Meu primeiro amor
Parte dois
Ce chapitre est long, il est donc découpé en 3 parties.
Ele caminhou em minha direção e seus olhos se arregalaram. “O quê…”
“Apenas entre.”
Ele levou mais um segundo para entender o que eu estava dizendo. Mas então deslizou ao meu lado, e eu liguei o motor.
E nós fomos embora.
“Como… o que… eu não…”, Robinson gaguejou. “Eu estou…”
“Chaves, Clyde”, eu disse, fingindo total indiferença. “São muito mais simples do que uma furadeira sem fio.”
“Eu simplesmente não…” Ele não conseguia nem terminar uma frase.
“Peguei emprestado do cara barulhento da cafeteria.”
Os olhos de Robinson se arregalaram ainda mais enquanto ele olhava ao redor do carro. Passou a mão no painel. “Quatro ponto seis litros V-8 com 315 cavalos de potência e 440 newton-metros de torque. Músculo puro de fabricação americana. Esta coisa é um animal, Axi.” Ele se virou para sorrir para mim. “Bem quando eu pensei que não poderia amá-la mais.”
Ele começou a rir – uma risada forte como eu não ouvia fazia dias. “Sério, graças a Deus”, ele finalmente disse, ofegante. “Por um minuto, eu realmente pensei que tinha morrido e ido para o céu.”
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45
Robinson me disse para dirigir em direção ao sul, e eu obedeci. Pela primeira vez, sem perguntas. Faria qualquer coisa que ele me pedisse e, eu tinha que admitir, o Mustang era um grande avanço em relação à caminhonete. Tinha direção hidráulica, ar-condicionado e, de acordo com Robinson, “um sistema de alto-falantes Bose do mercado de reposição que custa mais do que um Kia novo”. Apenas consumia os quilômetros.
Agora, Robinson olhava sonolento pela janela, vendo o mundo passar do jeito que eu costumava fazer. “Você notou”, ele disse uma hora, “como todo o país segue, tipo, um padrão? É cidade, depois expansão suburbana, depois fazendas. E então cidade, expansão suburbana, terras agrícolas de novo…”
“E a gente nunca está a mais de oitenta quilômetros de um McDonald’s”, brinquei.
“É um alívio”, respondeu ele.
Mais tarde naquela noite, depois de passar acelerando por Delaware, Maryland e metade da Virgínia, estacionei em uma parada de descanso no meio das montanhas Blue Ridge. No crepúsculo úmido, estendi nossos sacos de dormir perto da borda das árvores. Não me incomodei com a barraca, porque não queria chamar atenção para nós. Na estranha lógica do sistema de áreas de descanso interestadual, dormir é bom, mas acampar, não. E, embora acampar em uma área de descanso estivesse bem no final da minha lista de crimes e contravenções, não vi razão para ser acordada por um policial batendo com a lanterna no mastro da nossa barraca.
Estendi o Slim Jim que comprei para Robinson no último posto de gasolina, mas ele balançou a cabeça. “Aquele McFish que comi no jantar está parecendo uma bola de chumbo no meu estômago”, resmungou. “Acho que vou ter que dormir para digerir.”
“Falei para você pedir a salada”, eu disse. “Estava boa.”
Ele bufou. “Comer uma salada no McDonald’s é como entrar na Car Toys e sair com um apontador de lápis.” Ele deslizou para dentro do saco de dormir, sem se preocupar em tirar nada além do cinto da calça jeans.
“Bem, eu estou me sentindo bem”, eu disse, meio que bufando.
“Bem, você não tem câncer”, ele rebateu.
Respirei fundo e prendi o ar. No silêncio que se seguiu, ouvi o cricrilar dos grilos e as ondas de carros passando na estrada. Se fechasse os olhos, dava pra imaginar que era o som do mar.
Senti Robinson pegando minha mão. “Sinto muito”, ele sussurrou. “Eu não deveria ter dito isso.”
Eu me virei para ele, as lágrimas agora molhando meu rosto. “O quê? A gente deve simplesmente fingir que está tudo bem? Deve simplesmente acreditar no que quer acreditar? É isso que a gente deve fazer, Robinson?”
Ele ficou quieto por um momento, a testa franzida em concentração. “Não sei o que devemos fazer”, disse ele, suavemente. “Acordar e dirigir um pouco mais amanhã. Tentar rir. Nos amarmos. Quer dizer, o que mais tem para fazer?”
“Eu estou com medo”, sussurrei.
“Não há nada a temer, Axi.” Ele levou minha mão aos lábios e a beijou, bem no meio da palma.
“Mais uma vez, é nisso que queremos acreditar? Eu apenas sinto que estamos cambaleando agora, esperando pelo melhor. Quer dizer, para onde vamos? E onde está o roteiro? O metafórico, quero dizer, as direções. LEGO vem com instruções. Tatuagens temporárias vêm com instruções. Uma vez, eu vi uma página inteira da internet dedicada a como pedir café na Starbucks!”
“Sério?”
“Sim! O primeiro passo é ‘Decida o que deseja pedir antes de sua vez na fila’. Eu fiquei tipo, ‘ah, sério? Nossa! Muito obrigada! Eu jamais teria pensado nisso.’”
Robinson agora ria. Fiquei feliz por tê-lo animado, mas não estava me sentindo melhor. “Onde estão as orientações para as grandes coisas? Porque eu as quero”, gritei. “Quais são as instruções para, sei lá, a vida?”
A risada de Robinson desapareceu lentamente. “Axi, se tivéssemos essas orientações, não seria vida. Seria uma tarefa. Trabalho pesado. Não saber é parte importante do negócio.”
Eu sabia que ele tinha razão, mas não gostava disso. Suspirando, cheguei o mais perto possível dele, mas os zíperes de nossos sacos de dormir nos mantiveram separados.
“‘Uma vez que as leis da matemática se referem à realidade, elas não são certas; e, até onde elas são certas, não se referem à realidade’”, eu disse.
“Ahn?”, fez Robinson.
“Einstein”, eu disse. “O sr. Fox tinha isso escrito no topo de seu quadro-negro.”
“Gostei”, disse Robinson.
“Bem, eu quero certezas”, eu disse.
