterra?

— Não insinuo. — replicou o sacerdote — Afirm o. O barão não

terá a m enor noção de que chegou até que sinta a lâm ina de MacBain no pescoço. Claro que então será tarde.

O m ordom o m oveu a cabeça.

— Os soldados do barão Raulf o m atarão antes que se aproxim e da

ponte elevadiça.

— Não terão tem po — afirm ou MacKechnie, convencido.

— Segundo você, esse guerreiro é invencível.

— Acredito que é. Na verdade, nunca conheci outro sem elhante.

Não o assustarei contando as histórias que escutei a respeito de MacBain; basta dizer que não o agradaria que a fúria desse guerreiro se abatesse sobre esta propriedade.

— Padre, nada disso im porta agora — m urm urou Kelm et em tom aflito.

— Oh, claro que im porta. — respondeu o sacerdote — Esperarei o

tem po que for necessário para ver o barão. O assunto é m uito grave para se deixar levar pela im paciência.

O padre MacKechnie fez um a pausa para controlar-se. Sabia que

o assunto MacLaurin não dizia respeito ao m ordom o, m as assim que com eçou a explicar, toda a cólera que tinha ocultado em seu interior explodiu e não pôde m anter a voz calm a. Mudou de assunto, tentando falar em tom m ais sereno.

— Kelm et, continua sendo um pecador, com a alm a de um

m acaco velho, m as é honesto, pois tenta cum prir seu dever. Deus recordará isso no Dia do Juízo Final, quando se apresentar diante Dele. Se não quer que ouça sua confissão agora, o que é que necessita de m im ?

— Necessito que m e aj ude com lady Johanna, padre. Acabo de

receber um a m ensagem do rei John.

— Sim ?— insistiu o padre MacKechnie ao ver que Kelm et não

continuava com a explicação.

— O barão Raulf m orreu.

— Bom Deus do Céu, não pode ser!

— É verdade, padre.

MacKechnie soltou um a exclam ação abafada e fez o sinal da cruz.

Inclinou a cabeça, uniu as m ãos e m urm urou um a prece pela alm a do barão.

O vento fez esvoaçar a barra da batina negra do padre, m as

MacKechnie estava m uito concentrado nas preces e não notou. Kelm et ergueu o olhar para o céu. Havia nuvens negras, saturadas, em purradas por um vento persistente que uivava. O som da torm enta que se aproxim ava era fantasm agórico, am eaçador... enlouquecido.

O sacerdote concluiu a prece, fez o sinal da cruz outra vez e voltou

a prestar atenção ao m ordom o.

— Por que não m e disse isso logo? Por que m e deixou continuar

falando? Tinha que ter m e interrom pido. Meu Deus, o que acontecerá agora com MacLaurin?

Kelm et sacudiu a cabeça.

— Padre, não sei o que dizer a respeito das propriedades do barão

nas Highlands.

— Tinha que ter m e inform ado im ediatam ente — repetiu o padre,

ainda im pressionado pelas notícias som brias.

— Alguns m inutos não m udam nada. — replicou Kelm et — E

talvez estivesse tentando adiar m inha obrigação enquanto conversava com você. Tenho o dever de inform ar lady Johanna, e apreciaria m uito sua aj uda, sabe? Minha senhora é m uito j ovem , ignora o que são as traições. Isso destroçará seu coração.

MacKechnie assentiu.

— Faz só dois dias que conheço sua senhora, m as j á com preendi

que tem um tem peram ento doce e um coração puro. Contudo, não sei se poderei ser de grande aj uda: acho que a am edronto.

— Tem e quase todos os sacerdotes, padre: tem bons m otivos.

— Que m otivos?

— O bispo Hallwick é seu confessor.

O padre MacKechnie franziu o cenho.

— Não é necessário que acrescente nenhum a palavra. —

m urm urou, aborrecido — A reputação de m alvado de Hallwick é bem conhecida, inclusive nas Highlands. Não m e surpreende que a m oça o tem a. O que m e espanta é que tenha vindo em m eu socorro e insistido que m e perm itisse entrar, Kelm et. Agora entendo que precisava coragem para isso... Pobre m oça! — acrescentou, suspirando — Não m erece a dor de perder seu bem am ado esposo em tão tenra idade. Há quanto tem po que estava casada com o barão?

— Mais de três anos. Quando se casou, lady Johanna era pouco

m ais que um a m enina. Padre, por favor, venha com igo à capela.

— É claro.

Os dois hom ens cam inharam j untos. Quando Kelm et voltou a

falar, o fez em tom vacilante.

— Sei que não acharei as palavras apropriadas. Não sei m uito bem

com o dizê-lo.

— De m aneira direta. — aconselhou o clérigo — A j ovem

agradecerá. Não a obrigue a adivinhar dando indícios. Talvez fosse útil procurar um a m ulher para consolar à senhora. Sem dúvida, lady Johanna necessitará da com paixão de outra m ulher, além da nossa.

— Não m e ocorre a quem pedir. — adm itiu Kelm et —. Um dia

antes de partir, o barão Raulf trocou outra vez todos os serviçais da casa. Minha senhora conhece apenas os nom es dos serviçais: houve tantos... Nos últim os tem pos, m inha senhora se m antém isolada. — acrescentou — É m uito bondosa, padre, m as não se aproxim a dos serviçais e só confia em si m esm a. Para dizer a verdade, não tem ninguém em quem apoiar-se.

— Quanto tem po faz que o barão Raulf partiu?

