A construção da universidade baiana

Edivaldo M. Boaventura · Capítulo 2 de 19

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A construção da universidade baiana

Apresentação

 

Semeando no campo das idéias: arquiteto de

universidades

Denise Gurgel Lavallée1 2 ; MarceI Lavallée

Quando a escritora feminista francesa Simone de Beauvoír (1908-1986) escreveu que «não se nasce mulher - torna-se mulher», ignorava a extensão do impacto causado pela sua declaração. No lastro da assertiva, sucessivas analogias e adaptações foram publicadas nos mais variados contextos universitários, confirmando o fato de que a ciência avança em espiral e se apropria, frequentemente, de experiências bem sucedidas dos seus expoentes, pesquisadores e especialistas.

Assim ocorreu com o escritor Dany Laferrière, canadense de origem antilhana, que transpõe para seus romances, visando a descontruí-Ios, os clichês e estereótipos ligados às questões de cultura, raça e território. Parodiando Beauvoir, Laferrière declara: «não se nasce negro, mas torna-se um» - sobretudo ao fazer parte de um país branco, o Canadá, no qual o escritor toma consciência, pela primeira vez, de sua negritude, passando a integrar uma «minoria visível» na sociedade que o acolhe.

Também nós, ao refletirmos sobre a trajetória do homenageado, ex-Reitor, ex-Secretário de Educação, professor universitário, intelectual e membro de várias academias, consideramos: «não se nasce Edivaldo Boaventura e para tornar-se um, há uma longa estrada a percorrer.» Edivaldo Boaventura tornou-se quem é em decorrência de uma militância permanente no domínio da educação- seja ela municipal, estadual, federal, pública ou privada, nacional ou internacional, regional ou global, vertentes diversificadas do seu objeto de estudo.

Foi na década de 80 do século passado (o que rejuvenesce pouco os atores desta história) que o conhecemos, recém-chegado de Penn State, EUA, a cabeça fervilhante de idéias e dotada de extraordinária capacidade para o trabalho intelectual de rigor científico, que já desenvolvia na Universidade Federal da Bahia.

Fazemos parte daquele grupo de pessoas que acredita que, para se medir um homem, deve-se avaliar também, além da sua trajetória profissional, o seu contexto familiar, suas qualidades pessoais e, sobretudo, a companheira que escolheu para compartilhar sua vida. Este aspecto da biografia de Edivaldo Boaventura já o credencia como merecedor das homenagens que lhe são prestadas, em virtude do lar que soube construir e da amizade fraterna que sempre prodigalizou aos que lhe são próximos.

Na juventude, optou por construir uma carreira e aperfeiçoar-se constantemente, investindo na própria formação e apostando em suas virtualidades técnicas. Na maturidade, seu prestígio se consolidou, acrescentando-lhe substância política e uma consciência profunda da complexidade das estruturas que envolvem a educação no Brasil.

Assim, procurou refinar instrumentos que impulsionassem os diversos setores dedicados à educação, no âmbito estadual, do ensino fundamental à Universidade, espaço este da sua predileção.

Como Secretário de Estado, preocupou-se com questões básicas, tais como remuneração docente, construção de prédios, produção acadêmica, incremento à pesquisa, ampliação das fontes orçamentárias, equilíbrio entre as demandas reprimidas e a oferta de cursos que viabilizassem a verdadeira inserção do Nordeste no mapa educacional brasileiro.

O caráter pedagógico de sua atuação política, sua postura de sobriedade e erudição e a funcionalidade de suas propostas basearam-se sempre em postulados de extrema coerência, seja do ponto de vista da sua viabilidade, seja em função do seu grau de amadurecimento.

Conseguiu o prodígio de harmonizar diversas parcelas do poder em torno de um projeto destinado a congregar as unidades de ensino superior dispersas pelo Estado da Bahia - e foi criada, em 1983, com a participação da Université du Québec, Canadá, a UNEB, esta instituição pioneira pelo seu modelo multicampi, pela formulação de políticas arrojadas de cotas para afrodescendentes e alfabetização de massa.

Sua visão crítica sempre buscou contemplar novos horizontes. Seduzido pela própria vocação, que o impelia a constantes descobertas, defendeu igualmente o direito ao pluralismo filosófico-educacional, de crenças, de raças e de culturas, praticando-o no cotidiano.