Senti que Robinson e eu estávamos presos entre dois mundos diferentes. Era o mundo em que vivíamos – um mundo de liberdade, beleza e, está bem, sim, totalmente maravilhoso e de terrível irresponsabilidade – e o mundo mais sombrio e mais triste onde sentia que estávamos prestes a entrar. Eu queria saber como navegar por ele.
Robinson inclinou a cabeça para mais perto da minha. “Você pode colocar isso na sua lista de Natal.”
Eu me afastei. “Não me trate com condescendência. Eu nem sei para onde estamos indo.”
Robinson deitou-se de costas e olhou para o céu. Estava de um azul profundo e aveludado, e pequenas pontinhas de estrelas apareciam, mais e mais a cada minuto. “Aqui está a certeza”, disse. “Eu te amo, Axi Moore. E nunca deixarei de te amar, pelo resto da minha vida.”
As lágrimas voltaram, e não me incomodei em enxugá-las. “Eu também te amo”, sussurrei. “Para o resto da minha vida.”
Nós nos beijamos, envolvendo nossos braços um no outro e segurando firme. E então, exaustos, nos despedimos e fechamos os olhos para dormir.
Deitada ali na noite de verão, era quase como se eu pudesse sentir a terra se movendo abaixo de nós, girando em seu eixo. E, enquanto ouvia os grilos cricrilando, me perguntei se o resto da minha vida e o resto da vida de Robinson significavam dois períodos de tempo totalmente diferentes.
Como sabemos alguma coisa com certeza?, pensei. Mas eu já sabia a resposta para isso. Não sabemos.
Finalmente, adormeci. No meio da noite, Robinson e eu rolamos um na direção do outro, cruzando os braços. A noite também pareceu nos envolver em um grande, suave e escuro abraço.
A voz de Robinson estava baixa e grogue. “Talvez devêssemos nos casar”, disse ele.
Não consegui falar. Meu coração estava cheio demais. De alegria e surpresa – e futilidade também, porque não deixam a gente fazer isso aos dezesseis anos. Coloquei a cabeça em seu peito, desejando poder me fundir com ele completamente. O melhor que pude fazer foi sincronizar nossas respirações longas e constantes. Em um instante, percebi que ele dormia novamente.
Era possível que ele não estivesse realmente acordado em primeiro lugar.
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46
No início da tarde, em algum lugar da Carolina do Norte, pegamos uma saída da rodovia e acabamos em um parque, perto da margem de um pequeno lago.
“Vamos parar um pouco”, disse Robinson. “Eu gosto deste lugar.”
Rodeado por árvores e colinas, o lago era calmo, refletindo o céu azul de volta. Abaixei a janela e respirei o cheiro de ar puro de pinho. “É bonito aqui”, concordei.
Saímos do Mustang e caminhamos em direção à beira da água cintilante. Robinson se abaixou, escolheu uma pedra lisa e ela saltou na superfície – uma, duas, três vezes.
Ele bufou. “Terrível. Eu costumava fazer doze.”
Fiquei ao lado dele e envolvi o braço em sua cintura. Era tão bom estar fora da estrada – sentir os músculos relaxando, o pé do acelerador relaxando lentamente. “Talvez devêssemos alugar um pedalinho ou algo assim. Dar um tempo. Pegar a estrada um pouco mais tarde.”
Era como se ele nem tivesse me ouvido. “Eu adorava vir aqui”, disse ele.
“O quê?”
Seus olhos varreram o lago, mas ele parecia estar vendo alguma outra coisa. Ou em outra hora. “Costumávamos construir umas jangadas malucas e rebocá-las em carroções. Então víamos quantas crianças conseguíamos empilhar nelas antes que afundassem. Tínhamos problemas, porque é preciso uma licença para se ter um barco. E nós sempre argumentávamos que não era um barco, mas uma jangada feita por crianças de nove anos com caixotes e grandes pedaços de isopor.”
“Espere um pouco”, eu disse, tirando o braço da cintura dele e dando um passo para trás. “Você está falando sobre este lago?”
“Claro”, disse Robinson. “Eu nasci a cinco quilômetros daqui.”
Antes que eu pudesse me conter, eu o empurrei e ele tropeçou um pouco. “Sinto muito”, eu disse, agarrando sua mão. “Mas, espere. Você me trouxe… para casa?”
“Queria que você conhecesse os meus pais”, disse Robinson, como se fosse a coisa mais simples e menos surpreendente do mundo.
Fiquei totalmente pasma. Eu nem sabia onde estávamos, na verdade, e agora estava prestes a conhecer os pais de Robinson, que até então eram tão reais para mim quanto um casal de unicórnios.
“Bem-vinda a Asheville, Carolina do Norte”, disse Robinson, apontando para as árvores e os caminhos e as trilhas de caminhada ao nosso redor. “Antiga central de tuberculose e agora conhecida como a Paris do Sul, ou, para os escritores da Rolling Stone, a Nova Capital Freak dos Estados Unidos.”
Balancei a cabeça em descrença. Eu não sabia se devia beijá-lo ou chutá-lo. “Você espera até agora para me dizer?”
Ele sorriu. “O cara tem que surpreender a garota de vez em quando”, disse. “É romântico assim. Agora vamos ver os pontos turísticos, como eles são.”
E durante a hora seguinte ele me mostrou sua cidade natal. Eu vi a loja onde ele comprou seu primeiro violão, a árvore da qual ele caiu e quebrou o braço, a escola primária onde ele começou um clube de rock‘n’roll (“ficou enorme, embora alguns caras supervelhos tenham protestado, dizendo que o rock‘n’roll era ‘a música do diabo’”, disse Robinson com orgulho).
Nada era particularmente especial – e, no entanto, tudo era extraordinário, porque fazia parte da infância anteriormente secreta de Robinson. Eu queria parar em cada esquina, espiar em cada janela. Queria parar estranhos e pedir-lhes que me contassem uma história sobre Robinson. Ele abriu a porta para seu passado, e eu queria entrar direto por ela.
Robinson tocou meu braço, chamando minha atenção para uma drogaria imprensada entre um café e uma loja de cristais. “Olhe ali”, disse ele. “Tem até um lugar como o Ernie’s. Mas o café é ainda pior. Parece ácido de bateria. Juro que uma vez fez um buraco na minha calça jeans.” Ele balançou a cabeça com a lembrança. “Claro, pode ter sido ácido de bateria de verdade. Eu certamente passava bastante tempo na loja do meu pai.”
“A loja dele?”, perguntei.
