A construção da universidade baiana

Edivaldo M. Boaventura · Capítulo 10 de 19

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A construção da universidade baiana

Segunda parte - Missões e experiências no exterior

Segunda parte - Missões e

experiências no exterior

 

Experiência de formação no exterior:

França e Estados Unidos1

 

A Universidade Federal da Bahia, por meio de sua Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, empreendeu estudos sobre a capacitação no exterior de seus docentes. Atendendo ao pedido de colaboração, sintetizei as minhas experiências, primeiramente, na França, na Universidade de Paris e no Instituto Internacional de Planificação da Educação, em seguida, nas universidades norte-americanas em seminários e, finalmente, na The Pennsylvania State University para o doutorado.

 

Universidade de Paris e école pratique des

hautes études, 1964-1965

Uma vez docente livre e doutor em Direito, fora do processo de ensino, rumamos, minha mulher e eu, para a Universidade de Paris, no ano acadêmico 1964-1965. Para realizar o doutorado com cursos e exames ou para preparar o concurso de cátedra?

No enfoque da tradicional Économie Politique, para ser ministrada em uma Faculdade de Direito, a Universidade de Paris era bem o lugar. O caminho da França me fora aberto por Remy de Souza. Luiz Augusto Fraga Navarro de Britto, que havia tirado o doutorado em Direito Constitucional e Ciência Política com Maurice Duverger, Milton Santos, Celina de Araújo Scheinowitz, Moema Parente Augel, Johildo Athayde e Waldir Freitas Oliveira deram-me indicações preciosas e úteis. Maria Elisa e Alaor Coutinho nos acolheram fraternalmente quando da chegada a Paris. Foi a minha primeira viagem de estudos no exterior. Este grupo foi muito importante depois para recriar a Aliança Francesa, juntamente com André Jolly, Adriano Pondé, Vivaldo da Costa Lima, Micheline Coutinho. Na ouverture vers I'extérieur, fui bastante influenciado por Vamireh Chacon, pois desde adolescente cruzava o Atlântico na busca das universidades européias, sobretudo as germânicas.

Foi altamente proveitoso um ano de estudo diretamente voltado para a Economia do Desenvolvimento, sob a direção do professor Alain Barrère, na École Pratique des Hautes Études, Seção de Ciências Econômicas e Sociais, presidida pelo grande Fernand Braudel. O seminário de Monsieur Barrère funcionava no Instituto da América Latina. Na realidade, estava matriculado na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Paris, na Place de Pantéon, graças à ajuda de Abraham Scheinowitz que, desde o Brasil, me assistiu na preparação dos documentos para a matrícula. Assisti aos cursos dos professores Raymond Barre, cujo manual adotei depois na Faculdade de Direito da UFBA, quando ensinei Economia Política, Gaston Leduc e Bartoli.

Nessa primeira experiência acadêmica no exterior, marcou-me sobremodo o seminário de metodologia para a elaboração do plano, coordenado pela professora Huguette Durand, principal referencial do meu ensaio Ordenamento de idéias. Com a simpatia do professor Barrère, conhecedor dos problemas econômicos do Brasil onde havia trabalhado na década de 50, cada vez mais me identificava com a filosofia da École Pratique. Ainda em 1965, fui autorizado a preparar o segundo ano do doutorado de Troisiéme Cycle. Mas, em final de 1965, era imperioso regressar ao Brasil para cumprir o rodízio como docente livre na cátedra vaga. Não pude dar prosseguimento ao meu segundo doutorado. Retornando, envolvi-me com os problemas da reforma universitária. Na vez primeira, no doutorado criado por Orlando Gomes, na Bahia, fiz as disciplinas e com a tese pronta apresentei-a para a docência livre. Efetivaria o doutorado em Educação anos mais tarde nos Estados Unidos. Experiência em universidade norte-americana de

1967 a 1970

Além da experiência universitária francesa, contribuíram bastante para a compreensão dos problemas acadêmicos as sucessivas visitas às universidades norte-americanas. No verão de 1967, tomei parte na Harvard Summer School como docente do programa da Associação Universitária Interamericana - AUI (Interamerican University Foundation), juntamente com os professores Constantino Comninos, da Universidade Federal do Paraná; Armando Souto Maior, da Universidade Federal de Pernambuco; Carlos Alfonso Migliora, da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Henrique Ratter, da Universidade de São Paulo. A AUI era dirigida por Mrs. Middle Sage, Patrícia Bildner, Elisabeth Washburne, e seus conferencistas constituíam nomes do primeiro ranking intelectual, a exemplo de David Riesmann, Paul Rosendant-Rodan, Riordan Roett, Warren Dean. A oportunidade se me apresentava excelente para conhecer a Nova Inglaterra, o Massachusetts Institute of Technology (MIT), a Universidade de Boston e absorver o ar de Boston, cuja atmosfera é tão rica e intelectualizada que, segundo a tradição, só a presença naquele lugar torna as pessoas mais inteligentes e mais cultas.

