A Conquista

Jude Deveraux · Capítulo 3 de 5 · parte 2/2

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A Conquista

Zared se retraiu: — Vá! Deixe-me, não…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Quando estava seca, olhou ao redor em busca de sua roupa: não a encontrou, mas viu que sobre sua cama estava estendida uma suave bata de veludo. Era de cor azul profunda, bordada com pequenas flores de jacintos. Levantou-a e fechando os olhos inclinou a cabeça pousando a face sobre aquela suave malha.

Com uma suave batida na porta, uma das damas entrou; Zared lembrou que Tearle a apresentara como Margaret.

— Milady — disse a dama e Zared demorou alguns instantes para dar-se conta que se referia a ela. — Lorde Tearle pede que se reúna a ele para o jantar.

Zared abriu a boca para dizer que iria descer imediatamente porque tinha fome, mas pensou que não havia vestidos ao seu dispor. — Gostaria que devolvessem minha roupa — replicou em um tom altivo.

— Se tiver a bondade de me dizer onde se encontra sua bagagem, buscarei imediatamente.

Não havia o que responder pelo simples fato que não tinha bagagem.

— Diga…— não sabia como chamar seu marido…— Diga que não tenho apetite e que não jantarei com ele.

— Nesse caso ajudá-la-ei a vestir a camisa de dormir .

Zared sabia que não possuía nenhuma camisa de dormir; em sua família esse tipo de objeto era considerado supérfluo e caro: seu irmão comprava certo número de camisas e ela as usava de dia e de noite até que estragassem ou ficassem muito curtas porque ela crescia.

— Não — disse para mulher — Eu mesma me ocuparei disto — e quando a mulher a deixou sozinha, respirou aliviada.

Olhou a cama, nada mais restava do que deitar-se com o estômago vazio.

Sobressaltou-se quando os quatro homens que anteriormente haviam trazido a banheira entraram no quarto para buscá-la.

Pouco depois, enquanto estava de pé ao lado da lareira para esquentar as mãos, ouviu baterem na porta novamente. Antes que pudesse falar ela se abriu e seu marido entrou.

— Agora exagerou — disse. — Odeia-me a tal ponto que prefere a fome a minha companhia?

— Não — exclamou surpreendida. — Eu não…

— Pensa então jantar sozinha aqui no quarto?

— Não pedi que me trouxessem o jantar — replicou. De fato não sabia que podia dar essa ordem.

Na casa de seus irmãos tais coisas não eram permitidas.

Tearle se aproximou e pôs as mãos em seus ombros.

— Não pode se comportar assim. Não pode ficar com fome. Se minha companhia for tão odiosa, farei com que lhe sirvam aqui. Assim estará em paz, mas saiba que lá embaixo temos música e convidados. Não posso convencê-la a jantar ao meu lado?

Olhou-o com desgosto: — Não tenho vestidos, seu tonto. O que quer que eu vista para me sentar a sua mesa? Essas mulheres levaram minha roupa.

Pareceu-lhe que o homem demorou alguns minutos para compreender o que havia dito e logo sorriu. Afastou-se dela e se aproximou de um enorme baú apoiado na parede.

— Devia ter perguntado…. destinei-lhe este quarto porque era o de minha mãe. Este móvel contém seus vestidos.

Zared o olhou enquanto afundava as mãos no baú e tirava um vestido de veludo de cor vermelha escura, adornado com uma pele de um tom mais escuro. Sentiu um grande desejo de tocá-lo, mas parou e murmurou:

— Como podia pedir as suas damas que me dessem os vestidos, deixando-as perceberem que sou uma pobretona? Minha cunhada chegou na casa de meu irmão com caixas cheias de vestidos. Queria fazê-las entender que se não possuo vestidos adequados, pelo menos sei o que deveria possuir.

Tearle viu o orgulho em seu rosto e disse: — Direi que sua bagagem se perdeu durante uma inundação. Sim…direi que um carro a seguia cheio de caixas com esplêndidos vestidos provenientes da França, mas que desgraçadamente tudo se perdeu, por isso agora está obrigada a usar os vestidos de minha mãe.— Assim dizendo, estendeu-lhe o vestido, acrescentando: — Não é novo, mas penso que pode servir e acredito que esta cor lhe cai bem.

Zared estendeu a mão para tocar a pele que adornava o decote do vestido: — Vison— disse e levantando a cabeça olhou seu marido e sorriu.

— Você o vestirá?

Só conseguiu assentir.

— Então chamarei uma das damas para que a ajude a vestir-se e arrumar o cabelo.

— Não! — exclamou ela e abaixou a cabeça. — Vestir-me-ei sozinha.

Não queria parecer ridícula diante daquelas estranhas…sabia que, percebendo que não sabia como colocar um vestido e pentear-se, ririam dela. Havia escutado as damas de Liana fazer centenas de perguntas a respeito de cintas, fitas, sutiãs e sabia que não era capaz de responder a nenhuma pergunta a respeito.

Tearle pôs o vestido na cama, tomou-a pela mão e a fez sentar-se em um banco em frente à pequena lareira.

Pegou um lindo pente de tartaruga que havia sobre uma mesinha e começou a pentear os cabelos da jovem.

— Posso fazê-lo sozinha — protestou Zared, mas ele afastou as mãos que ela tinha levantado, dizendo:

— Nós dois não estaremos juntos por muito tempo. Não me negue esta pequena graça.

A jovem não respondeu e enquanto ele a penteava com gestos suaves ela fechou os olhos. Desde menina nunca a haviam penteado. Mais tarde foi crescendo e começando a olhar os moços que estavam com seus irmãos, então passou a usar um pente tentando desfazer os nós de seus cabelos.

— Que linda cor tem seu cabelo — disse Tearle — e como é suave…parece de seda.

Quando terminou de penteá-la Zared abriu os olhos e viu Tearle ao lado da lareira.

Em seus olhos viu uma expressão doce que nunca tinha visto antes.

— São apenas cabelos — replicou num tom um pouco áspero, tentando esconder o fato que suas palavras a agradaram.

— E agora colocará o vestido?

Zared olhou o vestido estendido sobre a cama pensando que se arrumaria. Mas antes de decidir por onde começar, Tearle se aproximou e colocando as mãos nos ombros, começou a tirar sua bata. Instintivamente ela se agarrou a vestimenta.

— Esta noite serei sua criada — disse. — Ajudá-la-ei a se vestir ou prefere que chame Margaret?

— Não...eu...— balbuciou. — Talvez pudesse jantar aqui em cima.

— Zared — interrompeu-a em tom severo. — Agora ou depois deverá sair deste quarto. Não pode permanecer para sempre aqui, usando apenas uma bata. Se não quer que a ajude, chamarei uma das criadas.

Esse homem era seu inimigo, mas lhe era familiar, havia passado muitas horas em sua companhia, soltou o vestido e ele o tomou em suas mãos.

