A Confissão de Lúcio
Capítulo I
nos faz sofrer. Vibradas as sensações maximas, nada já nos fará
oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as
criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os
mortos-vivos, ou—apenas—os desencantados que, muita vez,
acabam no suicidio.
Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho
instante. Os que o não vivem, têem a paz—pode ser. Entretanto
não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento
luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo,
eu me orgulho de o ter vivido.
Mas punhamos termo aos devaneios. Não estou escrevendo
uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de factos.
E para a clareza, vou-me lançando em mau caminho—parece-me.
Aliás, por muito lucido que queira ser, a minha confissão resultará
—estou certo—a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos
lucida.
Uma coisa garanto porem: Durante ela não deixarei escapar um
pormenor, por minimo que seja, ou aparentemente incaracteristico.
Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer duma
grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei.
Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro
que nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo
é que só digo a verdade. Não me importa que me acreditem, mas
só digo a verdade—mesmo quando ela é inverosimil.
A minha confissão é um mero documento.
I
Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando direito na Faculdade de Paris, ou melhor, não estudando. Vagabundo da minha mocidade, após ter tentado varios fins para a minha vida e de todos igualmente desistido—sedento de Europa, resolvera transportar-me á grande capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artisticos, e Gervasio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me o companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande artista falido, ou antes, predestinado para a falencia.
Perturbava o seu aspecto fisico, macerado e esguio, e o seu corpo de linhas quebradas tinha estilisações inquietantes de feminilismo histerico e opiado, umas vezes—outras, contrariamente, de ascetismo amarelo. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrivel, evocavam cilicios, abstenções rôxas; se lhe escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos subtis. Trajava sempre de preto, fatos largos, onde havia o seu quê de sacerdotal—nota mais frisantemente dada pelo colarinho direito, baixo, fechado. Não era enigmatico o seu rosto—muito pelo contrario, se lhe cobriam a testa os cabelos ou o chapeu. Emtanto, coisa bizarra, no seu corpo havia misterio—corpo de esfinge, talvez, em noites de luar. Aquela criatura não se nos gravava na memoria pelos seus traços fisionomicos, mas sim pelo seu estranho perfil. Em todas as multidões êle se destacava, era olhado, comentado —embora, em realidade, a sua silhueta á primeira vista parecesse não se dever salientar notavelmente: pois o fato era negro—apenas dum talhe um pouco exagerado—os cabelos não escandalosos, ainda que longos; e o chapeu, um bonet de fazenda—exquisito, era certo—mas que em todo o caso muitos artistas usavam, quasi identico.
Porêm, a verdade é que em redor da sua figura havia uma aureola. Gervasio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua dizendo: ali, deve ir alguem.
Todo êle encantava as mulheres. Tanta rapariguinha que o seguia de olhos fascinados quando o artista, sobranceiro e esguio, investigava os cafés... Mas esse olhar, no fundo, era mais o que as mulheres lançam a uma criatura do seu sexo, formosissima e luxuosa, cheia de pedrarias...
—Sabe, meu caro Lucio—dissera-me o escultor muita vez—não sou eu nunca que possuo as minhas amantes; elas é que me possuem...
Ao falar-nos, brilhava ainda mais a sua chama. Era um conversador admiravel, adoravel nos seus erros, nas suas ignorancias, que sabia defender intensamente, sempre vitorioso; nas suas opiniões revoltantes e belissimas, nos seus paradoxos, nas suas blagues. Uma criatura superior—ah! sem duvida. Uma destas criaturas que se nos enclavinham na memoria—e nos perturbam, nos obcecam. Todo fôgo! todo fôgo!
Entretanto, se o examinavamos com a nossa inteligencia, e não apenas com a nossa vibratilidade, logo viamos que, infelizmente, tudo se cifrava nessa aureola, que o seu genio—talvez por demasiado luminoso—se consumiria a si proprio, incapaz de se condensar numa obra—disperso, quebrado, ardido. E assim aconteceu, com efeito. Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.
