A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta
+V+
Ella accordou com a passagem do primeiro electrico. Foi ao espêlho
esfregar os olhos e abri-los muito. Arranjou um carrapito desmanchado e descerrou as janellas co'os operarios da obra
defronte ao sol. A outra banda tinha um aspecto saudavel de outra coisa qualquer onde se póde estar e foi beber um góle de cognac na
mezinha de cabeceira toda semeada de pontas de cigarros. Havia n'ella uns remorsos distingidos de não ter sido elegante e tinha uma
quebradella plos joelhos que lhe fazia apetecer outro góle de cognac pra fortalecer.
Começou de pôr carmins nos labios exageradamente e depois
ouvindo a voz da peixeira que era a d'ella veiu debruçar-se no parapeito a gritar pra baixo a como era a sardinha. Como estava
toda núa puxou um lençol da cama embrulhou-se descuidadamente e foi ella propria abrir-lhe a porta e que entrasse que não estava
mais ninguem. Que até podia vir pró quarto d'ella e que talvez fosse melhor. A principio achou muito caro a sete vintens a duzia e como
reparasse no retrata do senhor Barbosa caréca e com tinta rôxa despregou-o dos pregos e deitou-o pra debaixo do sofá. Continuou
a achar muito caro a sete vintens a duzia e olhando fixamente os olhos da varina deixou cair o lençol que até parecia sem querer e offereceu-lhe a dois tostões a duzia com a condição de comprar o
peixe todo e ainda a de almoçar com ella. A varina mexeu as ancas n'uma arrelia de que já não era a primeira vez que lhe succedia
aquella chatice mas ella correu prá varina e beijou-a na bôcca que até lh'a deixou magoada. N'um ápice correu a fechar a porta á
chave por dentro e a cerrar de nôvo as janellas sobre as obras ao sol. Quando o sol d'ahi a pouco bateu do lado de cá e entrou plo
quarto até á cama já se não sabia bem qual das duas era a varina— eram só pernas núas e seios a reluzir na saliva. Só se ouviam
gemidos de cançadas até que o gato entrou fortemente convulsionado nas agonias de uma indigestão de sardinha.
Quando o senhor Barbosa metteu a chave á porta e achou o
silencio abafado d'aquelle quarto meio-illuminado teve a impressão que ella tinha posto um espêlho muito grande ao comprido sobre a
cama e que depois se tinha deitado toda núa com o ventre pra baixo. Achou estroinice mas não quiz bulir o silencio; sentou-se
junto da porta a observar. Esteve assim perto de meia-hora a gosar aquelle Paris-salon mas não se poude conter e foi pé-ante-pé e de
chapeu na cabeça depositar-lhe um beijo mesmo no meio da espinha vertebral. Depois o senhor Barbosa teve um estremeção
que sentiu em todo o envolucro do coração como se fosse um murro atirado de dentro pra fóra; começou a chorar visivelmente e tirando
o chapeu sahiu violentamente desgostoso tendo tropeçado na canastra vasia.
Como já fossem duas horas da tarde e álem d'isso houvesse já
muita gente no Rocio pra uma imponente manifestação ás nações alliadas, não quiz perder o rendez-vous quotidiano e decidi-me a ir
ter com ella. A porta estava encostada e estava escuro lá dentro. Olhei. Tive a impressão que ella tinha posto um espêlho grande ao comprido sobre a cama e que depois se tinha deitado toda núa com
o ventre pra baixo. Achei estroinice mas não quiz bulir o silencio; sentei-me junto da porta a observar. Havia assim disperso pela
meia-luz como que um cheiro a porto de mar e que fazia frio no peito lá em cima no tombadilho; desci de novo os olhos sobre a
cama e senti-me melhor confortado na cabine mas tive um sobresalto como se eu me tivesse enganado e tivesse entrado na
cabine da sueca que eu namorava. Foi um escandalo a bordo e o proprio marido da sueca chegou a partir o cachimbo no hombro do
commandante. Depois nunca mais vieram jantar com a sinêta, era sempre antes ou depois. Um dia o sueco estava mesmo á borda a
vêr os golfinhos a saltarem dentro do binoculo veiu a mulher d'elle e deu-lhe um empurrãosinho que foi logo uma tragedia por
afogamento. Passados tempos voltou o senhor Barbosa de chapeu na mão, e os seus olhos tristes tambem tinham o chapeu na mão.
Havia n'elle uma tragedia submarina que dava a perceber alli qualquer empurrãosinho fatal. Havia mesmo até um descorajamento
que poderia (quem sabe) ter analogias com o incendio do Deposito de fardamentos. Advinhava-se-lhe na gravata negra e
despreoccupada uma indifferença pla gloria de vir a fallar nas camaras, um despeito p'la sorte de ser presidente da Propaganda
de Portugal e socio das commissões de vigilancia.
A Patria mesmo, n'este instante, era lhe desinteresse quaternario. Quanto mais se vive mais se aprende, pensava, e tambem pensava
que felizmente estava armado porque sentia a browning no bolso de traz entre a hombreira da porta e a nadega direita. Só tinha penna
de deixar o seu logar de alferes miliciano talvez a algum incompetente. Sentia que afinal a sua vida tinha ficado caréca ao
mesmo tempo que elle-proprio mas morreria com o orgulho de ter sido um dos maiores apologistas dos Sinos de Corneville. Na cama houve um minusculo movimento e ella disse pra mim e prá varina
n'um contamento de sorte-grande: Ainda bem que o estupido do Barbosa não se lembrou de vir. Depois uma senhora de avental de
dona de casa veiu trazer um molho de chaves e que muito obrigada mas que tambem não serviram. Immediatamente se ouviu um
berreiro na escada que dizia que dois ainda se admittia, agora, tres que era demais. E a senhora de avental de dona de casa fechou a
porta.