A Conquista
Deu-se conta que zombava dela: — Você…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Na manhã seguinte Rogan e Severn se afastaram a cavalo com uma centena de homens. Zared pediu para segui-los, porém seu irmão mais velho se limitou a lançar lhe um olhar de fogo…já sabia que ele a considerava uma inimiga.
— As mulheres esperam enquanto os homens vão morrer — havia murmurado Liana olhando o grupo que se afastava. Mas Zared era incapaz de esperar sem fazer nada.
Por horas não deixou de percorrer os terraços, observando o horizonte.
Por dois dias perdeu a fé em seu marido, dizendo a si mesma que não era possível que a tivesse traído e também a sua família. Continuou a repetir que Tearle não podia ter raptado o menino, tentou recordar os doces momentos passados com ele e o que sempre havia dito a propósito de seu desejo de pôr fim à guerra entre os Peregrine e os Howard.
Por volta da metade do terceiro dia Rogan enviou uma mensagem a sua família e com ele chegou um homem que declarou ter visto quatro homens que levavam um menino em direção à propriedade dos Howard; e que reconheceu Tearle como sendo um deles.
Neste ponto Zared deixou de ter fé em seu marido.
Permaneceu silenciosa mas os pensamentos se amontoavam na mente e não conseguiu enganar a sua cunhada que quando a viu sair da casa, seguiu-a e descobriu que colocava a armadura que seus irmãos lhe deram.
— Não vá atrás deles — disse.
— Foi eu quem o trouxe para cá e serei eu quem o encontrarei. Eu o encontrarei e o matarei. Receber-me-á com alegria e uma vez a seu lado, eu o matarei.
Estava decidida e não permitiria que ninguém a detivesse.
Porém Liana chamou três homens e ordenou que impedissem sua cunhada de sair e que a mantivessem sobre estrita vigilância, e a jovem nada pode fazer a não ser se resignar.
Dois dias depois foi anunciado que seus irmãos estavam retornando.
Zared desceu as escadas correndo e viu seu marido cavalgar junto a Rogan e Severn.
Tinha a cabeça inclinada, as mãos amarradas nas costas.
Observou-os enquanto se aproximavam e percebeu que Tearle tinha sido golpeado.
Por um momento, só por um momento, sentiu que a dor a invadia recordando suas mãos, lembrando-se do seu sorriso. Porém se obrigou a lembrar do modo como havia traído os Peregrine.
Desceu a escada e quando chegou, ele estava no pátio com Liana em suas costas; quando viu o rosto machucado de Tearle abriu a boca, espantada.
Os olhos de Zared se encheram de lágrimas, mas corajosamente se dominou e não permitiu que corressem pela face. Perguntou-se por que Rogan não matou o culpado, e compreendeu que o trouxera para o castelo para uma execução pública, a qual ela teria que assistir.
Viu que o faziam desmontar do cavalo, viu que caía e que se levantava com dificuldade por estar com suas mãos amarradas. Quando um dos homens fez um gesto para ajudá-lo, rechaçou a ajuda com um olhar de desprezo. Zared estava parada a três passos dele que lutava para endireitar as costas e ao fazê-lo a viu. Seu rosto era quase irreconhecível e a jovem se sobressaltou mas sustentou o olhar. Não permitiria que sua debilidade feminina a traísse novamente. Levantou-se e lançou-lhe um olhar que dizia que não esperasse nada dela, que houve um tempo o amara, mas que agora não mais o amava.
O homem a olhou a sua vez longamente e logo começou a subir os degraus, tropeçando em cada um.
—Venha conosco — disse Rogan. — Tem que escutar a sentença.
Zared recuperou o controle de si mesma para olhar ao redor. Atrás de Tearle viu alguns homens de Rogan, seguidos por ele e por Liana que estreitava seu filho no peito, e outros homens Peregrine.
— Onde … onde ele estava? — perguntou Zared.
— Nós o capturamos antes que pudesse alcançar as terras que os Howard nos roubaram. Estava sozinho com o menino — Dizendo isto, também começou a subir a escada e a jovem o seguiu.
A cena que viu era pior do que esperava, Tearle quase incapaz de permanecer em pé, com a roupa feita em trapos e manchada de sangue, estava rodeado pelos homens de Rogan. Liana com o menino dormindo em seus braços, sentava-se ao lado de seu marido e em seu rosto havia uma evidente expressão de alívio.
— O que tem a dizer em seu favor, Howard? — perguntou Rogan em tom furioso.
Tearle levantou a cabeça e mirando fixamente o seu cunhado conseguiu responder:
— Já disse tudo. Não falarei mais.
— Peguem e matem-no — ordenou Rogan.
Neste ponto Liana protestou, não pelo desejo de proteger Tearle, mas sim pelo temor de uma vingança por parte dos Howard: — Não podem fazer algo assim; seu irmão é um duque…— Nesse momento o menino despertou e começou a chutar e Liana se inclinou para sentá-lo no chão e endireitando-se, disse a seu marido: — Tem que enviá-lo a Londres, será julgado pelo rei.
Rogan olhou o prisioneiro com desprezo: — O rei não fará justiça. Este homem afirma não ter raptado o menino, mas sim de havê-lo salvo. O rei acreditará em um Howard, porque os Howard são ricos e podem comprar até um rei.
— Não raptou o menino? Que significa isso?
— Não sei — replicou Rogan — este homem tem tal lábia…
Ante um só pensamento de que Tearle não tivesse raptado o filho de Rogan, o coração de Zared começou a pulsar tumultuosamente, mas ela permaneceu imóvel.
Houve um momento em que acreditara, mas agora nunca mais o faria. Permaneceu em silêncio, rígida, percebendo que o prisioneiro tinha dificuldade para manter-se de pé.
Desde o momento que abandonara o pátio, não a olhara nenhuma só vez.
— Rogan — disse Liana — quero escutar o que este homem tem para dizer.
— Não — replicou seu marido.— Eu não quero escutar outras mentiras…. — Então se virou para seus homens dizendo: — Levem-no para baixo.
Zared viu que os homens colocavam suas mãos nos ombros de Tearle e nesse momento o filho de Rogan se levantou e começou a segui-los. Só Liana percebeu e gritou de terror ante a ideia que de novo estivesse em perigo. Na realidade ao se virar, um dos homens esteve a ponto de golpear o pequeno na cabeça com o forte punho, por engano.
Tearle se moveu para evitar que acontecesse o pior. Recebeu o golpe e caiu. Por um segundo o silêncio foi total. Tearle jazia em terra e seu corpo protegia o do menino.
Liana se precipitou para levantá-lo, mas o pequeno rodeou com seus bracinhos o pescoço de Tearle, apertando-se contra ele.
