Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura
Introdução
Este livro tem pretensões moderadas.1 Trata superficialmente de questões importantes no âmbito da Psicologia, sem almejar uma formalização metodológica da análise temática desenvolvida. Pode-se dizer mesmo que não se vai além de conjecturas. Diante do pressuposto de que estamos frente a uma ciência ainda plástica, com fundamentos em processo de sedimentação, e não diante de dogmas a serem defendidos ou atacados, o que se pretende é aguçar a curiosidade do leitor em relação a um aspecto central no debate acerca do fazer humano, que diz respeito à natureza dos conteúdos e processos a examinar quando buscamos explicá-los sob uma ótica comportamentalista.
Os parâmetros da análise aqui pretendida obedecem, naturalmente, às fronteiras estabelecidas pela formação acadêmica do autor. Também por essa razão, as discussões serão realizadas sob o viés da Análise do Comportamento, sem prejuízo do reconhecimento da relevância de análises alternativas por outras mediações teóricas.
Ressalte-se que os dados empíricos que, em tese, sustentam algumas das asserções contidas neste livro são em parte limitados por dificuldades inerentes à própria natureza complexa dos fenômenos estudados. Mesmo levando em conta que a Psicologia já não é uma ciência tão nova, uma vez que simbolicamente inaugurada com o laboratório wundtiano de Leipzig, nem que suas formulações primeiras derivaram de amálgama de opiniões de filósofos, matemáticos, lógicos, teólogos e físicos (para resumir suas origens intelectuais), e que, paralelamente, o interesse do homem pelo autoconhecimento acompanha-o desde sempre, ainda assim esses dados podem constituir condição favorável a um livre e célere avanço em direção à sua consolidação como ciência. De modo exatamente oposto, se, por um lado, o diálogo permanente com outras áreas do conhecimento torna seu percurso menos linear, por outro, exige um caminhar que segue adiante, mas sempre incorpora ou exclui conhecimento até então dado como definitivo, não sem antes extensa “negociação teórica” entre posturas clássicas e inovadoras.
Essa característica confunde a interpretação de quem queira encontrar uma ciência que progrida por simples justaposição ou soma de novos conhecimentos ao acervo já existente. No caso da Psicologia, essa negociação tem sido mais demorada do que na maioria das outras áreas do conhecimento, não porque os fenômenos que estuda revelem uma natureza “complicada”, mas pelo fato de ela ser altamente complexa, com número excepcionalmente amplo de variáveis críticas, as quais, o mais das vezes, são mutuamente interferentes.
Isso posto, as duas principais trilhas inseparáveis e intercruzadas para o avanço do conhecimento, a pesquisa empírica e as reflexões teóricas, são igualmente afetadas por essa indiscutível complexidade.
Não se trata, pois, de um livro que revisa ou é sobre Mach ou sobre Skinner, mas de um livro a partir desses autores. E sugerimos ao leitor que o principal aspecto a atentar nos argumentos aqui apresentados é que eles estarão sempre voltados para a dimensão relacional da ciência, em especial da ciência do comportamento. Essa dimensão, que a literatura recente e qualificada aponta como crucial em várias disciplinas científicas (Schneider, 2012; Biglan, 2015a; 2015b), requer uma reflexão ponderada, criteriosa e propositiva, aqui ensaiada a partir da Análise do Comportamento.
Boa parte dos fenômenos da natureza, para serem razoavelmente conhecidos, necessitam ser examinados mediante a descrição das relações entre as variáveis que deles participam. Isso também acontece com as atividades genéricas que caracterizam cada espécie e, ainda, com os comportamentos dos organismos vivos, sejam tais atividades respondentes ou operantes. E este texto diz respeito, em particular, a comportamentos operantes e, de maneira ainda mais especial, a comportamentos que ocorrem em situações nas quais a noção de planejamento cultural (na vertente designada Análise Comportamental da Cultura) é a questão central examinada.
