A construção da universidade baiana

Edivaldo M. Boaventura · Capítulo 16 de 19

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A construção da universidade baiana

Hélio Campos e a capoeira como disciplina acadêmica

Hélio Campos e a capoeira como

disciplina acadêmica 1

 

Capoeira na Universidade: uma trajetória de

resistência

O problema central da obra Capoeira na universidade – uma trajetória de resistência, de Hélio Campos, é saber como a Capoeira, uma atividade marginalizada pela sociedade brasileira por ser oriunda de uma classe escravizada, conquistou o espaço universitário, considerado nobre, conservador e frequentado pela elite produtora do conhecimento científico. É o problema que o professor Hélio José Bastos Carneiro de Campos, da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Católica do Salvador (UCSal), investigou para a sua tese, origem deste estudo.

Faz bastante tempo que Hélio Campos se preocupa com a recepção da Capoeira na educação formal, seja na escola fundamental, seja na superior. Primeiramente, escreveu Capoeira na escola (CAMPOS, 1990), obra bem aceita pela clareza da exposição didática, ilustrações dos diversos passos, movimentos e indicações práticas para o ensino. Somam-se vários outros trabalhos acerca da mesma temática: A seqüência de Mestre Bimba um método de ensino aprendizado (1998); Capoeira um esporte brasileiro (1997); Capoeira na UFBA; Capoeira e as qualidades físicas (1994); Programa curricular de Educação Física para o ensino de primeiro e segundo graus (1986); Anteprojeto de criação do Curso de Licenciatura em Educação Física na UFBA (1986). Hélio Campos é não somente licenciado em Educação Física pela UCSal, como também formado pela Academia de Mestre Bimba. No ritual da capoeira, o seu nome de batismo é Mestre Xaréu, detendo outras aprendizagens, a exemplo da especialização em Atletismo (Lanzamientos), no México, e em Metodologia do Ensino Superior. Como professor, é titular da Escola de Educação Física da UCSal e adjunto da Universidade Federal, onde já coordenou o Colegiado de Curso e chefiou o Departamento de Educação Física. Na vida docente, tem ensinado Treinamento Desportivo, Metodologia da Educação Física, Ginástica, Capoeira e outras disciplinas. Como estudioso da Capoeira, tem levado a outros centros – Manaus, Curitiba, Aracaju e Porto Alegre – a sua mensagem pedagógica. Dessa maneira, Hélio tem muito contribuído, pelo ensino e pela pesquisa, para o desenvolvimento curricular da capoeira. Cada vez mais vem passando de uma atividade praticada e ensinada em rodas e academias para os departamentos acadêmicos, como uma disciplina formalmente universitária, ensejando pesquisas sobre suas origens, modalidades, práticas, processos e métodos. Como pesquisador, prolonga, assim, a aprendizagem fundante e disciplinada com o grande mestre Bimba. A capoeira é um segmento da riquíssima cultura dos afrodescendentes baianos, em plena expansão e aceitação pelo mundo estudantil e universitário.

Um destaque especial merece o seu trabalho Capoeira na escola, (CAMPOS, 1990), como antecedente desta publicação. Pela aproximação didática da antropologia com a educação, os conteúdos programáticos da Capoeira assumem uma posição de componentes do ensino fundamental e médio. Helio define, então, Capoeira como "método de ginástica, genuinamente brasileiro, bem ajustado aos alunos, por ser oriundo de uma manifestação popular, rica de movimento, com substrato cultural e bastante difundido na sociedade”. Preparado como manual para a escola fundamental, não lhe faltaram os quadros de planejamento do ensino com objetivos, conteúdos e sugestões de atividades clarificadas com ilustrações. O meu caro colega da Faculdade de Educação da UFBA soube transpor do rico substrato cultural baiano esse elemento genuinamente popular para a educação formal, regular e escolar. Resumidamente, em uma primeira etapa, pesquisou a Capoeira para aplicá-la e formalizá-la no ensino fundamental; nessa segunda etapa, dando prosseguimento à linha do inquérito investigativo, prossegue na busca sistemática da Capoeira para o ensino superior.

