A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 4 de 6 · parte 1/3

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A Filha do Pastor das Árvores

garota estava preparada para m anter as…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

garota estava preparada para m anter as estribeiras. Depois de tudo o que

vira e vivenciara, não achava que restasse nada que a assustasse.

Knot corria na frente de Keelie, com o se quisesse ser o líder da

expedição. Será que ela não podia fazer nada sem que aquela bola peluda

aparecesse?

No interior da floresta, um sentim ento claustrofóbico com eçou a

tom ar conta dela. O suor escorria por suas costas, e a garota teve difi-

culdade de respirar. Sentira-se assim quando ela se perdera e deparara

com Elianard.

Ariel deu um a grasnada e virou a cabeça em plum ada na direção de

Zeke.

Keelie parou. E se ela não conseguisse encontrar a saída? E se

encontrasse aquelas criaturinhas em form a de insetos e gravetos? E se o

Barrete Verm elho aparecesse?

O pai se virou.

— Eu não posso ir.

Zeke pareceu intrigado. Em seguida, arqueou as sobrancelhas.

— Ah, tem razão. Sinto m uito. Tinha m e esquecido disso.

— Do quê?

O pai tocou a filha, e um calor reconfortante espalhou-se por seus

dedos. Era assim que as árvores se sentiam quando ele as tocava? Ela

sentiu a ansiedade esvair, dissipando-se com o névoa sob o sol m atinal.

Inalou e com eçou a respirar de um j eito purificante, com o fazia nas aulas

de ioga na escola.

— Está m elhor?

— Estou. Não sei por que tenho claustrofobia nestas florestas. Nunca

tive isso antes.

—- É um feitiço para m anter longe os intrusos.

— O Pânico.

— Com o você sabia disso?

Antes que ela pudesse responder, Ariel agitou as asas e voou até os

galhos m ais altos de um cedro im ponente.

— Ariel, volta aqui.

— Pode deixar. Ela ficará bem . Está iniciando sua j ornada.

— Jornada. Não é o que eu quero que ela faça. E se escapar?

— As árvores vão ficar de olho nela. Agora, venha.

Isso aí, a m ística das árvores.

Enquanto os dois cam inhavam , Ariel voava rápido adiante e ficava

aguardando num galho. Quando am bos se aproxim avam , ela ia para outro e

esperava. Apesar do bater das asas do falcão e do ruído das passadas de

Keelie e Zeke nos gravetos caídos sobre o solo, o silêncio era total. Knot ia

depressa de um lado do cam inho até o outro.

Um a brisa suave fez o cabelo de Keelie esvoaçar e trouxe um leve

cheiro de putrefação no ar. Cogum elos de novo. Ariel voou até a garota.

Ela estendeu o braço, perm itindo que o falcão pousasse sem m uita

firm eza. A ave virou a cabeça, e seu olho dourado reluziu. Então encostou

a cabeça em plum ada no rosto dela.

Keelie ficou quieta até Ariel abrir as asas para se reequilibrar.

— Venha, filha.

Um brilho prateado no m eio de um círculo de cogum elos cham ou a

atenção da garota. Era um anel de prata. Ela o pegou e exam inou. Folhas

em alto-relevo espalhavam -se pelo aro cintilante e fino. Raven dissera que

sua am iga dançarina do ventre, Aviva, perdera um anel com o aquele.

Ariel soltou um grasnido e virou a cabeça em direção ao grande

carvalho. Algo reluziu, m as Keelie não viu ninguém . Ela m eteu o anel no

bolso do j eans, sentindo que havia algo ali.

Os pelinhos de sua nuca se arrepiaram . Outra brisa passou. A garota

sentiu um arom a de canela. Aquilo era assustador. Seria o Barrete

Verm elho?

Ela ficou im óvel e conectou-se com seu eu, que lhe perm itia

conversar com Hrok. A clorofila restante em seu sangue zum biu quando as

árvores responderam . E lá, diante de um a, encontrava-se Elianard,

traj ando um a túnica ricam ente bordada, segurando seu caj ado. Ele e

Keelie se entreolharam , e o hom em lançou-lhe um olhar raivoso ao se dar

conta de que estava visível.

Cam inhou na direção de Keelie, que recuou.

— Com o consegue gerar tanto poder, Keelie Heartwood? Dizem que

os falcões têm sorte, e este aí, especificam ente, protege você. Por quê?

Com o é possível que você, um a pirralha m estiça, possa dom ar anim ais

selvagens, invocar árvores e derrotar m eus feitiços? Que talism ã traz

consigo? Posso sentir o poder dele.

— Não uso nenhum talism ã. E o que exatam ente você é, algum tipo de duende m aligno que cresceu dem ais, na linha daquele suj eitinho m aldoso

de barrete verm elho?

Keelie tocou um dos cogum elos noj entos no solo com o pé. Ele

m urchou e seu fedor putrefato sum iu.

Elianard parecia surpreso.

— O Barrete Verm elho? — O hom em olhou ao redor, nervoso.

— Ele está aqui?

Ela esperava que não. Mal sobrevivera ao últim o encontro com o anão

m aníaco. Mas, se Elianard pensasse que a garota podia sentir a presença

do Barrete Verm elho, isso agiria com o um repelente de insetos. Keelie

ergueu o queixo e inalou. Ariel grasnou, virando a cabeça de um lado para

o outro, fuzilando Elianard com o olho bom .

— Está perto.

Ele virou-se puxando a túnica, atento.

— Elianard. Cam inhou de um j eito tão silencioso que não o notei.

— Zeke andou na direção deles, observando com cautela o hom em

vestido de form a opulenta. Quer dizer então que seu pai tam bém não

gostava dele.

Ariel saltou do braço de Keelie, roçando a cabeça de Zeke com a

ponta da asa.

