Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

Kester Carrara · Capítulo 4 de 11 · parte 1/3

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Uma ciência sobre coisa alguma: comportamento e cultura

2 - A inviabilidade da “coisa em si” como fonte explicativa do comportamento

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2 – A inviabilidade da “coisa em si”

como fonte explicativa do

comportamento

 

Para a compreensão do viés através do qual buscamos adentrar o cenário contemporâneo das explicações da Psicologia em relação a assuntos humanos e descrever as particularidades da lógica comportamentalista, escolhemos recuperar aspectos centrais da história evolutiva do pensamento científico sobre a determinação dos acontecimentos da natureza. Nesse caminho, é relevante alertar para o fato de que encontraremos sempre certas ideias preconcebidas em relação a alçar a Psicologia à condição de ciência, como a (suposta?) necessidade de possuir metodologia própria e distinta daquela das ciências naturais, a evanescência de seu objeto de estudo e a inacessibilidade a fontes “íntimas” de causalidade das ações que, em tese, repousariam como incógnitas no interior do cérebro.

Em nosso exercício regressivo, de modo arbitrário, porém conveniente, adotamos estas obras de Mach: The Science of Mechanics (1883) [A ciência da Mecânica], The analysis of sensations (1886) [A análise das sensações], Popular scientific lectures (1894) [Leituras científicas populares] e Knowledge and error (1905) [Conhecimento e erro], que promoveram reflexões revolucionárias, na época em que foram publicadas, sobre o que constituiria uma explicação científica. Suas proposições, ora bem aceitas, ora odiadas, como quando examinadas por Lenin (1909), tiveram grande repercussão não apenas no âmbito da Física, mas em todo o mundo científico, desde a sua época até o momento atual.

Uma das razões para percepções menos ou mais sensibilizadas em relação às mudanças propostas por Mach foi a sua convicção, exposta em Knowledge and error (1909), de que residiria aí “um motivo suficientemente importante para colaborar intensamente, por meio de nossas concepções psicológicas e sociológicas, para a realização de um ideal de ordem moral do mundo” (p.305).

Para López (1981), a ideia de Mach de que, para uma verdadeira compreensão científica do mundo, era preciso que os cientistas retrocedessem “aos elementos ou sensações que o compõem, tanto no domínio subjetivo (psíquico) como objetivo (físico)” (p.85), nos aproximaria de uma consistente base teórica e dos elementos que constituem qualquer âmbito do real–físico ou do real–psíquico, princípio do qual nem metodológica nem ontologicamente se poderia escapar, “obtendo uma depuração do mundo das aparências, dos enganos e ilusões que dominam o pensamento e a concepção vulgar do mundo” (p.85).

Mach também sensibilizou alguns russos em princípio fiéis ao pensamento marxista, e Lenin, considerando-os traidores da ideologia, não se furtou a criticar Mach em seu Materialismo e empiriocriticismo (1909). Com relação a Lenin, parece relevante ressaltar que o cenário de iminentes e reais conflitos (como o da Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918) e os bastidores do planejamento estratégico de debates e propaganda ideológica e partidária ensejaram também movimentações e manifestações de parte da comunidade científica. Por vezes, mesmo alguns cientistas que eram seus compatriotas acabaram por deixar-se sensibilizar por certas proposições de Mach, já visto como pensador à margem da liderança de Lenin, do que resultou a contundente interpretação dada no seu Materialismo e empiriocriticismo (1909).

Ernst Waldfried Josef Wenzel Mach, nascido em Chirlitz-Turas, no então Império Austro-Húngaro, em 1838, foi físico e filósofo – e, em certo sentido, em razão de parte de seus escritos, talvez também pudesse ter sido um psicólogo – e, sobretudo, um eminente pensador científico. Seu trabalho influenciou e continua influenciando praticamente todas as áreas do conhecimento. Mesmo Freud leu Mach e assinou o manifesto que este liderou, convocando os intelectuais para a fundação de uma Sociedade para a Filosofia Positivista. Freud havia sido convidado por Wilhelm Ostwald (1853-1932, “pai” da físico-química) a ser seu coautor em um artigo apoiando a ideia de seu energetismo, doutrina filosófica segundo a qual “os elementos da realidade, tanto material como espiritual”, eram concebidos como energia. Embora Freud formule um modelo explicativo próprio de energia psíquica, incompatível com o mote machiano de relações entre variáveis de ontologia física, seu propósito inicial era o de constituir uma ciência empírica consistente sobre o funcionamento da mente humana.

No entanto, Mach teve particular importância para a formulação, por Skinner, da filosofia behaviorista radical e da ciência por ele sistematizada, a Análise do Comportamento.

Para melhor avaliação da amplitude das influências de Mach nos diversos campos do saber, é necessário relembrar alguns dos principais pensadores que viveram na mesma época que ele ou em épocas próximas, voltados a atividades filosóficas ou diretamente relacionadas à práxis substantiva das ciências a que se dedicaram. Alguns desses pensadores foram: Locke (1632-1704), Newton (1643-1727), Hume (1711-1776), Kant (1724-1804), Hegel (1770-1831), James (1842-1910), Avenarius (1843-1896), Freud (1856-1939), Lenin (1870-1924), Watson (1878-1958), Einstein (1879-1955) e Skinner (1904-1990). Essa relação pode sempre ser ampliada, dado o espectro de influência do empiriocriticismo de Mach, mas não reduzida, tais as análises machianas das obras de seus antecessores, tais as similitudes de alguns conceitos centrais com o que se pode encontrar hoje nos principais sistemas científicos de explicação da realidade.