Zared incapaz de mover-se, olhava a cena com os olhos dilatados. Tearle girou lentamente sobre si mesmo e tomou o menino entre seus braços. Então levantou a cabeça e olhou para Liana que tremia, sabendo que sem a intervenção de Tearle o punho do homem certamente teria matado seu filho.
— Nos últimos dias ficamos amigos.— Conseguiu dizer Tearle, com evidente esforço.
Rogan se aproximou do homem e do menino, porém sua mulher levantou uma mão e o deteve, perguntando a Tearle em um sussurro: — O que aconteceu?
Os presentes perceberam que Tearle falava com dificuldade e que o peso do menino sobre seu tórax lhe causava um grande sofrimento. Com grande esforço se moveu para se separar do menino, mas este começou a mover-se para rechaçar os braços da mãe.
— Não podia dormir….— Tearle começou a dizer com uma voz apenas compreensível. — Desci…o pequeno estava ali. Por um momento brincamos juntos…então adormeci. Quando despertei, o menino tinha desaparecido…a grade estava aberta….
O filho de Rogan continuava a agitar-se entre seus braços, levantou-o com doçura e o deu à mãe e depois de ter respirado profundamente prosseguiu: — Me aproximei da grade e vi que o menino se dirigia para o bosque…..os homens de meu irmão espiam constantemente este lugar…
— Isso nós sabemos! — gritou Rogan. — Não quero escutar mais.
Liana se interpôs entre o marido e o prisioneiro: ela não podia fazer menos do que escutar um homem que protegera seu filho e perguntou: — E o que você fez?
—Selei meu cavalo e segui o menino — prosseguiu Tearle olhando o menino com afeto….— Os homens de meu irmão o capturaram como eu temia.
— Não quero escutar mais mentiras. — disse Rogan. — Este homem é mais perigoso que uma serpente.
Liana disse a seu marido: — Acredita então que seu filho é tão tolo de não reconhecer um inimigo? Estava assim tranquilo quando estava com esses homens?
— Não, não o estava —admitiu Severn. — Lembra-se, Rogan? Quando um deles chegava perto, ele gritava.
— Não, não me lembro de nada—rebateu Rogan, mas não se dirigiu a Tearle.
Este olhou de novo ao menino: — Os homens de meu irmão são bárbaros — disse. — Eles o matariam pelo prazer de matar e não podia permitir.
Zared não havia falado, mas nesse momento percebeu que seu marido estava dizendo a verdade: tinha seguido o menino e ficou com ele para protegê-lo.
— É sincero. — sussurrou ao irmão e sentiu sobre ela o olhar de Tearle.
— Um Howard não sabe o que é a sinceridade— balbuciou Rogan.
— Mas ele sabe— respondeu a jovem apertando a mandíbula. — Não raptou seu filho— Olhou seu irmão e continuou: — Onde encontrou meu marido?
Como Rogan não respondia, compreendeu que Tearle era sincero e de repente se sentiu aliviada como nunca se sentira em sua vida — Onde o encontrou?— repetiu quase gritando.
— Estava voltando — respondeu Severn.
— Retornando? Quer dizer que estava voltando para cá? Tinha consigo o menino e estava voltando? Mas … e os outros homens dos Howard?
Parecia que Rogan não queria responder, porque olhou para Severn.
— Estavam seguindo-o — disse em voz baixa.
Neste ponto tanto Zared como Liana começaram a reprovar e admoestar ambos os irmãos Peregrine:
— Estava fugindo dos homens de Howard? Golpearam o homem que estava salvando seu filho? - Gritou Liana.
A mulher se aproximou de seu marido e o olhou: — Seu ódio é tão profundo que o faz cego? Por semanas infligiu a este homem as piores humilhações que suportou com valor e deduzi que não era o monstro que me havia descrito. Olhe o seu filho: tem melhor senso do que você, porque sabe distinguir um amigo de um inimigo.
Inclinou-se para Tearle e disse: — É um Howard, mas deu fé que é um amigo e eu lhe agradeço por ter salvado meu filho— Beijou o prisioneiro na face, tomou seu filho em braços e depois de levantar-se acrescentou: - Este homem deve ser tratado com todo o respeito e cuidados de que somos capazes de oferecer.
Tearle rechaçou as mãos que se estendiam para ajudá-lo a levantar-se … eram mãos que pouco antes tinham tentado matá-lo. Levantou-se com dificuldade e disse:
— Não ficarei aqui nem mais um segundo. Voltarei para minha casa.
Liana o olhou e assentiu. Sentia-se culpada por tê-lo tratado com desprezo no transcurso das últimas semanas e compreendia seu desejo de não ver mais nenhum Peregrine em sua vida.
Zared se aproximou de seu marido e lançou um olhar desafiante ao seu irmão, dizendo: — Vou com ele.
Mas antes que Rogan pudesse responder, Tearle virou-se e replicou: — Não.
— Mas… quero ir com você— disse Zared. — Quero segui-lo onde quer que vá.
O rosto inchado dele tomou uma expressão fria e dura: — Não, não a quero.
A jovem sentiu que gelava: — Mas… tenho fé em você. Sei que não é um inimigo.
A expressão do homem não se adoçou: — Não acreditou em mim. Vi ódio em seus olhos. Pensou que eu era culpado, exatamente como seus irmãos.— Desviou o olhar e se dirigiu a Liana: — Posso ter meu cavalo? Quero ir em seguida.
Liana abriu os olhos: — Não está em condições de cavalgar. Está ferido e não dispõe de nenhuma escolta.
—Irei imediatamente — insistiu Tearle, sempre falando com dificuldade. Todos abriram espaço, ninguém tentou persuadi-lo a permanecer no castelo dos Peregrine. Até Zared se afastou para o lado enquanto ele saía da casa e de sua vida.
Olhou-o se afastar e quis segui-lo, mas seu orgulho a reteve. Se ele não a queria, bem …. nem ela o queria.
— Siga-o—disse Liana. Porém a jovem balançou a cabeça e se dirigiu para seu próprio quarto, procurando caminhar ereta, negando-se a pensar. Se pensasse não poderia deixar de recordar todos os detalhes amáveis de Tearle para com ela. Havia sido tão bom com ela. Desde o começo…a protegera do cavalo descontrolado, e agora estava certa que salvara a vida do filho de Rogan.
E no entanto havia duvidado dele, sem escutar Liana que a aconselhara a seguir seu próprio impulso, porque foi influenciada por gerações de ódio e julgou Tearle não pelo que via, mas sim pelo que contaram dele. Ela não estava obcecada pelo ódio como Rogan ou Severn e Tearle era diferente de Oliver.
Por um momento parou com a sensação que no ar havia algo de diferente. Virou-se lentamente e viu que a porta do que eles chamavam de “a habitação dos fantasmas” estava aberta. Antes sempre ficava fechada, ela nunca havia entrado nesse lugar. Inclusive antes do matrimônio de Rogan nunca o havia usado, porque todos tinham medo: segundo a lenda, essa porta seria aberta no caso de se necessitar que a dama que ali estava presa… Zared olhou ao redor: estava sozinha…se a porta estava aberta, devia ter sido aberta para ela.