— Quase seis m eses.

— E em todo este tem po lady Johanna não travou relação com

ninguém ?

— Não, padre. Não confia em ninguém , nem no m ordom o —

disse Kelm et, indicando a si m esm o. — O barão disse que só ficaria ausente um a ou duas sem anas e, em conseqüência, estivem os esperando sua volta todos os dias.

— Com o m orreu?

— Pisou em falso e caiu em um precipício. — O m ordom o

sacudiu a cabeça — Estou certo de que deve haver outra explicação, pois o barão não era um hom em inepto. Talvez o rei diga algum a coisa à lady Johanna.

— Então, trata-se de um estranho acidente — concluiu o sacerdote

—. Que se cum pra a vontade de Deus — apressou-se a acrescentar.

— Poderia ter sido trabalho do dem ônio — m urm urou Kelm et.

MacKechnie se absteve de fazer com entários a respeito.

— Sem dúvida, lady Johanna voltará a casar-se. — disse,

enfatizando a afirm ação com um gesto — Receberá um a pródiga herança, não é m esm o?

— A terça parte das terras do m arido. Ouvi dizer que são vastas —

disse Kelm et.

— É possível que um a delas sej a a terra MacLaurin que o rei John

arrebatou do rei escocês e entregou ao barão Raulf?

— É possível — adm itiu Kelm et.

MacKechnie reservou essa inform ação para um possível uso no

futuro.

— Im agino que todos os barões solteiros da Inglaterra vão querer

casar-se com sua senhora, com esses cabelos dourados e esses lindos olhos azuis. É m uito bela e, em bora sej a pecado que eu o diga, confesso que m e com ovi ao vê-la. Sua aparência poderia subj ugar um hom em , ainda que não tivesse as propriedades que agora possui.

Chegaram aos estreitos degraus que conduziam às portas da capela

no instante em que o sacerdote concluía suas observações.

— Efetivam ente, é m uito bela. — adm itiu o m ordom o — Vi

hom ens adultos ficarem de boca aberta ao vê-la. Certam ente, os barões vão querê-la — acrescentou — m as não para casar-se com ela.

— Isso é absurdo!

— É estéril — disse Kelm et.

O sacerdote arregalou os olhos.

— Bom Deus! — m urm urou.

Baixou a cabeça, fez o sinal da cruz e pronunciou um a prece pela

desgraça da j ovem dam a.

 

Lady Johanna tam bém rezava. De pé diante do altar, recitava um a

oração pedindo orientação.

Estava decidida a fazer o correto. Tinha nas m ãos um rolo de

pergam inho e quando term inou a prece a Deus, envolveu o rolo em um tecido de linho que j á tinha estendido sobre a superfície de m árm ore.

Pensou um a vez m ais em destruir a evidência que condenava o

rei, m as fez um gesto negativo com a cabeça. Algum dia, alguém acharia o rolo e em bora só um hom em conhecesse a verdade sobre o m alvado rei que um a vez tinha governado a Inglaterra, então talvez pudesse obter j ustiça até certo ponto.

Johanna colocou o rolo entre duas placas de m árm ore, sob a

tam pa do altar. Certificou-se de que ficasse oculto à vista e protegido de qualquer possível estrago. Logo, elevou outra breve prece, fez um a genuflexão e cam inhou pela nave lateral. Abriu a porta para sair.

Im ediatam ente, a conversa entre o padre MacKechnie e Kelm et

se interrom peu.

Ver lady Johanna continuava afetando o sacerdote, e aceitou sem

o m enor vislum bre de culpa. MacKechnie não achava que estava preso nas garras da luxúria porque adm irava o brilho do cabelo da j ovem ou contem plava m ais do que o necessário esse rosto encantador. Para ele, Johanna era outra das criaturas de Deus, certam ente um exem plo m agnífico da habilidade do Senhor para criar a perfeição.

Johanna era saxã da cabeça aos pés, com as m açãs do rosto

salientes e os cabelos e a tez clara. Era um pouco m ais baixa que outras m ulheres, pois tinha estatura m édia, m as parecia alta por sua postura ereta.

"Sim , — pensou o sacerdote — agrada-m e a aparência desta

j ovem e estou certo de que tam bém deve agradar a Deus, pois na verdade possui um coração terno e bondoso".

MacKechnie que era um hom em bondoso: sofria pelo golpe cruel

que receberia a dam a. Naquele reino, um a m ulher estéril não tinha utilidade algum a. Tinham -lhe arrebatado o único propósito de sua existência. Com toda certeza, a razão pela qual nunca a viu sorrir era a consciência de sua própria inferioridade.

E estavam a ponto de infringir-lhe outro duro golpe.

— Milady, posso falar algum as palavras a você? — perguntou

Kelm et.

O tom do m ordom o indicou a j ovem que algo ruim acontecia. Nos

olhos de Johanna apareceu um a expressão cautelosa, e apertou os punhos na cintura. Assentiu e se voltou com lentidão para entrar outra vez na capela.

Os dois hom ens a seguiram . Ao chegar ao centro da nave lateral,

entre as filas de assentos de m adeira, lady Johanna se voltou para enfrentá-los. O altar estava detrás dela. Só quatro velas ilum inavam a capela. As cham as trem eluziam dentro dos globos de cristal colocados a distância de um palm o entre si sobre a superfície do altar de m árm ore.

Lady Johanna ergueu os om bros, j untou as m ãos e olhou com

firm eza para o m ordom o. Era possível observar que se preparava para receber m ás notícias. Sua voz foi um suave sussurro despoj ado de toda em oção.

