À beira da linha: formações urbanas da Noroeste Paulista

Características gerais de implantação

FIGURA 38

 

FIGURA 39

FIGURAS 36, 37, 38, 39 - Uma quadra na cidade de Bauru e as

sucessivas transformações de sua divisão original, feita ainda no

século XIX (Ghirardello, 1992, p.78-9).

 

Características gerais de implantação Como vimos no Capítulo 1 deste livro, os trilhos da CEFNOB procuraram, como medida da economia, os terrenos mais favoráveis para sua implantação e desenvolvimento, mesmo tendo como prejuízo um traçado mais longo e sinuoso. Ao aproximar-se do local indicado para a implantação da estação e em razão das características dos serviços nesta, procurava-se assentar o feixe de trilhos, linha tronco e desvios, em terrenos planos que permitissem uma longa linha reta. A direitura era importante para melhor observação, por parte do agente da estação, do movimento geral da esplanada. Era também necessário que os guarda-chaves, que ficavam postados no início e fim do feixe de desvios, controlando os aparelhos de mudança de via, tivessem completa visão em direção à estação, bem como entre si. Áreas assim, planas e que possibilitavam longo desenvolvimento retilíneo dos trilhos, eram freqüentemente encontradas junto aos cursos d'água, e foram elas as escolhidas para essas relevantes instalações.

A CEFNOB, ao criar extensas esplanadas para implantação dos pátios e estações, determinou áreas de formato retangular, onde duas das faces eram bem maiores que as outras. Nelas, a disposição topográfica da linha será sempre à meia-encosta de um curso d'água, paralelamente, como forma de aproveitar o terreno natural. Como essas pequenas e precárias estações, durante o período estudado, dispunham no máximo da linha tronco e feixe de duas linhas desvio, os cortes e aterros transversais a elas também foram pouco significativos. Portanto, de forma geral, nas estações estudadas teremos, partindo-se da cota mais baixa: curso d'água e o conjunto da esplanada formado por pátio, estação e "praça". Esta última área, também pertencente à ferrovia e situada frontalmente à estação, constituía-se de amplo espaço livre para possibilitar, mesmo que futuramente, carga e descarga, ponto de parada de veículos, bebedouro para animais etc.

Ao iniciar o arruamento desses povoados, foi tomada por base, em todos os casos, a longa reta originada pela linha da ferrovia, ou mesmo os limites de divisa da esplanada. Tais demarcações eram físicas, pois fechadas por cerca, como forma de impedir a entrada de animais, que poderiam provocar acidentes quando junto aos trilhos.

Em meio à mata, portanto, os melhores parâmetros que o arruador teve, para iniciar o traçado urbano da futura povoação, foram os limites dados pela área pertencente à CEFNOB ou os próprios trilhos, na maioria dos casos retas paralelas.

Verifica-se que a ferrovia, além de possibilitar vida econômica ao futuro povoado, garantindo acessibilidade e escoamento da futura produção, gerou o próprio desenho urbano. Outra condição favorável para a formação do núcleo foi a proximidade da água, que corria junto às instalações da ferrovia e acabava por servir a futura povoação. Como vimos, a CEFNOB, por meio das bombas a vapor, os chamados "burrinhos", elevava água dos córregos para caixas d'água dispostas próximo às chaves e estações. A partir daí, esse líquido era distribuído às locomotivas e para as instalações da ferrovia, nas esplanadas. Nos primeiros anos desses novos povoados, a CEFNOB contribuiu para o fornecimento de água, junto à estação, para a pequena população local, que não dispunha

desse serviço público. 73

As dimensões das áreas das esplanadas variavam muito, bem como a distância entre a linha tronco e o curso d'água. Tais diferenças gerarão esplanadas menos profundas, sessenta metros, Estação de Penápolis e mais profundas, 480 metros, Estação de Miguel Calmon (atual cidade de Avanhandava). Naquelas menos profundas e, ao mesmo tempo, mais distantes dos córregos, houve possibilidade de ocupação urbana entre a esplanada e o curso d'água. Nesse caso, encontram-se as estações de Jacutinga (Avaí), Presidente Alves, Penápolis, Hector Legru (Promissão), Birigüi e Araçatuba. Nelas foram dispostas, progressivamente, por níveis seqüenciais, a partir

