A Conquista

Jude Deveraux · Capítulo 1 de 5 · parte 1/3

Páginas do PDF

A Conquista

A encantadora Zared Peregrine era o orgulho…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Resumo

A encantadora Zared Peregrine era o orgulho da família, um tesouro que seus ferozes irmãos querem proteger a todo o custo de seus eternos inimigos, os Howard. Os Peregrine já tinham sofrido suficientes perdas nas mãos destes inimigos. Os irmãos de Zared a tinham treinado na arte da guerra, e a tinham vestido como um menino. No castelo Peregrine, ninguém sabia que o jovem Peregrine era uma mulher...

Até que o Cavalheiro Tearle Howard volta de seu retiro na França, e não lhe custa muito dar-se conta que Zared é uma garota e além disso, muito formosa.

Agora, como o furor da inimizade entre suas famílias, Tearle quer ganhar o coração de Zared e salvá-la da escuridão e da obsessão de morte de seus irmãos.

 

Capítulo Um

Inglaterra 1447

O antigo castelo, que a distância parecia velho e necessitado de restauração, emergia rodeado por um fosso. No terreno a sua frente, diferentes homens se exercitavam com espadas e lanças. Alguns deles lutavam de pé e outros a cavalo.

Dois homens assistiam o treinamento; ambos robustos, musculosos e aparentando uma intensa concentração. Eram os irmãos sobreviventes da família Peregrine; os outros haviam morrido em uma luta antiga entre eles e os Howard e que duravam três gerações.

— Onde está Zared? — gritou Rogan, o mais velho. O sol brilhava sobre seus cabelos avermelhados que herdara de seu pai.

— Está na casa, — Severn gritou olhando para o irmão. — Vi Zared se afastar — acrescentou sem usar o pronome “ela” para que os homens que o rodeavam não soubessem que Zared era uma mulher.

Rogan concordou e voltou a olhar seus homens que lutavam a pouca distância dele.

Por causa dos Howard, de sua covardia, já tinha perdido quatro irmãos e há dois anos antes, esteve a ponto de perder sua esposa. Não pretendia perder também sua irmã, e este era o motivo pelo qual sempre se preocupava em saber onde se encontrava.

Olhou zangado para os combatentes: — Acaso são mulheres que estão lutando com tão pouco vigor? Venham e mostrarei como se faz.

Pegou a espada de um deles e passou ao ataque, em poucos minutos pôs o adversário de joelhos e aborrecido olhou para o homem. Levantou a espada para voltar a atacá-lo, mas a deixou cair no chão e se afastou.

Como podia proteger sua família, proteger a pouca terra que tinha ficado aos Peregrine se os homens que lutavam para ele eram tão fracos?

Montou em seu cavalo para ir ao castelo, mas Severn o deteve. — Vai procurá-la? — perguntou em tom belicoso ao irmão quando ficaram sozinhos. Estava aborrecido pelo fato de seu irmão não acreditar em sua afirmação de que Zared estava segura.

— É desobediente — replicou Rogan. Três semanas antes Zared tinha decidido ir nadar e se afastara a cavalo sozinha, sem escolta e desprotegida. Aos dezessete anos acreditava, como todos os jovens, que não corria nenhum perigo.

— Irei procurá-la — disse Severn, com intenção de aliviar seu irmão mais velho de pelo menos uma parte das responsabilidades que o sobrecarregava.

Rogan concordou e Severn esporeou seu cavalo. Severn também conhecia o modo de pensar de sua irmã; ele também tinha sentido sobre seus próprios ombros o peso do ódio que sua família sentia pelos Howard. Com o passar dos anos os viu matar um após outro, os membros de sua família. Antes tinha morrido seu irmão mais velho, depois os Howard deixaram morrer de fome sua mãe e sua madrasta. Assistiu a dor de Rogan quando sua primeira mulher e depois a segunda foram capturadas pelos Howard.

Desde que Zared, única menina entre tantos irmãos, havia nascido da mãe de Severn, toda a família se uniu para protegê-la. Desde o início haviam procurado uma maneira de que ninguém soubesse que havia nascido dos Peregrine uma frágil e vulnerável mulher, em vez disso fizeram correr a notícia que tinha vindo ao mundo o sétimo filho varão.

Depois da morte de sua mãe, que morreu de fome, ocorrida em um dos castelos assediados pelos Howard, Zared tinha sido criada por seus seis irmãos. Haviam-na educado como se fosse um filho varão, vestindo-a como um moço, pondo em suas mãos uma espada na idade de quatro anos, e nunca lhe concederam o luxo de acreditar ser uma fraca e delicada jovenzinha.

Mas agora parecia que os irmãos estavam pagando por tudo isso: Zared agia como qualquer moço de dezessete anos; parecia impaciente em deixar o castelo, convencida de ter o direito de fazê-lo. Estava armada com sua espada, escondia sua adaga nas botas e estava convencida de estar em condições de se autoproteger dos Howard.

Severn e Rogam tentavam fazê-la entender que por mais que ela gostasse de pensar ser forte e capaz com as armas, na realidade era somente uma frágil moça.

Liana, a esposa de Rogan, havia dito algo a respeito de sua irmã, mas Severn pensava que Liana sempre tinha algo a dizer sobre tudo.