A uma criatura como aquela não se podia ter afecto, embora no fundo êle fosse um excelente rapaz; mas ainda hoje evoco com saudade as nossas palestras, as nossas noites de café—e chego a convencer-me que, sim, realmente, o destino de Gervasio Vila-Nova foi o mais belo; e êle um grande, um genial artista.
Tinha muitas relações no meio artistico o meu amigo. Literatos, pintores, musicos, de todos os países. Uma manhã, entrando no meu quarto, desfechou-me:
—Sabe, meu caro Lucio, apresentaram-me ontem uma americana muito interessante. Calcule, é uma mulher riquissima que vive num palacio que propositadamente fez construir no local onde existiam dois grandes predios que ela mandou deitar abaixo—isto, imagine você, em plena Avenida do Bosque de Bolonha! Uma mulher linda. Nem calcula. Quem ma apresentou foi aquele pintor americano dos oculos asuis. Recorda-se? Eu não sei como êle se chama... Podemo-la encontrar todas as tardes no Pavilhão de Armenonville. Costuma ir lá tomar chá. Quero que você a conheça. Vai ver. Interessantissima!
No dia seguinte—uma esplendida tarde de inverno, tépida, cheia de sol e céu asul—tomando um fiacre, lá nos dirigimos ao grande restaurante. Sentámo-nos; mandou-se vir chá... Dez minutos não tinham decorrido, quando Gervasio me tocava no braço. Um grupo de oito pessoas entrava no salão—três mulheres, cinco homens. Das mulheres, duas eram loiras, pequeninas, de péle de rosas e leite; de corpos harmoniosos, sensuais—identicas a tantas inglesas adoraveis. Mas a outra, em verdade, era qualquer coisa de sonhadamente, de misteriosamente belo. Uma criatura alta, magra, dum rosto esguio de pele dourada—e uns cabelos fantasticos, dum ruivo incendiado, alucinante. A sua formosura era uma destas belezas que inspiram receio. Com efeito, mal a vi, a minha impressão foi de medo—dum medo semelhante ao que experimentamos em face do rosto dalguem que praticou uma acção enorme e monstruosa.
Ela sentou-se em ruido; mas logo, vendo-nos, correu estendendo as mãos para o escultor:
—Meu caro, muito prazer em o encontrar... Falaram-me ontem muito bem de si... Um seu compatriota ... um poeta ... M. de Loureiro, julgo...
Foi dificil adivinhar o apelido português entre a pronuncia mesclada.
—Ah... Não o sabia em Paris—murmurou Gervasio.
E para mim, depois de me haver apresentado á estrangeira:
—Você conhece? Ricardo de Loureiro, o poeta das Brasas...
Que nunca lhe falara, que apenas o conhecia de vista e, sobretudo, que admirava intensamente a sua obra.
—Sim ... não discuto isso ... você bem vê, para mim já essa arte passou. Não me pode interessar... Leia-me os selvagens, homem, que diacho!...
Era uma das scies de Gervasio Vila-Nova: Elogiar uma pseudo-escola literaria da ultima-hora—o Selvagismo, cuja novidade residia em os seus livros serem impressos sobre diversos papeis e com tintas de varias côres, numa estrambotica disposição tipografica. Tambem—e eis o que mais entusiasmava o meu amigo—os poetas e prosadores selvagens, abolindo a ideia, «esse escarro», traduziam as suas emoções unicamente em jogo silabico, por onomatopeias raspadas, bizarras: criando mesmo novas palavras que coisa alguma significavam e cuja beleza, segundo êles, residia justamente em não significarem coisa alguma... De resto, até aí, parece que apenas se publicara um livro dessa escola. Certo poeta russo de nome arrevesado. Livro que Gervasio seguramente não lera, mas que todavia se não cansava de exalçar, gritando-o assombroso, genial...
A mulher estranha chamou-nos para a sua mesa, e apresentou-nos os seus companheiros que ainda não conheciamos: o jornalista Jean Lamy, do Figaro, o pintor holandês van Derk e o escultor inglês Tomás Westwood. Os dois outros eram o pintor americano dos oculos asuis e o inquietante viscondezinho de Naudières, louro, diafano, maquilado.
Quanto ás duas raparigas, limitou-se apontando-nos:
—Jenny e Dora.