— E agora — disse em tom decidido — o colocará pela cabeça. — Não, não é assim…a frente é esta.— quando estava vestida, Tearle a olhou e disse: — Parece que ficou perfeito…devo dizer que minha mãe sempre foi muito magra.

Zared devolveu o olhar e em seus olhos ele viu uma insólita expressão de doçura, de admiração, que lhe fez um estranho efeito.

Depois de limpar a garganta, o homem olhou para o outro lado e oferecendo o braço perguntou:

— Descemos para jantar?

A jovem avançou, mas se ele não a tivesse segurado teria caído.

— Culpa da cauda— disse.

Zared olhou atrás de si e vendo a massa de malha que alargava o vestido, assustou-se. Como podia caminhar?

— Acredito que deva recolhê-lo e colocá-lo no braço — disse Tearle, e como o olhava de forma inquieta, tentou mostrar como devia ser feitor: — Acredito que tem que fazer…assim.

Olhou-o enquanto dava alguns breves passos, logo se inclinava para recolher algo e colocava o objeto imaginário sobre seu próprio braço….ela conteve a vontade de rir.

Esse era o Cavalheiro Negro? O cavalheiro misterioso que havia abatido todos os seus rivais?

Franziu o sobrecenho ligeiramente e disse: — Contínuo sem entender… quer me mostrar outra vez?

— Não estou certo que deva proceder assim, mas parece que as senhoras o fazem com desenvoltura. E caminham…assim.

Olhou-o novamente enquanto imitava uma dama que caminhava com pequenos passos.

— Então se incline…tem que fazê-lo com graça…recolha a cauda e a coloque sobre o braço. Vamos, não é difícil, o que me diz?

— Tentarei fazer — Zared por sua vez deu dois passos tentando imitar Tearle, então se inclinou e fingiu não agarrar o vestido. Olhou Tearle: — Acredito que deva me mostrar de novo.

O homem suspirou: — Está bem…mas desta vez observe com atenção: caminhar, inclinar-se, levantar, colocar no braço— Acompanhou com um gesto demonstrativo cada uma de suas palavras e se dirigiu a ela:

— E agora tente fazê-lo você.

Uma vez mais Zared fingiu errar e vendo que ele estava incomodado conseguiu esconder seu sorriso.

Tearle se colocou atrás dela e pôs uma mão na cintura: — Caminhe — disse.

Inclinou-se para frente obrigando-a fazer o mesmo. Tomou a mão rígida dela: — E agora recolha o condenado tecido e coloque-o em seu braço.

Pela terceira vez Zared fingiu não acertar….deu um passo e olhando-o com expressão inocente disse: — Vejo que isso é verdadeiramente difícil. Talvez devesse colocar um vestido e me mostrar.

— Ah…pequena raposa! — exclamou Tearle compreendendo finalmente que estava brincando com ele, estendeu as mãos para agarrá-la.

Com um movimento quase perfeito, Zared recolheu a cauda e pôs em seu braço antes de afastar-se dele depressa. Alcançou a porta mas não pôde abri-la porque ele a alcançara e fechara a saída. Por um momento teve medo dele. Se tivesse brincado com seus irmãos zombando deles com respeito a suas habilidades masculinas, eles a teriam feito pagar…mas quando olhou o homem nos olhos, percebeu que o divertiu.

Separou-se dele, segurando a cauda com uma mão e o pilar da cama com a outra.

Correu para uma mesa, mas ele voltou a bloquear o caminho. Zared então riu e voltou a fugir, mas ele sempre a alcançava.

Quando saltou sobre a cama estava sem fôlego por ter rido e corrido, Tearle imediatamente estava ao seu lado e atraindo-a para si começou a lhe fazer cócegas, passando as mãos pelo seu corpo.

— Vai pedir perdão? — perguntou.

— Nunca! — respondeu ela, mas sorria. — Nunca pedirei perdão a um Howard.

Não tinha intenção de ofendê-lo, nem sequer tinha pensado no significado daquelas palavras, mas a expressão alegre desapareceu do rosto de Tearle que se separou dela.

Antes que descesse da cama, pegou seu braço: — Não pretendia….— Não sabia como concluir a frase.

Tearle se sentou por um momento na borda do leito, então se virou e Zared baixou o olhar, conteve o fôlego pensando que de fato esse homem era atraente. Sorriu e ele devolveu o sorriso.

— Será a minha morte —, murmurou e a tomou em seus braços.

Zared se agitou e então permaneceu imóvel e de novo o olhou.

A expressão de Tearle era doce e ela não a compreendeu.

— Sabe que é muito bela? — perguntou, roçando o seu cabelo.

— Não é verdade — replicou, — Pareço um moço.

O homem riu e se deitou ao seu lado: — Nunca vi ninguém que se pareça menos com um moço do que você.

— Mas ninguém deu sinais de perceber.

— O que demonstra até que ponto as pessoas são tolas.

A jovem relaxou. Ninguém jamais a tinha abraçado assim. Entre ela e seus irmãos nunca houve manifestações de afeto e em sua casa havia poucas mulheres. Uma parte dela queria se separar desse corpo masculino, mas se sentia tão bem assim que não se moveu.

A mão grande dele separou os cabelos ainda úmidos da testa e ela fechou os olhos por um instante.

— Não é bela como Anne Marshall — disse em voz baixa. — Você parece mais um potro ou um cachorrinho.

Tentou separar-se dele, mas não permitiu: — Um cavalo? Pareço-me com um cavalo ou um cão?

— Entendeu muito bem o que quis dizer — respondeu e afundou o rosto no cabelo dela, respirando seu perfume. Pousou os lábios no pescoço e a beijou várias vezes.

— Sim….entendi — murmurou Zared sem abrir os olhos.

— Os homens gostam de mulheres como Anne Marshall. Meu irmão a ama muito, apesar das coisas terríveis que tem feito.— Moveu a cabeça, de modo que não pudesse beijar seu pescoço. — Aposto que teria gostado de casar-se com ela.

— Pude fazê-lo, mas não o fiz.

— Bom, deveria ter feito. Lady Anne é bela e muito rica. Qualquer homem, tendo a possibilidade, deveria casar-se com ela.

— Eu tinha, porém não o fiz…— tocou seus cachos: — Como são belos…

Ela o interrompeu: — Porque não se casou com Lady Anne?

— Porque não a queria. Tem uma língua que alfineta e é muito inteligente.

— Mas que importância tem tudo isso? Severn não se importou, ele a fará ser obediente.

— Como seu outro irmão levou à obediência a sua esposa?

Estava por perguntar como conhecia tão bem a sua família, então lembrou que Tearle tinha saído várias vezes para beber com Severn e sabia que os homens bêbados falavam entre si. Mas não se zangou e sorriu: — Severn falou de Rogan?

— Nos mínimos detalhes. Não sabe se odeia ou ama a sua cunhada.— Pouco depois, baixando os olhos sobre os seios dela, perguntou: — Como diabos tem feito para esconder os…debaixo da roupa masculina?