Deu um passo nessa direção, mas teve a impressão que seus pés eram de pedra.
Podia levantá-los com muita dificuldade. Fez um esforço e continuou a caminhar, segurando a respiração. O que veria nesse local? Monstros, fantasmas?
Quando entrou, tremia e estava pálida. Esteve a ponto de gritar de terror e fugir, mas voltou a respirar normalmente. O lugar, além de algumas selas cobertas de belas almofadas, um tear com uma tapeçaria inacabada e tapetes no piso, estava vazia. Apesar de permanecer fechada por tanto tempo, tinha um aspecto limpo como se estivesse habitada. Mas Zared não viu ninguém.
Aproximou-se do tear, tocou o desenho que representava uma dama e um unicórnio e nesse momento uma folha de papel voou pelo ar.
Suas mãos gelaram e permaneceu imóvel contendo a respiração, tremendo enquanto olhava a folha de papel. Estava aterrorizada ante a ideia de se virar, aterrorizada com o que iria ver. A suas costas encontraria um fantasma?
Antes que pudesse se mover transcorreram alguns minutos.
Na sala reinava o silêncio e de fora também não provinha nenhum ruído, embora a porta estivesse totalmente aberta.
Recorrendo a toda coragem que era capaz, se virou de repente.
Não havia ninguém. A sala que deveria estar poeirenta não hospedava uma alma viva. Olhou a folha de papel caída no chão e com as pernas tremulas se inclinou e a recolheu.
Não tivera suficientes lições de Tearle para conseguir decifrar completamente a mensagem, mas não precisava saber ler para saber o conteúdo. Sabia exatamente o número de palavras, eram as mesmas que estavam escritas sobre a lareira biblioteca de Rogan. Conhecia-as de memória, como todos os Peregrine as conheciam.
Quando o vermelho e o branco ficarem negro
Quando o negro e o ouro se unirem
Quando o único e o vermelho se unirem
Saberão
Era um enigma cuja fórmula era conhecida por sua família há muitos séculos, e provinha desde muito antes que a guerra entre os Howard e os Peregrine começasse.
Desde menina Zared tinha transcorrido noites inteiras tentando compreender o significado. Às vezes tinha pensado que se conseguisse, poderia salvar seus irmãos da morte. Mas havia desistido, vira seus irmãos morrerem, seu pai e sua mãe. Em alguns momentos de sua vida havia sentido uma irrefreável necessidade de decifrar essas palavras, acreditando que a tarefa de salvar a sua família pertencia a ela.
Saiu do aposento com o papel em suas mãos e ouviu a suas costas o ruído da porta que se fechava. Recusando-se a pensar em outra coisa, murmurou para si mesma que devia ter sido o vento e percorreu o corredor o mais de pressa que pode.
Talvez, se pudesse resolver o enigma, entendesse o que a vida reservara para ela e possivelmente pudesse encontrar o amor de seu marido novamente.
Capítulo Quinze
Tearle, mordendo uma maçã, observou os homens de seu irmão que estavam treinando. Pensou que talvez devesse acreditar que esses homens eram dele, pois seu irmão estava muito doente. Sabia que devia estar triste, mas não podia; compreendia que Oliver estava morrendo…. de ódio.
Até em seu leito de morte falava somente de seu ódio pelos Peregrine.
— Procurarão nos tirar o que nós conseguimos com tanto esforço.— Murmurava dia e noite. — Deve tentar mantê-los longe do que nos pertence, saberão que não estarei aqui para defender nossos bens.
Tearle não respondia ao seu irmão. Parecia que todos o consideravam um fraco. Até Oliver pensava que não tinha força suficiente para defender as terras dos Howard. Os Peregrine pensavam que não era forte… até sua esposa.
Tentou se concentrar em outros pensamentos. Deixou de pensar nela. De fato, nos três meses sucessivos a sua volta do castelo dos Peregrine tinha feito todo o possível para não pensar na mulher que tão bobamente tinha feito sua esposa. Por semanas permaneceu na cama, ardendo de febre, lutando contra as feridas e os golpes que os Peregrine lhe fizeram quando o julgaram sem um processo.
Esse dia, três meses atrás, depois dos golpes e ao fazer a longa e dolorosa cavalgada para casa, teve constantemente diante de si a imagem dela. Pensou que se enfureceria com seus irmãos pelo que lhe haviam feito. Mesmo sabendo que às vezes não o compreendia, iludiu-se que o conhecia bastante para não acreditar que teria sido capaz de raptar um menino. Entretanto quando desmontou do cavalo e a olhou nos olhos compreendeu que pensava o pior que pudesse pensar dele, e acreditava que havia cometido o delito de qual era acusado.
Inclusive depois de ter vivido com ele, acreditou que seria capaz de um ato tão malvado. Acreditava que se casou com ela para continuar a guerra entre suas famílias.
Olhando-a nos olhos, Tearle compreendeu que nela o ódio era mais forte do que qualquer sentimento que pudesse sentir por ele.
Por um momento, dolorido no físico e na alma, não deu importância ao que os Peregrine lhe faziam. Somente o instinto o levou a salvar o menino quando esteve a ponto de ser golpeado na cabeça. Essa ação lhe provocou um enorme sofrimento físico, mas definitivamente tinha salvado sua vida….e nesse momento seu rancor pelos Peregrine se igualou ao que eles sentiam pelos Howard.
Havia respondido as perguntas de Liana, porque pela primeira vez um Peregrine não se dirigia a ele com expressões de ódio e tinha visto a determinação que a levou a interpor-se entre ele e seu marido.
Zared se dirigiu a ele somente mais tarde, depois que sua inocência foi comprovada.
Havia declarado que partiria com ele depois de ter tido a prova que não era o monstro que acreditava. Mas não a quis ao seu lado porque ela não acreditou em sua inocência sem as provas, não acreditou quando dizia que a amava. Acreditara somente em seus irmãos e seu ódio, esse ódio que para ela era mais importante que o amor.
Havia conseguido montar em seu cavalo e permanecer na sela até que chegou ao acampamento dos homens de Howard que o levaram para casa em uma maca, sem sentidos. Mais tarde Oliver e sua esposa Jeanne curaram sua febre e sua raiva.
Agora estava quase são, necessitava do sol, do ar e de boa comida para recuperar o peso perdido nos três meses que passou na cama. Jeanne dizia que em poucas semanas se recuperaria totalmente, mas sabia que nunca se recuperaria de tudo o que lhe havia acontecido. Casando-se com aquela “mulherzinha” Peregrine havia sido ingênuo; acreditou que o amor podia vencer o ódio, mas equivocou-se e o ódio superou o amor.
