A construção da universidade baiana
Introdução
Como se formou o sistema estadual de educação superior da Bahia?
É a questão central deste livro. A partir de 1968, surgiram as faculdades estaduais, nos municípios, voltadas para a formação de professores, em seguida vieram as universidades.
O livro contempla três blocos de temas direcionados à educação superior baiana. O primeiro trata de O surgimento de faculdades e universidades. Buscamos, primeiramente, a Origem e formação do sistema estadual de educação superior da Bahia 1968-1991. Em verdade, desde o século XIX que a administração provincial mantém o ensino agrícola básico para o setor primário da economia. A tendência persistiu até 1967, quando as Escolas de Agronomia e Medicina Veterinária passaram para a Universidade Federal da Bahia.
Instituídas as faculdades de formação de professores, no governo Luís Viana Filho (1967-1971), atendeu-se em parte à demanda de professores para os sistemas de ensino, em plena expansão com o aumento dos efetivos escolares provocado pelos investimentos do salário-educação.
Objetivando a interiorização da educação superior, o Estado da Bahia criou universidades que possibilitaram a formação de profissionais do ensino e a qualificação de recursos para os setores produtivos, cooperando para o desenvolvimento socioeconômico e cultural das regiões interioranas. Atualmente, contamos com as Universidades Estaduais de Feira de Santana (UEFS), do Sudoeste (UESB), do Estado da Bahia (UNEB) e de Santa Cruz (UESC). À implantação das universidades públicas estaduais, seguiram-se as faculdades particulares nos municípios.
Coerente com o desiderato de interiorizar a educação superior, a UNEB se estendeu por todo o território baiano, do Nordeste, Paulo Afonso e Juazeiro, ao extremo Sul da Bahia, Teixeira de Freitas e Eunápolis, do Oeste Baiano, Barreiras, a Salvador. Assinalamos o seu primeiro decênio, em 1993, com o pronunciamento sobre A criação da Universidade do Estado da Bahia. A UNEB nasceu comprometida com a seca e a cor da Bahia, direcionada para os principais centros urbanos interioranos. Sabíamos, como sabemos até hoje, que academicamente não era fácil. Mas era necessário dotar os centros regionais da Bahia de educação superior, que formasse, estrategicamente, professores para o ensino infantil, fundamental, médio e universitário. Em suma, forma para todos os níveis e tipos de ensino. Nos anos 80 do século XX, Salvador concentrava a maior parte das instituições de ensino superior (IES). Ao criar a UNEB, tínhamos a experiência internacional da multicampi Universidade do Estado da Pennsylvania, onde nos doutoramos, e da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP).
Para a institucionalização das universidades estaduais, a Universidade Federal da Bahia (UFBA), reformada pelo reitor Roberto Santos (1967~1971), funcionou como um referencial próximo e formador de recursos humanos com os seus mestrados e doutorados.
Se a universidade chegou tarde ao Brasil – somente em 1920 –, mais tarde ainda na Bahia: em 1946, quando foi instituída a Federal da Bahia pelo reitor Edgard Santos. Etapas de sua constituição marcam o texto O Estado e a educação superior na Bahia: uma perspectiva histórica. É um longo processo formativo de século e meio com a criação de cursos e Faculdades de Medicina, Farmácia e Odontologia, como também de Agronomia e Belas Artes. Com a República, vieram a Faculdade Livre de Direto da Bahia, a Escola Politécnica e a Escola de Comércio. Anos depois, Isaías Alves criou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, condição para que se fundasse a Universidade Federal da Bahia. Tudo aconteceu segundo as diretrizes nacionais exaradas em O contexto histórico nacional da educação superior. Reforça a perspectiva história a comunicação A educação brasileira no período joanino, principalmente, o ensino médico e militar. Fechamos o primeiro bloco com o contributo de Newton Sucupira, a pós-graduação e a universidade.
No segundo bloco, Missões e experiências no exterior foram oportunidades de qualificação e de intercâmbio acadêmico em centros avançados fora do país.
Experiências de formação no exterior: França e Estados Unidos compõe uma coletânea de estudos sobre capacitação fora do país editada pela UFBA pelos colegas Robert E. Verhine e Bohumila de Araújo. A carreira universitária levou-nos muito dedutivamente à França, primeiramente à Universidade de Paris e ao Instituto da América Latina, depois ao Instituto Internacional de Planificação da Educação (IIPE/UNESCO). Em outro momento da carreira acadêmica, conforme as exigências da expansão da pós-graduação, voltamo-nos indutiva e empiricamente para a educação anglo-saxônica A participação em seminários em universidades norte-americanas conduziu-nos à realização do doutorado em Penn State.
