A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta
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Talvez que o leitor não saiba mas eu tambem sou conhecido como
caricaturista. Outros dizem que eu tenho maus costumes, mas isso é para me arreliar, Ora tendo-se dado o caso extraordinario de no
dia 7 de Abril de 1800 e tantos ter havido uma trovoada sobre o paquête e o commandante logo essa manhã ter mais um passageiro
a bordo quando todos eram unanimes que tinha caído uma faisca na sala de jantar, o resto da viagem fez-se em sobresalto continuo.
Todas as noites os phenómenos phosphoricos se intensificavam perturbantemente apesar do dr. allemão ter revelado a existencia de
animalculos onde predominava essencialmente o iodo. Os companheiros de viagem conheciam-me lá entre elles por o recem-
nascido. Depois d'esta a maior trovoada a que eu assisti foi em Campolide quando estava fechado á chave de castigo na retrete dos
professores. Eu era tido como elemento indisciplinavel e perturbador até ao dia em que um frasco de tinta verde se entornou por cima do
livro de missa quando eu estava a copiar um Christo gravado que eu achava muito bonito. N'esse mesmo dia fui expulso por causa d'um
amigo meu que foi esconder as bolas de bilhar que ainda se não tinham estreiado dentro das bolas de bilhar que já estavam muito
velhas. P'la noite, infelizmente, amnistiaram-me.
Recentemente, tendo-me encontrado em Barcelona com o doutor
allemão que tinha umas barbas encaracoladas em iodo cortámos as relações por causa de uma acirrada discussão sobre Niewtch
apesar de elle ter ficado encantado co'o meu bello jôgo de combinação no desafio de "foot-ball" contra o Racing de Madrid.
Hoje, porém, tive uma alegria que eu não tinha desde a ultima trovoada—a engommadeira, que se tem ido civilisando pouco a
pouco com o estar comigo, ao almoço veiu lindamente arranjada e beijei-lhe a bocca deante dos outros hospedes só por ella ter trazido
os labios pintados de verde esmeralda!
Que bello! Achei-lhe mesmo um ar casto de Samaritana que apertou bem a cinta sobre o ventre—Ah! e que lindos são os limos
do poço de Jerusalem!
A velhota que era dona da pensão veiu dizer-me com o chocolate esta manhã que estava cá um hospede que era muito meu amigo e
que tambem lhe tinha dito que eu era o poeta de mais valor que andava por ahi. Jantámos juntos e entre coisas que recordámos foi
um passeio que demos ao sitio do Calvario n'uma tarde de verão justamente á hora do raio-verde. Elle tambem se lembrava de umas
tourinhas que houve nas eiras dos Serrões e que até o Virgilio quando ia a marrar no Cunha tinha ido, coitado, contra a trincheira e
tinha escangalhado a cara toda que nem se lhe viam olhos, nem bocca, nem nariz, nem nada… um horror! Fazia soffrer. Preguntou
se eu ainda tinha boa voz e se não tinha penna d'aquellas serenatas ao luar p'lo rio todos muito apertados com as primas da Eira de
Pedra no bóte do tio d'elle. Elle achava que se calhar eu já tinha esquecido todos aquelles fadinhos tão catitas e ficou com um O
maiusculo na cara toda quando eu lhe disse que já não namorava a Alice. Tambem queria saber o que eu tinha feito do cavallo que era tão airoso que um domingo até deixára de ouvir missa por ter ficado
a vêr-me a dar gallopes no adro e a saltar uma oliveira que tinham tirado por causa da barraca da "kermesse". A proposito perguntou-
me se eu tambem não achava que a Alice se parecia immenso com a minha amante e ai que os olhos então eram tal e qual. Pra elle era
um exercicio que elle tinha que fazer pra ámanhã de manhã o eu ter deixado a Alice e com tanta cortiça! Teve immensa curiosidade em
saber se eu ainda era muito distincto em mathematica mas além d'isso todos nós os tres achámos boa ideia irmos tomar o café fóra,
á Brazileira. Pouco depois ouvimos grosso tiroteio no Largo do Directorio e elle nem sequer ainda tinha deitado assucar na chavena
e já estavamos outra vez na pensão com apparencias pallidas de cardiacos com uma escada bestial até a um quarto andar. Eram
umas duas horas da madrugada ainda elle estava a dizer que eu, quando foi a festa da Senhora da Saudade, talvez que eu me não
lembrasse mas elle ainda estava a vêr uma Nossa Senhora que eu tinha pintado com anilina em dois metros de patente e que tinha
ficado mais bonita que uma estampa e que até o prior me tinha feito um elogio rasgado no sermão da Paixão dizendo que era uma pena
se eu não continuasse os estudos; mas o que elle achava mais extraordinario é que tendo sido expulso de Campolide a unica
medalha que eu tivesse ganha fôsse justamente de catecismo. A dizer a verdade eu já tinha saudades de ter sido caricaturista mas
como ella se tivesse ido deitar porque já não podia mais com somno elle disse-me que ainda bem porque trazia uma carta da Alice que
era pra mim com a condição de eu dar resposta. A carta em questão affirmava sem preambulos que quando chegasse até elle já a tua
Alice nem comia, nem bebia, nem via, nem cheirava, o que queria dizer que estava morta.
