A Conquista

Jude Deveraux · Capítulo 3 de 5 · parte 1/2

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A Conquista

Zared se retraiu: — Vá! Deixe-me, não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Zared se retraiu: — Vá! Deixe-me, não quero vê-lo nunca mais. Arruinou a minha família.

Tearle se separou dela, surpreso pela dor que aparecia em sua voz. Deixou a tenda.

Iria, mas antes devia descobrir o que Zared quis dizer ao falar do lodo no elmo.

Não demorou muito tempo para saber da história, as pessoas gostavam de conversar. Assim soube também do mel sobre a armadura, das lanças serradas…e em sua mente começou a surgir uma suspeita.

— Hugo Marshall nunca daria por esposa sua bela filha a um Peregrine! -Disse rindo um homem a seu lado. — Não pode levar em conta um genro que é o bobo da corte.

— Marshall quer por genro o Cavalheiro Negro. Soube que oferece uma recompensa a quem puder revelar sua identidade — disse outro rindo a sua vez.

Tearle não permaneceu escutando mais e se afastou. Deu uma moeda a um moço para que levasse uma mensagem a Lady Anne: Queria se encontrar com ela essa mesma noite no jardim. Poucas horas depois quando foi ao encontro, Anne o esperava, e pela claridade da lua viu que seu rosto estava radiante.

— Esteve magnífico! — exclamou pondo a mãos nos ombros e beijando-o em ambas as bochechas.

— Magnífico, seriamente e …Tearle, funcionou. Meu pai não fala mais desse Peregrine. Agora só fala do Cavalheiro Negro. Naturalmente não descobrirá nunca de quem se trata.

— E está contente que seu pai não leve mais em consideração a proposta de matrimônio de Severn?— perguntou-lhe em voz baixa.

— Estou muito contente. É um homem horrível, não poderia passar cinco minutos com ele.

— Fez isso? Passou cinco minutos com ele?

Anne deixou de sorrir e o olhou zangada: — O que está acontecendo? Não está satisfeito por sua vitória?

Tearle se afastou dela. Satisfeito? Quis demonstrar a Zared que não era um homem débil como ela acreditava, entretanto conseguiu que ela o odiasse e um nobre cavalheiro como Severn fosse humilhado.

Olhou a sua amiga: — Quem pôs lodo no elmo de Severn?

Anne se virou, mas não conseguiu esconder o sorriso. Tearle tomou-a pelos ombros e a obrigou a olhá-lo: — Quem foi, Anne? Quem foi que deu motivo para que as pessoas zombassem dele?

Anne se libertou, exclamando:— Não me casarei com ele. Humilhou-me em público. Você viu como me tratou durante o cortejo? Levantou-me da tribuna na frente de todos, beijou-me por duas vezes e…

— Não se parece com um mequetrefe da corte, certo? Não escreve poemas de amor exaltando sua beleza. Não sabe pronunciar um verso…é isso Anne?

— Eu não gosto de seu tom— disse a jovem e levantando a saia preparou-se para se afastar.

Tearle a agarrou por um braço: — Severn é um bom homem. Ama muito a sua família e dá muita importância a sua honra. É um homem muito orgulhoso.

Neste ponto Anne relaxou, cobriu os olhos com as mãos para esconder as lágrimas:

— E eu não tenho orgulho? — Olhou-o tentando controlar o pranto: — Sim, humilhei-o. Fiz com que as pessoas zombassem dele. Diga-me, que outra coisa podia fazer? Como podia lutar contra ele? Disse ao meu pai que não quero me casar com esse homem. Também disse a ele que não quero me casar, mas ninguém me escuta. Não entende que devia fazer algo?

Tearle não respondeu. Suspirou e quando falou, fez em voz baixa:

— Agora que Severn é a brincadeira de todos qual é o pretendente preferido de seu pai?

— Meu pai escolheu o marido de minha irmã pelas relações que tem na corte.

— É um pai sábio —, murmurou Tearle.

— Agora suas preferências vão para Colbrand, ou a…

— Colbrand!— exclamou Tearle. — esse homem é um idiota!

— Mas tem boas maneiras e é bonito de se ver.

— E é fácil de manobrar — adicionou o jovem. — Se casar com Colbrand o comerá vivo. Não é adequado para você.

— E quem é adequado para mim? — disse ela replicando. — Esse sujo Peregrine?

— É o mais adequado a você, mais que qualquer outro que eu conheça. Severn certamente não se deixaria dirigir por você.

— Não desejo controlá-lo, nem olhá-lo! — Pôs uma mão no braço de Tearle. — Esse Peregrine não será meu amigo e segundo meu parecer é tosco. Não me dirige nunca a palavra e na mesa fala com meu pai, não comigo.

— Porque é sábio…deve cortejar seu pai e não você.

Anne o olhou, exasperada. Esse homem não entendia nada? Disse: — Colbrand no entanto fala comigo. E…

— Colbrand!— repetiu Tearle com os dentes apertados. — Não quero mais ouvir falar desse homem pelo resto de meus dias. É estúpido a ponto que não saber distinguir uma moça de um moço. Se casar com ele, dentro de um ano sentirá somente ódio dele.

Anne olhou colérica para seu amigo. — Não precisaria deixar passar um ano para odiar Peregrine. Se os ama tanto, case-se com uma dessa família, mas eu não o farei. Agradeço-lhe por ter ajudado a evitar que meu pai obrigasse a me casar com um deles, mas acredito que não lhe devo nenhuma recompensa. Obteve o que desejava.

— O que eu desejava? Diga-me, o que eu queria segundo você?

Olhou-o atônita: — Exatamente o que eu queria: humilhar os Peregrine. A partir de hoje toda a Inglaterra zomba deles, e quando souberem que um Peregrine foi vencido em um duelo por um Howard até os animais nos campos zombarão. Não deve preocupar-se com eles, estarão assustados a tal ponto que não porão nem sequer o nariz fora da porta. - Sorriu: — Juntos fizemos um bom trabalho, não é? Severn custará muito a encontrar uma esposa rica ou pobre.

Dizendo isso se afastou, deixando Tearle sozinho no jardim.

O jovem estava muito aturdido para afastar-se também.

Todas as palavras que Anne pronunciou ressonavam nos ouvidos. Só queria impressionar uma garotinha, mas em vez disso tinha contribuído para pôr em ridículo os Peregrine.

Sabia que Anne tinha razão, no final a identidade do Cavalheiro Negro seria descoberta, muitas pessoas sabiam… seus homens, Anne e Zared. Dentro de pouco tempo a verdade iria aflorar e como Anne havia dito, toda a Inglaterra saberia que um Howard vencera um Peregrine.

Pensou em seu irmão Oliver: informado de sua façanha, ficaria muito feliz que tudo fosse conhecido por todo o país.

Deixou-se cair pesadamente sobre um banco de pedra. Zared tinha razão: Tearle havia arruinado a família Peregrine. Suas intenções tinham sido boas, mas sem querer conseguiu o que três gerações de sua família não conseguiram com as armas. Deitou-se sobre o banco e olhou as estrelas. Existia no mundo um meio para reparar o mal que fizera?