Os argumentos de Mach, extensamente incorporados e por vezes combatidos, não podem, todavia, ser ignorados se o que se almeja é uma caracterização contemporânea das principais disciplinas científicas. Como acontece com a maioria dos grandes autores, também Mach teve fases ou momentos em que se opôs em parte a determinadas concepções ou apoiou-as com maior vigor. Em relação a algumas questões e afirmações, manteve-se incrédulo por muito tempo. Por exemplo, desde logo adotou uma postura aparentemente mecanicista e descrente em relação à teoria atômica. Considerava os átomos como “simples ferramentas que os químicos e físicos utilizavam a fim de facilitar o seu entendimento, mas sem nenhum tipo de relação com a realidade” (Pereira; Freire Jr., 2012, p.9). Ou seja, para ele, os átomos constituiriam uma simples metáfora explicativa da realidade, mesmo já sendo conhecidos, desde 1908, dados consistentes que corroboravam a natureza corpuscular da matéria.

Essas alternâncias conceituais, adicionadas às particularidades do contexto histórico-político, em especial nos momentos de ocorrência de diversos conflitos internacionais que serviram de cenário para o desenvolvimento filosófico-científico na “era da teoria”, produzem reflexões nem sempre lineares. Sem dúvida, as análises de trajetórias conceituais temporalmente persistentes na história da ciência precisam ser examinadas, considerando um contexto dinâmico e que costuma estender-se ao longo de décadas ou mesmo, quando não, de séculos. O conjunto de intelectuais citado anteriormente viveu uma dessas conjunturas especiais da história da ciência. Para ela convergiram, e se completaram ou se confrontaram, ideias inovadoras ou renovadoras, mais adiante tomadas literalmente, reificadas e consagradas como afirmações permanentes sobre fatos da natureza. Essa condição gerou polêmicas que se estenderam ao longo da história, multiplicando conceitos e posições que nem sempre fazem jus às reflexões originais dos seus mentores.

Talvez o movimento mais condizente com essa configuração complexa e ao mesmo tempo detentora de influências tão marcantes na história da ciência contemporânea tenha sido o Círculo de Viena. Nascida da Filosofia e de amálgama de especulações derivadas de outras disciplinas, a Psicologia, por volta da metade do século XIX, buscou apartar-se das conjecturas filosóficas, considerando possível constituir-se como ciência autônoma, guiada por princípios derivados exclusivamente da pesquisa empírica. Nesse período, constituiu-se como ícone dessa busca a criação do primeiro laboratório de Psicologia no Instituto de Pesquisa Experimental da Universidade de Leipzig (1879). Mais adiante, nos Estados Unidos da América, sob lógica de pesquisa e epistemologia distintas, surgiu outra iniciativa na direção dessa almejada separação: o lançamento, já em 1913, das bases do Behaviorismo de Watson.

Não obstante tais arrojados projetos “separatistas”, provavelmente a constituição do Círculo de Viena, dirigido à unificação da ciência no que diz respeito ao seu método e à sua epistemologia essencial, possa ser legitimamente analisada, como foi feito de modo criterioso por Smith (1986). O autor considerou o Círculo como um acontecimento científico-intelectual que proporcionou ora uma reaproximação, ora uma hipotética “aliança” entre os filósofos positivistas lógicos (ou empiristas lógicos) e homens da ciência até então circunscritos a outras disciplinas, como a Matemática, a Física, a Economia, a Sociologia, mas não diretamente à Psicologia. Entretanto, esta não passaria totalmente indiferente a esse movimento intelectual responsável por mudanças radicais no pensamento científico. Trata-se de considerar sobretudo a dimensão das nítidas influências de Ernst Mach sobre a formulação e configuração inicial do Behaviorismo de B. F. Skinner a partir de sua tese de doutorado, em 1930-1931.

O positivismo lógico emergiu no mundo verbal alemão durante os anos de 1920, como um ato de resistência dos partidários da consolidação metodológica das ciências naturais, em detrimento da tradição do idealismo germânico. Suas finalidades eram: 1) a formulação de argumentos consistentes na busca por uma ciência unificada; 2) uma radical postura antimetafísica, apoiada metodologicamente no verificacionismo; 3) a definição lógica de conhecimentos sobre a natureza pelas vias analítica e sintética. Com tal paradigma tricotômico, o positivismo lógico restringiu o conhecimento aos princípios derivados da experimentação científica e destituiu a metafísica do seu status, não por ter sido demonstrado que era falsa, mas sim porque era desprovida de qualquer significado e confiabilidade, entendida como verificabilidade. A importância atribuída aos procedimentos metodológicos da ciência levou positivistas lógicos proeminentes a estudar o método científico e a explorar a lógica da teoria da confirmação (estratégia carnapiana depois atacada por Karl Popper, com o argumento de que um critério melhor para distinguir o que é ciência do que não é seria o caráter de falseabilidade das asserções científicas).

Como interessam a este livro as influências diretamente recebidas pelo Behaviorismo Radical de Skinner, embora os efeitos do Círculo se estendessem de modo mais contundente às obras de Hull e Tolman, nos deteremos na participação de Ernst Mach no movimento sediado na Áustria e em quatro de suas principais obras, originalmente publicadas nas datas indicadas e provavelmente examinadas pelo mentor do Behaviorismo Radical ao longo de sua trajetória: The Science of Mechanics (1883), The analysis of sensations (1886), Popular sicentific lectures (1894) e Knowledge and error (1905). Esse aspecto nos coloca em companhia dos positivistas (ou empiristas) lógicos, considerando desde logo que, de modo paralelo, mas não compartilhado, uma tendência então recente da cientificidade inspirava discussões acadêmicas restritas ao âmbito da Psicologia acadêmica. Representativo dessa tendência, o Psychology as the behaviorist views it (1913) [Psicologia como o behaviorista a vê], de Watson, propunha claramente a substituição da finalidade da Psicologia – de estudo da consciência, passaria a estudo do comportamento – e a consequente troca de estratégia metodológica – a introspecção daria lugar à observação.