— Como podem criá-la com uma espada nas mãos e depois, de um dia para outro, dizer que se sente em um salão para bordar e pensar que ela ficará satisfeita?— Milady tinha perguntado. — Hoje é exatamente o que querem fazer com ela.

Ao se lembrar dessas palavras, Severn fez uma careta e pensou pela enésima vez que Rogan deveria ter repreendido sua esposa cuja língua era muito grande.

Agora que ele e seu irmão não tinham tantas preocupações, ocupavam-se constantemente de Zared para ter certeza de que não se afastasse sozinha. Quando seu cavalo passou pela ponte levadiça, Severn sorriu. Nos últimos dias tinha pensado em uma maneira de tirar Zared do perigo constante de ser observada pelos Howard e ao mesmo tempo encontrar uma rica esposa para si. Já havia informado Rogan sobre seus projetos e agora só faltava dizê-lo a Zared. Ao pensar em qual seria a reação da jovem, seu sorriso se acentuou. Embora vestisse e se comportasse como um moço, ela tinha um modo muito feminino de demonstrar sua alegria pelas pequenas coisas. E Severn sabia que seu projeto agradaria sua irmãzinha.

Certamente e acima de tudo, deveria dizer a Liana o que pretendia fazer e não existiam dúvidas que sua cunhada criaria alguma dificuldade, mas saberia como dominá-la. — Sei fazer melhor do que Rogan — murmurou, porque achava que seu irmão era muito terno com a mulher — Pergunte a Liana — havia dito Rogan, quando Severn falou de seus projetos a propósito de Zared. Perguntar alguma coisa a uma mulher? — Falarei. — disse a si mesmo decidido, enquanto desmontava do cavalo e se dirigia aos aposentos de Liana.

Zared estava imóvel perto da porta, com a face apoiada contra a tosca muralha de pedra, observava em silêncio as damas de Liana. Riam, lançavam gritos e murmuravam entre si, ocupadas em livrar-se de seus vestidos de seda. Às vezes Zared podia escutar um desses murmúrios: estavam falando dos homens que moravam no castelo e quando ouviu o nome de Ralph endireitou-se levemente. Ralph era um jovem cavalheiro que Rogan tinha contratado recentemente e nenhum homem antes a interessara tanto. Bastava encontrá-lo para que seu coração se sobressaltasse e pulsasse mais rápido que de costume e suas bochechas se avermelhassem.

— Quer provar este vestido?

Zared não compreendeu imediatamente que essas palavras eram dirigidas a ela.

Quem falava era uma das mais belas damas de Liana. Tinha o cabelo preso em uma rede de ouro, usava um vestido de veludo e estendia para Zared um vestido de seda cor esmeralda. Embora os homens dos Peregrine não soubessem o segredo sobre o sexo de Zared, as damas de Liana conheciam a verdade.

Zared estendeu a mão para pegar o vestido, mas o deixou cair imediatamente. — Não — com todo o desprezo que era capaz. — Não gosto de frivolidades.

Em vez de parecerem ofendidas, as damas lançaram um olhar de piedade.

A jovem fez o melhor que pode para assumir uma atitude altiva e depois disso deu as costas e se afastou. Os vestidos femininos não a interessavam, nem se importava em conversar ou fofocar.

Desceu depressa as escadas de pedra e quando chegou ao térreo parou porque ouvira a voz de Liana e logo um profundo suspiro.

Desde que seu irmão mais velho se casara há alguns anos, muitas coisas haviam mudado na casa dos Peregrine.

A comida era melhor, as camas mais limpas e em toda parte havia mulheres. Mas Liana não havia conseguido mudar Zared. Nenhum de seus argumentos conseguiu induzir o marido e os cunhados a fazer com que de algum modo a moça mudasse. Zared continuava a convencer a todos que era o mais jovem dos irmãos Peregrine, isso a protegia.

Zared acreditava que nunca desejaria uma vida de mulher. Não queria ser como Liana, sempre isolada dentro dos muros do castelo, jamais podendo sair sozinha e galopar através dos campos. As mulheres como Liana e suas damas deviam sentar e esperar que um homem fosse até elas. No entanto, se queria sair e cavalgar ela o fazia e não esperava que nenhum homem a ajudasse montar ou a acompanhasse.

Mas de vez em quando, só de vez em quando, esperava poder ser tão atraente como uma mulher. Um dia, enquanto treinava o uso das armas com Ralph, havia passado ao seu lado uma das damas de Liana e o jovem cavalheiro se virou para olhá-la.

Zared sentiu que a cólera a invadia e golpeou Ralph na cabeça fazendo-o cair, provocando a risada dos presentes. Desde aquele dia Ralph nunca mais se exercitou com ela, nunca mais foi sentar-se ao seu lado e quando podia, não permanecia no mesmo aposento que ela estava. Severn dizia que Ralph se comportava assim porque acreditava que ela era um moço e talvez fosse verdade, mas a jovem sentia-se saudosa.

Depois de uma semana, Zared pensou em pedir a Liana um vestido feminino, mas decidiu não fazê-lo. Vestir esse adorno seguramente atrairia a atenção de Ralph, mas isso não seria do agrado de seus irmãos que não permitiriam que saísse do castelo sozinha. A atenção de um homem era digna de perder sua liberdade?