Estava apoiado no muro do jardim aproveitando o sol ainda fraco, quando notou em um dos homens de seu irmão algo insólito. Sim, no modo como segurava a espada havia algo familiar. O moço não era robusto, mas sim muito ágil, o que lhe permitia evitar com facilidade as estocadas.
Tearle se levantou de um salto: esse não era um moço, era sua esposa!
Seu primeiro impulso foi correr para ela e jogá-la no campo de treinamento, mas imediatamente pensou que os homens dariam conta que entre eles havia uma Peregrine e a teriam matado sem esperar o consentimento de Oliver.
Apoiou-se no muro e começou a pensar. Como Zared havia feito para introduzir-se no castelo de seus inimigos? Como pode esconder seu sexo? Certamente vivia com os homens, certamente dormia com eles.
Outra vez ficou tentado a se aproximar dela. Porém decidiu deixá-la onde estava. Ao diabo com ela e toda sua família, pensou e continuou a observá-la enquanto lutava com seu adversário.
Quando este conseguiu desarmá-la pensou em intervir, mas se obrigou a não se mover. Olhou com desgosto a maçã que tinha na mão: a esmigalhara.
Observou Zared que se inclinava para recolher a espada e viu que enquanto fazia isso, sorria. Sabia desde o começo que a reconhecera, que estava observando-a, percebia que sua presença o perturbava.
Tearle olhou para outro lado, não permitiria que percebesse que estava preocupado com sua segurança. Não queria nunca mais se interessar por ela, nem por nenhum Peregrine.
Mas quando se virou viu que Zared havia caído no chão e que seu adversário apontava a espada contra sua garganta com uma expressão de triunfo. Levantou-se de um salto e aproximando-se dos dois deu um empurrão no vencedor que o fez rodar pelo pasto.
Zared ainda no chão, sorriu-lhe: — Melhorou— disse em voz baixa.
— Não graças à ajuda de sua família— replicou ele olhando-a nos olhos e tentando reencontrar a cólera e o rancor que o invadiu ao deixar o castelo dos Peregrine. Mas só conseguiu pensar que belo era o seu rosto e notou que tinha um arranhão na bochecha.
— Vim para ficar com você…eu…tenho sentido muito sua falta. Não … eu não gosto de estar sem você.
Tearle abriu a boca para dizer que também tinha sentido falta dela. O som de suas risadas, as horas que havia passado com ela ensinando-lhe tantas coisas do mundo. Sentia falta de seu entusiasmo e sua espontaneidade. Havia desejado sua presença quando estava doente. Jeanne tinha sido uma boa enfermeira, mas Oliver apagou toda alegria nela. Sua convalescença havia sido muito triste.
— Não lembrei de você nenhuma só vez— replicou altivo.
Sorriu e pela enésima vez Tearle se perguntou como ninguém percebia que era uma mulher. Era tão feminina.
Zared começou a se levantar, mas ele colocou um pé em seu ventre, embora ligeiramente.
— Poderia dizer aos homens quem é a matariam— disse em voz baixa.
Ela pôs a mão no seu tornozelo, perguntando: — Cócegas nos pés sempre o fazem rir?
— Não - respondeu sério, sem tirar o pé. — Tem que ir. Não a quero aqui, não a quero.
— Mas eu o quero. Fui infeliz nos últimos meses.
— Não reagiu de maneira nenhuma quando fui embora. Acreditou que raptei o menino, que seria capaz de lhe fazer mal.
—Estão nos olhando — murmurou ela, mas Tearle não permitiu que se levantasse e então ficou onde estava pondo uma mão debaixo da cabeça.
Suspirou e disse: — Sim, pensei que podia ser culpado. Pode me censurar? Afinal, afastou-se com o menino. Como podia saber que não lhe causaria nenhum mal?
— Viveu comigo, deveria saber.
— Como se pode saber o que há no coração de um homem?
— Teria que saber, teria que…
— Você deveria ter me levado consigo quando se foi. Você deveria saber o que há em meu coração agora— gritou.
Neste momento Tearle se virou e olhou para trás. Todos os presentes no campo de treinamento os estavam observando consternados, e o homem teve a certeza que dentro de poucos minutos alguém iria dizer ao seu irmão que estava acontecendo algo insólito.
— Venha comigo— disse depressa a Zared, levantando o pé do ventre dela. A jovem se levantou, limpou o pó e replicou com tom provocador: — Com muito prazer.
Ao precedê-la para dentro do edifício principal, fingiu ignorá-la e pôde descobrir o olhar estupefato dela ante a vista das riquezas do castelo dos Howard.
Na propriedade dos Marshall tinha admirado muitas coisas belas, mas nenhuma se comparava ao que agora via. Todas as paredes estavam cobertas de esplêndidas tapeçarias; onde pusesse os olhos via brilhar objetos de ouro e prata, e os pisos estavam cobertos de grossos tapetes.
Finalmente chegaram ao quarto dele, fechando a porta.
— Agora me diga o que faz neste lugar. Seus irmãos a enviaram para me persuadir a lhes ceder a propriedade? Souberam que meu irmão está moribundo? Souberam…
Parou porque Zared tinha começado a tirar a roupa. Poderia falar, dizer que tinha vindo espontaneamente, que para obter sua liberdade discutira asperamente com Rogan, mas sabia que com Tearle não conseguiria algo melhor. Com sua dialética sempre conseguia convencê-la a fazer o que ele queria. A única coisa que podia fazer era impedi-lo de falar.
Tearle a olhou enquanto a roupa dela caía no chão. Desde que voltou para casa não tinha estado com nenhuma mulher. Quando o desejo chegou, escolheu uma das moças para levá-la à cama consigo. Essa moça lhe dera algumas horas agradáveis, mas sabia que concordara em lhe fazer companhia só pelas moedas de ouro que receberia em troca. E não pode deixar de lembrar de Zared que não esteve com ele por dinheiro. Esteve com ele somente por amá-lo. Veio quando percebeu que ele não era um inimigo.
— Não…— murmurou.
Zared tirou a última peça de lingerie. Olhou seu marido e se jogou em seus braços.
Tearle a estreitou e começou a beijá-la com paixão e pouco a pouco se amaram, arrastados pelo desejo, com todo o ardor de seus corpos jovens. Quando tudo terminou, Zared semideitada sobre um baú de madeira apoiado na parede, sentiu que Tearle a levantava e a levava para a cama enquanto dizia: — Matou-me…
Permaneceu imóvel por alguns minutos com os olhos fechados, feliz e assustada ao mesmo tempo. Encontrava-se no castelo dos Howard há quatro dias, durante os quais tinha visto e seguido seu marido, mas ele só percebera nesse dia e estava atormentada pela ideia de que não a amasse mais. Mas quando seus olhares se cruzaram compreendeu que esse homem ainda era dela.
