A Conquista
Deu-se conta que zombava dela: — Você…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Deu-se conta que zombava dela: — Você é um homem detestável. Alguma vez pode falar sério?
Estendeu-lhe o prato vazio: — Sou sério ao afirmar que necessito descansar. Nunca me senti mais cansado em minha vida… - levantou-se e bocejou novamente. — Esta noite nada poderia me tirar de minha cama, nem sequer uma convocação do rei.
Zared não queria ver-se obrigada a fazer uso da poção que a anciã lhe havia dado.
Teria preferido induzir seu marido a deitar-se com ela. — Não me disse se gosta do vestido que estou vestindo, o vestido de sua mãe.
Tearle bocejou novamente: — Eu sempre gostei. Usava-o quando estávamos na França…até o rei notou e lhe deu seus cumprimentos.
— É pesado. Toque a saia.
— Já vi muitos tecidos com fios de ouro e também de prata. Na corte até despi mulheres que usavam vestidos como este…— Se aproximou de Zared e prosseguiu indiferente: — Agora eu realmente devo ir para a cama.
A jovem não sabia o que fazer para obrigá-lo a olhá-la, entretanto sabia que a roupa lhe caia muito bem. O corpete deixava seus seios descobertos, mas ele parecia não ter percebido.
— Fica um pouco estreito no busto — disse — Sua mãe devia ser menos… abundante que eu.— Conteve o fôlego, esperando uma resposta a esta observação.
—Não acredito ter reparado em minha mãe desta maneira — replicou ele como se o tivesse ofendido.
— Não pretendia…
— Sim, sim, aceito as desculpas. E agora…está certa de que não tem mais nada para me dizer? Além do fato de que minha mãe era mais magra e portanto mais feia que você?
— Eu nunca disse…— Zared se interrompeu e lhe deu as costas. — Está bem, vá para cama. O que tinha para lhe dizer já não tem importância. Está cansado e deve descansar.
Esperou ouvir a porta se abrir e fechar, mas como isso não aconteceu, se virou para olhá-lo: — Vá, não quero segurá-lo mais.
Tearle se sentou novamente: — Esta zangada por alguma coisa. Talvez tenha chegado a mensagem do rei? É por isso que pôs o vestido de minha mãe e organizou este jantar? Quer festejar a boa notícia?
— Não recebi nenhuma notícia. Nem do rei e nem de meus irmãos. Hoje não falei com ninguém.
Sorriu com uma expressão de cumplicidade: — Ah, então é assim. Se desejar companhia, então fale. Tentarei permanecer acordado o suficiente para escutá-la.
Separou-se dele:
— Quando você chegou, eu tinha algo em mente que agora não me recordo — murmurou.
Tearle estava atrás dela, tão silencioso que ela se virou para olhá-lo. Estava novamente apoiando a cabeça no respaldo da cadeira e dormia. Foi possuída ao mesmo tempo pela cólera e o desejo de chorar. Porque outras mulheres eram capazes de provocá-lo, de fazer-se cortejar, e ela não conseguia?
Ela se aproximou e pôs uma mão em sua face. Era mais atraente que seus irmãos, mais atraente que Colbrand, mais atraente do que qualquer homem da terra.
O homem despertou com um sobressalto: — Estava sonhando — disse.
Sorriu:
— O que estava sonhando?
— Que estava na corte e que Lady Catherine entrava em meu quarto. Deve ter sido seu vestido…ela vestia uma malha azul com fios de ouro.
Zared ficou rígida e disse:
— Agora agradeceria se fosse embora.
Viu que se levantava e passava as mãos nos olhos:
— Sim, devo ir ao meu quarto e terminar esse sonho…
Mas antes de ir se aproximou da mesa e levantou uma taça de prata. Continha vinho sobre o qual flutuavam algumas ervas.
— Morro de sede— disse esvaziando a taça.
— Não tinha que beber esse vinho!— gritou Zared.
Olhou-a, surpreso:
— Negaria o que beber quando estou sedento? Bem, tinha outra opinião a respeito dos Peregrine, para não falar de minha esposa…parou: — Ou melhor, de uma dama que gritou na presença de meus homens que não é minha esposa. Por que me olha dessa forma tão estranha?
— Não estou olhando para nada— respondeu em voz baixa, mas na verdade o encarava.
— Agora devo ir — disse Tearle. Dissimulou um bocejo, inclinou-se sobre ela e a beijou na testa com a mais casta das maneiras: — O vestido fica muito bem em você. Ousaria dizer que fica melhor do que na minha mãe. Agora peço que me desculpe.— se virou se dirigindo à porta e Zared o seguiu com o olhar. Tinha bebido a poção e não acontecera nada! No dia seguinte iria a bruxa para que devolvesse seu dinheiro.
Não pretendia pagar por um feitiço que não era efetivo!
Enquanto isso, Tearle ao chegar na porta parou. Por um longo momento permaneceu imóvel e depois lentamente, muito lentamente, virou-se para olhá-la. Seus olhos muito abertos como se tivesse sido atacado por uma revelação. Olhou-a da cabeça aos pés longamente com uma expressão aprovadora e seu olhar parou em seus seios que ela instintivamente cobriu com as mãos, retrocedendo. Tearle deu um passo para sua esposa, seu olhar era ardente e cheio de desejo.
O coração de Zared começou a pulsar de forma tumultuada.
Era...era assim que desejava que a olhasse! Para isto pediu a poção. Mas começou a ter medo.
Seu marido sempre tinha sido cortês e doce com ela…a poção o teria transformado em um monstro? Teria transformado em uma pessoa diferente da que conhecia?
Retrocedeu ainda mais até que chegou à cama. Tearle se aproximava lentamente, como um animal que persegue a presa, consciente do fato de que ela não pode escapar.
— Acredito…acredito que…
Não pôde terminar a frase porque ele a alcançou e pôs uma mão em sua face, murmurando: — Nunca esteve tão bela. Nunca conheci uma mulher mais desejável que você. Eu a desejo como a nenhuma outra.
Zared o olhou e piscou. Tinha ouvido as palavras que queria escutar, as palavras pelas quais tinha adquirido a poção do amor.
Beijou-a nos lábios com doçura e ela sentiu que seus joelhos tremiam. Segurou-a pela cintura e a levantou, colocando-a no leito. Inclinou-se sobre ela e a beijou no rosto, no pescoço e no seio. Zared fechou os olhos e por um momento saboreou esse instante, reabriu-os e olhou seu cabelo…eram espessos, escuros…que não pôde deixar de tocá-los com a mão e afundar seus dedos neles.
O homem se apoiou sobre um cotovelo e começou a acariciá-la murmurando: — Não sei o que acontece… não posso me controlar…é como se uma força sobrenatural me empurrasse. Devo possuí-la ou morrerei.