Essa noite Zared não dormiu muito. Deitada na cama, pensou em uma maneira de manter a promessa feita a Severn de convencer Lady Anne a se casar com ele. Pensou em falar com a jovem dama, mas recordava bem sua reação quando Severn tinha tomado às rédeas de seu cavalo descontrolado. Pensou em ir onde estava Hugo Marshall para advogar pela causa de seu irmão, mas como este último havia dito, não ficaria bem humilhar-se e não serviria de nada. Ele não acreditaria.

Permaneceu imóvel, escutando Severn que se agitava em sua cama. Agora não passava a metade da noite cortejando mulheres, brincando com elas. Permanecia na tenda, longe também de seus homens e era melhor, porque a este ponto não estavam mais orgulhosos dele e do estandarte dos Peregrine.

Amanheceu e Zared foi procurar um pouco de comida. Severn não teria que ir ao campo até a tarde e certamente nenhum deles iria abandonar a tenda. Por volta da metade da manhã se afastou para ocupar-se de seu asseio matinal e enquanto voltava uma mão tampou sua boca.

Tentou se defender com arranhões e socos, mas não pôde libertar-se do abraço que a segurava. Quando pensou que iria morrer por falta de ar, a mão se separou de sua boca e ela a abriu para respirar. Nesse momento foi amordaçada e sobre ela foi colocada uma manta.

Foi erguida, posta sobre a sela de um cavalo e conduzida para longe. Imediatamente pensou nos Howard: uma vez mais a capturavam.

O raptor galopou algumas milhas e logo parou, colocou-a no chão e retirou a manta.

A moça não se surpreendeu ao ver Tearle.

— Não me olhe desse modo — disse. — Não quero lhe fazer mal.

A moça se afastou correndo enquanto tirava a mordaça, mas ele a alcançou e caíram juntos no chão. Ele a estreitou com todas suas forças, enquanto ela lutava por libertar-se.

— Peço que não me chute desse modo — disse em tom cansado. — Apunhalou-me, esbofeteou-me, fui pisoteado por um cavalo enquanto a protegia e quase morri no campo, quase separou minha cabeça do pescoço e ontem à noite não dormi. Suplico que me conceda um momento de descanso.

Parecia tão sincero ao falar de seu cansaço que Zared esteve a ponto de rir. Não o fez e não se mexeu mais, tampouco ela tinha dormido por duas noites. — O que quer de mim?— perguntou.

Tearle pôs a cabeça dela contra seu peito. — Não lute, eu peço. Estou muito fraco para me proteger de suas adagas, de suas espadas e de seus pés.

— Frágil! — exclamou ela — desmontou Colbrand, o venceu.

— Foi fácil — replicou ele. — Foi facílimo.

— Deixe-me ir — disse a moça, querendo que ele a soltasse, mas ele não fez caso. — Gritarei pedindo ajuda.

— E eu a beijarei.

— Não!

Tearle, vendo em seus olhos o temor, sorriu: — Se casaria comigo se conseguir convencer Lady Anne a se casar com seu irmão?

Zared começou outra vez a querer livrar-se, quando com um suspiro ele a deixou ir, mas conseguiu que se sentasse a seu lado.

— Não me casaria com você, embora fosse o último homem….

— Nem sequer se isso levasse a sua família a riqueza de Lady Anne?

— Não me casaria com você nem sequer….— Olhou-o e continuou: — Seu pai não permitirá que se case com um Peregrine. E você contribuiu com isso. Encontrou um modo de toda a Inglaterra rir de nós.

— Não fiz nada para que alguém risse de sua família. Não fui eu que colocou mel na armadura de Severn, nem tampouco arruinei seu estandarte. Quis vencer um homem e o fiz com minha espada ou com minha lança…— ele sorriu: — Você viu.

— Sei que não podia vencer meu irmão e para fazê-lo soltou a cilha de seus arreios.

— Poderia vencer seu irmão, embora tivesse que perder um braço.

O rosto de Zared se avermelhou de raiva e equilibrou-se sobre ele, pronta para estrangulá-lo.

Tearle riu e girou para um lado, inclinando a cabeça quando tentou arranhá-lo.

Depois de um momento, Zared se deu conta que estava brincando com ela e seu corpo ficou rígido, e quando as mãos do homem afrouxaram um pouco, separou-se dele.

— Não casarei com meu inimigo— disse sem olhá-lo.

— Acreditei que se preocupava com a reputação de sua família — disse-lhe — Acreditei que estava desgostosa porque o nome dos Peregrine causava risos. — Levantou-se e começou a caminhar em direção ao seu cavalo, mas Zared o alcançou e se colocou diante dele.

— Não sabe nada de orgulho familiar— murmurou — Vive em uma terra que roubou. Seu irmão é um louco. Se você for a um combate, deve disfarçar-se.

— Disfarcei-me para proteger a reputação de sua família — replicou ele cansado. — Não queria que os outros soubessem que um Howard vencia um Peregrine.

— Você venceria o meu irmão?— Você simplesmente soltou a …..

Tearle se inclinou e a beijou.

Zared inclinou a cabeça, detestando a sensação que aquele beijo provocava. — É precisamente porque amo a minha família que não me casarei com um Howard…— assegurou.

— Um matrimônio entre as duas famílias poria fim à luta.

— Seu irmão me...

— Eu estaria ao seu lado…onde queira. Estou disposto inclusive a ir viver com seus irmãos.

A moça entrecerrou os olhos: — Rogan o mataria — asseverou em voz baixa.

— Duvido que o faça.

— Você está louco.

— Provavelmente — ele admitiu, sacudindo os ombros. — É possível que esteja louco, mas não sou um homem sem honra. Não fiz nada à cilha… sou capaz de vencer Severn sem recorrer a truques tão mesquinhos.

— Não, não poderia…— Interrompeu-se, parecia que Tearle estava a ponto de beijá-la de novo. Virou à cabeça e disse: — Em todo caso não tem importância. Lady Anne não se casará com um homem que é motivo de risos.

— Assim, não fará o que poderia fazer cessar esta cadeia de violência, ou para ajudar seu irmão a casar-se com uma mulher rica…entendo — disse Tearle, tomando as rédeas de seu cavalo.

— Faria qualquer coisa para proteger a meus irmãos…qualquer coisa.

— Verdade?— perguntou, levantando uma sobrancelha. — Não me parece. Olhou-o entrecerrando novamente os olhos: — Como pensa convencer Hugo Marshall a permitir que sua filha se case com um Peregrine?

— Deixe comigo.

Sorriu brevemente, mas com tristeza. — Você colocará uma manta em cima dela, vai amordaçá-la e raptá-la? Os Howard são professores em raptar mulheres indefesas. Obrigará, através da força, a casar-se com meu irmão? Ou quer começar uma luta entre os Peregrine e os Marshall? Quer unir-se aos Marshall para nos combater?

Tearle se calou por um instante, limitando-se a olhá-la. Logo disse: — Não sabe pensar em outra coisa a não ser a guerra? Não acredita que há outras coisas na vida, além da guerra? Não pretendo obrigar Anne Marshall a casar-se com ninguém. Seu pai a dará por esposa ao seu irmão.