Antes, e contrariamente ao tipo de contato de Skinner com o positivismo lógico, é peculiar que este, em grande medida adotado pelo Behaviorismo Metodológico, especialmente representado por Boring e Stevens, tenha induzido esses pesquisadores a uma maneira de raciocinar bem demonstrada por Matos (1997):

Considerando que só tenho acesso às informações que meus

sentidos me trazem, o positivista lógico conclui que não posso

ter informações sobre minha consciência, cuja natureza difere

da de meu corpo. Note-se que ele não nega essa consciência,

apenas afirma a impossibilidade de estudá-la. É interessante

que essa influência também levou ao idealismo e ao

subjetivismo. Afirmar que não tenho acesso a coisa alguma

senão a minhas sensações permite a negação do mundo: o

mundo não existe, somente minhas impressões dele; portanto,

só minhas ideias são reais. (p.57)

Porém, independentemente do que ocorreu com os behavioristas metodológicos, o que terá acontecido em relação ao contato do behaviorista radical Skinner com os positivistas lógicos? A interpretação mais comumente disseminada na academia e na literatura pelos comentadores que fazem restrições ao comportamentalismo é que seu Behaviorismo Radical é uma filosofia positivista que se apoiaria, para a composição de seus argumentos explicativos, no raciocínio dedutivo. Entretanto, uma leitura atenta de Mach, de Skinner e dos acontecimentos que marcaram suas trajetórias pode revelar resultados surpreendentes, certamente opostos a essa compreensão. É o que veremos a seguir, seja acompanhando diretamente alguns textos seminais desses autores ou de comentadores selecionados em função da acurácia de suas análises.

Comecemos com Smith e seu Behaviorism and logical positivism (1986) [Behaviorismo e positivismo lógico], resultado de doze anos de estudos sobre filosofia e história da Psicologia na Stanford University. Esse livro é referência imprescindível para quem quer conhecer de modo consistente o assunto. Nos seus dez capítulos, o autor apresenta a visão lógico-positivista de ciência e as abordagens de Tolman, Hull e Skinner sobre as relações entre Psicologia e ciência. Smith examina algumas conjecturas então correntes, apoiadas sobretudo nas afirmações de Koch (1964) e Mackenzie (1972), que, em conjunto, roteirizam a análise que o autor conduz.

Este livro apresenta, assim, as características essenciais das

considerações da relação entre o Behaviorismo e o positivismo

lógico feitas por Koch e Mackenzie. Essas características são

as alegações de que: 1) o Behaviorismo e o positivismo lógico

estavam intimamente associados; 2) o primeiro importara sua

visão de ciência do segundo; 3) os destinos dos dois

movimentos estavam, portanto, interligados, ou seja, o fracasso

de um afetaria a viabilidade do outro. A inclusão dessa

interpretação da aliança behaviorista–positivista em um livro

bastante conhecido na história da Psicologia sugere que ele

realmente se constituiu numa fonte de referência para a

compreensão do episódio. (p.12-3; tradução nossa)

Smith relata que Schlick foi para Viena em 1922 para assumir a cadeira de História e Teoria da Ciência Indutiva, posição que vinha sendo ocupada por Ernst Mach. Como este, Schlick era um físico-filósofo (embora Mach dispensasse insistentemente o segundo qualificativo) interessado em epistemologia das ciências naturais. Sua ida a Viena proporcionou a reunião de vários cientistas interessados em encontrar ou formular um perfil unificador da ciência que contivesse regras objetivas de pesquisa e reflexão científica que pudessem ser compartilhadas pelas várias disciplinas. Algum tempo depois, estava constituído o Círculo de Viena (Wiener Kreis). Esse grupo desenvolveu ideias que muito influenciaram o pensamento científico e filosófico do mundo ocidental nas três ou quatro décadas seguintes. A ideia central do Círculo não permaneceu sempre a mesma, naturalmente. No decorrer de sua história, surgiram dissidências e variantes, como é o caso de Karl Popper. Também daí derivou, ainda que indiretamente, uma parcela significativa do trabalho de Ludwig Wittgenstein, de início preocupado com a elucidação (ou construção) de mecanismos para uma linguagem formal que expressasse a essência dos problemas filosóficos e científicos e pudesse denotar, de maneira inequívoca, a natureza do fenômeno analisado.

Ainda para Smith (1986), os primeiros membros da organização se viam como seguidores das ideias de Mach, embora considerassem que este com frequência negava importância maior para a Lógica e a Matemática no processo de construção de uma “linguagem” científica universal. A ideia era a de que tal linguagem, com o auxílio da Lógica, forneceria ao movimento empirista os instrumentos que permitiriam a resolução do antiquíssimo conflito entre racionalismo e empirismo. Desde a chegada de Schlick e em função do trabalho de Mach, a trama conceitual do positivismo lógico se desenvolveu até seu reconhecimento oficial em publicação de Feigl e Blumberg, em 1931.