Fez com que ela se deitasse e começou a desabotoar a parte posterior do corpete, fazendo a mão deslizar dentro dele. Zared fechou de novo os olhos, abandonando-se as sensações….era o que sempre desejara. Que pena que para induzi-lo a desejá-la tivera que recorrer a esse truque.
Com facilidade e mais rapidamente do que ela mesma poderia fazer, ele desabotoou lhe o vestido e o tirou. Agora estava vestida somente com as roupas íntimas e muito em breve estava só com as meias, presas nos joelhos por graciosas ligas com cintas.
Por um momento o homem não falou, sentou-se e a olhou intensamente a ponto de alarmá-la.
— Não gosta?
— Nunca vi uma mulher como você— disse docemente e pensava isso de verdade.
Realmente tinha visto muitas mulheres nuas que, com exceção das jovens camponesas, levavam uma vida fácil. Zared no entanto era dura. Sempre fez caminhadas e a ensinaram a segurar uma espada e a usá-la, o treinamento havia modelado seu corpo que era firme e musculoso.
A jovem era muito inexperiente no que se referia a homens para saber que Tearle a estava olhando com desejo. Tentou separar-se dele, mas ele a segurou e começou a beijá-la ardentemente.
Zared era dotada de uma natureza entusiasta e devolveu os beijos com paixão. Sem separar-se dela o homem começou a despir-se e seus lábios beijaram seus seios provocando nela uma rigidez e logo uma sensação de desejo. De novo afundou as mãos entre os cabelos dele e arqueou as costas de modo a permitir melhor acesso ao seu corpo.
— É a mulher mais deliciosa que já conheci. Se soubesse o que escondia debaixo da roupa teria agido mais cedo para tirá-la, - disse enquanto seus lábios desciam para o ventre dela.
Essas palavras fizeram com que Zared abrisse os olhos e pensasse que se não tivesse bebido a poção de amor, Tearle não a teria despido. Sua atitude era o resultado do feitiço da bruxa.
Rechaçou-o:
— Deixe-me! — Porém Tearle não se moveu. Continuou a beijá-la, acariciando seus quadris, mas Zared levantou uma perna, pôs o pé no ombro dele e o empurrou com força.
Surpreso, Tearle olhou como a mulher se retraía colocando-se ao extremo do leito e perguntou:
— Eu a ofendi?
— Você não me quer.
Tearle estava atordoado demais para compreender essas palavras. Não conseguia desviar os olhos do corpo dela. Era uma mulher, mas parecia um animal jovem e ágil.
Estendeu a mão para tocá-la, mas Zared se encolheu mais ainda: — Não sou eu a quem deseja. Está sob o efeito da poção preparada por uma bruxa.
— Sim…sei, — interrompeu-a e assim dizendo estendeu de novo a mão, mas Zared o rechaçou e se cobriu com as cobertas da cama. — Não me deseja. Nunca me desejou…mente…vá onde está sua Catherine.
Agora que o corpo de Zared estava parcialmente coberto com as cobertas, Tearle recuperara parte de seu próprio controle, pelo menos para entender o que ela estava dizendo:
— Não a desejo?— Demonstrarei até que ponto a desejo…
— Não! — gritou ela e desta vez se cobriu com uma almofada.
Tearle conhecia as mulheres o suficiente para saber que antes de obter o que queria, teria que falar bastante: — Quer que diga que a amo?— perguntou — Quer que componha um poema para elogiar sua beleza? — Faria qualquer coisa para atingir seu objetivo.— Quer que jure que darei minhas propriedades ao seu irmão?
Zared desceu da cama e foi se sentar perto da janela pensando que para pronunciar tais palavras, ele devia estar de verdade sob o efeito da poção e que esta devia ser muito potente:— Cometi um ato reprovável — disse rápida.
Tearle se sentou por sua vez: — Se existe outro homem em sua vida, eu o mato. Ninguém pode ter o que é meu.
— Quer me deixar falar? — gritou ela. — Não entende que o que diz não corresponde ao que pensa? É a poção da bruxa que o faz falar assim.
A atenção de Tearle estava centrada no corpo dela, era por isso que pouco entendia suas palavras.
—Você é uma bruxa—, disse descendo da cama para aproximar-se dela.
A jovem deu um salto dirigindo-se ao outro extremo do quarto. No chão perto das roupas de Tearle estava sua adaga. Pegou-a para se proteger: — Não se aproxime. — advertiu.
Tearle pensou que em certos momentos um homem poderia chorar e olhou sua cabeleira avermelhada que caía pelas costas. Aos seus olhos, essa atitude belicosa fazia com que ela fosse mais fascinante do que nunca. — Zared, — disse — dar-lhe-ei qualquer coisa. Diga o que quer. Joias? Terras? O que quer?
Olhou-o. Estava nu e assim era ainda mais atraente. Desejava que a beijasse, que a tocasse, mas não queria que tal coisa ocorresse sob o efeito de uma poção mágica. E de repente deixou a adaga cair… a atitude de Tearle se devia à poção, mas certamente não era um homem violento e não a estava obrigando a deitar-se com ele.
A visita a casa da bruxa não tinha sido uma boa ideia de sua parte, mas salvaria sua própria honra tentando desempenhar o papel que ela desempenharia durante o feitiço.
Passou diante dele e subiu na cama. Deitou-se e permaneceu imóvel com as mãos ao longo do corpo e as pernas fechadas e disse em tom convincente: — Faça de mim o que quiser.
Tearle nunca teria pensado que sua paixão pudesse ser sufocada, mas aconteceu.
Há homens que gostam de possuir as mulheres contra sua vontade, mas ele não pertencia a essa categoria. Permaneceu de pé ao lado da cama e a olhou duramente: — Você é uma mulher insuportável que me deixa irritado. Deseja-me a tal ponto de correr o risco de me envenenar com um filtro preparado por uma velha bruxa, e quando a procuro me ameaça com uma adaga. Como devo interpretar sua atitude? - Levantou os braços em sinal de impotência. — Alguém poderia me explicar com o que se parece as mulheres. Ou só minha esposa é uma mulher que não consigo entender?
Zared perguntou:
— Sabe da poção?
Tearle fez uma careta, inclinou-se procurando entre sua roupa e tirou uma caixa que atirou em cima da cama:
— Tome sua poção.
Zared tomou a caixa e disse:
— Esvaziei em um copo de vinho….não pode ser esta.
— Nunca teria tomado essa porcaria, pois isso contêm olhos de sapo secos ou algo pior.
Zared abriu a caixinha, olhou dentro e aspirou. O conteúdo tinha o mesmo aroma desagradável que recordava.
Olhou Tearle:
— Mas esta é a poção que comprei… o que bebeu?
—Uma infusão de hortelã, creio, e não o recomendaria a ninguém…não combina com o vinho, mas estou convencido que o seu sabor é melhor do que aquele que queria me dar.
Zared apertou a caixinha entre as mãos:
— Mas…se não bebeu a porção…o que provocou sua nova atitude em relação a mim?