Enquanto refletia, não percebeu que o tom das vozes da sala vizinha se elevava.

—Não pode pensar uma coisa dessas — dizia Liana em tom exasperado.

Zared compreendeu que a cunhada estava falando com Severn e sabia que os dois não combinavam. Liana sempre conseguia obter tudo o que desejava de Rogan e isto deixava Severn furioso. Cada vez que se dirigia à cunhada, suas palavras eram cheias de hostilidade.

— É minha irmã e a levarei comigo— estava dizendo Severn, em tom zangado. — Não necessito de sua permissão.

Zared aguçou o ouvido e escutou.

O tom de voz de Liana voltou a se acalmar, como se tratasse de fazer raciocinar o idiota da aldeia. — Mal pode protegê-la aqui e quer expô-la aos olhares de todos?

— Será meu escudeiro. Eu a protegerei.

— Enquanto estará ocupado em cortejar Lady Anne? E Zared dormirá com os outros escudeiros? Ou em sua tenda, onde se deitará com mulheres de má vida? Zared não é Volante, que permanece nos arredores enquanto está na cama com outras mulheres.

Zared conteve a respiração. Liana havia passado dos limites.

Volante era uma bela mulher que durante um tempo tinha ocupado um quarto acima da cozinha. Casou-se, mas seu marido velho e impotente, tinha permitido que vivesse com Severn ou fingia que não sabia que entre os dois havia uma relação.

Quando ele morreu, Severn pediu Volante em matrimônio, mas ela tinha recusado sua oferta dizendo que o amava e que sempre o amaria, porém não estava disposta a casar com um homem tão pobre. Voltou para a casa de seu marido e depois de um ano se casou com um homem gordo e estúpido, porém rico. Logo em seguida pediu a Severn que voltasse para ela, mas ele a repeliu e na casa Peregrine o nome de Volante nunca mais foi pronunciado.

Zared não podia ver seu irmão de onde estava, mas não duvidava que nesse momento tremia de raiva.

— Severn — prosseguiu Liana em tom de súplica. — Rogo que me escute.

— Não, não a escutarei. Devo ir em busca de uma esposa. Não quero, porque vi até que ponto uma esposa pode mudar um homem, mas devemos melhorar nossas finanças se quisermos ganhar a guerra contra os Howard, se…

— Cala-se!— interrompeu-o Liana com um grito. — Já não aguento mais! Falam sempre dos Howard. Nunca ouvi falar de outra coisa, desde que entrei nesta família. Aqui se come pensando nos Howard, se vai para cama pensando nos Howard. Não consigo me livrar deles. Como pode permitir que sua irmã seja exposta a perigos, só porque odeia essa gente?

Outra vez Zared conteve o fôlego. Severn teria golpeado a esposa de Rogan? Se o fizesse, Rogan o mataria. E, por outro lado, como Liana podia falar de maneira tão frívola de seus inimigos? Como podia esquecer o que os Howard fizeram aos Peregrine no decorrer de três gerações?

A moça voltou a respirar normalmente somente quando ouviu a voz de seu irmão.

Evidentemente tinha conseguido controlar-se. Ela sabia do que estavam falando. Um mês antes havia chegado um mensageiro portador de um convite para o grande torneio que ocorreria na ocasião do matrimônio de Lady Catherine Marshall. Os prêmios em disputa eram valiosíssimos, entre eles estava uma grande esmeralda, mas o mensageiro deu a entender que o mais rico dos prêmios era representado pela filha mais nova de Marshall, Lady Anne. Com dezoito anos, recém-chegada da França depois de um longo período passado na corte desse país, seu pai procurava para ela um bom marido inglês.

Durante o jantar, depois da partida do mensageiro, Severn tinha anunciado sua intenção de participar do torneio e quando retornasse para casa traria a rica Lady Anne como esposa.

Neste momento, entre ele e Liana instalou-se uma grande discussão. A jovem mulher o tinha acusado de presunçoso. Como poderia pensar que uma jovem de maneiras refinadas e culta pudesse escolher um homem como ele, mau vestido e sujo, só porque sabia desmontar alguns toscos cavalheiros? Severn replicou que se Rogan foi capaz de casar-se com uma mulher rica, ele também faria o mesmo. Liana o contradisse informando-o ter sido ela quem escolheu Rogan e que duvidava que Anne escolheria um homem negligente e presunçoso como Severn e para piorar, notoriamente apaixonado por outra mulher. O jovem se levantou e Rogan teve que segurá-lo para evitar que agredisse a sua esposa.

Desde aquele dia, na casa Peregrine não havia mais paz e Zared pensava que as contínuas discussões eram imputáveis exclusivamente a Liana.

Administradora por natureza, a jovem começou a preparar Severn para o torneio.

Ordenou que angariassem novos arreios e mantas bordadas para os cavalos, projetou a barraca do cunhado, até a decoração de seus capacetes. No entanto, quanto mais fazia projetos, mais Severn se opunha a aprová-los. Depois de três semanas de discussões, disse a Liana que se fosse necessário, carregaria Lady Anne em seu cavalo, obrigando-a casar-se com ele.