— Acaso m eu m arido retornou a casa?

— Não, m ilady — respondeu Kelm et. Lançou um olhar ao

sacerdote, recebeu um gesto de incentivo e por fim disse — Acabam de chegar dois m ensageiros de Londres. Trazem um a terrível notícia: seu m arido m orreu.

Depois do anúncio, fez-se um m inuto de silêncio. Kelm et com eçou

a retorcer as m ãos, esperando que assim ilasse a notícia. A senhora não dava sinais de nenhum a reação visível e com eçou a tem er que não tivesse com preendido o que acabava de lhe dizer.

— É verdade, m ilady. O barão Raulf está m orto — repetiu em um

sussurro rouco.

Não houve reação. O sacerdote e o criado trocaram um olhar

preocupado e em seguida olharam outra vez para lady Johanna.

De repente, os olhos da j ovem se encheram de lágrim as e o padre

MacKechnie quase deixou escapar um suspiro de alívio: tinha com preendido.

Esperou que chegasse a negação, pois ao longo de m uitos anos

consolando os parentes, com provou que a m aioria das pessoas tentava enganar-se negando a verdade.

A negação de Johanna foi rápida e violenta:

— Não! — gritou. Sacudiu a cabeça com tanta força que a larga

trança ficou sobre o om bro — Não escutarei esta m entira. Não.

— Kelm et disse a verdade — insistiu o padre MacKechnie em voz

baixa e serena.

Johanna lhe dirigiu um gesto negativo.

— Deve ser um engano. Não é possível que estej a m orto. Kelm et,

você tem que averiguar a verdade. Quem disse essa m entira?

O sacerdote se adiantou e rodeou com o braço à angustiada

m ulher. A angústia que vibrava na voz da j ovem lhe deu vontade de chorar tam bém . Não aceitou o consolo. Retrocedeu e, com as m ãos apertadas entre si, perguntou:

— É acaso um a brincadeira cruel?

— Não, m ilady. — respondeu Kelm et — Foi o próprio rei John

quem enviou a m ensagem . Houve um a testem unha: o barão está m orto.

— Que Deus guarde sua alm a — falou o sacerdote.

Lady Johanna rom peu a chorar. Os dois hom ens se aproxim aram ,

m as a j ovem voltou a retroceder e deu-lhes as costas. Aj oelhou-se, cruzou os braços sobre o ventre e se dobrou com o se tivesse recebido um golpe.

Os soluços de Johanna partiam o coração. Os dois hom ens

deixaram que desse curso a sua desolação durante um longo m om ento e quando por fim Johanna pôde recuperar-se um pouco e os soluços com eçaram a dim inuir, o clérigo apoiou a m ão em seu om bro e m urm urou palavras de consolo.

Johanna não lhe afastou a m ão e MacKechnie viu com o pouco a

pouco recuperava a dignidade. Inspirou profundam ente para acalm ar-se, enxugou o rosto com o lenço de linho que o sacerdote lhe entregou e perm itiu que a aj udasse a levantar.

Sem erguer a cabeça, falou-lhes:

— Eu gostaria de ficar sozinha agora. Devo... rezar.

Não esperou que se fossem , m as voltou-se e cam inhou até o

prim eiro banco da capela. Aj oelhou-se sobre o genuflexório forrado de couro e fez o sinal da cruz, indicando o início de suas preces.

O sacerdote saiu prim eiro e Kelm et o seguiu. Ia fechar a porta

quando a senhora o cham ou:

— Jure, Kelm et! Jure sobre o túm ulo de seu pai que m eu m arido

está m orto.

— Juro, m ilady.

O m ordom o esperou alguns m inutos para ver se a senhora queria

outra coisa, e em seguida fechou a porta.

Johanna contem plou o altar durante um longo m om ento. Sua

m ente era um torvelinho de idéias e em oções.

Estava m uito im pressionada para pensar com claridade.

— Devo rezar — m urm urou —. Meu m arido está m orto. Tenho

que rezar.

Fechou os olhos, uniu as m ãos e por fim com eçou a rezar. Foi um a

súplica sim ples e direta, que lhe saía do coração: — Obrigado, Deus. Obrigado, Deus. Obrigado, Deus.

Capitulo 2

 

As montanhas de Escócia. 1207

 

Era evidente que o barão queria m orrer e o lorde lhe daria o gosto.

Através de um a intrincada selva de rum ores lorde MacBain ouviu

dizer que o barão Nicholas Sanders estava cobrindo o últim o lance das colinas do feudo MacLaurin. O inglês não era um estranho: de fato, tinha lutado j unto com MacBain durante a últim a batalha feroz contra os infiéis ingleses que se apoderaram das terras MacLaurin. Depois da batalha, MacBain se converteu em lorde, chefe tanto de seus próprios seguidores com o dos do clã MacLaurin; nesse caráter, decidiu perm itir que Nicholas ficasse o tem po suficiente para recuperar-se dos ferim entos graves que sofreu. MacBain observou que tinha sido m uito atencioso, m uito generoso e por boas razões. Por m ais que o barão Nicholas o exasperasse, reconhecia que durante a batalha lhe salvou a vida. O lorde era um hom em orgulhoso: era difícil, quase im possível agradecer com palavras e, em conseqüência, para dem onstrar o quanto valorizava que o tivesse salvado de um a espada inglesa apontada a suas costas, MacBain não deixou que Nicholas sangrasse até m orrer. Não havia entre eles ninguém com experiência na arte de curar e o próprio MacBain lim pou e enfaixou as feridas do barão. A generosidade do lorde não term inou ali, ainda que sentisse que tinha saldado a dívida com j uros. Quando Nicholas estava forte o bastante para viaj ar, MacBain lhe devolveu seu m agnífico cavalo e lhe deu um de seus próprios m antos escoceses de lã com as cores do clã MacBain: usando-o teria cam inho livre em sua volta para a Inglaterra. Nenhum outro clã se atreveria a tocar num MacBain, de m odo que na verdade o obj eto constituía um a proteção m elhor que um a arm adura.