Neste ponto Tearle não soube se ria ou se zangava com ela. Não fez nem um nem o outro. Limitou-se a sentar-se na cama e falou em tom doce: — Não sei como chegou à conclusão que não a amo. Eu te amei no primeiro dia que a vi…por qual outro motivo acredita que tenha me rebaixado a ser o servo de seu irmão? Acredita que me diverti enchendo-me de lodo até os joelhos para passar-lhe as lanças? Acredita que permaneci com ele porque me agradava sua companhia? Ou a sua? Durante o torneio você me dirigiu uma só palavra de cortesia?
Zared se sentou na cama, sem perceber o modo como Tearle a olhava: — Mas…acreditava que me achava antipática. Pensava que queria … que queria…
— Colocar as mãos na riqueza dos Peregrine? — inclinou-se sobre ela, seus narizes quase se tocando. — Sempre tive um só objetivo … pôr minhas mãos sobre a filha dos Peregrine.
Zared piscou: — Sério? Não acredita que eu me pareço com um rapaz?
Ele baixou o olhar sobre o corpo dela e então a olhou nos olhos: — Sou o único que descobri desde o começo que não era um rapaz.
Tearle teve que controlar-se para não gritar: — Não percebeu que a estive cortejando?
— Cortejando?
— Sim, cortejando. Depois de ter passado um pouco de tempo com seu irmão, percebo que de acordo com os Peregrine, cortejar uma mulher significa pô-la em seus joelhos e bater nela….mas em outras famílias se faz a corte a uma mulher de maneira muito diferente. Por exemplo, acompanhando-a a uma feira.
— Mas…e a anulação de nosso matrimônio? A mensagem ao rei?
Ele sorriu : — Qual mensagem? Que anulação?
— Que…— Devolveu o sorriso: — Então não enviou nenhuma mensagem ao rei? Disse-lhe coisas terríveis.
— Compreendi que não as pensava, ou que as pensava somente nesse momento. Sabia que se conseguisse mantê-la longe de seu irmão, perceberia que eu não era o monstro do qual lhe falaram.— Tomou-lhe a mão e a beijou.
Tearle, que no passado fazia amor geralmente em segredo, estava fascinado pela liberdade que Zared demonstrava em seus atos: estava feliz de poder possuí-la cada vez que quisesse.
Estava fascinado pelo modo de Zared se comportar. Ninguém a ensinara que as “damas” deviam ou não deviam fazer e adorava cada tipo de experiência. Além disso era atleta, inclusive o fazia sentir-se velho. Subia em árvores com a agilidade de uma lagartixa, ele a seguia e faziam amor entre os ramos.
Não manifestava nenhum tipo dos temores típicos das mulheres. Não temia a altura ou as armas. Uma noite, enquanto deitavam um ao lado do outro saciados, perguntou o motivo de sua exuberância.
— Não vê que sou livre? — respondeu. — Nunca tinha sido tão livre. Você teve uma vida fácil, não pode compreender o que significa estar prisioneira. Você é tão maleável.
— Possivelmente eu seja agora, mas não sou sempre — replicou ele levemente ofendido.
— Não, tolo, não quis dizer o que pensa. Quero dizer que é doce interiormente. É cortês e gentil, não é levado pelo ódio.
— Faz-me sentir como…como se não fosse um homem. Entretanto, olhe meu corpo que está coberto de cicatrizes. Sei lutar, sabe?
— Sabe lutar em batalhas de torneios…mas saberia matar? Saberia olhar um homem nos olhos e matá-lo?
Tomou sua mão e a olhou: — Mataria qualquer um que ousasse tocá-la.
— Sim, provavelmente o faria. — Suspirou porque ele não a compreendia. Tearle não entendia de ódio. Não tinha ideia do que significava ser alimentado pelo ódio, viver entre pessoas cujas almas estavam impregnadas desse sentimento.
— E você poderia olhar nos olhos de um homem e matá-lo? — perguntou.
— Se fosse um Howard —disse sem refletir e então o olhou horrorizada.
— Sou um Howard — replicou ele em voz baixa. — Poderia me olhar nos olhos e me matar?
Não sabia o que responder. Sabia que nunca seria capaz de matá-lo. Ou poderia fazê-lo? Como se comportaria se ele ameaçasse um de seus irmãos?
Estremeceu e o olhou: — Olhei em seus olhos e o matei muitas vezes…não tem resistência. É um homem débil que grita “basta” depois de umas poucas horas de amor. Nós os Peregrine, no entanto….— Não pôde dizer mais nada porque Tearle recomeçou a beijá-la.
Por volta do final da terceira semana, a felicidade de Zared literalmente caiu sobre ela. Já estava quase amanhecendo e desde que vivia com Tearle havia sido negligente e quando a porta se abriu, ambos estavam na cama.
Um dos homens de Tearle se precipitou no quarto, vermelho de excitação, com os olhos fora de órbitas disse: — Estão chegando.
Zared esfregou os olhos. Tinha permanecido segura por tanto tempo que o perigo lhe parecia agora como uma experiência longínqua.
Viu que seu marido assentia.
— Quantos são? — perguntou Tearle.
— Centenas. Estão armados para a guerra.
Tearle assentiu de novo. — Prepare os homens, mas que seja de uma maneira que não ataquem primeiro. Esses homens agora são meus parentes. Não quero um derramamento de sangue.
Ante essas palavras Zared despertou completamente e cobrindo-se com a coberta perguntou: — O que está acontecendo?
Tearle despediu o homem e olhou sua esposa: — Seu irmão está vindo para cá com seus homens. Acredito que pretende me matar e levá-la de volta para a sua casa.
Zared não replicou, mas se sentiu desfalecer. Preparou-se para descer da cama, mas Tearle a deteve: — Pare, o que pretende fazer?
— Irei ao encontro de meu irmão. Não permitirei que o mate. Você foi bom comigo.
Tearle a estreitou ainda mais. — Fui bom apesar de ser um Howard. — Sua voz estava cheia de sarcasmo e prosseguiu: — E agora deseja me abandonar.
— Pretendo evitar uma luta!— gritou ela.
— Você quer fazer tal coisa?
— Sim — Seus pensamentos se amontoavam em seu cérebro — Direi que fui eu que quis me casar com você— Direi que meu desejo foi mais forte que tudo. Deverá compreender. Embora….. Rogan é um homem de honra …..nunca me permitiria fazer o que fiz…antes de casar-me com um inimigo, ele teria preferido morrer. Nunca teria se apaixonado por um inimigo.
Enquanto falava, Tearle não havia deixado de olhá-la em silêncio.
— Pretende ficar aqui o dia todo?— balbuciou ela. Recusava-se a pensar que provavelmente o via pela última vez. Não tinha dúvidas; seu irmão nunca permitiria que permanecesse ao lado de um Howard. Rogan tentaria anular seu matrimônio, afirmando que ela se casou sem seu consentimento.
