A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

José de Almada Negreiros · Capítulo 14 de 16

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A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

+Xi+

 

Era muito pra lá do cemiterio mesmo na volta das furnas. Os carros

da estrada quando passavam por ali iam mais depressa e de noite não passavam. De noite a volta das furnas ficava sósinha. Um dia

appareceu uma cruz negra muito mal-feita e ainda ha muita gente no logar que diz que viu com os proprios olhos a cruz negra do

moinho velho toda accesa de noite. Uma noite foi tão grande o clarão que até houve sinos a rebate julgando ser fogo. D'outras

vezes é tão grande a gritaria que vem de lá do moinho que as mulheres, coitadas, pôem-se a chorar baixinho com medo de fazer

barulho. Até o senhor prior que não acreditava foi lá sósinho pra desencantar o bruxedo com agua-benta porque as mulheres

gritavam pra não deixar ir os maridos… e fizeram bem porque o senhor prior, não se sabe d'elle! Uma velhinha que voltou tarde da

feira e não se lembrou e passou por lá prendeu-se-lhe uma rã nas voltas das saias e appareceu morta na estrada só sobre um pé.

Depois é que nasceu o castanheiro que lá está no sitio. A gritaria que vem de lá do moinho é como o coaxar das rãs com o regato a

correr filtrado. E cabra que paste por alli só dá peçônha. Um dia uma escola de repetição quiz-se fazer teza e os canhões foram

fumados pelo commandante que se tinha esquecido de comprar charutos. Quando rompeu a manhã os batalhões já eram rãs que se tinham calado. Por isto mesmo, e é bastante, já não ha aldeia

nenhuma n'este sitio de que estou fallando. Apenas existe um poço de cimento armado com balde e agua salôbra onde eu e a minha

desditosa amante iamos gastar as tardes longe da cidade consoante a recommendação do meu medico que por deferencia que nunca

esquecerei foi n'este caso o medico d'ella.

 

Não sei positivamente a razão d'aquella mudança tão repentina no espirito irrequieto da minha amante que quasi já nem sabia fallar

e quando fallava era pra me pedir amendoas sentadas ou prá levar a pessear onde caem os balões. A saude physica antes de a perder,

pelo contrario, desenvolvera-se-lhe extraordinariamente sem uma constipação apesar de preferir andar por toda a parte sempre núa.

Uma manhã quando accordei no chalet que eu alugara sósinho n'aquelle monte longe de toda a gente reparei que ella não estava

na minha cama!

 

A prêta, a cosinheira, tambem não sabia nada. De todas as janellas que eu espreitasse ella só poderia estar das que eu não

espreitasse. Se descia ao rez-do-chão ouvia passos no outro andar mas se estivesse no outro andar ouvia passos no rez-do-chão.

Tambem, se por acaso, eu dava uma volta pela quinta prá procurar quando voltasse era certo que ella ainda não tinha accordado. Ás

vezes a luz tambem faltava de repente com o frio de uma janella que se abria mas quando a luz voltava as portas de dentro das

janellas tambem estavam fechadas. Uma noite eu estava a escrever um conto realista e o aparo da canêta era uma vêspa. Pensei toda a

noite na vêspa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com lettra da minha amante que, mais extraordinario é,

nunca aprendeu a lêr. A cosinheira prêta chegou-se um dia junto de mim a chorar como doze cosinheiras prêtas e disse-me que tinha medo de dormir no sotão porque as têlhas de noite punham-se

todas em braza e que depois quando se derretiam cahiam em picadellas de alfinetes. Tambem contou que uma madrugada tendo-

se sentido mal que se tinha ido vêr ao espêlho e que vira com os dois olhos da cara a agua do contador a cahir pra cima. No dia

seguinte o carteiro trouxe uma carta registada que quando eu a abri foi logo um estôjo de barba com sabonete e tudo, e quando eu fui

