A Confissão de Lúcio
Capítulo VII
—Olha que fomos amantes dela ... eu e todos nós, ouves? E todos sabemos que tu já o sabes!...
Á noite, antes de adormecer, veiu-me ainda esta ideia perturbadora, num atordoamento luminoso:
—A sua baixeza ... a sua falta de orgulho... Ah! mas se eu me engano ... se eu me engano ... se é Marta quem lhe conta tudo ... se êle conhece tudo só porque ela lho diz ... se ela tem segredos para todos, menos para êle ... como eu queria... como eu a queria para mim... Nesse caso ... nesse caso...
E ao mesmo tempo—arripiadamente, desarazoadamente—acudiu-me á lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, ha tantos ânos ... no fim dum jantar ... para o Bosque de Bolonha ... no Pavilhão ... no Pavilhão d'Armenonville...
VII
Outubro de novecentos principiara.
Uma tarde, no boulevard des Capucines, alguem de subito me gritou, batendo-me no ombro:
—Ora até que emfim! Andava exactamente á sua procura...
Era Santa-Cruz de Vilalva, o grande empresario.
Tomou-me por um braço, fez-me á viva força sentar junto dêle na terrasse do La Paix, e pôs-se a barafustar-me o espanto que a minha falta de noticias lhe causara, tanto mais que, poucos dias antes de desaparecer, eu lhe falara da minha nova peça. Disse-me que em Lisboa muita gente perguntava por mim, que apenas vagamente se sabia que eu estava em Paris por alguns portugueses que tinham vindo á Exposição. Em suma: «Que demonio era isso, homem? neurastenico pelo ultimo correio?...»
Como sucedia sempre quando alguem me fazia perguntas sobre a minha forma de viver, fiquei todo perturbado—corei e titubiei quaisquer razões.
O grande empresario atalhou, exclamando-me:
—Bom. Mas antes de mais nada, vamos ao importante: Dê-me a sua peça.
Que não a concluíra ainda, que não me satisfazia...
E êle:
—Espero-o esta noite no meu hotel ... ali, no Scribe... Traga-me a obra. Quero ouvi-la hoje... Que titulo?
—A Chama.
—Optimo. Até logo... Primeira em abril. Ultima recita de assinatura. Preciso fechar a minha estação com chave de ouro...
Fôra-me muito desagradavel o encontro que viera pôr termo ao meu isolamento de ha seis mêses. Porem ao mesmo tempo, no fundo, a verdade é que eu não o lastimava. Sempre a literatura...
Desde que chegara a Paris, não escrevera uma linha—nem sequer já me lembrava de que era um escritor... E agora, de subito, vinham-me recorda-lo—evidenceando o apreço em que se tinha o meu nome; e precisamente alguem que eu sabia tão pouco lisonjeiro, tão brusco, tão homem-de-negocios...
Á noite, como se combinara, li o meu drama. Santa-Cruz de Vilalva exultou: «Trinta seguras!» punha as mãos no fôgo; «a minha melhor obra»—garantiu.
Entreguei-lhe o manuscrito, mas com estas condições:
Que não iria assistir aos ensaios nem me ocuparia da distribuição, de pormenores alguns da mise-en-scène. Da mais ligeira coisa, emfim. Deixava tudo ao seu cuidado. Ah! e principalmente que não me escrevesse nem uma palavra sobre o assunto...
O grande empresario anuiu a tudo. Falámos ainda alguns instantes.
E ao despedirmo-nos:
—É verdade—disse—sabe quem me perguntou varias vezes por si? se eu sabia de você ... o seu endereço?... O Ricardo de Loureiro... Que o meu amigo nunca mais lhe tinha escrito... Tambem represento um acto dêle ... em verso... Boa noite...
Esquecera já o meu encontro com o empresario, a minha peça, tudo —emfim tornara a mergulhar no meu antigo alheamento, quando de subito me ocorreu uma ideia nova, inteiramente diversa da primeira, para o ultimo acto da Chama: uma ideia belissima, grande, que me entusiasmou.
Não descansei emquanto não escrevi a novo acto. E um dia não pude resistir; parti com êle para Lisboa.
Quando cheguei, tinham começado os ensaios pouco antes.
Todos os meus interpretes me abraçaram efusivamente. E Santa-Cruz de Vilalva:
—Ora ... se eu não sabia já que êle havia de aparecer!... Quem não os conhecesse... São todos a mesma...
Os ensaios marchavam óptimamente. Roberto Dávila, no papel do escultor, ia ter decerto uma das suas mais belas criações.
Passaram-se dois dias.
Coisa espantosa: ainda não falara do novo acto da minha peça, razão unica porque decidira regressar a Lisboa contra todos os meus projectos, contra toda a minha vontade.
Emtanto ao terceiro dia, enchendo-me de coragem (foi certo: precisei encher-me de coragem) disse ao empresario o motivo que me trouxera de Paris.
Santa-Cruz de Vilalva pediu-me o manuscrito, sem consentir porêm que eu lho lesse.