A conversa logo se entabolou ultra-civilisada e banal. Falou-se de modas, discutiu-se teatro e music-hall, com muita arte á mistura. E quem mais se distinguiu, quem em verdade até exclusivamente falou, foi Gervasio. Nós limitavamo-nos—como acontecia com todos, perante êle, perante a sua intensidade—a ouvir, ou, quando muito, a protestar. Isto é: a dar ensejo para que êle brilhasse...
—Sabe, meu querido Lucio—uma vez contara-me o escultor—o Fonseca diz que é um oficio acompanhar-me. E uma arte dificil, fatigante. É que eu falo sempre; não deixo o meu interculotor repousar. Obrigo-o a ser intenso, a responder-me... Sim, concordo que a minha companhia seja fatigante. Vocês têem razão.
Vocês—note-se em parentese—era todo o mundo, menos Gervasio... E o Fonseca, de resto, um pobre pintorzinho da Madeira, «pensionista do Estado», de barbichas, lavallière, cachimbo—sempre calado e ôco, olhando nostalgicamente o espaço, á procura talvez da sua ilha perdida... Um santo rapaz!
Depois de muito se conversar sobre teatro e de Gervasio ter proclamado que os actores—ainda os maiores, como a Sara, o Novelli —não passavam de meros cabotinos, de meros intelectuais que aprendiam os seus papeis, e de garantir—«creiam os meus amigos que é assim»—que a verdadeira arte apenas existia entre os saltimbancos; esses saltimbancos que eram um dos seus estribilhos e sobre os quais, na noite em que nos encontraramos em Paris, logo me narrara, em confidencia, uma historia tetrica: o seu rapto por uma companhia de pelotiqueiros, quando tinha dois ânos e os pais o haviam mandado, barbaramente, para uma ama da Serra da Estrela, mulher dum oleiro, do qual, sem duvida, êle herdara a sua tendencia para a escultura e de quem, na verdade, devido a uma troca de berços, era até muito possivel que fosse filho—a conversa deslisou, não sei como, para a voluptuosidade na arte.
E então a americana bizarra logo protestou:
—Acho que não devem discutir o papel da voluptuosidade na arte porque, meus amigos, a voluptuosidade é uma arte—e, talvez a mais bela de todas. Porêm, até hoje, raros a cultivaram nesse espirito. Venham cá, digam-me: Fremir em espasmos de aurora, em extases de chama, ruivos de ansia—não será um prazer bem mais arripiado, bem mais intenso do que o vago calafrio de beleza que nos pode proporcionar uma tela genial, um poema de bronze? Sem duvida, acreditem-me. Entretanto o que é necessario é saber vibrar esses espasmos, saber provocá-los. E eis o que ninguem sabe; eis no que ninguem pensa. Assim, para todos, os prazeres dos sentidos são a luxuria, e se resumem em amplexos brutais, em beijos humidos, em caricias repugnantes, viscosas. Ah! mas aquele que fosse um grande artista e que, para materia-prima, tomasse a voluptuosidade, que obras irriais de admiraveis não altearia!... Tinha o fogo, a luz, o ar, a agua, e os sons, as côres, os aromas, os narcoticos e as sedas—tantos sensualismos novos ainda não explorados... Como eu me orgulharia de ser esse artista!... E sonho uma grande festa no meu palacio encantado, em que os maravilhasse de volupia... em que fizesse descer sobre vós os arrepios misteriosos das luzes, dos fogos multicolores—e que a vossa carne, então, sentisse emfim o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-a a dimana-los, a esvaí-los, a matá-los!... Pois nunca atentaram na estranha voluptuosidade do fogo, na perversidade esguia da agua, nos requintes viciosos da luz?... Eu confesso-lhes que sinto uma verdadeira excitação sexual—mas de desejos espiritualizados em beleza—ao mergulhar as minhas pernas todas nuas na agua dum regato, ao contemplar um braseiro incandescente, ao deixar o meu corpo iluminar-se de torrentes electricas, luminosas... Meus amigos, creiam-me, não passam duns barbaros, por mais requintados, por mais complicados e artistas que presumam aparentar!
