A Confissão de Lúcio
Capítulo V
Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera esta estranha coisa:
—Sabe você, Lucio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi á tarde. Deviam ser quatro horas... Escrevera o meu ultimo verso. Saí do escritorio. Dirigi-me para o meu quarto... Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi reflectido nêle! Era verdade! Via tudo em redór de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho. Só não via a minha imagem... Ah! não calcula o meu espanto ... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber? Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.
Porêm, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me não dissera nada disto. Apenas eu—numa reminiscencia muito complicada e muito estranha—me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.
V
A nossa ligação, sem uma sombra, foi prosseguindo.
Ah! como eu, ascendido, me orgulhava do meu amor... Vivia em sortilegio, no contínuo deslumbramento duma apoteose branca de carne...
Que delirios estrebuchavam os nossos corpos doidos ... como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e liturgica...
Caminhava sempre aturdido do seu encanto—do meu triunfo. Eu tinha-a! Eu tinha-a!... E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ansia que ás vezes—como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas—eu não podia crer na minha gloria, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.
A minha convivencia com Ricardo seguia sempre a mesma, e o meu afecto. Nem me arrependia, nem me condenava. De resto, antevendo-me em todas as situações, já anteriormente me suposera nas minhas circunstancias actuais, adquirindo a certeza de que seria assim.
Com efeito, segundo o meu sentir, eu não prejudicava o meu amigo em coisa alguma, não lhe fazia doer—êle não descera coisa alguma na minha estima.
Nunca tive a noção convencional de certas ofensas, de certos escrupulos. De nenhum modo procedia pois contra êle; transpondo-me, não me sabia indignar com o que lhe tinha feito.
Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossivel ter remorsos.
Se lhe mentia—estimava-o entretanto com o mesmo afecto. Mentir não é menos querer.
Porêm—coisa estranha—este amor pleno, este amor sem remorsos; eu vibrava-o insatisfeito, dolorosamente. Fazia-me sofrer muito, muito. Mas porquê, meu Deus? Cruel enigma...
Amava-a, e ela queria-me tambem decerto ... dava-se-me toda em luz... Que me faltava?...
Não tinha subitos caprichos, recusas subitas, como as outras amantes. Nem me fugia, nem me torturava... Que me doía então?
Misterio...
O certo é que ao possui-la eu era todo medo—medo inquieto e agonia: agonia de ascensão, medo raiado de asul; emtanto morte e pavor.
Longe dela, recordando os nossos espasmos, vinham-me de subito incompreensiveis nauseas. Longe dela?... Mesmo até no momento dourado da posse essas repugnancias me nasciam a alastrarem-me, não a resumirem-me, a enclavinharem-me os extases arfados; e— cumulo da singularidade—essas repugnancias eu não sabia, mas adivinhava, serem apenas repugnancias fisicas.
Sim, ao esvaí-la, ao lembrar-me de a ter esvaído, subia-me sempre um alem-gosto a doença, a monstruosidade, como se possuira uma criança, um ser doutra especie ou um cadaver...
Ah! e o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso ... o seu corpo bebedo de carne—aromatico e lustral, evidente ... salutar...
As lutas em que eu hoje tinha de me debater para que ela não suspeitasse as minhas repugnancias, repugnancias que—já disse e acentuo—apenas vinham contorcer os meus desejos, aumentá-los...
Elançava-me agora sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, tilintante de fogo e gumes de punhais—ou como quem bebesse um veneno subtil de maldição eterna, por uma taça d'ouro, heraldica, ancestral...
Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular—e o meu cerebro, por vezes de misticismos incoerentes, logo pensou, num rodopio, se essa mulher fantastica não seria antes um demonio: o demonio da minha expiação, noutra vida a que eu já houvesse baixado.
E as tardes iam passando...
Por mais que diligenciasse referir toda a minha tortura á nossa mentira, ao nosso crime—não me lograva enganar. Coisa alguma eu lastimava; não podia ter remorsos... Tudo aquilo era quimera!
Volvido tempo, porêm, á força de as querer descer, de tanto meditar nestas estranhezas, como que emfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.
Mas este novo periodo de calma bem pouco durou. Em face do misterio não se pode ser calmo—e eu depressa me lembrei de que ainda não sabia coisa alguma dessa mulher que todas as tardes emmaranhava.
