Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura
Prefácio
Quando recebi o convite do professor Kester para fazer o prefácio de seu livro, fiquei surpreso com título tão insólito: Uma ciência sobre “coisa” alguma. Devo confessar que essa ideia atraiu-me imediatamente, pois, afinal, o que seria uma ciência sobre coisa alguma? Mas, antes de me envolver com especulações as mais fantasiosas, e conhecendo a formação filosófica do professor Kester, logo pressenti, e depois confirmei: não se trata de uma ciência sobre coisas, especialmente não se trata de uma ciência sobre a coisa em si. Percebi, então, que minha surpresa inicial não tinha razão de ser, pois, afinal, a expressão “coisa alguma” faz alusão a alguma coisa (ou talvez a coisa nenhuma?); mais especificamente, faz alusão à coisa em si, uma coisa que existe (existe?), mas que é impossível de ser conhecida.
A referência a Kant é imediata, pois foi o filósofo alemão quem disse que os objetos podem ser concebidos não só como coisa em si, mas também como fenômeno. Os objetos, como coisa em si, existem independentemente de nossa sensibilidade, de nossa capacidade de receber representações. Portanto, existem independentemente de nós, existem fora de nós, e, de acordo com Kant, não podem ser objeto de conhecimento. Apenas como fenômenos, prossegue o filósofo, como objetos dados à nossa intuição através da sensibilidade, é que podem ser objeto de conhecimento. Kant conclui, então, que o ponto de partida para o conhecimento é a experiência, ordenada, porém conforme as formas do pensamento, as categorias do entendimento, a causalidade, por exemplo. Não temos, pois, experiência da coisa em si, logo, “dessa coisa” não podemos ter conhecimento.
Kester comenta que a noção de coisa em si está próxima de seu fim já faz alguns séculos. Não deixa de ser surpreendente que, depois de Kant, algum cientista ainda acredite que é possível conhecer a coisa em si, que é possível, portanto, conhecer a realidade. Não podemos conhecê-la e, consequentemente, não é possível explicar os fenômenos com base nessa noção. Não é possível, prossegue o autor, explicar o comportamento com base em uma “mente imaterial”, “estruturas cognitivas”, “estruturas de personalidade” etc., e ele escreve, então, um longo capítulo para mostrar (embora não só) a inviabilidade da coisa em si mesma como fonte explicativa do comportamento.
Visto que estamos diante de uma ciência sobre coisa alguma, cabe logicamente perguntar de que ciência se trata. A resposta encontra-se no subtítulo do livro. Com efeito, trata-se de uma ciência centrada em relações, a tal ponto radical que “nada é, senão pelas suas relações” (p.105). A tese do professor tem amplo alcance, haja vista que argumenta tratar-se de uma verdadeira revolução no âmbito da filosofia da ciência, com repercussões nas ciências de modo geral. E é radical, porque a tradicional pergunta filosófica “o que é?” não pode mais ser respondida sem fundamento em relações. A pergunta “o que é?” é uma pergunta sobre o ser, e não pode mais ser respondida em termos de “essências”, “substâncias”, “coisas”, “coisas em si”.
Kester é categórico nesse ponto, como pode ser verificado nesta passagem: “Comportamento não é um conceito que possa ser caracterizado tão facilmente quando se formula uma pergunta como: ‘o que é comportamento?’” (p.115). E arremata: “Comportamento não é, e nada é, senão um conceito apenas possível no âmbito de relações” (p.115). É a pergunta de Parmênides, a pergunta pelo ser, que o autor abandona. Mas, ao seu modo, Heráclito também perguntou pelo ser. Com efeito, sem negar o vir-a-ser, sem negar o fluxo, sem negar o mundo, como fez Parmênides, Heráclito mostrou como conciliar a oposição entre o ser e o vir-a-ser, inserindo a constituição do ser na temporalidade, de tal modo que a pergunta pelo ser passou a adquirir sentido no vir-a-ser, no fluxo, no mundo. Aparentemente, Kester diz algo similar quando escreve que “o comportamento não é, e nada é, senão... no âmbito de relações” (p.115), relações essas que se desenvolvem como processos comportamentais: relações dinâmicas e mutáveis. Decorre, portanto, que o comportamento é não por sua essência ou por sua substância, mas por suas relações. Assim, a pergunta adequada é: “Como se dá ou como se estabelece ou em que condições dadas se pode falar em comportamento?” (p.115).
O professor Kester assenta o fundamento de uma ciência sobre relações na filosofia do empiriocriticismo de Ernst Mach. Nessa versão do positivismo, as relações são concebidas como funcionais, como relações entre variáveis. Após detalhado esclarecimento dessa fundamentação, ele desenvolve sua argumentação no sentido não só de mostrar as afinidades das relações funcionais de Mach com as de Skinner, mas também de afastar o Comportamentalismo Radical de alegadas relações com outras versões de positivismo, tais como o positivismo lógico e o sociológico. Na verdade, Kester ressalta que provavelmente o repúdio à metafísica é o aspecto que mais aproxima as versões de positivismo. Como o autor sabe, mas não deixa de ser oportuno relembrar neste momento, o repúdio à metafísica tem sua fonte não somente no positivismo, mas também em outras filosofias, como nas de Kant e Wundt. Com efeito, Kant declara que a alma, o universo e Deus são objetos da razão pura, coisas em si, objetos da metafísica, e, por isso mesmo, não podem ser conhecidos, o que torna impossível, respectivamente, uma psicologia racional, uma cosmologia racional e uma teologia racional. Por sua vez, Wundt refuta a psicologia tradicional, a psicologia metafísica: a psicologia espiritualista e a psicologia materialista. E, em consequência, rejeita a explicação da experiência psíquica, com base não só nos processos e atributos da matéria, mas também na mente-substância. Em seu lugar, Wundt coloca a psicologia moderna, a psicologia empírica, a psicologia científica. No rastro do professor Kester, poderíamos dizer que o repúdio à metafísica é o traço marcante não só da filosofia e da psicologia moderna, mas também, em última análise, da ciência moderna. É esse movimento geral do pensamento filosófico que está no horizonte do livro do autor, e é a esse movimento que pertencem não só as diversas expressões do positivismo moderno, mas também o Comportamentalismo Radical.