Zared olhou seus seios que se comprimiam contra o veludo do vestido. Cobriu-os com uma mão e ao mesmo tempo tentou se afastar, mas ele a estreitou ainda mais e tirou a mão dela dizendo: — Se não posso tocar….deixe ao menos que eu olhe.

Zared ruborizou-se e seu corpo tremeu: — Não…pode tocar?

— Se nosso casamento deve terminar, se pedir ao rei a anulação, penso que devo mantê-la intacta. Se casar com outro homem, este ficará feliz se lhe oferecer sua virgindade.

— Ah….— Replicou Zared.— Naturalmente. — Respirava com dificuldade porque a mão dele roçava seu seio.

— Espero que saiba ser um bom amante.

— Quem?

— O homem com quem se casará. O homem que terá o direito de lhe dar filhos. O homem que terá o direito de obter prazer de seu belo corpo.

— Não sou bela, você mesmo acabou de dizer e declarou que não sou inteligente.

— Mas nunca me ouviu dizer que é a mulher mais desejável que eu encontrei? Certo?

— Não, nunca o ouvi dizer coisa similar — murmurou Zared, enquanto os dedos dele se escorregavam para a parte da frente do vestido.

— Em toda a corte da França não vi uma mulher mais desejável que você.

— E… por que sou desejável? — perguntou Zared com os olhos fechados.

— Em você há uma inocência que outras não têm. Muitas mulheres sabem tudo o que há para saber sobre mulheres e homens antes de passarem uma noite juntos. Mas você é diferente…um homem pode lhe ensinar o que deseja que saiba.

Zared abriu os olhos e ficou rígida: — Sei como se concebem os filhos. — disse em tom ligeiramente zangado. — Não sou uma ignorante moça do campo. Talvez não seja inteligente como sua Lady Anne, mas sei muitas coisas sobre homens e mulheres.

— Sabe…só sobre o ato físico, mas não sabe nada do que acontece antes.

— Antes do que?

Tocou-lhe um ombro nu: — Uma coisa é o que acontece entre um homem e uma mulher para conceber filhos e outra coisa é o que acontece quando se faz amor. Entre as duas coisas há um abismo de diferença.

Ainda ofendida porque havia dito que não sabia nada, observou: — Talvez possa me mostrar a diferença e vou entender se tiver razão.

Tearle riu ligeiramente: — Ah, meu pequeno falcão, talvez pudesse mostrar a diferença, mas devo fazer uso do senso comum….acredito que discutimos o suficiente em relação a este assunto; será melhor descer para jantar.

Soltou-a e tentou se levantar da cama, mas ela o puxou pelo ombro: — Para Lady Anne você explicaria, certo? Ela seria suficientemente inteligente para compreender?

Olhou-a: — Suponho que Lady Anne saiba tudo o que deve saber sobre o que acontece entre um homem e uma mulher. Se o seu irmão não a satisfizer na primeira noite de núpcias, ela se queixará com ele e com quem estiver disposto a escutá-la.

Zared se separou dele e se recostou nas almofadas com os braços cruzados sobre o peito.

— Então eu também me queixarei. Se meu marido não me satisfizer, eu direi.

— E fará uma comparação entre ele e outros amantes?

— Eu….— Zared abriu os olhos. — Acredita que Lady Anne tenha tido outros amantes? Meu irmão não gostaria de sabê-lo.

— Seu irmão pode matá-la se não for virgem e Hugo Marshall sem dúvida, apreciaria tal ato.

Zared não entendia. Se Anne Marshall era virgem, como podia saber tantas coisas sobre o amor? Não entendia bem as palavras desse homem, mas se sentia insultada. Seus irmãos sempre a trataram como uma menina e o homem a seu lado fazia o mesmo. Virou a cabeça e começou a descer da cama. Não se humilharia mais fazendo outras perguntas.

— Zared…— murmurou Tearle atraindo-a para si. Começou a lutar. Não gostava do modo como se comportava com ela, falando sobre outras mulheres.

Ele a abraçou, mas os braços dela estavam livres e começou a golpeá-lo nas costas e ombros: — Deixe-me ir — gritou. — Detesto-o, detesto seu abraço.

O homem tomou a cabeça dela entre as mãos e começou a beijá-la nos lábios. No início ela os apertou, mas logo achou a sensação muito agradável e não resistiu mais. Era como se ninguém a houvesse tocado, e de fato isso ocorria raramente e estava faminta de contato físico. Esqueceu que na realidade esse homem era seu inimigo e abriu os lábios.

Seus braços cessaram de golpeá-lo e rodearam-lhe o pescoço.

Sempre viveu ao ar livre fazendo muitos exercícios. Não era daquelas jovens que passavam sua juventude atrás de um tear de bordados. Havia cavalgado sempre com a espada na mão, estava acostumada à ação, ao movimento.

Quando sentiu invadir-lhe o desejo, recebeu-o e agiu com o entusiasmo que sempre manifestava em qualquer situação. Apertou-se contra ele, devolveu o beijo e envolveu suas pernas ao redor dos quadris dele, unindo os tornozelos.

Quando o homem quis separar-se dela, segurou-o agarrando-se a ele e de repente rolou sobre ele.

Tearle teve que tomá-la pelos ombros e separá-la de si. Deitado de costas, olhou-a com assombro: — Onde aprendeu estas coisas? — perguntou e sua voz estava cheia de cólera reprimida.

Zared demorou alguns minutos para recordar quem era, onde estava e quem era o homem que estava a seu lado. — Aprendido… que coisa? — perguntou sorrindo.

Mas ele não sorria, rechaçou-a e desceu da cama. — Estes gestos devem ter sido ensinados por um homem. Foi Colbrand? Quando estava com ele no arroio realmente só se limitou a ajudá-lo enquanto se lavava?

Essas palavras a deixaram atônita e a moça sentiu que a invadia a ira, mas se recostou de novo nas almofadas: — Não me ensinou nada. Sei o que sei.

Ante essas palavras Tearle tomou-a pela cintura, tirou-a da cama e a colocou diante dele: — Não é minha esposa, concordo, mas se a surpreender olhando para outro homem, eu…— Interrompeu-se.

— Você o que? — murmurou Zared.

Soltou-a e a olhou fixo por um instante. — Coloque os sapatos e siga-me. O jantar vai esfriar.

Sozinha, Zared se arrumou e quando andou pelo quarto a pesada saia de veludo girou ao seu redor.

— Quer que lhe sirva o jantar, Milord?

Tearle se sobressaltou e levantou o olhar do copo de vinho: — Oh, Margaret, não a tinha visto. Ainda não desceu?

— Não — respondeu Margaret em voz baixa. — Imagino que tenha dificuldade em vestir-se sozinha.

— É o que parece? — Sorriu para a mulher que havia chegado a essa casa com sua mãe quando ambas eram muito jovens. A mãe de Tearle tinha morrido nos braços de Margaret.

— Não posso deixar de ver que está muito apaixonado por ela.

— Odeia-me — replicou o homem em tom amargo.