— Deveria fazê-lo —replicou Liana— a força será o único meio com que poderá contar, depois que ela se aproximar o suficiente e dar-se conta do horrível aroma que você emana.

Severn decidira partir dentro de dois dias e recusara a levar consigo as coisas que ela havia preparado para ele, afirmando: — Irá me querer como sou.

— Jamais será sua esposa!— exclamou Liana.

E agora estava dizendo para sua cunhada que queria levar consigo a sua irmã na qualidade de escudeiro. Ante a ideia de ver o mundo, de escutar música, de degustar alimentos refinados, a jovem sorriu.

— Zared não pode acompanhá-lo— disse Liana. — Esqueceu que apesar do seu disfarce sempre será uma mulher? O que aconteceria se descobrissem? O que faria para manter esses homens ébrios afastados dela? Ninguém a pedirá em matrimônio se ela perder sua virgindade.

Matrimônio?— pensou Zared. Ninguém nunca lhe falara de matrimônio.

O tom de voz de Liana era suave. — E os Howard? Poderão ficar sabendo que dois dos familiares dos Peregrine participarão do torneio. Não acredita que tentarão capturar um? E é obvio que procurarão o mais jovem, o menos robusto!

— Os Howard não se atreverão a ofender o rei que estará presente.

— Eles atacarão durante a viagem!— replicou Liana, encolerizada. — Severn, rogo que me escute. Não ponha em perigo a vida da menina. Não permita que seu rancor por Volante cause a morte de sua irmã.

Zared se deu conta que estava apertando os punhos e que as unhas penetravam nas palmas. Teria que aparecer e gritar para Liana que parasse de protegê-la, pois se um homem a assaltasse, saberia fazer uso de sua adaga.

Como Liana podia pensar que ela era fraca e tivesse necessidade de ser protegida como uma frágil mulherzinha? Era um homem, não uma mulher!

— Quero dizer…— disse para si em um murmúrio e com horror sentiu os olhos cheios de lágrimas. Era uma mulher, mas estava em condições de defender-se.

— Virá comigo— prosseguiu Severn e o tom de sua voz fez Zared compreender que o jovem punha fim à discussão.

A moça se separou da parede em que estava apoiada e se afastou antes que o irmão a visse.

— Que vão todos ao diabo!— exclamou a meia voz. Momento antes estava no campo de treinamento, com Rogan gritando para segurar mais alto a espada e depois ouvia as palavras de Liana: segundo esta, ela era muito fraca para defender-se de um homem ébrio! Era um homem, não uma mulher.

Continuou a descer as escadas até que alcançou o pátio, onde encontrou o cavalo de Severn, esperando o seu dono. Zangada com a família inteira que a fazia duvidar de sua própria identidade, saltou sobre o cavalo e saiu pela ponte levadiça, surda aos gritos que se levantaram por todos os lados.

Cavalgou o mais depressa que pôde, sem se preocupar com a direção que tomava.

O castelo de Peregrine e suas terras desapareceram as suas costas, mas ela continuou a fustigar o cavalo, que passou a correr cada vez mais veloz. Tendo percorrido várias milhas, percebeu que três cavalheiros a estavam seguindo. Virou-se e compreendeu imediatamente que se tratava dos homens de Howard, porque traziam suas cores e emblemas.

O coração disparou no peito. Rogan a advertira: os Howard os estavam observando e esperavam a ocasião de atacar o primeiro Peregrine que saísse do castelo desprotegido.

Durante toda sua vida a protegeram contra os Howard: desde que ela nascera, haviam inculcado a noção de que os Howard eram traidores e vis. Algumas gerações anteriores, um Duque Peregrine velho e meio bobo, casou-se pela segunda vez com uma bela jovem pertencente à família dos Howard. A jovem ambiciosa tinha convencido o marido ancião a modificar o próprio testamento deixando tudo, o dinheiro, o título e as propriedades para ela e para o seu adoentado filho, um menino que, segundo comentavam, não era do duque.

Assim conseguira que ele deserdasse seus próprios filhos, fazendo-o acreditar que na realidade nunca se casou com sua primeira esposa. O ancião que alternava dias de lucidez mental e dias de confusão, pediu que lhe trouxessem os registros onde figuravam os matrimônios celebrados na paróquia. Os registros não foram encontrados e todas as testemunhas das bodas haviam morrido, alguns deles recentemente.

O velho duque, morrendo em meio à grande sofrimento, tinha declarado bastardos os filhos de seu primeiro matrimônio, deixando cada um de seus bens para a família da segunda esposa.

Depois disso, os Peregrine e os Howard lutaram pela propriedade e as ricas terras passaram a ser controladas pelos Howard; com o correr dos anos as perdas foram grandiosas para ambas as partes, enquanto o ódio recíproco se fazia cada vez mais profundo.

Depois de virar-se para olhar os homens que a seguiam, Zared começou a galopar mais depressa do que nunca tinha feito em toda a sua vida, tendo a cabeça inclinada sobre o pescoço do cavalo, enquanto a crina do animal fustigava-lhe o rosto. Percorrendo a toda velocidade um atalho, ultrapassou carroças, pessoas, animais, mas de repente se deu conta que seu animal estava esgotado, perdia terreno e que seus perseguidores estavam por alcançá-la.

