A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

José de Almada Negreiros · Capítulo 11 de 16

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A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

+Viii+

 

Cada vez creio mais que a vida obedece a um principio quadrado

que se resolve dentro d'esse proprio quadrado e fóra d'elle em xadrez. Por isto que o quadrado é sempre o mesmo e inconstante

de posição as transparencias lucidam-se em diagonaes galgando. Theoricamente é irrealizavel de planos que apenas praticamente

existem moveis na phantasia. O quê d'isto é a incomprehensão em todos. Eu quero explicar: Todos os sentimentos são conscientes e

inconscientes e simultaneamente! Assim, eu posso ter immediatamente a consciencia de um sentimento que accordou na

minha inconsciencia e logo essa consciencia póde vir a definir-se tão nitidamente que se resolva em absoluta inconsciencia.

 

Nada, absolutamente nada, em todos os tempos é commum ainda

que se restringa a uma unica sociedade e definida. Esta coisa de haver uma lei que tenha a vaidade de se impôr a todos é tão

irritantemente estupida como a de haver uma só medida pra todos os chapeus.

 

Tudo o que eu estou dizendo é de tal maneira a expressão da

verdade que o proprio leitor ha-de ter certamente reparado que não percebe nada do que eu venho expondo.

Pois foi hontem mesmo que o senhor Barbosa me deu a honra de

me apresentar sua Ex.^ma esposa. E de tal maneira eu não quiz crêr que foi esta a primeira vez que tive consideração p'lo meu

amigo senhor Barbosa.

 

Começámos p'la rebellião da Irlanda depois derrotámos os turcos da Asia-Menor mas quanto aos destinos das nossas baterias Canet,

a Ex.^ma esposa do meu amigo apenas sabia que o sol de Lisbôa fazia-lhe apetecer um duche de sorvêtes. Entretanto como a

conversa do senhor Barbosa não tivesse geitos de recuar em Verdun coube-me a sorte de convidar sua Ex.^ma esposa pró que

quizesse tomar cá mais perto de nós, no "Martinho". A gréve dos carroceiros era pró senhor Barbosa tão infame como a violação da

Belgica e sempre que por azar havia de fechar um periodo dava um viva á França sem pestanejar. A Hespanha tambem se tinha portado

mal, não sei como, com o meu amigo senhor Barbosa e, em verdade, já era com uma certa razão que apetecia outra salsa com

syphão á sua Ex.^ma esposa. E talvez porque em Hespanha haja muitos germanophilos (a maioria!), coube-me ainda á minha pessôa

o convite prá segunda salsa.

 

—E depois, dizia-me o senhor Barbosa, não sei se sabe que os allemães não são nada decentes. Ora esta phrase que a principio

me pareceu descabida tinha afinal razão de sêr porque sua Ex.^ma esposa retirou suavemente o pé de cima da minha bota. Como

exemplo de mulheres honestas apontava co'os braços erguidos o meu amigo as russas, as de Vizeu e as alliadas.—Estas, sim,

fanatizava-se o meu amigo, estas sabem sêr mães quando mandam os filhos prás fronteiras pra defender a Patria! e dizia esta ultima

palavra com um A tão sonoro que pareceu-me terem os carroceiros grévistas apedrejado as vitrines do café. Os allemães, segundo o senhor Barbosa, tinham de fugir ás mães pra irem pra debaixo das

patas do Kaiser, e entornou meia salsa com syphão co'uma palmada bem aberta sobre o marmore cheio de cinza.

 

—Veja o meu amigo as francezas que mesmo quando são

cócóttes sabem de cór a Marselheza! O senhor Barbosa fallava tão gesticuladamente que um senhor da Baixa que tem tabacaria e

chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-proprio chegou-se á meza e disse baixinho ao ouvido do meu amigo:

 

—O gajo é germanophilo?

 

Então o senhor Barbosa entezou-se n'um d'estes nãos que

querem dizer—'tás doido! e eu juro que nunca mais esquecerei este meu amigo que me salvou da morte. Entretanto sua Ex.^ma esposa

retirava p'la segunda vez e mais suavemente ainda o seu pé pequenino de cima da minha bota.

