Um Dia Depois de Amanhã

Danielle R. G. Pedro · Capítulo 5 de 30

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Um Dia Depois de Amanhã

Naele 05

Naele

 

05

Fecho os olhos lembrando dos últimos minutos. Não acredito no que fui capaz de fazer. Até onde deixei que a minha sede de vingança por Laura me levasse.

Ainda no quarto do motel, joguei o vestido correndo por cima do meu corpo de qualquer jeito, nem coloquei a calcinha. Peguei a minha bolsa de onde tirei uma foto antiga minha e da Laura.

Foi tirada no dia em que eu a apresentei a Josme. Sabia que um dia ela me seria útil, por isso foi a única foto dela ou com ela que guardei.

Dou uma última olhada pra cama e saio do motel, conseguindo um táxi logo por pura sorte. Passo o endereço do meu loft para o motorista e encosto a minha cabeça no vidro.

Tiro o celular da bolsa, coloco os meus fones de ouvido e seleciono O Destino Não Quis (Maneva) na minha playlist.

Lágrimas de arrependimento pelo que eu fiz com o Kyler brotam em cascatas grossas que escorrem por minha face.

Não era pra ser… mas eu sei… eu me apaixonei.

(…)

Já é madrugada quando chego em casa. Lucca está na cama roncando baixinho. Sempre dividimos a mesma cama de casal por acharmos ser desnecessário colocar outra em um espaço tão pequeno.

Tiro o vestido que cai aos meus pés e jogo as minhas sandálias para escanteio, os próximos são os brincos.

Observo a minha bolsa no chão e relembro quando coloquei nela a foto que guardo por tempo demais para quem jogou tudo que lembre Laura e Josme fora.

Sento na cama nua e fico no escuro ouvindo o fraco som noturno que vem da rua. Apenas a luz branda do abajur nos cerca.

Involuntariamente uma lágrima me escapa e escorre pela minha bochecha, logo outras a acompanham e a minha face está molhada, nisso algumas escapam para os meus seios e colo.

Abraço o meu corpo sendo incapaz de conter os soluços.

Sei que preciso superar o passado, mas não me vejo alguém forte o suficiente para isso.

Dói muito quando as lembranças voltam como facas afiadas, quase sinto a minha pele rasgar quando cravo as minhas unhas sobre ela, mas são pequenos arranhões se comparados a cicatriz que formou-se no meu coração.

Lucca balbucia alguma coisa e chuta a própria roupa na beira do colchão. Ela tem um mal dormir do caramba. Todavia acabei me acostumando com o tempo.

Quando passo os meus dedos no lençol fino, as cenas do que vivi com ele no motel tomam a minha pele, que arrepia-se. Um calor me sobe, mas é abafado pela minha consciência pesada.

Sinto-me suja, talvez mais do que via Laura até hoje, transformar a química entre Kyler e eu em um instrumento para fazer dele um mero objeto de uma jogada fadada ao fracasso foi muita burrice da minha parte.

Não consigo acreditar no que fui capaz de fazer com ele. Kyler de certo não merecia ser um meio de atingir Laura por sua traição comigo.

Usar o marido da minha prima em um plano de vingança por ela ter trepado com o meu namorado no passado, pareceu tudo menos algo tão amargo como tornou-se pra mim num piscar de olhos.

Entretanto quando me dei conta disso já era tarde demais, não havia a menor possibilidade de voltar atrás sem que eu saísse mais uma vez ferida no processo, então seguir com o esquema pareceu o mais sensato, quando agora parece não fazer sentido algum.

Não sei se consigo encará-lo depois de hoje, sequer para explicar a minha atitude, que com certeza aos seus olhos vai parecer fruto de uma mulher desequilibrada e com baixo caráter.

Sinceramente não sei se serei capaz de ver o desprezo que inevitavelmente deverá estar instalado em seu rosto másculo e lindo quando nos vermos novamente.

Como homem não faço a menor ideia de como vai levar a informação de que a mulher que tão orgulhosamente chama de perfeita, foi capaz da mais baixa traição quando o assunto em tela foi foder com a relação da sua prima, junto aquele que um dia foi visto como o cara certo pra casar e constituir uma família.

Talvez ao passo que me odeia agora, não seja nem um pouco solidário a minha causa.

Lucca se mexe e abraça a minha perna, acredito que a confundindo com o seu travesseiro que agora está no chão.

Devagarzinho levanto e devolvo o travesseiro a ela, preciso de um banho para nem que seja ilusoriamente, lavar a minha alma.

No banheiro ligo a ducha na máxima temperatura do calor, quanto mais água cai na minha pele, mas sinto como não pudesse lavá-la.

Reviro os olhos para o frasco de shampoo caro da minha melhor amiga, mas não me faço de rogada e o uso ensaboando o meu cabelo.

Nem me dou conta quando ao invés de massagear o couro cabeludo, estou ferindo-o com a brutalidade de fortes puxões.

Reinicio o choro contido e viajo no exato momento em que Kyler me penetrou, jamais senti nada igual.

Então como pude acreditar que ele seria menos do que realmente é pra mim, trazendo o passado com as merdas de Josme e eu para o presente que deveria envolver só nós dois.

Sorrio sem achar qualquer emoção digna em minha natureza estúpida.

De qualquer forma nunca seria só nós dois, Laura o tem em seu cerco, estou me apaixonando pelo marido dela, mais uma vez ela tem alguém importante pra mim como dela, só que dessa vez ela viu primeiro, reivindicou e usa uma grossa aliança no seu dedo esquerdo pra provar pra todas as vadias que cobiçarem o seu homem que ele tem dona.

Bufo. Em suma para uma vadia em especial… eu.

Arrasto o meu corpo e sento no chão, sentindo a água bombardeá-lo como uma espécie de punição e pedido de perdão para uma atitude que não merece nada além de retalhação, o que suponho que virá em seguida, ao menos que Kyler seja muito melhor do que eu, e simplesmente vire a página do que vivemos, e dê as costas para a nossa breve história.

Ou seja, finja que nada entre nós aconteceu. Talvez pela manhã já tenha me apagado da sua memória. Nada mais inteligente a fazer do que isso.

Pena que não iremos poder compartilhar da mesma decisão, se assim o fizer, porque seria impossível apagar o rastro de esperança de viver um novo amor que Kyler plantou no meu coração.