A Filha do Pastor das Árvores
T a a
— lo-ro-ro.
O pai gritou:
— Bom , fique longe deles.
Na cabine da cam inhonete, Knot se acom odara no banco do carona,
perto da j anela, com o se estivesse pronto para ir para Nova York. A
bandana do gato sum ira.
Keelie foi até ele.
— Ponha-se no seu lugar na nova cadeia alim entar, bichano. Sou eu
que vou perto da j anela. Se eu não for aí, vai m e dar enj oo e vou vom itar
em cim a de você.
Knot deitou-se no banco, pôs as pernas dianteiras debaixo do peito e
com eçou a ronronar. Pareceu um desafio.
Um cam inhão da Califórnia Airlines ia passando, então parou de
repente. Keelie sentiu um a onda de expectativa percorrer sua espinha. Sua
bagagem . Tinha que ser. Ela queria pular de alegria, m as se apoiou na
cabine da cam inhonete. Sabe-se lá se Sean andaria por ali.
O entregador da com panhia aérea desceu, e Keelie j á sabia, pelo j eito
com o ficou boquiaberto, que ele nunca vira nada parecido com o trailer.
Ele a olhou, depois observou de novo o chalé de m adeira na parte de
trás da cam inhonete.
— Isso parece um hotel de esqui sobre rodas.
— Eu sei — disse Keelie. — Pode cantar feito um alpícola se quiser.
Se Raven estivesse ali, as duas poderiam com eçar a cantarolar algo saído de A noviça rebelde, o m usical no qual Keelie e Laurie haviam
atuado na aula de teatro no ano anterior.
— Tenho um a entrega para Keelie Heartwood.
— Sou eu — disse ela com vontade de gritar "beleza!" e agitar o punho
cerrado no alto em sinal de vitória. A bagagem tinha chegado.
Zeke m eteu a cabeça para fora da j anela do trailer.
— É o que eu estou pensando?
O entregador tirou diversas caixas grandes com adesivos de vários
portos de escala, em seguida, pediu que ela assinasse sua prancheta ele-
trônica.
Keelie o fez sem tirar os olhos do pai, que observava a quantidade e o
tam anho das caixas. Ele ficou pálido. Hã! Era bem possível que tivesse de
trocar a casa sobre rodas por um a m otocasa Winnebago. Ela im aginou
um a sim ilar às usadas pelas celebridades do rock, com chuveiro e TV.
Perguntou-se se eram difíceis de dirigir.
O entregador apontou para o trailer.
— Cara, isso é um a obra de arte. Nunca vi tantos detalhes na m adeira.
A cor de Zeke voltou ao norm al. Ele se endireitou.
— Obrigado, m eu caro — disse o pai, fazendo um a reverência. O
suj eito o olhou de um j eito estranho.
As im agens suntuosas de televisão por satélite e de ônibus de
roqueiros esvaeceram conform e o pai solicitou que outros trailers lhes
arrum assem um lugar para as caixas.
Depois que o entregador foi em bora, Janice, Sir Davey e Scott che-garam em suas m otocasas e trailers para pegar parte da bagagem de Keelie
antes de partir. Sir Davey tinha um a Winnebago nova, bem legal. Ela
m ostrou-a ao pai.
— E disso aí que eu estou falando. Conforto m oderno.
Em resposta, Zeke arqueou a sobrancelha com desdém .
Janice dirigia um a cam inhonete, um Wagoneer. A expressão de Raven
era contrariada. Além disso, ainda eram as prim eiras horas da m anhã. A
am iga saiu do veículo.
— O que você tem ? — perguntou Keelie.
— A m am ãe. A gente vai para um a floresta aí pegar ervas silvestres.
Caram ba, vou ficar um a sem ana parada na floresta, catando um a planta
azeda para preparar um extrato fedorento.
Keelie tentou não rir. Era difícil im aginar Raven fazendo isso.
— Olha — disse ela. — A Cam eron, com Ariel e Louie. Ela conseguiu
todas as licenças para poder transportar as aves pelos estados.
Cam eron dirigia um a m otocasa enorm e, bem parecida com a de Sir
Davey , sendo que a dela tinha aves de rapina em voo pintadas nas laterais.
Ela parou. Keelie ficou na ponta dos pés, espiando, esperando conseguir
ver o falcão.
— Com o está Ariel?
— Sentindo sua falta, m as ficará bem . Então, garota, a gente se vê em
Nova York.
Zeke aproxim ou-se.
— Cam eron, nós nos encontrarem os no Festival de Wildewood.
— Ah, então até lá.
Keelie e Zeke recuaram .
— Tchau, Cam eron. Tchau, Ariel. Tchau, Louie — gritou a garota, e o
veículo das aves de rapina sum iu em m eio a um a nuvem de poeira. Ela
tentou não ficar triste; veria o falcão dali a alguns dias.
O pai j á guardara boa parte das caixas, exceto a m enor, que pôs no
Chalé Suíço. Keelie m al podia esperar para pegar as fotografias da m ãe e o
coelhinho de pelúcia.
Sir Davey observou o trailer entulhado do am igo. Acariciou o
cavanhaque com o indicador e o polegar.
— Sabe, Zeke, talvez sej a m elhor você conversar com aquele m eu
am igo de quem com prei o Winnebago quando chegar a Nova York. Você
tem que adm itir que Keelie precisará de m uito espaço.
A garota inclinou-se e abraçou Sir Davey .
— Ah, obrigada. Eu realm ente não quero dividir o beliche com Knot.
Ele solta pelos. E, pior, baba.