— Venha, filha, chegou a hora da cerim ônia. O que você está prestes a

testem unhar é um ritual crucial, um dos m ais im portantes que um pastor

de árvores deve fazer. — A expressão do pai e sua voz m ostravam -se cheias

de pesar.

Keelie assentiu, olhando de esguelha para Elianard.

Ele enrij eceu o corpo; então, deve ter se dado conta de que ela não

m encionaria o feitiço da invisibilidade. Com um a leve reverência, o

hom em se pôs a cam inhar diante deles.

Para a surpresa de Keelie, Sean e vários outros cavaleiros da j usta

estavam parados de form a solene diante de um a carroça de m adeira,

cercados por outros que ela vira no festival. Os cavalos da Ilha Equus

estavam atrelados à carroça. Todos usavam roupas sem elhantes às de

Elianard, túnicas verde-escuras com árvores bordadas. Keelie tam bém se

surpreendeu ao ver Elia com eles, aparentem ente triste.

Zeke envolveu a m ão da filha. Ela sentiu um a paz fluir por seu corpo.

Ele, então, soltou-a e ergueu a dele, com a palm a voltada para a frente

e para os ali reunidos.

— Vocês estão na floresta de Reinanlon. À sua frente, repousa a

Rainha Álam o, Flora.

Incrivelm ente, no m om ento exato, um raio de sol atravessou as nuvens

e ilum inou a árvore caída e fina, com o tronco queim ado. Sem tocá-la,

Keelie sabia se tratar do álam o que se com unicara com ela no m om ento da

m orte, na noite anterior.

Ela ficou arrepiada.

— Viem os para hom enagear sua m agia e fazê-la seguir adiante no

m undo para curar, e pedim os perm issão à floresta e a todos que a am aram

para fazê-lo — continuou o pai.

Todos inclinaram as cabeças. Keelie tam bém . Ariel tinha pousado num pequeno álam o ali perto.

Um a brisa leve fluía pelas árvores. Um a série de folhas esverdeadas

com fragrância de flores de cerej eira caiu com o cascata sobre o álam o,

um a hom enagem de suas irm ãs. Ariel passou voando pela torrente de

folhas, um borrão de asas em m eio ao verde adej ante. Keelie olhou para

cim a e ficou pasm a quando viu outro falcão voar pelos galhos rum o a Ariel.

Os dois falcões deram voltas em torno um do outro. Em seguida, Ariel

deixou escapar um grasnido e desceu a pique. Keelie ergueu a m ão com a

luva e o falcão fez um pouso perfeito. A outra ave foi subindo cada vez

m ais, e a garota ficou triste por Ariel, que nunca poderia ir tão alto, com

tanta liberdade. O falcão contem plou-a com o olho bom , com o se dissesse:

"Vou poder, sim ."

Sean e os outros cavaleiros da j usta deram passos à frente e ergueram

o tronco com o se estivessem carregando o caixão de um am igo, e o

colocaram com deferência na carroça, os galhos pendendo para trás,

arranhando o solo com suas folhas cada vez m ais secas.

— Venha, Keelie — cham ou Zeke.

Ela prosseguiu cam inhando com cuidado pela floresta cheia de

detritos, esquivando-se de galhos pendurados. Um a tristeza envolvia

as árvores, com o o orvalho m atinal, e cingia o m anto dela. Keelie

respirou fundo, sentindo um profundo pesar tom ar conta de si, vindo

das árvores e das pessoas de túnica verde a seu redor. Precisava se

livrar dele. Estendeu a m ão e se equilibrou ao tocar num a árvore.

Álam o. Tal qual a outra. Um a dor forte fluía por seu tronco. Ela pôde ouvir seu coração bater em ritm o lento e constante, fazendo-a

recordar-se de Peles tocando tam bor no Condado.

Nossa rainha.

Mãe raiz.

Keelie não dissera para a m ãe que a am ava na m anhã em que ela

m orreu. Elas tinham discutido a respeito do piercing no um bigo. A m ãe j á

estava atrasada para pegar o voo. "A gente conversa sobre isso depois. Te

am o, Keelie", dissera, dando-lhe, em seguida, um beij o no rosto.

A garota foi baixando aos poucos até o solo e deixou as lágrim as

caírem . Nunca m ais teria a oportunidade de dizer para a m ãe que a am ava.

Com o vam os folhar sem nossa Mãe? Com o vam os florescer?

Com o Keelie poderia viver sem a m ãe?

O pai tocou seu om bro, e parte do pesar desapareceu, m ergulhando,

com o suas lágrim as, nas folhas no solo. O pequeno álam o e as outras

árvores que form avam a corte arborizada da Rainha sofriam . Sua dor era

intensa, e Keelie tentou bloqueá-la, sem sucesso. Sentiu o coração tão

pesado que não sabia se podia se m over. Queria apenas deitar encolhida

no solo florestal, fechar os olhos e voltar à m anhã anterior à m orte da m ãe.

Um por um , os enlutados aproxim aram -se para tocar na árvore caída,

sussurrar algo e afastar-se. O que será que diziam ? Será que ela erraria?

— Venha, Keelie, precisa se despedir.

De pé diante da carroça, ela pôs a m ão na árvore. Assim que a tocou,

fez-se um grande ruído quando o tronco rachou. O álam o partiu-se ao

m eio, revelando ter algo na parte central, um dim inuto coração cham uscado.

Murm úrios de espanto espalharam -se entre os presentes.

— Um presente. A árvore deu seu coração.

O pai pegou-o e colocou-o na m ão da filha. Ela o segurou, sentindo a

aspereza aconchegante da m adeira queim ada. Lascas negras acabaram se

soltando, revelando a suavidade do ébano na parte interna.

