A Confissão de Lúcio

Mário de Sá-Carneiro · Capítulo 4 de 8

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A Confissão de Lúcio

Capítulo IV

Ah! como me senti humilhado, sujo, nesse instante—que dificil me foi suster a minha raiva e não o esbofetear, estender-lhe afavelmente a mão, na noite seguinte, ao encontra-lo em casa do poeta...

Estas diligencias torpes, porêm, foram vantajosas para mim. Com efeito se, durante elas, não averiguara coisa alguma—concluira pelo menos isto: que ninguem se admirava do que eu me admirava; que ninguem notara o que eu tinha notado. Pois todos me ouviram como se nada de propriamente estranho, de misterioso, houvesse no assunto sobre o qual as minhas perguntas recaíam—apenas como se fosse indelicado, como se fosse estranho da minha parte tocar nesse assunto. Isto é: ninguem me compreendera... E assim me cheguei a convencer de que eu proprio não teria razão...

De novo, por algum tempo, as ideias se me desanuviaram; de novo, serenamente, me pude sentar junto de Marta.

 

Mas ai, foi bem curto este periodo tranquilo.

De todos os conhecidos do artista, só um eu não ousara abordar, tamanha antipatia êle me inspirava—Sergio Warginsky.

Ora uma noite, por acaso, encontrámo-nos no Tavares. Não houve pretexto para que não jantassemos á mesma mesa...

... E de subito, no meio da conversa, muito naturalmente, o russo exclamou, aludindo a Ricardo e á sua companheira:

—Encantadores aqueles nossos amigos, não é verdade? E que amaveis... Já conhecia o poeta em Paris. Mas, a bem dizer, as nossas relações datam de ha dois ânos, quando fomos companheiros de jornada... Eu tomara em Biarritz o sud-express para Lisboa. Eles faziam viagem no mesmo trem, e desde então...

 

* * * * * * * *

 

IV

Atordoaram-me, positivamente me atordoaram, as palavras do russo.

Pois seria possivel? Ricardo trouxera-a de Paris?... Mas como não a conhecera eu, sendo assim? Acaso não o teria acompanhado á gare do Quai d'Orsay? Fôra verdade, fôra, não o acompanhara—lembrei-me de subito. Estava doente, com um fortissimo ataque de gripe... E êle... Não; era impossivel ... não podia ser...

Mas logo, procurando melhor nas minhas reminiscencias, me ocorreram pela primeira vez, nitidamente me ocorreram, certos detalhes obscuros que se prendiam com o regresso do artista a Portugal.

Ele amava tanto Paris ... e decidira regressar a Portugal... Declarara-mo, e eu não me tinha admirado—não me tinha admirado como se houvesse uma razão que justificasse, que exigisse esse regresso.

Ai, como me arrependia hoje de, com efeito, o não ter acompanhado á estação, embora o meu incomodo, e talvez ainda outro motivo, que eu depois esquecera. Entretanto recordava-me de que apesar da minha febre, das minhas violentas dôres de garganta, estivera prestes a erguer-me e a ir despedir-me do meu amigo... Porêm, em face dum torpor fisico que me invadira todo, deixara-me ficar estendido no leito, imerso numa profunda modorra, numa estranha modorra de penumbra...

 

* * * * * * * *

Aquela mulher, ah! aquela mulher...

Quem seria... quem seria?... Como sucedera tudo aquilo?...

E só então me lembrei distintamente da carta do poeta pela qual se me afigurava ter sabido do seu enlace: a verdade era que, de forma alguma, êle me participava um casamento nessa carta; nem sequer de longe aludia a esse acto—falava-me apenas das «transformações da sua vida», do seu lar, e tinha frases como esta que me bailava em letras de fôgo diante dos olhos: «agora, que vive alguem a meu lado; que emfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa...»

E, facto extraordinario, notava eu hoje: êle referia-se a tudo isso como se se tratasse de episodios que eu já conhecesse, sendo por conseguinte inutil narrá-los, só comentando-os...

Mas havia outra circunstancia, ainda mais bizarra: é que, pela minha parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido tudo isso, que porêm olvidara por completo, e que a sua carta agora, vagamente, me vinha recordar...

Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe fizera perguntas—não pensara sequer em lhas fazer, não pensara em coisa alguma.

 

Mais do que nunca o misterio subsistia pois; entretanto divergido para outra direcção. Isto é: a ideia fixa que êle me enclavinhava no espirito, alterara-se essencialmente:

Outróra o misterio apenas me obcecava como misterio: evidenciando-se, tambem a minha alma se desensombraria. Era êle só a minha angustia E hoje—meu Deus!—a tortura volvera-se-me em quebranto; o segredo que velava a minha desconhecida, só me atraía hoje, só me embriagava de champanhe—era a beleza unica da minha existencia.