Pisando no solo firme da crítica à metafísica, da crítica ao dualismo de substância, uma mental, outra material, Kester dispara uma artilharia contra o pensamento dicotômico, o pensamento binário, o pensamento “ou isto ou aquilo”. Sua exposição prossegue com método. Em primeiro lugar, arrola as mais relevantes expressões do pensamento dicotômico, por exemplo, “ou monismo ou dualismo”, “ou inatismo ou ambientalismo”, “ou estruturalismo ou funcionalismo”, “ou determinismo ou indeterminismo”, “ou objetivismo ou subjetivismo”, “ou internalismo ou externalismo” etc. Em segundo lugar, mostra como escapar da camisa de força da lógica binária em prol de uma lógica de conciliação ou de interações, cujo brilhantismo pode ser verificado nos exames detalhados das oposições “ou inatismo ou ambientalismo” e “ou objetivismo ou subjetivismo”.
Cabe mencionar, novamente, a atmosfera kantiana e heraclitiana que, a meu juízo, atravessa o livro de Kester. Com efeito, Kant mostrou como conciliar a razão com a experiência e o idealismo transcendental com o realismo empírico. E Heráclito mostrou como conciliar o ser com o vir-a-ser. Isso revela o quanto a questão da conciliação dos opostos é antiga e o quanto o livro de Kester realiza largos voos filosóficos.
Esclarecido o ambiente filosófico do Comportamentalismo Radical, o autor dedica-se a explicar conceitos básicos da ciência fundamentada nessa filosofia, a Análise do Comportamento, com especial ênfase na contingência de três termos: a contingência que envolve relações de dependência funcional entre o comportamento dos organismos, a situação ou o contexto em que ocorre, as consequências que produz. A contingência de três termos é a unidade básica de Análise do Comportamento, e sua compreensão é de fundamental importância não só para a análise do comportamento do indivíduo, mas também, argumenta o autor, para a Análise Comportamental da Cultura (um ramo especial, afirma Kester, da Análise do Comportamento). O seu argumento é intencionalmente polêmico, porque, quando se trata da transição de fenômenos mais simples para fenômenos mais complexos, há os que pensam que é necessário criar novas unidades de análise e os que, ao contrário, pensam que não. Kester argumenta que a criação de novas unidades de análise, à medida que os fenômenos se tornam mais complexos, pode conduzir (infere com uma pitada de humor) da metacontingência até a hiperultramegamaximetacontingência.
Trata-se, a meu ver, de uma crítica que o autor dirige a uma espécie de escolástica: escolástica da complexidade. Apoiado na declaração de Mach de que “a natureza é simples”, Kester prefere não só passar a navalha de Ockham na tendência a criar novas unidades de análise, à medida que os fenômenos se tornam mais complexos, mas também concordar com Skinner, ao reconhecer que é o indivíduo que se comporta e que é o comportamento do indivíduo que explica fenômenos de grupo (uma posição tantas vezes reiterada por Skinner). Ao fazer sua crítica contundente à investigação de unidades de análise mais complexas, o professor Kester não está negando a complexidade relacional das contingências, ao contrário, mas não pensa que seja necessário ir além da unidade de Análise do Comportamento: a contingência de três termos.
Já se encaminhando para o final de sua obra, Kester reserva um papel crucial para o que chama de Comportamentalismo Radical Contextualista Humanista. O aspecto contextualista refere-se, evidentemente, à complexidade que envolve as relações dos comportamentos dos organismos com seus contextos e consequências. Mas o que significa o termo “humanista”, quando se sabe que é quase lugar comum caracterizar o Comportamentalismo Radical como uma forma de anti-humanismo? O autor tem um forte interesse social e defende a tese de que a Análise Comportamental da Cultura pode contribuir para o planejamento de práticas culturais com valor de sobrevivência para a cultura. Mas, argumenta, o planejamento cultural deve se guiar por valores éticos, tais como o desenvolvimento de sociedades mais justas, mais igualitárias, mais solidárias, mais altruístas e menos egoístas, bem como por valores políticos, tais como a formação da cidadania e a participação no planejamento cultural das pessoas interessadas nas transformações culturais que promovam tais valores éticos. Uma Análise Comportamental da Cultura fundamentada no Comportamentalismo Radical e sob o lume de tais valores éticos e políticos é uma forma de humanismo, que pode contribuir com outras áreas do conhecimento humano focadas em valores éticos e políticos similares, a fim de diminuir o sofrimento e a infelicidade dos seres humanos.
O leitor tem em mãos um livro complexo, obra madura, de grande relevância filosófica e social para compreender o Comportamentalismo Radical e a Análise do Comportamento, bem como a Análise Comportamental da Cultura e o Planejamento Cultural Participativo, com vistas não só ao desenvolvimento de uma sociedade mais justa, mas também à formação da cidadania. Filósofos, analistas do comportamento, sociólogos, estudantes de Psicologia certamente encontrarão no livro do professor Kester discussões provocativas e edificantes. O livro requer leitura lenta e atenção concentrada no vai e vem típico das obras que têm coisas importantes para dizer.
José Antônio Damásio Abib