Sim , certam ente que tinha sido hospitaleiro e pelo j eito o barão

estava decidido a aproveitar-se de sua generosidade.

Maldição, teria que m atar esse hom em !

Som ente um a idéia brilhante im pedia que seu ânim o se azedasse

com pletam ente: desta vez, ficaria com o cavalo de Nicholas.

— MacBain, se alim entar um lobo um a vez, voltará cada vez que

sinta o cheiro da com ida.

O braço direito de MacBain, um guerreiro loiro de om bros largos

cham ado Calum , foi quem fez o com entário em tom desdenhoso. Mas o brilho de seus olhos m ostrava que a chegada do barão o divertia.

— O m atará?

MacBain pensou um m om ento antes de responder.

— Talvez. — Im prim iu a sua voz um tom deliberadam ente

despreocupado.

Calum riu.

— O barão Nicholas deve ser valente para vir aqui.

— Valente não — corrigiu MacBain — Tolo.

— MacBain, efetivam ente, ele está subindo a últim a colina e está

usando seu m anto. — anunciou aos berros Keith, o m aior dos guerreiros MacLaurin enquanto entrava pavoneando-se pela porta.

— Quer que o traga para dentro? — perguntou Calum .

— Dentro? — soprou Keith — Calum , estam os m ais fora que

dentro. O teto se incendiou, e só estão em pé três das quatro paredes. Eu diria que j á estam os fora.

— Os ingleses fizeram isto. — recordou Calum a seu lorde —

Nicholas...

— Ele veio aqui para livrar o feudo dos MacLaurin dos infiéis. —

recordou MacBain a seu soldado — Nicholas não participou da destruição.

— Mesm o assim , é inglês.

— Não m e esqueci disso. — afastou-se do suporte da cham iné

onde estava apoiado, m urm urou um palavrão quando um pedaço de m adeira caiu com estrépito sobre o chão e saiu. Calum e Keith o seguiram e se postaram de am bos os lados do líder, ao pé da escada.

MacBain ultrapassava a seus soldados. Era um hom em gigantesco,

de aspecto e tem peram ento ferozes, cabelo castanho escuro e olhos cinza. Parecia rude e até sua postura era agressiva: as pernas separadas, os braços cruzados sobre o peito sólido, o sem blante som brio. Assim que seu cavalo chegou ao topo da colina, o barão Nicholas divisou o lorde: MacBain parecia furioso. Nicholas recordou que isso era habitual nele, m as desta vez o sem blante era tão hostil para fazer o barão vacilar. "Devo estar louco", m urm urou para si. Inspirou profundam ente e soltou um assobio agudo com o saudação. Por via das dúvidas, sorriu e elevou o punho no ar.

A MacBain não im pressionaram os m odos do barão. Esperou até

que Nicholas chegasse ao centro do pátio deserto e elevou a m ão indicando que se detivesse.

— Barão, acreditei ter sido m uito claro: disse que não voltasse

aqui.

— Sim , certam ente, disse-m e que não retornasse. — adm itiu

Nicholas — Lem bro-m e.

— Tam bém lem bra que disse que se voltasse a pôr os pés em

m inhas terras te m ataria?

Nicholas assentiu.

— Tenho boa m em ória para detalhes, MacBain, lem bro dessa

am eaça.

— Então, isto é um franco desafio.

— A conclusão é por sua conta — respondeu Nicholas com um encolhim ento de om bros.

MacBain ficou confuso diante do sorriso de Nicholas: acaso

pensaria que estavam brincando? Seria im becil?

Deixou escapar um longo suspiro.

— Nicholas, tire m eu m anto.

— Por quê?

— Não quero que o m anche com seu sangue.

A voz trem ia de fúria e Nicholas desej ou que fosse som ente um a

bravata. Considerava-se tão forte e m usculoso quanto o lorde e igualm ente alto, m as não queria brigar com esse hom em . Se o m atasse, o plano fracassaria, e se o lorde o m atasse, j am ais poderia dem onstrar o efetivo desse plano até que fosse tarde dem ais. Além disso, MacBain era m uito m ais rápido na batalha e tam bém não brigava lim po, coisa que im pressionava a Nicholas.

— Sim , o m anto é teu. — gritou ao bárbaro — Entretanto,

MacBain, agora estas terras pertencem a m inha irm ã.

A carranca de MacBain se aprofundou: não lhe agradou ouvir a

verdade. Deu um passo adiante e tirou a espada da bainha que levava na cintura.

— Dem ônios! — m urm urou Nicholas, passando um a perna por

cim a do cavalo desm ontando — MacBain, com você nada é fácil! Não é?

