Meu primeiro amor
Parte dois
Ce chapitre est long, il est donc découpé en 3 parties.
Erguemos nossos copos e brindamos. “Sláinte”, eu disse.
“Slan-cha?”, disse Robinson, franzindo a testa. “Já ouvi isso antes… o que significa?”
Dei de ombros. “Não sei. É apenas um velho brinde irlandês.” Mas é claro que eu sabia exatamente o que significava. Significava “saúde”. Por que não era tudo o que mais importava hoje em dia?
Viramos os copos, e o líquido queimou minha garganta, me fazendo estremecer. “É este o gosto do fluido do radiador?”
Robinson estava bochechando a bebida na boca. Só depois engoliu. “Parece mais com álcool setenta, eu diria.”
Agora eu sentia a bebida no estômago, me aquecendo. Seria possível eu já me sentir mais solta, quase tonta? “Engraçado como uma pequena dose faça com que eu me sinta tão rebelde, quando já sou uma ladra de carros.”
“Acredito que queira dizer tomadora de empréstimo”, observou Robinson.
“Porque isso vai cair muito bem com o juiz”, disse eu. “Ah, você só estava pegando emprestado aquele Porsche? Então não tem problema!”
“Vocês não são daqui, são?”
Robinson e eu erguemos os olhos, assustados. Pessoas culpadas são nervosas, eu acho. Mas era apenas o nosso garçom, que parecia ter tomado uma ou duas doses.
“Não, senhor”, disse Robinson, do jeito mais educado possível.
O garçom apontou o dedo para nós. “Bem, quando voltarem para casa, digam a seus amigos como a Grande D está indo bem. Sei que vocês foram ver as fábricas fechadas. Todo mundo faz isso. Mas não se lembrem apenas das coisas mortas. Lembrem-se disto”, ele acenou com o braço ao redor da sala alegre e barulhenta. “Lembrem-se da música e da bebida. Estamos de acordo?”
Robinson e eu assentimos juntos, e o garçom acenou de volta, satisfeito. “Volto em um minuto para o pedido.”
Quando ele saiu novamente, Robinson segurou minha mão. “Ele tem razão. Você precisa se lembrar das coisas boas, Axi.”
Algo na forma como ele disse isso me provocou um arrepio na espinha. Como se ele falasse sobre muito mais do que apenas Detroit. Mas sorri e apertei sua mão de qualquer maneira. “É um acordo. Palavra de escoteiro”, eu disse. “Juro juradinho. Blá-blá-blá.”
Robinson sorriu. “Você realmente é linda, sabia disso?”, ele disse.
Olhei para a mesa, mas ele estendeu a mão e pôs um dedo sob meu queixo, inclinando meu rosto para que eu tivesse de olhar diretamente em seus olhos escuros.
“Quero dizer. Alguém deveria dizer isso para você todos os dias de sua vida. E agora posso ser eu.”
“Sempre vai ser você”, sussurrei.
Ele sorriu novamente.
“Venha pra cá.” Dei a volta para o lado dele da cabine. E me sentei em seu colo. Isso surpreendeu a nós dois.
“Axi”, disse ele, sua voz suave e gutural. Ele passou a ponta do dedo em minha clavícula. “Eu nunca pensei que você fosse do tipo que faz manifestações públicas de afeto.”
Estremeci sob seu toque e pressionei a testa na dele. Quando falei, nossos lábios estavam tentadoramente próximos. “Estou aprendendo a viver perigosamente”, disse.
Ele chegou ainda mais perto, então seus lábios quase roçaram os meus. “E o que você acha disso?”, ele sussurrou.
Eu quase conseguia sentir o gosto dele, e me segurei por outro longo e delicioso momento antes de finalmente pressionar a boca contra a dele. Deslizando meus dedos pelo emaranhado de seus cabelos. Nós nos beijamos, e o calor inundou meu corpo.
“Eu gosto”, sussurrei. “Muito.”
Eu estava quase tonta. Então é assim que a gente se sente bêbado. Mas não era da dose que eu tinha tomado.
Estou aqui para dizer que a bebida não tem nada a ver com amor – e desejo.
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36
“A Blue Streak, a Mean Streak e a Millennium Force”, disse Robinson. “Quero ir em todas elas. Você só pode ir à Mean Streak, Axi.”
Ele fingia estar com raiva de mim porque eu tinha dito que ele não poderia comer um Slim Jim antes de uma banana. Quem é você, minha mãe?, ele perguntou. Eu disse que não podia mais vê-lo comer coisas feitas de frango separado mecanicamente, também conhecido como pasta de carne rosada e pegajosa. Então ele me acusou de ser uma vegetariana arrogante, e eu fiz cócegas nele na cabine da caminhonete até ele implorar por misericórdia.
Agora estávamos dentro dos portões de Cedar Point, a capital mundial das montanhas-russas, localizada em Sandusky, Ohio. Robinson, o audacioso, e eu, aquela que fica enjoada em balanços de praça.
“Acho que a Junior Gemini pode ser mais a minha”, eu disse.
Robinson bufou. “Axi, você fez coisas ultimamente muito mais assustadoras do que uma montanha-russa.” Ele apontou o dedo para mim, imitando uma arma.
“Não me lembre disso”, falei.
“E então? Vamos?”, ele perguntou, estendendo o braço.
Como eu poderia recusar? Meu Malandro, meu parceiro no crime, meu coração. Ele parecia estar em perfeita saúde. E estava? Eu não sabia, mas agora era hora de aproveitar.
Ficamos na primeira fila por pelo menos uma hora, cercados por pais cansados, seus filhos hiperativos de oito anos e taciturnos de treze, e um punhado de aposentados queimados de sol aparentemente dispostos a arriscar um ataque cardíaco.
Robinson me viu mexendo com nervosismo na barra da minha camiseta. “Estou te dizendo que vai ser demais”, disse ele. “Você vai adorar.”
Ele estendeu a mão e acariciou meu cabelo, e então seus dedos desceram por meu pescoço, massageando suavemente, de forma reconfortante.
Quase gemi de prazer. “Qualquer coisa que você diga…” De repente, eu não estava mais pensando no passeio. Estava pensando nas mãos dele. “Apenas continue fazendo isso.”
Ele riu, esfregando meus ombros agora, seu corpo longo e quente contra minhas costas. “É só disso que eu preciso?”, ele perguntou. “Uma pequena massagem nas costas, e a durona Axi Moore se transforma em uma pilha trêmula de aquiescência?”