pra mostrar este presente á minha amante encontrei-a sentada sobre uma vela accesa a cortar reflexos com uma thesoura das

unhas que já faltava no meu estojo da barba quando eu o abri. Quando a vela ardeu toda começaram a apparecer pelas parede ás

escuras immensos t t que vinham uns depois dos outros e cortados por estrellas cadentes que eram uma nota de musica quando

acabavam. Immediatamente entrou a cosinheira e vinha com um castiçal de cobre acceso mas trazia a cabeça ás avessas; vinha

preguntar-me se eu sabia, por acaso, onde é que eu tinha lido aquella frase que ella já se não lembrava se era i ou de chumbo.

Mas peor do que nunca, foi quando n'aquella manhã de Maio eu accordei no meio de um sônho em que vira a minha amante como

sendo cosinheira preta da cintura pra cima e sendo apenas a minha amante da cintura pra baixo. Quiz certificar-me. Sentei-me na cama

e tive um grande prazer em verificar que tinha sido apenas um sonho aquelle horror. Porém, quando ella se ergueu era

effectivamente, ainda que ao contrario do meu sonho, a minha amante da cintura pra cima e a cosinheira preta da cintura pra baixo.

 

Desci preoccupado as escadas, tive a noção exacta da

profundidade até onde estavam pregados os pregos dos degraus; comprehendi como um degrau póde ser um mundo se nós

quizermos e é um mundo real mesmo que nós o não queiramos. Achei mesmo dois mundos differentes dentro de um mesmo prego— um era a cabeça do prego, o resto era o outro. O que me interessou

mais foi justamente o que era apenas a cabeça do prego. E logo havia outro mundo n'outra cabeça de prego… e outro n'uma cabeça

de prego maior… e outro n'outra cabeça de prego ainda maior, e outro n'uma cabeça de prego da altura da Torre Eiffel e um prego

cuja cabeça fôsse a Terra e apesar d'isso ainda houvesse outros pregos muitissimo maiores.

 

Tive mesmo dentro do meu cerebro as dimensões de um prego

em que a Terra fôsse o atomo minimo do ferro que pezasse em toneladas a capacidade do mundo astral com todas as suas

distancias.

 

E mais ainda: eu sentia que cada póro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada

mundo mesmo os das ultimas subdivisões tivessem um mappa e leis e onde cada sêr fôsse tão complicado como o homem e mais

ainda do que o homem, como eu. Não era sómente este segrêdo que já fazia parte da minha riqueza, havia outro. Era eu ter

conduzido a minha sensibilidade (educada exclusivamente pelos que me educaram na psicologia humana) pelos timbres dos

metaes… Ah! os mundos interessantissimos que são aos milhares nos timbres dos metaes, e nas côres dos metaes e na ferrugem e na

duracidade e em todas as partes do corpo mineral e em todas as sensações da alma mineral muito mais independente que a

psycologia humana pela unica razão de aquella ser independente. E que exercitos tão mais gloriosos e que Alexandres e Napoleões bem

mais deuses desfilam n'esta historia immensa, muito mais antiga que a nossa, e com historiadores que sendo poetas vivem n'um

mundo inteiramente mais perfeito, apesar de existirem talvez apenas no bico do alfinete que o senhor Barbosa traz espetado na gravata encarnada e verde. Isto vem a proposito do senhor Barbosa

ter communicado n'um bilhete postal á minha amante que ia escrever um livro sobre… sobre quê!? O senhor Barbosa que por

ser senhor Barbosa é toda a gente, quer seja senhor Barbosa na Arte, quer o seja na Politica ou na Individualidade ou em tudo é

n'este mundo o mesmo que um remedio que nunca haverá de livrar as pessoas da morte. Digo nunca haverá porque não creio em

absoluto na intelligencia humana por isto que o homem só vive exclusivamente a vida nitidamente animal ou a mysteriosamente