— Por que me olha desse modo tão estranho? — perguntou de repente.
— Continua a ver-me como um Howard e não como o homem que sou. Continua a me considerar um fraco e a considerar que seu irmão é muito mais forte do que eu. Não percebe que nem sempre a violência pode ser uma boa reação?
Moveu a cabeça: — Sinto curiosidade por saber se ainda falará assim quando a espada de meu irmão pender sobre a sua cabeça — Se aproximou da arca que estava ao lado da janela, extraiu a roupa que um dia tinha pedido emprestada ao cozinheiro e começou a se vestir.
— Não! — exclamou Tearle saltando da cama. — Já não é mais um moço, nenhuma Peregrine, a não ser uma mulher e uma Howard.
— Não! — gritou ela por sua vez, atirando a roupa ao chão. — Nunca, mas nunca serei uma Howard. Os Howard são meus inimigos.
Tearle tomou-a em seus braços: — Cale-se, meu amor. Acalme-se. Não é necessário que se assuste. Seu irmão não pode afastar você de mim.
Rechaçou-o:
— Ele o atacará. Não entende? Meu irmão odeia os Howard. Rogan morrerá no intento de matá-lo. Não o atacará se eu for com ele.
Sorriu:
— Nesse caso terá que segui-lo, mas não colocará essa roupa de moço. Esses dias passaram. Usará o vestido de ouro…terá que demonstrar ao seu irmão que agora é uma mulher.
— Mostrarei que o dinheiro dos Howard pode adquirir vestidos que valem mais que tudo o que possuem os Peregrine — Murmurou. Estava ofendida, profundamente ofendida pelo fato dele não se mostrar preocupado por não ficarem mais juntos. Se fosse o seu irmão, seu irmão…céus, seu irmão a teria castigado pelo que tinha feito.
— O que devo vestir?— perguntou Tearle.
— O que me importa? - Não estarei presente para vê-lo, pensou. Não aprenderei a ler, não terei filhos e não terei um marido que me faça rir.
— O que impressionaria seu irmão? Acredita que seria melhor que usasse um luxuoso traje árabe ou uma armadura? Se usasse uma túnica de prata e você usasse seu vestido de ouro faríamos um lindo casal, não acha? Mas temo que seu irmão queira lutar e talvez para isso a túnica de prata seja um pouco frágil.
Pôs as mãos nas têmporas:
— Meu irmão está vindo para cá com as armas e você fala de vestidos. Não percebe que não o verei mais? - Lutava contra as lágrimas: — Sabia que esta existência não podia durar….sabia que para mim não podia haver uma vida como esta…sabia que tudo terminaria.
Diante destas palavras Tearle a puxou pelos pulsos: — Olhe-me e escute o que tenho para lhe dizer. Pode pensar que seu irmão é o homem mais forte da terra, mas não é assim. Como você vê, parece esquecer que sou um Howard. Disponho de homens e meios que podem superar seu irmão em qualquer momento.
Os olhos de Zared se dilataram de horror e retrocedeu, mas Tearle a aproximou outra vez para si.
— Estou dizendo o que poderia fazer, não o que pretendo fazer. O que pretendo fazer é me entregar ao seu irmão.
— Não pode fazê-lo— murmurou. — Ele o matará.
— Sério? Disse que é um homem de honra. Acredita que mataria um homem que não só é seu primo por sangue, mas agora é seu irmão por nosso matrimônio? Mataria um homem que se rende?
— Não pode entregar-se a ele. Irei ao seu encontro. Quer que volte para casa….não conhece Rogan. Para ele a família é tudo.
Seu marido tomou o rosto entre as mãos e o aproximou do próprio: — E você é tudo para mim. Acredita que deixarei que parta? Acredita que permitirei que se vá, depois de ter lutado tanto para tê-la?
—Eu... eu não sei. Não sei o que pensar. Só sei que meu irmão o matará.
— Seu irmão encontrará algumas dificuldades para matar um Howard.— disse Tearle, e ante o olhar dela riu. — Esta é a mulher que conheço. Agora se vista ou seu irmão chegará e nos encontrará nus. Porei a túnica tecida de prata. Devido ao seu caráter, poderia pensar que um Howard com armadura desejaria lutar e hoje estou muito cansado depois da noite passada na cama com você para lutar com outro Peregrine.
— Não conseguirá vencer Rogan. O…
— Sim, sim, economize os detalhes relativos às glórias de Rogan. Se vista e prepare-se para receber o seu irmão com a graça digna de uma Howard.
Cada vez que recordava o fato de que era uma Howard seu coração pesava.
Percebeu quando ele abandonou o quarto e Margaret entrou para ajudá-la a se vestir.
Pouco depois Tearle veio para procurá-la, esplêndido em sua túnica…nunca parecera tão belo.
Vendo a expressão de seu olhar, sorriu: Pelo que parece está satisfeita comigo….— E pegando seu braço, perguntou:
— Vamos receber seu irmão?
Descendo as escadas ao seu lado, Zared percebeu que pela primeira vez pensou na casa, não em sua beleza, mas sim como algo que teria que defender. E defendê-la não era fácil…não havia fortificações contra os intrusos. Em parte estava construída de madeira e uma só flecha com fogo poderia incendiá-la. De repente o edifício já não lhe pareceu tão belo…mas sim inútil.
Parou no final da escala.
— Deixe-me agora e direi ao meu irmão que irei com ele com a condição de que não lhe faça mal.
Beijou-a na boca e disse em voz baixa:
— Não…embora esteja convencida que sou um covarde…não sou — Rodeou lhe a cintura com um braço e começaram a caminhar juntos. Tearle prosseguiu: — E embora esteja convencida que seu irmão seja um deus, não o é. É um homem como todos outros. Tente não parecer assustada. Seu irmão pensará que tenho o costume de espancá-la.
Sim, seria melhor que levantasse o queixo. Rogan a aterrorizava…não tinha que dar mais razões para a cólera.
Quando percebeu o que seu marido pretendia fazer, pensou que desmaiaria de medo. Pensava que Tearle e seus homens iriam se encontrar com o exército de seu irmão, mas avançou com ela só até a parte dianteira do castelo, até o jardim florido. Permaneceu assim, rodeando-a com um braço, sustentando-a enquanto o sol fazia brilhar a malha de suas roupas.
— Não pode comportar-se deste modo — disse frenética, ouvindo o ressonar dos cascos dos cavalos. — Rogan o pisoteará.
— Não acredito que seu irmão seja tão tolo. O rei faria justiça. Agora sorria. Honestamente esta contente em vê-lo?
Zared pensou que esse homem estava louco, absolutamente louco. Se tivesse força suficiente, o teria levado para um lugar seguro, mas só podia permanecer ao seu lado com o coração agitado, o corpo tremente, as mãos e os pés gelados pelo terror e …olhar seu irmão que se aproximava.