“Uh, essa é uma palavra grande para você”, provoquei, tentando recuperar um pouco do atrevimento. Não foi fácil.
“Talvez bom vocabulário seja contagioso”, disse.
“Mmmmmmm.”
“Embora pareça que você possa estar perdendo o seu.”
“Mmmmm, para baixo…”
Então Robinson me puxou contra ele, passando os braços ao meu redor, por trás. “Talvez não devêssemos nos deixar levar”, disse ele no meu ouvido.
Suspirei. “Acho que não…”
“Mas você não está mais com medo, está?”
Balancei a cabeça com firmeza. Não estava.
Claro, meu coração começou a bater forte assim que subimos no vagão traseiro da Millennium Force, mas eu disse a mim mesma que era por causa da excitação, não do medo. Disse a mim mesma que, em comparação com todas as coisas autenticamente perigosas que tínhamos feito, como roubar carros, andar de motocicleta e invadir piscinas de outras pessoas, aquele era um passeio no parque.
Enquanto subíamos lentamente a montanha-russa, os trilhos incrivelmente tranquilos abaixo de nós, agarrei a mão de Robinson. À nossa frente, as pessoas já gritavam. Meus nós dos dedos ficaram brancos em torno dos dedos de Robinson.
“Lá vem”, disse ele.
Quando parecia que o carro não poderia subir mais alto no céu impecável de verão, chegamos ao topo, paramos por um segundo silencioso e antecipatório… e então mergulhamos. Descedescedescedesce.
Gritei mais alto do que jamais imaginei ser possível, e ao meu lado Robinson soltou um grito selvagem de alegria. Corremos e giramos acima do parque, o vento fazendo meus olhos lacrimejarem, e o carro me chicoteando para a frente e para trás. Não parei de gritar nem por um único instante. E Robinson, ele apenas ria e ria, deixando minhas unhas cravarem meias-luas em sua pele.
Quando finalmente diminuímos a velocidade na última volta e paramos sob o toldo para desembarcar, me virei para Robinson com um sorriso enorme no rosto. “Nossa”, declarei. “Eu quero fazer isso de novo.”
Ele me lançou um olhar triunfante. “Eu sabia que você ia gostar. Eu te conheço melhor do que você mesma.” Então estendeu a mão. “Me dê uma ajudinha aqui, sim?”
Abaixei-me e agarrei sua mão, sentindo o peso da palma dele na minha. “Obrigado”, disse ele. Ele tirou minha franja do caminho e então tocou os lábios suaves e doces na minha testa.
De mãos dadas, saímos para o saguão, que estava forrado de flores, cheio de gente e com cheiro de comida frita e protetor solar.
“Vamos comprar algodão-doce”, falei.
“E refrigerantes do nosso tamanho”, acrescentou Robinson.
“E nachos e balas de alcaçuz”, gritei, começando a pular.
Robinson riu enquanto eu o puxava atrás de mim. “Acho que a montanha-russa soltou um parafuso. Você não quer um pouco de couve ou algo assim?”
“Amanhã! Hoje vamos agir como adolescentes normais!”
Porque hoje eu realmente me sentia uma adolescente normal. Como se nada tornasse Robinson e eu diferentes de qualquer outra pessoa da nossa idade – nem doença, nem crime ou qualquer outra coisa. Estávamos despreocupados. Com sorte. Imortais.
“Eu já disse que te amo?”, Robinson perguntou, me alcançando.
“Sim, mas diga de novo”, eu disse, parando para me apertar contra ele.
“Eu te amo”, disse ele.
“Eu também te amo”, eu disse.
E então nos beijamos no meio do caminho com uma multidão de pessoas caminhando ao nosso redor e os carros da montanha-russa girando no alto.
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37
“Então”, disse Robinson, “a caminho da Big Apple?” Estávamos finalmente indo para a caminhonete, tão exaustos que parecia carregarmos um ao outro.
“Ninguém a chama de Big Apple, sabe”, eu disse. “Isso é coisa de turista.”
“E nós não somos turistas?”, ele perguntou, levantando uma sobrancelha escura.
“Não, nós somos aventureiros”, respondi. “Exploradores.”
Robinson me entregou o chaveiro de lembrança que comprou na última loja de presentes antes da saída. Era um minúsculo modelo da Millennium Force enfiado dentro de um globo de neve. “Já que agora você é motorista e tudo”, disse ele, com um sorriso torto.
“Claro, só não tenho as chaves”, observei.
“Ei, se não quiser, posso enganchar na minha chave de fenda ou na minha furadeira sem fio.”
Mas é claro que eu queria. Era um presente do garoto que eu amava. “Vou comprar uma coisa para você também”, eu disse, sacudindo um pouco o globo de neve.
Robinson exigiu saber o que era, mas balancei a cabeça e fingi cerrar meus lábios. “É surpresa.”
Enquanto subia no banco do motorista da caminhonete, peguei Robinson olhando para uma BMW preta esportiva estacionada ao nosso lado. “Nem pense nisso”, eu disse. “Não consigo dirigir um carro manual.”
“Vou te ensinar em seguida”, disse ele. “E, depois, quadriciclos.”
“E motocross”, eu disse. “Por que não?” Porque tudo ia ficar bem de agora em diante. Talvez realmente tivéssemos todo o tempo do mundo.
Com Robinson como meu navegador, peguei a I-80. Tínhamos uma longa viagem pela frente, e as estradas secundárias simplesmente não dariam certo. Eu queria algo cheio de Starbucks.
“O tempo não passa mais devagar quanto mais rápido você vai?”, Robinson perguntou, olhando para os campos verdes e as placas que indicavam as paradas de caminhões da Pacific Pride.
Pensei em minha aula de física, que parecia ter sido há cerca de um milhão de anos (o que isso diz sobre o tempo?). “É apenas uma questão de nanossegundos ou algo assim. O tempo passa mais devagar quanto mais perto estamos da terra, também.”
“Isso me dá um excelente motivo para não praticar alpinismo.”
“Como se precisasse de um”, disse eu.
“Verdade. De alguma forma, a ideia de mergulhar centenas de metros até a morte nunca me atraiu.” Ele brincou com o chaveiro, observando a neve cair sobre a pequena montanha-russa. “Você já pensou no que acontece depois?”, ele perguntou de repente.
