À beira da linha: formações urbanas da Noroeste Paulista
Conclusão
Podemos afirmar, seguramente, que os povoados da Zona Noroeste de São Paulo guardam particularidades em relação a outros tantos formados na província e depois Estado de São Paulo, em época precedente.
Em primeiro lugar, sua origem não está atrelada à produção cafeeira, como os demais núcleos criados no século XIX. Pelo contrário, são constituídos em decorrência de uma ferrovia de penetração, a Companhia Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (CEFNOB). Esta, diferentemente das demais estradas de ferro paulistas, que buscavam a produção cafeeira, fora organizada para ligar Estados com penosos e custosos acessos aos principais centros urbanos do país. Seu traçado e destino, alterados por diversas vezes, embora mantendo um certo sentido estratégico, acabaram sendo definidos por zonas de terras virgens, de boa qualidade e principalmente devolutas.
A construção da CEFNOB incentiva e acelera a ocupação rural da região Noroeste. Seus moradores originais, os índios caingangues, serão praticamente exterminados por bugreiros contratados pela estrada de ferro e posseiros invasores das imensas glebas pertencentes ao Estado.
Em 1912, quando se dá a "pacificação" do gentio, a terra ocupada por posseiros e grileiros, agora livre de ataques indígenas, pode ser mais facilmente retalhada e vendida a imigrantes com alguns recursos, dispostos a comprar áreas férteis em região tão distante, conquanto servida por ferrovia.
Os núcleos urbanos formados junto às estações da CEFNOB em todo esse processo terão importância fundamental; num primeiro momento, antes da "pacificação", os povoados protegerão as estações, principais instalações da ferrovia. Por outro lado, os poucos moradores, até esse momento, também aí se resguardarão tendo à disposição armamento e munição fornecidos pela Companhia, bem como meios de comunicação modernos, como o telefone e o telégrafo.
Após a "pacificação", as terras ocupadas serão celeremente loteadas, particularmente pela "The San Paulo Land, Lumber & Colonization Company", primeira empresa formada na região com esse objetivo. Essa significou, na Zona Noroeste, sobretudo, a comercialização empresarial e em larga escala de terras, sob patrocínio do capital estrangeiro, que alguns anos depois investiria em outras regiões do Estado de São Paulo e norte do Paraná. A partir desse momento, as formações urbanas terão importância redobrada, exercerão a função de sedes estratégicas para a viabilização dos parcelamentos agrícolas. Serão o centro da vida rural, fornecendo aos pequenos sitiantes, recém-ingressos, serviços que iam das máquinas de beneficiamento para a incipiente produção campesina a uma elementar assistência a saúde, educação e lazer, assim como sediando o imprescindível comércio. Desses centros ainda eram abertas as estradas em direção aos parcelamentos rurais, custeadas e mantidas pelo poder público.
Para atrair, portanto, o imigrante comprador de terra era fundamental não só afastar o indígena, o que foi conseguido em 1912, mas também fomentar a criação de povoados. Nessa atividade destacou-se o principal coronel da região, Manoel Bento da Cruz, sócio da "The San Paulo Land, Lumber & Colonization Company" e braço político da empresa para a viabilização da formação urbana na Zona Noroeste. É por meio das práticas coronelistas que a empresa, bem como o próprio Manoel Bento da Cruz, ampliarão suas posses e influenciarão no "plantio de povoados".
Paralelamente e nos moldes comerciais do parcelamento rural, os núcleos urbanos serão loteados privadamente. Inexistiu nas novas cidades da Noroeste o antigo sistema de formação urbana, a partir de doações de terras à Igreja, o chamado patrimônio religioso, no qual o chão é aforado à Fábrica Paroquial. Um novo sistema se impõe dentro da lógica capitalista: a compra e venda livre da terra urbana, fortalecida pela separação constitucional dos poderes entre Igreja e Estado. Os povoados da Noroeste, portanto, não tiveram compromissos com o solo sagrado e isso ficou fisicamente demonstrado em seu desenho orientado pela estrada de ferro.
Como medida de economia e multiplicação de lucros, a CEFNOB, ao ser construída, utilizou-se de pouca tecnologia e intensa exploração da força de trabalho, resultando um percurso longo e sinuoso, buscando poucos cortes e aterros. Nessa lógica, as extensas esplanadas, que continham as estações, foram implantadas à meia-encosta de cursos d'água. As estações, por sua vez, foram os locais preferidos para formação dos núcleos urbanos que tiveram seus traçados dispostos a partir das esplanadas. Estas presidiram o arruamento, ordenando claramente a posição e composição do traçado, na maior parte das vezes reticulado.
A antiga cidade, formada a partir e ao redor de uma capela, localizada em área alta longe de enchentes e alagamentos, dá lugar, na Zona Noroeste, a outra, definida a partir das esplanadas, invariavelmente locadas em áreas baixas, quase sempre úmidas. Mesmo a capela, futura igreja, em muitos desses povoados foi erguida onde possível e não mais em um sítio predeterminado, conforme velhas normas canônicas. Outras religiões também se farão presentes, ombreando seus templos em localização e dimensão aos da Igreja Católica.
Aos arruadores, freqüentemente agrimensores acostumados com a divisão bidimensional da terra rural, bastaria traçar a partir da linha reta da esplanada a monótona quadrícula, subdividindo-a em lotes para venda. Nem mesmo o espaço privilegiado, na maioria das vezes central para a futura igreja, precisaria ser demarcado.
Nas cidades da Noroeste de imediato esboçou-se um novo mundo, onde as antigas amarras do solo urbano foram desembaraçadas em favor de outro sistema regido prioritariamente pelo mercado. Se o antigo carregava vícios e problemas seculares, o que se instalou determinou a lógica da especulação imobiliária e do lucro como base para a vida urbana.