Rogan cavalgava a frente de uns cem homens e se perguntou de onde vinham.
Reconheceu alguns, mas os outros eram desconhecidos. Tratou de endireitar as costas, mas estas pareciam de gelatina.
O grupo chegou à parte dianteira do edifício e os cavalos pisaram nos atalhos de pedra e nas flores. Não obstante a gravidade do momento, Zared não pôde deixar de zangar-se, pensando que para Rogan as flores não tinham nenhuma importância.
— Bom dia, irmão — disse Tearle em tom alegre. — Quer entrar e compartilhar conosco nossa comida?
Rogan montado em seu cavalo parecia mais forte e sério do que nunca. — Só vim por minha irmã — respondeu no tom de voz que sempre induziu a jovem à obediência.
Zared começou a empurrar Tearle para longe de si, mas ele a estreitou com mais força.
— Estaremos preparados dentro de pouco tempo — disse Tearle. — A bagagem está quase preparada. Mas enquanto isso entre e descanse. Ordenei que cozinhassem dois bezerros e logo estarão assados. E seus cavalos também deveriam comer.
Zared olhou seu irmão e compreendeu que ele também pensava que Tearle estava completamente louco. O homem ignorou o cunhado e ordenou a sua irmã: — Monte o cavalo e vamos.
Zared tentou obedecer, mas Tearle a deteve, o que fez Rogan desembainhar a espada. — Quer forçá-la a permanecer aqui? Matá-lo-ei imediatamente.
Neste ponto Tearle soltou sua esposa, colocando-a as suas costas e ao mesmo tempo extraindo a adaga de sua cintura. Zared se colocou entre os dois.
— Ele não me prende — disse falando em voz alta. — Nenhum homem pode me prender. Sou livre. Oh Rogan, não o mate. Segui-o por minha própria vontade. Não lhe faça mal.
Olhou primeiro para um e depois para o outro homem e nesse momento compreendeu que insultara ambos. Sabia que Rogan a considerava uma mulher de honra e pensava que teria seguido um Howard somente porque foi obrigada a fazê-lo. Agora já não a estimava porque tinha traído o antigo nome dos Peregrine…e havia insultado seu marido, afirmando que uma mulher devia lutar em seu lugar.
Quem deu o primeiro passo para fazer as pazes foi precisamente Tearle: — Não quero lutar com você. Agora somos parentes e desejo pôr ponto final à guerra entre nossas famílias. Tem que entrar em minha casa comigo…logo discutiremos o futuro.
Rogan fez uma careta: — Quantos homens tem escondido no interior da casa, Howard? Tem intenção de nos embebedar com vinho para poder nos capturar mais facilmente?
— Pode beber água, se quiser— replicou Tearle.
Ante estas palavras, os homens as suas costas protestaram.
— Não o atacará — disse Zared — Acredita na paz — Pronunciou essas palavras com voz incerta….como se pode pensar na paz olhando trezentos homens armados?
Tearle pôs uma mão em seu ombro. — Acredito que deva nos deixar. Seu irmão e eu devemos conversar.
Zared empalideceu: — Não posso deixá-los sozinhos.
Tearle olhou Rogan, imóvel sobre seu cavalo.
— Rogan pode me odiar, mas não é um tolo. Sabe que se me matar e a levar consigo, agora que é legalmente minha esposa, Oliver destruiria o que fica de sua família. Não é assim, irmão?
— Não sou seu irmão — balbuciou Rogan, mas olhou para Zared. — Vá então. Não o matarei, não agora. Vá preparar-se para voltar para casa conosco.
A jovem assentiu e olhou mais uma vez seu irmão e entrou na casa.
— E agora o que estão fazendo? — perguntou Zared a Margaret.
— Os homens comem, seu irmão está sentado à mesa em silêncio e escuta Tearle falar.
— Sim, sim, sei que é um bom orador. Poderia falar por muito tempo. — Rogan entretanto, ao falar com ela, sempre tinha sido capaz de virar qualquer coisa ao seu favor. —Rogan não se deixa enganar facilmente— disse. — Não estará de acordo com o que Tearle diz.
— Sim, Lady Howard — disse Margaret em voz baixa e Zared fez uma careta.
Sentou-se perto da janela e olhou a bela campina inglesa: — Rogan não permitirá que eu fique aqui — murmurou — Deverei voltar para casa com ele, deverei deixar esta bela casa e meu belo marido. Deverei voltar para um lugar onde só se fala de ódio e de guerra.
Quando Tearle voltou para a casa, o sol estava se pondo. Zared se levantou e perguntou — Quando partirei?
— Amanhã ao amanhecer — respondeu — Os homens ainda estão comendo. Não me assombra que seu irmão deseje possuir o título e as terras. Dar de comer a essa gente deve custar muito caro.
— Brinca sobre tudo o que para os Peregrine é uma questão de vida ou morte?
Sorriu: — Brinco sobre tudo. Ainda não percebeu? Estou convencido de que quem ri vive mais tempo. Diga-me, viu seu irmão rir frequentemente?
— Liana consegue fazê-lo sorrir —replicou ela com impaciência, virou-se e desviou o olhar. — Assim nos resta uma última noite.
Tearle se sentou na cama e começou a tirar as botas.
— Quando estivermos na casa de seu irmão não ousará dormir comigo?
Zared demorou uns instantes para compreender o que estava dizendo e aproximando-se dele disse: — Não pode vir conosco .
Sorriu com a mesma expressão brincalhona de sempre: — Você pode suportar essa casa…mas acredita que eu não serei capaz de fazê-lo. Isso significa que talvez seja mais forte que eu.
Zared caiu de joelhos diante dele: — Não brinque com estas coisas. Meu irmão o matará. Se não o fizer diretamente, haverá uma rocha que cairá, uma faca que escorregará, uma tocha que….
— Também pensei e falei isso com seu irmão. Se não temesse pela vida daqueles que ama, teria me matado esta manhã ou pelo menos tentar me matar lhe proporcionaria um grande prazer. Nunca vi tanto ódio em um homem.
— Ele o matara na primeira ocasião, não pode pensar em ir com ele impunemente a lugar nenhum.
Colocou uma mão em seu queixo: — Não sou frágil, obtuso ou crédulo como parece acreditar, nem seu irmão é forte como pensa. Quando era menino estava convencido que meu irmão Oliver era o mais forte, o mais valente…
— Oliver é gordo, fraco e …— se interrompeu, sabendo onde seu marido queria chegar: — Não deve acreditar que eu veja meu irmão de forma diferente do que é. Rogan não é gordo nem fraco.
Inclinou-se sobre ela: — Nem eu o sou.
Zared permaneceu no chão. Por que todo homem acreditava ser invencível?
— A que acordo chegou com meu irmão? - Perguntou-lhe com os olhos dilatados pela angústia. — De que o convenceu?