— Tem certeza?

— Tão certo quanto se pode ser sobre o futuro…— Sorriu: — Porém, não me esforçarei para arranjar o matrimônio de seu irmão se não tiver a segurança de obter o que quero em troca.

— E quer uma Peregrine — balbuciou ela. — Não deverá viver na casa de meus irmãos, como disse. Obrigar-me-á a viver na casa dos Howard. E o que me fará? Irá me torturar ou me usará como refém para obrigar meus irmãos a fazer o que você quer?

— Disse que não a levarei para viver com meu irmão. Viverei com você e com seus irmãos, exatamente como faço agora, como Smith.

Zared só conseguia olhá-lo. Era tolo? — Os Howard nos espiam. Eles o verão com meus irmãos e o desmascararão. Quando meus irmãos souberem quem é, o matarão. E seu irmão…

— Sim, eu sei — replicou o jovem aborrecido. — Nossa conversa é inútil. Volte para o seu irmão. Peça que a proponha como esposa para Colbrand. Talvez, no transcurso da primeira noite de matrimônio, se de conta que é uma mulher…— Assim dizendo montou na sela e concluiu: — Cumprimente Severn por mim.

Vendo que se afastava, Zared só conseguiu pensar que seus problemas terminariam…finalmente estava livre do horrível peso de ter secreta a identidade daquele odioso Howard.

Mas de repente o chamou: — Espere!

Tearle parou e inclinou a cabeça para olhá-la.

— Como fará para convencer Lady Anne a se casar com Severn?

— Seu irmão é objeto de zombaria, Hugh Marshall nunca permitirá que se case com ele.

— E você poderia fazê-lo mudar de ideia?— perguntou, venenosa.

Tearle fez o cavalo voltar mas não atirou as rédeas.

— Diga-me como fará! — insistiu. — Deve-me isso, por manter seu segredo.

— E você me deve por tê-la salvado dos homens de meu irmão e por tê-la salvado do cavalo e me deve….

— Diga-me — gritou Zared, golpeando-o na perna com o punho fechado. — Para minha família significa tudo, para você não significa nada.

— Já conhece meu preço — replicou Tearle com calma.

A moça ficou na frente do pescoço do cavalo: — Não posso me casar com você — disse — Você é meu inimigo e eu o odeio.

— Se pensa que me odeia, seu ódio não será nada em comparação ao de Lady Anne quando for obrigada a casar-se com seu irmão.

Essas palavras a fizeram sorrir…olhou Tearle e disse: — Antes do início do torneio seu cavalo se descontrolou; Severn o bloqueou e apesar disso ela o criticou. Disse que teria que lavar as rédeas, antes de poder tocá-las de novo.

— É uma frase que se adequa a Anne.

— Conhece-a bem?

Essa pergunta surpreendeu Tearle, mas seria esperar muito que nela houvesse um sinal de ciúmes…— Suficientemente bem — respondeu.

Respirou profundamente porque queria induzi-la a tomar uma decisão. Não podia suportar mais essa incerteza sobre seu futuro, e por esse ser o último dia de torneio, a decisão devia ser tomada nesse momento ou nunca mais .

— Darei ao seu irmão a esposa que deseja — disse. — Hugo Marshall concederá Lady Anne a Severn, mas não o farei e não direi como pretendo fazê-lo se antes não consentir em ser minha esposa.

— Não conseguirá —replicou Zared. — Hugo Marshall nunca aceitará…

— Então não se preocupe. Se falhar, não terá que se casar comigo. Não farei nada se não jurar o que eu quero que jure.

Zared se afastou e olhou para o bosque. Casar-se com ele? Casar-se com um Howard? Como reagiriam seus irmãos se descobrissem que seu novo cunhado era na realidade um Howard? Severn talvez vacilasse em matá-lo porque o achava simpático, mas Rogan não vacilaria nem um momento antes de fazê-lo. Depois disso Oliver chegaria com um exército para matar todos os Peregrine.

Por outro lado, toda a Inglaterra zombava de sua família.

Só o matrimônio de Severn com Lady Anne poria ponto final a essas brincadeiras.

Colocou as mãos nos ouvidos. Era como se o diabo a tentasse e de fato Tearle montado em seu cavalo, com o cabelo e os olhos negros, parecia-se com o diabo. Casar-se com ele? Casar-se e viver sempre sob o domínio de uma família que odiava a dela por gerações?

— Não posso — murmurou.

Tearle deu um puxão nas rédeas.

— Pare!— gritou ela. Sem olhá-lo e com os punhos fechados, disse: — De acordo.

— Não escutei bem.

Continuou a não olhá-lo e sempre murmurando muito baixo disse: — Casar-me-ei com você.

— Continuo sem ouvi-la muito bem.

Levantou os olhos, que cintilavam de cólera: — Casarei! — gritou. — Se conseguir convencer Lady Anne a se casar com Severn, casarei com você — Apertou os lábios e continuou: — Mas nunca irei viver na casa de seu irmão. Não me submeterei às ordens de Oliver Howard.

Tearle devolveu o olhar e seu rosto se adoçou: — Viverei onde você viver, até quando consentir em me seguir a qualquer lugar que eu vá.

— Ah!— disse ela.

Tearle se limitou a sorrir, esporeou o cavalo e se afastou galopando.

Capítulo Dez

Zared tremendo com todo seu corpo pela cólera e o medo, voltou para as tendas.

O que tinha feito?

— Esteve ausente muito tempo! - Repreendeu-a Severn.

Esteve a ponto de responder bruscamente. Como podia demonstrar seu mau humor depois do que tinha feito recentemente por ele? Ou melhor, aceito fazer por ele? Até esse momento nenhuma das terríveis coisas que podiam acontecer haviam acontecido.

Esse pensamento reconfortou um pouco. Talvez não acontecesse nada de terrível.

Talvez ela e Severn pudessem permanecer na tenda até o último combate no campo do torneio, e logo pudessem voltar para casa e fingir que nada aconteceu. Talvez as pessoas esquecessem o misterioso Cavalheiro Negro, o lodo no elmo de Severn e o estandarte com a representação do sátiro.

Severn deixou cair a espada e Zared sobressaltou-se.

— O que aconteceu? — perguntou.

— Nada. Estou bem, não tenho nenhum problema. Minha vida é toda alegria.

Severn sorriu: — Tem saudades quando Smith se ausenta, certo?

— Estou contente que ele tenha ossos porque não possui cérebro para sustentar seu elmo.

— Não suporto tais insolências de sua parte — disse o irmão e imediatamente cruzou a tenda em sua direção. Zared não tentou fugir como geralmente fazia, porque desejava lutar, assim baixou a cabeça e o golpeou no estômago. O homem gemeu, puxou a borda da túnica e lhe deu um empurrão.

— O que te acontece? — perguntou antes que desse um soco. E imediatamente depois: — Pequena…— balbuciou e a fez cair sobre a cama. Estava decidido a lhe dar uma lição, mas nesse momento Smith entrou segurando por um braço uma mulher elegantemente vestida, chorando. Severn olhou a irmã e a obrigou a se levantar e depois perguntou — O que aconteceu?