Neste momento tão particular de sua vida, quando se cumprem alguns ciclos e o trânsito pela esteira profissional lhe sugere que «nossa substância é o tempo» (Jorge Luís Borges), o homenageado se multiplica diante de novos desafios e projetos.

Colhendo os louros dos cargos ocupados, funções exercidas, livros publicados, comendas e títulos recebidos, teses e artigos aprovados, graças a uma existência rica de experiências e sucessos, Edivaldo Boaventura inaugura um novo tempo. O tempo de si mesmo, que é também o tempo do outro, fiel ao olhar da alteridade e à antecipação dos fenômenos educacionais que constituem o tecido dos seus sonhos, o trigo de sua seara.

Como acontece, porém, com todos os seres humanos, tampouco lhe foi poupado o cálice do sofrimento. Imerso no lote de tristeza que o destino lhe reservou, dele emergiu mais fortalecido, mais fraterno e compassivo, porque buscou na religião o apoio de que tanto necessitava.

Esta renovação ensejou outras oportunidades: superou, pelo trabalho criativo e constante, os momentos adversos, arquivando seu desassossego, mobiliando o espírito com planos, cursos, roteiros e programas; repensou, assim, seu espaço interior, do qual jamais estiveram ausentes a religião e a fé.

Dentre as gratas lembranças que compõem este depoimento, vale destacar um dos seus estágios pós-doutorais, realizado no Canadá, na Université du Québec à Montréal (UQAM) e em outras instituições congêneres, mediante bolsa concedida pelo governo canadense, cujo sucesso nós testemunhamos. Os ecos de sua passagem pela Faculdade de Educação, pelo doutorado interdisciplinar, mais precisamente, serviram para configurar um perfil ideal de intelectual brasileiro e em muito contribuíram para projetar uma imagem respeitada dos quadros docentes integrantes da nossa academia. Fato pouco conhecido por muitos colegas baianos, a ele se deve grande parte do investimento canadense nos estudos desenvolvidos entre os dois países.

Muitos ignoram a expressiva participação do professor Edivaldo no curso de Mestrado oferecido à recém-criada UNEB, em Salvador, de 1986 a 1990, na condição de docente da disciplina «Fundamentos da Educação». O referido programa surgiu graças à parceria entre Canadá e Brasil, um projeto institucional cujos resultados foram extremamente positivos e que decorreu da iniciativa pioneira do seu mentor intelectual, o ex-Secretário de Educação ora homenageado.

Além de docente, ombreando-se a grandes nomes da UQAM que aqui ministraram aulas, dedicou-se também à orientação das dissertações dos estudantes, tarefa que exerceu sem qualquer ônus, dela resultando a obtenção da primeira classificação para o seu orientando, hoje responsável por uma das Pró-Reitorias da UNEB.

Vamos, portanto, registrar nossa admiração pelo perfil incomum do homenageado em suas vivências plurais, todas elas muito presentes ainda, pois o passado é um tempo de vida curta que teima em continuar conosco ao longo da existência.

Gostaríamos de concluir apresentado algumas sugestões. Como pode alguém se tornar Edivaldo Boaventura? Semeando no campo das idéias. Tornando-se também um arquiteto de universidades. Aceitando a idade que se sucede sem ser prisioneiro dela. Lembrando, como afirmava o filósofo grego Platão, que «saber é recordar» e que a memória deve ser exercitada. Construindo um projeto de participação liderante na sociedade. Investindo na sua relação com o outro. Evitando toda e qualquer forma de discriminação. Carregando consigo a bagagem dos locais onde viveu, das conquistas obtidas ou das que virão. Tecendo uma pluralidade colorida de pontos de vista. Guardando o respeito de si mesmo, sem perder a flexibilidade indispensável ao semeador. Estabelecendo pontes entre culturas e paises, a exemplo dos vínculos sensíveis que teceu entre Brasil e Canadá, mais especificamente entre Québec e Bahia, aproximando a Université du Québec à Montréal da Universidade do Estado da Bahia. Instaurando uma nova era, na ótica dos estudos comparatistas. Ordenando idéias e compartilhando democraticamente o saber científico. Colhendo a messe dos seus sonhos e glórias.

Existindo, simplesmente.

Existindo plenamente.

 

1 Professora da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) e Coordenadora do Núcleo de Estudos Canadenses.

2 Professor da Université de Québec em Montréal (UQAM). Cidadão honorário de Salvador.