Margaret não pôde deixar de rir. — A moça que o olhou no pátio não o odeia.

— Não ouviu como fala comigo. Ah...em certos momentos me deseja se a beijo e digo que é bela, mas gostaria de ouvir de qualquer outro….— Fez uma careta. — Gosta que falem, inclusive eu, embora não creia que seja bom…— Olhou a velha mulher: — É uma Peregrine.

Margaret voltou a rir. Aproximou-se de Tearle e pôs uma mão em seu ombro: — Sempre foi um bom moço. Foi nobre de sua parte casar-se com essa moça-garoto para pôr fim a uma guerra entre suas famílias.

— Não, enganei-a! — balbuciou ele. — Não me casei com ela para pôr fim à guerra, mas sim porque a desejava.

— Não pôde levá-la simplesmente a sua cama?

Tearle calou por um instante e disse:— Talvez —Não falou mais nada, contentando-se em olhar no fundo de seu copo.

Margaret se sentou em uma cadeira ao lado dele. Amava-o como a um filho. — Ouvi falar destes Peregrine. São tão duros como dizem?

— Pior.

— Em todo caso um pouco de doçura fará bem a essa moça. Talvez com um pouco de música e de palavras ternas você a conquistará. Talvez se permitir que o veja como realmente é, conseguira amá-lo.

— Disse que enviarei uma petição ao rei para que o matrimônio seja anulado. Pretendo fazê-lo.

— Disse quando enviará o mensageiro?

Tearle sorriu: — Não, não disse, mas disse que desejo a anulação, o que significa que não a tocarei.

Margaret riu: — Não sabe que existe um prazer sensual além do que acontece em uma cama?

Tearle a olhou como se estivesse louca.

— Quando toquei em um braço se afastou de mim com um salto, - disse Margaret. — E olhou meu vestido com olhos de ânsia. Sempre vestiu roupa masculinas, acredito que gosta do que uma mulher tem e veste. Acredito que poderia conquistá-la com rosas.

— Com rosas?

— E com música, histórias de amor, a seda e beijos ligeiros no ouvido.

Tearle olhou longamente à mulher e em sua mente afloraram milhares de pensamentos. Recordou o modo como Zared tinha reagido a seus beijos. Talvez Zared não o odiasse como dizia. Se ele não houvesse sentido ciúmes, o que teria acontecido? Talvez pudesse conquistá-la fazendo-lhe a corte. Sorriu para Margaret.

Capítulo Doze

A maneira que Zared tinha vivido até agora certamente não a preparara para a existência que levava agora na casa de Tearle. Durante o jantar se sentava em uma mesa servida com capricho, comia pratos deliciosos e seu marido a tratava como se fosse frágil e preciosa.

A calma da dependência, a paz que reinava ao redor dela eram para a jovem coisas novas e interessantes. Em sua casa, frequentemente acontecia de um dos homens de seu irmão entrar precipitadamente na sala pedindo que alguém o seguisse para preparar um ataque ao inimigo. Seu irmão Rogan, para que ela o ouvisse, batia na mesa com a espada.

Ao invés disso Tearle perguntava se o vinho que os criados tinham servido era suficiente ou se havia suficiente sopa em seu prato.

Depois do jantar, um jovem de aspecto atraente entrou na sala e tocou o alaúde contemplando Zared com um olhar cheio de admiração e então cantou.

— O que ele diz? — perguntou ela, porque a canção era em francês.

Tearle a olhou. A luz da chaminé dava um quente reflexo em toda a sala: — Canta a sua graça, beleza e o modo como move suas mãos.

Zared pareceu surpresa: — Minhas mãos?— Seus irmãos sempre se queixaram do fato que não tinha força suficiente em suas mãos…agora não conseguia pronunciar nenhuma palavra. Levantou as mãos e as olhou.

Tearle tomou uma entre as próprias e beijou os dedos dizendo: — São muito belas.

— Que mais diz?— ela perguntou desviando o olhar do músico.

— Diz só o que lhe ensinei, pois fui eu quem escreveu a canção, — replicou Tearle em tom vagamente orgulhoso.

Olhou-o surpreendida: — Você? É capaz de escrever canções em outro idioma?

— Sim…canções, poemas e também posso tocar. Quer que demonstre?

— Mas…se sabe escrever….também sabe ler? Liana sabe ler. Leria-me uma história?

Tearle deixou de beijar sua mão e sorriu, então fez um sinal ao músico para deixá-los sozinhos. A outro sinal uma mulher trouxe cinco livros: — E agora…o que quer escutar?

Quando o olhou envergonhada, o homem sorriu e acrescentou: — Encontrei… vou ler Abelardo e Eloísa. Acredito que gostará.

Uma hora depois, Zared sentada em frente à lareira lutava contra as lágrimas porque o que Tearle tinha lido era muito triste.

— Vamos…são coisas que aconteceram há muito tempo e não é o caso de se comover.— E como ela continuava a ter os olhos cheios de lágrimas ele a colocou em seus joelhos e acariciou seu cabelo: — Não sabia que tinha um coração tão sensível.

— Acredito que você não tem um coração — falou ela.

Beijou-a na testa e sempre com ela em seus braços começou a levá-la para o andar superior dizendo: — Acredito que é hora de ir para a cama.

Zared se apoiou em seu ombro. Era seu inimigo natural, entretanto ante a ideia de passar a noite com ele a fez tremer. Mas quando entraram no quarto Tearle a beijou e a deixou sozinha.

Não sabia se estava contente ou furiosa….ou tudo junto, percebeu que estava somente perplexa. Despiu-se, deitou-se e permaneceu acordada por muito tempo, pensando em seu estranho marido. Sabia que estava decidido que ela permanecesse virgem até quando tivesse enviado ao rei a petição relativa à anulação, mas como podia manter a palavra a aquela promessa? Seus irmãos certamente não teriam permitido uma mulher conservar sua virgindade, independente do que fizesse ou dissesse. Esse Howard era diferente de todos os homens que havia conhecido anteriormente.

Quando na manhã seguinte despertou, viu que ele estava em seu quarto e que tinha deixado uma rosa na almofada ao seu lado. Ajudou-a a colocar uma túnica curta e a roupa adequada para sair a cavalo, mas se limitou a beijá-la na nuca ao levantar o cabelo para abotoar a parte superior do corpete.

Desceram ao primeiro andar onde os esperavam os cavalos e serventes com bandejas de pão fresco, queijo e copos de vinho. Afastaram-se cavalgando um ao lado do outro e Tearle não falou de guerra ou de armas, mas sim da beleza do dia, fazendo-a notar o voo dos pássaros, chegando inclusive a imitar o canto de um deles.

Pararam na beira de um lago e ele pediu que entrasse na água para nadar com ele.

Respondeu que não gostava de nadar e ainda menos gostava de água, sentou-se aos pés de uma árvore, observando enquanto ele se despia, entrava na água e começava a nadar.