“Ele é dono de uma oficina mecânica. Mecânica Robinson.”
“Nossa, ele deu o seu nome?”
Robinson encolheu os ombros evasivamente. “Mais ou menos.”
“O que você quer dizer com mais ou menos? Quem mais seria… a família suíça Robinson? Jackie Robinson? Robinson Crusoé? Smokey Rob…”
“Ei, está vendo isto?”, ele me interrompeu. “Este foi o poste em que meu irmão bateu seu Cheemer personalizado.”
“Cheemer?”, repeti. “Eu não sei o que é um Cheemer.” Claramente, a conversa sobre o nome da oficina não iria a lugar algum.
“Um Chevrolet com motor BMW”, explicou Robinson. “Você sabe, Chevy mais Beemer? Jay Leno tem um.”
“Ah”, eu disse, desejando que aqueles nomes significassem alguma coisa para mim. “Então, é tipo um mash-up automotivo.”
Ele riu. “Exatamente. É a versão do carro daquela coisa do Eazy-E com o Johnny Cash, ‘Folsom Prison Gangstaz’. I got beat
for the street, Ta pump in ya jeep… 13”
“Acho que é melhor você parar”, eu disse. “Aquele cara ali está olhando para você de um jeito engraçado.”
“Como se eu me importasse”, respondeu Robinson, mas parou mesmo assim. Ele parecia cansado novamente. “Siga por ali, que tal?” Ele apontou vagamente para o leste, e foi assim que vi a Casa Biltmore, um enorme castelo da Era Dourada construído por um Vanderbilt cujo nome Robinson não conseguia lembrar. Parecia um castelo de conto de fadas, um lugar onde Cinderela viveria feliz para sempre com seu príncipe.
Onde estava meu feliz para sempre, eu queria saber. Por que aquela garota boba conseguiu um, quando minhas chances eram tão pequenas?
Sem pensar, parei no acostamento. Olhei para Robinson como se fosse fazer essas perguntas a ele.
“Ah, isso é perfeito”, disse ele. “Este é um lugar muito especial.”
Olhei em volta. Estávamos parados no meio de um monte de árvores. “O que há de tão especial aqui?”
Robinson desafivelou meu cinto de segurança e me puxou em sua direção. Aproximou a boca da minha e sussurrou: “Foi onde eu fiz isto.”
E então ele me beijou, tão longamente, com tanta doçura e carinho que eu quase chorei. Porque nós estávamos ali juntos, e talvez este fosse finalmente o fim do caminho.
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A casa era estilo vitoriano de três andares com uma torre alta e redonda, janelas com vitrais e uma varanda enorme. Os degraus da frente se curvavam no meio, e a pintura estava começando a desbotar e descascar. Mas era pitoresco dessa forma, aquele chique meio gasto.
Havia roseiras por toda a parte, desabrochando várias cores diferentes: branco neve, amarelo com a ponta laranja poente, rosa suave como uma sapatilha de balé. As rosas subiam por uma treliça na varanda e se espalhavam pelas grades, enchendo o ar com seu perfume glorioso.
Subi os degraus atrás de Robinson, gelada de nervoso. Ele me deu um aperto rápido na mão e tocou a campainha.
Por um momento, nada aconteceu. Ouvi uma voz e latidos lá dentro, e então uma mulher que imaginei ser a mãe de Robinson apareceu na porta. Quando viu quem era, abriu a boca como se fosse gritar, mas, em vez disso, caiu no chão – meio que desabou no hall de entrada, como um marionete cujos cordões foram cortados.
Robinson gritou: “Mãe!”, e foi ajudá-la a se levantar, mas, antes de ele chegar até ela, um homem que devia ser seu pai apareceu. Ele viu Robinson e, por um segundo, ficou boquiaberto.
Eles agiam como se tivessem visto um fantasma.
Que estranho!, pensei, e eles ainda não tinham me notado, a outra visitante não anunciada.
Claro, se eu aparecesse no meu apartamento depois de sumir do jeito que fiz, meu pai provavelmente imaginaria que eu era uma alucinação induzida pela bebida e bateria a porta na minha cara.
O pai de Robinson se abaixou lentamente para pegar a mulher. Era como se os dois estivessem em câmera lenta. Quando finalmente ficaram em pé de novo, o choque começou a dar lugar a uma espécie de alegria que eu não conseguia lembrar de ter visto em meu pai desde que eu era uma garotinha. A mãe de Robinson agarrou seu filho e o apertou com força. “Ah, meu Deus!”, ela gritou. “Você está aqui! Eu senti tanto a sua falta!”
O pai de Robinson enxugava os olhos, tentando se controlar. Ele estendeu a mão e agarrou o ombro do filho. “Oscar”, disse ele, sua voz cheia de admiração e alívio, “você voltou.”
Robinson piscava forte e rápido, e parecia fungar um pouco. E eu também chorava, ao ver o reencontro deles, e ao mesmo tempo pensava, Oscar? Quem é o Oscar?
Os latidos começaram novamente, e uma cachorrinha marrom veio gingando tão rápido quanto as pernas curtas podiam levá-la. “Leafy!”, Robinson falou alto.
Ela era gorda como uma salsicha, e todo o seu corpo balançava enquanto o rabo ficava parado. Robinson se jogou no chão, e ela o atacou em um êxtase de latidos e lambidas. “Sente, menina”, disse ele, rindo, e ela obedeceu por cerca de cinco milissegundos antes de se lançar sobre ele novamente. “Eu também te amo”, disse ele, esfregando suas longas orelhas castanhas.
Então, um homem alto que era quase uma versão mais velha e corpulenta de Robinson veio até o corredor e disse: “O que está acontecendo?”.
Quando viu Robinson, disparou para a frente. Pareceu que ia atacar Robinson e, sem pensar, dei um salto e estiquei meu braço, como se eu – com meu 1,65 m e meus 54 quilos – pudesse bloquear sua investida.
O homem parou e disse: “Nossa, que guarda-costas gostosa, cara”.
Corei quando Robinson e seu irmão se abraçaram e deram tapinhas nas costas um do outro.
Então Robinson se afastou e colocou o braço em volta dos meus ombros de um jeito protetor. “Todo mundo”, disse ele, “esta é Axi.” Ele olhou para mim e sorriu. “Minha parceira no crime.” E então, na frente de todos, ele me beijou – de um jeito um pouco menos inocente do que eu esperava.