— Finalmente admite que posso convencer seu irmão a propósito de alguma coisa…
— Diga-me — suplicou.
— Aceitou o plano que planejei. Seguirei-a até sua casa. Seu irmão nunca acreditará que eu quero sua irmã por um motivo que não seja a guerra. Disse que a quero por você mesma, mas nem sequer isso o fez sorrir.
Zared fez uma careta. Claro, uma frase como essa não podia fazer Rogan sorrir.
— Por que quer deixar a comodidade desta casa para viver naquela tão desconfortável de meu irmão?
Tearle permaneceu em silêncio um bom momento e ela levantou os olhos para olhá-lo, e a ternura da expressão de seu marido fez com que a jovem desviasse o olhar.
Sabia que tomara essa decisão para permanecer ao seu lado. Porém Rogan era obstinado e nunca acreditaria em nenhuma das palavras que a irmã usasse para explicar que estava com um Howard porque o queria; Rogan continuaria a pensar que ela fora obrigada, e faria o impossível para levá-la dali. Ela devia ir espontaneamente com seu irmão.
— Não deve vir comigo — sussurrou — Talvez possa voltar para você… depois.
— Seu irmão é pior do que você o descreveu … não escuta a razão. Sabe que lhe ofereci esta casa com a condição de que esta guerra entre nossas famílias termine? Ofereci a metade das propriedades dos Howard após a morte de meu irmão.
— Recusou. Tudo o que os Howard têm pertence aos Peregrine.
Sorriu: — Mais do que as propriedades, ele queria você de volta — disse e como Zared o olhasse surpreendida assentiu: — É verdade. Disse-me que perdeu muitas pessoas queridas e que não suportaria perder outras. Não a trocaria por nenhuma riqueza do mundo.
Zared olhou ao longe para esconder o sorriso. O fato de saber que seu irmão a amava lhe dava tanto prazer. Olhou de novo seu marido: — Percebe então que devo segui-lo.
— Entendo perfeitamente, mas também sei que não a deixarei partir. Quem esquentará minha cama à noite se você for embora?
— Encontrará outras mulheres — replicou ela evitando olhá-lo. — Os homens sempre o fazem.
— Não poderei encontrar mulheres capazes de me seguir em cima das árvores, capazes de manejar uma espada. Nenhuma mulher é como você.
Zared escondeu o rosto entre as mãos: — Não pode vir comigo.
— Posso e o farei. Seu irmão, embora tenha a cabeça dura não poderá impedir. Viverei e permanecerei com você e sua família até que se convença que me casei por uma razão diferente da guerra que existe entre nós. — Calou-se por um momento e então prosseguiu: — Se a ouvisse gritar de noite pensará que a torturo… e teria medo por minha vida.
— Não grito de noite.
Sorriu: — Venha para cá e me dê um beijo. Amanhã seguiremos seu irmão até sua casa. Não pode ser tão desconfortável como diz.
— É pior do que a descrevi. Não suportará viver lá.
Acariciou-a afetuosamente: — Sou mais resistente do que crê e pensa… e mais, pensando bem, acredito que sou feito de aço.
— Oh Tearle, seu tolo — disse lhe rodeando o pescoço com os braços e começando a beijá-lo.
Capítulo Treze
Liana, a mulher de Rogan, recostou-se nas almofadas da cama e fechou os olhos como se estivesse se defendendo contra o sofrimento físico. Dois dias antes tinha dado à luz a um robusto varão de cabelos negros e durante o parto quase morreu.
— Como estão as coisas? — sussurrou a Joice, a mulher que estava limpando o quarto.
—Não houve nenhuma mudança— respondeu Joice em tom solene e olhando sua patroa, acrescentou: — Não pode continuar deste modo.
Liana assentiu com um sinal de cabeça. Desde que Zared voltara para casa acompanhada de seu marido Howard, tinha transcorrido um mês. Depois disso, no castelo dos Peregrine a atmosfera era cada vez mais tensa e o aborrecimento mais profundo.
Liana não conseguia fazer entrar a razão em seu marido, o ódio de Rogan permanecia intacto como antes, como sempre.
— É o marido de sua irmã agora, — havia dito, mas o homem continuava a ver em Tearle só o que queria ver, vale dizer, um inimigo.
Nas últimas quatro semanas Rogan tinha feito o impossível para destruir esse Howard. Ele o treinara com as armas até que os ombros do homem se dobrassem pelo cansaço. Tinham-no submetido a enormes fadigas, obrigando-o a lutar com seis cavalheiros simultaneamente.
Mas Howard suportou tudo e nunca se queixou. Liana o vira olhar para Rogan com expressão decidida, como se quisesse dizer que sobreviveria a qualquer maldade por parte dele.
Liana que estava por dar à luz, movia-se com dificuldade e tinha tido que contentar-se em permanecer sentada costurando ou bordando e observando o que acontecia …. e viu mais do que queria ver.
Quando chegou a notícia que Zared se casara com um Howard, no primeiro momento temeu que seu marido sucumbisse a uma crise de apoplexia. Alguns anos antes, quando Oliver Howard a raptou, Rogan reagiu desse mesmo modo: disseram que temeram por sua saúde mental.
Não obstante os protestos de Liana, Rogan decidiu reunir um exército e ir à casa dos Howard para procurar sua irmã .
— Provavelmente se casou com ele porque o amava — dissera Liana. — Talvez o tenha escolhido como eu escolhi você.
Rogan não a escutava e ela tinha pensado que esse encontro com os Howard poderia significar a morte de toda a família.
Havia passado muitas horas na capela, orando pela segurança de seu marido, convencida que lhe restariam poucos dias de vida. O exército dos Peregrine, em outro tempo muito poderoso, agora não poderia vencer o dos Howard. Rogan mandou chamar Severn e o obrigou a levar sua jovem esposa ao castelo de Bevan. Severn se enfureceu quando o irmão contou o engodo forjado por Tearle.
Para preparar a expedição foram necessários alguns dias e no último momento Rogan insistiu que o irmão mais novo permanecesse no castelo, certo de que Oliver Howard os atacaria.
Liana não estava preparada para ver como Rogan tinha voltado para casa… viu quando chegava ao castelo, cavalgando ao lado de um belo homem que vestia roupas que não via há alguns anos. E a seu lado cavalgava Zared, mas uma Zared muito diferente da moça que há poucas semanas partira para assistir o torneio dos Marshall.
Havia observado o grupo que desmontava dos cavalos e por um segundo esperou que um matrimônio entre um Peregrine e um Howard houvesse realmente terminado com a guerra entre as duas famílias. Mas no rosto de seu marido não viu nem alegria e nem perdão, mas sim o ódio de sempre.
Zared, chamada por Liana, ao estar a sós com ela prostrou-se a seus pés, colocando a cabeça sobre o ventre inchado de sua cunhada. Esta pediu com doçura que contasse cada detalhe e Zared o fez. Havia contado do pacto feito com Tearle, sua promessa de casar-se com ele se conseguisse que Lady Anne se casasse com Severn.