No transcurso da semana passada ele havia parecido mais robusto e recordou que há um tempo atrás o considerou um homem sem força. Quando o encontrou a primeira vez pensou que era o tipo de homem incapaz de sobreviver a uma leve ferida…então pensou que era um fraco. Mas agora o observando, viu que os seus ombros eram muito largos e as pernas musculosas. Seu corpo estava coberto por cicatrizes, exatamente como o de seus irmãos, cicatrizes que eram testemunha de feridas.

Apoiou-se no tronco da árvore e continuou a observá-lo. Estava ociosa é claro, deveria treinar para o combate como antes, mas ante esse pensamento sorriu. Sempre havia treinado para combater os Howard, mas se casou com um e agora estava observando-o enquanto nadava no lago .

Tearle estava deitado de costas e ela não pôde evitar notar os músculos do tórax.

Não era tão robusto como seus irmãos, mas certamente era mais do que Colbrand.

Em um momento o homem levantou um braço para saudá-la. Sorriu e depois viu que afundava na água.

Esperou alguns minutos para que voltasse até a superfície e como não o via reaparecer se levantou chamando-o. Gritou mais forte: — Howard! — mas não o via.

Sem pensar no que fazia entrou na água. Sabia nadar, seus irmãos a ensinaram, nunca gostou, mas nesse momento não pensou. Aspirou fundo e afundou na água com os olhos abertos em busca dele e pouco depois o viu. Estava dobrado sobre si mesmo, com o rosto entre os joelhos.

Sentiu que seus pulmões estavam cansados, mas tentou levá-lo para a superfície da água sustentando-o com um braço. Quando subiram à superfície teve a sensação que não respirava; de fato estava pálido como um morto.

Nadou segurando-o e o arrastou para a borda com grande esforço porque era muito pesado. A parte inferior do corpo do homem estava na água. Olhou-o perguntando-se o que deveria fazer. — Howard!— gritou. — Howard!

Não respondeu. Comprimiu-lhe o estômago e começou a esbofeteá-lo sem obter nenhum efeito. — Maldição, Tearle! — exclamou preocupada e em seus olhos brilhavam lágrimas de frustração. — Não se permita morrer justo quando começo a pensar que...que vale algo.

Ajoelhou-se e se inclinou sobre ele, pôs as mãos nas bochechas e começou a sacudir a cabeça. Neste momento, da boca do homem saiu um jorro de água e Zared com o rosto molhado inclinou-se novamente e o olhou atônita.

Tearle abriu os olhos e sorriu: — Sou melhor que qualquer outro em segurar a respiração.

Compreendeu que havia zombado dela. — É um indivíduo horrível!— gritou e começou a bater em seu peito com os punhos fechados. Tearle pegou-lhe pulsos e rodeou sobre o corpo dela: — Estava preocupada comigo…

—Não…só me preocupava ante a ideia que sua morte provocasse uma nova guerra entre sua família e a minha. Preocupo-me só por meus irmãos, por Liana e pelo filho de Rogan, mas não por você…— O homem a imobilizava no chão, sua cabeça sobre a sua e em um momento Zared compreendeu que desejava um beijo… efetivamente se preocupou muito por ele, mas não queria admitir. Sentiu a face fria e molhada dele contra a própria e quando soltou suas mãos rodeou-lhe o pescoço e neste momento ele se separou dela.

A jovem se perturbou, porquê de certo modo se sentiu rechaçada.

— Se não se secar ficará resfriada — disse seu marido e em seu tom havia certa distância que a encolerizou.

O homem se levantou, ajudou-a a se levantar e como não o olhasse pôs a mão sob o queixo: — Seria tão terrível se algum Peregrine se preocupasse com um Howard?

— Não pode acontecer — respondeu ela com toda a sinceridade que era capaz, mas foi a primeira a constatar que aquelas palavras eram totalmente falsas.

Tearle riu e levantando-a em seus braços, abraçou-a fazendo-a girar até que ela riu por sua vez.

— Venha, minha pequena inimiga, nos sequemos. A pouca distância daqui está a cabana de um fabricante de queijo, talvez nos possam dar algo para comer.

Permaneceu de pé enquanto ele se vestia e depois deixou que a ajudasse a montar.

Enquanto se afastavam do lago, estranhamente algo começou a mudar. Sem compreender a razão, nesse dia percebeu que em sua mente Tearle havia começado a mudar e ela começava a compreender quem realmente era o homem.

Era diferente de seus irmãos como o dia da noite: Severn e Rogan pensavam exclusivamente no dever, Tearle parecia querer extrair o máximo de prazer a cada dia que vivia. Quando podia ria, brincava e fazia apostas com seus homens e quando perdia pagava regularmente.

No começo essas atitudes não lhe agradaram, não admitia que ele não treinasse o uso das armas, achava-o frívolo. Quando ambos lutavam, zombava dela, fazendo-a acreditar que estava derrotado, mas não era assim…

— Espero que tenha aprendido a manter o sangue-frio, deve pensar melhor quando se está zangado. — havia dito um dia após lutarem. A situação a envergonhara, mas pensou que apesar de tudo, viver ao seu lado não era desagradável.

No dia seguinte Tearle a conduziu a uma feira que havia na cidade a dez milhas de distância.

Estava encantada. Nunca tinha visto nada igual, porque seus irmãos nunca permitiram que se afastasse do castelo, e além disto não eram aficionados a tais frivolidades. Observando as bancas de vendedores nos arredores do torneio, não se divertiu muito porque seu inimigo estava ao seu lado, mas agora as coisas eram diferentes…não muito na realidade, porque ainda estava com seu inimigo, mas…o olhou: montado em seu enorme cavalo, de fato não parecia um inimigo e começou a pensar que talvez fosse mais atraente e robusto que seus irmãos.

O dia passado na feira foi maravilhoso. Todos os vendedores acolheram com um sorriso o senhor acompanhado por sua bela dama. A atmosfera era distinta do torneio onde ela havia sofrido porque as pessoas zombavam dos Peregrine.

Tearle adquiriu para ela toda sorte de coisas. Depois de ter crescido em uma casa onde cada moedinha de cobre era tratada como se fosse ouro, era muito agradável poder adquirir coisas lindas. Zared provou cada comida e doces até que Tearle a advertiu dos perigos de uma indigestão. Quando o suco de cerejas escorreu pelo queixo, ele se inclinou e lambeu o delicioso suco. Ela ruborizou-se, mas Tearle se limitou a rir dela.

Quando viu que seguia as evoluções de um lutador que se vangloriava de poder abater qualquer um, lançou-se a combatê-lo e quando venceu, Zared estreitou em seu peito o prêmio, um horrível objeto adornado com cintas, como se fosse coberto de joias e Tearle a observou rir feliz.

Pararam diante de uma banca onde um homem vendia objetos provenientes da Itália e Zared admirou extasiada uma peça de tecido de brocado verde. Tearle pediu ao vendedor para desdobrá-lo. Era muito cara e Zared pediu para não fazê-lo, mas seu marido comprou toda a peça. — Pode fazer uma colcha para a cama.