Levantou a cabeça e beijou-o no queixo perguntando:
— Perdoa-me?
— Não — Seus lábios diziam não, mas não cessava de acariciá-la e em seus olhos havia amor.
— Então terei que reconquistá-lo. Quando estiver completamente são, pensarei em algo novo para experimentar no seu corpo.
— Verdade? — ele perguntou, interessado. Tomou-lhe a cabeça entre as mãos e prosseguiu: — O que está fazendo nesta cama? Acaso seu irmão espera a pouca distância daqui para que abra os portões de minha propriedade?
—Pode permanecer acordado toda a noite e me vigiar — respondeu-lhe aconchegando-se contra seu tórax.
Estreitou-a contra si com força. — Você é minha perdição. Queria não tê-la visto nunca entre os homens de meu irmão….teria sido muito melhor.
— Estou certa de que não pensa dessa maneira— murmurou Zared. — Não vim aqui para enganá-lo, mas sim para amá-lo. Teria vindo antes, mas Liana pediu que não o fizesse. Havia conseguido não sei como, notícias sua. Eu… — Calou-se, vacilante.
— Não pensou que eu mandava mensagens a você?
— Não. Acredito que tenha sido a esposa de seu irmão que a fazia saber que você estava se recuperando. Quando sua situação estava grave, Liana e eu passamos muitas horas na capela rezando por sua melhora, e Anne Marshall veio ao castelo e rezou conosco.
Tearle assentiu pensando que essas preces deviam tê-lo ajudado, mas disse:
— Entretanto, estou certo que seus irmãos não rezaram por um Howard.
—Equivoca-se — replicou Zared. — Rogan mudou. Não estou muito certa, mas está diferente. O risco de perder seu filho e de estar a ponto de matar o homem que o salvara deve tê-lo afetado profundamente. Talvez as coisas que Liana venha lhe dizendo há muitos anos tenha finalmente um significado para ele. Não acredito que queira criar filhos para mandá-los ao matadouro. Acredito que quer vê-los chegar à fase adulta e gerar por sua vez, seus próprios filhos.
— Em quais terras?
— Não sei. Liana diz que graças ao seu dote e ao de Anne, poderiam aumentar o castelo de Moray e adquirir outras terras. Acredito que Rogan está pensando sobre esta possibilidade.
Tearle pensou que esse modo de pensar, da parte de um homem que sempre se alimentou de ódio como Rogan, parecia pouco mais que revolucionário.
— O que o seu irmão fará quando já não se alimentar de ódio?
— Você só conhece o pior lado de meu irmão. Na intimidade é um homem bom e generoso…e agora não deseja a morte de mais ninguém. Foi duro com você porque acreditava que queria fazer mal a sua família. Se estivesse em seu lugar, teria sido duro?
— Duro? Pensa que eu sou um tipo duro? — Tearle tentava dominar a ira que o invadia ante a lembrança das injustiças suportadas, mas não foi fácil — O que a fez vir até aqui?
Beijou-o no pescoço: — Já disse, vim porque eu não gosto de viver longe de você… você me faz rir.
— Também a fiz rir quando seus irmãos me golpeavam?
— Não, esse dia não eu ri, mas disse imediatamente que queria estar com você, que queria viver com você.
— Até o dia em que acreditaria que sou culpado de outras coisas com respeito a seus adorados irmãos.
— Não, agora me colocaria do seu lado, contra eles se fosse necessário.
Por um momento Tearle permaneceu imóvel, então levantou a cabeça dela e a olhou longa e intensamente, e compreendeu que dizia a verdade.
— E agora o que faremos? — perguntou — Não pode permanecer aqui.
— Ficarei com você onde estiver. Quer brigar? Segui-lo-ei.
Ante essas palavras o homem sorriu. — Não acredito que seja necessário lutar. Mas será se ficar. Meu irmão saberá o que aconteceu hoje e vai querer uma explicação.
— Diga que descobriu que prefere os moços às donzelas e…
— Quem lhe ensinou semelhantes coisas? — Tearle estava escandalizado.
— Anne Marshall— ela respondeu candidamente e continuou: — Oh Tearle, Anne é uma mulher maravilhosa. Sabe muitíssimas coisas, é fascinante e quando fala, Liana e eu prestamos muita atenção.
— Essa mulher deveria manter a boca fechada.
— Sua boca tão formosa? Não acha que é bonita?
— Sim, como a de uma pequena serpente venenosa. Diga-me, como estão as coisas entre ela e seu irmão?
Zared soltou uma gargalhada: — Acredito que Severn gosta dela. Não acredito que ele a compreenda como Liana e eu podemos entendê-la. Porém quando a beija ou se afasta com ela, tenho a impressão que às vezes o provoca precisamente para segui-la até seu quarto.
Neste ponto Tearle riu. Talvez seu engano consistira em escutar as mulheres. Talvez devesse ter se comportado como Severn: quando uma mulher fala é necessário levá-la para a cama.
— O que mais Anne lhe ensinou?— perguntou.
— Resolveu o enigma — respondeu Zared.
— Estou certo que Anne seja hábil em resolver enigmas porque é inteligente — disse Tearle. — De que enigma se trata?
Apesar do propósito de ser uma esposa perfeita, Zared o olhou desgostosa por sua ignorância: — O enigma dos Peregrine.
— Perdoe minha estupidez, mas não conheço sua família como você conhece.
— Aposto que seu irmão conhece muito bem o enigma dos Peregrine.
Tearle não replicou e esperou que explicasse melhor.
Repetiu o enigma. — Anne me disse que quando veio ao castelo de Moray não tinha nada para fazer. Acredito que Severn temia uma fuga, assim…
— Fazia bem em se preocupar — murmurou Tearle.
Zared ignorou a interrupção.
— Anne disse que o vermelho, era pela cor do cabelo— já que Tearle parecia não compreender, seguiu: — O vermelho e o branco, as cores do cabelo. O primogênito de Rogan e Liana tem o cabelo…
— O menino que salvei?
— Esse menino tem o cabelo avermelhado como seu pai, mas o segundo tem o cabelo negro, como a mãe de Rogan. O enigma especifica: — Quando o vermelho e o branco ficarem negro…entende agora? O cabelo de Rogan é avermelhado, o de Liana é muito loiro, quase branco.
Tearle sorriu: — E a segunda estrofe?
— Quando o negro e o ouro se unirem…
— O cabelo de Severn é loiro e o de Anne é escuro.
Zared o olhou com admiração pensando que seu marido era verdadeiramente muito inteligente: — A terceira estrofe se refere a você e a mim: — Quando o único e o vermelho se unirão.
Tearle de novo sorriu: — Certo, seu cabelo é avermelhado e portanto eu seria o único….mas não entendo, eu não sou o único, admitindo que — único— signifique ser único filho Howard. Qual é a última estrofe do enigma?