Conforme Fernandes (2015):
[...] Susan Schneider traz uma colaboração ímpar ao nos guiar
diante das inovações de outras áreas do conhecimento,
principalmente a Epigenética e as Neurociências, e aponta o
papel da seleção pelas consequências nos processos por elas
estudados. As interações entre natureza e desenvolvimento,
entre natureza e ambiente caminham de modo que já não
podem mais ser estudadas separadamente, e as
consequências vêm sendo destacadas como fundamentais
não só em seu já demonstrado papel na explicação do
comportamento operante, mas também na ativação e
organização de padrões de interação genética e no que diz
respeito ao funcionamento das estruturas e mecanismos
cerebrais. (p.14-5; destaque nosso)
O livro de Schneider (2012) é bastante otimista em relação aos avanços alcançados recentemente pela Análise do Comportamento em suas relações com outras ciências. O Behaviorismo Radical parece ter emprestado a outras disciplinas científicas algumas de suas conclusões paradigmáticas (portanto, consistentemente apoiadas em dados experimentais e considerações teóricas sólidas) e, no momento, inspira muitas pesquisas que aproximam Neurociências, Fisiologia e Antropologia, cada qual dentro de seu modus faciendi. O Science of Consequences [Ciência das consequências] faz uma revisão, em linguagem acessível, da grande diversidade de aplicações da lógica de seleção pelas consequências, das articulações desse conceito com o de evolução, das relações entre genes e consequências, das funções das consequências no cotidiano das pessoas e de muitos outros temas relevantes, totalizando dezesseis capítulos que se encerram com: “Consequences on a grand scale: society, the long term, and the planet” [Consequências em larga escala: sociedade, longo prazo e o planeta]. O texto de Susan Schneider, editora da Psychology Today, com graduação em Engenharia Mecânica e pós-graduação em Desenvolvimento e Aprendizagem Humana, hoje Ph.D. atuante na University of Pacific e com muitas publicações em Análise do Comportamento, é bastante otimista, desde o primeiro capítulo, “Consequences everywhere” [Consequências em todo lugar]:
Consequências proporcionam a motivação que conduz
borboletas às flores e pessoas à Lua. Estar feliz corresponde a
obter consequências, pequenas ou grandes, incluindo o pôr do
sol. E as consequências estão em todo lugar. Algumas são
imediatas; outras, uma sombra no horizonte cuja forma
podemos vislumbrar ou que nos escapa. Elas são boas ou
ruins, mas estão no meio de tudo. Funcionam para os tigres e
as tartarugas – e para nós. Como é irônico, então, que as
consequências e a ciência que incide sobre elas quase sempre
sejam ignoradas. (p.19; tradução nossa)
Por sua vez, Biglan (2015a), com extensa atuação em Análise Comportamental da Cultura, é ainda mais otimista, o que se pode constatar em sua entrevista postada na Science online:
Pode parecer que mudanças esplêndidas não são possíveis
quando se trata do comportamento humano. Continuamos a ter
problemas sérios como criminalidade, abuso de drogas,
depressão, fracasso acadêmico e pobreza. Ao ler os jornais,
você pode pensar que não progredimos de forma alguma no
que se refere a tais problemas e que nenhuma mudança é
possível. Mas você pode estar errado. Um grande progresso
tem sido alcançado no modo como tratamos e prevenimos tais
problemas, e é esta ciência que possui um potencial para
melhorar o bem-estar humano para muito além das ciências
físicas. Se você não está ciente do progresso das ciências do
comportamento, é porque tal progresso é relativamente recente
e porque as políticas e os programas que podem prevenir ou
atenuar problemas ainda não são utilizados em larga escala.
Estamos à beira de uma revolução no uso das ciências do
comportamento que melhorará o bem-estar das pessoas de
formas que se revelarão tão dramáticas quanto as mudanças
que testemunhamos na Medicina, Física e Química. (Disponível
em: <http://www.ambientessociais.blogspot.com.br/2015/02/a-
ciencia-do-comportamento-pode-vir-ser.html>. Acesso em: 20
abr. 2015)
Também em outro pronunciamento imediatamente anterior ao lançamento do seu mais recente livro, The nurture effect: how the Science of human behavior can improve our lives & our world (2015b) [O efeito ambiental: como a ciência do comportamento
humano pode mudar nossas vidas e nosso mundo],2 o autor revela otimismo:
Temos as ferramentas para ajudar as nossas famílias e escolas
a serem mais proativas. Em vez de tratar isoladamente cada
problema psicológico, comportamental ou de saúde, como se
não tivesse relação com outros problemas, precisamos
estimular todas as organizações que trabalham para o bem-
estar humano a se unirem para ajudar a tornar todas as nossas
famílias e escolas mais atuantes. (Tradução nossa. Disponível
em: <http://www.nurtureeffect.com/>. Acesso em: 20 fev. 2015)
Biglan (2015b) enfatiza, no livro, a questão da busca e consolidação, pelos cientistas, das relações entre variáveis no âmbito geral da ciência e no âmbito particular das ciências do comportamento:
Até Darwin, a principal estrutura conceitual para pensar o nexo
de causalidade na ciência era mecânica. Os cientistas fizeram
enormes progressos na compreensão das relações entre os
objetos físicos, estudando as maneiras como esses objetos
influenciavam uns aos outros. Antes, pensando sobre essas
relações como se poderia pensar sobre uma máquina, o foco
foram as partes do mundo e as forças que influenciam essas
relações. (p.12; tradução e destaques nossos)
Uma ciência das consequências, todavia, também se manteve embutida na proposta de Skinner de uma filosofia behaviorista radical e de uma análise comportamental, sem que esse autor permanecesse, de modo completo ou definitivo, pessimista ou otimista, como revela este trecho de uma entrevista que concedeu à revista Veja (1983):
Veja – Para muitas pessoas, Skinner e Behaviorismo, embora
já incorporados à ciência, ainda são sinônimos de manipulação
de comportamento e possibilidades sinistras. Isso o incomoda?