Uma parte dela queria recordar que aquele dinheiro gasto com tanta facilidade pertencia a sua própria família. Mas toda essa história parecia tão longínqua…

Tearle pegou o pacote e se preparou para levá-lo.

— Não deveria — disse — Eu levarei…— Seguiu-se uma luta e para convencê-lo teve que dizer que era o cavalheiro mais importante e mais forte do reino. Perguntou se acreditava que ele estava em condições de vencer Rogan e ela respondeu que ele podia fazê-lo. Então perguntou se, segundo ela, poderia vencer Colbrand e ela admitiu que sua valentia superava também a do belo cavalheiro.

Ao cair da tarde disse que era hora de voltar para casa, não queria que corresse riscos. Protestou, mas na realidade estava cansada. Tearle montou o cavalo, um dos homens a levantou e seu marido a segurou e a jovem percorreu todo o caminho em seus braços.

Em sua casa se despiu e o esperou: estava certa que essa noite a visitaria. Mas não o fez: desejou-lhe boa noite com um beijo na testa e a deixou.

Zared estava cansada, mas não conseguindo dormir se levantou e se sentou no banco em frente à lareira, onde se esquentou com o calor das chamas. Estava certa que Tearle viria, mas não veio. Nada acontecia como supunha que aconteceria. Sempre soube quem era amigo e quem era inimigo. Tinha crescido aprendendo a odiar os Howard, entretanto agora sua mente estava confusa. Recordou Tearle sob o papel do Cavalheiro Negro, recordou como o tinha visto combater e depois rir, brincando com ela. Recordou o modo que leu para ela e os sorrisos que lhe dirigiu.

Levou as mãos à cabeça. Esse homem era então um amigo ou um inimigo? Era um Howard, não podia ser seu amigo, entretanto…

Durante as duas semanas anteriores estiveram juntos quase constantemente e falou como nunca falara com alguém. Em sua família todas as conversas que não concerniam à guerra contra os Howard sempre eram consideradas como uma perda de tempo.

Mas Tearle e Zared tinham falado de coisas que aconteceram quando meninos, do que amavam, do que não gostavam, do que esperavam que acontecesse no futuro.

Sempre conseguiam evitar falar do ódio existente entre seus respectivos irmãos.

Tearle mostrou os planos relativos a reforma da casa e a levou para conhecer alguns de seus arrendatários. Na casa de seus irmãos o nome de seus arrendatários era desconhecido, Rogan e Severn tinham como dignos de respeito só os homens em condições de lutar. Mas durante as numerosas viagens que Tearle e sua mãe fizeram na Inglaterra, o jovem aprendeu a conhecer os homens que cultivavam suas terras e pedia notícias de suas famílias, e quando adoeciam se assegurava que fossem atendidos e curados.

Como podia odiar um homem tão gentil e que ria tão frequentemente? Os meninos corriam ao seu encontro, esperando que tirasse de seus bolsos doces para distribuir.

Tinha começado a fazer outras perguntas a propósito de sua mãe, a propósito de suas viagens a terra natal: — Em suas viagens a Inglaterra se encontrava com seus irmãos?

— Não — respondeu — Minha mãe pensava que cumprira com o seu dever dando ao marido filhos varões; ele podia ir para matar os Peregrine e ela não devia lhe dedicar mais seu tempo. Eu fui o último a nascer, e me levou com ela para França. Vivi com ela e me encontrei raramente com meu pai e meus irmãos.

Para Zared foi difícil compreender que não tinha sido criado para lutar na guerra, que o ódio entre os Peregrine e os Howard não significava nada para ele.

Agora, sentada em frente ao fogo continuou a refletir, mas se sentia confusa mais do que nunca. Mas se não sentia esse ódio, por que então se casou com ela? Quando havia dito que não queria ser tocada, ele imediatamente falou em anular o matrimônio, mas parecia que a apreciava muito.

Aconchegou-se ao fogo. E ela gostava dele o suficiente? Fechou os olhos por um instante e tentou pensar na casa de seus irmãos.

Teria que voltar para um lugar onde ninguém ria, ninguém brincava, onde cada coisa parecia sempre e sobretudo séria.

Pensou no irmão mais velho, Rogan, e o modo que devia lutar para obter a pouca liberdade que gozava. Rogan amava Liana, mas o amor não autorizava a sua mulher dizer ou fazer o que queria! Depois havia Severn, que se casara com a bela Lady Anne, se perguntava se esta já não teria sido assassinada por seu marido por causa de seu caráter.

Voltou para o banco e de novo se sentou com as mãos unidas. Não queria voltar para sua casa. Queria permanecer com Tearle, o homem que era seu inimigo e que os Peregrine odiavam. A luta entre ele e sua família havia privado os Peregrine de cada um de seus bens….teria que odiá-lo mas não conseguia.

Na mesa estava o objeto adornado de cintas que seu marido ganhara para ela, recordou a onda de orgulho que sentiu ao observá-lo enquanto lutava e vencia, e o levou até a face.

— O que havia feito? Por que não podia ter sua própria família e também esse homem?

Deitou-se, mas passou uma noite insone e na manhã se sentiu nervosa e irritável.

Quando Tearle se juntou a ela já estava na mesa e ela notou que tinha o rosto descansado, certamente não lhe faltou sono.

Saudou-a alegremente, sorridente e feliz.

Zared o olhou por cima de sua taça: — Quando terá notícias do rei?

Tearle se sentou à cabeceira da mesa e serviu-se de queijo e pão: — Está ansiosa para pôr fim ao nosso matrimônio?

Olhou-o e então desviou o olhar: — Seria melhor terminar com este assunto.

O homem se calou por um momento e seu rosto não demonstrava nenhuma expressão. Refletindo que era um rosto atraente, Zared pensou que quanto antes “o assunto” terminasse, melhor seria. Não podia permitir-se sentir maior afeto por ele do que já sentia.

Por fim Tearle sacudiu os ombros: — Quem sabe o que o rei decidirá? Estou certo que necessitará de um pouco de tempo. Também poderia opor-se a minha petição.

— Negá-la?— Zared reteve o fôlego. — Por que…por que o faria?

— Por tudo, eu diria que o nosso é um bom matrimônio, unimos a duas famílias…talvez não consinta em separá-las novamente.

O primeiro impulso de Zared foi sorrir. Talvez pudesse permanecer nessa casa para sempre. Talvez pudesse ter filhos. Controlou-se e fingiu franzir as sobrancelhas.

— Talvez devesse voltar para onde estão meus irmãos. Pode ser que desta maneira o rei consinta mais facilmente com a separação.

Esperava que dissesse que a queria com ele para sempre, que não permitiria que o deixasse. Em troca disse: — Como quiser. Deseja ser acompanhada por um de meus homens?

Teve vontade de jogar-lhe o conteúdo do prato: — Se meus irmãos me vissem chegar em casa escoltada por um de seus homens, atacariam sem perda de tempo.