— Eles saberão.
— O quê?
Antes de responder Zared esperou um momento e então explicou :
— Liana e Anne acreditam que a estrofe significa: — Saberão de quem são as propriedades.
Não ousava olhá-lo; se os seus irmãos ganhassem, seu marido perderia todos os seus bens. Não era fanática por possuir essas terras, mas doeria se Tearle as perdesse.
Assim como doeria se os seus irmãos perdessem algo que era seu por direito.
Tearle leu o seu pensamento: — É um verdadeiro dilema, certo?
Ele não disse que estava contente com a ideia de que para ela esta situação se transformara em um dilema. Até poucos meses atrás Zared não teria dúvidas sobre quem tinha direito a propriedade… estava convencida que as terras pertenciam a seus irmãos e que o homem com quem se casou, poderia ir ao diabo, no que lhe dizia respeito. E agora Tearle estava feliz ao ver que a jovem tinha dúvidas.
Abraçou-a com força: — Não se preocupe, meu amor. No momento oportuno saberá o que tem que fazer.
— Sei distinguir as coisas corretas das incorretas! - Exclamou ela com desdém, mas o jovem a sossegou com um beijo.
Nesse momento a porta se abriu e entraram quatro de seus homens, e se horrorizaram com o que viram: seu patrão estava beijando um moço….tudo o que viam de Zared na verdade, era seu cabelo curto que aparecia pela coberta.
Tearle percebeu seus olhares e começou a explicar, mas percebeu que não sabia o que dizer. Não podia apresentar Zared como sua esposa, uma Peregrine, nem podia levantar o manto e mostrar que era uma mulher.
Pela primeira vez Zared viu seu marido sem palavras e não perdeu a ocasião para divertir-se.
Enrouqueceu a voz e disse a Tearle: — Milord… dará de presente a armadura que me prometeu, agora que tenho feito … isto por você?
Tearle a olhou atônito, enquanto seus homens tossiam perturbados. Olhou-os e perguntou em tom brusco: — O que querem?
— Lady Jeanne quer que se encontre com ela porque seu irmão está morrendo.
Enquanto Tearle descia da cama e começava a se vestir, Zared não disse nada. O enigma dizia que quando o único e o vermelho se unissem saberiam. Se o irmão de seu marido morresse, Tearle seria o único Howard vivo.
Quando terminou de vestir-se, Tearle virou para olhá-la e disse: — Permaneça aqui, não abandone o quarto. — Fez uma pausa, logo acrescentou: — Posso confiar em você, ou devo fazer com que a vigiem?
Era suficientemente inteligente para saber o que poderia acontecer se Oliver Howard soubesse de sua presença no castelo. Enquanto esse homem estivesse vivo, também estaria vivo seu ódio pelos Peregrine.
—Não me moverei — assegurou ignorando os olhares dos homens as costas de Tearle. Teria tempo mais tarde, para demonstrar a eles quem era realmente.
Tearle se inclinou para beijá-la, mas ergueu-se imediatamente, consciente da presença de estranhos.
— Espero que você mantenha sua promessa — disse e depois saiu.
Ao ficar sozinha Zared se recostou sobre as almofadas olhando ao seu redor. Por essa casa, sua família e a de Tearle haviam lutado e pago com a morte, odiando-se.
Deitou-se de barriga para baixo e fechou os olhos. Seu marido já não a odiava, e esta era a única coisa que lhe importava no mundo…. poucos minutos depois, dormiu.
Capítulo Dezesseis
Zared não podia explicar o que a despertou. Não foi um ruído, porque quando abriu os olhos não escutou nada. Era noite, por isso o quarto estava mergulhado em sombras; olhou ao redor mas não viu nada estranho. Estava por fechar de novo os olhos, quando de repente se sentou, cobrindo-se com a manta.
Aos pés da cama havia uma mulher, uma bela mulher velha que usava um singelo vestido parecido com aquele que Zared vira sua mãe usar. A mulher a olhou e sorriu docemente.
Queria devolver o sorriso, mas se conteve: a mulher era transparente. Sim, através de seu corpo Zared podia ver as tapeçarias penduradas na parede à esquerda da porta!
Começou a rezar, enquanto o sorriso abandonava o rosto da mulher, que olhava Zared como se estivesse perturbada por tê-la assustado. Dirigiu-se para a porta, virou-se e depois de ter feito um sinal a Zared para segui-la, desapareceu atrás da parede de carvalho.
Zared permaneceu onde estava, paralisada, sem nenhuma intenção de mover-se, na realidade pensava que nunca conseguiria fazê-lo.
Ainda estava tremendo quando a mulher reapareceu aos pés da cama. Esta vez em seu olhar havia impaciência, e de novo fez um gesto para Zared segui-la.
A jovem moveu a cabeça negando; certamente se encontrava frente ao fantasma de uma Howard, ela tinha que saber que era uma Peregrine. Definitivamente não a seguiria.
A desconhecida abriu a boca e Zared levantou as mãos como se quisesse proteger o rosto. Daquela boca sairiam chamas?
Pouco depois baixou as mãos e viu que a mulher ainda estava aos pés da cama, e que em seu rosto havia uma expressão doce, paciente e em um momento também levantou suas mãos, mas seu gesto era de súplica.
— Não! - murmurou Zared — Não quero ir com você.
O olhar da mulher era implorante, mas Zared gritou: — Não! Não irei com você.
Neste ponto a mulher olhou ao redor como se procurasse algo. Zared temia enlouquecer, mas ao mesmo tempo começava a acostumar-se a aquela presença e conseguiu perguntar: — O que procura?
Ela indicou os cabelos de Zared.
—Sim, são curtos… cortei de novo para poder me reunir com meu marido. Voltarão a crescer.
A mulher voltou a indicar os cabelos de Zared, sem que esta conseguisse entendê-la, embora tentasse imaginar o que queria dela, porque alguma coisa queria.
- Esta situação é pior que um enigma — murmurou Zared, e diante daquelas palavras a mulher assentiu com um rápido movimento da cabeça.
—O enigma?— replicou Zared e a outra assentiu de novo. — Tem algo a ver com o enigma? — perguntou à jovem e o fantasma assentiu pela terceira vez.
Zared repetiu em voz baixa as palavras do enigma e quando chegou à última estrofe olhou a mulher, vendo através dela a mesa de madeira de carvalho.
— Então… sabe algo — disse e seu rosto se animou. — O irmão de meu marido morreu, e ele agora é o “único Howard”.
A mulher assentiu e em seu rosto apareceu uma expressão de alívio porque Zared tinha entendido.
— Portanto está aqui para me explicar...
A mulher outra vez assentiu.