Já estavam a pouca distância, quando a moça pensou em se salvar penetrando no bosque que estava diante dela; sua montaria tropeçou em um fosso, fazendo-a cair na terra e rolar no pó do caminho. Quando parou e olhou para cima, viu os três homens de pé com a espada contra a sua garganta .

— É o mais jovem dos Peregrine— disse um dos homens, como se não acreditasse em sua própria sorte. — Pagarão muito bem por esta captura.

— Deixe de pensar no dinheiro e se apresse em amarrá-lo, não tem como escapar.

O segundo homem agarrou seu braço e a obrigou a se levantar, observando: — É magro.

A moça se libertou do apertão.

— Não faça brincadeiras ou te farei provar a minha adaga. A um Howard pouco importa se um Peregrine é entregue vivo ou morto.

— Cale-se!— ordenou o primeiro comparsa. — Coloque o moço no seu cavalo e vamos embora, antes que seus irmãos cheguem.

O nome dos Peregrine acalmou ambos os jovens; um deles colocou Zared no cavalo e saltou detrás dela.

Zared conseguiu pensar somente que a luta estava por recomeçar e que antes de seu término teria perdido algo importante. Fechou os olhos para não mostrar que estavam cheios de lágrimas de tristeza.

Tinha que encontrar um modo desses homens continuarem a acreditar que era um moço. Não queria pensar no que poderia acontecer se tivessem percebido que ela era uma mulher.

Tearle Howard estendeu as pernas largas e musculosas, bocejou e se deitou sobre a suave relva que crescia à beira do arroio.

O sol estava morno e os insetos zumbiam lentos. A sua esquerda ouvia o murmúrio dos homens de seu irmão. Desejava tirar um cochilo e passar o dia ao sol, mas as vozes dos homens o impediam de dormir, recordando a obsessão do mais velho dos Howard.

Até dois meses antes vivera na França, na corte de Felipe, o Bom. Criado por sua mãe, viveu em um ambiente culto e refinado, assimilando o melhor da música, da dança e da arte. Aos vinte e seis anos tinha começado a pensar com curiosidade em sua família que nunca tinha conhecido, encontrando-a raramente até que Oliver pedira ao irmão caçula que voltasse para a Inglaterra; sentiu-se contente e perplexo. Havia feito a viagem em companhia agradável e saudara com alegria seu irmão e sua cunhada.

A alegria entretanto, tinha diminuído quando descobriu que Oliver queria induzi-lo a lutar com uma família de nome Peregrine. Oliver horrorizou-se quando percebeu que ninguém tinha ensinado seu irmão a odiar os Peregrine desde a infância. Segundo ele, os que pertenciam a essa família eram diabos na terra e deviam ser eliminados de qualquer maneira. Tearle horrorizou-se ao compreender que seus irmãos mais velhos tinham sido sacrificados nessa luta absurda.

— Não acredita que chegou o momento de pôr fim a esta guerra?— perguntou para Oliver. — Pelo que sei, a causa desta luta consiste no fato que nossas propriedades pertencem a eles. Se nós possuímos terras das quais eles se sentem extorquidos, seria mais lógico que fossem os Peregrine a nos atacar em vez de sermos nós a combatê-los sem descanso como fazemos.

Aquelas palavras tinham encolerizado Oliver que lhe deu um faiscante olhar carregado de rancor, e naquele momento o jovem duvidou da saúde mental do irmão.

Nunca tinha conseguido compreender a verdadeira causa de Oliver com respeito aos Peregrine, mas depois de ter ouvido algumas intrigas que circulavam pelo castelo suspeitou que o ódio tinha algo a ver com Jeanne, a mulher de aspecto cansado que era a esposa de seu irmão mais velho.

Em todo caso esse ódio estava muito enraizado para que Tearle ousasse pensar em combatê-lo. Assim tentava evitar o quanto podia seu irmão mais velho, a vida no castelo não era fácil e também o aborrecia. Oliver dedicava todas suas energias no ódio pelos Peregrine e não se beneficiava com as coisas mais gratificantes da vida, como a música ou as companhias agradáveis.

Assim, neste dia Tearle estava feliz porque, longe de seu irmão, podia folgar ao sol.

— Vá vigiar os Peregrine — tinha ordenado seu obsessivo irmão.— Vá com os homens e observe-os.

— Colocou seus homens nos arredores do seu castelo?— Perguntou Tearle. — Controla tudo o que fazem?— Conta até quantos repolhos compram no mercado?

— Não critique o que não conhece— replicou Oliver enquanto seus olhos se entrecerraram. — Há dois anos o mais velho deles foi à aldeia acompanhado por sua esposa. Sim, eu sabia e pude capturá-los. Capturei a esposa, mas ela…— interrompeu-se e olhou ao longe.

— O que fez?— perguntou Tearle interessado .

— Não me recorde esse dia. Vá e observe as pessoas que combato. Vendo-as, entenderá.