Não esperava um a resposta e não a obteve. Tirou a túnica que

usava dobrada sobre um om bro com o um a bandeira, j ogou-a sobre a sela do cavalo e pegou sua própria espada. Um dos guerreiros MacLaurin se apressou a afastar o cavalo. Nicholas não lhe deu atenção e tam pouco às pessoas que com eçaram a agrupar-se em um círculo em volta do pátio. Estava com pletam ente concentrado no adversário.

— Foi seu cunhado que destruiu este feudo e a m etade do clã

MacLaurin! —vociferou MacBain — E j á estou farto da sua presença.

Os dois gigantes se m ediram com o olhar. Nicholas sacudiu a

cabeça.

— Coloquem os as coisas em seu lugar, MacBain: quem enviou o

infiel Marshall e a seus seguidores para apropriar-se deste lugar foi o m arido de m inha irm ã, o barão Raulf; m as quando Raulf m orreu e m inha irm ã ficou livre de seu controle, enviou-m e aqui para que livrasse estas terras dos vassalos traidores. Minha irm ã é proprietária deste feudo, MacBain. Seu rei, William , o Leão, esqueceu de recuperá-lo das m ãos de Ricardo quando esse bom hom em foi rei da Inglaterra e precisava com urgência recursos para as cruzadas, m as John nunca esqueceu o acontecido. Outorgou estas terras a Raulf, seu fiel servo, e agora que está m orto, Johanna herdou-as. Goste você ou não, estas terras são de m inha irm ã.

Os dois guerreiros ficaram furiosos ao rem exer antigas ofensas.

Lançaram -se um sobre o outro com o touros: o choque das duas poderosas espadas fez saltar faíscas azuis e o ruido foi ensurdecedor. O eco se propagou pelas colinas, abafando as exclam ações de aprovação da m ultidão.

Nenhum dos dois guerreiros disse um a palavra por pelo m enos

vinte m inutos, pois a briga lhes consum ia toda a energia e a concentração que possuíam . Nesta briga, o agressor era MacBain e Nicholas se defendia, detendo as estocadas m ortais do adversário.

Tanto os guerreiros MacBain quanto os soldados MacLaurin

estavam entusiasm ados com o espetáculo. Alguns m urm uravam elogios pelos rápidos m ovim entos do inglês, pois para eles, Nicholas j á tinha dem onstrado um a destreza incom parável som ente pelo feito de m anter-se vivo tanto tem po.

De repente, MacBain girou e fez o barão tropeçar. Nicholas caiu

para trás, girou e se levantou com a velocidade de um gato, antes que o lorde pudesse aproveitar a vantagem .

— Não é m uito hospitaleiro — ofegou Nicholas.

MacBain sorriu. Poderia ter finalizado quando Nicholas caiu para

trás, m as na verdade, adm itiu para si m esm o, não estava com o coração na briga.

— Nicholas, m inha curiosidade salvou tua vida — afirm ou

MacBain, com o fôlego agitado. Tinha a testa coberta de suor e riscou com a espada um am plo arco para baixo.

Nicholas saiu ao encontro do vigoroso golpe com sua própria

espada.

— MacBain, você goste ou não, estarem os aparentados.

O lorde levou um m om ento para com preender esta últim a

afirm ação.

— Barão, com o pode ser? — perguntou, sem interrom per o

ataque.

— Serem os cunhados.

MacBain não tratou de ocultar o assom bro que lhe provocou a

absurda e louca afirm ação. Retrocedeu um passo e baixou lentam ente a espada.

— Nicholas, ficou com pletam ente louco?

O barão riu e colocou a espada de lado.

— MacBain, parece que engoliu a espada.

Depois deste com entário, j ogou-se de cabeça contra o peito do

lorde e sentiu com o se tivesse se chocado contra um a parede de pedra. O golpe doeu, m as resultou efetivo. MacBain deixou escapar um grunhido surdo e os dois guerreiros caíram para trás. MacBain soltou a espada. Nicholas caiu escarrapachado sobre o lorde. Estava tão exausto que não podia m over-se e m uito dolorido. MacBain o afastou, ficou de j oelhos e quando ia voltar a em punhar a espada m udou de idéia e voltou-se com lentidão para Nicholas.

— Casar-m e com um a inglesa?

Pareceu horrorizado. Além disso, estava sem fôlego. Isto agradou

sobrem aneira a Nicholas: assim que ele m esm o recuperasse o fôlego, se gabaria de ter cansado o lorde.

MacBain se levantou e fez Nicholas levantar. Deu-lhe um

em purrão para que não acreditasse que tinha tido um gesto am ável; cruzou os braços sobre o peito e se dispôs a esperar um a explicação.

— E com quem supõe que m e casarei?

— Com m inha irm ã.

— Está louco.

Nicholas negou com a cabeça.

— Se não casar com ela, o rei John a dará ao barão William s. É um filho da m ãe. — adicionou em tom alegre — E se isso acontecer, que Deus o aj ude, MacBain. Se William s se casar com m inha irm ã, os hom ens que ele enviar farão com que os de Marshall pareçam cordeiros.

O lorde não se alterou. Nicholas esfregou a nuca para aliviar a

ardência antes de continuar.

— É provável que m ate a qualquer um que William s envie.

— Certam ente o farei — afirm ou MacBain.

— E então, William s se vingará enviando cada vez m ais hom ens.

Pode enfrentar um a guerra perm anente contra a Inglaterra? Quantos MacLaurin m ais m orreriam antes que isto term inasse? Olhe ao redor, MacBain: Marshall e seus hom ens destruíram quase todas as edificações. Os MacLaurin recorreram a você e lhe fizeram seu lorde, dependem de você. Se casar com Johanna, a terra será sua propriedade legal e o rei John o deixará em paz.