Comtudo a resposta era pra ella porque em post-scriptum
affiançava que estava disposta a esquecer aquella infame caricatura que eu tinha dito que era o retrato d'ella pra reatarmos outra vez
aquella paixão intensa com passeios aos pinheiros e merendas no bosque e pescas ao candeio e, emfim, aquella pouca vergonha toda
que é inevitavel p'las ferias com a barraca dos banhos mesmo ao lado da d'ella. No mesmo post-scriptum pedia-me o obsequio de lhe
ir comprar um chapeu da moda que não fôsse além de dois mil réis que era pra estreiar na feira por causa das Delgados que faziam
troça d'ella por eu a ter deixado e que quando eu fôsse pra lá em Agosto que iria pedir ao tio Pedro dois mil réis emprestados. O
mesmo post-scriptum ainda dizia e com c cedilhado que não pensasse mais n'ella caso eu não lhe quizesse responder; porém,
incitava-me á indisciplina com mais passeios aos pinheiros e merendas no bosque e pescas ao candeio, emfim aquella pouca
vergonha toda que tinha custado um tiro de arma caçadeira no ouvido do primo d'ella que recitava monólogos de João de Deus e
glosava todos os pensamentos com a condição do faroleiro o acompanhar á guitarra. No fim do post-scriptum dizia-me que não
tivesse duvidas absolutamente nenhumas que ella ainda era a mesma Alice que eu tinha deixado no club sem par pra dançar e que
tambem não tinha duvidas absolutamente nenhumas que o tio Pedro lhe emprestaria p'la certa os dois mil réis. Cá no canto do
papel dizia muito baixinho em hypothenusa de triangulo rectangulo —volte. Eu voltei e ella perguntou-me lá em cima do outro lado se
eu achava que ella devia tomar as pilulas pink ou comprar um vigesimo da loteria do Natal com esse dinheiro e que gostava da
minha opinião. Depois contava laconicamente uma excursão que um tio d'ella tinha feito á Torre do Pombal que tem vinte e cinco
metros a pino e que, coitado, caira e logo por infelicidade quebrara uma perna que tinha ficado ao contrario. Pedia tambem desculpa de
me não escrever em papel de luto mas que por desgraça das desgraças o pae d'ella tinha desapparecido quando n'um passeio
p'la estrada vinha a correr pra cá uma manada de bois bravos. Emfim, a infelicidade era tanta, tanta que a propria mãe até já tinha
abandonado a sua carreira de prostituta em Beja e até já lhe propuzera pra se amancebar com um senhor Barbosa que era de
Lisboa e que me conhecia muito bem e que já não tinha muito cabello. Comtudo tinha preferido montar uma engommadoria com o
dinheiro que um grumête do "S. Raphael" que era o unico amante que felizmente a mãe d'ella tinha agora e podia ir pagando aos
poucochinhos. Mas não! preferia continuar aquella vida com elle. Aquella vida séria que não se póde voltar atraz, é ir… é não lhe
dizer nada e deixar. E o relogio deu horas que eu contei mas não eram quatro nem cinco era um algarismo que eu nunca vi escripto e
que só agora é que eu reparei que existe realmente entre o quatro e o cinco. Mais ninguem tinha ouvido senão eu. Felizmente que o
relogio era de repetição e eu pedi a attenção de todos e estavam todos attentos e só eu é que ouvi. De repente partiu-se a fita e lá
adeante começaram a dar pateada. Depois comecei a sentir muito frio só no hombro direito, tinham-se esquecido de fechar a janella.
Vinha muita gente a fugir p'lo Chiado a baixo e o Chiado parecia n'aquella noite sem arcos voltaicos uma ponte levadiça sobre uma
barbacã descommunal. Do outro lado a Alice tinha chegado tarde. O post-scriptum tinha na ultima pagina escripto em lettra romana 33.
Depois ia a andar, a andar pela margem fóra e começou a vêr uma bola muita sumida que ía crescendo, crescendo em tamanho mas
que ficava sempre sumida; tornava a começar cá debaixo e já não crescia, subia toda deitada prá esquerda a diminuir a velocidade, a
diminuir pra azul, pra azul até começar a ser devagarinho um boneco mal desenhado a dançar uma imitação do fantoche. Depois
a cabeça do fantoche começou a inchar mollemente sem firmeza nenhuma e quando já era um balão muito grande que vinha cair ao
pé de mim tocou n'um bico de alfinete que estava no tecto e entornou-se um balde de sangue que nunca acabava de se entornar
mesmo no meio das merendas no bosque. De repente os andaimes começaram a desabar sobre mim. Os garôtos apregoavam nas ruas
A Capital… muito longe, sem chão, alargava-se apressadamente uma cova de luz com as arvores nas nuvens de pernas pró ar, e a
cova furou tudo pró lado de lá e ía-se abrindo mais depressa, muito mais depressa do que eu lhe fugia. D'esta vez bati mesmo com a
cabeça na esquina da meza e o meu amigo deante de mim dizia-me que eu devia por todas as razões fazer as pazes com a Alice.
Eu é que já não podia mais; pedi-lhe immensas desculpas mas
que estava era com um d'estes somnos de subir a escada ás escuras com o sol a nascer nos mercados. Quando cheguei ao
quarto estavam todas as lampadas accesas e a engommadeira dormia a respirações baloiçadas tendo aberto entre os dedos na
gravura do Christo um livro de missa todo ensopado em tinta verde e que era a unica recordação que eu trouxera de Campolide. Os
labios d'ella estavam fortemente pintados de vêrde esmeralda!