— Não vale, ela nem é um a de nós. — A voz estridente de Elia rom peu

o silêncio.

Zeke abraçou Keelie, ignorando a reclam ação da m enina. Ele é o

am paro do qual necessito, pensou Keelie, não a árvore. Ela sentiu o am or

incondicional fluindo das profundezas da alm a dele. Deixou as lágrim as

caírem espontaneam ente. Pelo álam o, pela floresta, pela m ãe.

***

Knot acom odou-se na carroça ao lado da árvore, sentando com o um guarda

felino. Não agia com o se estivesse com ressaca após ter tom ado a cervej a

derram ada; com portava-se bem . Andando ao lado do álam o, Keelie olhava

de esguelha para Sean. Ele fitava o cam inho adiante, com o os outros

cavaleiros, enquanto conduzia a carroça até o festival.

Ela se perguntou o que ele teria achado do acesso de raiva de Elia.

Outros tinham ficado chocados, e ainda falavam disso enquanto

cam inhavam . Elianard e a filha haviam sum ido logo após o com entário.

Tudo ali lem brava m uito O senhor dos anéis, exceto por Knot. Ela

apertou o coração da árvore. Ficou pensando o que Sean acharia dela

agora. Não sabia ao certo o que o presente significava, apenas estava ciente de que recebera algo especial da Rainha Álam o.

A carroça parou diante da casa de Zeke. Ele, Sean e os outros

carregaram o tronco para a loj a.

Sir Davey fez um a reverência quando a árvore passou. O urubu- de-

cabeça-verm elha achava-se ao lado dele, parecendo um a galinha de

estim ação horrorosa.

— Pai — disse Keelie.

— Tudo bem . Pode ir ficar com Sir Davey .

— Novo am igo? — Ela observou o urubu-de-cabeça-verm elha esfregar

a cabeça para cim a e para baixo na calça do anão, com o um cachorro

dedicado. Ariel passou por cim a de Sir Davey , suas garras roçando a

cabeça do hom em antes de pousar no carvalho fora da loj a.

— Aves! Vou acabar com um cérebro de passarinho antes m esm o que

o festival term ine. — O café que segurava não aj udara a m elhorar sua

disposição.

Knot saltou da carroça e foi saracoteando até a entrada da loj a. O

urubu-de-cabeça-verm elha chiou quando o gato passou por ele. Knot

ignorou-o e m eteu-se debaixo de um a m esa enquanto os cavaleiros

enchiam a loj a.

Eles se m oviam em silêncio, com agilidade. Sean foi o últim o. Parou,

sorriu e piscou para ela.

— Que as bênçãos das árvores estej am com você, filha do Pastor das

Árvores. — Ele acrescentou bem baixinho: — Vai ter que m e contar o que

fez para conseguir o coração daquela árvore.

Muda por causa da proxim idade dele, Keelie se deu conta de que

perdera a oportunidade de dizer algo, pois o rapaz j á saía da loj a. Ela

observou-o subir com agilidade na carroça j unto com os outros j ustadores.

Na certa voltariam para a Ilha Equus. A garota teria que voltar

furtivam ente até lá um a noite. As festas deles deviam ser tão boas quanto

as do Condado. Tinham que ser. Sean estava lá, sem falar em todos os

outros cavaleiros.

Naquela noite, depois de tom ar banho, Keelie notou as luzes acesas

no andar de baixo pelas frestas do assoalho. O pai estava na loj a. Ela pôs os

sapatos, colocou o m anto sobre a cam isola e desceu.

Zeke preparava a Rainha Álam o, com as ferram entas ali perto, com o

um cirurgião.

— O que você vai fazer?

— Vam os fazer um a cadeira de balanço. A m agia da árvore vai se

transform ar em energia curativa. — Ela apertou o pequeno coração de

m adeira que levava na m ão. Essa parte do álam o sem pre seria sua.

Era tão triste olhar para o tronco e saber que um espírito sensitivo

vivera em seu interior um dia. Quando o pai se inclinou para pegar um

serrote na caixa de ferram entas, Keelie reparou na orelha pontuda.

Recordou-se das palavras de Elianard.

— Pai.

— O que, Keelie?

—- Lem bra quando Elianard apareceu enquanto estávam os a cam inho

do Lorem Arboral?

— Lem bro?

-— Não achou estranho ele surgir do nada daquele j eito?

— Não. — Zeke estava concentrado na m adeira, passando a m ão nas

laterais cham uscadas do tronco.

— Eu vi quando ele apareceu. Usou um feitiço que o deixava invisível.

O pai ergueu os olhos.

— Hein?

— Quis saber que talism ã eu usava, por que eu tinha tanto poder. Ele

m e cham ou de m estiça.

O serrote caiu no chão.

Keelie olhou fixam ente para Zeke por sobre a árvore.

— Elia disse a m esm a coisa.

Com as m ãos, o pai puxou os cabelos para trás das orelhas para

m ostrar suas orelhas com pontas. Ela fez o m esm o, revelando as suas: um a

redonda, outra pontuda.

— Keelie, eu queria contar para você no m om ento certo. Deveria ter

feito isso anos atrás. — Sua expressão dem onstrava seu arrependim ento.

Ela pensou nas orelhas de Sean e de Elia. Não era possível que vários

participantes do festival tivessem o m esm o defeito congênito.

— Não precisa m ais, pai. Você é um elfo. E eu sou... sou o quê? Um a

espécie de m estiça? —A filha tocou na orelha direita. Era redonda. Com a

m ão trêm ula, sentiu o contorno da esquerda, que ela sabia não ser

totalm ente redonda nem pontuda; possuía um form ato peculiar: um a

ponta suave.

Zeke andou até Keelie. Então estendeu a m ão e, com delicadeza,

ergueu a cabeça dela em sua direção. Ela não desviou o olhar.