Retornamos a Harvard no verão de 1969 e encontramos ainda fumegando a confrontação de campus. A revolta dos estudantes de 1968 tinha deixado marcas e sinais bem vivos por toda a parte. Dessa segunda vez, falei sobre as funções da universidade em mudança, com base da minha experiência com a reforma da Universidade Federal da Bahia. Do mesmo modo, também pronunciaram palestras Dalmo Abreu Dallari, da Universidade de São Paulo (USP); Francisco Ferraz, mestrando de Ciência Política em Princeton e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e Henrique Rattner, da USP.

Percebiam-se não somente na Nova Inglaterra, como na Universidade da Columbia, onde me hospedei, e, na visita à Universidade de Princeton, por insistência de Francisco Ferraz, as consequências da revolução estudantil.

Se a primeira estada na França se prende ao nascimento da minha primogênita, a segunda viagem às universidades do leste dos Estados Unidos se relaciona com o surgimento do meu segundo filho, Daniel. Filhos, livros e viagens, para novos livros.

No ano seguinte, 1970, retornei aos Estados Unidos, mas na condição de Secretário da Educação e Cultura da Bahia, num programa de intercâmbio cultural, segundo o convite formulado pelo embaixador C. Burke Elbriek.

Além de visitar os State Departaments of Education, em Albany, Boston, Harrisbourg e outras capitais estaduais, conheci a Universidade do Estado de New York (SUNY), vários colleges e instituições culturais do leste. Aproveitei o bom escudeiro, John Falcon, para contactar a colônia luso-americana instalada nas cidades perto de Boston, Fall River, New Bedford e Tautan. Sempre educação e cultura.

Na deslumbrante Califórnia, latina e oriental, observei o programa Two Years in University e os City Colleges, em San Francisco. Na minha primeira visita à Universidade de Berkeley, impressionou-me bastante o número de línguas estrangeiras que poderiam ser ensinadas, como também o projeto de school facilities e o SIDEC da Universidade de Stanford. Descemos até San Diego, com o seu famoso Zoo, e avistei o México: bem próximo estava Tijuana, mas não atravessei a fronteira. No San Diego State College, encontrei as doutorandas Lyra Paizão e Lílian Bastos, e muito falamos de Educação, especialmente das escolas polivalentes, cujo convênio para a construção de 40 delas na Bahia havia assinado com o ministro Jarbas Passarinho. A portentosa Universidade da Califórnia com os seus diversos campi, o sistema dos state colleges e os diversos programas post-secundário possibilitavam educação superior para todos os que demandam esse nível de ensino.

Ao lado do interesse político-administrativo como Secretário de Educação, recolhi o que pude para a elaboração da minha tese de professor titular, a ser defendida quando deixasse a Secretaria de Educação, exatamente um ano depois dessa visita. (BOAVENTURA, 1971)

Todo esse esforço culminou na dissertação para professor titular: O departamento na universidade: estudo sobre o departamento na organização universitária, tomando-se como campo de observação a Universidade Federal da Bahia, antes e depois de sua reestruturação-reforma (1971). Completando meu tempo na Secretaria de Educação e Cultura da Bahia, em 15 de março de 1971, quando terminou o governo Luiz Viana Filho, realizei o concurso para professor titular e segui meses depois para um ano acadêmico no Instituto Internacional de Planificação da Educação, em Paris.

 

O instituto internacional de planificação da

educação/Unesco, 1971-1972

Como professor titular e com a experiência de Secretário de Estado regressei à França, não mais nos quadros universitários, mas para estágios e pesquisas no Instituto Internacional de Planificação em Educação (IIPE) da UNESCO, de 1971 a 1972. Escrevi a memória L ´énseignement supérieur à Bahia, conclusiva das minhas pesquisas.

O estágio no IIPE possibilitou um enfoque mais quantitativo e financeiro dos efetivos escolares. Assim, estudamos a evolução das coortes dos alunos, a análise da sua repartição em áreas de formação, os movimentos de saída de diplomados, abandono escolar e repetência, como também problemas referentes ao corpo docente. Quanto ao financiamento, estabelecemos as fontes, a comparação das despesas e os meios financeiros distribuídos pelas rubricas orçamentárias. Ao lado dessas cogitações quantitativas, era o momento em que a UNESCO discutia a década do desenvolvimento da educação, a educação permanente e o Relatório Faure.

No retorno, intensifiquei a colaboração com o Mestrado em Educação da UFBA, que coordenei de 1974 a 1978. Eleito para o Conselho de Coordenação da UFBA., presidi a Câmara de Pós-Graduação e Pesquisa, quando propus uma série de medidas que editei juntamente com outros estudos, em Problemas da educação baiana (1977). Se entrei na Educação pela porta do Ensino Superior, com a experiência na Secretaria de Educação integrei os demais níveis de ensino. A administração com a Cultura foi colocada em outro volume, Espírito de julgamento (1978).