— O rei aprova esta união?

— Sim — respondeu Nicholas, com ênfase.

— Por quê?

Nicholas se encolheu de om bros.

— Não sei. Tudo o que sei é que quer que Johanna saia da

Inglaterra: disse em repetidas ocasiões. Está im paciente para que se realize este casam ento e aceitou lhe dar as terras MacLaurin no dia do casam ento. Eu receberei o título de propriedade de m inha irm ã na Inglaterra.

— Por quê? — voltou a perguntar MacBain.

Nicholas suspirou.

— Acredito que m inha irm ã sabe por que John desej a que saia do

país: o rei diz que este lugar é o fim do m undo. Mas Johanna não m e contou o m otivo.

— De m odo que você tam bém se beneficiaria com o casam ento.

— Eu não desej o as terras da Inglaterra. — respondeu o barão —

Só representariam m ais im postos a cada ano, e j á tenho bastante reconstruindo m inhas propriedades.

— Então, por que pede que sua irm ã…?

Nicholas não o deixou term inar:

— John entende a cobiça. — o interrom peu — Se o rei acreditasse

que eu só queria proteger m inha irm ã do barão William s, rechaçaria m inha sugestão de casá-la com você. É obvio que exigiu um a enorm e com pensação, m as eu j á paguei.

— Barão, se contradiz. Se o rei John não quer que Johanna fique na

Inglaterra, por que ia querer casá-la com o barão William s?

— Porque William s lhe é m uito fiel: é seu cão m ulherengo. Teria

m inha irm ã sob controle. — Nicholas sacudiu a cabeça e m urm urou—: Minha irm ã está inteirada de certa inform ação secreta, e John não desej a que seus antigos pecados o am eacem . É verdade que Johanna não poderia testem unhar perante um a corte contra nenhum hom em , nem sequer contra o rei porque é m ulher e, portanto, nenhum j uiz a escutaria. Mas há barões dispostos a rebelar-se contra o rei e seria provável que Johanna acendesse a cham a da rebelião se dissesse o que sabe. É um enigm a, MacBain, m as quanto m ais penso, m ais m e convenço de que o rei na verdade tem e essa inform ação que Johanna possui.

— Se o que supõe é certo, estranho que o rei não a tenha

assassinado. Seu rei é m uito capaz de sem elhante baixeza.

Nicholas com preendeu que nunca obteria a cooperação de

MacBain se não fosse com pletam ente sincero com ele. Voltou a assentir.

— É capaz de m atar. Eu estava com Johanna quando recebeu a

ordem de ir a Londres e vi a reação de m inha irm ã. Acho que pensou que se dirigia a sua própria execução.

— Não entanto, ainda vive.

— O rei a tem sob vigilância. Tem aposentos privados e não lhe

perm ite receber visitas. Vive em constante tem or. Quero tirá-la da Inglaterra e m inha solução é casá-la com você.

A sinceridade do barão satisfez o lorde. Indicou-lhe com um gesto

que se aproxim asse e cam inharam j untos até as ruínas que agora cham ava seu lar. MacBain assinalou em tom baixo:

— De m odo que este ardiloso plano é seu.

— Sim . — respondeu Nicholas — E m e ocorreu bem a tem po.

John estava decidido a casá-la com William s há seis m eses, m as m inha irm ã se atreveu a resistir.

— Com o?

Nicholas riu:

— Exigiu que prim eiro se fizesse um a anulação.

A surpresa de MacBain foi evidente.

— Por que pediu um a anulação? O m arido está m orto.

— Foi um a tática de adiam ento m uito ardilosa. — explicou

Nicholas — Apesar de que houve um a testem unha da m orte do m arido, o corpo nunca foi encontrado. Minha irm ã disse ao rei que não se casaria com ninguém enquanto houvesse um a m ínim a esperança de que Raulf estivesse vivo. Não m orreu na Inglaterra, sabe? Quando aconteceu o acidente, estava em um a cidade construída sobre a água, atuando com o enviado de John. Claro que não podia rechaçar um pedido do rei, m as, com o John tem dificuldades com a Igrej a nestes tem pos, decidiu seguir as vias corretas. Johanna acaba de receber os docum entos de anulação.

— Quem foi testem unha da m orte do m arido?

— Por que pergunta?

— Só por curiosidade. — respondeu MacBain — Sabe?

— Sim . — respondeu Nicholas — A testem unha foi William s.

Gabriel guardou essa inform ação.

— Por que prefere a m im ao barão inglês?

— Porque William s é um m onstro, e não posso suportar a idéia de

que m inha irm ã estej a em suas garras. Você foi o m enor de dois m ales. Eu sei que a tratará bem ... se ela o aceitar.

— Que tolice é essa? A decisão não está nas m ãos de sua irm ã.

— Tem o que sim — respondeu Nicholas — Prim eiro, Johanna tem

que conhecê-lo, e logo decidirá. Era o m elhor que eu podia fazer. Na verdade, se Johanna pudesse continuar entregando ao rei as m oedas que exige para deixá-la perm anecer solteira, o faria. Ao m enos, é o que ela acredita, m as eu sei que não é assim . De qualquer m odo, o rei a obrigaria a casar-se.

— Seu rei é um hom em am bicioso. — disse MacBain — Ou acaso

este é um castigo destinado a forçar a aceitação de sua irm ã?

— O im posto? — perguntou Nicholas.