A visão do castelo em ruínas não o impressionara. Era evidente que trataram de repará-lo o melhor que podiam, mas não conseguiam dissimular a pobreza do lugar. De uma colina um pouco distante, Tearle tinha observado com uma luneta os três Peregrine sobreviventes que se exercitavam com seus homens no uso das armas. O mais jovem deles era um mocinho.

Por três dias Tearle permaneceu observando os treinamentos, ao final decidiu que já os conhecia bem. Além dos dois homens e o moço, notara dois jovens que pareciam pouco peritos no uso das armas, como se não as conhecessem.

— Seus meio-irmãos — havia dito Olivier em tom depreciativo. — Sim, eu sei…

— Você os mataria — concluíra Tearle em tom cansado.

— Preste atenção, não desafie muito minha paciência — Criticou Oliver.

Os Peregrine, apesar de sua pobreza, acolhiam seus irmãos ilegítimos, mas Oliver, com toda sua riqueza, ameaçava constantemente colocar Tearle porta afora.

Prudentemente Tearle não enfrentou seu irmão por isso.

Ao quinto dia o jovem sentiu que observar os Peregrine já não lhe interessava.

Estava fora de forma quanto às armas e gostaria de unir-se a eles no treinamento.

— Poderia lutar com o loiro— pensou observando Severn, que derrubou no chão outro homem. Passou a luneta a um de seus homens e se afastou. Devia encontrar um modo de livrar-se do cargo de espião.

Percebeu que estava a ponto de dormir quando ouviu o ruído dos cascos dos cavalos se afastando. Os homens de seu irmão se foram e ele se levantou de repente.

Levantou a luneta do chão onde a atirou e observou. Os Peregrine estavam muito inquietos. O mais velho, Rogan, estava montando e gritando a todo pulmão. O segundo irmão já estava galopando. Mas nenhum dos dois e nem os seus homens sabiam que caminho seguir, por isso se afastaram em direções diferentes.

— Deve se tratar do moço — murmurou Tearle. Só uma só vez o vira fugir dos irmãos protetores, mas não mencionou aos homens de Oliver pensando: — Provavelmente o moço vai se encontrar com alguma bela na aldeia, então o deixe fazer.

E os homens ficariam ocupados até que o moço voltasse são e salvo.

Correu em direção ao seu cavalo, saltou na sela e seguiu os homens de Oliver que evidentemente deviam ter visto a direção que o moço havia tomado. Demorou bastante para alcançá-los e no primeiro momento pensou ter chegado muito tarde. Viu o cavalo que sabia ser de Severn e que os homens já estavam conduzindo o prisioneiro em direção à propriedade dos Howard.

Sentiu-se perdido: a captura do moço voltaria a abrir as hostilidades entre as duas famílias e os Howard estariam do lado dos agressores. Deus! Oliver e sua obsessão.

Os dois homens, ante a presença de Tearle pararam hesitantes, seus rostos estavam triunfantes e esperavam sua aprovação. Montado diante de um deles estava o moço e Tearle não ousou olhá-lo, mas olhou surpreso os dois comparsas.

— Capturamos, Milord. — disse um deles. — Devemos levá-lo onde está o seu irmão ou o matamos aqui mesmo?

Tearle só conseguiu abrir a boca. Não davam conta de que haviam capturado uma moça? Não sabiam a diferença entre um moço e uma moça?

— Milord.— insistiu o homem. — Os Peregrine estarão aqui em uns minutos.

O jovem recuperou o controle. Os Peregrine não se limitariam a conversar ao perceber que sua irmãzinha fora capturada.

— Eu mesmo o levarei ao meu irmão — disse e adicionou para si — E deixarei a jovem livre.

Os homens vacilavam.

Franzindo as sobrancelhas, Tearle lhes atirou uma bolsa com moedas.

— Tomem isto. Ocupar-me-ei pessoalmente deste Peregrine.

Os olhos dos comparsas se iluminaram. Haviam obtido o que queriam, não se interessavam em saber qual a sorte Tearle reservava ao prisioneiro.

Um deles se aproximou de Tearle e com maneiras bruscas pôs Zared na sela de seu cavalo. O jovem vendo que os pulsos da moça estavam atados, sobressaltou-se.

— Vão! — ordenou aos homens. — Vão, antes que os surpreendam.

Os dois comparsas vacilaram um instante, depois esporearam os cavalos em direção às terras dos Peregrine. Tearle rodeou a fina cintura da moça, atraiu-a para si e partiu a galope em direção ao bosque.

Capítulo Dois

Tearle se perdeu no bosque, abandonando os atalhos que os habitantes das aldeias tinham percorrido por séculos e penetrou em um espesso bosque de carvalhos. Em certo ponto um ramo pendente ameaçou golpear Zared e o jovem a protegeu com o braço. Ao inclinar-se para afastar um segundo ramo, aproximou o rosto de seu pescoço e sentiu em sua face os suaves cabelos dela.

Cavalgando, não pôde deixar de sorrir. Oliver acreditava que soubesse tudo sobre o propósito dos Peregrine, mas certamente nunca imaginou que o mais jovem deles era na realidade uma moça. Os Peregrine tinham feito bem em manter o segredo; Oliver parecia particularmente fascinado pelas mulheres Peregrine. Quando entrou em uma clareira escondida, parou o cavalo e saltou da sela, atraindo consigo a jovem.

