Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

4 - O frasco de amônia e a complexidade relacional

4 – O frasco de amônia e a

complexidade relacional

 

É icônica a exemplificação machiana do frasco de amônia sobre a questão dos pareamentos entre sensações mais “básicas” e as que se seguem a estas – o que talvez tenha passado ao “primeiro” Skinner alguma inspiração, amparada depois em Pavlov, sobre parte da explicação do comportamento respondente. Na concepção do próprio Mach (1905):

No início da vida psíquica, só conservamos lembrança clara e

nítida de sensações que provocaram uma reação forte. Logo,

de forma indireta, outras sensações podem permanecer na

memória. Ex.: só a presença do frasco de amônia já me lembra

seu odor. Só a apresentação do frasco já torna relevante a

sensação experienciada. [...] O conjunto se sensações

vividas/experienciadas anteriormente, que são conservadas

pelo ato de lembrar, podem vir a atuar em novas sensações.

(p.32)

Na dimensão das práticas culturais, de ampla complexidade relacional, mas que não foge ao princípio fundamental de seleção pelas consequências, as contingências como descritores de relações de dependência entre variáveis e, especialmente, entre comportamento e ambiente, estão visivelmente presentes. Acrescenta-se às práticas culturais o componente do entrelaçamento entre comportamentos e contingências. O que configura a condição essencial que atende o critério para ocorrência da consequência positiva não é mais o comportamento individual em si mesmo, mas este de tal modo articulado – em termos temporais, topográficos, funcionais em relação ao ambiente – ao comportamento de outras pessoas. Apenas essa configuração de comportamentos, a prática cultural, assegura consequências. Estamos interessados sobretudo no comportamento social, que na definição de Skinner é aquele que é mediado por outra pessoa ou que reflete um compartilhamento, por duas ou mais pessoas, de uma mesma parcela do ambiente.

Nessa dimensão, quando não é mais o indivíduo, mas o grupo que, comportando-se de modo articulado, provê pelo seu entrelaçamento de ações e contingências as consequências que asseguram a sobrevivência do indivíduo, do grupo como tal e das práticas originárias de reforçamento positivo, o que é alcançado é a preservação da “cultura”, no sentido do conjunto típico de atividades de uma comunidade.

Todavia, tal como acontece com os comportamentos individuais, as práticas culturais, além de poderem ser preservadas ou mantidas pelo grupo que se comporta articuladamente para produzir consequências positivas, podem ser abandonadas ou substituídas por outras mais eficientes. O primeiro caso, de abandono das práticas, constitui a situação limite da ineficiência do entrelaçamento vigente. Ilustrando com um exemplo simples: ou o entrelaçamento proporciona plantar um milhão de pés de laranja para apenas mil consumidores, ou resulta em conseguir cuidar de dez pés para uma negociação que requer mil pés, ou, ainda, se enfraquece porque o mercado consumidor externo desenvolve uma política de protecionismo agrícola que impede a exportação. O que costuma ocorrer, nesses casos, é uma migração para algum outro tipo de prática que gere mais consequências mantenedoras da sobrevivência do grupo, do indivíduo e, indiretamente, da espécie.

Nosso objetivo particular, apesar da pertinência dos dois extremos, prioriza a possibilidade de rearranjo de contingências. Ou seja, a partir do conhecimento concreto do nexo existente entre práticas atuais e consequências – sendo tais consequências insuficientes para manter as práticas, ou deletérias para o grupo –, poder planejar novo arranjo das relações de dependência entre contexto antecedente, comportamento e suas consequências. Trata-se, portanto, de um âmbito de mudanças que ultrapassa a dimensão respondente, assume lógica operante e efetiva-se nos arranjos complexos das práticas culturais que refletem a interdependência entre as ações individuais que compõem aquilo que apenas o grupo de tal modo “configurado” consegue fazer.

Evidentemente, o norte ético a ser eleito é fundamental para que os novos arranjos sejam, a um só tempo, benéficos para o grupo e respeitem o ambiente geral, que ultrapassa os interesses desse grupo e alcança os demais membros da mesma espécie. Esse é o planejamento complexo que se requer para as mudanças nas práticas culturais que precisam ser realizadas quando se pretende uma direção encaminhada ao bem coletivo que vise oportunidades e condições iguais para todos.

É importante salientar que é perfeitamente possível lidar com a dimensão complexa de tais práticas sem a criação de novos conceitos na Análise do Comportamento e no Behaviorismo Radical (veja-se, por exemplo, a unidade conceitual de metacontingência, concebida como imprescindível em função do argumento de que se estará lidando, quando o foco forem as práticas culturais, com outro nível de análise, o nível “especial” da cultura). Em contrapartida, o arranjo “especial” de contingências, no âmbito cultural, não demonstra qualquer diferença de natureza, pelo fato de que aí está envolvido o comportamento de mais de uma pessoa, entrelaçadamente. A lógica funcional é a mesma. O que se requer de especial é a descrição criteriosa e completa das interdependências entre comportamentos e consequências compartilhadas pelo coletivo. De todo modo, não se trata mais da mesma lógica do comportamento respondente, não se trata mais do sentido original empregado por Mach, mas é possível dizer, no sentido relacional, que ainda aí, no cultural, transita algum evanescente cheiro de amônia.