“Ora, ora”, disse a mãe, fungando e tentando sorrir para mim também. “Axi, fico feliz em conhecer você.” E então, em vez de apertar minha mão, ela me puxou para perto de seu pescoço com cheiro de rosa, e eu percebi quanto tempo fazia desde que uma mãe – qualquer mãe – havia me abraçado pela última vez. “Ah, me desculpe, querida”, disse ela, dando um tapinha na mancha úmida que havia feito na minha camisa. Ela riu, envergonhada. “Estou um pouco emocionada.”
Robinson fez o resto das apresentações. “Este é meu irmão, Jonathan. Ele tem vinte anos, mas provavelmente ainda mora aqui, porque é vagabundo assim.” O afeto era óbvio na voz de Robinson.
Jonathan fingiu se ofender. “Eu tenho minha própria casa”, disse. “Estou aqui pegando as ferramentas do papai emprestadas.”
“E esperando para ver o que sua mãe vai fazer para o jantar”, acrescentou o pai.
“Talvez”, Jonathan admitiu.
Robinson seguiu: “E este é meu pai, Joe, e minha mãe, Louise, mas todos a chamam de Lou”.
“E você?”, sussurrei. “Oscar?”
Ele deu de ombros ligeiramente envergonhado. “Você pode ver por que prefiro Robinson”, disse ele. Então me puxou para perto dele novamente. “Eu juro”, ele sussurrou, “que este é o último dos meus segredos.”
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Depois de um delicioso jantar com lasanha, pão de alho e salada, durante o qual houve mais lágrimas e mais acessos de riso do que fui capaz de contar, Robinson pegou minha mão e me levou para os fundos da casa.
“Eu não podia levar meninas ao meu quarto”, disse ele, “mas vou supor que meus pais já tenham superado isso.” Ele empurrou uma porta um tanto frágil, mas, em vez de abrir para um quarto, ela levava a uma varanda, com janelas em todos os três lados. O piso de madeira pintado estava gasto e inclinado. Havia um sofá de vime ao longo de uma parede e uma cama de casal encostada na outra. Guitarras e amplificadores estavam dispostos nos cantos, ao lado de pilhas organizadas de CDs.
“Este é o seu quarto?”, perguntei, pensando no meu armário escuro em casa.
“É a velha varanda dos dormitórios. Este lugar um dia foi uma pensão para pacientes com tuberculose”, disse Robinson. “As pessoas com tuberculose precisavam dormir ao ar livre, então há quartos como este por toda Asheville.”
“Adorei”, disse, passando o dedo pelo peitoril da janela.
Robinson afundou na cama. “Dormi no chão aqui fora durante duas semanas”, disse. “Reivindicando o espaço para mim. Finalmente, eles disseram que poderia ser meu.”
Eu me sentei ao lado dele. Os lençóis estavam limpos e os travesseiros, recém-arrumados. Ou alguém havia entrado furtivamente para arrumar a cama, ou a mãe de Robinson mantinha o quarto arrumado como se ele só tivesse saído para dar um passeio. “Seus pais são incríveis. Por que você não estava com eles… o tempo todo?”, perguntei.
Robinson franziu a testa. “Nós fomos para Portland por causa do programa de imunoterapia experimental com a dra. Suzuki. Ela é a melhor que existe, certo? Mas meus pais estavam morando num motel terrível e indo para o hospital todos os dias, e aquilo era simplesmente horrível. Era muito difícil para eles. Então eu disse: ‘Por favor, vão para casa. Não é isso que eu quero. Não quero que vocês me vejam passando por isso’.”
“E eles simplesmente vieram embora?”, não sei por que isso me chocou tanto, considerando a maneira como minha própria mãe havia deixado a cidade.
“Eles não queriam vir, acredite em mim. Mas eu os obriguei. Eu disse que se as coisas piorassem muito, obviamente eles poderiam voltar. Mas as coisas não ficaram ruins… elas melhoraram. A imunoterapia estava ajudando, e eu tive alta do hospital.”
“No mesmo dia que eu”, eu disse, sorrindo ao recordar aquela manhã perfeita.
“Certo. E eu planejava voltar para cá, mas então havia o problema de você.”
“O problema?”, perguntei.
Ele sorriu. “O problema de eu ter uma queda gigante por você e você não saber disso”, disse ele. “Mas, convenientemente, meu tio tinha acabado de se mudar para perto da sua cidade. Você ia para K-Falls, e eu decidi ir atrás. Eu queria estar com você.”
Corei. “Estou feliz que você tenha feito isso. Mas, ainda assim… Não posso acreditar que eles tenham deixado.”
“Eu disse a eles que voltaria para cá no outono. Para o último ano na minha antiga escola. Eles entenderam… Eu queria fingir que era normal, em uma escola onde ninguém soubesse que eu tinha câncer. Eu seria apenas um aluno que precisou estudar em outro lugar por um tempo.” Ele sorriu. “Um semestre fora, na bucólica K-Falls.”
Bufei. “É melhor você procurar bucólico no dicionário.”
“Não preciso, porque tenho você”, disse Robinson, revirando os olhos.
“Ah, certo”, falei, cutucando-o com o pé. Mas a história ainda não fazia muito sentido para mim. “Por que você nunca falava sobre a sua família? Por que eles eram um grande segredo?”
Robinson suspirou. “Eu não gostava de falar sobre eles porque me sentia muito culpado. Sabia que era egoísmo da minha parte ficar longe. Mas eu queria ver coisas, Axi. Queria ter uma vida melhor.” Ele estendeu a mão e enrolou uma mecha do meu cabelo nos dedos. “Eu queria me apaixonar.”
Concordei. Não era totalmente insano, eu acho. “Mas você, tipo, escrevia para eles, essas coisas?”
“Claro”, disse ele. “Eles sabiam que eu estava bem.”
“Mas, e esta viagem? Como você explicou?”
Ele sorriu. “Eu disse a eles que estava sem aulas…”
“Mesmo que você não estivesse mais na escola”, interrompi.
“Bem, disso eles não sabiam. E não iriam conferir o calendário e ver se havia mais três semanas de aulas que eu deveria frequentar. Eu disse a eles que estava indo para o Acampamento Motorsport, um acampamento de verão para quem curte motores.” Ele fez uma pausa pensativa. “Parece muito legal, na verdade…”
Revirei os olhos. “Você é doido.”