“Depois do quê?”, perguntei, indo para a faixa de passagem.
“Depois de ganharmos as nossas asas”, disse. Ele olhou para mim, esperando uma reação. Mantive os olhos na estrada. “Não brinque”, eu disse.
Robinson cruzou os braços sobre o peito. “Não estou brincando. Estou perguntando.”
“Depois de ‘ganharmos nossas asas’…”
“Você não lembra? A enfermeira Sophie costumava dizer isso o tempo todo. Ela era totalmente sincera.”
Pressionei o pedal do acelerador com mais força. Estava quase no limite de velocidade agora. “Porque ela acreditava que quando a gente morre vira anjo”, falei. “Considerando que você acha que a gente só tira um cochilo.”
Robinson deu uma risadinha. “Desculpe. Essa coisa do cochilo sempre me pega.”
“Não tem graça”, eu disse.
Mas a verdade é que brincávamos constantemente sobre a morte na enfermaria. Todos fazíamos isso porque, de alguma forma, nos deixava com menos medo. Estou tããão cansado, alguém dizia, acho que vou dormir com os peixes. Outro dizia: ultimamente tenho pensado em comprar um condomínio de pinheiros. Ou: sim, estou planejando entrar no negócio de fertilizantes.
Era brincar com o pássaro da morte. E tornava as coisas terríveis que a quimioterapia provocava, como náusea e queda de cabelos, um pouco menos terríveis. Mas eu achava, ou esperava, que Robinson e eu tivéssemos deixado esse tipo de coisa para trás. Que esse tipo de humor não era mais… medicamente relevante.
“Não sei, Robinson”, falei, agarrada ao volante. “Eu quero achar que há algo do outro lado, mas onde estão as provas? Ninguém manda um cartão-postal da vida após a morte.”
“O que é uma grande grosseria da parte deles”, respondeu ele.
“Não é?” Levantei o punho. “Ouviu isso, Carole Ann? Uma grosseria .”
Robinson se aproximou e colocou a mão no meu joelho. “Não se preocupe”, disse ele. “Vou escrever para você.”
Senti como se tivesse levado um soco no estômago.
Eu queria rir, para mostrar que sabia que ele estava brincando. Mas não tinha certeza se estava.
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38
Cruzamos a vasta extensão da Pensilvânia enquanto Robinson dormia. No escuro, parecia qualquer outro estado, e passei por ele a 120 quilômetros por hora.
Em East Orange, Nova Jersey, no meio da manhã, mandei Robinson a um Pathmark para comprar comida (“coisas saudáveis”, eu disse, já esperando que ele tentasse passar Froot Loops como fruta de verdade), enquanto atravessava a rua até um lugar chamado Tudo o que Brilha é Ouro.
Graças ao meu pai, eu conhecia bem as casas de penhores. Foi assim que, por cinquenta dólares e a pulseira de pérolas e ouro da minha mãe, comprei um violão para Robinson.
“Onde você foi?”, Robinson perguntou quando parei em frente ao Pathmark. Ele colocou a sacola de compras no banco de trás e fiquei chocada ao ver uma banana de verdade dentro dela.
“Só uma coisinha rápida”, eu disse, tentando não sorrir ao pensar no violão escondido embaixo da barraca, atrás do banco traseiro. “Você realmente comprou frutas e legumes?”
Ele se inclinou e beijou meu pescoço. “Diga aonde você foi”, ele disse, seus lábios fazendo cócegas na minha pele.
Prendi a respiração. Não! Cada vez que ele me tocava, eu sentia todo o meu corpo começar a zumbir e tremer.
“Diga”, ele disse novamente, passando do meu pescoço para o lóbulo da minha orelha, a boca leve e provocante.
“Robinson”, sussurrei. Eu lhe diria qualquer coisa, desistiria de todos os segredos que tive na vida, se ele continuasse fazendo isso.
Eu o puxei para mim, minha boca encontrando a dele. Antes que eu percebesse, meus dedos estavam nos botões de sua camisa. Consegui desfazer os dois primeiros, mas, de repente, ele se afastou de mim. Recuou contra a porta do carro, abotoando a camisa rapidamente.
Sentei-me ereta, piscando. Confusa. Ele não queria aquilo também?
“O que foi?” perguntei. “Por que…”
“Guardas de segurança”, disse Robinson, acenando com a cabeça em direção aos caras corpulentos que percorriam de um lado a outro as filas do estacionamento.
Havia três deles – dois a apenas poucos passos de distância. Mas eles poderiam estar sentados no banco de trás, que eu não teria notado, com Robinson me tomando todos os sentidos.
“É melhor a gente ir”, disse ele. “Podemos, hum, fazer mais disso mais tarde.”
Minhas bochechas coraram de vergonha. “Tá bom”, eu disse. Como se não quisesse gritar, Sim, vamos!
Robinson sorriu. “Mas, sabe o quê? Acho que quero dirigir.”
Fiquei tão aliviada por ele se sentir bem, tão emocionada com agora poder beijá-lo quando quisesse – com guardas de segurança e tudo – que eu, a garota do interior Axi Moore, não surtei nem um pouco quando o horizonte de Nova York se tornou visível ao longo da rodovia, com suas colinas e vales de arranha-céus prateados. Não me importei de ficarmos no trânsito do lado de fora do túnel Holland por 45 minutos ou por Robinson se perder no caminho para o East Village.
Ele estava dirigindo. Ele estava feliz e forte. Isso fazia com que tudo ficasse bem.
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39
Juntos, em meio a uma multidão de turistas, caminhamos pela St. Marks Place, experimentando óculos de sol baratos nas cabines externas e visitando uma loja de dois andares chamada Trash and Vaudeville, onde Robinson posou para uma foto vestindo uma jaqueta de motoqueiro de corino prata e eu experimentei uma peruca azul brilhante. Paramos na livraria St. Mark’s, e eu comprei um exemplar do Folhas de relva, do Whitman, e um livro de poemas de Dylan Thomas.
“Poesia?” Robinson disse, parecendo horrorizado.
“Apenas leia uma”, eu disse.
Robinson abriu o Whitman em uma página aleatória e pigarreou. “‘Uma criança disse: o que é a relva?, trazendo um tufo em suas mãos. O que dizer a ela?… sei tanto quanto ela o que é a relva. Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito, tecida de
uma substância de esperança verde.’”10 Ele olhou para mim, intrigado. “Está bem”, disse ele, “gosto bastante disso, ‘tecido de esperança verde’.”