MacBain assentiu.

— Não. — disse Nicholas — John pode obrigar às viúvas de seus

latifundiários a voltar a casar-se. Se decidirem perm anecer livres ou escolher elas m esm as seus m aridos, têm que pagar um a som a adequada todos os anos.

— Disse que j á tinha pago o im posto. Isso significa que pensa que

Johanna m e aceitará?

Nicholas assentiu.

— Minha irm ã não sabe que paguei, e pediria que quando a vir não

o diga.

MacBain pôs as m ãos às costas e entrou. Nicholas o seguiu.

— Tenho que pensar em sua proposta. —anunciou o lorde — A

idéia de m e casar com um a inglesa é difícil de digerir e, som ado ao fato de ser sua irm ã, parece-m e quase inim aginável.

Nicholas com preendeu que era um a ofensa, m as não se im portou.

MacBain tinha dado m ostras de seu caráter durante a batalha contra Marshall e seus seguidores. Talvez o lorde fosse um hom em de m aneiras bruscas, m as era valente e honrado.

— Antes de decidir, há outra coisa que tem que levar em conta —

disse Nicholas.

— Do que se trata?

— Johanna é estéril.

MacBain assentiu, indicando que tinha ouvido, m as não fez

nenhum com entário durante uns m om entos.

Logo se encolheu de om bros.

— Eu j á tenho um filho.

— Refere a Alex?

— Sim .

— Ouvi dizer que havia ao m enos três hom ens que poderiam ser o

pai.

— É verdade. — respondeu MacBain — A m ãe era um a

acom panhante de acam pam ento e não pôde dizer quem era o pai de Alex. Morreu ao dar a luz ao m enino e eu o reconheci com o m eu.

— Algum dos outros hom ens o reclam ou?

— Não.

— Johanna não pode te dar filhos. No futuro terá im portância que

Alex sej a ilegítim o?

— Não im portará. — afirm ou MacBain em tom inflexível — Eu

tam bém sou ilegítim o.

Nicholas riu.

— Isso é o que quis dizer quando eu, no calor da batalha contra

Marshall, o cham ei de bastardo e m e respondeu que em bora fosse um insulto, era verdade?

MacBain assentiu.

— Nicholas, m atei outros hom ens por m e cham ar assim : pode se

considerar afortunado.

— Você será afortunado se Johanna decidir casar-se com você.

MacBain m oveu a cabeça.

— Eu quero o que por direito m e pertence. Se apoderar-se das

terras significa m e casar com essa víbora, o farei.

— Por que acredita que é um a víbora? —perguntou Nicholas,

confuso pela conclusão de MacBain.

— Deu-m e vários indícios do caráter de sua irm ã. — respondeu

MacBain — É óbvio que é um a m ulher obstinada, pois se negou a confiar em seu irm ão quando lhe perguntou que inform ação tinha contra o rei. Precisa de um hom em que a controle: Nicholas, não se surpreenda, pois essas foram suas próprias palavras. E, finalm ente, é estéril. Que atraente, não?

— Sim , é atraente.

MacBain zom bou:

— Não m e regozij a m eu futuro com o m arido, m as tem razão:

tratarei-a com gentileza. Suponho que encontrarem os um a m aneira de não incom odar um ao outro. O lorde serviu vinho em duas taças de prata e deu um a a Nicholas. Am bos elevaram as taças em um brinde e esvaziaram o conteúdo. Nicholas com preendia os costum es das Highlands e apressou-se a arrotar. MacBain fez um gesto de aprovação.

— Im agino que isto significa que voltará aqui cada vez que

desej ar.

Nicholas riu, MacBain parecia aborrecido com essa perspectiva.

— Precisarei levar vários m antos. — disse logo — Não irá querer

que aconteça nada a sua prom etida, não é?

— Darei-te m uitos, Nicholas. —replicou MacBain — Quero que

conte com um apoio de trinta hom ens a cavalo, pelo m enos. Ao chegar a Rush Creek os dispensará. Só a você e a sua irm ã será perm itido entrar nesta terra. Está claro?

— Lorde, estava brincando com relação aos m antos. Posso

proteger m inha irm ã.

— Fará o que ordenei — disse MacBain.

Nicholas se rendeu. Então, o lorde m udou de assunto.

— Quanto tem po Johanna esteve casada?

— Pouco m ais de três anos. Minha irm ã preferia perm anecer

solteira. — disse Nicholas — Mas as preferências de Johanna não im portam ao rei John. Em Londres a tem cativa. Só m e perm itiram um a breve visita e John esteve presente o tem po todo. Com o disse antes, MacBain, Johanna representa um fio solto para o rei e quer livrar-se dela.

MacBain franziu o sem blante. De repente, Nicholas sorriu.

— O que sente ao ser a resposta às preces do rei John?

A pergunta não divertiu o lorde.

— Consegui as terras. — com entou — Isso é o único que im porta.

O gigantesco galgo russo de MacBain fez sua aparição prendendo

a atenção de Nicholas. Era um anim al de aspecto feroz, de pelagem acastanhada e olhos escuros. Nicholas calculou que devia pesar tanto quanto ele m esm o. O cão o viu quando fazia a curva e descia as escadas e soltou um grunhido baixo e am eaçador que fez arrepiar os cabelos do barão.

MacBain deu um a ordem brusca em gaélico e a enorm e m ascote

postou-se im ediatam ente j unto ao am o.