Zared se afastou a um dos extremos da tenda e logo distinguiu Howard.

— Diga-lhe — ordenou Tearle à mulher. Esta começou a chorar e logo inclinou a cabeça, negando.

Tearle pôs um braço ao redor da cintura e disse ameaçador: — Quer que a entregue a ele?

A desconhecida olhou Severn e seus olhos se encheram de terror.

— Meu irmão não é um…— começou a dizer Zared, tentando assegurar que Severn não era um homem cruel, mas Tearle não permitiu que continuasse e repetiu à mulher: — Diga — Tearle não disse nada mais, porém não havia necessidade, sua expressão refletia claramente suas intenções.

A mulher murmurou: — Ela me matará!

Zared observou a cena, curiosa: a desconhecida chorou por alguns minutos mais e quando falou o fez com voz tão baixa que suas palavras apenas se ouviam: — Lady…lodo…armadura…estandarte.

Zared olhou seu irmão e viu que ele também se esforçava por entender o significado dessas palavras.

— Fale mais alto — disse Tearle.

A dama levantou o queixo e olhou Severn como se olhasse o diabo.

— Minha senhora não quer se casar com você. Foi ela quem fez colocarem lodo em seu elmo e o mel sobre sua armadura. Pagou um homem para que pintasse seu…

Interrompeu-se, porque Severn estava avançando para ela, mas Tearle se interpôs entre os dois.

— Não foi ela — disse. — Foi Lady Anne a causadora dessas brincadeiras.

— Anne? — perguntou Severn surpreso, e Zared compreendeu o que estava pensando.

Geralmente gostava das mulheres, elas faziam o que ele queria e o achavam atraente. Se não fosse seu irmão, Zared o acharia tão fascinante como Colbrand; portanto agora, ao saber que Anne foi a responsável pelas brincadeiras, estava atônito.

— É verdade que foi Lady Anne? — perguntou Severn.

— Sim — respondeu Tearle. — Ela gostava de Colbrand, mas sabendo que seu pai preferia você, procurou uma maneira de que deixasse de ser um pretendente a sua mão e o ridicularizou ante os olhos de todos.

Severn olhou Tearle: — Uma mulher fez isto? — murmurou triste — Não foi um truque dos Howard.

— Posso garantir que não foram os Howard — respondeu Tearle dando uma olhada a Zared. — Talvez, Lady Anne pensasse que seria uma brincadeira divertida.

Zared viu que seu irmão empalidecia. — Uma brincadeira? — exclamou. — Tenho feito o pior dos papelões e ela acredita que seja uma brincadeira? Fez com que todos zombassem de mim, um Peregrine. Quem é ela? É somente a rica filha de um mercador, enquanto eu, eu…— Interrompeu, incapaz de continuar.

— Onde está agora?— conseguiu perguntar pouco depois.

— Jantando, acredito — respondeu Tearle em tom alegre. Soltou a mulher, mas ela não se moveu.

— Demonstrarei o que significa ser alvo de brincadeiras— disse Severn.

— Milord! — implorou a mulher — não pode…

Mas Severn saiu precipitadamente da tenda e a mulher o seguiu, implorando que não fizesse mal à Lady Anne.

— O que você fez?— murmurou Zared a Tearle.

Sorriu com expressão alegre : — Ainda não sei o que fiz, porém a julgar pelo humor de seu irmão, posso adivinhá-lo.

Zared não perdeu mais tempo em conversar com ele e seguiu seu irmão. Talvez pudesse evitar o pior, algo que Severn quisesse fazer. Talvez pudesse evitar que caísse ainda mais em ridículo.

Começou a correr, seguida por Tearle: — Eu o matarei por isso — gritou voltando-se. Por que acreditou em suas palavras? Tinha afirmado que estava em condições de convencer Lady Anne a casar-se com um Peregrine….agora Severn acusaria Hugo Marshall e as pessoas zombariam ainda mais…

Entrou no grande salão justo no momento em que Severn alcançava a mesa onde estava sentado Hugo Marshall com suas filhas ao lado. Centenas de damas e cavalheiros comiam e bebiam sentados nas mesas servidas por comida.

Zared começou a correr para evitar que seu irmão cometesse uma loucura, mas Howard a puxou pela cintura, pôs-lhe uma mão na boca e a levou para um lugar na penumbra.

Ninguém percebeu, porque os olhos de todos os presentes estavam cravados em Severn e em seu belo rosto cheio de cólera, enquanto olhava fixamente para Anne.

Não olhava ninguém, salvo ela. Inclinou-se através da mesa, puxou-a pelos ombros e a obrigou a levantar-se.

Ela emitiu um grito e mais de uma dúzia de homens saltaram em pé e desembainharam suas espadas, mas Hugo Marshall levantou uma mão para detê-los.

Estava fascinado e ansioso para ver o que é que esse homem pretendia fazer a sua filha.

Quando Anne estava de pé, Severn pegou-a pela cintura e a arrastou através da mesa. Vendo que seu pai não permitia que ninguém interviesse para defendê-la, a jovem começou a lutar sozinha. Golpeou Severn com os punhos e o chutou tentando golpeá-lo, mas só conseguiu derramar jarros de vinho, taças e bandejas cheias de carne e legumes.

— Socorro! — gritou — Pai!

Quando os hóspedes deram conta que Hugo Marshall aprovava a cena, voltaram a sentar-se e começaram a gozar do espetáculo.

Quando Anne ficou do lado da mesa, onde se encontrava Severn, este começou remexê-la , enquanto ela gritava , chutava e o arranhava. Logo o homem se aproximou de um tamborete, colocou-o no espaço entre as mesas destinadas aos acrobatas e aos espetáculos e se sentou, sem deixar de soltar à mulher.

— Socorro! — gritava Anne — Alguém me ajude, por favor!

Severn a colocou atravessada em seus joelhos e depois de levantar as suas saias começou a surrá-la.

— Esta é pelo lodo em meu elmo, e esta pelo lodo em meu rosto, e esta…

Então os convidados começaram a entender o que estava acontecendo. Todos conheciam as maneiras rudes dos Peregrine e todos tiveram a oportunidade de observar a atitude distante da bela Anne…só restava tirarem suas próprias conclusões.

Hugh Marshall foi o primeiro a rir: Era uma alegria para ele, ver sua muito inteligente filha sofrer semelhante lição.

— ….E esta pelas lanças serradas, — continuava a dizer Severn — e pelo mel e pelo estandarte.

Anne deixou de lutar ante a primeira risada que ouviu e seu medo se transformou em cólera e ódio. Estreitou os punhos, apertou a mandíbula e se recusou a gritar sua própria humilhação. Porque se tratava de humilhação. O homem não batia com força, o que a punha mais furiosa.

Por fim Severn baixou o vestido de Anne e a colocou de pé enquanto ele continuava sentado no tamborete.

As pessoas se acalmaram e esperaram ouvir o que Severn falaria.