— Com certeza. Ninguém quer com partilhar nada com esse gato. —
Sir Davey agitou a sobrancelha para cim a e para baixo. — E com partilhar
tam pouco é o forte dele.
Zeke revirou os olhos.
— Posso reform ar o trailer para aum entar o espaço interno.
Janice enlaçou Keelie com um dos braços.
— Zeke, ao m enos considere conversar com o am igo de Sir Davey em
Nova York. — Ela abraçou Keelie com m ais força e, em seguida, sussurrou: — Nos vem os em breve.
Raven tam bém revirou os olhos.
— Pense em m im no m eio da natureza. A gente com certeza vai fazer
com pras quando eu voltar para o m undo real.
Keelie anuiu.
Janice suspirou.
— Entre no carro, Raven.
— Não quero um a caverna sobre rodas — com entou Zeke.
Keelie parou. Precisou refletir sobre aquele últim o com entário.
O pai realm ente quisera dizer aquilo? Os anões gostavam da Terra.
Será que o interior da Winnebago de Sir Davey parecia um a caverna? Ela
fitou a m otocasa, louca para dar um a espiada dentro.
— Ele tem trailers em oferta em Forest Glades, com todas as regalias
m odernas — insistiu o anão.
O pai de Keelie ergueu as m ãos, rendendo-se e, em seguida, olhou de
soslaio para a m enina.
— Vam os conversar sobre isso no cam inho.
A filha foi até ele e lhe deu um beij o no rosto.
— Valeu, pai.
Janice buzinou, e Raven se inclinou para fora da j anela a fim de
acenar enquanto a m ãe dirigia.
Keelie retribuiu o aceno.
Sir Davey colocou três caixas da m enina em sua m otocasa, e ela notou
que ele estava com os olhos m arej ados.
— A gente se encontra no Festival — com entou a garota, inclinando-se
de novo para beij á-lo na face.
O anão sorriu.
— Cuide-se e cuide do seu pai. Zeke tam bém lam enta a m orte de sua
m ãe. Ele a am ava, e não deixe que ninguém , com o alguns elfos arrogantes
que eu conheço, diga para você que não foi assim .
— Sir Davey , foi neste trailer que ele e m inha m ãe m oraram quando eu
era pequena?
Ele anuiu.
— É por isso que seu pai está com dificuldade de se desfazer dele. Sua
m ãe adorava o enfeite de biscoito de gengibre.
Sir Davey entrou na Winnebago, ligou o m otor e partiu.
Keelie contem plou o trailer esquisito de Zeke. Observou-o trancar a
porta de trás e sorriu. Ela j á m orara naquele chalé com a m ãe e o pai,
com o um a fam ília. Podia continuar a fazê-lo por m ais um tem po.
— Ei, pai, então o que podem os fazer para aum entar este chalé
am bulante?
Sua recom pensa foi um sorriso e um a expressão de alívio. Eu poderia
tê-lo convencido a com prar um a Winnebago, pensou a filha, olhando para
o pai. Quase consegui o trailer novo.
Zeke aproxim ou-se dela.
— Eu tenho um a coisa para você. Lem bra quando pediu que eu
guardasse? — Ele pegou um galho de álam o na parte de trás do veículo. —
Achei quando Scott estava fazendo as m alas. Sobrou quando fizem os a cadeira.
Ela agradeceu. O graveto fino estava seco e inútil, porém Keelie tinha
algo em m ente. Era perfeito para o experim ento no qual pensava.
— Pai, preciso de uns m inutinhos.
Ele assentiu.
— Estarei aqui.
Keelie rum ou, depressa, para o prado. A cratera provocada pela
descarga do raio fora fechada pela adm inistração, o que deixara um
enorm e rem endo na gram a. Ela foi até a parte central da área m arrom -
escura, tão estranha em m eio a todo aquele verde. Sentiu as árvores
observando-a, bem com o os outros habitantes da floresta. Meteu o graveto
na terra, afundando-o o bastante para que ficasse à altura de sua coxa.
— Hrok, trouxe um a com panheira. Espero. — Com um a das m ãos ela
segurou o graveto sem vida e, com a outra, o coração cham uscado, o qual
levava pendurado no pescoço. Sean lhe dera um a nova corrente ao se
despedir antes de ir em bora. Ele a beij ara e lhe dissera para m anter o beij o
no fundo do coração até se encontrarem de novo.
— Keelie pensou no sacrifício da rainha Álam o. Será que a soberana
atraíra o tornado e o relâm pago para si?
O coração da árvore esquentou em sua m ão. A garota atraiu a energia
até o braço. Fazia-o cada vez com m ais facilidade. A m ão que segurava o
graveto form igou conform e a energia geradora de vida passou chiando por
ela em direção ao ram o e ao solo. A terra ao redor do graveto m oveu-se, e
surgiram centenas de brotos enrolados, que se estenderam , form ando gram a.
Keelie ficou decepcionada. Queria que o graveto criasse raízes e se
tornasse um com panheiro para Hrok, um fragm ento ressuscitado da rainha
Álam o. Ao m enos a garota tornara aquela área m ais verde. O rem endo de
terra parecia um a crosta de j oelho, feio e penoso de ver.
Ela saiu dali e parou para afagar a casca do tronco de Hrok. Tchau,
m eu am igo. A gente se encontra no ano que vem .
Até m ais ver, Keliel que Fala com Árvores. Que seus anéis de idade
sem pre aum entem .
Keelie sentiu a presença do álam o em sua m ente, a energia da seiva,
os galhos voltados para o sol e o farfalhar das folhas em m eio à brisa. E, ao
redor dele, dos dem ais da floresta. E, de m ais um , em bora não um novo