“Mas você me ama.”
Inclinei-me e o beijei no lado de sua boca macia. “Amo.”
Uma explosão de música veio da garagem, onde, segundo Robinson, Jonathan transformava um Buick velho em um carro de corrida personalizado.
“Você sabia que viríamos para cá, então?”, perguntei.
Robinson balançou a cabeça. “Pensei em voltar para Oregon primeiro. Mas então…”
Ele não terminou a frase, mas eu podia preenchê-la. Ele começou a se sentir mal. E quis vir para casa.
Entendi isso. Eu também gostaria de correr para minha mãe, se eu tivesse alguém que fosse útil para mim. Se eu soubesse em que estado ela morava.
Então olhei pela janela e vi todas aquelas luzes flutuantes. Eram verde-amareladas, piscando e apagando. “O que é aquilo?”, perguntei.
Robinson ficou boquiaberto. “Você nunca viu um vaga-lume antes? Um vaga-lume?”
“Um o quê? Não! Não temos isso no Oregon.”
Robinson sentou-se e olhou para o gramado. “Eu não tinha ideia de que você era tão urbana. Eles são os melhores insetos do mundo, porque podem acender os próprios traseiros. É como eles atraem companheiros.”
“São lindos”, eu disse.
Robinson estendeu a mão e tirou o cabelo do meu rosto. “Não como você.”
“Não seja cafona.”
“Eu não sou. Estou falando sério.” Ele fez uma pausa. “Estou morrendo de tão sério, devo dizer.”
“Não, você não devia dizer isso.”
Robinson suspirou. “Ah, Axi, estou cansado”, disse ele. “Conte uma história para eu dormir.”
“Cante uma canção de ninar”, disse com um sorriso. “Como em Vegas.” Eu tinha toda a intenção de ceder naquele momento, mas não tão facilmente.
“História”, ele insistiu.
“Canção.”
“Vou jogar uma moeda”, disse ele.
“Não! Não!”, berrei.
Ele me olhou de um jeito estranho. “Por que não?”
“Só não faça isso.”
“Certo, tudo bem. Então você tem que contar a história.”
Deitamos na cama. Eu respirei fundo e comecei. Um começo de conto de fadas. “Era uma vez uma menina e um menino.”
“Até agora tudo bem”, disse Robinson. Ele rolou de modo que seu rosto estava no meu pescoço. “A menina sempre mandava no menino”, disse ele, roçando os lábios na minha pele. “Ela dizia para ele comer melhor.”
“A menina só queria o melhor para o menino”, retruquei.
“Mmmm”, disse Robinson. Sua voz já estava carregada de sono.
“Ela queria cuidar dele”, sussurrei. “E ser cuidada por ele.”
Fiz uma pausa, ouvindo a música que vinha da garagem. Era Bob Dylan, pensei, mas não conhecia a música.
“Ela sabia como eles eram sortudos”, continuei, “por terem se encontrado. Ela sabia que às vezes as pessoas procuravam por anos para encontrar o que queriam. Enquanto alguns, os poucos privilegiados, simplesmente tropeçam nele. Como crianças na praia. Alguns voltam para casa apenas com pedras e conchas quebradas, enquanto outros desenterram um dólar de areia perfeito, frágil, mas lindo.”
Robinson suspirou. Agora estava dormindo.
“E a menina entendeu outra coisa… e talvez o menino também. O amor era mágico e infinito. Mas a sorte, no final, não.”
Na garagem, Jonathan aumentou a música, e a voz nasalada e áspera de Dylan por fim me alcançou claramente. “The future for me is already a thing of the past. You were my first love and you
will be my last.”14
Cerrei os punhos ao lado do corpo. Olhei pela janela em busca de uma estrela para fazer um pedido, mas as nuvens tinham surgido ao anoitecer. As únicas luzes eram as dos vaga-lumes, acendendo e apagando, acendendo e apagando.
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Os pais de Robinson me receberam como um membro da família. E não disseram nada sobre eu passar a noite no quarto do filho deles. Joe, que era fã de história, me contou tudo sobre os sanatórios de tuberculose de Asheville na manhã seguinte. (Até F. Scott Fitzgerald, minha paixão literária do nono ano, havia passado um tempo em um deles.) Jonathan me acompanhou ao redor do carro em que estava trabalhando, explicou várias coisas sobre o motor que eu não entendi e prometeu me levar para uma volta assim que conseguisse pneus novos. Lou comprou bacon vegano quando Robinson mencionou que eu não comia carne e em uma tarde trançou meu cabelo.
“Eu sempre quis uma filha”, disse ela melancolicamente. “Aqueles meninos e seus carros. Eu os amo até a Lua, mas são não sei quantos cavalos pra cá, carburador pra lá, e eu sempre pensei comigo mesma: Quem vai me ajudar a podar as rosas?”
“Eu não tenho muita experiência com jardinagem”, admiti. Papai e eu tínhamos uma gravatinha em nosso apartamento, mas ela provavelmente já estava seca.
“Você ia gostar”, Lou disse. “Você é uma pessoa cuidadosa, posso ver isso.”
Costumava ser, de qualquer maneira, pensei.
“É como diz o Pequeno Príncipe”, continuou ela. “‘Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável por tua rosa.’ Você não pode domar um stock car, Axi. Não é a mesma coisa.”
Sorri. “Eu citei esse livro para o seu filho.”
“Oscar – quero dizer, Robinson, acho – nunca seria convencido a lê-lo.”
E então saímos para o ar suave do verão, e ela me mostrou como podar as rosas para que florescessem até o final do outono. Quando voltamos, tínhamos braçadas de flores, o suficiente para colocar em todos os cômodos.
A questão é que a vida com a família de Robinson teria sido perfeita, se Robinson não piorasse a cada minuto. Era como se voltar para casa o permitisse a finalmente parar de fingir que estava bem. E se havia alguma dúvida sobre o prognóstico – ou qualquer negação do que isso significava –, uma visita do médico que cuidou dele durante a infância a apagou.
“Recomendo que vocês peçam cuidados paliativos”, disse o médico. Ou seja: tudo o que dá para fazer agora é mantê-lo confortável. Até.
A notícia se espalhou rapidamente pela cidade, e os visitantes começaram a chegar, trazendo caçarolas, biscoitos e caixas de lenços de papel. Houve uma procissão de amigos, vizinhos, colegas e treinadores de futebol que conheciam e amavam Robinson.
