A Confissão de Lúcio
Capítulo VIII
E então foi o Misterio ... o fantastico Misterio da minha vida...
Ó assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta—não!—era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés —sim, aos meus pés!—caira o seu revólver ainda fumegante!...
Marta, essa desaparecera, evolara-se em silencio, como se extingue uma chama...
Aterrado, soltei um grande grito—um grito estridente, despedaçador —e, possesso de medo, de olhos fóra das orbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca ... por entre corredores e salões ... por escadarias...
Mas os criados acudiram...
* * * * * * * *
... Quando pude raciocinar, juntar duas ideias, em suma: quando despertei deste pesadelo alucinante, infernal, que fora só a realidade, a realidade inverosimil—achei-me preso num calabouço do Governo Civil, guardado á vista por uma sentinela...
VIII
Pouco mais me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão. Entretanto ainda algumas palavras juntarei.
Convem passar rapidamente sobre o processo. Ele nada apresentou que valha a pena referir. Pela minha parte, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverosimil, ninguem se justifica. Por isso me calei.
O apelo do meu advogado, brilhantissimo. Deve ter dito que, no fundo, a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a policia, segundo creio, procurou em vão.
No meu crime subentenderam-se causas passionais, seguramente. A minha atitude era romanesca de esfingica. Assim pairou sobre tudo um vago ar de misterio. Daí, a benevolencia do júri.
Emtanto devo acentuar que sobre o meu julgamento conservo reminiscencias muito indecisas. A minha vida ruira toda no instante em que o revólver de Ricardo tombara aos meus pés. Em face a tão fantastico segredo, eu abismara-me. Que me fazia pois o que volteava á superficie?... Hoje, a prisão surgia-me como um descanso, um termo...
Por isso, as longas horas fastidiosas passadas no tribunal, eu só as vi em bruma—como sobrepostas, a desenrolarem-se num scenario que não fosse precisamente aquêle em que tais horas se deveriam consumar...
Os meus «amigos», como sempre acontece, abstiveram-se: nem Luís de Monforte—que tanta vez me protestara a sua amizade—nem Narciso do Amaral, em cujo afecto eu tambem crêra. Nenhum dêles, numa palavra, me veiu visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Que a mim, de resto, coisa alguma me animaria.
Porêm, no meu advogado de defeza fui achar um verdadeiro amigo. Esqueceu-me o seu nome; apenas me recordo de que era ainda novo e de que a sua fisionomia apresentava uma semelhança notavel com a de Luís de Monforte.
Mais tarde, nas audiencias, havia de observar igualmente que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o medico que me tinha tratado, havia oito ânos, duma febre cerebral que me levara ás portas da morte.
Curioso que o nosso espirito, sabendo abstrair de tudo numa ocasião decisiva, não deixe emtanto de frizar pequenos detalhes como estes...
Passaram velozes os meus dez ânos de carcere, já o disse.
De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.
Tinhamos uma larga cêrca onde, a certas horas, podiamos passear, sempre sob a vigilancia dos guardas, que nos vigiavam misturados comnosco e que ás vezes até nos dirigiam a palavra.
A cêrca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga—melhor: sobre uma especie de largo onde se cruzavam varias ruas. Em frente—pormenor que se me gravou na memoria— havia um quartel amarelo (ou talvez outra prisão).
O prazer maior de certos detidos, era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.
Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistencia, por grandes gestos misteriosos, pois nada me podia interessar do que havia para lá dêle.
Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, duma grande altura—ennegrecido, lezardento, escalavrado—sobre raros indicios duma velha pintura amarela.
Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa, me contavam os maus tratos de que eram vítimas.
E o certo é que, ás vezes, se ouviam de subito, ao longe, uns gritos estranhos—ora roucos, ora estridentes. E um dia um prisioneiro mulato —decerto um mistificador—disse-me que o tinham vergastado sem dó nem piedade com umas vergastas horriveis—frias como agua gelada, acrescentara na sua lingua de trapos...
Aliás, eu com raros dos outros prisioneiros me misturava. Eram— via-se bem—criaturas pouco recomendaveis, sem ilustração nem cultura, vindas por certo dos bas-fonds do vicio e do crime.
Apenas me aprazia durante as horas de passeio na grande cêrca, falando com um rapaz louro, muito distinto, alto e elançado. Confessou-me que expiava igualmente um crime de assassinio. Matara a sua amante: uma cantora francesa, celebre, que trouxera para Lisboa.
Para êle como para mim, tambem a vida parara—êle vivera tambem o momento culminante a que aludi na minha advertencia. Falavamos por sinal muita vez desses instantes grandiosos, e êle então referia-se á possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida —fulvas de amor ou de angústia—e assim poder vê-las, ressentí-las. Contara-me que fôra essa a sua maior preocupação na vida—a arte da sua vida...
Escutando-o, o novelista acordava dentro de mim. Que belas paginas se escreveriam sobre tão perturbador assunto!
Emfim, mas não quero insistir mais sobre a minha vida no carcere, que nada tem de interessante para os outros, nem mesmo para mim.
Os ânos voaram. Devido á minha serenidade, á minha resignação, todos me tratavam com a maior simpatia e me olhavam carinhosamente. Os proprios directores, que muitas vezes nos chamavam aos seus gabinetes ou eles proprios nos visitavam, a conversar comnosco, a fazerem-nos perguntas—tinham por mim as maiores atenções.
... Até que um dia chegou o termo da minha pêna e as portas do carcere se me abriram...
Morto, sem olhar um instante em redór de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé.
Acho-me tranquilo—sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado dum outro. Permaneci, mas já não me sou. E até á morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face... A morte-real—apenas um sôno mais denso...
Antes, não quis porêm deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros, são muitas vezes os mais emmaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosimil—embora verdadeira.
Assim eu para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silencio, durante dez ânos, um crime que não cometi...
A vida...
1-27 setembro 1913—Lisboa.
Mario de SÁ-CARNEIRO.
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