Gervasio insurgiu-se: «Não; a voluptuosidade não era uma arte. Falassem-lhe do ascetismo, da renuncia. Isso sim!... A voluptuosidade ser uma arte? Banalidade... Toda a gente o dizia ou, no fundo, mais ou menos o pensava».
E por aqui fóra, adoravelmente dando a entender que só por se lhe afigurar essa a opinião mais geral, êle a combatia.
Durante toda a conversa, apenas quem nunca arriscara uma palavra tinham sido as duas inglesinhas, Jenny e Dora—sem tambem despregarem ainda de Gervasio, um só instante, os olhos asuis e louros.
Entretanto as cadeiras haviam-se deslocado e, agora, o escultor sentava-se junto da americana. Que belo grupo! Como os seus dois perfis se casavam bem na mesma sombra esbatidos—duas feras de amor, singulares, perturbadoras, evocando mordoradamente perfumes esfingicos, luas amarelas, crepusculos de roxidão. Beleza, perversidade, vicio e doença...
Mas a noite descera. Um par de amorosos do grande mundo entrava a refugiar-se no celebre estabelecimento, quasi deserto pelo inverno.
A americana excentrica deu o sinal de partida; e quando ela se ergueu eu notei, duvidosamente notei, que calçava umas estranhas sandalias, nos pés nus ... nos pés nus de unhas douradas...
Na Porte Maillot, tomámos o tramway para Montparnasse, começando Gervasio:
—Então, Lucio, que lhe pareceu a minha americana?
—Muito interessante.
—Sim? Mas você não deve gostar daquela gente. Eu compreendo bem. Você é uma natureza simples, e por isso...
—Ao contrario—protestava eu em idiotice—admiro muito essa gente. Acho-os interessantíssimos. E quanto á minha simplicidade...
—Ah! pelo meu lado, confesso que os adoro... Sou todo ternura por êles. Sinto tantas afinidades com essas criaturas ... como tambem as sinto com os pederastas ... com as prostitutas... Oh! é terrivel, meu amigo, terrivel...
Eu sorria apenas. Estava já acostumado. Sabia bem o que significava tudo aquilo. Isto só: Arte.
Pois Gervasio partia do principio que o artista não se revelava pelas suas obras, mas sim, unicamente, pela sua personalidade. Queria dizer: ao escultor, no fundo, pouco importava a obra dum artista. Exigia-lhe porêm que fosse interessante, genial, no seu aspecto físico, na sua maneira de ser—no seu modo exterior, numa palavra:
—Porque isto, meu amigo, de se chamar artista, de se chamar homem de genio, a um patusco obeso como o Balzac, corcovado, aborrecido, e que é vulgar na sua conversa, nas suas opiniões—não está certo; não é justo nem admissivel.
—Ora...—protestava eu, citando verdadeiros grandes artistas, bem inferiores no seu aspecto físico.
E então Gervasio Vila-Nova tinha respostas impagaveis.
Se por exemplo—o que raro acontecia—o nome citado era o dum artista que êle já alguma vez me elogiara pelas suas obras, volvia-me:
—O meu amigo desculpe-me, mas é muito pouco lucido. Esse de quem me fala, embora aparentemente mediocre, era todo chama. Pois não sabe quando êle...
E inventava qualquer anedota interessante, bela, intensa, que atribuia ao seu homem...
E eu calava-me...
De resto, era outro traço caracteristico em Gervasio: construir as individualidades como lhe agradava que fossem, e não as ver como realmente eram. Se lhe apresentavam uma criatura com a qual, por qualquer motivo, simpatisava—logo lhe atribuia opiniões, modos de ser do seu agrado: embora, em verdade, a personagem fosse a antítese disso tudo. É claro que um dia chegava a desilusão. Entretanto, longo tempo êle tinha a força de sustentar o encanto...
Pelo caminho, não pude deixar de lhe observar:
—Você reparou que ela trazia os pés descalços, em sandalias, e as unhas douradas?
—Você crê?... Não...
A desconhecida estranha impressionara-me vivamente e, antes de adormecer, largo tempo a relembrei e á roda que a acompanhava.