— Eu sei que você achou a vida aqui no festival incrivelm ente dife-

rente da que levava antes. Sei que o tem po que passou com igo colocou em

xeque seus conceitos a respeito da realidade. O m undo está cheio de

criaturas diferentes e, entre as que pensam e raciocinam , os seres

hum anos form am apenas um a pequena parte.

Ele apontou para o álam o.

— Você conheceu o povo das árvores, as bhata e as feithid daoine. Já

deve ter notado que Knot é m ais que um gato.

Patas felinas tocaram sua calça e, quando ela se m exeu, a bola peluda

agarrou-se à perna dela.

O pai deu um sorriso m elancólico.

— Knot adorava sua m ãe tam bém .

— Ah, e aposto que era correspondido. Mas quero saber m ais sobre os

elfos.

— Muitos de nós aqui no festival e em várias partes do m undo som os

elfos. Som os m ais que seres hum anos e podem os ser considerados

guardiões da floresta. Eu sou o pastor das árvores e, pelo visto, você

herdou esse dom .

— É por isso que tenho esta conexão fora do com um com m óveis —

com entou Keelie. Ele pareceu ter ficado satisfeito por ela não ter

desm aiado com o choque, nem gritado nem saído correndo.

A filha não sabia o que exatam ente significava ser um a fada, porém , no fundo, no fundo, sua com preensão fluía, com o se a represa que

contivera tudo j á não existisse m ais. Acontecim entos estranhos com eçaram

a fazer sentido de repente. Ela não era m aluca nem um a aberração.

Precisava agradecer a Ariel por ter lhe aberto o coração.

— Mam ãe sabia que você era um elfo quando vocês se casaram ?

— Sabia. Não havia segredos entre nós.

Keelie sentiu um alívio agradável. Bom saber que a m ãe soubera de

tudo, em bora isso trouxesse novas questões a respeito do que levara a m ãe

a ir com ela para a Califórnia.

— A m agia é real, com conseqüências bastante reais tam bém —

continuou o pai. — Você precisa aprender a dom inar a m agia, senão ela

vai controlar você. Ou pior, outros poderiam usá-la através de você.

A garota estrem eceu, lem brando-se do Barrete Verm elho. Então algo

lhe veio à m ente.

— Isso significa que a m am ãe foi em bora para ficar longe dos elfos?

Zeke soltou um suspiro.

— Sim . Para se afastar deles. Você era tão pequena, tão indefesa. E

Katherine sabia que um dia você enfrentaria o que ela teve de enfrentar da

parte de gente bitolada. — Ele segurou seus om bros com firm eza, —

Entenda isso, Keelie, e nunca duvide sequer um instante de que sua m ãe

e eu nos am ávam os. Nossa relação foi especial. O que torna você especial

tam bém .

Os olhos de Keelie ficaram m arej ados. Palavras inexprim íveis a

sufocaram . O pai tirou um a m echa da testa da filha.

— Você é o m elhor de m inha relação com Katherine, filha.

— Por que você não m e contou antes?

— Porque eu não sabia qual seria a sua reação. Não, não é verdade. Eu

sabia exatam ente qual teria sido. Você não teria acreditado em m im .

Acaba de voltar à m inha vida. Nós dois estam os de luto por causa da sua

m ãe. Eu não queria perder você e receava que fosse o que aconteceria se

lhe contasse a verdade. Teria acreditado em m im se eu tivesse lhe

contado?

Ela balançou a cabeça com tristeza.

O pai cingiu seu om bro com um braço.

— Sair da Califórnia foi difícil, m as você teria vindo até aqui em breve,

de qualquer form a, Keelie. A m agia am adurece entre a puberdade e a fase

adulta. Sua m ãe teria trazido você de volta. — Zeke deu um beij o no

cabelo dela. — Eu só queria que você não tivesse sido obrigada a vir por

causa da m orte dela.

— Vocês teriam se unido de novo? — Keelie não achava que a m ãe

teria se sentido à vontade com o um a renascentista.

— Infelizm ente, o tem po não foi benéfico no nosso caso. E, depois de

separados, descobrim os que o único ponto em com um entre nós dois era a

nossa filha. Não vou perder você de novo. Vam os fazer dar certo.

O coração cham uscado do álam o form igou. Ela abriu os olhos e olhou

para ele, que continuava na palm a de sua m ão. Será que partiria o coração

do pai ao voltar para Los Angeles?

Quatorze

de cedro e suor. Depois de trabalhar com o álam o a noite inteira

j unto com o pai, ficara acordada até as sete da m anhã para aj udar

Cam eron na área das aves de rapina. Acabara de descobrir que era

um a fada e, no dia seguinte, fora m ontar gaiolas.

O coração de m adeira do álam o estava pendurado num a corrente de

prata sob a blusa dela. O pai o transform ara num pingente, envolvendo-o

com fios de m etal em vez de perfurá-lo. O obj eto dava à filha um a

sensação de segurança. Ariel voava no alto e, de vez em quando, ouvia-se

um grasnido de outra ave. Havia outro falcão por perto. Será que Ariel

tinha um nam orado?

Sir Davey enterrara pedras protetoras em torno das gaiolas, esperando

repelir o Barrete Verm elho. Keelie dem onstrara curiosidade, m as não

estava pronta para aprender m ais sobre a m agia terrena nem sobre os

efeitos m ágicos da lam a. Tentava lidar com as árvores.

O pai fora convocado para um a reunião de elfos num lugar secreto na

floresta. Ele m encionaria o Barrete Verm elho. Alguns m em bros de seu

povo vinham negando a existência dessa criatura, m as chegara a hora de

fazer algo a respeito dela. Danos suficientes j á haviam sido causados, até

m esm o com dois universitários ainda hospitalizados.