— Neste caso — replicou — seria melhor que permanecesse aqui até a resposta do rei chegar.

Demorou um segundo para entender, então sorriu: — Sim, esta seria a melhor solução.

Nesse dia saíram a cavalo, afastando-se bastante da casa e deixando os homens da escolta as suas costas.

Tearle a levou para ver rochas horizontais, uma sobre outras, colocadas assim por antigas tribos. Contou-lhe que sobre aquelas rochas se realizavam sacrifícios humanos.

Estendeu as mãos para ela e depois de levantá-la a fez sentar sobre uma dessas rochas, afirmando que queria sacrificá-la. Ela gritou e se soltou, mas quando a apoiou na rocha e inclinou seu corpo sobre o dela, deixou de lutar. Pensou que estava a ponto de beijá-la, que esquecera a petição da anulação do matrimônio e a conservaria junto a ele para sempre.

Mas não o fez. Separou-se dela e se afastou, e quando ela desceu da rocha, olhou-a dizendo: — Está chegando à noite. Seria melhor retornar.

A partir desse dia começou a manter-se longe. Agora estava acostumada à sua presença e o fato começou a pesar. Uma manhã viu que estava treinando com seus homens no pátio, pediu emprestado roupas masculinas ao cozinheiro e colocando-as foi unir-se a ele .

Sorriu, mas ele não devolveu o sorriso. — É minha esposa. Não quero que de espetáculo diante de meus homens — disse olhando as estreitas calças que envolviam suas pernas.

— O que deveria fazer durante o dia todo, segundo você? Afinal, não sou sua esposa.

Pretendia dizer que só era sua esposa de nome, mas ele não compreendeu: — Logo será livre — ele disse e o tom de sua voz era duro.

Zared se afastou dele e dos homens que o rodeavam e que os olhavam curiosos, voltando para o segundo andar da casa, o seu solitário quarto. Muitas vezes esteve sozinha, mas porque agora esse fato doía tanto? Era como se tivesse perdido um amigo recém-encontrado.

Atirou-se sobre a cama desejando chorar, mas sem conseguir e pensou que estaria melhor longe dele. Não desejava por nada a companhia de um Howard. Ela era uma Peregrine e odiava todos os Howard, não era assim?

Pensou no que Rogan diria ante a notícia que sua irmãzinha estava casada com um Howard. Dirigir-se-ia ao rei para que concedesse rapidamente a anulação. Rogan não confiava em ninguém, provavelmente pediria à parteira que examinasse Zared para se assegurar que ainda era virgem e que ninguém a havia tocado.

— Ainda sou virgem — murmurou — Pura, intacta como o dia que nasci… uma vez obtida a anulação, Rogan certamente odiaria ainda mais os Howard, e provavelmente pensaria que sua irmã foi rechaçada por um deles.

— Deve haver algo que eu possa fazer — pensou — Algo para evitar mais ódio.

— Milord — disse Margaret a Tearle, falando em voz baixa.

O homem estava secando o suor devido ao treinamento.

— Sim? — perguntou brusco. Nos últimos dias estava de mau humor, as preocupações o tinham obcecado dia e noite. Estava apaixonando-se pela sua atrevida mulher. Na realidade, estava apaixonado por ela desde a primeira vez que a vira, quando percebeu que era uma mulher. Mas seus sentimentos não eram correspondidos, Zared continuava a falar em voltar para seus irmãos e de pôr fim a sua união. Pensou que deveria mandar uma mensagem ao rei pedindo a anulação de verdade.

— O que está acontecendo? — perguntou a Margaret.

— Lady Zared foi à aldeia.

Seu semblante se fez mais sério: — Não é uma prisioneira. Alguém a escoltou?

— Sim, mas deixou à escolta para trás.

Tearle se alarmou. Zared provavelmente teria voltado para sua casa?

Antes que se movesse, Margaret pôs uma mão em seu ombro: — Sabemos onde está. Um dos homens a viu entrar na casa de Hebe.

— Por que iria a casa dessa anciã?

— Dizem que é uma bruxa — respondeu Margaret baixando a voz. Sabia mais coisas que os outros habitantes da casa, sabia o que acontecia entre seus patrões.

— Por que iria à casa de uma bruxa?

Margaret vacilou: — Dizem que livra as mulheres de meninos não desejados.

Tearle empalideceu e ordenou: — Diga a John que sele meu cavalo.

Uma hora depois entrava furioso na suja e fumegante cabana da anciã. Seu primeiro impulso foi de matá-la e imediatamente matar a mulher com quem se casou. Não tinha dúvidas que Zared levava em seu ventre um filho de Colbrand. Por isso é que queria voltar para onde estavam seus irmãos.

Contaria que o menino era um Howard e possivelmente o usaria para voltar a possuir as terras de seus inimigos. Amaldiçoou-a e a todas as mulheres, o matrimônio e tudo o que se relacionava com as mulheres e com os homens.

— Minha esposa esteve aqui — disse para a anciã que o olhava aterrorizada. — Livrou-a de um filho?

— Não, Milord — respondeu ela com voz tremente. — Não espera nenhum filho.

— Não minta, neste caso poderia enviá-la à fogueira.

A anciã retrocedeu: — Não menti. Rogo-lhe Milord, não quero morrer.

De repente a ira abandonou Tearle e ele se sentou em um tamborete. Se sua mulher queria se livrar do filho, não poderia imputar a culpa a anciã. E ele deveria estar contente pelo fato de Zared agir assim, em vez de fazer vir ao mundo uma criatura indesejada. Por causa do que Zared sentia por Colbrand, era surpreendente que não tivesse aspirado que o menino se sentasse no trono da Inglaterra!

— O que minha esposa queria?

— Um filtro de amor.

Tearle levantou a cabeça: — O quê?

— Sua esposa me pediu para fazer uma poção de amor. Uma poção que fizesse um homem enlouquecer.

— Quem é esse homem? — foi tudo o que conseguiu dizer. Nos últimos dias tinha dado pouco tempo a Zared para encontrar outro homem, mas possivelmente pensava em se encontrar com Colbrand depois de….

— É você, Milord. Queria uma poção de amor para seu marido .

Tearle piscou várias vezes porque não compreendia.

A anciã viu que o homem relaxava e começou a contar, endireitou-se e apoiando-se na parede disse: — Lady Zared me pediu uma poção para pôr em seu vinho de modo que não lhe resista.

Tearle olhou fixamente à anciã: — Está certa disso? — perguntou em voz baixa — Disse que a poção era para seu marido?

A mulher conseguiu sorrir — Sou velha, mas não sou tola. Nunca teria dado uma poção se não estivesse certa de que estava destinado a você. Em todo caso disse que se a usasse em outro homem, a má sorte a perseguiria pelo resto de seus dias. Replicou que …

— O que ela replicou?

— Disse que seu marido, quer dizer você, Milord, considerava-a uma menina. Queria um modo de fazer com que finalmente a considerasse uma mulher .