Ah! como Gervasio tinha razão, como eu no fundo abominava essa gente—os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes; que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e apetites; artificiais, irritantes, intoleraveis. Emfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.
Mas, na minha incoerencia de espirito, logo me vinha outra ideia:— Ora, se os odiava, era só afinal por os invejar e não poder nem saber ser como êles...
Em todo o caso, mesmo abominando-os realmente, o certo é que me atraiam como um vicio pernicioso.
Durante uma semana—o que raro acontecia—estive sem ver Gervasio.
Ao fim dela, apareceu-me e contou-me:
—Sabe, tenho estreitado relações com a nossa americana. É na verdade uma criatura interessantissima. E muito artista... Aquelas duas pequenas são amantes dela. É uma grande safica.
—Não...
—Asseguro-lhe.
E não falámos mais da estrangeira.
Passou-se um mês. Eu já me esquecera da mulher fulva, quando uma noite o escultor me participou de subito:
—É verdade: aquela americana que eu lhe apresentei outro dia, dá amanhã uma grande soirée. Você está convidado.
—Eu!?...
—Sim. Ela disse-me que levasse alguns amigos. E falou-me de si. Aprecia-o muito... Aquilo deve ser curioso. Ha uma representação no fim—umas apoteoses, uns bailados ou o quer que é. Emtanto, se é maçador para você, não venha. Eu creio que estas coisas o aborrecem...
Protestei, idiotamente ainda, como era meu habito; afirmei que, pelo contrario, tinha até um grande empenho em o acompanhar, e marcámos rendez-vous para a noite seguinte, na Closerie, ás dez horas.
No dia da festa, arrependi-me de haver aceitado. Eu era tão avesso á vida mundana... E depois, ter que envergar um smoking, perder uma noite...
Emfim ... emfim...
Quando cheguei ao café—caso estranho!—já o meu amigo chegara. E disse-me:
—Ah ... sabe? Temos que esperar ainda pelo Ricardo de Loureiro. Tambem está convidado. E ficou de se encontrar aqui comigo. Olhe, aí vem êle...
E apresentou-nos:
—O escritor Lucio Vaz.
—O poeta Ricardo de Loureiro.
E nós, um ao outro:
—Muito gosto em o conhecer pessoalmente.
Pelo caminho a conversa foi-se entabolando e, ao primeiro contacto, logo experimentei uma viva simpatia por Ricardo de Loureiro. Adivinhava-se naquele rosto arabe de traços decisivos, bem vincados, uma natureza franca, aberta—luminosa por uns olhos geniais, intensamente negros.
Falei-lhe da sua obra, que admirava, e êle contou-me que lera o meu volume de novelas e que, sobretudo, lhe interessara o conto chamado João Tortura. Esta opinião não só me lisongeou, como mais me fez simpatisar com o poeta, adivinhando nêle uma natureza que compreenderia um pouco a minha alma. Efectivamente, essa novela era a que eu preferia, que de muito longe eu preferia, e entretanto a unica que nenhum critico destacara—que os meus amigos mesmo, sem mo dizerem, reputavam a mais inferior.
Brilhantissima aliás a conversa do artista, alem de insinuante, e pela vez primeira eu vi Gervasio calar-se—ouvir, êle que em todos os grupos era o dominador.
Por fim o nosso coupé estacou em face dum magnifico palacio da Avenida do Bosque, todo iluminado através de cortinas vermelhas, de seda, fantasticamente. Carruagens, muitas, á porta—contudo uma mescla de fiacres mais ou menos avariados, e algumas soberbas equipagens particulares.
Descemos.
Á entrada, como no teatro, um lacaio recebeu os nossos cartões de convite, e outro imediatamente nos empurrou para um ascensor que, rapido, nos ascendeu ao primeiro andar. Então, deparou-se-nos um espectaculo assombroso:
Uma grande sala eliptica, cujo tecto era uma elevadissima cupula rutilante, sustentada por colunas multicolores em magicas volutas. Ao fundo, um estranho palco erguido sobre esfinges bronzeadas, do qual —por degraus de marmore rosa—se descia a uma larga piscina semi-circular, cheia de agua translucida. Três ordens de galerias—de forma que todo o aspecto da grande sala era o dum opulento, fantastico teatro.