Dei risada. “Mas eu tenho algo de que você vai gostar mais.” Peguei a mão dele e o conduzi rua abaixo até o carro.
“É a minha surpresa?”, ele perguntou animadamente.
“Olhe embaixo da barraca”, eu disse.
Quando Robinson puxou o violão, todo o rosto dele se iluminou. Ele o segurou nas mãos e experimentou puxar uma corda.
“Axi, como…”
“Vamos tocar”, eu disse. Não queria ter de dizer a ele que havia desistido da pulseira da minha mãe (a última coisa que eu tinha dela) para comprar o violão. E que não estava nem um pouco triste com isso.
De mãos dadas, caminhamos até o Tompkins Square Park e encontramos um banco sob um anel de árvores ginkgo. Robinson dedilhou por um momento, encontrando os acordes. Eles me pareceram familiares, mas não reconheci a melodia até que ele começou a cantar.
“Moving forward using all my breath ”,11 Robinson cantou. A música era “I’ll Melt with You”.
Não falei sobre a voz de Robinson, em parte porque não consigo explicar. É limpa e rouca ao mesmo tempo; é íntima, mas também exige um público. Geralmente é suave, mas, de alguma forma, a escutamos não apenas com os ouvidos, mas com todo o corpo. E, acima de tudo, com o coração.
As pessoas que passavam começaram a parar para ouvir enquanto ele cantava. No entanto, Robinson não pareceu notá-las se reunindo gradualmente ao redor. Mantinha os olhos fixos na bota que batia nos paralelepípedos. De vez em quando, olhava para mim, bem nos meus olhos, cantando: “I’ll stop the world and
melt with you…”.12
Logo havia um grande círculo de pessoas, jovens, velhos e adultos. A maioria era de pais com filhos carregando coelhinhos de pelúcia ou bolas de futebol ou – os mais velhos – iPhones. E todos os pais conheciam a música, porque eles a dançaram vinte anos antes, quando estavam no colégio e se apaixonaram pela primeira vez.
No começo, alguns apenas murmuraram a letra, mas, então, baixinho, começaram a cantar. Em seguida, outros também se juntaram e deixaram de lado as expressões duras e vazias da cidade, e sorriram e, no minuto seguinte, todo mundo cantava junto. Juro por Deus, tinha gente com lágrimas nos olhos, de tanto que Robinson fica lindo quando toca.
Quando a música terminou, houve silêncio. Por um momento, senti como se a cidade inteira tivesse ficado quieta, respirando fundo. Como se todo mundo, em toda parte, estivesse pensando na vida, e em como ela é a coisa mais feliz e mais triste, a mais maravilhosa, mais terrível e mais preciosa.
Então o silêncio foi quebrado. Uma mulher com um vestido amarelo brilhante começou a aplaudir e, assim como a cantoria havia crescido, também aumentaram as palmas, até que os aplausos ficaram altos de verdade. Outra mulher estava assoando o nariz, e um homem olhava para o céu piscando muito e rápido – mas a maioria das pessoas apenas sorria.
Um velho deu um passo à frente e colocou o boné no chão. “Você se esqueceu de passar o chapéu”, disse ele.
Robinson ergueu os olhos, assustado. “Perdão?”, ele disse. Ainda estava no mundo da música. Ainda achava que éramos só nós ali.
O velho se parecia um pouco com Ernie. Ele se virou para a multidão e gritou: “Colaborem com o jovem artista!”.
Robinson e eu observamos quase todas as pessoas avançarem com moedas e dólares. Vi uma mulher dar dinheiro à filha, e a garota se levantou na ponta dos pés e colocou uma nota de vinte no chapéu. Ela tinha mais ou menos a idade de Carole Ann quando morreu, a idade que teria para sempre. Tinha até os cabelos ruivos, como os da minha irmã.
“Obrigada”, sussurrei.
Então tudo acabou, e as pessoas foram embora. Robinson e eu ficamos sozinhos novamente. O boné estava cheio de dinheiro.
Robinson sorria para mim. “Estamos ricos”, disse ele, e me puxou para o seu colo.
Realmente, naquela hora, parecia que estávamos.
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40
Decidimos fazer uma extravagância dormindo em um hostel naquela noite. Parecia uma ideia melhor do que dormir em um banco de parque, embora fôssemos ter muitas companhias interessantes se tivéssemos seguido esse caminho.
O Grand Street Hostel ficava na periferia de Little Italy, perto de Chinatown, e parecia bastante decente do lado de fora. Havia alguns mochileiros fumando na frente, e o cara na recepção foi amigável com seu jeito meio chapado.
Mas Robinson e eu rapidamente soubemos que a diferença entre um hostel e um hotel vai muito, muito além da pequena distinção na grafia. Quando o s é adicionado, você subtrai coisas como privacidade, conforto e, naquele caso, teto. O albergue era um labirinto de celas minúsculas de paredes finas, mal construídas dentro de uma espécie de hangar.
“Parece um pouco mais uma prisão do que eu esperava”, disse Robinson.
“Nem me fale”, concordei, pisando em uma bota solitária no corredor. “Fiquei com a sensação de que devíamos ter tirado as impressões digitais.”
Felizmente, tínhamos nosso próprio quarto, com duas camas de solteiro empurradas uma contra a outra e cerca de quinze centímetros de espaço de cada lado.
“Bem, os lençóis parecem limpos, pelo menos”, Robinson disse alegremente. Então me deu um beijo rápido foi até o banheiro no corredor.
Sentei-me no canto da cama e olhei para o não teto. Dava para ouvir o fim de uma conversa desagradável ao celular de um quarto próximo. Não é minha culpa você ter sido expulso, alguém disse. Todo mundo odeia você há anos.
Cantarolei um pouco, tentando dar a essa pessoa um pouco de privacidade. A música era “Tangled Up in Blue”, mas não dava para reconhecer, já que não sei cantar. Eu também não sei tocar nenhum instrumento. “Tudo bem”, Robinson costumava me assegurar. “Você vai ser uma grande roadie algum dia.”
Cantarolei mais rápido e puxei a ponta do lençol. Percebi que estava nervosa, mas também animada. Robinson e eu não ficávamos sozinhos em um quarto desde Los Angeles, quando assistimos a O Gato de Botas totalmente castos. O que aconteceria naquela noite, me perguntei. O quanto não castos seríamos?