Zared se recostou nas almofadas e fechou os olhos. A solução do enigma estava ao alcance de sua mão… finalmente saberia a quem pertenciam às propriedades… e dirigindo-se a Deus perguntou por que seria precisamente ela. Se a solução tivesse sido transmitida a Rogan ou a Severn, teriam sabido o que fazer… mas ela? Havia dito a Tearle que Rogan havia mudado, que parte de seu ódio tinha desaparecido, mas era verdade? Se Rogan tivesse tido a prova do fato que as terras lhe pertenciam, a teria tirado de Tearle, transformando este último em um mendigo?
Abriu os olhos e viu que a mulher não se movia e parecia esperar pacientemente que Zared tomasse uma decisão.
Zared suspirou, pensando que era inútil divagar… tinha sido escolhida para receber a explicação do enigma.
Desceu lentamente da cama e começou a vestir suas roupas masculinas… talvez fosse melhor saber. Logo olhou para a mulher e disse: — Estou preparada.
A mulher devolveu o olhar e Zared pensou a princípio que não aprovava seu vestuário, mas logo compreendeu que provavelmente a mulher era uma parente dela e de Tearle, uma vez que ambos eram primos… pelo que observou de sua descendência. Zared estava contente que a mulher nunca a houvesse visto antes, porque significava que nunca a espiara.
A mulher deslizou através da parede, mas Zared abriu a porta e olhou para o corredor. Estava deserto, mas iluminado por tochas nas paredes. Seguiu na ponta dos pés o fantasma que a precedia como se flutuasse.
Percebeu que a seguiu através dos corredores do castelo por horas. De repente se assustou: quatro cães saíram precipitadamente de uma sala, mostrando os dentes e dirigindo-se para ela. Antes que pudesse fugir apareceu a mulher que se interpôs entre ela e os animais, que se afastaram. Por um momento Zared sentiu que os joelhos tremiam muito para que pudesse caminhar, mas a mulher lhe deu um olhar impaciente e finalmente conseguiu segui-la.
Percorreram largos corredores, passando diante de salas iluminadas, e chegaram na parte antiga do castelo. Ali reinava a escuridão e a julgar pelo pó e as teias de aranhas não devia ser usado. Um camundongo passou sobre os pés de Zared, mas a jovem nem percebeu. Que importância podia ter um camundongo quando seguia um fantasma?
Finalmente a mulher parou e com um gesto da mão indicou o que Zared acreditou ser uma porta, mas não conseguiu distinguir nada. Entretanto abriu a boca de terror, enquanto a mulher começava a girar sobre si mesma, sempre mais depressa e seu corpo parecia cada vez mais luminoso. Quando parou resplandecia o sol.
Olhou Zared que tremia, estendeu uma mão, tocou seu braço e com um gesto decidido indicou a portinha que agora era visível.
Zared fez o possível por controlar-se e estendeu a mão para a maçaneta da porta.
Esta se abriu facilmente e Zared, tremendo, obrigou-se a entrar.
Era um aposento feio, parecia que ninguém havia entrado por anos, as cortinas estavam cobertas de teias de aranhas e no canto viu alguns morcegos, enquanto o vento entrava pelos vidros quebrados de uma enorme janela.
Zared olhou à mulher, cujo corpo agora brilhava menos; não estava certa… mas pareceu que tinha os olhos cheios de lágrimas. Então os fantasmas choravam?
A mulher pareceu apertar os lábios. Agitou uma mão e outra vez para o horror de Zared o aposento se transformou. Não estava mais sujo e escuro, tinha retomado seu antigo aspecto. As cortinas da cama eram de uma bela cor nata, o piso brilhante e as tapeçarias das paredes como novos.
O primeiro instinto de Zared foi subir na cama e esconder-se sob as mantas, mas algo lhe disse que o que via era só uma ilusão, que as cortinas ainda estavam cobertas de teias de aranhas.
Respirou profundamente e olhou à mulher: — O que quer me mostrar?
Ela se aproximou de uma das paredes e indicou a tapeçaria… Zared compreendeu que a mulher queria que ela a levantasse… apenas tocou e a tapeçaria se soltou da parede.
Parecia limpa e resistente, mas na realidade estava corroída pela umidade.
Zared a levantou e deu um passo para trás; a mulher se dirigiu para a parede e estendeu uma mão. Zared seguiu com o olhar a direção que essa mão indicava… mas só viu um muro.
— Há algo lá embaixo? — perguntou.
A mulher assentiu.
— Não vejo nada.
Neste ponto a mulher voltou a girar sobre si mesma e Zared, assustada, exclamou:
— Não ... por favor... olharei.
Ela pareceu compreender e parou, enquanto Zared percorria a mão sobre o muro, procurando. Finalmente seus dedos pousaram numa pequena ranhura.
— Preciso voltar para procurar uma ferramenta… não posso mover a pedra.
Parecia que o pânico se apoderava da mulher. Moveu-se em direção da porta, apoiou-se nela para bloquear os passos de Zared.
Esta compreendeu que o fantasma tinha razão. Havia demorado muito tempo para chegar até aquele aposento, logo Tearle a procuraria, percebendo que não o obedeceu; iria se zangar e provavelmente poria um sentinela para impedir que se afastasse novamente.
— Tem razão— disse. — Não posso ir. Há alguma ferramenta aqui?
A mulher pareceu refletir uns minutos, então se dirigiu a um baú encostado na parede e o indicou. Zared se inclinou, abriu e viu que só continha um novelo de lã e agulhas para tecer. Levantou um par:
— Quer que mova a pedra com estas agulhas para tecer?
A única resposta que recebeu foi um sorriso e o sorriso dessa mulher era tão humano que não pôde deixar de devolvê-lo e perguntar:
— Talvez seja minha avó? — A mulher assentiu e Zared sorriu de novo: — Parece com o filho mais velho de Rogan…— Teve de novo a impressão que os olhos da mulher se enchiam de lágrimas, mas não soube dizer com certeza porque nesse instante a mulher havia desviado o olhar.
Aproximou-se da parede e usando duas agulhas de tecer, começou a escavar. Estava tão compenetrada em seu trabalho, que não ouviu o ruído da porta que se abria. Nem tampouco os passos que se aproximavam dela, e ante as palavras de Tearle sobressaltou:
— Posso saber o que está fazendo?
Virou-se e o olhou: — Deu-me um susto de morte. Está vagando para me espiar?
—Espiando, você diz? Em minha casa? Prometeu não abandonar meu quarto. Como pode encontrá-la?
— Deve ter me seguido. Seu irmão está…?
— Está morto.
— Assim agora possui todas estas riquezas.
—Manchadas de sangue — ele interrompeu em tom de amargura.
Zared, não sabendo o que dizer, olhou ao redor e viu que o aposento estava sujo novamente, como o viu quando entrou, o fantasma desaparecera, mas na parede ardiam duas tochas.
— O que faz neste aposento? — Tearle perguntou.
— A pessoa que me seguiu não disse?