Em qualquer parte, ocultamente, uma orquestra moía valsas.
Á nossa entrada—foi sabido—todos os olhares se fixaram em Gervasio Vila-Nova, hieratico, belissimo, na sua casaca negra, bem cintada. E logo a estrangeira se nos precipitou a perguntar a nossa opinião sobre a sala. Com efeito, os arquitectos apenas ha duas semanas a tinham dada por concluida. Aquela festa sumptuosa era a sua inauguração.
Gritámos o nosso pasmo em face á maravilha, e ela, a encantadora, teve um sorriso de misterio:
—Logo, é que eu desejo conhecer o vosso juizo... E, sobretudo, o que pensam das luzes...
Um deslumbramento, o trajo da americana. Envolvia-a uma tunica dum tecido muito singular, impossivel de descrever. Era como que uma estreita malha de fios metalicos—mas dos metais mais diversos—a fundirem-se numa scintilação esbraseada, onde todas as côres ora se enclavinhavam ululantes, ora se dimanavam, silvando tumultos astrais de reflexos. Todas as côres enlouqueciam na sua tunica.
Por entre as malhas do tecido, olhando bem, divisava-se a pele nua; e o bico dum seio despontava numa agudeza aurea.
Os cabelos fulvos tinha-os enrolado desordenadamente e entretecido de pedrarias que constelavam aquelas labaredas em raios de luz ultrapassada. Mordiam-se-lhe nos braços serpentes de esmeraldas. Nem uma joia sobre o decote profundo... A estatua inquietadora do desejo contorcido, do vicio platinado... E de toda a sua carne, em penumbra azul, emanava um aroma denso a crime.
Rapida, após momentos, ela se afastou de nós a receber outros convidados.
A sala enchera-se entretanto duma multidão bigarrada e exquisita. Eram extranhas mulheres quasi nuas nos seus trajes audaciosos de baile, e rostos suspeitos sobre as unisonas e negras vestes masculinas de cerimonia. Havia russos hirsutos e fulvos, escandinavos suavemente louros, meridionais densos, crespos—e um chinês, um indio. Emfim, condensava-se ali bem o Paris cosmopolita— rastaquouère e genial.
Até á meia noite, dançou-se e conversou-se. Nas galerias jogava-se infernalmente. Mas a essa hora foi anunciada a ceia; e todos passámos ao salão de jantar—outra maravilha.
Pouco antes chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos dissera:
—Depois da ceia, é o espectaculo—o meu Triunfo! Quis condensar nêle as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a agua—tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualisada em ouro!
* * * * * * * *
Ao entrarmos novamente na grande sala—por mim, confesso, tive medo ... recuei...
Todo o scenario mudara—era como se fosse outro o salão. Inundava-o um perfume denso, arripiante de extases; silvava-o uma brisa misteriosa, uma brisa cinzenta com laivos amarelos—não sei porquê, pareceu-me assim, bizarramente—aragem que nos fustigava a carne em novos arrepios. Emtanto, o mais grandioso, o mais alucinador, era a iluminação. Declaro-me impotente para a descrever. Apenas, num esforço, poderei esboçar aonde residia a sua singularidade, o seu quebranto:
Essa luz—evidentemente electrica—provinha duma infinidade de globos, de estranhos globos de varias côres, varios desenhos, de transparencias varias—mas, sobretudo, de ondas que projectores ocultos nas galerias, golfavam em esplendor. Ora essas torrentes luminosas, todas orientadas para o mesmo ponto quimerico do espaço, convergiam nele em um turbilhão—e, desse turbilhão meteorico, é que elas realmente, em ricochete enclavinhado, se projectavam sobre paredes e colunas, se espalhavam no ambiente da sala, apoteotisando-a.