— Não pensei que conseguiria! — exclamara.
Em suas palavras, não obstante a jovem deixar entrever ter sido enganada, Liana percebeu uma entonação que explicava muitas coisas.
— Fale-me de quando se encontrou a sós com ele — murmurou acariciando lhe os cabelos.
— Sua casa não tem defesas — replicou Zared…— Um punhado de homens poderia apropriar-se com facilidade…mas é muito bela…— e depois começou a descrever o castelo de Tearle, contando tudo o que tinha feito.
— E o Howard que a desposou… é um inimigo para você, como o é para Rogan?
Zared lutara para conter as lágrimas. — Não sei… não o compreendo. É tão doce, tão gentil. Acaricia-me, canta para mim, me dá presentes e lê para mim; há momentos que tenho a impressão que sem ele morreria, mas…
— Mas... o que?
— Mas não sei o que acontece em sua mente. Não sei se posso confiar nele. É diferente de todos os homens que conheci. Diz que não quer a guerra, mas e se não disser a verdade? O que aconteceria se, confiando nele, permito que me traia e traia a minha família? — Escondeu o rosto entre as mãos. — Como posso esquecer o rancor e o ódio só porque durante algumas semanas foi tão gentil comigo? Devo ser forte, não posso permitir que meu amor por ele me converta em cega e me faça esquecer que é um Howard.
Depois disso a jovem começou a chorar e Liana pensou que sua cunhada estava confusa, mas ao mesmo tempo profundamente apaixonada pelo homem que havia desposado. E Zared continuou com voz angustiada:
— Começava a confiar nele, mas não sei por que se casou comigo. Alguns momentos acredito no que me disse, em outros só tenho acreditado que me assusta. Diz que deseja pôr fim à guerra, mas temo ter conduzido um inimigo a nossa casa. Se ele conquista nossa confiança, uma noite poderia abrir os portões ao exército de seu irmão e nos matar a todos durante o sono.
— Mas o que ganharia com isso?
Zared olhou a sua cunhada como se fosse uma louca: — Poderia adotar o título de duque e as terras. Não existiria nenhum Peregrine para declarar que essas terras e esse título não pertencem aos Howard.
A resposta de Zared assustou Liana que pensou ter preferido não ouvir falar nunca desse horrível Howard. Começou a temer pela vida de seus seres queridos: seu filho, o menino recém-nascido, seu marido…tinha começado a perguntar a Rogan o que pretendia fazer com seu cunhado, ficando atenta para que não o perdesse de vista.
Um dia levou seu filho ao pátio para que visse os cachorrinhos recém-nascidos de uma cadela. Howard passou a seu lado sorrindo para o menino de cabelos loiros avermelhados que levantava um dos cachorrinhos. Então, encontrando o olhar severo de Liana suspirou e se afastou.
A jovem também se preocupava com Severn. Este se comportava como se tudo o que aconteceu fosse sua culpa e tentava se justificar, sem conseguir. Nunca abandonava a parte de treinamentos e sofria muito pela falta de sua jovem esposa que deixou na relativa segurança do castelo de Bevan.
Rogan estava mais inquieto a cada dia temendo um iminente ataque, já não dormia.
Porém a mais atormentada era Zared, Liana tinha a impressão que enfraquecia a olhos vistos.
No começo da segunda semana, observando a cunhada e vendo-a tão angustiada não pôde deixar de perguntar:
— Ama-o, não é verdade?
Zared reagiu como se aquelas palavras fossem privadas de algum significado:
— Que importância tem o amor? É nosso inimigo.
— Mas não é seu inimigo, certo?
— Eu faço parte da família…devo pensar em toda minha família.
Liana não sabia o que dizer, mas às vezes era necessário confiar no próprio julgamento e não no dos outros. Falava por experiência porque alguns anos atrás, ao decidir casar-se com Rogan, tinha seguido seu próprio instinto. Haviam-lhe dito que era um homem incapaz de sentir amor, mas ela tinha razão porque soube entender que Rogan era sensível, embora o dissimulasse por anos.
O nascimento de seu segundo filho a fez sofrer por três longos dias e logo se viu obrigada a ficar de cama, mas continuava a acompanhar os acontecimentos o mais atentamente que podia.
— Zared — disse Tearle— Olhe-me.
Estavam deitados em sua cama e a jovem tentava ficar o mais longe possível dele, para não tocá-lo e para não ser tocada. Entretanto desejava ambas as coisas.
— Estou cansada — desculpou-se.
— Isso se vê, sempre está cansada — disse em tom severo. Calou-se por um momento e então continuou: — Não posso continuar esta luta sozinho. Zared sabia ao que seu marido se referia, mas não sabia o que replicar. A vida no castelo se transformou em um inferno. Cada vez que seus irmãos estavam a sós com ela, mostravam os crânios de cavalos pendurados nas paredes. Anos antes, os Howard tinham assediado um castelo dos Peregrine e entre os ocupantes estava mãe de Zared; eles foram deixados para morrer de fome e antes de morrer tinham se alimentado de carne de cavalo: os crânios desses animais estavam cravados nas paredes como lembrança da crueldade dos Howard.
— Foi sua decisão vir para cá — disse finalmente.
— Não — replicou ele em voz baixa. — Não desejava vir a esta casa cheia de ódio. O que desejava e sempre desejei é que a mulher que amo correspondesse ao meu amor.
—Acreditava que queria pôr fim à guerra— disse Zared amargamente. Dias atrás assistiu as humilhações que seus irmãos infligiam ao seu marido. Eram coisas que teriam destruído qualquer homem, mas Tearle não dava sinais de ceder. — Que tipo de homem você é? — quase gritou. — Não sabe que todos zombam de você? Suporta tudo o que Rogan lhe faz sem sequer piscar. Todos apostam qual a próxima humilhação que deverá suportar. Aceitará esvaziar os baldes de imundície também?
Tearle a olhou e sua expressão era furiosa.
— Se me rebelasse, um de nós morreria. É isto o que quer? Uma luta? Gostaria de ver um de nós morrer? Isso a faria pensar finalmente que sou um verdadeiro homem como seu irmão? - Apoiou-se em um cotovelo: — Diga-me, Zared, é isto o que quer? É esta a prova que devo lhe oferecer? Não lhe parece ser suficiente que por causa de nosso matrimônio eu corra o risco de ser deserdado. O fato que a tenha cortejado não significa nada para você. O fato que eu, um Howard, tenha vindo à casa de seus irmãos, admitindo que este lugar de ódio seja uma casa, só e disposto a enfrentar seus parentes não significa nada para você. Nada do que eu faça parece ser suficiente para você, sempre quer mais. Segundo você, não teria condições de suportar o que seu irmão pretendia me fazer…suportei muito mais. Agora estou exausto e ferido. Estou cansado de ser odiado, estou cansado do modo como as pessoas daqui me olham — Desceu da cama e ficou olhando-a: — Entretanto, valeria a pena sofrer tanto se pudesse fazer mudar de ideia apenas uma pessoa: você. Se pudesse convencê-la a me conceder a confiança que mereço, valeria a pena.