Um encontro com todos os participantes do festival fora convocado

para m ais tarde naquele m esm o dia. Keelie precisaria tom ar um banho

antes de ir. Esperava encontrar Raven, que andava ocupada com a lim peza

do herbanário.

— Ora, ora. Ela faz um a coisa direito e vira a queridinha do papai. — A

voz doce tinha um tom rancoroso. Elia.

— Minha m anhã estava sendo ótim a até você chegar — disse Keelie.

— Mais parece um a tem pestade num piquenique. Aparece quando não é

cham ada.

— Kabum , kabum , kabum ! — exclam ou a outra. Os olhos verdes

transm itiam um brilho ferino.

— Nossa, essa foi a sua im itação de trovão? Ou foi o seu cérebro

lançando alguns neurônios?

— Muito engraçadinha, hum ana — disse Elia, com sarcasm o.

— Hum ana? E você não é? Finalm ente a gente concorda em algum a coisa. Eu sei sobre os elfos, Elia.

A outra dem onstrou perplexidade, porém recobrou a calm a depressa.

— Olha, só porque Sean anda elogiando você agora, não se acostum e

m uito com essa fam a recém -adquirida. Pode ser que estej a desfrutando de

um lugarzinho ao sol, m as lem bre que é a garota do show de lam a e, m ais

cedo ou m ais tarde, vai se estrepar. Vai ter que voltar para o buraco cheio

de lodo de onde saiu rastej ando. — Ela sorriu e brincou com um laço

prateado na parte frontal do vestido cor-de-rosa cheio de lacinhos.

— Ah, quer dizer que sou a garota do show de lam a? Posso até ter os

pés arraigados com firm eza no solo, m as não j ogo suj o, com o certas

pessoas m aldosas. — Ariel voou na direção de Keelie e, em seguida,

pousou num cedro.

Keelie estendeu a m ão enluvada. O falcão foi até ela, as garras

afundando com força no couro. A garota teve a im pressão de ter visto um a

criatura em form a de graveto observá-la de um azevinho ali perto. Quando

olhou outra vez, viu que continuava ali. Ela sorriu, m as a figurinha sum iu,

cam uflando-se em m eio à floresta.

— Moçoila, está tudo bem ? — Sir Davey pôs-se ao lado de Keelie.

Louie, o abutre, cam inhava bam boleando atrás dele.

Elia franziu o cenho ao vê-lo.

— Eu deveria ter adivinhado que Keelie Heartwood se m isturaria com

gente da sua laia, anão.

Keelie teve vontade de dar um a bofetada na m enina e de arrancar um

dos adornos prateados do vestido cor de bala dela pela grosseria com Sir Davey .

— Por que gosta tanto de ser tão grossa com todo m undo?

— Não sou, ao contrário do que você diz, grossa com todo m undo. Na

verdade, até sou elogiada pelo m eu povo pela capacidade que tenho de

socializar com os turistas e ainda m anter m eu lado nobre. — Ela pegou

m echas douradas do cabelo com a m ão pálida e j ogou-as por sobre o

om bro delicado.

Keelie sim ulou um vôm ito, colocando o dedo na própria boca aberta.

Sir Davey riu.

— Rudim entar, senhorita Keelie. Seu pai não aprovaria isso.

Ela revirou os olhos.

— Então não ria.

Ele piscou para ela, em seguida, farej ou algo no ar. Louie chiou e

balançou a cabeça careca, fitando Elia.

— Por que não vai ficar com seu próprio povo e nos deixa ter um dia de

paz para que possam os term inar nosso trabalho com tranqüilidade? —

sugeriu Sir Davey .

Elia olhou-o furiosa.

— Com o ousa m e insultar?

— Não é um insulto, é um a sugestão. — Ele cruzou os braços diante

do peito.

— Um a dica — acrescentou Keelie.

Elia colocou um a longa m echa de cabelo atrás da orelha, perm itindo

que a filha de Heartwood visse com clareza a orelha pontuda, sim ilar à de Sean e à de seu pai. Keelie lem brou-se de que a filha de Elianard, com o

Zeke, era um a fada, e ela própria m etade fada. Seriam parentes?

Que ideiam ais repugnante. E se alguém m etade fada com o Keelie

tinha tantos poderes, do que Elia seria capaz?

Naquele m om ento, a filha de Heartwood tinha coisas m ais im por-

tantes a fazer que ficar no m eio da Trilha do Forrageiro trocando insultos

com aquela m enina.

— Cuidado, garota do show de lam a. Nunca saberá ao certo quando o

lado selvagem do seu falcão vai dom iná-lo. Ele pode sair voando e nunca

m ais voltar — disse Elia.

Um arrepio de m au presságio percorreu a espinha de Keelie, que se

aproxim ou da outra e ficou cara a cara, nariz com nariz.

— É um a am eaça?

Ariel agitou as asas, com o se dissesse "eu cuido dela".

— Não. Só um aviso.

— Nunca am eace Ariel. — O coração de m adeira esquentou em sua

pele.

— Ou você vai fazer o quê?

— Afaste-se, Keelie — gritou Sir Davey .

Foi o que ela fez; em seguida, sentiu pequenos trem ores sob os pés.

Não havia terrem otos no Colorado, havia? A falha de San Andreas não

poderia tê-la seguido até lá.

Com um sorriso m aroto nos lábios, o pequeno hom em estendeu a m ão

e agitou os dedos. Um m ontículo de terra arredondado irrom peu em torno de Elia conform e m inhocas iam subindo, contorcendo-se, até a superfície.

A m enina gritou, ficando na ponta dos pés na tentativa de evitar o

m onte cada vez m ais alto daqueles bichos. No entanto, onde quer que

pisasse, um novo grupo de m inhocas aparecia. Sir Davey continuou a

m exer os dedos, dando um a risada travessa conform e o fazia.