Robinson fazia a recepção no velho sofá da sala de estar, pálido e sob cobertores, embora o resto de nós estivesse de mangas curtas e enxugando os lábios suados. Estava animado, embora se cansasse facilmente. E, ainda que estivesse com dor, raramente apertava o botão de sua morfina intravenosa. Disse que fazia sua cabeça parecer um balão de ar quente.
Todo mundo tinha histórias para contar, como a vez em que Robinson venceu a corrida do Soap Box Derby e depois continuou por mais meio quilômetro porque se esqueceu de pôr freios em seu carro. Sobre como ele “pegou emprestada” a fantasia do mascote do colégio para fazer um trote durante o intervalo do jogo de boas-vindas. Uma vizinha me contou que Robinson cortava e limpava a grama dela, mas sempre recusava o pagamento, e um menino de doze anos com espinhas me contou que, quando tinha oito, Robinson o salvou de um afogamento em Beaver Lake.
Era como se estivesse vendo a vida de Robinson passar diante dos meus olhos, nas palavras e nas histórias das pessoas que o amavam.
Quando se sentia bem, Robinson entretinha os convidados com histórias da vida “no oeste”, que ele fazia soar muito melhor do que realmente era.
“Se Klamath Falls tiver um boom turístico, será por sua causa”, eu lhe disse uma noite. “E todos voltarão para casa decepcionados.”
“K-Falls tem seus encantos”, disse.
“Ah, é? Cite um.”
“O nome dela é Axi Moore”, disse ele. “Nossa, essa foi fácil. Ah, e o BBQ Express do Wubba tem aquele ótimo sanduíche de porco desfiado.”
Está vendo o que quero dizer? Animado.
Durante o dia, eu servia lanches e pratos de macarrão ou sopa reaquecidos no micro-ondas. Embora nós da casa não sentíssemos fome, todo mundo sentia. Era como um jantar que nunca acabava.
Lou percorria a casa como se estivesse em um sonho ou pesadelo. Joe parecia pálido e assustado. Jonathan, por ordem de Robinson, pendurou uma placa na parede que dizia NÃO É PERMITIDO CHORAR. Não que alguém fosse capaz de seguir essa ordem em particular. Até a gorda Leafy grunhia e latia, como se também tivesse histórias sobre Robinson.
“Ela era uma campeã de agilidade”, Joe disse uma vez, balançando a cabeça. “Acredita nisso?”
“Agora é uma campeã de comer”, acrescentou, jogando um biscoito para ela.
Abaixei-me e esfreguei as orelhas de Leafy, e ela respondeu com uma lambida quente em minha mão. Tive uma súbita pontada de saudade do meu velho cachorro. Ou talvez fosse um desejo pela família saudável e amorosa que nunca tive. Era difícil dizer.
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“Feche os olhos”, disse Robinson. Ele estava enfiando a mão na gaveta ao lado da cama. Fingi apertar os olhos, então os arregalei quando ele puxou um canivete com uma lâmina de prata brilhante.
“Quando há uma faca por perto, gosto de ficar alerta”, disse. “Mais ou menos como uma questão política.”
Ele riu e tossiu. “Não vou apontar para você”, disse ele. “Só isso.” Ele fez um gesto em direção ao lambril da varanda silenciosa..
“O que você vai fazer?”
“É uma surpresa”, disse. “Você vai ver. Apenas feche os olhos.”
Eu o observei cavar a ponta na madeira e então fiz o que ele pediu. Não sei quanto tempo se passou, mas devo ter adormecido, porque a próxima coisa que percebi foi Robinson me cutucando para acordar. “Olhe”, disse ele.
Esculpida na parede da varanda estava uma mensagem: B&CPARASEMPRE.
“Bonnie e Clyde”, disse ele. Estava sorrindo para mim, seu sorriso torto e perfeito. “Somos nós.”
“Para sempre”, eu disse.
Nos deitamos de novo, e Robinson me abraçou. Tracei as veias de seu pulso, as delicadas linhas azuis aparecendo em sua pele como um mapa de estradas, e pensei no mapa em minha mochila, aquele que marcamos em cada parada: Los Angeles. As sequoias. Detroit. Pensei também na minha bolsa de souvenirs. Objetos mágicos – um globo de neve, uma esfera de vidro – que, dependendo da luz, pareciam apenas lixo.
“Já estou com saudades”, Robinson disse suavemente.
“Eu estou aqui”, sussurrei de volta. “Sempre estarei aqui.”
“Mas eu não”, disse ele.
Em meu peito, cresceu uma dor incomensuravelmente profunda e sombria. E eu não disse nada, porque sabia que ele estava certo. Beijei seu rosto, seus lábios – e então, de alguma forma, dormimos.
Mas, no meio da noite, acordamos e, sem palavras, nos viramos um para o outro. As mãos de Robinson se estenderam para mim, e ele pressionou a boca contra meu pescoço. Trouxe seu rosto até o meu, com fome de provar seus lábios. Nós nos beijamos, e eu ouvi um gemido baixo. Meu. Percebi que estava tremendo.
Robinson sorriu, traçando levemente as linhas da minha testa, meu nariz, minha boca. “Não fique nervosa”, ele sussurrou.
Como eu poderia não estar nervosa? Eu sabia o que iria acontecer. O ar estava carregado. Íamos nos beijar até ficarmos sem fôlego, e então… e então…
Me aproximei dele, passando a mão ao longo de seu quadril e pela coxa. Eu o senti estremecer quando rocei os dedos ao longo de sua barriga lisa.
Ele pegou minha mão e a segurou. “Eu te amo”, disse ele.
“Também te amo”, sussurrei. E então eu deslizei meus dedos para fora dos dele para que eu pudesse tocá-lo novamente.
Nós nos beijamos pelo que pareceram horas. Às vezes com ternura, às vezes quase desesperadamente. Às vezes, parávamos e apenas nos olhávamos. Como se estivéssemos memorizando nossos corpos e aquele momento. Sentia como se fosse toda feita de desejo.
Então Robinson se afastou, e eu observei enquanto ele tirava a camiseta por cima da cabeça. Sua pele branca parecia brilhar na meia-luz. Ele me olhou interrogativamente e então alcançou os botões da minha blusa. Estava sussurrando meu nome.