Capoeira na universidade: uma trajetória de resistência, perfeitamente concebido nessa linha de pesquisa, é um empreendimento com maior aprofundamento investigativo com emprego de técnicas empíricas mais apuradas. Inicialmente, levanta o problema da origem com duas hipóteses básicas: a Capoeira veio da África para o Brasil ou é mais uma invenção dos antigos escravos baianos? Na revisão da literatura concernente, traça a trajetória histórica da Capoeira, destacando a contribuição ímpar do Mestre Bimba na estruturação da Capoeira regional. A sua figura emblemática domina o texto. Efetivamente, ele foi um mestre, pois soube criar como educador popular um currículo completo com programas e estratégias de ensino. Planejou a admissão, sequências, batizado, esquenta banho, formatura. Formou gerações de praticantes com os estudantes de Medicina pela proximidade de sua academia com a tradicional Faculdade do Terreiro de Jesus. Seja lembrado o exemplo do médico Angelo Decanio Filho, discípulo do Mestre Bimba, que escreveu sobre o significativo contributo desse marcante líder. Há, no texto, uma biografia virtual do seu mestre. É a justificada, confessada e compreensível gratidão docente. Nas diferenciações das múltiplas representações sociais, Helio explana a Capoeira como luta, dança, arte, folclore, esporte, lazer e filosofia de vida. Se a cultura deve ser fundamental para o currículo, a Capoeira regional centra-se no eixo da nossa Educação Física bem brasileira, como autêntica matéria, ministrada academicamente como disciplina e como atividade, com plena aceitação e muito bem-querer dos alunos. Ao lado dessa Capoeira regional, sistematizada pelo educador baiano Bimba, desenvolve-se a Capoeira Angola.

A recepção da disciplina Capoeira pela Universidade, em face do expressivo valor cultural, educativo e social, não vai perder as suas características essencialmente populares. Ao lado dos clássicos métodos da Educação Física, a Capoeira encontra-se em quase todos os cursos superiores. A tão discutida aproximação da Antropologia ou Etnografia da Educação – Antropologia da Educação – encontra nessa disciplina um conduto privilegiado, efetivo e prático como tudo que é educação. A contribuição para a aproximação pedagógica e antropológica da Capoeira como disciplina acadêmica, objeto deste trabalho, merece todo o apoio da Academia, o outro nome da Universidade. Há muito que a Capoeira é praticada em outras academias, pois o povo gosta mesmo é de academia, muito mais do que de Universidade. O ingresso na academia não precisa dos traumas do vestibular. Na quadra do afoxé, na academia de capoeira, na roda do samba – o original samba de roda – e no terreiro, há muito respeito, disciplina e aprendizagem. A proposta do professor Hélio Campos, Mestre Xaréu, merece todo o apoio da Universidade.

 

Capoeira regional: a escola do Mestre Bimba 2

Hélio José Bastos Carneiro de Campos (Mestre Xaréu) conseguiu com a tese de doutorado sistematizar a sua longa experiência em capoeira. Professor de Educação Física, por vocação, encontrou na capoeira uma das motivações do seu magistério. Os trabalhos anteriores – Capoeira na escola (1998) e Capoeira na universidade: uma trajetória de resistências (2001) – foram degraus para alcançar o patamar pós-graduado com a dissertação doutoral Capoeira regional: a escola de Mestre Bimba (2006). Acerca da tese como um momento de vida, Remi Hess afirma em Produzir sua obra: o momento da tese (HESS, 2005, p. 21, 29):

[...] na minha perspectiva, o momento da tese é, antes de tudo,

um momento de reflexão. É uma tentativa de elaboração de um

discurso construído, que se apóia sobre certa erudição em

relação a trabalhos anteriores que trataram, em graus

diferentes, da problemática na qual a gente se inscreve.

E a tese doutoral foi um desses momentos decisivos na vida acadêmica do professor Hélio Campos.