Elia gritou, levantou o vestido longo e saiu correndo. Keelie protegeu

os ouvidos com as m ãos. Por fim , os berros da m enina foram se tornando

cada vez m enos lancinantes conform e ela voltava para sej a lá qual lugar

ficava durante o dia.

— Acho que ela vai voltar para os da laia dela — com entou Sir Davey .

Keelie riu.

O hom enzinho deixou a expressão satisfeita de lado e ficou sério, de

súbito.

— Cuidado com ela e com alguns dos j ustadores; fique especialm ente

de olho em Ariel. Não gostei das palavras que saíram da boca daquela

m enina. Ela está planej ando algo.

— Hum , bom , eu consigo enfrentar Elia.

— Acho que tem razão. Você pode ser apenas m etade fada, m as

consegue fazer coisas que ela não consegue.

— Com o o quê?

— Lidar com a m agia das árvores. As habilidades dela são outras.

— E assustadoras. Pode ir com igo até a loj a?

Ele fez um a reverência.

— Será um a honra, senhorita!

Keelie ficou intrigada com o que acabara de testem unhar. Ao

cam inhar ao lado do anão, im aginou se ele ficaria ultraj ado ou se lhe

passaria um serm ão se inquirisse. Por fim , a curiosidade a dom inou. Ela

quis saber, num im pulso:

— Com o fez as m inhocas saírem do solo daquele j eito?

O anão analisou-a com os olhos cinza determ inados.

— Está preparada para conhecer esses detalhes?

A garota o avaliou por alguns instantes. Ia levar séculos para descobrir

a verdade a respeito de todos os acontecim entos esquisitos em seu

entorno.

Na floresta, ela viu outra criaturinha de gravetos m ovendo-se entre os

troncos dos cedros. Aquela aparentava ser m aior, quase do tam anho de um

cachorrinho. Parecia que o povo da floresta ficava m ais ousado.

Com o ela podia lidar com a realidade quando voltasse ao m undo real?

Ela se lem brara de ter corrido atrás de fadas quando era pequena. E,

agora, passara a vê-las de novo.

— Ah, você está pensando que, se der vazão a todas as esquisitices que

viu e fez, elas acabarão se tornando reais em todos os lugares que

freqüentar — disse Sir Davey .

Keelie parou de andar.

— Está bem , adm ito. — Ela colocou as m ãos na cintura.

— Porque, de onde venho, esses troços não fazem parte do m undo

real.

— O que acontece com você se acreditar que são genuínos?

A garota sentiu um aperto no peito ao ter de confessar em voz alta.

— Se eu acreditar que as fadas são reais, que o gato do m eu pai usa

botas e em punha um a espada e que realm ente sinto e vej o o espírito de

um a árvore na casca dela, não vou fazer parte do m undo da m inha m ãe.

Crer no que pensei que era fictício e só possível nos contos infantis tira

um a parte da m am ãe de m im e um a parte de m im dela.

— Keelie, você nunca perderá sua m ãe — ressaltou Sir Davey .

— Ela pode ter deixado esta existência, m as vive em você. Estará com

você cada dia de sua vida. Quanto a acreditar em m agia, fadas e gatos de

botas e ver rostos em árvores, você precisa aceitar que essas coisas fazem

parte do seu m undo, sendo aspectos dos quais não tinha conhecim ento

antes.

Sir Davey pegou a m ão dela e afagou-a de um j eito reconfortante.

— Quando você enfrentar os problem as deste m undo, sej am eles reais

ou, com o você alega, im aginários, então o faça de coração, órgão em que

estão todos que a am am . Do fundo do seu coração vem a m agia que faz de

você a pessoa que é.

Keelie se deu conta de que os dois haviam chegado a Heartwood. Ela

tinha noção do que Sir Davey dizia porque abrira o coração para a m agia e

fizera a diferença para a floresta na noite da tem pestade. Arriscara-se.

Havia espaço em seu coração para Ariel, para a m ãe e talvez para o pai

tam bém . Ainda assim , a garota tinha a sensação de que se am asse alguém

tanto quanto a m ãe, iria perdê-la aos poucos.

— Não exagere, m oçoila. Conversar com as árvores requer m uita energia.

Ela riu.

— E tam bém fazer m inhocas saírem se contorcendo do solo.

— Com certeza. Está na hora de eu ir em bora e descansar por hoj e.

— Obrigada, Sir Davey .

— Sem pre que precisar de aj uda para aceitar a m agia, Keelie, não se

esqueça de vir falar com igo. Sobretudo se alguém disser ou fizer algo que

vire seu m undo de cabeça para baixo.

Ela não conseguia im aginar o que poderia ser m ais perturbador que

ver rostos em árvores, tocá-las e sentir seus espíritos, além de vislum brar

fadas adej ando no ar.

— Eu prom eto.

O anão se virou para ir em bora.

— Sir Davey ?

Ele parou e fitou a garota.

— Os dragões existem ?

— Os que eu conheço estão ocupados posando para ilustradores de

contos de fada. — O pequeno hom em acenou, despedindo-se.

Um a coruj a arrulhou e distraiu Keelie.

— Que tipo de resposta é...?

Ela olhou ao redor. Onde estava ele? A garota exam inou a trilha. Sir

Davey tinha desaparecido.

Estranho. Então Keelie pensou que não havia nada m ais no festival

que pudesse surpreendê-la.

***

Keelie subiu com cansaço a escada até os quartos em cim a da loj a do pai.

Estava exausta, fedendo a dej etos de ave e enj oada por ter visto Ariel

com er seu rato. Cam eron disse que cuidaria do falcão para que Keelie

participasse da reunião. Assim que a garota abriu a porta, o arom a

delicioso de pizza a acolheu. O pai estava sentado à m esa da cozinha,

lendo o j ornal. Ele a fitou por cim a do papel, em seguida, abaixou-o.