do curso d'água, uma fração menor do arruamento, 74 a esplanada e parte principal do arruamento. Tal situação física será responsável por um setor urbano comprimido entre a água e a esplanada. Essa área, na maioria dos casos, foi ocupada de maneira provisória, anteriormente ao arruamento. Parece ter servido como "área de espera", até que o traçado urbano fosse executado. A partir da efetivação deste, tal setor, pela situação topográfica desfavorável, úmido e sujeito a freqüentes inundações, abrigará serviços pesados como serrarias, despolpadores, beneficiadoras ou mesmo bairros

boêmios ou operários.75 Serão os bairros "além dos trilhos", dispondo de terrenos menos salubres, porém mais baratos.

Nas estações de Presidente Pena (Cafelândia), Albuquerque Lins (Lins), Miguel Calmon (Avanhandava) e General Glicério (Glicério), a CEFNOB implantou sua esplanada em toda área entre o curso d'água e a estação, não deixando espaço para nenhum tipo de ocupação urbana. Nesses casos, a partir do curso d'água, foram dispostos progressivamente a esplanada e o arruamento. O que não significou que, muito depois, com a expansão das cidades, as áreas além dos cursos d'água, em sua outra encosta, não fossem loteadas. Serão, mas, como frisamos, num período bem posterior. Na época estudada, o arruamento se dará apenas fronteando a esplanada e particularmente a estação.

Esteja, portanto, o complexo ferroviário "envolto" pelo traçado inicial ou apenas tendo-o em uma de suas faces, a verdade é que a ferrovia forma o povoado, dando não só suas diretrizes econômicas, mas também, e particularmente, as físicas.

Diferentemente da cidade colonial e mesmo da cidade cafeeira do século XIX, nascidas em solo sacro, ao redor de uma capela, as cidades ferroviárias da Zona Noroeste surgirão sobre solos laicos e ao redor da estação, ou fronteiriças a ela.

As cidades formadas no século XIX, particularmente as paulistas, se caracterizavam por serem constituídas a partir de patrimônio religioso administrado pela Fábrica Paroquial. Como esse solo, a rigor, pertencia à Igreja, a melhor situação topográfica era destinada à edificação religiosa e seu largo. As Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia também assim o exigiam (Marx, 1989, p.39-

40).76 A capela era disposta em local alto, livre de umidade e com espaço ao redor para atividades religiosas ao ar livre. Tal situação física era geralmente o divisor de águas da área do patrimônio. A partir desse largo, junto à capela, a cidade crescia num desenho que poderíamos chamar radiocêntrico. Até porque a Fábrica detinha o controle sobre as datas e as aforava conforme sua ocupação, em geral do centro para as bordas (Marx, 1991, p.12-3 e 40-1). No caso das cidades da Noroeste, a povoação se originará a partir da estação. Ela presidirá o espaço urbano, estando ao centro deste ou mesmo num de seus limites, mas, repetimos, sempre presidindo-o. Desnecessário dizer que será a estação, por muitos anos, o principal edifício desses pequenos lugarejos e que mesmo diante da sua rusticidade terá, podemos afirmar, a mesma importância que tiveram as capelas nas antigas cidades. As diferenças em relação à típica cidade cafeeira do século XIX não param por aí. Aquela nasce do alto para baixo, a partir do edifício religioso. As povoações da Noroeste nascem em pontos baixos, próximas aos cursos d'água e destes para cima.

O largo, junto à capela das cidades do século XIX, será substituído pela área descampada fronteiriça à estação, a "Praça da Estação" ou "Largo da Estação".

Esta cidade, ainda, diferentemente daquela, terá ocupação de seus lotes de forma linear, paralelamente aos trilhos e daí para as vias subseqüentes, sempre paralelamente, em direção aos limites da cidade.