 

Depois houve um silencio extactico co'o creado a perguntar se o

tinham chamado e o meu amigo senhor Barbosa virando-se repentinamente prá porta chamou muito alto: ó Marcos! e preveniu

como quem não quer ter remorsos e com o braço o mais alto que podia: não penses n'isto, hein!? Era a minha innocencia. Ainda

houve um segundo silencio extactico, sem o creado a perguntar se o tinham chamado, mas não contente o meu amigo foi a correr e

ainda agarrou á esquina do Rugeroni o tal senhor da Baixa que tem tabacaria e chapeu de palha e uma apparencia melhor que elle-

proprio. Eu queria seguir todos os seus gestos pra perceber d'ali de dentro do café aquella segunda confissão do meu dedicado amigo

senhor Barbosa mas sua Ex.^ma esposa começou a observar mexendo o meu relogio de pulseira e sem olhar pra mim disse que

eu tinha uns olhos muito bonitos. Ainda julguei que fôsse outra salsa que ella quizesse mas não, d'esta vez era café com leite. Perguntou

quem me tinha dado aquella pulseira tão gentil e quando eu lhe disse que foi uma allemã ella escondeu um lacinho preto, amarello e

vermelho que tinha pregado no lado direito com uma andorinha azul de esmalte.

 

—Então o senhor é germanophilo?

 

—Tambem tenho um pijama de sêda que me deu uma senhora

franceza.

 

De repente o senhor Barbosa entrava no café e sua Ex.^ma esposa virando-se pra mim disse-me apressadamente como se

fôsse o final de uma conversa que tivesse forçosamente de ser acabada: Então appareça hoje á meia noite em ponto que o

Barbosa está nas commissões de vigilancia. E o senhor Barbosa com ares de ter tido uma lucta movimentada mais do que permittia a

força humana sentou-se limpando o suor da testa n'um allivio: Felizmente está tudo resolvido! e voltando-se pra mim declarou-me

que á meia-noite ia jurar a um sitio secreto que eu não era germanophilo.

 

As avenidas alli n'aquelles sitios mal iliuminados faziam-me, não sei porquê, lembrar dos apaches de Paris. As linhas dos electricos

brilhavam vasias e o guarda-nocturno co'as mãos nas costas, pensando talvez no almoço de depois de amanhã, fitava vagamente

o zimborio mais perto da praça de touros que lhe parecia uma cabaça de dois litros e meio de tinto. Eu só tinha frio na cara onde

acabava o côco e começava a gola levantada do casaco e pensando se por acaso teria as meias rôtas, cada esquina que eu

dobrava me parecia que eu ía do escuro pra um quarto illuminado onde estivesse uma mulher em camisa a pôr o despertador prás

horas em que acabassem os serões das commissões de vigilancia. Como sentisse mais frio em cheio nas faces lembrei-me com mais

frio ainda que aquelle muro cinzento com as ameias quadradas já tinha sido jardim zoologico com leões que comem carne sem ser

cosida. Afinal nem era da Nordisk, era da Cines aquella fita da domadora que era assassinada plo proprio marido dentro da jaula

dos tigres. Do lado das tabernas veiu uma brisa sumida e morna de fadinho de melênas com questões revolucionarias; o proprio ramo

de loureiro pregado na porta tinha um movimento indeciso de se querer raspar. Mais adeante é que eram as lettras F. G. H. tão

enigmaticas como mane, tessel e fare… tão atarracadas e luzidias como o meu amigo e careca senhor Barbosa. Um patamar, dois

degraus, mais outros dois degraus, tres lanços pra traz e pra deante sempre a subir, a porta da rua encostada… um candieiro de petroleo

em cima de um môxo de cosinha lá onde acabava a passadeira verde do corredor e muitos cheiros a pó de arroz, á esquerda,

depois de uma canelada n'um caixote lacrado com Vizeu em cima e cautela em baixo. Depois muita luz, muitos biombos, muitos retratos

a carvão assignados Fonseca, muitos espêlhos, muitos lacinhos frisados e ella na cama quadrada a fingir que dormitava n'uma

gracinha travêssa de camisa curta pelas vrilhas e peugas de rapaz muito justas no côr de rosa duro. Antes de chegar á cama havia um

papel no meio do chão e escripto a lapis—era a conta da engommadeira… sete collarinhos 37, dois 39 e um 40, marca

Wagner. No fim da conta em ar confidencial dizia sublinhado: conta particular de madame Barbosa. Apaguei de repente a luz e comecei

a atirar pró lado o casaco, o collarinho, a camisa e talvez porque tivesse atirado um pouco mais alto as calças tive o desprazer de

ouvir um acorde de piano em dó maior e fuga do gato assustado.

Accordei com um tiro dentro do quarto. O senhor Barbosa tendo

aberto a janella dava tiros á queima roupa no bello ar da manhã emquanto gritava para a cama os maiores insultos

premeditadamente hostis. Emfim, nem tive tempo de me vestir descançadamente nem sequer de fazer a toillette e até perdi um

maço por encetar de "La Deliciosa" com uma caixa de phosphoros de cêra de luxo com senha e tudo. Quando cheguei á rua tinham

comparecido alli um sem numero de revolucionarios civis que em nome da lei me intimavam a entregar-me á prisão por ter incorrido

no crime de ser germanophilo na pessôa de um funccionario do Estado e casado.