— MacBain, um a advertência. Esconda este m onstro quando eu

trouxer Johanna aqui. Do contrário, ao prim eiro olhar para ti e para o anim al, dará m eia-volta e retornará a Inglaterra.

MacBain riu.

— Nicholas, recorda o que digo: não m e rej eitará. Johanna m e

aceitará.

Capítulo 3

 

— Não o quero, Nicholas. Deve estar louco se im agina que posso

sequer pensar em m e tornar sua esposa.

— Johanna, as aparências enganam . — replicou o irm ão —

Espere até que estej am os m ais perto e sem dúvida perceberá a bondade em seus olhos. MacBain a tratará bem .

Johanna negou com a cabeça. As m ãos trem iam tanto que quase

deixou escapar as rédeas do cavalo. Segurou-as com força e tratou de não soltar um a exclam ação ao ver o enorm e guerreiro... e o anim al de aspecto m onstruoso que estava deitado j unto ao hom em .

Aproxim avam -se do perím etro do desolado castelo. O lorde estava

de pé nas escadarias de entrada da propriedade em ruínas e não parecia m uito satisfeito em vê-la.

Johanna, por sua vez, estava aterrorizada. Inspirou profundam ente

tratando de acalm ar-se e m urm urou:

— Nicholas, de que cor são os olhos?

O irm ão não soube lhe responder.

— Viu a bondade em seus olhos, m as não notou a cor?

Tinha-o apanhado: am bos sabiam .

— Nós hom ens não prestam os atenção nessas bobagens — se

defendeu o barão.

— Disse-m e que era um hom em gentil de voz suave e sorriso

fácil. Neste m om ento não sorri, não é, Nicholas?

— Vam os, Johanna.

— Mentiu-m e.

— Não m enti. — replicou o barão — MacBain salvou m inha vida

em duas ocasiões durante a batalha contra Marshall e seus hom ens, e até se nega a reconhecê-lo. É um hom em orgulhoso, m as honrado. Tem que confiar em m im . Eu não proporia que se casasse com ele se não acreditasse que é um a boa união.

Johanna não respondeu, pois o pânico a invadiu. Seguiu alternando

o olhar do enorm e guerreiro ao feroz anim al.

Nicholas achou que estava a ponto de desm aiar e buscou na m ente

algum a frase para acalm á-la.

— Johanna, MacBain é o da esquerda.

A brincadeira não divertiu a j ovem .

— É um hom em m uito grande, não?

O irm ão deu-lhe palm adinhas na m ão.

— Não é m aior que eu — replicou.

Johanna afastou a m ão: não queria que a consolasse. Tam pouco

queria que a sentisse trem er de m edo e covardia.

— Muitas m ulheres desej ariam ter um m arido forte, capaz de

defendê-las. O tam anho de MacBain deveria ser um a tranqüilidade para ti e um ponto a seu favor.

Johanna m oveu a cabeça.

— É um ponto contra ele — afirm ou.

Seguiu olhando fixam ente o lorde, que parecia crescer perante

seus próprios olhos. Quanto m ais se aproxim ava, m aior lhe parecia.

— É charm oso.

O com entário soou com o um a acusação.

— Se você acha... — disse Nicholas, decidido a não contradizê-la.

— Esse é outro ponto contra. Não quero m e casar com um

hom em charm oso.

— Isso não tem sentido.

— Não precisa ter sentido, pois j á decidi: não o aceitarei. Nicholas,

m e leve para casa, j á.

Nicholas soltou as rédeas para deter o cavalo de Johanna e em

seguida a obrigou a olhá-lo. O tem or que viu nos olhos da irm ã lhe apertou o coração. Só ele sabia o purgatório que Johanna sofreu enquanto esteve casada com Raulf e, em bora ela não o dissesse, sabia quais eram seus tem ores. Disse-lhe em voz baixa e fervorosa:

— Me escute, Johanna: MacBain nunca a m achucará.

Johanna não soube se acreditava ou não.

— Jam ais perm itiria que o fizesse.

A veem ência da resposta fez o barão sorrir: Raulf não tinha

conseguido abater o espírito de Johanna e Nicholas considerou isso um a bênção.

— Pensa em todos os m otivos que tem para casar com ele. —

disse — Estará a salvo do rei John e de seus seguidores, e j á não lhe perseguirão. Aqui estará em segurança.

— Isso é im portante.

— MacBain odeia a Inglaterra e a nosso rei.

Johanna m ordeu o lábio inferior.

— Esse é outro ponto im portante a favor de MacBain — adm itiu.

— Em bora agora este lugar pareça horrível, algum dia será um

paraíso, e você aj udará a reconstruí-lo. É necessária aqui.

— Sim , poderia aj udar a reconstruí-lo. — disse a j ovem — E

anseio por um clim a tem perado. Para falar a verdade, só aceitei vir porque m e convenceu de que estas terras estão m uito m ais perto do sol. Não sei por que não entendi antes. Confesso que é um a grande tentação não ter que usar um a capa protetora m ais de um m ês ao ano. Disse que era estranho que o tem po estivesse tão fresco nesta época.

Bom Deus! Nicholas tinha esquecido essa pequena m entira.

Johanna odiava o frio, não conhecia nada das Highlands e decidiu enganá-la com o propósito de tirá-la da Inglaterra para pô-la a salvo, m as nesse m om ento se sentiu m uito culpado. Tam bém tinha corrom pido um hom em do clero, pois pediu ao padre MacKechnie que o aj udasse na m entira.

Continuar: parte 2 de 15