E na manhã seguinte:
—Homem!—gritou-me—Você está maluco! O antigo acto é uma obra-prima. Este, perdôe-me... Posso dizer-lhe a minha opinião franca?...
—Sem duvida...—volvi, já perturbado.
—Um disparate!...
Uma raiva excessiva me afogueou perante a boçalidade do empresario, a sua pouca clarividencia. Pois se algumas vezes eu adivinhara nas minhas obras lampejos de genio, era nessas páginas. Mas tive a força de me conter.
Não sei bem o que depois se seguiu. O certo é que tudo acabou por o drama ser retirado de ensaios, visto eu não consentir que o representassem com o primitivo ultimo acto, e a empresa se negar terminantemente a monta-lo, conforme o parecer do director e dos principais interpretes.
Quebrei as relações com um e com outros, e exigi que me entregassem todas as copias do manuscrito e os papeis. A minha exigencia foi estranhada—lembro-me bem—sobretudo pelo modo violento como a fiz.
Ao chegar a minha casa—juntamente com o manuscrito original, lancei tudo ao fogo.
Tal foi o destino da minha ultima obra...
Decorreram algumas semanas.
As dôres físicas do meu espirito tinham regressado; mas agora dôres injustificadas—dôres pelo menos cuja razão eu desconhecia.
Desde que chegara a Lisboa—era claro—não procurara ainda nenhum dos meus companheiros. Ás vezes parecia-me até que gente que em tempos eu conhecera, me evitava. Eram literatos, dramaturgos, jornalistas, que decerto pretendiam lisongear assim o grande empresario de quem todos mais ou menos dependiam, hoje ou amanhã.
Só uma coisa me admirava: Ricardo, pela sua parte, não me tinha procurado nunca. O que, de resto, ao mesmo tempo se me afigurava bem explicavel; o mais natural até: êle percebera sem duvida os motivos do meu afastamento, e por isso se retraíra, sensatamente.
Estimava bastante que tivesse procedido assim. Caso contrario ter-se-hia dado entre nós uma scena muito desagradavel. Em face dele, eu não saberia reprimir os meus insultos.
O caso da Chama aborrecera-me deveras. Uma grande nausea me subira por tudo quanto tocava á arte no seu aspecto mercantil. Pois só o comercio condenara a versão nova da minha peça: com efeito, em vez de ser um acto meramente teatral, de acção intensa mas lisa, como o primitivo—o acto novo era profundo e inquietador; rasgava véus sobre o álem.
Num ultimo tédio comecei vagabundeando dias inteiros pelas ruas da cidade, á toa, por bairros afastados de preferencia...
Lembro-me de que seguia por avenidas, dobrava por travessas, anseoso, quasi a correr: como alguem, emfim, que debalde procurasse uma pessoa que muito desejasse encontrar—não sei porquê, fiz esta comparação ás vezes.
Em geral á noite, febril, cheio de cansaço, aturdido, recolhia cedo a casa, dormindo dum sono estagnado até de manhã ... para recomeçar o meu devaneio...
Facto curioso: nunca me lembrei durante este periodo de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento d'alma. Não porque me desagradasse hoje essa maneira de viver. Apenas tal recurso nunca me passou pela ideia...
Uma manhã vi de subito alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro...
Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se-me no sólo. Ricardo, êle-proprio, estava em minha frente...
* * * * * * * *
Não me podem lembrar—de banais que foram, por certo—as primeiras palavras que trocámos. Seguramente o poeta me disse o espanto que a minha desaparição lhe causara, que lhe causava o meu procedimento actual.
Fosse como fosse, falara-me num tom de grande tristeza, e em toda a sua figura havia a expressão dum sincero desgosto. É possivel que ao expôr-me tudo isso, os seus olhos estivessem humidos de lagrimas.
Pelo meu lado, desde que o tinha em face de mim, ainda não pudera reflectir; aturdia-me um denso véu de bruma—tal como na ultima tarde que passara com o meu amigo.
Escutei em silencio os seus queixumes, até que, de repente— desenvencilhado, desperto—me não soube conter, como receara, e lhe comecei gritando todo o meu odio: a minha revolta, o meu nojo...
A sua expressão dolorosa não se transformou com as minhas palavras—o artista pareceu mesmo não as estranhar, como se eu lhe desse a resposta mais natural ao que me contara. Apenas só agora, indubitavelmente, as lagrimas lhe desciam pelo rosto; mas não era diversa da primeira a dôr que as provocava.
E eu acabei:
—... Tinha-me atascado na lama... Por isso fugi ... por essa ignominia... Ouves? ouves!?...
Todo êle tremeu então. Velou-lhe o rosto uma sombra...
Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida, húmida—tão singular que nem parecia vir da sua garganta, começou:
—Ah! como te enganas... Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!... Doido que eu era no meu triunfo... Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam... Escuta-me! Escuta-me!... Oh! tu has de me escutar!...
Sem vontade propria, esvaído, em silencio, eu acompanhava-o como que arrastado por fios d'ouro e lume, emquanto êle se me justificava:
—Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante... Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que mo dizia sempre... Eu é que lhos mostrava sempre!...