Nas suas conversas mais intimas, nos seus amplexos mais doidos, ela era sempre a mesma esfinge. Nem uma vez se abrira comigo numa confidencia—e continuava a ser a que não tinha uma recordação.
Depois, olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo—tambem duvidava do seu presente. Que faria Marta durante as horas que não viviamos juntos? Era extraordinario! Nunca me falara delas; nem para me contar o mais pequenino episodio— qualquer desses episodios futeis que todas as mulheres, que todos nós nos apressamos a narrar, narramos maquinalmente, ainda os mais reservados... Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.
Passou-me esta ideia pelo espirito, e logo encontrei outro facto muito estranho:
Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava que, materialmente, me podesse provar a sua existencia: nem uma carta, um veu, uma flôr sêca—nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que sempre bailava subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. Por isso, como outróra, descia-me a mesma ansia de a ver, de a ter junto de mim para estar bem certo de que, pelo menos, ela existia.
Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, ás vezes, querendo-as recordar por força, as unicas que conseguia suscitar em imagem, eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.
Ah! bem forte, sem duvida, o meu espirito, para resistir ao turbilhão que o silvava...
(Entre parenteses observe-se, porêm, que estas obsessões reais que descrevo nunca foram continuas no meu espirito. Durante semanas desapareciam por completo e, mesmo nos periodos em que me varavam, tinham fluxos e refluxos).
Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham fustigar. Coloca-se até aqui um episodio curioso que, embora sem grande importancia, é conveniente referir:
Apesar de grandes amigos e de intimos amigos, eu e Ricardo não nos tratavamos por tu, devido com certeza á nossa intimidade ter principiado relativamente tarde—não sermos companheiros de infancia. De resto, nunca sequer atentaramos no facto.
Ora, por esta epoca, eu encontrei-me por vezes de subito a tratar o meu amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, corando como se viesse de praticar uma imprudencia. E isto repetia-se tão amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior naturalidade:
—Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubiante, vermelho como uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridiculo entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o «você». Viva o «tu»! É muito mais natural...
E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um certo embaraço ao empregar o novo tratamento—tratamento que me fôra permitido.
Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:
—Este Lucio sempre tem cada exquisitice... Não vês? Parece uma noiva liria!... uma pombinha sem fél... Que marócas!...
Entretanto este meu embaraço tinha um motivo—complicado motivo esse, por sinal:
Nas nossas entrevistas intimas, nos nossos amplexos, eu e Marta tratavamo-nos por tu.
Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.
Este receio converteu-se por ultimo numa ideia fixa, e por isso mesmo, por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter subitos descuidos. Porêm, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não Marta, Ricardo.
E embora depois tivessemos assentado usar esse tratamento, o meu embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente, confiadamente, Ricardo houvesse exigido que eu e a sua companheira nos tratassemos por tu.
As minhas entrevistas amorosas com Marta, realisavam-se sempre em minha casa, á tarde.
Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os labios a morder e consentia vicios prateados.
Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se encontrar comigo todas as tardes á mesma hora, em se demorar largo tempo.
Uma vez recomendei-lhe prudencia. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como não eram estranhadas as suas longas ausencias, como me chegava sempre tranquila, caminhando pelas ruas desensombradamente, nunca se preocupando com as horas... E ela então soltou uma gargalhada, mordeu-me a bôca ... fugiu...
Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.
Entretanto fôra mais um segredo que se viera juntar á minha obsessão, a excitá-la...
De resto, as imprudencias de Marta não conheciam limites.
Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir—ou mesmo o proprio Ricardo, que muitas vezes, de subito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não podesse acontecer—tal como se nós nos não beijássemos...
Aliás, se havia alguem bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem disposto.
Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo—como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.
As suas antigas complicações d'alma, essas, mal eu chegara a Lisboa logo ele me dissera que já não o desolavam—pois que, nesse sentido, a sua vida se limpara.
E—facto curioso—justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição—o seu orgulho, o seu jubilo, o seu triunfo...
As imprudencias de Marta aumentavam agora dia a dia.
Numa audacia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim dirigidos, na presença do proprio Ricardo!
Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava—nunca os via; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.
Assim, uma tarde de verão, lanchavamos no terraço, quando Marta de subito—num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada—me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.
Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os labios mal os pousando na péle...
E Marta:
—Que beijo tão desengraçado! Parece impossivel que ainda não saiba dar um beijo... Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu...
Rindo, o meu amigo ergueu se, avançou para mim ... tomou-me o rosto ... beijou-me...