Essa era outra coisa que eu definitivamente não tinha planejado. Era uma estrada pela qual eu simplesmente precisava tatear o caminho.
Sem trocadilhos.
Quando Robinson voltou do banheiro, seu cabelo estava molhado e ele cheirava a sabonete. Estava com a camisa caindo nos ombros e estava usando uma cueca samba canção xadrez azul.
Colocou a calça jeans dobrada em cima da mochila. A cama fez um ruído quando ele se sentou.
“Oi”, eu meio que sussurrei.
“Oi, você”, ele disse suavemente. “E aí? O que quer fazer agora?”
Eu sabia a resposta para a pergunta, mesmo que isso meio que… me assustasse um pouco. Respirei fundo, desejando ser corajosa.
Tirei a camisa.
Robinson prendeu a respiração. E então gentilmente afastou as longas mechas de cabelo da minha nuca e me beijou. Estremeci, com arrepios subindo pelos braços.
Podia sentir sua respiração, a maciez impossível de seus lábios. Inclinei a cabeça para trás, e ele correu um dedo pelo meu pescoço, parando na cavidade da clavícula por um momento antes de assimilar cada uma delas. Ele beijou ao longo dos meus ombros, me fazendo cócegas com a leve aspereza do queixo com a barba por fazer.
Caímos de costas na cama e, sobre mim, Robinson tirou a camisa de flanela. Então, abaixou sua cabeça escura, e viramos apenas lábios, línguas e dentes até que precisamos parar para recuperar o fôlego.
Então ficamos ali, os olhos presos à meia-luz. Robinson me olhava como se olhasse para algo que perdeu há um milhão de anos e nunca imaginou encontrar.
Eu o olhava maravilhada, percebendo o quanto dele ainda havia para descobrir: a cicatriz na parte interna da palma da mão, as veias azuis em seu pulso, o triângulo de sardas no peito, logo à esquerda do esterno. Esses pequenos lugares secretos. Eu queria conhecer todos eles.
Mas eu não sabia até onde as coisas iriam esta noite. Eu queria ir devagar… e queria ir rápido.
Robinson limpou a garganta. “Você…?”, ele começou.
“Eu não tenho nenhuma camisinha, se era isso que você ia perguntar.” Minha voz saiu muito alta, e eu me encolhi contra ele de vergonha.
Ele fez um barulho. Um grunhido? Uma meia risada?
“Eu não quero ter filhos”, soltei.
Então ele realmente riu. “Nossa, Axi. Estamos indo um pouco rápido, não é?”
Eu puxei o cobertor sobre o rosto. Aquilo tudo era novo demais para mim. Dava para evitar fazer errado?
Mesmo assim, havia algo que eu queria que ele soubesse. Obriguei-me a continuar falando, embora parte de mim estivesse prestes a morrer de humilhação. “Não achei que fôssemos fazer um bebê, Robinson. Disse isso como uma coisa filosófica. Entre os genes do câncer da família Moore e, tipo, o aquecimento global, qualquer filho meu estaria condenado. Ele nasceria com olhos azuis e uma bomba-relógio dentro dele, assim como o resto da minha família. O que eu chamo de uma mão de cartas ruim.” Tentei não parecer tão amarga quanto me sentia.
Robinson acariciava meus dedos lentamente. “Mas os olhos azuis são muito lindos”, disse ele calmamente.
Sorri e passei a mão pelo peito liso dele, que estava com o braço embaixo do meu pescoço. Deitados ali, parecíamos ser extensão um do outro. Como se nossos corpos e nossos corações precisassem estar juntos para formar uma pessoa completa e perfeita.
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4 1
Na manhã seguinte, acordamos na mesma posição – por algum milagre, o braço de Robinson não ficou dormente durante a noite. Pegamos café e bagels grandes e fofos na cafeteria da esquina. Pedimos que viessem torrados e pingando manteiga, o jeito favorito de Robinson. Em seguida, pegamos o metrô até o Metropolitan Museum of Art.
Quando um mendigo atravessou o vagão do metrô vestido como se fosse inverno em vez de junho, Robinson enfiou a mão no bolso e tirou uma nota amassada de cinco dólares.
O mendigo fez uma reverência ao aceitar. “Dinheiro e uma linda mulher. Você tem tudo, senhor.”
“Bem, na verdade, agora você está com o meu dinheiro”, observou Robinson.
O mendigo considerou esse fato por um momento. “Mas quem precisa de dinheiro quando você a tem?”
“Exatamente o que eu penso”, disse Robinson. Ele colocou o braço em volta de mim como se eu lhe pertencesse.
Quando chegamos ao Met, vagamos entre as enormes salas de pé-direito alto, admirando obras famosas que só tínhamos visto em reproduções minúsculas: a Catedral de Rouen, de Monet, o Campo de trigo com ciprestes , de Van Gogh, Íris negra, de Georgia O’Keeffe, e Ritmo de outono, de Jackson Pollock.
E embora eu olhasse para as obras-primas, o que continuava vendo era Robinson na noite anterior, sem camisa, deitado ao meu lado. Isso tornava difícil me concentrar. Às vezes, quando ele me olhava de determinada maneira, eu me perguntava se ele estava tendo a mesma experiência. “Uma bela mulher nua vale mais do que um milhão de estátuas.” O poeta e.e. cummings escreveu isso. (Não que eu estivesse totalmente nua. Apenas… parcialmente.)
Robinson parou na frente de Madame X, retrato de uma bela mulher de John Singer Sargent, e balançou a cabeça maravilhado. “Com certeza não temos arte assim em Klamath Falls”, disse ele.
“Não temos nem quedas d'água em Klamath Falls”, respondi.
Achava que talvez parte de mim sentiria falta da minha cidade natal. Por pior que fosse, ainda era a minha cidade. Mas não sentia falta de nada, porque tudo o que realmente importava para mim ou já tinha ido embora, ou estava bem ali ao meu lado no museu, segurando minha mão.
Quando acabamos na frente da tumba egípcia – aquela diante da qual Holden Caulfield quase teve um colapso em O apanhador no campo de centeio –, Robinson se abaixou para limpar um arranhão da ponta da bota.
“Vou tentar não interpretar isso como um sinal”, disse.
“Um sinal de quê?”, perguntei bruscamente.