Esta ainda tinha as mãos atadas atrás das costas e estava sozinha à mercê de seu inimigo, mas em seus olhos não havia temor.

Tearle pôs as mãos em seus ombros e a olhou. A túnica suja que vestia cobria até as coxas e suas pernas estavam embainhadas em estreitas meias, calçava suaves botas que lhe chegavam até o joelho. Seus cabelos escuros, com reflexos avermelhados visíveis ainda na penumbra do bosque, chegavam até os ombros frisando-se nas pontas e a jovenzinha usava um minúsculo gorro adornado lateralmente por uma pluma.

Pela primeira vez desde que deixara a França, o jovem sentiu-se interessado pela vida. A moça a sua frente era verdadeiramente estranha, lembrou-se do modo que a viu treinar com os irmãos no uso das armas: impropriamente sentiu o impulso de voltar a colocá-la na sela e conduzi-la ao castelo de sua família. A mansão era imensa e teria sido fácil escondê-la.

Zared, enquanto isso, observava o homem que lhe segurava os ombros: um homem alto com os olhos e cabelos negros, os inconfundíveis traços dos Howard. Os homens que a tinham capturado se dirigiram a ele chamando-o de “Milorde”, portanto devia ser o irmão caçula de Oliver que tinha permanecido tanto tempo ausente do castelo da família.

Ouvira falar dele, disseram que era um inútil e por isso o afastaram junto com sua mãe, também indesejável. Olhando-o percebeu que o que ouviu devia ser certo: durante o trajeto apertou-a para assegurar-se que era cheinha o suficiente para ser assada e agora seus olhos negros a examinavam como se quisesse devorá-la.

Era um homem perigoso, e teria se defendido se suas mãos não estivessem amarradas. Enquanto continuava olhando-a como um homem faminto, a moça tentava planejar uma fuga.

Por certo não estaria em condições de fugir dos homens dos Howard, mas era provável que o conseguisse com esse louco. Se o convencesse a desamarrar-lhe as mãos, poderia usar a adaga que estava escondida em uma de suas botas. Com essa arma talvez pudesse lutar e derrotá-lo. Era robusto sim, mas poderia ser lento como seu irmão e talvez sua superioridade em vez de músculos, poderia ser atribuída a gordura.

— Como se chama?— perguntou-lhe.

—Peregrine!— disse ela. Se o homem não a desamarrasse, se pretendia matá-la, não morreria como se fosse uma covarde.

— Falo de seu nome e não de seu sobrenome — replicou em tom cortês.

Que truque era esse? Perguntou Zared. Esse homem queria fazê-la acreditar que nele não havia maldade?

— Meus irmãos o matarão, disse — Literalmente o farão em pedaços.

Tearle sorriu levemente: — Sim, eu não duvido.— Assim dizendo tirou uma adaga adornada de pedras preciosas e Zared involuntariamente retrocedeu um passo.

— Não quero fazer-lhe nenhum mal —disse Tearle, falando como se fala a um bichinho selvagem invadido pelo terror.

Se ele acreditava que ela confiava nas afirmações de um Howard, na verdade era um tolo e um louco.

Pegou-a pelos ombros e a fez girar, depois usou a adaga para cortar a corda que lhe amarrava as mãos, enquanto isso ela colocou em prática um velho truque, fingiu tropeçar, caiu de joelhos e tirou a adaga da bota e a deslizou entre sua manga.

— Está ferida?— perguntou Tearle. — Temo que os homens de meu irmão tenham sido muito rudes com você.— Pôs novamente as mãos em seus ombros, atraiu-a para ele e incapaz de conter-se, beijou-a delicadamente nos lábios.

Zared se sentiu ultrajada! Nunca antes tinha sido beijada por um homem e não conseguia suportar que esse homem, esse diabo e inimigo o tivesse feito. Extraiu a adaga de sua manga e a afundou em suas costelas.

Tearle se separou dela, observou o sangue que começava a manchar a curta túnica de veludo que vestia e olhou-a, surpreso.

— Morte a todos os Howard! — exclamou Zared e assim dizendo se dirigiu ao cavalo.

— É livre— sussurrou ele. — Não tinha nenhuma intenção de fazê-la prisioneira.

Zared saltou no cavalo e virou, lançando um olhar. Tinha empalidecido e sua ferida parecia sangrar abundantemente. Esporeou o cavalo e rumando para fora da clareira, começou a galopar através do bosque com a cabeça inclinada.

Só quando saiu da espessura das árvores, percebeu que a guerra entre os Peregrine e os Howard havia recomeçado pelo simples feito que talvez houvesse matado o mais jovem da família.

Continuou a cavalgar. Não, não o matara, estava segura. Somente o ferira sem tocar em algum órgão vital. Entretanto, seria verdade? Voltou a ver o rosto pálido dele. E se ele morresse sangrando?

Os homens da família Howard compreenderiam imediatamente que o assassino era um Peregrine. Tornariam a atacar e por sua culpa morreriam outros Peregrine. Era possível que desta vez Oliver Howard conseguisse fazer desaparecer da terra todos os Peregrine.