— Está com fom e, Keelie?

Ela assentiu.

Ele se levantou e fez um gesto com a m ão.

— Sente-sc. Você parece exausta.

— Estou acabada. — A filha se deixou cair num a cadeira. Então olhou

em baixo da m esa para ver se Knot não estava ali, esperando para em boscá-

la. Ele não se encontrava lá. Por algum m otivo irracional, ela ficou

decepcionada. Gostava de dar um em purrãozinho no gato e vê-lo deslizar

apoiado no traseiro pelo assoalho. — Bom . — A barriga dela roncou,

lem brando que ela não com ia desde o café da m anhã.

— Estou sentindo cheiro de pizza?

— Está. De queij o. Venho tentando m anter a pizza quentinha,

esperando você chegar.

— Sabe, se tivesse um m icro-ondas, poderia esquentar se esfriasse.

— E acrescentou, estalando os dedos: — Rápido assim .

— Nada de m icro-ondas. Mexe com a vibração das árvores. Por falar

nisso, depois que você term inar de com er e antes de ir para a reunião, vam os trabalhar naquela cadeira de balanço.

Lá em baixo, Keelie observou-o trabalhar, sabendo que o pai recebia o

estranho conhecim ento que fluía furtivam ente até ela sem pre que tocava

na m adeira.

Ela estendeu a m ão para acariciar a tábua de tom crem e-am arelado

que o pai lhe entregou. Seus dedos form igaram quando a tocou e, em sua

m ente, surgiu a im agem de um a floresta com pinheiros altos crescendo

sob o sol quente. Abelhas pareciam zum bir ao redor dela, porém Keelie

sabia que não eram reais, apenas parte das lem branças adorm ecidas da

m adeira.

— E um pinheiro, da costa. Posso sentir o cheiro do m ar.

A face do pai ilum inou-se quando ele sorriu.

— Incrível. Trata-se de um pinheiro-am arelo da Geórgia, de um a

floresta perto de Savannah.

Zeke pegou um galho grande debaixo da bancada e colocou-o em cim a

da m esm a.

— Tente este aqui. O que m e diz a respeito dele?

Passando a ponta do indicador pelas j unções suaves do galho, ela

sorriu.

— Este caiu durante um a tem pestade da parte m ais alta de um

carvalho, j unto com um pouco de visco. Costum ava ser usado com o

poleiro por falcões.

O pai deu um largo sorriso.

— Im pressionante. Tudo vem para você com o se tivesse estudado o assunto a vida inteira. Keelie, é fantástico!

— Eu acho assustador.

Ele riu.

— Acho que é o que pareceria para um forasteiro. Você pode im aginar

por que m antem os esse conhecim ento em segredo. Antigam ente, pessoas

podiam ser queim adas nos postes por causa disso.

Keelie ficou im aginando com o seria ser queim ada num a estaca, ciente

do tronco em que se estava am arrada e da lenha sob os pés.

O com entário de Zeke a um só tem po agradou-a e am edrontou-a. O

dom passara de geração para geração na fam ília Heartwood. Será que ela

fazia tanto parte do pai? Será que o lado da m ãe desapareceria sob a

influência dele?

— Está com saudades dela, não está?

— Estou. E m uita. — Keelie não ficou surpresa por ele ter consciência

de seus pensam entos. Qualquer expressão estranha em seu rosto poderia

ser interpretada corretam ente da m esm a form a.

— Eu sei. — O pai virou-se para que a filha não visse seu rosto.

Agachando-se, ele passou as m ãos em alguns galhos e em outros pedaços

de m adeira no chão. — Sem pre que preciso ponderar a respeito de

qualquer assunto, faço algum a coisa. Algo m eio verde e zen acontece.

— É m esm o? Bom , então m ãos à obra agora — disse Keelie.

O pai com eçou a lixar a m adeira da cadeira que eles tinham feito

j untos. Alta e elegante, com o assento ligeiram ente côncavo e pernas

firm es, o m óvel fez a garota se lem brar da m ãe. O freixo delicado era da m esm a cor dos cabelos de Katherine, que fora m agra e graciosa.

Zeke não deixou a filha fazer as pernas que ela queria — esguias,

com o as da m ãe —, e aquelas tornavam a cadeira robusta, além de lhe dar

um a base forte. O m óvel era com o sua m ãe, em bora fizesse parte dela e do

pai, por ser um a criação dos dois.

Ele observou a obra.

— Um a últim a lixada, daí um a cam ada de verniz. O que você acha?

— Linda.

O pai anuiu, satisfeito.

— Nós trabalham os bem j untos, filha.

O telefone tocou.

Ele atendeu.

— Alô? Sim , está falando com ele... Deve estar brincando! Vocês

disseram que iria para Nova York e depois para o Colorado... Isso é

ridículo! Sim plesm ente m ande a bagagem da m inha filha para o aeroporto

de LaGuardia, e vou pedir que um am igo a pegue lá.

Keelie sentiu um a grande am argura. Onde será que suas m alas

estavam agora? Onde estaria seu coelhinho de pelúcia? Onde estavam as

fotografias da m ãe? Ela os im aginou no fundo do oceano Atlântico j unto

com os restos do Titanic.

Por outro lado, desde quando seu pai riponga e natureba conhecia

alguém em Nova York? Ela ficou surpresa até por ele conhecer o nom e

"LaGuardia".

Zeke desligou.

— Parece que sua bagagem foi parar na Groenlândia.

— Groenlândia. Tipo no Círculo Ártico? No Polo Norte?

— Vam os receber seus pertences algum dia. Não se preocupe.