«Sim! Sim! Triunfei encontrando-a!... Pois não te lembras já, Lucio, do martirio da minha vida? Esqueceste-o?... Eu não podia ser amigo de ninguem ... não podia experimentar afectos... Tudo em mim ecoava em ternura ... eu só adivinhava ternuras... E, em face de quem as pressentia, só me vinham desejos de caricias, desejos de posse—para satisfazer os meus enternecimentos, sintetizar as minhas amizades...»
Um relampago de luz ruiva me cegou a alma.
O artista prosseguiu:
—Ai, como eu sofri ... como eu sofri!... Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto—isto é: retribuir-to; e era-me impossível!... Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuisse... Ah! mas como possuir uma criatura do nosso sexo?...
«Devastação! Devastação! Eu via a tua amizade, nitidamente a via, e não a lograva sentir!... Era todo de oiro falso...
«Uma noite porêm finalmente, uma noite fantastica de branca, triunfei! Achei-A ... sim, criei-A! criei-A!... Ela é só minha—entendes?— é só minha!... Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fôra a minha propria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós-dois... Ah! e desde essa noite eu soube, em gloria soube, vibrar dentro de mim o teu afecto—retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas, estreitando-te ela, era eu proprio quem te estreitava... Satisfiz a minha ternura: Venci! E ao possui-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar—como os outros sentem na alma as suas afeições. Na hora em que a achei—tu ouves?—foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se tivesse materialisado. E só com o espirito te possuí, materialmente! Eis o meu triunfo... Triunfo inegualavel! Grandioso segredo!...
* * * * * * * *
«Oh! mas como eu hoje sofro ... como sofro outra vez despedaçadoramente...
«Julgaste-me tão mal... Enojaste-te ... gritaste á infamia, á baixeza... e o meu orgulho ascendia cada aurora mais alto!... Fugiste... E, em verdade fugiste de ciume... Tu não eras o meu unico amigo—eras o primeiro, o maior—mas tambem por um outro eu oscilava ternuras... Assim a mandei beijar esse outro... Warginsky, tens razão, Warginsky... Julgava-o tão meu amigo ... parecia-me tão expontaneo ... tão lial ... tão digno dum afecto... E enganou-me ... enganou-me...».
Atónito, eu ouvia o poeta como que hipnotisado—mudo de espanto, sem poder articular uma palavra...
A sua dôr era bem real, bem sincero o seu arrependimento; e observei que o tom da sua voz se modificara, aclarando-se ao referir-se ao conde russo—para logo de novo se velar, dizendo:
—Que valem os outros, emtanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Coisa alguma!... Não me acreditas?... Ah! mas é preciso que me acredites ... que me compreendas... Vem!... Ela é só minha! Pelo teu afecto eu trocaria tudo—mesmo o meu segredo. Vem!...
Depois, foi uma vertigem...
Agarrou-me violentamente por um braço ... obrigou-me a correr com êle...
* * * * * * * *
Chegámos por fim diante da sua casa. Entrámos ... galgámos a escada dum salto...
Ao atravessarmos o vestibulo do primeiro andar, houve um pormenor insignificante, o qual, não sei porquê, nunca olvidei: em cima dum movel onde os criados, habitualmente, punham a correspondencia, estava uma carta... Era um grande sobrescrito timbrado com um brazão a ouro...
É estranho que num minuto culminante como este, eu podesse reparar em tais ninharias. Mas o certo foi que o brazão dourado me bailou alucinador em frente dos olhos. Entretanto não pude ver o seu desenho—vi só que era um brazão dourado e, ao mesmo tempo— coisa mais estranha—pareceu-me que eu proprio já recebera um sobrescrito igual àquele.
O meu amigo—ainda que preso duma grande excitação—abriu a carta, leu-a rapidamente, e logo a amarfanhou arremessando-a para o sobrado...
Depois, torceu-me o braço com maior violencia.
Em redór de mim tudo oscilou... Sentia-me disperso d'alma e corpo entre o rodopio que me silvava ... tinha receio de haver caído nas mãos dum louco...
E numa voz ainda mais velada, mais singular, mais falsa—isto é: melhor do que nunca parecendo vir doutra garganta—Ricardo gritava-me num delirio:
—Vamos ver! Vamos ver!... Chegou a hora de dissipar os fantasmas... Ela é só tua! é só tua... has de me acreditar!... Repito-te: Foi como se a minha alma, sendo sexualisada, se materialisasse para te possuir... Ela é só minha! É só minha! Só para ti a procurei... Mas não consinto que nos separe... Verás... Verás!...
E no meio destas frases incoerentes, impossiveis, arrastava-me correndo numa furia para os aposentos da sua esposa, que ficavam no segundo andar.
(Pormenor curioso: nessse momento eu não tinha a sensação de que eram impossiveis as palavras que êle me dizia; apenas as julgava cheias da maior angustia...)
Tinhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente...
Em pé, ao fundo da casa, diante duma janela, Marta folheava um livro...
A desventurada mal teve tempo para se voltar... Ricardo puxou dum revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu podesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho á queima-roupa...
Marta tombou inanimada no solo... Eu não arredara pé do limiar...