Daí por diante seria eu proprio a esforçar-me por que ele permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando desabasse, a minha dôr seria infinita. Mais: se êle sossobrasse, apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!

O meu espirito adaptara-se ao misterio—e esse misterio ia ser a armadura, a chama e o rastro d'ouro da minha vida...

Isto, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas o aprendê-lo—e, ao descobri-lo, recuei horrorisado. Tive medo; um grande medo... O misterio era essa mulher. Eu só amava o misterio...

... Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!...

 

* * * * * * * *

Meu Deus, como sangrei...

O espirito fendera-se-me numa oscilação temivel; um arrepio contínuo me varava a carne zig-zagueantemente. Não dormia, nem sequer sonhava. Tudo eram linhas quebradas em meu redór, manchas de luz pôdre, ruidos dissonantes...

Foi então que num impeto de vontade, bem decidido, comecei a procurar com toda a lucidez a força de salvar o precipicio que estava já bem perto, na minha carreira... Logo a encontrei. O que me impelia para essa mulher fazendo-ma ansear esbraseadamente, não era a sua alma, não era a sua beleza—era só isto: o seu misterio. Derrubado o segredo, esvair-se-hia o encantamento: eu poderia caminhar bem seguro.

Assim determinei abrir-me inteiramente com Ricardo, dizer-lhe as minhas angustias, e suplicar-lhe que me contasse tudo, tudo, que posesse termo ao misterio, que preenchesse os espaços vasios da minha memoria.

Mas foi-me impossivel levar a cabo tal resolução. Desfaleci adivinhando que sofreria muito mais, muito mais fanadamente, extinto o sortilegio, de que emquanto êle me diluísse.

Quis ter porêm outra coragem: a de fugir.

Desapareci durante uma semana fechado em minha casa, sem fazer coisa alguma, passeando todo o dia á roda do meu quarto. Os bilhetes do meu amigo principiaram chovendo, e como nunca lhe respondesse, uma tarde êle proprio me veiu procurar. Disseram-lhe que eu não estava, mas Ricardo sem ouvir, precipitou-se no meu quarto a gritar-me:

—Homem! que diabo significa isto? Pósas ao neurasténico á ultima hora? Vamos, faze-me o favor de te vestir, e de me acompanhares imediatamente a minha casa.

Não soube articular uma razão, uma escusa. Apenas sorri volvendo:

—Não faças caso. São as minhas exquisitices...

E, no mesmo instante, eu decidi não fugir mais do precipicio; entregar-me á corrente—deixar-me ir até onde ela me levasse. Com esta resolução voltou-me toda a lucidez.

Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha «madureza», e o primeiro a blaguea-la fui eu proprio.

Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crépe da China, amplamente decotada. A saia muito cingida deixava pressentir a linha escultural das pernas que uns sapatos muito abertos mostravam quasi nuas, revestidas por meias de fios metalicos, entrecruzados em largos losangos por onde a carne surgia...

E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar...

 

O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei. Emtanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu espirito, nenhuma hesitação, nenhum remorso... E contudo sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos—mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que êles me existiam bem lucidos. Era como se houvesse guardado o meu espirito numa gaveta...

 

* * * * * * * *

Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente, pela primeira vez encontraram as minhas...

Ah! como as horas que passavamos solitarios eram hoje magentas... As nossas palavras tinham-se volvido—pelo menos julgo que se tinham volvido—frases sem nexo, sob as quais ocultavamos aquilo que sentiamos e não queriamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim, unicamente, num desejo perverso de sensualidade.

Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios—a acera-las, para que enfolassem agrestemente o tecido ruivo do kimono de seda.

E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.

Assim, ora nos beijavamos os dentes, ora ela me estendia os pés descalços para que lhos roesse—me soltava os cabelos; me dava a trincar o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens rôxas...

E só depois de tantos requintes de brasa, de tantos extases perdidos—sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões —nos possuimos realmente.

Foi uma tarde triste, chuvosa e negra de fevereiro. Eram quatro horas. Eu sonhava dela quando, de subito, a encantadora surgiu na minha frente...

Tive um grito de surpresa. Marta porêm logo me fez calar com um beijo mordido...

Era a primeira vez que vinha a minha casa, e eu admirava-me, receoso da sua audacia. Mas não lho podia dizer: ela mordia-me sempre...

 

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Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ansia ruiva...

... E em verdade não fui eu que a possuí—ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu...

 

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Á noite, como de costume, jantei em casa de Ricardo.

Muito curiosa a disposição do meu espirito: nem o minimo remorso, o minimo constrangimento—nuvem alguma. Pelo contrario, ha muito que me não via tão bem disposto. O proprio meu amigo o observou.

Falámos os dois largamente essa noite, coisa que ha bastante não acontecia. Ricardo terminara emfim nessa tarde o seu volume. Por isso nos não deixou...

... E no meio da sua conversa intima, eu esquecera até o episodio dourado. Olhando em redór de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós...