A Conquista
Olhando o homem, seus cabelos, suas vestes…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Olhando o homem, seus cabelos, suas vestes negras, pensou nele como um pesadelo. Os Howard pretendiam arruinar toda a sua vida? Alguma vez se libertaria deles?
Em sua terra não era livre para cavalgar sozinha sem ser detida por um deles, e pelo que parecia, não permitiriam sequer divertir-se no torneio...observou de novo seu inimigo: agora estava tirando do baú uma túnica de veludo vermelho rubi, com o cinto adornado com pele de raposa cinza.
Propusera-se casar com ela...uma união entre um Howard e uma Peregrine...que ideia absurda! Seus irmãos nunca permitiriam viver sob o domínio de Oliver Howard, sem contar que os Howards provavelmente a teriam enclausurado em uma torre, deixando-a morrer de fome.
Tearle não teria força suficiente para lutar contra seu irmão mais velho. Casar-se com ele significaria ser prisioneira de Oliver. Este homem débil quase fora morto por uma ferida leve e nada poderia fazer para defendê-la.
— Olhe para cá — disse entrando na tenda e estendendo-lhe uma túnica vermelha e meias da mesma cor.
— Eu não …— Queria dizer que não colocaria nenhum objeto que pertencesse aos Howard, mas nesse momento Colbrand passou a cavalo. Era tão belo como recordava, talvez mais. Também estava vestido de branco. Uma túnica imaculada como o lago de uma montanha. E seus cabelos reluziam ao sol, que se refletia também sobre sua armadura. E seus olhos…
Tearle pôs os objetos no tórax dela, que retrocedeu um passo e disse em tom rude: — Ponha esta túnica.
A moça tocou o veludo e olhou a pele. Talvez a colocando, Colbrand a apreciaria mais.
— Eu vou, mas não por você — murmurou. — Saia, dando-me às costas — ordenou-lhe.
Sem deixar de observá-lo, trocou-se depressa. Estendeu uma perna, feliz por não ter furos na meia ou manchas de graxa. A pele era suave e esfregou o rosto nela.
— Está vestida?— perguntou Tearle do lado de fora, impaciente. — Seu irmão está lutando contra seu primeiro rival.
Zared saiu e ignorou o modo como ele a olhava.
— Venha, quero assistir o combate. Deve permanecer ao meu lado.
— Farei um esforço — replicou Tearle com uma risada.
Mas Zared nunca alcançou o campo de combate. Não muito longe da desarrumada tenda dos Peregrine viu uma tenda branca, no topo dela ondulava uma bandeira onde ressaltavam leopardos e uma coroa. Como se não controlasse seus próprios passos, a moça se encaminhou na mesma direção.
— Seu irmão…— disse Tearle as suas costas, mas ela não parou.
Diante da tenda estava sentado Jaime, o escudeiro de Colbrand, afiando uma espada.
— Você…— disse olhando-a. Jaime tinha decidido odiar o escudeiro dos Peregrine; Colbrand o recriminara asperamente. — O que quer?— perguntou zombeteiro.
Zared abriu a boca para responder, mas nesse momento Colbrand saiu da tenda. Já não vestia a armadura e seu corpo robusto e musculoso estava coberto por uma curta túnica branca e suas pernas estavam cobertas por meias cinza pálido. Só o que conseguiu foi olhá-lo, sem dizer uma palavra.
Colbrand, a princípio não viu o escudeiro dos Peregrine e se dirigiu a Jaime dizendo:
— Não é assim que se segura à espada. Está distraído...agora mostrarei como se faz.
— Posso fazê-lo — disse Zared aproximando-se do cavalheiro sem deixar de olhá-lo.
Colbrand sorriu. Estava acostumado com os moços que o adoravam, considerando-o um herói, e pensou que o recém-chegado não era exceção. Sempre era gentil com os moços, era possível acontecer que um dia ou outro os encontrasse no campo. Mas na realidade Colbrand era gentil com todos, uma vez que essa era sua natureza.
— Agradecerei se mostrar ao meu escudeiro como se faz — disse.
Zared deu um passo, mas uma grande mão pousou sobre seu ombro, enquanto a voz de Tearle dizia: — O moço deve assistir seu irmão.
— Então deve ir.
Zared se virou entrecerrando os olhos e disse — Meu irmão está em condições de cuidar de si mesmo. Todos os Peregrines sabem cuidar de si mesmos, inclusive eu — Libertou-se de sua mão, virou-se e sorriu para Colbrand e pouco a pouco tirou a espada das mãos de Jaime, que sussurrou: — Você me pagará isso.
A jovem ignorou essas palavras e sentou em um tamborete diante da pedra afiadora. Enquanto crescia, seus irmãos tinham perdido a esperança que chegasse a ser forte como deveria ser um moço e assim, ensinaram muitas coisas secundárias, como afiar espadas e desamassar armaduras. Era muito hábil.
Portanto afiou a espada de Colbrand e quando terminou a estendeu, olhando-o como um cachorrinho olha seu amo para ser acariciado.
— Ótimo trabalho— disse o cavalheiro fazendo percorrer um dedo sobre o fio, e sorriu de um modo tão doce que Zared pensou estar de novo a ponto de desmaiar.
Nesse momento, se aproximou da tenda um mascate com doces em uma grande bandeja pendurada no pescoço.
— Um trabalho como este deve ser recompensado— disse Colbrand. — Meninos, estão com fome? Não…— perguntou rindo. — Na sua idade sempre se tem apetite— Deu uma moeda ao vendedor e disse para Zared e Jaime que escolhessem o que quisessem.
Zared indicou um pedaço de doce com cerejas e quando o teve entre suas mãos vacilou. Vinha de Colbrand e gostaria de conservá-lo, tê-lo para sempre. Entretanto, morria de fome e no final o comeu, mas lentamente.
— Já competiu?— perguntou.
— Uma vez— respondeu o cavalheiro sorrindo afetuosamente para o moço que o olhava com olhos aduladores. Devia ter ouvido falar dele, dos numerosos prêmios que tinha colecionado no transcurso dos anos.
— E ganhou — adicionou Jaime em tom belicoso. — Colbrand nunca foi desmontado em sua vida.
— Vamos, Jaime — disse Colbrand — não devemos tentar o destino. Talvez neste torneio me desmontem. Tem o seu irmão, por exemplo. É bom com a lança?
Zared mordeu o caroço da cereja e depois, em vez de cuspi-lo, secou-o e o pôs na ponta do nariz. — É muito bom — respondeu — mas com sua habilidade e sua prática também fará uma boa apresentação com ele.
— Uma boa apresentação! — exclamou Jaime. — Colbrand desmontará seu irmão.
Ao escudeiro não agradava o fato que seu patrão prestasse tanta atenção nesse moço de aspecto agradável, que sabia afiar a espada melhor que ele. Não gostava do modo que as pessoas andavam contando por aí, que os Peregrine, apesar de serem esfarrapados, eram ótimos combatentes. Sabia quanto Colbrand desejava dele um bom comportamento, mas as brincadeiras desse moço o incomodavam, e se lançou sobre ele.
O primeiro instinto de Tearle foi deixar que os dois fizessem as pazes. Zared se colocara em ridículo com Colbrand e não havia gostado do fato. Como podia pôr olhos de cordeiro degolado em um homem tão idiota que não percebia que era uma moça? Como podia sentir-se atraída só por um belo rosto e uma bela armadura?
Nem ele nem Colbrand tiveram tempo de interromper a luta porque Severn chegou a galope, com a armadura e cabelos molhados de suor. Agarrou Zared e Jaime pela gola da túnica e os separou, atirando o segundo no chão de terra como se fosse um trapo, arrastando para a tenda a primeira, sem se importar com os olhares das pessoas. Tearle os seguiu.
A moça percebeu que estava zangado, e sabia que quando um de seus irmãos estavam nesse humor, convinha não abrir a boca.
— É meu escudeiro— disse em voz baixa, furioso. — Seu trabalho consiste em me passar as lanças, cuidar de meus cavalos e me dar de beber quando tenho sede. No entanto, passa o dia dormindo e quando desperta não aparece, mas se põe ridícula com esse mequetrefe, esse…
— Colbrand não é…— começou a dizer a moça, mas calou-se. Não era o momento de discutir com o irmão.
Este se aproximou, fazendo-a retroceder.
— Estou mortificada, Severn— murmurou.
— Sabe o que digo? Penso em mandá-la para casa.
— Ah, não, peço que não o faça. Ajudarei, juro.
— Como? Pondo olhos doces nesse Colbrand? Não entende que também é um pretendente à mão de Lady Anne? No jantar ouvi dizer que ela tem certo interesse por esse homem, como seu pai tem.
— Não queria fazer nada de mal. Seu escudeiro é um estúpido. Nem sequer sabe afiar uma espada, queria mostrar o que me ensinou e …
— Afiaste sua espada?— Severn estava tão encolerizado que os olhos saíam das órbitas. — A espada que usará contra mim? Onde fica sua lealdade? Deseja que faça correr o meu sangue?
— Não, Severn, me acredite, não queria fazer nenhum mal, só ser útil. Como já disse, seu escudeiro não sabe sequer afiar uma espada.
— E nem mesmo sair de sua cama. É o que quer desse Colbrand? Que me derrote?
— Não, Severn, claro que não. Só…
— O quê?— trovejou o homem.
— Eu…— O que podia dizer? Que achava Colbrand atraente mais do qualquer outro? Que quando estava ao lado de Colbrand tremia?
— Acredito que ela o quer em sua cama— disse Tearle calmamente às costas de Severn.
— Não!— gritou Zared. —O que sabe do que eu quero? O que sabe de… algo? É…
— Ela?— perguntou Severn. — Disse a alguém que é uma mulher?— sentou-se em um tamborete, tomando a cabeça com as mãos. — Liana tinha razão.
— Não disse nada!— balbuciou Zared. — Percebeu sozinho.
Severn olhou Tearle, com expressão interrogativa, mas o jovem permaneceu calmo e disse:
— Olhe-a. Sinceramente diria que é um homem? Esse Colbrand de quem gosta tanto que mal pode permanecer de pé quando está ao seu lado e, entretanto, esse tolo acredita que seja um moço. Discute como uma moça, fala como uma moça, sua voz é a de uma moça. Como podia não perceber?
Severn refletiu depressa. Se descobrissem que Zared era uma mulher, Oliver Howard também poderia saber. Havia jurado capturar todas as mulheres Peregrine e tentaria capturar Zared também. E como ele podia protegê-la se passava todo o tempo no campo de torneio? Nesse mesmo dia, em vez de estar com ele, ficou flertando com um homem que era seu rival. Quem podia dizer que Colbrand não fosse pago por Oliver Howard?
— Deve voltar para Rogan— disse por fim. — Aqui está em perigo.
— Não!— gritaram Zared e Tearle juntos.
Tearle sabia que se a jovem se fosse, não a veria nunca mais. — Cuidarei dela — apressou-se a dizer.
— Você?— perguntou Zared, zombeteira. — Você, um…
— Um o quê?— perguntou o jovem, desafiando-a a dizer a Severn que ele era um Howard.
Zared olhou seu irmão. — É um covarde, um fraco e não está em condições de cuidar de ninguém.
Em algum outro momento Severn ficaria surpreso com a animosidade de sua irmã para com esse estranho, mas agora tinha muitas coisas em que pensar. —Liana o enviou, ela o escolheu — disse. Sua estima por sua cunhada tinha aumentado. Deveria tê-la escutado, aceitado o que havia preparado para ele e deixado Zared em casa.
— Liana não sabia…
— Não sabia o que?— perguntou Severn.
— Não sabia que tipo era. Com efeito, ele é muito fraco para proteger qualquer um. Se Howard nos atacasse, provavelmente nos entregaria a eles.
Severn olhou o homem que Liana enviou e não pôde concordar com sua irmã. Smith era robusto e vigoroso. E Zared não o tinha visto trabalhar ao descarregar as armaduras. E no treinamento havia visto ele manejar a espada de modo tal que o fez pensar ter sido treinado para o combate.
— Jura que a protegerá?— perguntou-lhe.
— Juro — respondeu Tearle, e sua voz e olhar eram sinceros.
— Não! Severn, não pode fazer isto!
— Você pediu por isso — replicou Severn, levantando-se e sentindo-se muito melhor. Depois, voltando-se de novo para Tearle — Vigie-a de tal maneira que ninguém saiba que é uma moça. Mantenha-a longe da luta e das camas dos homens, prometi a Liana levá-la de volta para casa intacta.
— Protegê-la-ei a cada instante — disse Tearle. — Tem minha palavra.
— Bem— exclamou Severn. — Está em suas mãos. Faça de um modo que ninguém perceba a verdade sobre ela. Agora devo ir —e assim dizendo saiu da tenda.
Zared permaneceu onde estava, olhando seu irmão que se afastava. Era incrível…
Deixou-lhe sob o amparo de seu obstinado inimigo… um Howard devia protegê-la dos Howard!
— Não me olhe assim— disse Tearle. — Quantas vezes tenho que dizer que não seria capaz causar-lhe mal? Protegê-la-ei.
— Sua família tem matado os membros da minha por gerações. Como posso acreditar agora que um Howard seja meu amigo? No entanto, está aqui para casar-se comigo, não é certo?— concluiu em tom desafiante.
Ante essas palavras o jovem se sobressaltou, perguntando-se por que não ia embora e a abandonava ao seu destino. Talvez sentisse sobre seus ombros o peso dos pecados de seus antepassados…talvez eles realmente tenham roubado as terras dos Peregrine…
— É hora de jantar — disse — e deve ajudar seu irmão e seus homens.
— Devo ... fazer o quê?
Tearle sorriu. Levava o título de escudeiro, mas também o nome Peregrine.
Geralmente, quando um menino alcançava a idade de sete anos era afastado de casa, e permanecia um tempo junto a uma família que não era a sua. De fato os jovens aprendem com maior dedicação com estranhos do que com seus familiares. Zared estava acostumada a jantar junto com Severn e agora deveria ir à procura de comida para ele.
— Disse ao seu irmão que a protegerei, mas encontrarei uma maneira que desempenhe suas tarefas de escudeiro. Se estiver ocupada, terá menos tempo para pôr os olhos doces em Colbrand.
— Já ouvi ordens suficiente de você — murmurou a moça, saindo da tenda e acrescentou: — Vou jantar por minha conta.
Zared teve que abrir caminho entre dois escudeiros para obter a carne que Severn havia dito que buscasse. Tentava controlar seu mau humor, mas não era fácil. Severn gostou muito da ideia de ser servido por sua irmã, e ao mesmo tempo queria castigá-la por não tê-lo atendido durante o dia. Ele indicou a carne que se encontrava nas mesas e ordenou que trouxesse uma porção.
— Leve também um guardanapo — sugeriu Tearle.
— Por quê? Não o usará— rebateu ela.
Naturalmente Severn decidiu precisamente o contrário e a moça teve que voltar para procurar um guardanapo.
A cada movimento que fazia, olhava em direção a Tearle. Severn o tinha feito sentar a sua direita e ante os olhos de todos pareciam dois ótimos amigos. Amigos que têm um inimigo comum, pensou a moça, e esse inimigo era ela.
O jantar durou muito tempo e Zared ocupadíssima, não teve tempo de olhar ao redor. Tinha sonhado tanto em assistir esse torneio com o irmão…mas até esse momento tudo tinha sido um desastre.
Finalmente a comida terminou e os homens, a família Marshall, o rei e os convidados começaram a sair do enorme salão. Alguns jovens propuseram a Zared ir “às mulheres” com eles, mas ela recusou. Serviu-se de um grosso pedaço de carne, pão e um copo de vinho e saiu do salão.
— Eu a esperava — disse Tearle quando a viu.
Por pouco não deixou cair o copo de vinho. Não conseguia libertar-se desse homem? — Me deixe em paz — disse-lhe.
— Jurei ao seu irmão protegê-la.
— Do que?— Não entende que não o quero ao meu lado? Vá procurar qualquer outro a quem impor sua presença. Deixe-me, quero estar sozinha.
Tearle a olhou e se perguntou por que insistia em permanecer ao seu lado, se não era bem-vindo. Enquanto ele estivesse presente no torneio, Oliver não poderia lhe causar mal. Olhou ao redor e viu centenas de pessoas que conversavam, divertiam-se, grupos de jovens que brincavam com grupos de moças. As elegantes damas estavam acompanhadas por impecáveis cavalheiros. Havia vendedores ambulantes, acrobatas que se exibiam, cantores e músicos.
— Está bem, vá — disse — mas não permaneça muito tempo longe da tenda, ou serei obrigado a procurá-la.
Zared se afastou quase correndo para afastar-se dele o mais rápido possível.
Comeu, vagou para cá e para lá, observou as mercadorias dos vendedores, admirou os acrobatas e um cão que latia para um urso encadeado. Para ela, todas as coisas representavam novidades e por um tempo atraíram sua atenção.
Mas sua alegria desapareceu quando uma formosa moça da aldeia começou a paquerá-la. Nem sequer lhe dirigiu um olhar, mas ela em vez de ir embora, pediu que a acompanhasse em um passeio. Zared deu a volta e a deixou ali mesmo.
Algumas outras moças, filhas de ricos mercadores, elegantes e com joias, passeavam conversando e Zared observou seus vestidos. Ela gostaria de se vestir como elas.
— Vem conosco? — gritou um moço, mas ela retrocedeu e negou com a cabeça.
— É um dos Peregrine— escutou dizer, virando-se para outros que caíram em risadas.
Zared se afastou com a sensação de não pertencer a nada e a ninguém. Não podia participar do grupo de moças e não podia estar com os moços. Seu ingresso no cortejo com seu irmão e seus homens resultou em brincadeira da multidão.
— Amanhã Severn demonstrará o que vale— disse a meia voz, prometendo ajudar seu irmão de qualquer modo. Não permitiria que aquele odioso Howard desse um sonífero para beber e fazê-la dormir o dia todo outra vez.
As pessoas e a confusão haviam perdido o interesse para ela, e de repente desejou estar em casa, vagar ao redor do castelo, ouvir os cantos das damas de Liana.
Perguntou-se onde estaria Severn. Provavelmente com alguma mulher, pensou desgostosa. Seu irmão, pelo que se via, sempre encontrava facilmente mulheres com as quais divertir-se.
Afastou-se da zona ruidosa e alcançou um arroio que corria perto da propriedade dos Marshall. Teve a impressão que cada arbusto dos arredores escondia um casal, e se sentiu mais só do que nunca. Caminhou pelo arroio; já era noite profunda e a lua brilhava.
E por um momento a moça parou, contendo a respiração.
De pé com a água chegando aos tornozelos, de costas estava Colbrand completamente nu. Ao olhá-lo sentiu invadir uma sensação de calor, olhou-o e os joelhos tremeram. De repente o homem se virou, viu-a e disse: — Ah, o jovem Peregrine. Venha me lavar as costas.
Zared tratou de controlar sua emoção; entrou na água sem se preocupar em tirar os sapatos, pelo simples fato que o tinha esquecido e continuou a olhar o corpo nu de Colbrand.
Tomou o pedaço de sabão que lhe estendia e começou a esfregar o seu dorso, os braços e as nádegas.
Colbrand riu: — Parece que é melhor que meu escudeiro em tudo. Como é que não foi atrás das moças como fez Jaime?
— Eu..— começou a dizer, o fato de tocá-lo a impedia de falar. Por um momento o pânico a assaltou. Colbrand teria se dado conta que era uma mulher? Ele a teria beijado?
— Vá procurar um balde para me enxaguar — disse-lhe e ela obedeceu.
Depois o homem se ajoelhou diante dela, de maneira que pudesse enxaguá-lo jogando a água com o balde e ao fazê-lo, a moça sentiu que o coração pulsava alucinadamente…Colbrand estava tão perto…
— Agradeço-lhe muito — disse, levantando-se e dirigindo-se para a borda, onde começou a secar-se.
Zared permaneceu na água sem deixar de olhá-lo, se perguntando se no mundo existia outro homem com um aspecto tão atraente.
— Quer permanecer na água a noite toda? — perguntou o homem sorrindo.
— Não, não. — apressou em alcançá-lo sem dar-se conta que seus pés estavam gelados, observando-o enquanto se vestia.
— Vai... se encontrar com alguém?— conseguiu perguntar, pensando que se fosse uma mulher seria capaz de lhe arrancar os olhos.
— Lady Anne — respondeu Colbrand. — Seu pai me convidou para uma conversa durante as justas amanhã e acredito que Lady Anne estará presente.
— É muito bela — replicou Zared em sua voz havia resignação.
— É rica — ele acrescentou rindo. — Agora devo ir. Se porventura ver meu escudeiro, diga que durma um pouco esta noite, desejo que amanhã esteja descansado porque necessitarei dele.
Fez um pequeno gesto de saudação com a mão e se afastou.
A moça permaneceu olhando-o enquanto se afastava, logo se sentou na borda fria olhando a água. Como podia esperar que Colbarnd a amasse, se a sua rival era Lady Anne? Não podia oferecer nem mais beleza e nem mais dinheiro que ela. Não podia oferecer nada do que oferecia Lady Anne?
— Talvez um caráter mais doce— disse em voz alta, recordando o encontro de Severn com a mulher.
Permaneceu um longo tempo nessa posição, completamente perdida em seus pensamentos e não ouviu o homem que tinha chegado.
— Estive procurando-a — disse Tearle.
Zared estava tão abatida que nem sequer protestou e continuou a olhar o arroio.
Tearle tratara de se distrair durante a noite e ao contrário de Zared, participou de várias reuniões similares durante sua estadia na França e havia poucas coisas que podiam despertar seu interesse. Algumas mulheres lhe lançaram olhares lânguidos, mas não tinha feito o maior caso. Por razões que não compreendia, gostava somente de mulheres com os cabelos loiro-avermelhados…e sem dúvida gostava de Zared pela cor de seu cabelo. Depois de uma hora começara a procurá-la e preocupar-se porque não a encontrava.
Finalmente tropeçou em Colbrand e deixando de lado seu orgulho perguntou se porventura vira o jovem Peregrine. O cavalheiro havia dito que Zared o ajudara a tomar banho e ante aquela notícia, Tearle foi invadido pela raiva. Pouco depois a encontrou.
Poderia tê-la reprovado, dizer que era ridícula, mas nos olhos da moça havia um olhar que o impediu de fazê-lo.
— É hora de deitar-se — murmurou. — Amanhã de manhã seu irmão estará no campo muito cedo.
— Ali estarei — replicou Zared sem deixar de olhar a água.
— O que a atormenta?— perguntou-lhe em voz baixa.
Virou-se para olhá-lo com os olhos brilhantes e disse: — Você! Por que você se deu conta que sou uma mulher enquanto os outros não o fazem?
— Não sei. Se você está se referindo a Colbrand, não se dá conta porque é um parvo. É como um animal inteligente o suficiente para lutar, mas não para pensar.
— Por que o odeia? Por que sabe fazer coisas que você não sabe? Está com ciúmes de todos aqueles que são verdadeiros homens?
Fez menção de levantar-se, mas Tearle pegou-a por um braço e a obrigou a sentar-se de novo.
— Isso é o que faz um homem, um verdadeiro homem, aos seus olhos? A habilidade de lutar? Desmaiou por Colbrand antes de vê-lo em combate. Como sabe como é um verdadeiro homem? Entrou na água com ele, percorreu com suas mãos seu corpo nu e não foi inteligente o suficiente para captar que era uma mulher que o estava tocando, uma mulher que o deseja. É a estupidez que faz um homem, um verdadeiro homem, aos seus olhos?
— Está com ciúmes — replicou Zared, atônita. — Está com ciúme de Colbrand. Por quê? Porque pode ter todas as mulheres que deseja, enquanto você não pode ter nenhuma?
— Não posso ter nenhuma?— observou-a longamente, levantou-se e perguntou: — Não me vê? Não poderia esquecer por um momento que sou um Howard e me olhar?
Zared levantou os olhos…Tearle acaso teria razão? O fato de ser um Howard a impediria de pensar em qualquer outra coisa.
O jovem se afastou apertando os punhos porque percebeu que suas palavras não tiveram nenhum efeito sobre ela. Bem, não importava, disse pela enésima vez. Deveria se importar pelo que uma garota pensava dele? Deveria ter ido se divertir como outros, rir, beber com uma mulher em seus joelhos e outra ao seu lado, e no entanto estava ali, na escuridão, tentando fazer uma jovem teimosa entender que ele era tão atraente como o idiota do Colbrand. Sim, ele era atraente, rico, forte, culto e no entanto, ela o tratava como se fosse o filho de um camponês.
Virou-se para ela: — Venha, voltemos para a tenda de seu irmão. Irá se preocupar se não vê-la voltar.
— Severn não passará a noite sozinho, a não ser com uma mulher.
Pronunciou aquelas palavras em um tom que fez Tearle sorrir, pois percebeu que permaneceu à beira do arroio pensando em sua própria tristeza, sem dúvida porque Colbrand não captou que ela era uma mulher.
Não suportava vê-la triste, sabia que nela o orgulho era mais forte que a autocompaixão. Então, com fingida severidade disse-lhe: — Peregrine, o fato é que…enfim, se vestisse um lindo vestido, Colbrand a notaria. Qualquer homem se apaixonaria por você.
Zared reagiu como Tearle esperava. Levantou-se de um salto parando na frente dele. — Poderia certamente ter qualquer homem. Liana diz que sou bonita.
— Quem disse isso foi uma mulher ou um homem?— perguntou rindo.
Mas Zared não se deu conta que ele brincava e estava a ponto de chorar. Estava dizendo as coisas que ela também pensava. — Um homem me diria isso, se soubesse que sou uma mulher. Poderia se fazer apaixonar muitos homens, se...
De repente o desejo de brincar abandonou Tearle. Certo, essa moça podia fazer qualquer homem se apaixonar, mas de quem gostaria?— Um homem como Colbrand?— perguntou zangado. — Não a notou nem sequer quando percorria seu corpo com suas mãos. Por que acredita que o contrário aconteceria se vestisse uma roupa diferente?
— Odeio-te — murmurou Zared. — Odeio-te — Afastou-se dele e começou a caminhar.
Tearle não tinha a intenção de fazê-la chorar, mas não conseguia suportar o interesse que demonstrava por Colbrand. — Gostaria que eu dissesse que é bonita e feminina mais do que qualquer outra mulher que já conheci?— perguntou em voz baixa depois de havê-la alcançado.
Zared virou a cabeça, não queria que visse suas lágrimas.
— Suas palavras não teriam nenhuma importância para mim.— Replicou e se afastou tentando manter os ombros rígidos.
Tearle a olhou enquanto se afastava e logo a seguiu em direção da tenda.
Criticando-a, somente tinha conseguido fazer mal a si mesmo.
Capítulo Seis
A tenda principal dos Peregrine continha três camas. Quando Tearle a alcançou, Zared estava deitada em uma delas, tampada até o queixo com uma ligeira manta. O homem nada disse, despiu-se e se deitou.
Não adormeceu imediatamente e permaneceu olhando o teto da tenda, refletindo.
Zared exercia sobre ele um efeito que não gostava, estava transformando-o em uma pessoa que não conhecia. Onde estava o homem que sabia beijar, acariciar uma mulher, o homem que cortejava as mulheres, brincando com elas? Zared o enraivecia.
Fechou os olhos com a intenção de dormir, prometendo a si mesmo não se zangar mais se Zared fizesse algo.
Despertou somente quando Severn entrou na tenda e se deitou em sua própria cama. Pouco depois teve a sensação de que algo não estava bem. Permaneceu deitado, em silêncio, com o ouvido atento, tentando perceber se havia algum perigo. De repente seu cérebro foi tomado pela ideia que fora da tenda pudesse estar seu irmão, e sua mão tomou a espada que estava ao lado da cama.
Mas depois percebeu que “esse algo” estava acontecendo dentro da tenda.
Levantou-se e aproximando-se da cama de Zared, inclinou-se para observá-la. A moça estava deitada em silêncio, mas Tearle sabia que estava chorando. Sentou-se ao seu lado e a tomou entre seus braços, dando-se conta que dormia. Chorava sempre enquanto dormia? Chorava sempre de maneira tão silenciosa?
Manteve o corpo dela, coberto somente com um tecido de linho, contra seu próprio tórax e a balançou docemente. Ela se apegou a ele, continuando a chorar e verdadeiramente parecia uma menina. Estreitou-a mais para si, acariciando seu cabelo, e perguntando-se o que a fazia chorar.
Severn por sua vez também despertou. Sabia que sua irmã estava chorando porque o fazia com frequência no sonho, exatamente como tinha feito sua mãe, mas não se aproximou. Permaneceu deitado, em silêncio, preparado para ajudá-la caso necessitasse e não fez nada para que cessasse o pranto.
Mas quando viu que Smith se movia e se aproximava da cama de sua irmã, tomou a faca. Por que ele rondava durante a noite pela tenda? Esteve a ponto de lançar a faca, mas hesitou ao ver que Smith a tomava em seus braços. Severn ficou atônito. Como Smith deu-se conta que a moça chorava? Somente ele, Severn, sabia que a jovem chorava durante o sonho. Nenhum de seus outros irmãos percebeu suas lágrimas, entretanto, esse homem sim, tinha descoberto.
Severn relaxou, sem deixar de observar às duas figuras imóveis na sombra, e pensou em Liana. Sua cunhada estava mais louca do que pensava. Tinha eleito Smith, talvez pensando que fosse o homem adequado para Zared.
Severn, observando Smith que segurava sua irmã entre seus braços, recordou os anos em que a mãe de Zared estava viva. Seus irmãos não gostavam de ouvi-la chorar em sonhos e a seu modo tinham tentado reconfortá-la. Por quase um ano, tinham permitido que chorasse sem se queixarem, mas durante o segundo ano de seu matrimônio com seu pai insistiram que parasse, e essas palavras a tinham feito chorar ainda mais.
Tinha sido Severn a frear essas lágrimas. Já era um robusto moço de dez anos, sua mãe havia falecido há muito tempo, mas as lágrimas da madrasta o tinham comovido. De noite subia as escadas, entrava no quarto da mulher e se deitava ao seu lado. Sua menina, Zared, havia sido arrebatada no momento do seu nascimento, e tomava em seus braços Severn, estreitando-o até que ambos dormiam.
Severn temera que seus irmãos e seu pai se zangassem se descobrissem que tinha ido consolar uma mulher chorando, mas sua madrasta não havia dito nada a ninguém e durante o dia, nas estranhas ocasiões que se encontravam, nunca falou sobre suas visitas noturnas.
Às vezes o moço encontrava uma fruta, ou um pedaço de doce perto de sua cama.
No ano de 1434, quando esteve muito doente, a mulher permanecera ao seu lado dia e noite, cuidando, fazendo-o beber caldo e subministrando remédios. Ainda não havia melhorado totalmente quando sua madrasta partiu com seu marido e o filho maior deste, William, para o castelo de Bevan.
Os Howard haviam assediado o castelo de Bevan e sua madrasta, seu pai e William tinham morrido pela mão deles.
Severn e seus irmãos sobreviventes decidiram criar Zared como um rapaz, para protegê-la dos Howard. Talvez influenciados pela lembrança da mulher chorando, que seus inimigos deixaram morrer de fome. Provavelmente foi o lindo rostinho de Zared, suas largas pestanas, seus belos cabelos e seu modo de sorrir os recordava do fato que era difícil proteger uma frágil mulher.
Por momentos pensavam que eram muito rudes com a menina, mas um ano depois da morte de sua mãe, homens tinham capturado a primeira mulher de Rogan. Na inútil tentativa por salvá-la, os Peregrine tinham perdido dois irmãos, Basil e James, e ante aquela recordação, Severn fechou os olhos. Quanto aos homens Peregrine só restaram três, Rowland, que era o mais velho, redobrou a vigilância contra a família rival, e induziu os irmãos a treinar continuamente para a luta, obrigando Zared a fazer o mesmo.
Quatro anos antes, quando Rowland foi morto pelos homens de Howard, Rogan e Severn se desesperaram. Rowland era o guia, o melhor do que restou de sua família.
Zared tinha começado a chorar em sonhos, igual a sua mãe, depois da morte de Rowland. A primeira vez que a ouviu, Severn perguntou-se se no castelo de Moray não haveria um fantasma, mas a noite seguinte descobriu que Zared jazia semi adormecida com a cabeça sobre uma almofada molhada. Tinha treze anos, mas quando a tomou em seus braços pareceu-lhe tão pequena e frágil. Despertou e implorou que não dissesse nada do acontecido e ele prometeu não trair seu segredo, e manteve a promessa. Mas nunca deixou de perguntar o motivo do pranto de sua irmãzinha. Quem sabe, se nem ela mesma sabia.
Uma vez Severn havia dito a Rogan que talvez fosse melhor permitir que Zared se mostrasse como uma mulher. Mas enquanto Rogan refletia, Oliver Howard tinha raptado sua segunda mulher, Liana, e depois de havê-la salvado, os irmãos Peregrine haviam redobrado sua vigilância dizendo que Zared, por segurança, deveria continuar fazendo acreditar a todos que era um varão.
Olhando Smith ao lado de sua irmã, Severn sorriu. Para ele, Zared era tão obviamente feminina que custava pensar que outros não percebessem. Ele e Rogan a criticavam sempre porque se zangava facilmente e a comparavam com um gato selvagem, todo garras e grunhidos. Mas os homens que trabalhavam com eles nunca perceberam que Zared era uma mulher e até Liana, sua inteligente cunhada, teve que ser informada do fato.
Logo chegara Smith. O homem declarou ter percebido desde o começo que Zared era uma moça e Severn acreditou. Sabia que Liana não falaria disso, mais do que com suas damas, porque conhecia muito bem o perigo que Zared corria….mas esse homem adivinhara.
Viu que Smith recostava Zared na cama e voltava para a sua. Se Zared se casasse e se fosse com seu marido, estaria fora da guerra dos Peregrine-Howard, viveria longe, em paz e serena. Poderia usar lindos vestidos e ter seus cabelos soltos, como quando era menina. Severn pensou que gostaria muito de ver sua irmã com um menino em seus braços, sorridente e feliz.
Seria muito agradável vê-la comportar-se como uma verdadeira mulher, e não preocupada em treinar com a espada.
Sorriu de novo.Tinha a impressão que Liana tinha feito uma boa escolha.
Tearle despertou cedo, mas não tanto como os Peregrine, que se encontravam fora da tenda, porque se escutava suas vozes e o ruído de água. Este último recordou que Zared na noite anterior ajudou Colbrand a banhar-se, e imediatamente, ainda antes de estar completamente acordado, sentiu-se invadido pela cólera. Colocou as meias e tomou sua túnica de linho, mas parou. Talvez fizesse bem a Zared pôr seus olhos sobre outro homem, além de Colbrand.
Saiu da tenda, nu até a cintura, bocejando e estirando-se. Severn estava sentado em um tamborete, também nu até a cintura, e Zared estava lavando suas costas.
— Bom dia— disse Severn a Tearle e sorriu.
Tearle não olhou em direção de Zared, mas devolveu o sorriso ao homem. — Está preparado para a luta?
— Temo que não trouxe comigo lanças suficientes para substituir todas as que romperei hoje.
Zared esvaziou o lavatório cheio de água fria sobre o dorso do irmão, depois este começou a secar-se com uma toalha não muito limpa.
— Sente-se, Smith — disse Severn, levantando-se e indicando o tamborete. — Meu escudeiro o lavará.
— Não o farei! — exclamou Zared, mas olhando o irmão compreendeu que não podia desobedecer.
Enquanto seu inimigo se sentava, outra vez pensou que o melhor teria sido ficar em casa. Ensaboou as mãos e as fez percorrer o dorso do jovem sem deixar de praguejar contra si mesma, e contra todos os homens, por seu irmão ter imposto essa tarefa tão desagradável. E Tearle perguntou: — É tão agradável como lavar Colbrand? Soube que também o lavou.
— Sim, lavei-o e gostei — respondeu baixo.
— E não gosta de me tocar?
— Como poderia gostar? É meu inimigo.
Detestava seu modo de desafiá-la, mas na realidade detestava tudo dele… era um ser frágil…e, enquanto observava o corpo que estava lavando, percebeu que nele não havia nada de frágil. Mas Tearle não era robusto como Colbrand…ou era. Possivelmente até mais musculoso.
Endireitou-se, afastando-se ligeiramente dele. Talvez Tearle tivesse o aspecto de um homem, mas ela sabia bem que era um ser sem espinha dorsal, um..
— Então, está perdendo o tempo?— resmungou Severn. — Não tem alguma armadura para lustrar, algum cavalo para te ocupar? Ou você gosta somente de afiar as espadas de meu rival?
Zared esvaziou mais água fria sobre o dorso de Tearle, passou-lhe uma toalha suja e se dirigiu quase correndo para a tenda. Não imaginava que a acusasse de preguiça.
Depois de uma hora, Severn estava vestido com sua armadura e se encontrava montado em seu cavalo de combate, preparado para sair. Lutaria durante toda a manhã.
Diante das tribunas se levantava uma parede baixa de madeira e os duelistas deviam correr um em direção do outro, segurando uma lança, devendo destroçar a do adversário. Não deveriam golpear debaixo da cintura e vencia o que despedaçasse o maior número de lanças.
Severn, cavalgando em direção ao seu rival, teve que se desviar para não ser golpeado, e ao mesmo tempo tentar golpeá-lo novamente. Com certeza a melhor tática consistia em manobrar de modo que a lança do adversário golpeasse sua sela ou seu cavalo, porque em tal caso os pontos contra o rival iriam aumentar.
Quando a primeira lança foi destroçada por Severn, no campo se elevou um aplauso. O homem voltou para seu posto, onde Zared o esperava com uma nova lança. O espetáculo se repetiu muitas vezes: Severn galopou, desmontou os rivais e destroçou muitas lanças contra suas armaduras.
— É hábil — disse Tearle a Zared. — Tem o favor do público.
— Sim — replicou a jovem com orgulho — O público não fez caso às plumas dos cascos, e esqueceu o cortejo. Agora Severn é o herói do dia.
Tearle tinha que admitir efetivamente, que cada encontro era favorável a Severn, este era saudado com um estrondoso aplauso. Somente a Colbrand haviam reservado as mesmas ovações.
Perguntou à jovem: — Para quem estará seu favor quando seu irmão lutar contra Colbrand?
— Para meu irmão, naturalmente — respondeu, embora depois de um pequeno vacilo, desviando o olhar.
Houve muitos duelos entre outros cavalheiros, durante os quais Severn permaneceu ao lado de sua irmã, observando as lutas e bebendo jarros de cerveja.
— Não obterá a mão de Lady Anne — disse uma voz de desprezo ao ouvido de Zared. Esta se virou e viu Jaime, o escudeiro de Colbrand, acalorado como ela pelo esforço de correr para entregar novas lanças a seu patrão.