Os positivistas lógicos reconheciam sua origem intelectual na tradição empirista britânica do século XIX, representada sobretudo pela obra de David Hume, que já reconhecia diferenças entre questões de fato e conjecturas reflexivas (ou ideias). As questões de fato podiam ser aferidas ou testadas com referência direta ao mundo da experiência, enquanto as ideias não possuíam referências claras a esse mundo (considerando-se o empírico enquanto matéria tangível), podendo ser examinadas apenas mediante o uso da introspecção. Exceto pela Matemática, cujos postulados não teriam um referencial ontológico ancorado na experiência (mas cuja veracidade poderia ser aferida através do exame das relações entre ideias), todas as outras reflexões padeciam da ausência de uma base apoiada na experiência direta. A distinção entre essas duas instâncias e a adesão aos instrumentos de análise lógica, associada ao desenvolvimento de estratégias metodológicas de aferição da realidade, levaram os intelectuais influenciados pelo empirismo a definir sua tricotomia.

Embora seja possível um paralelo entre a visão humiana e o positivismo lógico, havia uma diferença especial entre essas concepções: Hume considerava que o conhecimento empírico consistia em hábitos nos quais sequências de impressões sensíveis estavam associadas a leis psicológicas. Para a maioria dos colegiados do Círculo – e o exemplo mais crítico talvez seja revelado pela posição do matemático Gotlob Frege –, a experiência “psicológica” não podia fazer parte da explicação dos fenômenos da natureza, porque desprovida de uma dimensão objetiva passível de ser descrita mediante um procedimento lógico-analítico. Frege foi implacável ao atacar o que chamou de psicologismo, que para ele seria uma espécie de devastação produzida pela incursão da Psicologia na Lógica, referindo-se a esse processo como uma “doença” filosófica. Para Constant (2003):

Para começar, o psicologismo é a tendência para reduzir um

problema a categorias psicológicas. Na Lógica, o psicologismo

representa uma tendência a reduzir as suas regras a uma

psicologia humana. Especificamente, o psicologismo implica

que as leis da Lógica constituem, em princípio, um fenômeno

psicológico e, portanto, os seus fundamentos são psicológicos.

Por exemplo, uma forma de psicologismo afirma que as leis da

Lógica são um produto da maneira como cérebros estão

conectados com a realidade e, portanto, um tema de

Neuropsicologia. De outro modo, pode-se afirmar que a Lógica

é mais bem estudada pela maneira como os seres humanos

respondem a determinadas situações e, portanto, poderia

constituir-se num tema da Psicologia behaviorista. (p.1-2;

tradução nossa)

As polêmicas em torno do positivismo (ou empirismo) lógico foram diversas, mas o “problema” em função do qual conceber ações lógicas como comportamento aniquilaria a Lógica qua Lógica ganhou destaque, uma vez que o conceito de sensação já constituíra parte da arquitetura teórica proposta pelo mais eminente predecessor empirista do Círculo de Viena, Ernst Mach. Isso gerava outro tipo de tensão para a ideia de “ciência unificada”, já que, por um lado, Hume concebia a possibilidade de uma teoria do conhecimento psicologística, em contrapartida ao que viria a ser uma teoria puramente lógica do Círculo. Por outro lado, essa “psicologização” humiana era rejeitada por Frege e pelos lógicos do movimento. Paralelamente, a tensão entre empirismo (desde Hume e parte do grupo britânico) e positivismo (desde Auguste Comte e John Stuart Mill) passava pela aceitação parcial ou completa da lei positivista dos três estados e seus corolários.

Comte, que cunhara o termo “positivismo” como característica da última instância e forma de conhecimento mencionada nessa lei, defendia que o conhecimento genuíno estava baseado na experiência, e não se admitia pensar de outra forma. As leis da ciência, na sua visão, eram afirmações sobre sucessão e similaridade entre os fenômenos observados, e o conhecimento teológico e metafísico era rejeitado como ilegítimo no âmbito da ciência, uma vez que transcendia o contexto da experiência, como também para Mach. O problema essencial com Auguste Comte não era, fundamentalmente, o terceiro ponto de sua lei (o estado positivo), quando aplicado à descrição do conhecimento científico. Era sobretudo a dimensão ético-moral de sua interpretação da realidade social. O pensador francês concebia uma teoria da história da humanidade baseada na naturalização da existência de diferenças no status dos grupos sociais, o que implicava identificar a presença de uma condição humana dominada inerentemente por ações e crenças metafísicas e teológicas, as quais, esperava-se, seriam substituídas por um estado “superior” da sociedade baseado no conhecimento positivo.

Todavia, embora se esteja tratando de positivismos distintos, recuperar características do positivismo clássico para esclarecer quais desdobramentos desse movimento orientam a adoção do qualificativo pelos membros do Círculo de Viena (positivismo lógico) talvez seja uma alternativa pertinente para compreender, por um lado, o caráter cientificista herdado como corolário (ou, em algumas situações, como razão central do positivismo) e, por outro, o caráter prescritivo (na dimensão ético-moral do positivismo social de um Comte tardio, quando chega a formular sua “religião da humanidade”).

Comte concebia a natureza de modo muito diferente do que hoje constitui mote da metodologia das ciências naturais. Seu “naturalismo” aproximava-se de um determinismo absoluto, quase fatalista, pelo qual aceitava como “natural” a existência de um Estado em que predominaria, necessariamente, a concentração de riquezas nas mãos dos dirigentes industriais. Essa convicção o levaria a ponto de pensar que os “proletários reconhecerão, sob o impulso feminino [considere-se sua proposta de uma ‘religião da humanidade’, em que se revela um grande enlevo envolvendo sua veneranda Clotilde de Vaux], as vantagens da submissão e de uma digna irresponsabilidade, em função da doutrina positiva, que há de preparar os proletários para respeitarem, e mesmo reforçarem as leis da natureza que implicam concentração de poder e riqueza” (Comte, 1864; destaque nosso). Esse capitalismo incipiente, fundado num determinismo absoluto, que se contrapõe ao determinismo probabilístico hoje defendido na metodologia da pesquisa, fez apologia ideológica da ordem estabelecida como sendo natural e, em consequência, a-histórica e praticamente imutável. Coincidentemente, com essa crença na naturalização das condições sociais interclasses, o descrever descomprometido com o transformar com frequência esteve presente nos relatos de pesquisa ao longo de muitas décadas, sem indicação de intenções para a construção de uma sociedade mais equânime.