Skinner – Eu estou preocupado com a escalada das armas
nucleares, mas não culpo Einstein por isto. Lamento, como todo
mundo, que certas drogas pesquisadas com fins farmacêuticos
sejam usadas por viciados, mas nem por isso vai defender-se o
fim da pesquisa farmacêutica. Não se acaba com os
automóveis porque motoristas bêbados os usam para matar.
Tudo pode ser usado para fins sinistros e isto vale para a
tecnologia do comportamento. O fato é que pessoas habilidosas
sempre souberam manipular o comportamento de outras. Só
que o faziam intuitivamente, como uma arte. Alguns tinham o
talento, outros não. Com o Behaviorismo, explicamos como
isto acontece. (destaque nosso)3
Como se poderá notar nos argumentos apresentados neste livro, entendemos que a era da busca pelas “coisas” (incluindo eventos, instâncias, estruturas em “si mesmas”) está cada vez mais próxima de seu fim no mundo da ciência dos últimos três séculos. O que a teoria darwiniana da evolução e a abordagem behaviorista radical têm feito, em particular, é, de modo genérico, oferecer argumentos e demonstrações experimentais inequívocas, espécie a espécie, da validade da lógica da variação e seleção pelas consequências, nas mais amplas dimensões possíveis. A ideia de variação e seleção, todavia, está inextricavelmente ligada à de relações funcionais. Um mundo das “coisas em si”, das explicações de fenômenos a partir de instâncias fenomênicas diferentes daquelas do próprio fenômeno a ser explicado (o comportamento explicado pela existência de uma mente imaterial, por exemplo), de estruturas teóricas e lógicas postuladas sem vínculo com o âmbito empírico (estruturas de personalidade, estruturas cognitivas), parece fadado não mais a uma “tradução” de seus termos aos de uma ciência das relações funcionais (como ocorreu com frequência no início do século XX), mas a uma troca inevitável de seus postulados pelos dessa ciência.
O que este livro propõe não é, portanto, um olhar ingenuamente otimista para um futuro melhor graças à mera descoberta e consolidação de princípios comportamentalistas. A visão aqui assumida se caracterizará, de forma clara, por um otimismo contido (no mesmo contexto de atribuir à Psicologia o status de ciência; cf. Abib, 1993). Apesar do avanço indiscutível anunciado recentemente por Schneider (2012) e Biglan (2015a; 2015b), ainda há muitos obstáculos desafiadores, como o desenvolvimento do altruísmo; o problema da justificação das prescrições éticas para as iniciativas de planejamento cultural; o tratamento tecnológico das dificuldades com o controle das práticas culturais mediante consequências de longo prazo; o desenvolvimento de estratégias de “convencimento” dos agentes públicos para a formulação de políticas públicas adequadas em termos comportamentais; o desenvolvimento de sistemas de consequenciação com função de contracontrole para os dirigentes políticos, como resposta ao seminal desafio de Juvenal repensado por Skinner: “Quis custodiet ipsos custodes?” [Quem controlará o controlador?].
1 Em parte, subsidiaram as reflexões deste autor para a elaboração do livro: o debate de temas correlatos no âmbito do Grupo de Estudos e Pesquisas em Delineamentos Culturais, o desenvolvimento de temas dos seus três últimos projetos para Bolsa de Produtividade do CNPq e análises já iniciadas em tese de livre-docência não publicada.
2 Como nurture tem vários significados em língua inglesa, cabe um esclarecimento sobre a tradução adotada: a expressão nature and nurture diz respeito, classicamente (ao menos desde o período elisabetano), à relativa importância das qualidades inatas (no sentido do nativismo ou do inatismo), quando comparadas às experiências individuais nas relações com o ambiente (no sentido empirista ou, mais especificamente, behaviorista).
3 Não se entenda, por esse argumento, que Skinner defenda a possibilidade de uma ciência neutra. Em outras passagens, ele mostrará quanto os dados que coletamos são resultado de interpretação. O que ele pretende é mostrar que justamente essa relação do indivíduo pesquisador com o objeto do conhecimento é parte do interesse explicativo sobre o fazer ciência e o que é feito da ciência.