“Você quer…”, ele perguntou.
“Sim”, respondi.
Tiramos o resto de nossas roupas, e então passei meus braços em suas costas. Eu o guiei em minha direção. Eu queria puxá-lo para o meu corpo, como se pudéssemos nos tornar uma só pessoa. Como se, finalmente, eu pudesse protegê-lo.
Robinson respirava com dificuldade enquanto nos beijávamos. Eu o toquei em todos os lugares, mesmo enquanto me sentia dissolvendo. Ele sussurrava palavras em minha boca, mas eu não conseguia me concentrar no que eram, porque algo dentro de mim se desenrolava. Eu não era mais Axi Moore. Eu era eu e ele. Eu era a noite e as estrelas. Nós nos deitamos naquela cama e estremecemos de desejo.
Depois, ele dormiu bem colado em mim, e eu encarei nossas iniciais à luz das velas. B&CPARASEMPRE.
E, de alguma forma, eu sabia que era verdade. Nós dois estaríamos juntos para sempre.
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Abri os olhos ao som dos pássaros fazendo um barulho alto e nada melodioso nos grandes carvalhos do quintal. Eu me aninhei mais perto de Robinson, feliz por ele não ter acordado também. Leafy, que ficava de guarda do lado de fora do quarto à noite, entrou quando ouviu o farfalhar de cobertores e sentou-se ao pé da cama. Ela imediatamente começou a choramingar, porque sabia que eu não resistiria àqueles grandes olhos castanhos. Nos quatro dias em que estávamos ali, eu já tinha dado a ela quase uma caixa inteira de biscoitos caninos.
“Calma, Leafy”, eu disse. “Tenha paciência.”
Ela abanou o rabo e ganiu mais alto. Quando não fui imediatamente em busca dos Milk-Bones, começou a latir.
“Quieta”, sussurrei. “Robinson está dormindo.”
Mas atrás de mim não havia movimento, apesar do barulho, e uma sensação terrível de pânico tomou conta de mim. Virei-me para olhar o peito de Robinson, e vi que não estava subindo ou descendo. Ele não estava respirando. E de repente eu estava recuando para fora da cama, as mãos agarradas ao rosto.
Leafy começou a latir ainda mais alto – um biscoito viria a qualquer minuto agora, ela tinha certeza disso –, e eu não me incomodei em calá-la porque não importava. Nada importava. Cravei minhas unhas em minhas bochechas e as lágrimas rolaram rápidas e quentes. Eu estava ofegante e não conseguia dizer o nome dele, embora quisesse gritar.
Robinson, volte! Eu não estou preparada! Eu não estou pronta de jeito nenhum!
Os latidos de Leafy adquiriram um tom de confusão selvagem. Eu a agarrei pelo colarinho, enterrei o rosto em seu pescoço quente e pensei: Ah, meu Deus, como vou dizer a Lou? Como vou fazer qualquer coisa de novo?
Eu estava com a boca cheia de pelos da Leafy, e ela ainda latia, porém mais suavemente agora, dissolvendo-se em um gemido lamentável.
Era isso. Estava tudo acabado.
E eu estava dormindo.
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52
Uma mão baixou e tocou meu ombro, e eu dei um salto como se tivesse sido queimada. Olhei para cima com os olhos turvos de lágrimas.
O rosto de Robinson parecia flutuar acima da cama como o de um fantasma. E então ouvi sua voz baixa familiar. Ele disse: “Axi? Você está bem?”.
Eu quase caí. Era ele. Ele estava vivo. “Eu pareço bem?”, gritei. Arrastei-me de volta para a cama e agarrei as mãos dele como se ele tivesse me salvado de um afogamento. Nunca na minha vida fiquei mais aliviada. “Me diga: eu pareço bem?”
“Seus olhos estão meio vermelhos”, ele disse, a voz grogue, mas provocadora. “Você é alérgica a Leafy ou algo assim?”
“Eu vou matar você”, eu disse com a voz engasgada. Soltei suas mãos e deitei ao lado dele na cama, pressionando-me contra o seu lado e tentando acalmar minha respiração. Estive perto demais de perdê-lo.
“Ah, você provavelmente não precisará se preocupar”, disse Robinson. “Já tem alguma coisa sendo feita. Mas não se preocupe. Eu ainda estou por perto para te torturar.”
“Nunca pare”, eu disse.
“Vou fazer o meu melhor.” Robinson deu um tapinha na beira da cama, e Leafy pulou também, embora obviamente não fosse fácil para ela. Eu o observei acariciar a cabeça e as orelhas macias da cachorrinha. Ele bocejou e se mexeu na cama, inquieto e desconfortável ao acordar com sua doença e a dor que ela lhe causava.
Corri meu dedo ao longo do lado de sua bochecha. “Você quer alguma coisa?”, perguntei.
Ele não me respondeu. Seus olhos se fecharam, e eu pensei que ele estava caindo no sono. Ele vinha dormindo muito ultimamente. Conforme sua respiração se tornava mais regular, eu lentamente saí da cama e fui até a porta, pronta para ver seus pais. Então ele disse baixinho: “Sim”.
“O quê?”
“Quero mais tempo”, disse. Seus cílios estavam escuros contra a pele pálida.
Mordi meu lábio e senti a ferroada de lágrimas novamente. “Está bem”, eu sussurrei. “Já está saindo.”
Quando cheguei ao corredor, ele me chamou de volta.
“Axi”, disse ele, meio que se sentando novamente. “Escute aqui, está bem? Primeira coisa: Leafy não precisa de outro biscoito, não importa o quanto ela ache que precisa. Portanto, deixe os Milk-Bones na despensa. Segunda coisa: tem um buraco na sua camisa, e você precisa pedir para a minha mãe costurá-lo. Terceira coisa: como diz aquela canção idiota do Mason Jennings, existem muitas maneiras de morrer.”
Eu levantei a mão. “Epa, Robinson…”
Ele me ignorou. “Não importa como seja o fim… o que importa é que ele veio. Bam, acabou. Mas vida, Axi? Existem graus de vida. A gente pode viver bem ou meio adormecido. A gente pode descer de trenó uma duna de areia ou passar a vida diante da TV. E eu não quero parecer um especial idiota de férias, mas você precisa continuar vivendo da maneira que vivemos nas últimas semanas. Risco, Axi. Esse é o segredo. Arrisque tudo.”