O debate sobre a naturalização da realidade social tem ensejado a adoção de distintas dimensões que hoje caracterizam as metodologias de pesquisa: ideográfica versus nomotética, básica versus aplicada, histórica versus a-histórica e quantitativa versus qualitativa. Ainda, lamente-se que versus, no mais das vezes, acabe representando confronto, mais do que simples contrapartida ou parâmetro de comparação. Por certo, muito há que ser relativizado nas comparações que se faz na pesquisa atual, nos meios acadêmicos, com o ponto de vista comtiano original.

Auguste Comte (1798-1857) recebeu várias influências intelectuais, mas a mais marcante e conceitualmente próxima talvez tenha sido a de Condorcet (1743-1794): a leitura do seu Esboço de um quadro histórico dos progressos do espírito humano (1784) foi fundamental para ele. Nessa obra, Condorcet apresenta um esboço relevante dos descobrimentos e das invenções da ciência e da tecnologia na sua época, fatos importantes, do seu ponto de vista, para uma melhor organização social e política da Europa. Comte, que já manifestara anseio, na Escola Politécnica e nos cursos particulares que ministrava, por mudanças sociais, identificou na busca do conhecimento “exato” (nesse sentido, “positivo”) o que julgava ser o melhor caminho para que a sociedade fosse beneficiada como um todo.

Comte recebeu também influência significativa de Saint Simon, de quem foi secretário. Conforme Gianotti (1983), Comte teria declarado sobre sua convivência com ele:

Pela cooperação e amizade com um desses homens que veem

longe nos domínios da filosofia política, aprendi uma multidão

de coisas que em vão procuraria nos livros; e no meio ano

durante o qual estive associado a ele meu espírito fez maiores

progressos do que faria em três anos, se eu estivesse sozinho;

o trabalho desses seis meses desenvolveu minha concepção

das ciências políticas e, indiretamente, tornou mais sólidas

minhas ideias sobre as demais ciências. (p.viii)

Todavia, como seu mestre, no entender de Comte, se limitasse a tarefas eminentemente práticas, tais como formar uma elite industrial e científica na França, e ele aspirasse à independência e reforma teórica do conhecimento, acabou abandonando o convívio com Saint Simon. Nessa época (1823-1824), Comte publicou seu Plano de trabalhos científicos necessários à reorganização da sociedade, pleiteando, como anunciado no título, reformular a Filosofia, dando-lhe direção cientificista e propondo-a como instrumento útil à sua aspiração de mudança social.

O contexto histórico, na época em que o positivismo comtiano surgiu, aponta uma dissidência entre Comte e os matemáticos da Escola Politécnica de Paris, numa luta em que o poder intelectual estava em jogo. Auguste Comte acreditava que era chegada a hora de os biólogos e sociólogos ocuparem o primeiro lugar nas decisões intelectuais. Com essa disputa, perdeu o cargo de examinador na Politécnica, sobretudo em função do último volume do seu Curso de Filosofia Positiva e de trechos do Discurso sobre o espírito positivo. Fundamentalmente, o que se nota na turbulenta trajetória comtiana é a preocupação com as condições sociais vigentes e a crença de que o novo meio de ascensão da sociedade a melhores condições só poderia ser alcançado com o desenvolvimento científico. Para tanto, era preciso investir no aprimoramento da busca do conhecimento e, mais, na delimitação das distinções necessárias entre o conhecimento científico e as demais formas como se apresentava. Fica claro, então, que o positivismo, embora tivesse seus predecessores nos séculos XVI a XVIII, em particular Bacon, Hobbes e Hume, acabou sendo sistematizado por Comte, que recebeu também influência mais próxima e direta de Condorcet e Saint Simon, como já abordado.

De maneira sintética, o paradigma comtiano das três fases do conhecimento assim se apresenta:

1. A fase teológica mostra o homem tentando explicar o

mundo a partir da intervenção de seres sobrenaturais. Divide-se em fetichismo, politeísmo e monoteísmo. Para os propósitos deste livro, considerando teoricamente viável essa caracterização metafórica, nas mais toscas fases históricas do pensamento científico estaríamos pressupondo a existência de “algo” ou “alguém” que interferiria na disposição dos fatos mundanos. Em outras palavras, rejeitaríamos qualquer naturalismo que pudesse ser relacionado a variáveis do mundo fenomênico e constituir-se em exemplar explicação sobre “como” os fatos da natureza se relacionam ou se contextualizam.

2. A fase metafísica concebe “forças” para explicar diferentes

fenômenos, em substituição às divindades. Fala-se em “força química”, “força vital”, “força física”. Aqui reside o modelo explicativo mais duramente combatido por Mach, quando se revela antimetafísico. Ao fazê-lo, Mach exemplifica como puramente metafísico o uso do conceito de forças causais para explicar, como teria procedido Newton, fenômenos naturais. No âmbito da Psicologia, esse procedimento ensejaria apoio numa causalidade

decorrente de estados ou estruturas internas (físicas ou conceituais, como vários tipos de energia) admitidas como instâncias responsáveis pelo comportamento dos organismos.