“Ruína”, Robinson respondeu. “Tropeçar na tumba de um faraó não é pior do que, tipo, um gato preto cruzando nosso caminho? Você sabe, a maldição do Rei Tut e todas aquelas histórias…”
Deslizei a mão para o bolso de trás da calça jeans dele. “Não, Malandro, não seja bobo. Estávamos andando aleatoriamente. Nós poderíamos facilmente ter acabado no café ou algo assim.”
“O que me lembra…”
“… que você está com fome.”
“Exatamente.” Ele se endireitou um pouco mais, e pude ver como se livrou do momento de preocupação. “Sabe o que mais eu quero?”
“Não”, respondi, mas a palavra ficou presa na garganta, porque eu sabia, é claro. Só queria fazer com que ele me mostrasse a resposta.
Robinson me apoiou contra a parede e pressionou os lábios nos meus. Meus braços envolveram sua cintura, e eu me curvei contra ele. Era disso que eu estava com fome…
Como um grupo de crianças usando camisetas do acampamento Treetop entrou na sala, fomos para a tumba para nos beijar em segredo. Quase não nos importamos quando algumas crianças espionaram rindo e chamaram alguns amigos.
Mas nos separamos e, dando risada, saímos rapidamente.
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42
Nosso destino final em Nova York: Nathan’s Famous. Ficava em Coney Island, que não é realmente uma ilha, mas fica tão longe de Manhattan pelo trem F – que balança e é lento –, que parece um mundo totalmente distinto.
Quando finalmente chegamos, a praia era larga e plana como um estacionamento, e as ondas, pequenas e distantes. Havia muita gente, e algumas estavam nadando, o que ninguém no Oregon fazia sem roupa de mergulho. O Pacífico é frio.
Embora Robinson parecesse esgotado, caminhamos ao longo do calçadão, passando por carrinhos de bate-bate e um fliperama explodindo com tiros digitais. As pessoas empinavam pipas, andavam de skate, corriam e vendiam souvenirs baratos, como enormes óculos escuros de espuma e camisetas com os dizeres MANTENHA CONEY ISLAND MALUCA.
“Quer andar no Cyclone?”, perguntei, apontando para a montanha-russa a distância. “Ou na roda-gigante?”
Robinson balançou a cabeça. “Vamos só pegar os cachorros-quentes.”
Como ele parecia tão cansado de repente, sugeri, delicadamente, que voltássemos para o hostel. Mas Robinson não quis ouvir falar nisso.
“Preciso da minha dose diária de nitratos”, disse. “Além disso, somos turistas, e é nosso trabalho agir como turistas.”
Então pegamos a Surf Avenue, onde a enorme placa verde do Nathan’s aparecia acima da rua. Havia uma grande área ao ar livre, com gaivotas empoleiradas perto das mesas de plástico, esperando por restos. O ar cheirava a mar, cerveja e gordura. Não tão apetitoso, em minha opinião, mas todo o comportamento de Robinson tinha mudado. Ele parecia uma criança na manhã de Natal.
“Quantos devo pedir?”, ele perguntou.
“Não sei”, disse, examinando o menu. “Dois?” Eu teria de pedir a salada caesar, já que aquele não era exatamente o lugar para se comprar um cachorro-quente de tofu.
Robinson zombou da quantidade. “Sonya ‘Viúva Negra’ Thomas comeu mais de quarenta. Diz bem ali na placa.”
“Mas aquilo era um concurso de comedores de cachorro-quente”, retruquei. “Nós vamos apenas fazer uma refeição.”
Robinson considerou o que eu disse. “Verdade. Vou me contentar com… quatro. Um com chili, um com chucrute e dois simples.”
“Você está colocando sua vida em risco”, eu disse em tom de desaprovação.
“Só meu trato gastrointestinal”, rebateu Robinson, e eu fiz uma careta.
Em vez de comer com o resto das pessoas, levamos nossa comida de volta para a praia e nos sentamos na areia quente e seca. Estava cheia de bitucas de cigarro e latas de cerveja meio enterradas. Mesmo assim! O mar tinha um lindo tom azul-esverdeado, o tempo estava perfeito, e nós estávamos juntos.
“Dá para acreditar que, há duas semanas, estávamos em uma praia na Califórnia?”, Robinson perguntou.
“Louco”, eu disse, tentando pegar um pedaço de alface mole. “Fizemos muita coisa.”
Robinson balançou as sobrancelhas para mim. “Não o suficiente, se é que você me entende.”
“Tarado”, eu disse, cutucando-o com o dedo do pé.
Ele mordeu o segundo – ou foi o terceiro? – cachorro-quente e me cutucou de volta.
Decidi abandonar minha salada murcha e gordurosa e deitar na areia, vendo as pipas voarem e mergulharem acima de mim. Devo ter adormecido um pouco, porque, quando acordei, Robinson não estava mais ao meu lado.
Olhei em volta por um momento e, como não o vi, me levantei e comecei a caminhar em direção ao calçadão. Talvez ele tivesse saído para encontrar a Mulher Sem Cabeça ou o Insectavora, o comedor de fogo tatuado. Talvez estivesse me comprando um copinho de shot de Coney Island para combinar com meu globo de neve de Cedar Point.
Mas ele não estava fazendo nenhuma dessas coisas. Em vez disso, eu o encontrei encostado em uma cerca, tremendo.
E vomitando.
Estendi a mão para tocar em seu ombro, mas ele fez um sinal negativo. Dei um passo para trás. “Você precisa ver um médico, Robinson”, implorei.
Depois de um momento, ele olhou para cima, o rosto pálido e os olhos vermelhos e lacrimejantes. “Antes de você ficar toda dramática para cima de mim”, disse ele, “foram os cachorros-quentes. Não o você-sabe-o-quê.”
“E como você sabe disso?”, perguntei.
“Eu estou ótimo agora. E, na verdade, isso é totalmente incrível”, disse ele, enxugando o rosto e tentando sorrir para mim. “Eu posso vencer aquela viúva negra. Basta comer e vomitar, comer e vomitar, e assim consumir um número ilimitado de cachorros-quentes.”
Suspirei. “Você está doente, Robinson. De muitas maneiras.”
“Mas você me ama”, disse ele, pegando minhas mãos.
“Sim”, eu disse. Muito.
Robinson adormeceu no trem de volta, e eu praticamente tive de carregá-lo até nossa cela no hostel. Ele parecia febril, mas eu disse a mim mesma que era apenas uma insolação. Excesso de vento. O que quer que fosse, desde que não fosse outra infecção.
Fiquei sentada por um longo tempo, ouvindo os sons da cidade ao redor, mas sobretudo apenas observando-o dormir. Ele estava com as bochechas menos cheias? Os olhos mais profundos, mais fundos? Podia estar acontecendo tão lentamente, tão sutilmente, que eu não fora capaz de ver…
Deitei-me ao lado de Robinson e enrolei o corpo ao redor dele, lembrando como tinha me recusado em Las Vegas a lhe contar uma história para dormir. Pressionei o rosto contra seu coração e jurei que nunca lhe diria não novamente.
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“Precisamos ir para a Filadélfia”, anunciou Robinson.
“Precisamos?”
Ele assentiu. “Não estou dizendo que esta viagem seja uma lista de últimos desejos ou algo assim, mas é extremamente importante que eu coma um cheesesteak Philly.”
Entreguei a chave do nosso quarto ao balconista chapado da recepção e saímos para o sol. “Diga que você está brincando”, eu disse, pensando ele não consegue segurar um cachorro-quente, então por que diabos está falando em sanduíches de bife com queijo?
Robinson balançou a cabeça. “Hoje eu quero fazer tudo, Axi. Todas as coisas idiotas que conseguir imaginar.”
Coloquei a mão em sua cintura, deslizei os dedos sob a barra da camisa dele para sentir sua pele. Podia senti-lo estremecer ao meu toque. “Ao contrário de ontem ou anteontem, quando você foi um bom menino e fez apenas o que os outros lhe disseram para fazer?”
Ele riu e passou os braços em volta de mim. “Certo, você tem razão.”
Não queria estragar o clima, mas precisava dizer o que estava pensando. “Nós nos divertimos muito, e definitivamente podemos continuar nos divertindo. Mas acho que você deveria consultar um médico, só para ter certeza.”
Robinson balançou a cabeça novamente, desta vez com mais ênfase. “Não posso fazer isso, Axímoro. Tenho lugares aonde ir, pessoas para ver…”
Olhei para ele com cuidado, pesando sua teimosia contra a minha. Se eu lutasse muito agora, talvez pudesse convencê-lo. Apenas um exame, eu diria, uma auscultada rápida dos pulmões e coração, talvez um raio X e exame de seus níveis de colesterol. Eu ficaria sentada na sala de espera, olhando revistas velhas e esperando por boas notícias.
Porque talvez funcionasse. Quem disse que não?
Por outro lado, se Robinson fosse para o hospital, ele ficaria ressentido comigo por isso. Intensamente e bem possível que eternamente.
De quem é a viagem, Axi?, me perguntei. Sua? Ou dele? Porque, no final, alguém precisaria tomar a decisão.
“Fica a menos de duas horas”, disse Robinson, interrompendo meus pensamentos. “Não é como se eu te pedisse para me levar a Daytona.”
“Você não vai fazer isso depois, vai?”
“Não, senhora. Palavra de escoteiro.”
Suspirei. “Está bem”, eu disse. “Você ganhou.”
Ele sorriu seu lindo sorriso. “Adoro quando você revira os olhos assim”, disse ele. “É adorável.”
“Ah, pare com isso.”
“E quando você meio que enruga o nariz, como se cheirasse algo esquisito, mas na verdade você está tentando decidir se ri ou se fica irritada.”
“Ah, sério? O que mais você ama em mim?” Eu estava irritada, mas era comigo mesma, e não com Robinson. Ou não irritada, exatamente, era mais… com medo.
Estávamos no carro agora, e eu subia no banco do motorista. “Vamos ver”, eu disse. Saí para a rua e segui para o túnel Holland. Quase dava para pensar que eu tinha carteira de motorista.
“Bem, tudo”, disse Robinson. “Mas, especificamente? A lista é meio longa.”
“Você é um bajulador”, falei.
Robinson não disse nada por um tempo depois disso. Na verdade, estávamos do outro lado do rio quando ele voltou a falar, e cheguei a pensar que ele tivesse adormecido.
“Adoro como você toca a ponta do nariz quando está pensando muito sobre alguma coisa”, disse ele, virando-se para fixar o olhar em mim. “Amo como você coloca o cabelo atrás das orelhas, mas ele sempre cai de volta imediatamente. Amo seus olhos e seus lábios perfeitos. Adoro que o seu esmalte, quando você se dá ao trabalho de usar, esteja sempre lascado. Eu amo como você usa palavras bonitas que eu preciso pesquisar em casa. Adoro a pequena marca de nascença em forma de lua crescente que você tem na ponta do dedinho esquerdo. Eu amo o jeito…”
Não precisei ouvir mais nada. Precisava beijá-lo. Então, parei no acostamento e ali, com o horizonte de Nova York atrás de nós, eu o beijei.
“Vai demorar muito mais para chegar à Filadélfia assim”, disse Robinson, falando, beijando e sorrindo ao mesmo tempo.
“Temos tempo”, disse eu. “Temos muito tempo.”
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“E então, Malandro, você quer ir ao Pat’s King of Steaks ou ao Geno’s Steaks?”, perguntei, acordando Robinson com um cutucão – gentilmente, é claro. Chegamos à Filadélfia em menos de duas horas, e agora eu estava estacionada entre as duas instituições de cheesesteak, que ficavam a uma quadra de distância uma da outra, como capitães de times opostos.
Robinson bocejou e se espreguiçou. “Sabe”, disse ele, franzindo a testa ligeiramente, “na verdade, não estou com tanta fome agora.” Por um momento, ele colocou a mão sobre o estômago – um tipo de gesto estranho para ele. “Eu queria mesmo era uma boa bebida quente.”
Olhei para ele bruscamente. Fazia 26 graus lá fora, e eu estava suando contra o assento da caminhonete. “Você não está com frio, está?”
Sentir frio significava que Robinson poderia estar com febre; e se ele tivesse febre, significava que poderia estar com uma infecção; e se tivesse uma infecção, precisava ir ao hospital. Ponto. Porque infecções em pessoas que os médicos gostam de chamar de imunocomprometidas – uma pessoa como Robinson, que fez quimioterapia em altas doses, radioterapia e um transplante de células-tronco – podem ser fatais.
Estendi o braço para sentir sua testa, mas ele afastou minha mão. “Não!”, disse ele, um pouco alto demais. “Só pensei que um pouco de chá seria bom. Então vamos pegar o cheesesteak.”