O homem sorriu: — Não podia ver nada na escuridão, enquanto você tem os olhos de um gato.
Zared compreendeu que o homem não tinha visto o fantasma.
— Como pôde encontrar este aposento? Dizem que está habitada por um fantasma. Quando meninos nos desafiávamos… perguntando-nos um aos outros se teríamos coragem de entrar.
— Viu o fantasma?
Antes de responder, Tearle a olhou de forma estranha:— Um dia tive a impressão de ter visto uma mulher neste aposento. Olhava-me com muito interesse.
Talvez quisesse ver que aspecto tinha seu descendente, pensou Zared, mas não disse nada e respirou profundamente :
— Não estou certa, mas talvez os documentos que provam a legitimidade do matrimônio de minha avó estejam escondidos atrás desta pedra.
O homem abriu a boca para perguntar como sabia, mas a fechou e depois de um minuto de silêncio disse: — Veio para minha…. para estar perto deste aposento? Para poder encontrar os documentos graças aos quais pode provar que as terras pertencem ao seu irmão?
— Não — respondeu com voz muito baixa. — Voltei porque queria viver com você. Não sabia da existência deste aposento. Esta noite fui ... conduzida até aqui.
Olhou-a intensamente, não perguntou quem a tinha conduzido ao aposento ou o que queria dizer com essas palavras, mas sabia que Zared havia dito a verdade. Extraiu a adaga de sua cintura e começou a remover o cimento da pedra e depois de um momento, unindo suas forças, conseguiram movê-la.
Tearle levantou a pedra e a colocou no chão, então pegou uma das tochas e levantando-a viu dois grandes livros de registros. Estendeu a mão para tomar um, mas Zared quase gritou:
— Não! Volte a pôr a pedra onde estava. Não quero saber.
— Não quer saber ... o que? — perguntou em voz baixa.
— Não quero saber quem é o legítimo proprietário. Este castelo deveria… tudo isto deve permanecer com você.
— Não. Se os registros demonstrarem que seus avós estavam legalmente casados, tudo deve pertencer ao seu irmão e não a mim.
Levantou uma sobrancelha e prosseguiu:— Não me quer dizer que é uma mulher ávida de riquezas.
— Não quero esta riqueza para mim… que fariam meus irmãos com uma propriedade como esta? Só sabem de guerra. Devia ter visto como estava descuidado o Castelo de Moray antes da chegada de Liana. Rogan descuidaria e arruinaria este belo lugar.
— Privá-lo-ia do que lhe pertence legitimamente por um pouco de sujeira?
— Não… isso não tem importância. Eu temo o que Rogan pode fazer a você. Poderia jogá-lo daqui, poderia proibi-lo para sempre de voltar a pôr um pé entre estas muralhas.
Tearle colocou uma mão debaixo do queixo.
— Tenho a casa de minha mãe. Viverá lá comigo?
— Sim…— sussurrou ela. — Irei com você, a qualquer lugar que vá, mas…
— Mas o que?
— Perderá seu título. Não será duque. É algo que um homem dá muita importância.
— Provavelmente é algo a que o seu irmão deseja muito, e meu irmão dava tal importância a ponto de matar por isso. Eu sou diferente. Ainda não entendeu que eu sou acomodado? — Sorriu. — Desejo só uma bela casa onde possa viver comodamente e uma esposa que me ame. Nunca desejei outra coisa. Eu gostaria de ter filhos com os quais pudesse ir caçar um dia, e de filhas que tocariam para mim quando estivesse muito velho para tocar eu mesmo. Eu gostaria de viver o suficiente para conhecer meus netos…. não desejo outra coisa da vida.
Zared o olhou e compreendeu que dizia a verdade. Nunca quis participar da guerra, nem das matanças, nem do ódio… e de repente sentiu que ela pensava igual a ele. Queria afastar-se desse enorme castelo, das riquezas que continha, porque como Tearle havia dito, estavam manchadas de sangue… só queria viver na casa de Tearle. O breve período que tinha vivido nessa casa tinha sido o mais feliz de sua vida.
Pensou nos filhos que trariam ao mundo e cresceriam, as moças que não teriam que vestir-se de homem para salvar sua vida e os moços que não morreriam em batalha, ainda antes de converter-se em homens.
— É o que eu também desejo — disse em voz baixa. Deu um passo para trás enquanto ele extraía o primeiro registro da cavidade do muro.
Quando Tearle o abriu e começou a folhear as páginas amareladas, Zared conteve a respiração, observou-o enquanto lia e quando terminou esperou. Finalmente Tearle a olhou e em voz baixa disse: — O título de duque é de seu irmão.
Zared respirou mais tranquila e sorriu: — Quer que voltemos para casa?
Devolveu o sorriso. Não eram muitas as mulheres que amavam um homem o suficiente para renunciar a ser duquesa. Rodeou-a com os braços e a atraiu para si.
Olhando por cima do ombro de Tearle, Zared viu o fantasma de sua avó e sorriu. A mulher devolveu o sorriso e assentiu com a cabeça, como se estivesse satisfeita e então desapareceu.
Tearle afastou-se um pouco de sua mulher e pegou uma de suas mãos entre as suas:
— Sim, voltemos para casa e comecemos a pensar nesses meninos.
Ela sorriu radiante e juntos deixaram o aposento com as mãos entrelaçadas.
Fim
Série Peregrine
1 – O Amor de Lady Liana
2 – A Conquista
Sobre a autora
Jude Deveraux é autora de mais de quarenta novelas - de ambientação tão histórica como contemporânea - que figuraram nas listas de livros mais vendidos do New York Times, muitas delas publicadas pela Vergara, tais como: O cavalheiro da brilhante armadura, A sedutora, O corsário, Não esqueça o passado, Tentação, O refúgio e A árvore das Amoras, as duas últimas na coleção Seda. Jude começou a escrever em 1976 e na atualidade tem publicados mais de quarenta e cinco milhões de exemplares de seus livros, em numerosos idiomas.
Vive com seu filho Sam, de cinco anos, na Carolina do Norte. Criou uma tradição de best sellers com cada uma de suas novelas, sendo que cada novela supera a anterior em reconhecimento e em vendas. Ganhou notoriedade na década de oitenta narrando a vida dos irmãos Montgomery com o que ganhou numerosos prêmios, entre eles o prêmio Romantic Teme pela melhor saga romântica histórica. Jude nasceu em Fairdale, Kentucky. Sua família se mudou quando ela tinha 7 anos e sempre sentiu falta da numerosa família que deixou para trás. Felizmente para sua família, descobriu a arte de contar histórias e começou a criar seu próprio e popular mundo através de histórias ambientadas na época medieval e também em lugares fantásticos. Esta vivida imaginação catapultou a esta talentosa autora, convertendo-a em uma das escritoras que mais prêmios ganhou e cujos livros estão continuamente nas listas dos bestsellers.