3. A fase ou estado positivo caracteriza-se pela subordinação

da imaginação e da argumentação à observação. Segundo Gianotti (1983):

[...] Cada proposição enunciada de maneira positiva deve

corresponder a um fato, seja particular, seja universal. Isso não

significa, porém, que Comte defendesse um empirismo puro, ou

seja, a redução de todo conhecimento à apreensão exclusiva

de fatos isolados. A visão positiva dos fatos abandona a

consideração das causas (finais) dos fenômenos (procedimento

teológico ou metafísico) e torna-se a pesquisa de suas leis,

entendidas como relações constantes entre fenômenos

observáveis. (p.XI; destaque nosso)

Dessa maneira, originalmente, a Filosofia positiva considerava impossível a redução de todos os fenômenos da natureza a um princípio único (Deus, natureza). Ao contrário, a experiência nunca mostraria mais do que uma limitada interconexão entre determinados fenômenos, cada ciência, organizada segundo o edifício científico proposto por Comte, ocupando-se apenas de certo grupo desses fenômenos, irredutíveis uns aos outros.

Essa atitude de esquivar-se da ideia de “causa” e optar pela de “relações constantes” entre tais fatos ou fenômenos naturais obviamente desagradou a muitos. Mantida por qualquer cientista na atualidade, ainda pode produzir efeito similar, embora maquiado sob outros discursos, na medida em que se procura responder, por esse caminho, a questões do tipo “Como se dá tal fenômeno?”, em contrapartida àquelas preferidas pelos leigos, que têm curiosidade para saber, por exemplo: “Por que tal fenômeno acontece?”. No entanto, embora a Filosofia positivista clássica já procurasse avançar em termos conceituais, abandonando as explicações teológicas e metafísicas, acabava esbarrando no equivocado propósito de buscar uma correspondência entre os enunciados científicos e os próprios dados, ou seja, certa “identidade” entre fato e valor (ou entre fenômeno e sua interpretação), o que, de resto, encontra-se hoje relegado a plano secundário por qualquer concepção parcimoniosa de ciência, sem que, equivocadamente, parte da crítica ainda atribua ao Behaviorismo, grosso modo, essa característica.

Para a caracterização da Filosofia positivista comtiana, também é fundamental a escolha do lema básico “ver para prever”, que enfatiza a importância da sistematização da observação fenomênica e, mais do que isso, constitui-se como pilar fundamental de todo o positivismo. Sintetiza Gianotti (1983): “o espírito positivo [...] instaura as ciências como investigação do real, do certo e indubitável, do precisamente determinado e do útil. Nos domínios do social e do político, o estágio positivo do espírito humano marcaria a passagem do poder espiritual para as mãos dos sábios e cientistas e do poder material para o controle dos industriais” (p.XII). Daí se pode antecipar a interpretação recorrente de que, com tal proposta, consolidou-se, em épocas mais recentes, uma necessária equivalência de “princípios positivistas” a um (eticamente cruel) desenvolvimento científico comprometido com o capital, a serviço do poder dominante e detentor de uma posição imobilista que busca a adaptação do homem à realidade que lhe é apresentada, em contrapartida a uma postura dinâmica, que investiga o envolvimento dele com a transformação social.

Dessa caracterização do positivismo clássico se depreende que Comte, apesar de seus propósitos de reforma social, não foi propriamente um pensador progressista ou revolucionário, uma vez que mostrou-se reacionário no tocante à naturalização das diferenças sociais interpretáveis nas suas últimas obras, aquelas de interesse menos científico e mais ficcionais, de certo modo afetadas pelas suas últimas convicções religiosas. Em lugar de aprofundar o estabelecimento de uma ciência transformadora da realidade, o que fazia de fato era exortar os proletários a “abrandar o egoísmo dos capitalistas”. Estava à procura de uma ordem moral humanitária, que veiculou e defendeu nas últimas publicações, o que culminou numa proposta de mudança de ordem contraditória, presente na sua religião positiva, propriamente, seu apostolado positivista, que pudesse abolir conflitos de classe. Por certo, seu apelo ao que se poderia hoje denominar de “conscientização do poder instituído” para sensibilização com relação aos problemas sociais não teve os efeitos que, em tese, parecia esperar. Apesar de sua contribuição para o avanço epistêmico-metodológico, o positivismo “social”, desde Comte e Durkheim, e que teve influência político-ideológica no Brasil, esteve mais para uma desastrada concepção do que pudessem ser transformações comunitárias orientadas pela justiça social, além de não ter consolidado propostas convincentes de estratégias de aplicação do conhecimento científico à constituição de uma sociedade cidadã. Algumas dimensões particulares caracterizaram tal influência. Para Pereira e Freire Jr. (2012), no Brasil

[...] o positivismo mostrou-se muito mais influente nas questões

políticas do que nas questões filosóficas ou científicas. Gomes

(1998) defende que apesar do enorme número de seguidores

do positivismo no Brasil, a influência do positivismo na ciência

brasileira foi muito pequena, devido à inexistência de

universidades no país até 1920. Estudantes brasileiros

pertencentes à elite realizavam seus estudos na Europa, em

geral, na França e, desta forma, a elite brasileira se apropriou

das ideias comtianas. Entretanto, o positivismo tornou-se uma

filosofia importante na formação do pensamento republicano,

sendo a maior expressão dessa influência os dizeres “ordem e

progresso” presentes na bandeira brasileira. (p.3)