Ele saiu da caminhonete e começou a andar. Fiquei onde estava, olhando para ele pelo para-brisa, me sentindo furiosa e preocupada. O que eu deveria fazer? Arrastá-lo para o pronto-socorro para que medissem sua temperatura? Ele não deixaria.
Então desci e o alcancei – facilmente, porque ele andava como um velho. Como se cada passo exigisse concentração e esforço.
“Um pouco de cafeína e pronto”, disse ele, apontando para uma cafeteria no final do quarteirão.
Por favor, esteja certo sobre isso, pensei. Peguei a mão dele.
No café, encontramos uma mesa junto à janela e afundamos nas poltronas gastas, mas confortáveis. Então, um cara que parecia um vendedor irrompeu e se apoderou da mesa ao lado, falando ao celular e ao mesmo tempo acenando para a garçonete, como se fosse uma questão de vida ou morte que ele fosse atendido antes de nós. “… os QR Codes vão aumentar a taxa de conversão de seu funil de vendas…”, ele estava dizendo. Quando a garçonete passou, ele gritou: “Earl Grey grande com leite de soja à parte e açúcar mascavo, dois torrões”.
Robinson o encarou por um momento. “Esta é a Cidade do Amor Fraterno, idiota”, murmurou. Então, descansou a cabeça na mesa. “Cara. Não sei por que estou tão cansado.”
Eu queria gritar: Porque você tem câncer?
Em vez disso, estendi a mão e passei os dedos em seus cabelos escuros e espessos. Quase esquecera como ele era sem eles. Demorou um pouco para voltar a crescer depois da quimio, mas, quando cresceu, ele deixou ficar mais comprido.
“Isso é bom”, disse ele, com a voz abafada.
Respirei fundo, me preparando para o que tinha a dizer. “Robinson, precisamos levar você de volta a um hospital. Na verdade, para o nosso hospital. Vou usar meu cartão de crédito, e vamos para casa de avião. Podemos chegar lá em dez horas.”
“Não gosto de aviões”, disse Robinson para o tampo da mesa.
“Você precisa ver a dra. Suzuki. Agora. Ela saberá o que fazer.”
“Toda vez que ouço o nome dela, penso nas aulas de violino. Você já ouviu falar do método Suzuki de ensino de música?”
“Não mude de assunto.”
Robinson ergueu a cabeça da mesa. Seus olhos cansados encontraram os meus. “Você diz que ela saberá o que fazer. Mas e se não houver nada a ser feito?”
“Há sempre algo a ser feito”, eu disse, minha voz aumentando. Não gostei nem um pouco desse novo tom fatalista dele.
“Você planejou tudo tão perfeitamente, Axi. Por favor, não pire agora.”
Peguei as mãos dele e agarrei com força. “Mas quando isso acaba, Robinson? Não podemos correr assim para sempre.”
“Não vamos fazer isso”, ele me garantiu. “Só temos mais uma parada a fazer. É a última.”
“Uma última parada?”, perguntei. “Onde vai ser? Por favor, não diga que você quer ir para Nova Orleans comer jambalaia ou coisa parecida.”
Ele riu e apertou meus dedos. “Não. Meu estômago não está mais ditando nossas viagens. Mas é… bem, fica a alguns estados de distância.”
“Alguns estados?”, repeti. Eu duvidava que Janete, a Caminhonete chegasse tão longe.
Perto de nós, o vendedor começou a gritar. “Não, Ed, o objetivo é encurtar o tempo que leva o provável comprador a se tornar o proprietário do produto!”
Robinson e eu olhamos para ele agora. Ele pegou uma mesa que poderia acomodar seis pessoas e agia como se fosse sua mesa de trabalho. Espalhados por ele estavam um iPad, um celular, um fichário de couro, um exemplar do Philadelphia Inquirer, chaves do carro…
As chaves do carro.
Foi então que tive uma ideia que teria chocado a velha Axi Moore nas profundezas de sua alma. Que bom que ela não existia mais.
“Axi?”, Robinson disse, acenando com a mão na frente do meu rosto. “Você não vai me encher por não ter contado para onde eu quero ir?”
“Vou”, eu disse distraidamente. “Mais tarde.” Eu estava olhando para o vendedor. Levante, pensei. Levante.
“Os números não batem, Ed”, ele berrou.
E então, como se o que eu tinha acabado de imaginar estivesse totalmente destinado a acontecer, o vendedor se levantou. Ainda gritando no fone bluetooth, ele foi em direção aos banheiros.
Eu me levantei e atirei uma nota de cinco sobre a mesa. “Encontre-me na esquina sudeste do quarteirão”, eu disse, e estava fora da porta antes mesmo de Robinson abrir a boca para me perguntar por quê.
Do lado de fora, meio que corri rua abaixo, apertando o botão de trava automática no chaveiro e esperando o piscar dos faróis em resposta. Seria o Acura azul? O Toyota prata? Tinha um propósito tão poderoso que mal percebi o coração disparado. Estava cuidando do Robinson. Se ele precisava ir a algum lugar, eu cuidaria para que sua jornada ocorresse em um veículo confiável.
Atravessei a rua para o quarteirão seguinte e me aproximava do terceiro sem um único barulho de carro. Senti a pulsação acelerar e minha cabeça começou a doer.
Eu estava roubando um carro.
Em plena luz do dia.
O medo começou a superar meu propósito. Comecei a correr mais rápido. Onde você está? Pisque as luzes, sussurrei, como se tivesse poderes mágicos ou algo assim. Ou sorte fenomenal. Não importava qual.
Finalmente, quando estava prestes a desistir, ouvi o som de uma buzina respondendo ao teclado remoto. Me virei em direção ao som e arfei. Era um Mustang GT azul-profundo. Um conversível.
Comecei a gargalhar como uma louca. Robinson ia pirar.
Com extrema facilidade, abri a porta do motorista e entrei. Os assentos eram de couro bege, e o interior brilhava como se aquele vendedor o lustrasse todas as manhãs. Ele ia perder seu transporte. Fui tomada por uma onda de remorso, mas a afastei.
O Mustang praticamente saltou para a rua. Parei ao lado da caminhonete e rapidamente joguei nossas malas para dentro; ao mesmo tempo chamei Robinson, que estava encostado em um poste de telefone como se ficar de pé sozinho fosse muito trabalhoso. “Depressa, o ônibus está saindo.”