— Vou tentar não m e preocupar. Vou tom ar um banho rápido antes da

reunião.

Keelie se vestiu no quarto e tirou os pelos de gato de suas roupas. Não

tivera tem po de levá-las até o Chalé Suíço. De algum a form a, Knot

conseguira entrar no guarda-roupa e se sentara em cim a de sua bolsa.

O celular tocou. O coração de Keelie disparou. Devia ser Laurie

ligando para confirm ar os planos da Grande Fuga. Ela fez m enção de pegar

a bolsa; Knot bufou, com as orelhas abaixadas, paralelas à cabeça, e deu

um a patada na garota.

— Gato m alvado. Devolva a m inha bolsa. — Ele abanou o rabo. —

Ainda não perdoei você por ter feito xixi na m inha roupa íntim a.

O bichano a olhava de um j eito hostil. O celular parou de tocar.

— Está bem . Continue agindo assim .

Knot passou a lam ber o corpo.

Keelie tirou a bolsa debaixo do gato, que caiu no chão, de pé. Seu

ronronado ressoou no quarto.

— Qual é o seu problem a, hein? Toda vez que sou ríspida, você gosta.

Gatinho pirado.

O bichano esfregou-se em sua perna. Ela chutou-o de leve, tirando-o

do cam inho. Ele escorregou pelo chão, apoiado na barriga.

— Eu tenho que ir. Por sinal, quando você fica esparram ado assim , m ais parece um sapo de cabeça peluda.

Os olhos do gato dilataram -se, form ando esferas com o luas negras. Ele

com eçou a ronronar m ais.

— Esquece, seu gato pentelho.

Assim que a m enina abriu a porta, Knot passou correndo por ela.

Desceu com passadas pesadas, parou e ficou no últim o degrau, com o se

aguardasse Keelie. A garota observou-o: ele abanava o rabo.

Keelie desceu a escada e rum ou para a loj a.

— Pai, m anda seu gato em bora, está m e olhando com m aldade.

— Knot, com porte-se.

O gato foi até o carvalho diante da loj a e com eçou a afiar as garras.

***

A Taverna do Caçador estava enchendo depressa com o pessoal do

festival. Keelie acom odou-se perto do pai, apoiando-se na cerca de

m adeira. Cedro.

Elianard lançou um olhar furioso para ela enquanto Elia se em pe-

tecava, parecendo entediada. Tania tagarelou por um longo tem po sobre a

am eaça da adm inistração de fechar perm anentem ente o festival se as

barracas não fossem consertadas de im ediato. Em bora só faltassem m ais

duas sem anas para o térm ino do Festival da Renascença de Montanha

Alta, m uitos com erciantes e artesãos dependiam da renda obtida nesse

período para se m anter até o próxim o evento.

Keelie recostou-se m ais na cerca, observando Knot, que se sentara em

cim a da antiga platibanda que circundava a construção. A cabeça do gato estava inclinada para a frente, num a im itação de abutre, e ele olhava

fixam ente para Louie, o urubu-de-cabeça-verm elha que se tornara o novo

com panheiro de Sir Davey . A ave não se dera conta de que estava sendo

ridicularizada.

Raven foi na qualidade de representante do herbanário enquanto

Janice arrum ava a bagunça em casa. Ela não fazia ideiada sorte que tinha

de contar com a m ãe.

Elia se abanou com a m ão e olhou com desprezo para Keelie. Atrás

dela, Elianard pareceu m urm urar algo.

Hã! Keelie lem brou-se de que, segundo Sir Davey , ela era m uito m ais

poderosa que Elia.

Um cheiro de algo em decom posição chegou j unto com a brisa que

soprava o deque da taverna. O pendente de coração esquentou e form igou

ao encontro da pele de Keelie. Algo em purrou a sola do sapato dela, e a

garota m exeu o pé, m ovendo-o para o lado e levantando a saia. Um a

arvorezinha abria cam inho pela tábua do piso. Keelie observou, chocada,

quando brotaram galhos, e folhas verdes, em form a de agulha,

desabrocharam em cada extrem idade. O arom a de cedro fresco encheu o

ar.

Keelie cobriu depressa a árvore em crescim ento com a saia e olhou ao

redor, para ver se alguém a observava. Elianard fitava a ponta do sapato

dela, que aparecia sob a roupa. Dava a im pressão de que um urso pardo

sairia do forro da garota. Ou o Barrete Verm elho.

Ela se alarm ava cada vez m ais.

Algo a tocou nas costas. A garota sentiu o cheiro de cedro e gem eu,

sem ousar se virar. Deu um as batidinhas no braço de Zeke.

— Pai, tem os um problem a. — Keelie m oveu a saia. Ele ficou

boquiaberto ao ver o galho de cedro brotando do piso. — E isso não é

tudo. — Ela m oveu o om bro para m ostrar o galho que crescera da cerca.

— Com o?

A filha ergueu as m ãos, com o quem diz: "Sei lá!"

Raven foi se sentar ao lado dela. A am iga fitou o galho com um olhar

perplexo.

— Isso é novidade. — Então ela fez um gesto de indiferença com a

m ão. — Olha, todo m undo vai ficar falando sem parar sobre a

adm inistração. Estou careca de saber. Vá se encontrar com igo no

herbanário daqui a um a hora. A Cabana do Rebolado entrou em

liquidação, e podem os dar um a garim pada lá antes que os m undanos

com prem tudo neste fim de sem ana.

— Legal. Assim vou ter tem po de ir ver Ariel antes. — Keelie

sussurrou para o pai. — Você se im porta se eu for dar um a olhada no

falcão e depois m e encontrar com Raven para ir até a liquidação da

Cabana do Rebolado?

O pai desgrudou os olhos do galho e assentiu distraído.

— Parece um a boa ideia.

Continuar: parte 2 de 3