Especialmente no âmbito europeu, acentua-se em Émile Durkheim (1858-1917) a ideia de que os fenômenos sociais poderiam ser analisados e explicados mediante o emprego da metodologia das ciências naturais. Embora tenha sido Comte a cunhar o termo “sociologia”, foi Durkheim quem formalizou estratégias básicas para a pleiteada “sociologia científica” (Da divisão do trabalho social, 1999; As regras do método sociológico, 2007). Durkheim é contundente: “A primeira regra e a mais fundamental é a de considerar os fatos sociais como coisas (físicas).” Referia-se à proposição comtiana de que fenômenos sociais são fatos naturais submetidos a leis naturais: não haveria senão coisas na natureza. Começa aqui um mal-entendido que perdura até hoje na concepção de muitos. Ele estava convencido de que havia regularidade na natureza, inclusive na natureza social, ou seja, os fenômenos sociais ocorreriam com certa regularidade, podendo ser expressos em termos de teorias, leis, postulados científicos. Nesse sentido, prevalecia uma espécie de monismo fisicalista em seu pensamento sociológico. Entretanto, se Durkheim parecia convincente ao defender que o comportamento social pode ser compreendido por meio de estudo empírico, por outro lado parecia associar a essa possibilidade de compreensão a ideia de que a natureza da sociedade – uma vez que seu funcionamento seria submetido a leis – não podia ser alterada, numa espécie de determinismo “fatalista”, e não determinista: “os fenômenos físicos e sociais são fatos como os outros, submetidos a leis que a vontade humana não pode interromper [...] e, por consequência, as revoluções no sentido direto do termo são coisas tão impossíveis como os milagres”.

Com essa imobilização do fato social, Durkheim acabou por defender um princípio de não intervenção, de conformidade e de reprodução inconteste da estrutura social em vigor. A sociedade, nesse sentido, se constituiria como “sistema de órgãos diferentes no qual cada um tem um papel particular [...] mesmo que alguns tenham situação especial (privilegiada)”. É por essa via que ele viria a ser considerado, de certa forma, metodologicamente conservador: o fato de que se poderia estudar o fenômeno social objetivamente é, por vezes, confundido com a ideia de que esse fato, por ter estofo físico e natural, seria imutável, inalterável.

Seguramente, as menções aqui feitas a Durkheim são frações ínfimas de suas reflexões metodológicas, que não podem ser avaliadas como menos ou mais maleáveis, como eminente ou superficialmente positivistas, sem o risco de formular conclusões prematuras e talvez ingênuas. Todavia, servem à finalidade principal desta reflexão, que inclui esboçar um traçado do contexto em que o Behaviorismo teve contato com a tradição positivista comtiana e suas modificações ao longo da história. Ainda como sintomática influência dos preceitos comtianos, Durkheim sustentava um apelo a que os cientistas sociais se pautassem por um “esforço de objetividade” ao analisar os fenômenos sociais. Nesse sentido, deveria ser mantido “certo distanciamento” do homem enquanto observador com relação ao homem enquanto ser observado. Levada ao extremo, tal ideia presumia a possibilidade do observador “neutro”, que se desvencilharia da sua condição de homem enquanto ser falível, histórico, multideterminado, sob influência das próprias características do objeto da observação. Assim, “distante” e livre das influências subjetivas, o cientista poderia “ver” melhor e de modo mais claro o fenômeno social. É consensual, hoje, entre a maioria dos pesquisadores e filósofos da ciência, que isso é impossível. Inúmeros estudos, sobretudo na área social, já mostraram que, por maiores e mais aperfeiçoados que sejam os cuidados metodológicos utilizados na observação de um fenômeno, resta sempre, com maior ou menor intensidade, algum indício da influência de características inerentes ao observador enquanto variável presente na descrição e interpretação que se faz do fenômeno.

Essa característica do positivismo ingênuo, que não é “privilégio” de Durkheim, já que esteve presente na fala e na prática de muitos estudiosos, sustenta a ideia de uma ciência supostamente “neutra”, que poderia resolver todos os problemas da observação mediante o aperfeiçoamento técnico, ideia que permanece, ainda, em meio a raras parcelas da comunidade acadêmica e de pesquisa. Essa pequena parcela de pesquisadores acredita que o avanço tecnológico da observação, desde aquela feita a olho desarmado até aquela realizada com equipamentos eletroeletrônicos, digitais, a cada dia mais sofisticados, garantirá, algum dia, a total ausência de contaminação dos resultados. Não se enxerga aí o fato de que sempre, e por último, cabe ao ser humano interpretar e consumir os resultados da pesquisa. Ou seja, os dados são o que são apenas no sentido de que não se constituem em algo assepticamente separado de qualquer coisa que seria, em tese, alguma “coisa” em si mesma. Eles são, desde sempre, uma interpretação da realidade à qual se dá uma denominação e uma organização, como se verá sobretudo a partir da influência de Mach.