Tearle se levantou, deu as costas para a mulher e chegando a porta da cabana sorriu. Zared pensava que ele não a desejava…e ele tinha pensado que a poção estava destinada a Colbrand… se ela se entregasse a ele voluntariamente... isto seria o primeiro passo para que ela admitisse seus sentimentos.

— O que você deu a ela? — perguntou para a mulher.

Esta percebeu que Tearle se divertia. Conhecia-o desde menino e sabia que não era violento.

— Minhas poções são um segredo que somente eu conheço…— E quando viu que Tearle mudou de expressão continuou: — Disse que teria que pedir ao seu marido que jantasse no seu quarto à luz de velas. Teria que ferver algumas ervas, colocar uma túnica curta e colocar a infusão em seu vinho...imediatamente após beber a poção, seu marido não estaria mais em condições de controlar seu desejo.

Neste ponto Tearle não pôde conter a risada: — E o efeito desta poção deve ser sentido imediatamente?

A mulher pareceu se ofender: — Nunca engano meus clientes! A poção fará seu efeito.

— Posso garantir — exclamou Tearle alegre. — Serei o mais fogoso dos amantes — Tirou da túnica uma pequena bolsa que continha dinheiro e deu algumas moedas à mulher, pensando melhor deu toda a bolsa. A anciã que não devia ter ganho tanto dinheiro em toda sua vida e incapaz de falar, agarrou a bolsa e quando Tearle deixou a cabana começou a assobiar.

Zared encontrou um pouco de dificuldade em conseguir que Margaret fizesse o que pedia: Pela primeira vez desde que a conhecera, a mulher parecia pouco propensa a obedecer e respondia em tom seco as perguntas de sua patroa.

Zared queria um vestido especial e teve que se dirigir a várias pessoas para saber onde se guardavam os vestidos da mãe de Tearle. A mulher vacilava, mas quando percebeu que Zared começava a ficar com raiva ela a levou a um quarto onde, entre vários tecidos que esperavam para serem cortados e costurados, havia um enorme baú de madeira. Temerosa e com expressão severa, Margaret abriu o baú: continha um vestido que na penumbra do quarto brilhava. O tecido com que fora confeccionado estava entrelaçado com fios de ouro.

Zared nunca tinha visto algo parecido. Levantou o vestido e colocou-o contra a luz perguntando com um murmúrio: — O que é?

Quase de má vontade, Margaret respondeu que o tecido desse vestido tinha chegado da Itália; o tecido havia sido confeccionado com fios de seda e ouro e havia custado mais de trinta e oito esterlinos a jarda.

Zared tocou o vestido. Respirou fundo e embora estivesse temerosa, tirou-o do baú.

Evitaria que sua família se voltasse com hostilidades contra os Howard. Talvez seu marido fosse gentil com ela e possivelmente pudessem ter um filho. Se esse filho herdasse as terras que deveriam pertencer a Rogan, teria uma parte do sangue dos Peregrine.

— Usarei este vestido — disse. O vestido era muito pesado e duro. Sorriu: os homens pensavam que as mulheres eram seres frágeis. Seus irmãos diziam que uma mulher jamais seria capaz de vestir uma armadura, mas esse duro e pesado vestido se parecia muito com uma armadura.

— Ficou bom? — perguntou a Margaret encontrando no olhar da anciã um pouco de alegria, como se tivesse lido o pensamento.

Uma hora mais tarde tinha feito tudo o que anciã havia sugerido. O quarto estava iluminado pela luz das velas e perfumado pelas ervas que ferviam em uma panela. Sobre a mesa havia deliciosos manjares. A preparação não foi fácil porque Margaret se opusera a tudo o que ela dizia ou fazia e de vez em quando perguntava à jovem patroa se ela se sentia bem.

Todas essas perguntas haviam-na aborrecido, mas com a esperança de agradar Margaret, respondeu com gentileza.

Finalmente estava pronta: — Estou bem?— perguntou tocando o tecido do vestido.

Margaret a olhou e sorriu.

Não sabia por que Zared tinha ido à casa da velha bruxa, mas estava certa que não o tinha feito para se livrar do filho de um homem que não fosse seu marido. Todos os habitantes do castelo e a metade dos habitantes da aldeia sabiam que, depois do matrimônio, seu senhor não tinha dormido com a jovem esposa.

— Está muito formosa—, disse.

— E…não pareço com um moço?

Margaret não pôde deixar de rir e olhou os cabelos de Zared, penteados para trás, recolhidos por um lenço branco e brilhante adornado de rubis. — De maneira nenhuma poderia se parecer com um moço — disse e impulsivamente a beijou, afastando-se imediatamente.

Poucos minutos depois Tearle entrou no quarto e ela percebeu que estava de péssimo humor.

—O que aconteceu?— perguntou.

O homem se sentou diante do fogo. — Meu cavalo me derrubou. Um de meus homens se feriu durante o treinamento e quando voltei e estava a ponto de me sentar à mesa, disseram-me que deveria vir ao seu quarto. O que é que você quer comigo, Zared? Talvez seus irmãos venham te buscar? Seria um digno final para um dia como este.

Quis mandá-lo ao diabo, no entanto disse: — Coloquei um vestido de sua mãe.

Tearle se virou, mas apenas a olhou e bocejou. — Sim, sim, eu vi — Depois olhou a comida da mesa e disse: — Chame alguém para me servir a comida. Tenho fome e estou cansado.

— Eu mesma servirei —replicou Zared depressa. — Não necessitamos de ninguém. — Dizendo isto se aproximou da mesa e começou a encher um prato, levou até ele e se sentou em um tamborete a seus pés.

Tearle começou a comer e em dado momento, levantando a colher, perguntou: — O que queria me dizer?

— Nada. Não estou acostumada aos criados e não queria que estivessem presentes.

— Não sabe mentir. Diga-me, recebeu uma mensagem de seus irmãos? É por isso que foi a anciã da aldeia?

Zared abriu muito os olhos.

— Como vê, minha gente é leal a mim. Sempre me dizem o que você faz.

— Não recebi nenhuma mensagem de meus irmãos e não o convidei para falar de guerra.

— E de que outra coisa poderíamos falar? Por qual outro motivo foi à velha bruxa? Ela ajuda as mulheres a livrarem-se de filhos não desejados.

— Eu não espero nenhum filho, se é isso o que quer falar.

— Tampouco um filho de Colbrand?

— Você é um homem odioso — disse levantando-se.

— Sou um Howard. Como posso saber o que fez com outro? Parecia que se encontrava muito com Colbrand e o achava muito agradável. Não o considerava o mais forte, o mais valente e o melhor paladino de toda a Inglaterra?

— Você o venceu — replicou ela em tom irritado: — Venceu todos os cavalheiros que participavam do torneio organizado pelos Marshall.

Tearle se apoiou no respaldo da cadeira e sorriu: — Está dizendo que Colbrand já não é o mais valente cavalheiro da Inglaterra?

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