O doutorado em educação na Universidade do Québec: interdisciplinar e multicampi é o relato do estágio no Programa de Bolsas do Governo do Québec, Canadá. Sublinhamos o caráter multidisciplinar, além da ênfase consagrada à pesquisa. Chamamos a atenção para o fato de que esse programa não é dividido em opções de formação: é construído em função do projeto de pesquisa do aluno. Apresentamos ainda outras atividades ligadas ao programa, como educação relativa ao meio-ambiente e planetária. A participação nesse doutorado aconteceu no momento em que criávamos o Doutorado em Educação da UFBA, o primeiro do gênero no Nordeste.
A cooperação entre o Brasil e o Canadá e, mais especificamente, entre a Bahia e Québec, gerou experiências educacionais bem sucedidas que se desenvolveram desde os anos 80. O levantamento A cooperação institucional Canadá-Bahia registra as principais atividades que permitiram a baianos e canadenses a prática de intercâmbios institucionais e a criação, em 1992, na Bahia, do Núcleo de Estudos Canadenses da UNEB com a revista Canadart, implantado pela professora Denise Gurgel Lavallée. A Universidade do Québec é parceira da UNEB desde a sua criação. A sensibilidade de educadores canadenses, como Gilles Boulet, Pierre Casalis e Marcel Lavallée, coordenador do Mestrado em Educação da Universidade do Québec, na Bahia, possibilitou a qualificação de quadros docentes e o intercâmbio acadêmico constante entre a UNEB e a Universidade do Québec e outras congêneres canadenses.
Ainda como desdobramento do estágio na Universidade do Québec, em Montréal (UQAM), discutiu-se a Educação planetária em face da globalização. A educação planetária entendida como aquela que favorece nas pessoas a compreensão das múltiplas dimensões do mundo atual e futuro, que se associa com a comunicação, tecnologia e transações econômicas, suscitando uma educação para a paz, direitos humanos, meio-ambiente, desenvolvimento sustentável e compreensão internacional.
Portanto, sucessivamente, mantivemos intercâmbio com a França, Estados Unidos, Canadá e mais recentemente com Portugal, por meio da Academia Portuguesa da História, particularmente com o professor Miguel Corrêa Monteiro, da Universidade de Lisboa, com interesse na história da educação colonial e a contribuição dos jesuítas.
O terceiro bloco se ocupa da Educação dos afrodescendentes. A necessidade de educação de largo contingente de afrobaianos levou-nos a criar, pioneiramente, a disciplina Introdução aos Estudos Africanos, descrita em Estudos africanos na escola baiana: relato de uma experiência, quando Secretário de Educação e Cultura da Bahia pela segunda vez (1983-1987). Fomos movidos pela comunidade negra e pelo Centro de Estudos Afro-Orientais (CEAO/UFBA), então dirigido pela professora Yeda Pessoa de Castro. Não obstante a falta de continuidade dessa disciplina nas escolas estaduais, mantivemos o interesse na formação de líderes da educação afrobaiana. Essa iniciativa antecedeu à Lei n.10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira.
No que concerne à educação dos afrodescendentes em nível de pós-graduação, recordamos com saudade a colaboração de Eugênia Lúcia Viana Nery, primeira professora de História da África na Bahia, que muito nos ajudou a montar a disciplina Introdução aos Estudos Africanos, na Secretaria de Educação. Eugênia Lucia fazia o doutorado conosco quando faleceu, em 1995. Em sua homenagem, a professora Ana Célia da Silva e eu organizamos a coletânea intitulada O terreiro, a quadra e a roda: formas de educação da criança negra em Salvador, publicada pela UNEB em 2004, cuja apresentação consta deste volume.
Como professor orientador de dissertações e teses, no Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação da UFBA, tivemos a grata oportunidade de trabalhar conjuntamente com a professora e doutora Maria de Lourdes Siqueira na educação pós-graduada de afrodescendentes. Também contamos sempre com o apoio decidido do professor Kabengelé Munanga, da Universidade de São Paulo, nos projetos de pesquisa de Nanci Helena Rebouças Franco, Maria Durvalina Cerqueira Santos, Ana Célia da Silva, Elias Luis Guimarães, Narcimália C.do P Luz, Amélia Vitória de S. Conrado e outros.
No doutorado em Educação, muito aprendemos sobre capoeira regional com o orientando Hélio Campos e no Mestrado em Direito da UFBA, orientamos a dissertação do procurador da República Sidney Madruga, origem respectivamente dos dois textos: Sidney Madruga e as ações afirmativas em Direito e Hélio Campos e a capoeira como disciplina acadêmica. Encerra a publicação o artigo sobre Políticas culturais e educação.
É notável assinalar o esforço de construção da universidade baiana. Salvador, 1º de junho de 2008, nos 25 anos da UNEB
Edivaldo M. Boaventura
edivaldoboaventura@terra.com.br , edivaldo@grupoatarde.com.br