Todavia, por não constituir o centro de nossa atenção neste livro, a caracterização superficial do contexto histórico do positivismo que foi feita parece suficiente para deixar claro outro episódio que marcou a trajetória das filosofias de ciência que culminaram no aparecimento do Behaviorismo Clássico de Watson e nos neobehaviorismos de Hull, Tolman e Skinner. Parece conveniente, no entanto, esclarecer melhor o chamado “esforço de objetividade” defendido por Durkheim, conceito convenientemente examinado e exemplificado por Lövy (1994):

Liberar-se por um “esforço de objetividade” das pressuposições

éticas, sociais ou políticas fundamentais de seu próprio

pensamento é uma façanha que faz pensar irresistivelmente na

célebre história do Barão de Münchausen, o herói picaresco

que consegue, através de um golpe genial, escapar ao pântano

onde ele e seu cavalo estavam sendo tragados, ao puxar a si

próprio pelos cabelos [...] É suficiente examinar a obra dos

positivistas, de Comte e Durkheim até nossos dias, para se dar

conta de que eles estão inteiramente fora da condição de

“privados de preconceitos”. Suas análises estão fundadas sobre

premissas político-sociais tendenciosas e ligadas ao ponto de

vista e à visão social de mundo de grupos sociais

determinados. Sua pretensão à neutralidade é às vezes uma

ilusão, às vezes um ocultamento deliberado e, frequentemente,

uma mistura bastante complexa dos dois. É inútil insistir, aliás,

neste aspecto, já que os positivistas mais lúcidos, como Karl

Popper, mostraram, eles próprios, o ridículo desta doutrina

tradicional da ciência social sem preconceitos e sem prenoções.

(p.32-3)

Não há como examinar a evolução de uma corrente psicológica sem fazer alusões à filosofia e à sociologia que a precederam ou acompanharam historicamente. Não é sem razão que Lövy (1994) considerou Popper como “mais lúcido”, embora, na mesma obra, ele se torne objeto de crítica do autor. Isso porque Popper, de certo modo dissidente do Círculo de Viena, produziu influências até hoje mantidas por muitos estudiosos no que diz respeito ao caráter de demarcação científica. Seu critério de falseabilidade das asserções científicas, em contrapartida ao de confirmação repetida de tais asserções, lançou novas luzes para a construção do edifício da ciência, como veremos adiante.

Retornamos, incidentalmente, à história do positivismo e, sobretudo, à tensão experimentada por Comte devido ao fato de que as ideias de Saint Simon (de quem não divergira por simples idiossincrasias) e de outros pensadores do Iluminismo pudessem transformar-se em ameaça à “estabilidade social” vigente. Ao mesmo tempo que não queria o estado de coisas anterior a 1789, pretendido pelos absolutistas, temia uma postura revolucionária. Por isso, seu positivismo de então enseja a defesa de uma sociedade “científica” em que é privilegiada uma “ordem industrial”, a qual sustenta, afinal, a ideia de “ordem e progresso”. Nessas circunstâncias, não é difícil entender o sentido generalizado da crítica ao positivismo como filosofia comprometida com a manutenção do estado de coisas vigente. Ou seja, o progresso da ciência, viabilizado pela objetividade, por si e necessariamente traria melhores condições de vida para todos, o que é provável que tenha sido o ingênuo engodo em que se meteram Comte e seus primeiros seguidores.

Por razões parecidas, o conceito de positivismo como condição suficiente para o reacionarismo e a alienação se difundiu por longo período e se mesclou com uma busca da objetividade científica contaminada pela crença impertinente em dados puros e na neutralidade científica, interpretação hoje completamente abandonada em todas as disciplinas. Entre os críticos dos empreendimentos científicos que continuam buscando objetividade na identificação, descrição e análise dos dados e na construção de sistemas teóricos explicativos da realidade ainda existem, no entanto, posturas que confundem e mesclam essa desejável atitude científica com a descabida crença em dados puros e com a naturalização imobilista de classes no contexto das sociedades, as quais há muito tempo se sabe que são resultantes da história das relações sociais.

Como já se mencionou, a literatura crítica acerca da influência positivista sobre o Behaviorismo vai desde uma análise das reais implicações metodológicas e conceituais da pesquisa até implicações político-ideológicas mais profundas. Na primeira dimensão, estão em jogo algumas dicotomias básicas, como a questão do como? e do por quê? enquanto questionamentos a serem feitos sobre os fenômenos. Também aí reside o debate acerca de verificação e refutabilidade. De modo mais geral, um jogo que envolve questões lógicas, relativas à indução e à dedução, e que chegou a colocar sob análise a proposição de Karl Popper sobre os critérios de demarcação entre o que é e o que não é ciência – embora ele tenha sido ocasionalmente citado por Skinner, este não teve o objetivo precípuo de ater-se a essa discussão, apesar de sua reconhecida importância. Por fim, outra questão em que a influência positivista da busca da objetividade está presente é a que diz respeito à recusa de Skinner do status causal atribuído por alguns aos eventos mentais (trata-se de caso genérico no âmbito do cognitivismo de seu tempo). Ele insiste em rejeitar qualquer espécie de teleologia, qualquer espécie de explicação que envolva a busca de propósitos que sejam supostamente causadores do comportamento, até porque, reitere-se, demarca o seu Behaviorismo Radical como uma filosofia de ciência que admite, por pressuposição, estofo único nos fenômenos: trata-se de um estofo físico que lhes confere caráter monista.

Desse primeiro bloco analítico sobre as influências positivistas originaram-se outras polêmicas envolvendo o Behaviorismo, por exemplo, a questão quantidade–qualidade. Bruyne, Herman e Schoutheete (1977) entendem a quantificação, que seria prioridade no Behaviorismo, como uma ligação entre a operacionalização de hipóteses e a coleta de informações, submetendo a pesquisa a suas exigências metodológicas. Nesse sentido, a quantificação imporia uma ordem ao universo semântico, reduzindo-o a um universo simbólico de números. Em alguns casos, esse proceder tipificaria influências do positivismo lógico, não atribuíveis, como vimos, diretamente a Skinner (nesse sentido, Hull e Tolman tendiam a expressar, em termos de fórmulas e equações, as relações entre comportamento e ambiente). Note-se, sobre o continuum quantidade–qualidade, tal como mencionamos em outra publicação (Carrara, 1996):

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