Balancei a cabeça, tentando não chorar de novo. “Está bem. Mas talvez eu não continue roubando carros.”
“Tudo bem”, disse ele.
“O que eu vou fazer…?”, perguntei. Não consegui dizer as duas palavras finais da frase: sem você.
Robinson sorriu. “Você provavelmente deveria tentar não ser reprovada em física. E deve continuar escrevendo.”
Pensei em meu diário, nas notas desleixadas e desordenadas nele e em todas as páginas a serem preenchidas. Pelo menos havia tirado algumas fotos na viagem. “Vou escrever as partes boas.”
“Não, você precisa escrever o que é bom e o que é ruim.” Robinson mexeu na ponta do cobertor. Seus olhos estavam grandes e sérios. “Você pode escrever tudo sobre mim, e eu viverei para sempre assim.”
O que eu podia dizer? Afundei em uma cadeira e coloquei a cabeça em minhas mãos.
“Sabe, o seu livro era o único que eu queria ler. Então apenas escreva, Axi. Você consegue. Você pode fazer qualquer coisa. Eu quero dizer, olhe pra você. Você não é mais BM. Você é muito maior do que ela.”
Eu ri com amargura. “Eu não sinto falta dela.”
“Eu a amava”, disse Robinson. “E amei a menina doente que você era quando te conheci, e a boa aluna e a má motorista. Eu amei a ladra de carros, a caroneira, a citadora de romances que não li e a que odiava Slim Jims… Axi Moore, eu amei todas as versões de você que já existiram.”
Fui até a cama e coloquei a cabeça no peito dele. “Eu vou ser sempre a sua garota”, sussurrei.
“Eu sei”, disse ele.
Observei a maneira como nossos dedos se entrelaçaram e pensei: Para que são feitas as mãos, se não para isso? Para segurar. Para aguentar.
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Os dias se misturaram à medida que Robinson começou a sonhar mais e a falar menos. O tempo havia perdido o sentido para ele, mas eu estava dominada por uma sensação de espera. Algo estava chegando, algo que seria uma escuridão terrível e também um alívio.
Ficávamos com ele em turnos: Lou de manhã, Joe à tarde, Jonathan no fim do dia, e eu à noite. Eu li para ele os livros de Lou: Steinbeck, Whitman, Fitzgerald, Hemingway. Ela leu para ele O pequeno príncipe.
Uma noite, no meio do meu turno, escapei para a escuridão quente. Os grilos estavam ficando loucos, e os vaga-lumes eram como lanternas minúsculas piscando uma espécie de código Morse próprio deles.
Pela janela, Robinson parecia pequeno e frágil sob as cobertas, como uma criança em sua cama de infância. Como se devesse estar segurando um ursinho de pelúcia.
Escolhi uma estrela e desejei com o máximo de fé possível que, de alguma forma, eu pudesse protegê-lo do que estava no horizonte.
Estamos nisso juntos, Robinson costumava dizer. Lembrei da primeira vez que ele disse isso para mim, na hora do jantar na enfermaria de câncer, quando nos entregaram uma bandeja com uma gororoba marrom com ervilhas. “Estamos nisso juntos”, declarou Robinson. “Axi, nós podemos fazer isso.” Ele ergueu o garfo bem alto, como uma espada. “Podemos comer este… este… seja o que for!”
Foi uma piada naquela época. Agora era real. Estávamos naquilo juntos por mais um pouco, porque o que viria a seguir, Robinson teria de passar sozinho. Eu trocaria minha vida pela dele, mas não havia ninguém a quem oferecer isso. Ninguém que pudesse fazer a troca. Nenhuma estrela que atendesse ao meu desejo.
Às três horas daquela manhã, eu estava cochilando, minha mão na dele, quando de repente ele acordou.
“A motocicleta”, disse ele, a voz atormentada e urgente. “Tem gasolina?”
Fiquei imediatamente atenta. “Sim”, respondi.
“Acho que a junta do cabeçote estourou… está vazando óleo.”
“Seu irmão está investigando”, eu disse. Qualquer que fosse o mundo em que Robinson estava agora, eu participaria. “Ele disse para você não se preocupar, ele vai cuidar disso. Vai começar a funcionar imediatamente.”
“E o cabo da embreagem? Está gasto.”
“Ele vai consertar isso também.”
Então Robinson olhou para mim por um longo tempo. Em algum ponto, ele pareceu voltar a si. “Axi”, ele sussurrou.
“Oi”, eu sussurrei de volta.
Ele olhou ao redor da sala para o pôster de Bob Dylan, as guitarras inclinadas, todas as coisas que ele havia deixado para trás quando foi para o hospital. Seus dedos tremeram, e eu estendi a mão para agarrá-los.
Eu sabia o que estava por vir. O que eu devia dizer.
Havia uma pedra na minha garganta, mas engoli em seco. “Está tudo bem”, eu disse. “Você pode ir.” A parada final.
Ele levou minha mão aos lábios e a beijou, bem no centro da palma da mão. Então fechou meus dedos, como se o beijo fosse algo que eu pudesse segurar para sempre.
Eu subi na cama com ele. Ele se mexeu, suspirando. “Axi”, disse ele.
“Eu estou bem aqui.”
Segurei sua cabeça em meus braços. Pressionei minha boca em sua bochecha. Estamos nisso juntos.
“Axi”, ele disse novamente.
Eu disse a ele que o amava. Ele também me amava, ele disse – sempre. E eu o ouvi dizer meu nome novamente. Ele sussurrou várias vezes até que não soasse mais como meu nome. Era apenas som, apenas ritmo. Quase como uma música.
“Axi.” Ele suspirou. “Axi.”
E então, finalmente, ele ficou em silêncio.
Lá fora, o canto dos grilos pareceu aumentar. Enfiei a mão no bolso para pegar a moeda da sorte que eu tinha jogado muito tempo antes na enfermaria de câncer, esperando que, de alguma forma, significasse que Robinson sobreviveria. Eu mantive aquela moeda comigo todos os dias depois que ela caiu em cara, dizendo que ele sempre estaria comigo.
Agora eu a segurei com força e então a lancei bem alto no ar, observando-a cair. Sobre o quê, não importava. Não havia mais nenhuma pergunta, nenhum desejo: apenas a resposta e o vazio que ela trazia.
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