De forma que a luz total era uma projecção da propria luz—em outra luz, seguramente, mas a verdade é que a maravilha que nos iluminava nos não parecia luz. Afigurava-se-nos qualquer outra coisa— um fluido novo. Não divago; descrevo apenas uma sensação real: essa luz, nós sentiamo-la mais do que a viamos. E não receio avançar muito afirmando que ela não impressionava a nossa vista, mas sim o nosso tacto. Se de subito nos arrancassem os olhos, nem por isso nós a deixariamos de ver. E depois—eis o mais bizarro, o mais esplendido— nós respiravamos o estranho fluido. Era certo, juntamente com o ar, com o perfume roxo do ar, sorviamos essa luz que, num extase iriado, numa vertigem de ascensão—se nos engolfava pelos pulmões, nos invadia o sangue, nos volvia todo o corpo sonoro. Sim, essa luz magica ressoava em nós, ampliando-nos os sentidos, alastrando-nos em vibratilidade, dimanando-nos, aturdindo-nos... Debaixo dela, toda a nossa carne era sensivel aos espasmos, aos aromas, ás melodias!...
E não foi só a nós, requintados d'ultra-civilisação e arte, que o misterio rutilante fustigou. Pois em breve todos os espectadores evidenceavam, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo sortilegio os varara sob essa luz d'alem-Inferno, sob essa luz sexualisada.
Mas de subito toda a iluminação se transformou divergindo num resvalamento arqueado; e outro fremito mais brando nos diluiu então, como beijos de esmeraldas sucedendo a mordeduras.
Uma musica penetrante tilintava nessa nova aurora, em ritmos desconhecidos—esguia melopeia em que sossobravam gomos de cristal entrechocando-se, onde palmas de espadas refrescavam o ar esbatidamente, onde listas humidas de sons se vaporisavam subtis...
Emfim: prestes a esvairmo-nos num espasmo derradeiro d'alma— tinham-nos sustido para nos alastrarem o prazer.
E, ao fundo, o pâno do teatro descerrou-se sobre um scenario aureoral... Extinguiu-se a luz perturbadora, e jorros de electricidade branca nos iluminaram apenas.
No palco surgiram três dançarinas. Vinham de tranças soltas— blusas vermelhas lhes encerravam os troncos, deixando-lhes os seios livres, oscilantes. Ténues gases rasgadas lhes pendiam das cinturas. Nos ventres, entre as blusas e as gases, havia um intervalo—um cinto de carne nua onde se desenhavam flores simbolicas.
As bailadeiras começaram as suas danças. Tinham as pernas nuas. Volteavam, saltavam, reuniam-se num grupo, embaralhavam os seus membros, mordiam-se nas bôcas...
Os cabelos da primeira eram pretos, e a sua carne esplendida de sol. As pernas, talhadas em aurora loira, esgueiravam-se-lhe em luz radiosa a nimbar-se, junto do sexo, numa carne mordorada que apetecia trincar. Mas o que as fazia mais excitantes era a saudade limpida que lembravam dum grande lago azul de agua cristalina aonde, uma noite de luar, elas se mergulhassem descalças e amorosas.
A segunda bailadeira tinha o tipo caracteristico da adolescente pervertida. Magra—porêm de seios bem visiveis—cabelos dum louro sujo, cara provocante, nariz arrebitado. As suas pernas despertavam desejos brutais de as morder, escalavradas de musculos, de durezas— masculinamente.
Emfim, a terceira, a mais perturbadora, era uma rapariga frigida, muito branca e macerada, esguia, evocando misticismos, doença, nas suas pernas de morte—devastadas.
Emtanto o baile prosseguia. Pouco a pouco os seus movimentos se tornavam mais rapidos até que por ultimo, num espasmo, as suas bocas se uniram e, rasgados todos os veus—seios, ventres e sexos descobertos—os corpos se lhes emmaranharam, agonisando num arqueamento de vicio.
E o pâno cerrou-se na mesma placidez luminosa...
Houve depois outros quadros admiraveis: Dançarinas nuas perseguindo-se na piscina, a mimarem a atracção sexual da agua, estranhas bailadeiras que esparziam aromas que mais entenebreciam, em quebranto, a atmosfera fantastica da sala, apoteoses de corpos nus, amontoados—visões luxuriosas de cores intensas, rodopiantes de espasmos, sinfonias de sedas e veludos que sobre corpos nus volteavam...