Como a função ferroviária predominava, a área frontal à estação e a "Avenida" ou "Rua da Estação" serão os principais espaços urbanos do povoado. O amplo descampado em frente à estação, ou "Praça" da Estação, exercerá a função das praças municipais, nesse primeiro momento, para aqueles povoados que não dispusessem

desse espaço. 77 Em outros, como veremos, a "Praça da Estação" atrairá a proximidade ou mesmo a contigüidade da praça pública, fazendo-as praticamente uma só em relação a seu uso. Num diverso, no próprio largo da estação é disposto o coreto, elemento típico e fundamental das praças municipais, comprovando que as atividades públicas ali se faziam.

A capela, depois igreja matriz, também terá seu lugar nessas futuras cidades, porém em área doada por algum fiel. Essa capela será construída a posteriori unicamente com o auxílio da comunidade e não mais por intermédio da Fábrica Paroquial. Com certeza ocupará local nobre e central, podendo ser até junto de alguma futura praça municipal, porém o espaço urbano dessas cidades ferroviárias não terá sido estabelecido a partir dela. O edifício religioso não determinará mais o arruamento. Podemos dizer que a capela, futura igreja, situar-se-á em bom local, mas num terreno possível, pois doado em solo laico, e não mais numa área específica: o ponto mais

alto, o divisor de águas.78 E mesmo que a religião católica ainda fosse importante, outras aparecerão a disputar os fiéis. Em Birigüi, o primeiro ato religioso foi oficiado por evangélicos (Ramos & Martins, 1961, p.204). Em Araçatuba, pastores metodistas já tinham atuação destacada em 1916 (Pinheiro & Bodstein, 1997, p.145). Portanto, é lógico que os templos dessas religiões também ocupassem posição espacialmente relevante. A respeito, nos diz o arguto jornalista Brenno Ferraz, que percorre a Zona Noroeste nos anos 1920:

Em todo o estado, em todo o Brasil mesmo, a liberdade de

religião é uma bella realidade. Em todo caso, a preeminência do

catholicismo salta à vista, na evidência das coisas: as suas

egrejas têm, em toda parte, a situação privilegiada da praça

principal. As velhas torres dominam, do centro, as cidades.

 

FIGURA 40 - Corte esquemático mostrando a partir da esquerda: o

curso d'água, uma pequena fração do arruamento, a esplanada com

a "praça" ou avenida da estação e a parte principal do arruamento

(Desenho: André Stevaux).

FIGURA 41 - Corte esquemático mostrando a partir da esquerda: o

curso d'água, a esplanada com a "praça" ou avenida da estação e o

arruamento (Desenho: André Stevaux).

FIGURA 42 - Perspectiva esquemática de uma formação urbana

junto aos trilhos da CEFNOB (Desenho: André Stevaux).

Na Noroeste é differente: Egreja e Templo se hombreiam, em igualdade de posições. A's vezes, mesmo, a importância da casa evangélica sobrepuja em apparencia a outra: enquanto esta, na modéstia dos seus muros, semelha uma simples capella, antiga e tosca, ostenta aquella, encimada de uma cruz, a sua torrezinha, as suas columnatas, a sua escadaria, toda uma architectura, enfim, em que se não póde deixar de ver a contaminação que vae soffrendo a crença nova ao contato com a antiga. (Ferraz, 1924, p.115-6)

 

FIGURA 43 - Em primeiro plano, Praça James Mellor em Birigüi

tendo ao fundo, à esquerda, o Templo Metodista e, à direita, a Igreja

Católica. Foto de 1928 (Ramos & Martins, 1961, p.53).

A observação do viajante é importante, por perceber que nas cidades da Noroeste nem sempre o melhor edifício religioso era o da Igreja Católica, como nas antigas cidades, e que este não mais necessariamente ocupava "a situação privilegiada da praça principal". Estranha ainda o jornalista o fato de as torres não dominarem "do centro" as cidades. Porém, não deduziu Brenno Ferraz que, nessas novas urbes, os chãos eram laicos, e o povoado "brotara" da estação e não de capela situada no alto, e ademais, que o catolicismo passara a ser uma das religiões colocadas à disposição do suposto fiel.