espiritual porque nem esta mesmo na sua metaphysica soube definir quanto mais a vida mineral, a vegetal, a fluida, a do orvalho, a da

phosphorescencia, todas as infinitas vidas synthetisadas na côr verde e em todas as outras côres e em todos os tons provaveis e

impossiveis de todas essas côres e de todos os seus contrastes simultaneos… etc., etc. Ora como quer o senhor Barbosa escrever

um livro se nem mesmo como transeunte o senhor Barbosa é completo ou competente. Ou como póde o Papa ser infallivel em

materia de Deus se o meu Deus é differente do d'elle e do de todos os seus catholicos e até differente do Deus de todos os atheus.

Deus ha tantos quantos os instantes de todas as vidas de todos os mundos e esse ninguem póde adora-lo porque o não póde

conceber. Só esse proprio Deus é que o póde conceber, e mesmo Este não admitte a sua propria concepção porque se a Terra por

destino tiver fim os outros mundos subsistem e se o fim fôr uma logica das determinantes d'aqui a um milhão de annos os mundos

serão todos outros com as metamorphoses de outros mundos ainda.

 

Mas nem é preciso ir tão longe, vamos á vida, restrinjamo-nos. Eu se dou a minha opinião republicana a um republicano acha elle que

sou talassa. Se é um monarchico que me ouve as theorias conservadoras desliga-se de mim por causa de eu ser revolucionario. Se é um artista que discute apressa-se em dizer-me

que a arte d'elle é differente da minha como se houvesse duas artes, como se Deus fôsse dois como as approximações da loteria.

O que esse artista não sabe é que essa tal arte d'elle é tão pouca coisa como o mercurio fechado dentro de um thermometro

centigrado e que só póde subir até cem assim como se cem fôsse o limite do vacuo e onde começa justamente uma formação de

mundos onde a atmosphera é rigida com relação á nossa impenetrabilidade.

 

Ora o senhor Barbosa vae escrever um livro sobre quê?! O

senhor Barbosa aprendeu no catecismo ou na educação civica que o homem tem cinco sentidos e foi no bote como qualquer ministro

quer seja de Deus ou da Republica. Ora foi justamente o senhor Barbosa um dos primeiros que me veiu dar os parabens por causa

de um Christo por mim publicado n'uma revista de rapazes a Ideia Nacional cuja unica particularidade para os outros foi ser verde e

não ter cabeça.

 

Justamente como se eu tivesse tido a ideia de fazer uma cabeça de Christo e não um Christo inteiro. Não me dirá o senhbr Barbosa o

que terá percebido do meu Christo? Julgou que fôsse partida aos catholicos? Julgou que era a minha adhesão á Republica? Julgarão

tambem os catholicos que me merece alguma consideração essa sua archaica restricção religiosa? Julgarão acaso os catholicos que

eu pretendi cantar-lhes a devoção? Julgarão os monarchicos tambem alguma coisa em seu favor?

 

Christo, cuja unica nodoa consiste em andar recentemente a dar

extensão a appelidos de pessôas que não são muito extensas, tem outras grandezas das quaes não são os catholicos nem os christãos que partilham d'ellas, A Lenda de Christo é a unica profecia exacta

de toda a Historia Universal. É simultaneamente a historia da Humanidade desde o primeiro homem até ao ultimo de todos os

homens e a vida interior, consciente e inconsciente, de cada um dos homens separadamente. A Lenda de Christo edificada talvez sobre

a vida de um homem cujo descriptivo symbolisava essa propria Lenda, canta a Personalidade, as luctas pela victoria da

Intelligencia, os sacrificios pelo Bem dos outros admittindo entre estes todos os que a esthetica comparou. Teria mesmo muito mais

que dizer a este respeito mas como a minha amante, coitada, já se está a affligir demais, porque embirra immenso que esteja a discutir

politica, eu paro hoje por aqui porque além d'isso ainda tenciono ir ao Chiado Terrasse com ella, coitadita!