A década de 70 foi excitantemente estimulante para a pós-graduação e inúmeros foram os contatos com a Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES), principalmente na gestão Darcy Closs, tendo como assistente Silvia Bahia. Os contactos com essa instituição induziram-me a voltar aos Estados Unidos, não mais para curtas viagens, como as descritas, além daquela de 1974, para participar da Conferência Internacional sobre Non-Formal Education na The Michigan State University, mas para uma longa estada de 1978 a 1981.

 

The Pennsylvania State University, 1978-1981

A permanência por 15 anos no Conselho Estadual de Educação da Bahia terminou por tomá-lo objeto de investigação como uma organização educacional. Primeiramente, procurei analisá-lo no processo de planejamento, discutindo e aprovando planos e programas, mas esses eram apenas uma das múltiplas atribuições. Com doutorado, em The Pennsylvania State University, o problema dos conselhos foi retomado como objeto da pesquisa. Era a oportunidade para fazer um doutorado completo com cursos, atividades, exames e pesquisas, dentro da tradição anglo-saxônica. Integrei uma globalizante e escolar linha de investigação com História, Organização, Direito, Psicologia, Administração, expressa no Master's paper e aprofundada na tese de PhD, A study of legal functions and responsabilities of the State Council of Education of Bahia, Brasil, from 1963 to 1975 (1981), orientada pelos doutores Patrick D. Lynch e Joseph Alessandro. (BOAVENTURA, 1994)

A história da criação e reorganização de O Conselho de Educação da Bahia 1963 e 1967 é um filhote da tese doutoral, que não traduzi. Aliás, deixei todas as cinco teses que escrevi na forma como foram aprovadas. Não sei por que não as publiquei! Por que não publicamos as teses?

Ao longo de todos esses anos, no Brasil, na França e nos Estados Unidos, fui combinando o empirismo anglo-saxônico, baconiano, com o dedutivismo francês, cartesiano, que tanto me empolgou nos meus dias na França. Do mesmo modo, nessa integração de ciclos de estudos, empreendidos aqui e alhures, foram-se agregando perspectivas de várias ordens – jurídicas, econômicas, sociológicas, históricas e psicológicas, perfeitamente concertadas no approach das Behavioral Sciences.

O doutorado em Penn State foi da maior utilidade para o projeto do doutorado em Educação da Ufba, que elaborei e implantei em 1991. (BOAVENTURA, 1994)

Com a experiência de base na Secretaria da Educação e Cultura da Bahia, nos governos de Luiz Viana Filho e João Durval Carneiro, fui cada vez mais me integrando aos demais níveis do ensino. Algumas abordagens estão registradas em Problemas da educação baiana (1977), Universidade e multiversidade (1986) e nos três livros de pronunciamento como Secretário da Educação, de 1983 a 1987, Pela causa da educação e cultura (1984), Tempo de educar (1987) Tempos construtivos (1987). São palavras que registram obras e projetos. Uma ilustração da junção de palavras geradoras de realizações, como quer Vieira, foi a criação da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), como também a atenção especial ao desenvolvimento da educação superior, pioneiramente, com a criação da Universidade Estadual de Feira de Santana, da qual muito me honra ter sido um dos fundadores. Contribuí – e contribuirei sempre – para que a minha terra natal viabilizasse a sua Universidade, instituída em 24 de janeiro de 1970, pelo governador Luiz Viana Filho.

 

Conclusão

Com todos esses ciclos e motivações, na maturidade tento uma síntese com Direito Educacional, elaboração de políticas educacionais e outras contribuições interdisciplinares, principalmente com a Metodologia da Pesquisa.

O projeto do Direito Educacional tem suas origens no Master's Paper: The legal framework of brazilian education, problema sobre o qual já escrevi mais de uma dezena de artigos. Vem sendo desenvolvido com base na experiência de que todo o programa de ensino, em uma Universidade, deve ser também uma proposta de pesquisa a ser trabalhada com os alunos.

Na perspectiva das políticas educacionais, um novo projeto acaba dc ser aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) sobre a educação nas leis orgânicas dos Municípios. Educação municipal é uma nova linha de trabalho que venho desenvolvendo com alunos de graduação, colegas de departamento e lideranças municipais. Crescentemente, fui me ocupando das funções de professor orientador de monografias, dissertações e teses.

 

Referências

BOAVENTURA, Edivaldo M. As etapas do doutorado. Salvador: Universidade do Estado da Bahia, 1994.

_____. A segunda casa. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

_____. Universidade em mudança. Salvador: Imprensa oficial da Bahia, 1971.

1 BOAVENTURA, Edivaldo M. Experiência de formação no exterior. In: UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA. PRÓ-RTEITOIRA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO (Org.). Capacitação no exterior: guia geral. Salvador: PROPPG/UFBA, 1994. p.30-34.