No limite do bosque ela parou. Deveria voltar e se assegurar que esse homem não morresse. Mas o que aconteceria se enquanto isso o ferido se recuperasse? Ele a capturaria novamente e a conduziria até Oliver.

Zared tomou a cabeça entre as mãos e refletiu por um momento. Desde que chegou ao mundo, seus irmãos tinham tomado todas as decisões por ela. Sabia que tanto Rogan como Severn ficariam furiosos se um Howard capturasse sua irmãzinha e por certo teriam matado o mais jovem dessa família. Devia voltar para onde estavam seus irmãos e contar o que tinha acontecido?

Por outro lado, se a capturaram, a culpa era somente dela. Tanto Rogan como Severn a advertiram porque sabiam que os homens dos Howard estavam sempre à espreita.

Devia voltar para a clareira. Devia encontrar um modo para que a ferida do homem parasse de sangrar e que não morresse, senão ambas as famílias recomeçariam a guerra.

Preparou-se com a espada e se fosse necessário, se tentasse dominá-la, prenderia suas mãos e pés. Faria o necessário para evitar mais complicações.

Tearle observou com pesar a moça que se afastava, pensando que não tornaria a vê-la.

Olhou o ponto onde o sangue continuava a sair e levantou a túnica para examinar a ferida. As costelas desviaram a adaga e tinha suficiente experiência para saber que poderia ter sido gravemente ferido.

Olhou ao redor e percebeu que a jovenzinha levara seu cavalo. Teria que voltar para casa a pé?

Calculou quanto tempo os dois homens levariam para chegar até Oliver, e quanto tempo seria necessário para agrupar um número de homens e sair à procura do irmão e do prisioneiro.

Tearle refletiu longamente. Seu irmão o encontraria dentro de quatro horas e naquele lapso de tempo poderia ficar tranquilo, a ferida teria deixado de sangrar.

Arrastou-se até os pés de uma árvore e pouco a pouco o torpor o dominou, adormecendo-o.

Zared saltou da sela e deixou o cavalo a pouca distância da clareira. Depois, com a mão na adaga, caminhou deslizando como uma gata até o ponto onde tinha deixado o homem.

Vendo-o deitado no chão, pensou que estivesse morto…sim, era muito tarde para salvá-lo.

Tearle a ouviu chegar e conteve o sorriso. Oliver dizia que os Peregrine eram cruéis e desumanos: bem, esta jovem representava a exceção. Somente deveria evitar assustá-la e decidiu que fingiria dormir, para retê-la ao seu lado o maior tempo possível. Fez um leve movimento, emitindo um gemido de dor.

Ante aquele gemido, Zared estremeceu, respirando aliviada. O homem, portanto, não estava morto. Avançou prudentemente, sempre com a adaga na mão, tocou-o com um pé. O homem emitiu outro lamento e murmurou: — Um sacerdote, vá procurar um sacerdote.

Diante daquelas palavras, a moça se esqueceu da prudência e pensou que devia salvá-lo. Ajoelhou-se ao seu lado, abriu a túnica e examinou a ferida. Percebeu que em suas costelas não havia muita carne, só pele e músculos, mas parecia ter perdido muito sangue. Observou o rosto do ferido e viu que estava contraído de dor. Como um Howard podia ser tão fraco a ponto de sucumbir a uma ferida tão superficial? Havia visto muitas vezes, feridas parecidas no corpo de seus irmãos e eles continuavam a lutar por um dia inteiro antes de curá-la.

E esse homem por um pequeno corte, pedia nada menos que um sacerdote.

Rasgou a túnica dele em várias tiras e o mesmo fez com a camisa de linho que o cobria, logo pôs uma das tiras na ferida e tratou de envolver seu tórax.

O homem era um peso inerte e levantá-lo era impossível, seria mais fácil levantar um cavalo morto. Inclinou-se sobre ele e o moveu com suavidade. Pôs-lhe as mãos ao redor do pescoço e puxou-o para si, fazendo alavanca com seus ombros, mas o homem não se moveu, parecia totalmente inconsciente de sua presença.

— Acorde!

O homem estremeceu, sem abrir os olhos. — Estou tentando enfaixá-lo, tem que se levantar.

— Deve me ajudar…— sussurrou finalmente Tearle, em tom destroçado.

Olhou-o desgostosa, inclinou-se novamente sobre ele e o ajudou a levantar-se.

Parecia muito fraco e finalmente caiu sobre ela. Embora com dificuldade, a jovem conseguiu enfaixá-lo.

— Agora se deite— disse. Esse homem parecia muito tolo, tinha que dizer-lhe as coisas mais simples. Teve que ajudá-lo inclusive a retomar a posição anterior.

— Assim estará melhor— prosseguiu. — A ferida não é profunda. Fique aqui e tente descansar. Logo seu irmão chegará, não está muito longe das terras dos Peregrine — Moveu-se para levantar-se, mas ele tomou sua mão.

— Não me abandonará, certo? Morrerei se me deixar.

— Não morrerá — replicou Zared em tom desdenhoso, não podendo deixar de pensar que os Howard o enviaram a França, não por ser perigoso, mas somente porque era um fraco e teria levado vergonha à família.

Continuar: parte 2 de 3