Com o doutorado, reforçou a sua condição de docente e de pesquisador e abriu amplas perspectivas para prosseguir na investigação. Um primeiro aspecto a destacar é a continuidade do tema. Em face das pesquisas anteriores e, principalmente, com a tese que resultou nesta publicação, delineia-se uma clara linha de pesquisa em Educação Física, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Privilegiou o estudo da capoeira não somente como jogo, mas também como uma categoria do conhecimento abrangente, em conformidade com a sua significação na sociedade baiana. Pela prática docente e pela investigação, Hélio tem trazido para o meio universitário uma temática socioantropológica da maior relevância, não fora ele um dos responsáveis pela introdução da capoeira na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

No que concerne à recepção da capoeira como disciplina acadêmica, o autor revela que as primeiras manifestações no currículo universitário aconteceram na Bahia. Ela foi inserida no Programa de Melhoria de Ensino Médio (PREMEM), do Ministério da Educação e Cultura (MEC), desenvolvido pela Faculdade de Educação da UFBA, em 1971. Integrou as atividades de Educação Física com plena aceitação pelos alunos. Campos (2006) acentua que o objetivo da disciplina é

[...] favorecer uma sociabilidade que permitisse suavizar a carga

de estudo a que se encontravam submetidos os estudantes. O

caráter relaxante e descontraído foi um marco da disciplina,

Cabendo-lhe, juntamente com Raimundo César Alves de Almeida (Mestre Itapoan), ministrá-la em conformidade com a aprendizagem de Mestre Bimba. Uma segunda manifestação acadêmica da capoeira aconteceu também na UFBA, quando da implantação da Prática Desportiva, em atendimento ao Decreto-Lei n. 69.450, de novembro de 1971, que regulamentou dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases. Tais dispositivos tornaram obrigatória a prática da Educação Física em todos os níveis e graus de escolaridade. É a fase da Educação Física ligada à Superintendência Estudantil, se bem que anteriormente já constava do currículo do Colégio de Aplicação da UFBA. Foram os docentes dessa disciplina, então alocados na Superintendência Estudantil – Alcyr Ferraro, Orlando Hage, Hélio Campos e outros –, que criaram o Curso de Graduação de Educação Física e o respectivo Departamento, na Faculdade de Educação da UFBA. Outro momento favorável à capoeira, no meio universitário, aconteceu no Curso Superior de Educação Física, da Universidade Católica do Salvador (UcSal).

É de Mestre Bimba que trata fundamentalmente este livro. Hélio Campos reconstruiu a sua imagem e a sua metodologia de ensino. Para tanto, ouviu antigos alunos e informantes, reviu a literatura pertinente, analisou a documentação escrita, sonora e imagética. Decantou as principais características da capoeira regional: exame de admissão, sequência de ensino de Mestre Bimba, sequência de cintura desprezada, batizado, roda, esquenta-banho, formatura, jogo de iúna e toques de berimbau. A tese procurou responder ao problema:

[...] qual era a metodologia de ensino e ação pedagógica que

usava Mestre Bimba para ensinar a capoeira regional e quais

os desdobramentos na formação educacional, cultural e de

filosofia de vida dos seus alunos? (CAMPOS, 2006)

O doutorado proporcionou-lhe os fundamentos para a análise da capoeira regional, suas relações com a política, contexto escolar e universitário onde se exercita a prática capoerística. A temática centraliza-se na liderança carismática do Mestre Bimba, reconhecidamente um dos renovadores do aprendizado da capoeira. Há uma biografia do mestre ínsita neste trabalho. A maior contribuição se encontra na revelação da pedagogia do Mestre Bimba e no contributo para a estruturação da capoeira regional.

 

Referências

CAMPOS, Hélio. Capoeira na escola. Salvador: Presscolor, 1990. _____. Capoeira na universidade: uma história de resistência. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo: Edufba, 2001.

_____. Capoeira regional: a escola de Mestre Bimba. Salvador: Edufba, 2009.

 

1 BOAVENTURA, Edivaldo M. Prefácio. In: CAMPOS, Hélio. Capoeira na universidade: uma trajetória de resistência. Salvador: Secretaria de Cultura e Turismo: EDUFBA, 2001.p. 9-13.

2 CAMPOS, Hélio José Bastos Carneiro de. Capoeira regional: a escola de mestre Bimba. 2006. 345 f. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador. (exame oral final 25 set. 2006). Banca: Robinson Tenório, Admilson Santos, Luiz Silva Santos, Francisco José Gondin Pitanga e Eusébio Lobo e Edivaldo M. Boaventura, professor-orientador.