Interrompeu-se e passou a mão sobre os olhos: — Não lutarei contra os seus irmãos, não quero que entre nossas famílias corra mais sangue e … pode dizer a sua cunhada que não costumo fazer mal aos meninos.
Vestiu-se depressa e saiu do quarto. Zared queria chamá-lo e dizer alguma coisa … mas o que?
Podia por acaso dizer que todos os dias alguém procurava uma maneira de lhe recordar que seu marido era um Howard? Que quando o via perto de Rogan e de Severn sentia o impulso de correr para ele, de protegê-lo, de achar um modo para que os homens não zombassem dele?
Pior era não poder intervir no que seus irmãos decidiram lhe impor. Ela sempre foi uma Peregrine e ele um inimigo de sua família.
Nessa noite Tearle não voltou e ela não conseguiu dormir.
Três dias mais tarde reparou que Tearle e o filho mais velho de Rogan de três anos, haviam desaparecido.
Capítulo Quatorze
A primeira a perceber o desaparecimento do menino foi Liana. Por mais que tentasse educá-lo com maneiras civilizadas, era um Peregrine. Em seu terceiro aniversário recebeu de presente do seu pai uma espada de madeira e de seu tio um capacete de couro. Rogan o colocou com ele na sela de montar desde que tinha dois anos; crescera entre cavalos e os homens que treinavam o uso das armas. Sempre seguia o pai e imitava tanto ele como o seu tio no modo como seguravam a lança.
Não conhecia o medo; Liana havia suplicado ao seu marido que o vigiasse, que não permitisse que corresse tão livremente no pátio onde os homens ébrios ou exaustos pelo treino pudessem pisoteá-lo.
Mas Rogan havia dito que ela era somente uma mulher temerosa e que todos os Peregrine tinham crescido desse modo e que pretendia fazer de seu filho um verdadeiro homem e não uma meia mulherzinha.
Portanto quando Joice foi procurar o menino e não o encontrou em seu quarto, não se preocupou porque tinha que despertar a sua patroa e se ocupar do recém-nascido.
Tampouco Liana se preocupou com a ausência do pequeno porque ela também estava convencida de que ele estava com seu pai. Ele estava furioso pela manhã porque Howard havia desaparecido.
— Onde ele está? — tinha perguntado para a irmã aos gritos.
Zared imóvel na sela não respondeu, havia feito essa pergunta pelo menos uma centena de vezes. Não sabia onde Tearle estava. Passou a noite com ela, levantou-se muito cedo, deixou o quarto e ela não o seguiu.
Não disse ao seu furioso irmão que haviam brigado pelo mesmo motivo de sempre: Tearle reprovara pela milésima vez a falta de confiança dela, confiança que ele merecia.
Tentou explicar que, ainda que não sentisse confiança, sentia-se dividida entre ele e seus irmãos. Em vez de acalmá-lo, essas palavras o encolerizaram ainda mais.
— Assim como seu irmão não aceita somente a metade do que pertence aos Howard, eu não aceitarei somente a metade do que me pertence — Tinha saído do quarto e depois disso não mais o viu.
Severn disse que Howard não suportava o estilo de vida dos Peregrine, mas Rogan rebateu que provavelmente ele teria ido até o seu irmão para falar de suas vulneráveis defesas.
— Basta, vocês dois! — gritou Zared. — Suportou todas suas humilhações, fez tudo o que pediam que fizessem sem nunca dar-se por vencido. E poderia suportar ainda mais…
— Então onde ele está neste momento?
Zared não sabia o que responder. Tearle já tivera o suficiente do ódio dos Peregrine e partira?
Abandonara-a sem lhe dizer uma palavra? Ele realmente teria ido até seu irmão? A guerra então era iminente? E sua família seria destruída por causa do que ela havia feito?
Começava a pensar que não poderia suportar mais esta angústia quando sua cunhada percebeu a ausência de seu filho.
— Howard raptou o meu filho…— murmurou a Rogan.
Zared não estava certa de ter entendido bem e por sua vez sussurrou: — Não! — e depois gritou com força: — Não! Nunca faria uma coisa assim.
Rogan a olhou enfurecido, exatamente como teria olhado para um Howard.
A jovem se sentou enquanto seus irmãos, seguidos por seus homens, foram em busca do menino.
Liana sugeriu a hipótese de que o pequeno tivesse seguido um dos camponeses a aldeia. Procuraram-no por muito tempo sem encontrá-lo e nem encontraram rastro de Howard…. parecia que ambos haviam sido tragados pela terra.
Ao entardecer Rogan estava preparado para atacar os Howard, mas Liana e Zared suplicaram que esperasse, era possível que o desaparecimento do menino não tivesse nada a ver com o de Tearle.
Inclusive dragaram o lago sem encontrar o pequeno e Liana gritou de alívio. Zared ao lado da janela olhava o horizonte com a esperança de ver aparecer o seu marido.
Talvez ele tenha decidido afastar-se por um dia do castelo dos Peregrine para descansar ao sol e repousar admirando as flores. Não podia dizer nada parecido aos seus irmãos que não concebiam que um homem pudesse amar as flores.
Ao pôr do sol, os homens armados de tochas penetraram nos bosques dos arredores para prosseguir com a busca. Encontraram um caçador que lhes disse ter visto um homem alto e moreno cavalgar. Na sela, atrás dele, havia um menino com os cabelos loiro-avermelhados.
Rogan e Severn o interrogaram longamente e chegaram à conclusão que esse homem e o menino deviam ser Tearle e o pequeno Peregrine.
Os homens voltaram ao castelo decididos a declarar a guerra aos Howard.
—Não acredito — disse Zared— Não pode ter raptado o menino…nunca o faria.
Rogan começou a gritar furioso com ela, dizendo que todas essas desgraças haviam acontecido por causa dela, por seu desejo por aquele homem e que agora a família Peregrine seria destruída.
— Se por acaso levar em seu seio um filho desse homem, matá-lo-ei logo que nasça! — gritou.
Zared não pode reagir ante a raiva de seu irmão e teve que admitir a sua lógica. O
caçador havia descrito o cavalheiro que encontrou: a cor da roupa correspondia a dele, assim como o brasão do punho de sua espada.
Zared queria confiar em seu marido, dizer que o cavalheiro se equivocara, mas não conseguia encontrar uma explicação. Tearle tinha sido visto cavalgando com o filho de Rogan em sua própria sela, em direção ao castelo dos Howard. O caçador também havia dito que três cavalheiros o seguiam.