— Isto lhe ensinará a não maquinar brincadeiras nas costas dos homens! — exclamou com um olhar de triunfo e Anne, como resposta lhe cuspiu em cima.

Entre os presentes se ouviu uma grande exclamação de estupor. Depois de um momento de vacilação Severn tomou à mulher pelo pescoço, trouxe-a para si e a beijou.

Os convidados começaram a rir e aplaudir, e quando Severn interrompeu o longo e profundo beijo, começaram a sapatear em sinal de aprovação.

Anne tentava se libertar do abraço sem conseguir.

Soltando-a finalmente, Severn a tomou em seus braços, avançou para a mesa e a sentou em cima do prato com comida diante de Hugh Marshall.

— Aconselho a vigiar melhor sua filha — disse em voz alta e logo se virou e saiu do salão.

Os presentes riram de novo, mas agora, pensou, não riam dele.

Enquanto isso Tearle continuava a ter Zared contra si. Na realidade não foi necessário fazê-la se calar e tampouco mantê-la imóvel, mas se recusava a soltá-la.

Quando Severn estava a ponto de sair do salão deixando as suas costas a bela Lady Anne sentada sobre um grande prato de comida, a moça se separou dele dizendo: — Agora Hugo Marshall nunca permitirá que sua filha se case com um Peregrine. — Murmurou zangada.

Mas nesse momento Hugo Marshall gritou: — Alto! — e todos os presentes se calaram.

Severn parou de repente, com uma mão pronta para desembainhar sua espada para defender-se. Zared saiu da sombra, pronta para lutar ao lado de seu irmão, o qual se voltou lentamente para olhar o dono da casa.

Este se levantou e quando Anne tentou se afastar da mesa a obrigou a não se mover.

— Tenho algo para lhe dizer, Peregrine.

— Escuto-o.

No enorme salão não se ouvia nem o voar de uma mosca…todos os hóspedes continham a respiração. O feroz e velho Hugo talvez estivesse por declarar a guerra a esse insolente Peregrine, pelo modo que tinha humilhado a sua filha?

Anne se virou e lançou a Severn um olhar de triunfo, com os braços cruzados sobre seu peito, sentada em cima do assado de porco e os pés entre repolho cozido. Esperava que seu pai ordenasse a morte desse homem que a maltratara.

No silêncio geral Hugo declarou: — Meu desejo é…— Respirou fundo e olhou ao redor: — Será uma honra para mim, senhor, se aceitar casar-se com minha filha.

O estalo de risadas que seguiu quase fez cair o teto. Zared abriu a boca pelo estupor e observou que o peito de seu irmão se enchia de orgulho. Oscilando, o homem voltou para o centro do salão, inclinou-se sobre Anne como se não existisse, tomou um pedaço de assado e sentou-se à mesa perto da cabeça dela e começou a comer.

— Quanto ouro me dará para que o livre desta bruxa?

Os convidados riam tanto que não se mantinham quietos em seus assentos e Severn olhou feliz o espetáculo. Levaria tempo para negociar e agora gozava do fato que as pessoas já não zombavam de sua família.

Zared não se moveu, observando Severn que discutia com Hugo sobre o dote de Anne e entendeu que a reputação dos Peregrine não seria machada nesses entendimentos porque os homens meneavam a cabeça aprovando, enquanto Severn pedia ouro e mais ouro para libertar dos ombros do pai a carga que significava Anne.

Zared sentiu pena da jovem, mas logo recordou a maneira como todos tinham rido de Severn.

Porém, olhando o rosto avermelhado de ira de Anne, pensou que talvez Severn não continuasse a rir por muito, porque viver com sua futura esposa não seria muito fácil.

Pouco depois cansada de tanto ruído, a jovem saiu do salão pensando que teria muitas coisas que fazer para organizar o matrimônio de Severn.

Fora havia poucas pessoas: ouvindo o barulho, quase todos os participantes do torneio tinham entrado no salão para assistir a negociação entre Hugo e seu futuro genro.

Uma mão pousou com força em seu ombro: — Esqueceu nosso acordo?

— Que acordo? — replicou tentando ganhar tempo. Começava a sentir sua garganta seca.

Tearle lhe sorriu: — Consegui dar ao seu irmão a rica esposa que desejava.

— Você? — Não tem nada a ver com esta situação. Meu irmão obteve a sua mulher sozinho, fazendo…— Humilhando-a? Fazendo com que todos zombassem dela? — Você não tem nada a ver com isto — repetiu.

— Como? Fui eu quem disse ao seu irmão que a autora das brincadeiras tinha sido Anne.

— Sim, mas não foi isso que convenceu Hugh Marshall a entregar sua filha por esposa a Severn. Meu irmão obteve a mão dela sozinho, sem sua ajuda, assim entre nós não subsiste nenhum pacto — Assim dizendo se virou e se preparou para ir, mas Tearle a puxou pelos ombros e obrigou a olhá-lo.

— Fui eu quem organizou toda a situação. Conheço o caráter de seu irmão e sei que quando se encoleriza perde o controle de si e…

— Sabe controlar uma espada e se agora estivesse aqui você perceberia!

— Sério?— perguntou Tearle nem um pouco constrangido. — Se Anne tivesse um pai diferente de Hugo, que dá mais importância à força do que a inteligência, não teria dito a Severn o que ela fez. Mas com justa razão imaginei que Severn se comportaria como fez e que Hugh se sentiria satisfeito. O matrimônio, minha esposa, foi planejado por mim.

— Minha esposa? — repetiu Zared em voz baixa. — Não sou sua esposa e nunca o serei. Não posso respeitar um pacto feito com você. Não podia predizer o que aconteceria.

Severn podia ter matado a jovem…estava suficientemente zangado para fazê-lo…e onde estaríamos agora? Ou seu pai haveria….

— Sei que Severn não mata mulheres. Se o fizesse, você teria sido a primeira…Ah! Nunca vi uma mulher que merece ser castigada como você.

— Não sabe de nada. Hugo Marshall poderia ordenar a execução de Severn pelo que…

— É triste mas certo, Hugh não suporta sua filha. Anne tem mais cérebro em um pé do que ele tem em todo o seu corpo e a coisa não o agrada. Entre outras coisas, corre o boato que ele não é seu verdadeiro pai…é o tipo de homem que quer fazer Anne pagar pelos rumores que ela não pode evitar.

— Quer me fazer acreditar que sabia tudo isto e que por isso irá fazer com que Anne se case com Severn?

— Não…o fiz para que Severn tivesse a esposa que sonhava e para eu mesmo ter a esposa que desejo.

Zared só conseguiu olhá-lo, incapaz de dizer uma palavra, mas pouco depois se recompôs e virou a cabeça:

— Não podia saber o que aconteceria e por conseguinte, a conclusão dos fatos não é por mérito seu.— Assim dizendo começou a se afastar.

Percorreu alguns passos e parou. Agora o que Tearle faria? Iria até seu irmão e organizaria um exército para atacar os Peregrine? Desafiaria Severn a um combate mortal? Revelaria a Severn sua verdadeira identidade, provocando a guerra?

Olhou atrás e viu que o jovem se afastava na direção oposta. Alcançou-o correndo e disse: — O quer vai fazer agora?

— Fazer? O que eu vou fazer? Disse que não sei fazer nada.

— O que nos fará? Perguntou com os dentes apertados.

— Fazer algo contra vocês? Por que o faria?

—Porque não respeitei o acordo. Quero dizer… — rapidamente corrigiu: — O que fará a minha família porque não quero me casar com você, por que nosso pacto é um pacto que por si só não é um pacto?

— Não farei nada — respondeu sorrindo.

— Entendo. Pelo visto irá até seu irmão. Irá onde ele está para juntos fazerem seus planos de guerra? Usará o que sabe contra nós?

Tearle abriu os grandes olhos: — Nunca diria ao meu irmão ou a qualquer outro que algum Peregrine recusou respeitar um pacto. Não quero que alguém pense que uma pessoa que responde ao orgulhoso e antigo nome de Peregrine se esqueceu do que é honra.

— Nós, os Peregrine, não esquecemos o que é a honra— murmurou ela.

— Sei que é assim para um dos seus irmãos, quanto a você…diga-me, seu irmão Rogan é como você ou como Severn?

A moça apertou os punhos com força: — Todos os Peregrine sabem o que é a honra e eu também sei.

— Se você diz, então deve ser verdade.

Queria matá-lo, transpassá-lo com a espada e ver seu sangue brotar de seu corpo, mas gritou: — Serei sua esposa.

— Não — rebateu Tearle, afastando-se.

Seguiu-o: — Não? Mas o pacto era que me casaria com você se conseguisse que Anne se casasse com Severn.

— Severn fez tudo sozinho: pessoalmente eu não tive o prazer de surrar Lady Anne ….ele o fez.

— Mas foi você que disse que a autora das brincadeiras era Anne.

—E o que isso ter a ver com as palmadas?

Zared pensou que o homem era estúpido: — Se você não falasse, Severn não saberia, e sem ele saber não teria ido até Hugo Marshall, não teria batido em Lady Anne e …— interrompeu-se.

— Se? — Está dizendo que se eu não tivesse informado Severn do acontecido, agora não estaria noivo de Anne?

Não respondeu.

— Consequentemente, se tenho algum mérito por este noivado, talvez tenha respeitado minha parte no pacto.

Zared não replicou, mas assentiu com um breve sinal da cabeça.

— Então, parece que respeitei o pacto, mas você não pretende fazê-lo. Agora tudo está claro. Desejo-lhe boa noite, Lady Zared.— Assim dizendo Tearle sorriu e começou a afastar-se.

Puxou-o pelo braço: — Onde está indo?

— Para casa, para meu irmão que tanto você teme.— Sorriu de novo. — Parece que está preocupada com a ideia que eu queira me vingar porque não manteve sua palavra. Penso que sua falta de sentido de honra seja para mim uma vingança suficiente. Viverá com este peso em sua consciência pelo resto de seus dias. Se me acontecesse algo similar, eu não poderia suportar, mas você é uma Peregrine, não é uma Howard, portanto seu nome tem menos importância para você quanto o meu tem para mim. Entretanto, você fez sua escolha. Não a obrigarei a respeitar sua honra. Uma pessoa sabe o que é honra ou não. Você não sabe, por conseguinte...

— Basta! — gritou Zared, tampando os ouvidos. — Casar-me-ei com você.

— Não quero porque parece que duvida do fato que eu tenha respeitado o pacto.

— Sim, manteve-o — murmurou ela. — Já disse. — Quer que eu grite aos ventos?

— Agradeceria se você mesma informasse ao seu irmão o fato que deseja se casar comigo.

— Que desejo me casar com você? Você é a última pessoa com quem desejo me casar.

Tearle começou a caminhar.

— Está bem! Direi a Severn que… — engoliu — que quero me casar com você, caso contrário ele suspeitaria.

— Muito gentil de sua parte — replicou Tearle, sorrindo. — Nos encontraremos na igreja em duas horas?

— Duas... duas horas?

— Claro que se não quiser manter sua palavra, irei agora. Se puder viver com sua desonra, estou certo de poder fazê-lo também.

— Estarei na igreja dentro duas horas — disse raivosa e se afastou.

Tearle sorriu de novo. Estava muito feliz.

Capítulo Onze

Zared estava rigidamente montada no cavalo, tentando não olhar para o homem que cavalgava ao seu lado, o homem que era seu marido. Estavam casados há dois dias e ela ainda era virgem. Estava contente, naturalmente, que Howard não a houvesse tocado, mas em seu íntimo estava ressentida pelo fato de que ele ainda não a tivesse feito sua mulher.

Talvez porque dissera algumas coisas que o fez ficar zangado.

Depois de ter aceitado ser sua esposa, não perdeu tempo e foi até Severn solicitar seu consentimento para as bodas. Severn, ainda ocupadíssimo com as negociações de seu próprio matrimônio, consentiu imediatamente. Tearle lhe era simpático e tinha sido enviado por Liana, portanto deu rapidamente seu consentimento. Zared havia se sentido ofendida ante a pouca atenção que o irmão recebeu a notícia. Severn a beijara apressadamente na testa e tornara a contar as moedas de ouro com Hugo Marshall.

Enquanto entravam na igreja, não havia dito uma palavra a Tearle e suas respostas às perguntas do sacerdote tinham sido só murmúrios, quase inaudíveis. Depois da cerimônia, quando Tearle se inclinou a beijá-la na bochecha, permaneceu rígida. Na igreja havia outras pessoas; sorriam porque parecia que um homem estava se casando com um moço. Zared de cabeça erguida e recusando o braço que Tearle oferecia na saída da igreja, se dirigiu para os cavalos que os esperavam.

Havia montado procurando dominar seu crescente temor. O que esse Howard pretendia fazer com ela?

Pretendia levá-la a propriedade de seu irmão, propriedade pela qual tantos Peregrine haviam morrido? Ele a entregaria a Oliver para que a usasse contra seus irmãos?

— Não sou o diabo —, disse Tearle montando em seu cavalo. — Não deveria me olhar como se quisesse torturá-la.

Não respondeu. Não perguntou para onde se dirigiam, nem o que pensava fazer com ela. Claro, havia dito que a levaria à casa de seus irmãos e que iria viver com os Peregrine, mas não estava certa de poder acreditar.

Tinham deixado às terras dos Marshall levando consigo só o que se podia carregar no cavalo e pouco depois tinham encontrado três homens, homens empregados dos Howard.

Neste ponto Zared percebeu ter sido traída por ele. Praguejou contra si mesma porque sabia que o matrimônio causaria a morte de seus dois irmãos sobreviventes. Tinha cavalgado ao lado do homem que era seu marido sem lhe dirigir a palavra. Várias vezes Tearle tentou falar com ela sem obter resposta. Zared teve que recorrer a todo o seu esforço e a sua coragem para reter as lágrimas, pensando em como matar os três homens que cavalgavam em suas costas, mas sem conseguir. Devia enfrentar o que sabia que aconteceria.

Todos os temores e a tristeza de Zared afloraram durante a primeira noite de seu matrimônio. Howard tinha alugado um quarto em uma estalagem. Durante o jantar se sentou em silêncio na frente dele. Não falou e comeu muito pouco. Lançou um olhar em direção a Tearle e viu que a olhava com uma expressão gentil, quase como se compreendesse o que ela sentia, mas decidiu que não se deixaria enternecer no que dissesse respeito a ele.

Quando chegou a hora de se deitar, juntou todas suas forças para enfrentar a situação, mas Tearle com cortês preocupação a encaminhou para a proprietária da estalagem. Zared não se despiu, mas se sentou rígida na cama esperando-o.

Em pouco tempo o homem entrou no quarto, dirigiu-se para a parte do leito iluminado pela luz da vela e ela logo percebeu que ele estava se despindo. Sentiu o ruído da palha do colchão enquanto se deitava e pouco depois estirou uma mão para tocá-la.

Ante aquele toque todos os temores e toda a cólera de Zared afloraram. Mais tarde não pode repetir com exatidão tudo o que havia dito, mas tinha pronunciado palavras que se tivessem sido dirigidas aos seus irmãos, teriam significado uma surra. Disse o que pensava de sua baixeza e de suas mentiras. Disse que as almas dos defuntos Peregrine viriam para obsedá-lo. Ofendeu-o com todos os insultos que vinham a sua mente e adicionou que se ousasse tocá-la ela se suicidaria.

Tearle estava atônito por suas acusações, por seu ódio…desceu do leito e a olhou:

— Foi um engano, eu pensei que talvez...

— O que pensou? — resmungou Zared.

— Pensava que poderíamos nos comportar como se comportam um homem e uma mulher. Vejo que me equivoquei.

— Somos uma Peregrine e um Howard — disse. — Como poderíamos ser algo diferente? — Acredita que o amaria só porque um padre pronunciou algumas palavras? Crê que pode anular três gerações de ódio graças a alguns momentos passados em uma igreja? Disse que o odeio. Não acreditou.

Tearle a olhou em silêncio. — Não acredito. Eu… a amei desde o primeiro momento em que a vi. Foi tolo de minha parte pensar que esses sentimentos eram recíprocos.— Colocou a camisa, recolheu o resto de sua roupa e alcançou a porta. — Nos vemos amanhã de manhã — disse e deixou o quarto.

Por um momento Zared ficou muito aturdida para falar. Sentou-se na cama e ficou olhando a porta fechada. Que tipo de homem era aquele?

Se uma mulher tivesse falado assim com um Peregrine como ela falou com Tearle…bem…seus irmãos teriam reagido exatamente como Severn reagiu com Lady Anne…mas ele não a amaldiçoara, deixara-a sozinha na noite de núpcias.

Não dormiu muito e na manhã seguinte desceu até o salão da estalagem onde os homens a esperavam. Seu marido não a ajudou a montar como costumava fazer e durante todo o dia não lhe dirigiu a palavra.

A segunda noite descansaram em outra estalagem, mas ele não foi vê-la em seu quarto. Zared estava muito cansada para pensar, mas na manhã quando despertou, tentou dominar o ressentimento que a consumia. Cavalgando, pensou que o silêncio do homem era tão desagradável quanto tinha sido, por algum tempo, seu contínuo falar.

— Para onde nos dirigimos?— perguntou de repente e pronunciou essas palavras em um tom mais belicoso do que pretendia.

Tearle lançou-lhe um olhar severo e Zared se deu conta que havia sinais de cansaço em seus olhos e a barba estava grande. Se não estivesse tão preocupada com sua própria tristeza ficaria preocupada com seu aspecto.

Não podia saber que Tearle passara as duas noites anteriores só e insone, bebendo e amaldiçoando a si mesmo. Congratulou-se consigo mesmo por ter sido inteligente a ponto de ter convencido a mulher a se casar com ele. Foi tolo ao pensar que as palavras pronunciadas durante a cerimônia fizessem com que ela o amasse. Não serviram de nada.

E conhecendo-a bem, não estava preparado ante a veemência com a qual o tinha atacado na noite do matrimônio. Casou-se com ela, mas o que tinha conquistado? Uma mulher que o odiava com toda a alma.

— Estou levando-a onde está meu irmão, de tal forma que possa lançá-la em uma cela e torturá-la. Permitirei que a use em sua guerra contra seus irmãos. Tanto ele como eu, estamos ávidos por possuir esse fantástico castelo. Desejo com todo o coração ver seu irmão Rogan morto e Severn casado com uma mulher que o odeia.

Zared desviou o olhar: — Para onde vamos? — repetiu em tom mais suave.

— Para a minha casa. Não vivo muito bem com meu irmão. A casa pertencia a minha mãe.

Olhou-o surpreendida.

— Surpreende o fato de eu ter tido uma mãe? Pensou que todos os Howard vieram diretamente do inferno?

— Nunca pensei em sua mãe. Seu irmão fez morrer de fome a minha mãe durante um assédio quando eu ainda era uma menina.

Tearle desviou o olhar: — Se é verdade.

Zared se calou por um momento e logo perguntou sobre sua mãe, dizendo que acreditava que ele crescera na França. Ele falou do período que havia passado na França com sua mãe, acrescentando que depois que ela voltou para a Inglaterra, vivia na casa que foi de seu pai para ocupar-se dos que trabalhavam em suas terras. Tearle sempre a acompanhara.

Fez-se outro longo silencio e em seguida o homem a olhou e perguntou:— Sabe por que desejava me casar com você?

— Não — respondeu sincera — Não sei.

— Em parte porque desejo pôr fim a esta guerra. Durou muito tempo. Ao contrário de você, não cresci no ódio. Sei que há uma controvérsia a propósito de quem deveria ter a terra e o título. Meu irmão não tem filhos e a julgar pelo estado de sua saúde não acredito que viva muito.

— Nesse caso você será o duque— disse Zared em voz baixa.

— Sim, terei o título de duque. Pensava que se me casasse com uma Peregrine e desta união nascesse um filho varão, este herdaria tanto o título como as terras.

— Não! — replicou Zared de forma seca. — Trata-se da terra dos Peregrine, sempre foi à terra dos Peregrine. O título de duque pertence ao meu irmão Rogan e depois ao seu filho. Nenhum Howard tem direito a essas terras e a esse título.

Tearle arqueou uma sobrancelha: — Não gostaria que seu filho fosse um duque?

Não havia nenhuma decisão a tomar: — Meu filho não mereceria esse título. Nem você o merece. Pertence ao meu irmão Rogan…olhou-o intensamente: — Se casou comigo para obter esse título e para que tivesse seu filho?

Tearle negou com a cabeça e suspirou: — Sempre pensará o pior de mim? Não sou meu irmão. Só encontrei em toda esta questão, o modo de pôr ponto final a esta cadeia de ódio e você pensa que só desejo o poder. Que devo fazer para demonstrar minha boa fé?

— Quando herdar o título entregue ao meu irmão.

Os olhos do Tearle se abriram: — Sua avó não estava legalmente casada com seu avô. Seu matrimônio é somente uma lenda. Sua família é composta somente por um grupo de bastardos. O rei assim declarou.

— É falso!— gritou ela. — Minha família é legalmente a proprietária de tudo o que seu irmão possui! Por que acredita que ele luta dessa maneira contra nós se não fosse verdade?

— Provavelmente porque seus irmãos mataram aos nossos — respondeu Tearle em voz baixa e depois de uma breve pausa prosseguiu: — Se nosso matrimônio e um filho que nasceria de nossa união não terminar a guerra, qual seria a razão de permanecermos casados?

— Nem eu sei — replicou Zared olhando-o nos olhos.

Tearle devolveu o olhar e logo sorriu: — Cometi algumas loucuras em minha vida, mas nenhuma como esta, Lady Zared, — prosseguiu tirando o chapéu. — Desculpo-me por tê-la obrigado a casar-se comigo. Desculpo-me por ter pensado que de repente podia se interessar por mim. Dei-me conta que fui um tolo. Os Peregrine odeiam mais profundamente do que os Howard amam. Parece que não há maneira de encontrar uma via de solução para esta guerra porque ambas as partes querem a rendição da outra, sugiro pôr fim ao nosso matrimônio.

— Como …. como podemos fazê-lo?

— Apresentarei uma petição ao rei. Estou certo que fazendo a doação de umas terras, ele dará seu consentimento para a anulação de nosso matrimônio, depois disso cada um poderá voltar para o ponto de partida. Seus homens poderão voltar a espiar os meus e os meus aos seus. — Está de acordo?

— Não estou muito certa — respondeu vacilando.

— Não está certa? E qual alternativa propõe? Odeia-me e morreria antes de ser tocada por mim, portanto não há esperanças que de nós dois possa nascer um filho. Proponho permanecermos na casa de minha mãe até quando chegar a resposta do rei. Não acredito que gostaria de viver com você e seus irmãos, nem acredito que gostaria de viver sob o teto de meu irmão.

— Não! — replicou depressa ela. — Não quero viver com os Howard.

— Então está feito desde que esteja de acordo. Não quero ser acusado mais tarde de tê-la obrigado …..tê-la obrigado a casar-se comigo ou de ir para cama comigo. Como disse antes de unir-se a mim, preferiria fazê-lo com… como disse? Com um corcunda levando em sua bochecha a marca de Satanás. É isto o que disse?

Zared ruborizou-se e desviou o olhar. Na primeira noite de seu matrimônio havia dito muitas coisas, não se recordava de todas. Teria dito qualquer coisa nessa noite, contanto que ele não a tocasse. Assentiu.

— Muito bem, vejo que por fim estamos de acordo em algo. Quanto antes o matrimônio for anulado e possamos nos separar eu poderei encontrar mulheres complacentes. — Sorriu como Zared nunca o tinha visto sorrir… todo seu rosto se adoçou e disse: — No torneio estava aquela loira de olhos verde que eu nunca tinha visto antes. E seus cabelos…— Interrompeu-se, limpou a garganta. — Bem, tudo está definido. Quer que nos demos às mãos para confirmar este novo pacto?

Zared pegou a mão e a estreitou com força e logo olhou para outro lado, zangada.

Havia conseguido o que queria, mas por qualquer desconhecida razão não estava feliz.

A visão da casa que tinha pertencido à mãe de seu marido fez aumentar aquela sensação de infelicidade. Era uma casa, não uma fortaleza protegida por altas muralhas, era uma esplêndida casa construída em pedra rosa, rodeada de um grande parque, e entre as árvores divisou vários cervos. Tudo era ordenado, limpo e esplêndido.

Por dentro pensou que era uma casa sem defesas, qualquer um poderia assaltá-la, mas por outro lado estava fascinada por ela.

Quando os cascos de seus cavalos pisaram no cascalho do pátio, várias pessoas saíram da casa para recebê-los; Zared viu três mulheres elegantemente vestidas de brocado e com os cabelos adornados de joias. Tearle apresentou Zared e as damas foram corteses e não demonstraram nenhuma reação ante seu vestuário masculino.

Zared tinha começado a desmontar do cavalo para saudá-las, mas mal teve tempo de inclinar-se, seu marido a puxou pelo braço e a levantou. Disse que essas mulheres seriam suas damas de companhia, como tinham sido de sua mãe. Devia segui-las ao andar de cima, eles se veriam no jantar.

Olhando as desconhecidas, Zared sentiu que a invadia um vago temor. Até esse momento nunca tinha pensado no fato que teria que se vestir como mulher. Estivera completamente absorvida pela cólera com respeito a Tearle, tanto que não tinha pensado em outra coisa. Por um lado, a ideia de vestir objetos femininos a entusiasmava e por outra a aterrorizava.

Os homens, enquanto isso, preparavam-se para ir embora; a jovem pensou que preferia segui-los e pela primeira vez olhou o seu marido sem animosidade: de todas as pessoas que a rodeavam era ele quem conhecia melhor, e não pôde evitar sorrir levemente. Isso pareceu surpreender o homem que não devolveu o sorriso.

— Por aqui, Lady Zared — disse uma das damas.

Zared olhou de novo seu marido para pedir ajuda, para que permitisse segui-lo.

Pareceu compreendê-la e finalmente sorriu dizendo : — Logo irei até você.

Essas palavras a fizeram ruborizar porque pareciam significar que ela não suportava estar separada dele.

Levantou o queixo e seguiu às damas…queria demonstrar que não precisava dele.

Quando chegou ao andar de cima, seu temor aumentou. As três damas pareciam pensar que usava roupa masculina com o objetivo de se proteger e que agora deveria usar um vestido de seda. Apressaram-se em se desculpar por não terem preparado seu quarto.

Zared olhou ao redor. O quarto, cujas paredes estavam forradas de madeira de carvalho, parecia em perfeita ordem. Não se lembrava de ter visto nada igual em sua casa.

Aproximou-se do enorme leito e tocou o colchão.

— Deseja que a ajudem durante seu banho e a vestir-se? — perguntou uma das damas.

Zared não queria demonstrar sua própria ignorância. — Não. Não…eu o farei sozinha.— Viu que as damas trocavam olhares e compreendeu que se equivocou.

— Neste caso prepararemos o banho.

Zared assentiu em silêncio e as damas abandonaram o quarto.

Depois de alguns minutos, quatro homens colocaram no quarto uma enorme banheira de madeira e atrás deles vieram algumas mulheres que traziam água quente, sabão e toalhas.

A água estava muito agradável e Zared estava contente que Liana a tivesse ensinado tantas coisas sobre limpeza pessoal, porque isso a fez parecer diante as damas dos Howard menos inexperiente do que realmente era. Ensaboou o corpo e o cabelo, logo se enxaguou jogando água por cima. Saindo da banheira, colocou os pés no piso frio de pedra e recolheu a toalha. Sua textura era a melhor que conhecia e havia sido aquecida ao lado do fogo. Cheirou-a, em sua casa a limpeza era feita regularmente, mas a roupa não era perfumada.

Continuar: parte 2 de 2