Mas todas estas maravilhas—incriveis de perversidade, era certo— nos não excitavam fisicamente em desejos lubricos e bestiais; antes numa ansia d'alma, esbraseada e, ao mesmo tempo, suave: extraordinaria, deliciosa.
Escoava-se por nós uma impressão de excesso.
Emtanto os delirios que as almas nos fremiam, não os provocavam unicamente as visões lascivas. De maneira alguma. O que oscilavamos, provinha-nos duma sensação-total identica á que experimentâmos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. E os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra. Os outros: as luzes, os perfumes, as cores... Sim, todos esses elementos se fundiam num conjunto admiravel que, ampliando-a, nos penetrava a alma, e que só a nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de abismos. Eramos todos alma. Desciam-nos só da alma os nossos desejos carnais.
Porêm nada valeu em face da ultima visão:
Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caindo agora, em jorros, do alto da cupula—e o pâno rasgou-se sobre um vago templo asiatico... Ao som duma musica pesada, rouca, longinqua —ela surgiu, a mulher fulva...
E começou dançando...
Envolvia-a uma tunica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Joias fantasticas nas mãos; e os pés descalços, constelados...
Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, humidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o alcool dos seus labios que, num requinte, ela dourara—toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente...
Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se...
Vicio a vicio a tunica lhe ia resvalando, até que, num extase abafado, sossobrou a seus pés... Ah! nesse momento, em face á maravilha que nos varou, ninguém pôde conter um grito de assombro...
Quimerico e nu, o seu corpo subtilisado, erguia-se liturgico entre mil scintilações irreais. Como os labios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados—num ouro palido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismos escarlates a querer-se dar ao fogo...
Mas o fogo repelia-a...
Então, numa ultima perversidade, de novo tomou os veus e se ocultou, deixando apenas nu o sexo aureo—terrivel flôr de carne a estrebuchar agonias magentas...
Vencedora, tudo foi lume sobre ela...
E, outra vez desvendada—esbraseada e feroz, saltava agora por entre labaredas, rasgando-as: emmaranhando, possuindo, todo o fogo bebado que a cingia.
Mas finalmente, saciada após estranhas epilepsias, num salto prodigioso, como um meteoro—ruivo meteoro—ela veio tombar no lago que mil lampadas ocultas esbatiam de asul cendrado.
Então foi a apoteose:
Toda a agua asul, ao recebe-la, se volveu vermelha de brasas, encapelada, ardida pela sua carne que o fogo penetrara... E numa ansia de se extinguir, possessa, a fera nua mergulhou... Mas quanto mais se abismava, mais era lume ao seu redór...
... Até que por fim, num misterio, o fogo se apagou em oiro e, morto, o seu corpo flutuou heraldico sobre as aguas douradas—tranquilas, mortas tambem...
* * * * * * * *
A luz normal regressara. Era tempo. Mulheres debatiam-se em ataques de histerismo; homens, de rostos congestionados, tinham gestos incoerentes...
As portas abriram-se e nós mesmos, perdidos, sem chapeus— encontrámo-nos na rua, afogueados, perplexos... O ar fresco da noite, vergastando-nos, fez-nos despertar; e como se chegassemos dum sonho que os três houvessemos sonhado—olhamo-nos inquietos, num espanto mudo.
Sim, a impressão fôra tão forte, a maravilha tão alucinadora, que não tivemos animo para dizer uma palavra.
Esmagados, aturdidos, cada um de nós voltou para sua casa...
Na tarde seguinte—ao acordar dum sono de onze horas—eu não acreditava já na estranha orgia: A Orgia do Fogo, como Ricardo lhe chamou depois.
Saí. Jantei.
Quando entrava no Café Riche, alguem me bateu no ombro:
—Então como passa o meu amigo? Vamos, as suas impressões?...
Era Ricardo de Loureiro.
Falámos largamente àcerca das extraordinarias coisas que presencearamos. E o poeta concluiu que tudo aquilo, mais lhe parecia hoje uma visão de onanista genial do que a simples realidade.
Quanto á americana fulva, não a tornei a ver. O proprio Gervasio deixou de falar nela. E, como se se tratasse dum misterio d'Alem a que valesse melhor não aludir—nunca mais nos referimos á noite admiravel.