A Filha do Pastor das Árvores
conter a profunda em oção. Ela poderia…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
conter a profunda em oção. Ela poderia lhe dar algum as lições sobre isso.
— A m am ãe m e disse que não quis viver num m undo de faz de conta,
porque nunca pertenceria a ele. É verdade?
O pai abaixou o garfo de plástico.
— Sua m ãe precisava ficar no m undo dela, e eu no m eu. Ela era j ovem ,
com o eu, quando a gente se conheceu e se apaixonou.
A filha colocou as m ãos sob os j oelhos.
— Por que vocês se casaram ?
— Eu não podia im aginar viver sem Katherine. Ela sentia o m esm o em
relação a m im . Pelo m enos no início. — Ele se curvou, com o se estivesse
exausto.
— E se uniram porque m e tiveram .
— Não. Eu m e casei com a sua m ãe porque a am ava. — Zeke sorriu,
porém não estava feliz. — Quando você chegou, j á estávam os casados
havia alguns anos. Foi um a bênção para nós, Keelie.
Quando os olhos dele ficaram verm elhos? Será que ia com eçar a
chorar na praça de alim entação? Ela olhou ao redor com apreensão.
Ninguém prestava atenção. A garota queria respostas, e aquele era um
território neutro para todos.
— Então por que vocês não ficaram j untos? — Seu tom de voz pareceu
tenso. Ela estava tentando m antê-lo sob controle.
— Mesm o quando duas pessoas se am am , com o aconteceu com igo e
com sua m ãe, às vezes é difícil dem ais transform ar seus m undos diferentes
em um só, especialm ente depois de ter filhos. Se não se chega a um acordo, um deles vai ter que fazer um a escolha. Nós tentam os. Sua m ãe
queria que você vivesse no m undo dela, m as eu não podia m e j untar a
vocês nele. Com o am ava tanto você quanto sua m ãe, achei que seria
m elhor para as duas. — Ele pareceu estar passando m al ao dizer isso.
— Eu tam bém queria vocês dois. Por que não podia ir para a
Califórnia? E legal lá. As pessoas curtem m óveis sofisticados lá tam bém . O
que você faz é m aravilhoso, teria ganhado a m aior grana.
— Não faz sentido falar disso agora. Você está aqui com igo.
— Ei, todo m undo pronto para ir em bora? Dei um a olhada no canal do
tem po na TV perto do banheiro. Aviso de tornado por toda a cadeia
m ontanhosa. — Raven parecia preocupada. — Não quero deixar a m am ãe
sozinha.
Keelie sentiu outra forte pontada de dor. Se Katherine estivesse viva,
ela agiria tal qual a am iga: procuraria estar perto da m ãe, por se preocupar
em m om entos com o aquele. Deixava-a m uito m agoada não ter essa
oportunidade de novo.
O pai levantou-se e cam baleou.
— Ei, Zeke. Tudo bem ? Você está com a aparência péssim a. — Raven
pegou o cotovelo dele.
— Ele está desse j eito desde que a gente chegou aqui — com entou
Keelie.
A am iga olhou para Zeke, que não respondera. Mordeu o lábio.
— Está bem , eu vou dirigir na volta.
— Eu posso dirigir. Talvez tenha sido a com ida. — Ele olhou para a bandej a de isopor e o garfo de plástico.
Keelie pensou tê-lo ouvido sussurrar "m adeira". O pai conseguiu
cam inhar até a cam inhonete, m as, em seguida, caiu desm aiado na cam a
do trailer.
— Pelo visto, vou ter m esm o que dirigir. — Raven tirou as chaves da
m ão dele. Keelie levantou o assento de um banco em butido e pegou um
cobertor dobrado em baixo. Estendeu-o e cobriu bem o pai, que m urm urou
"m adeira" de novo, sem abrir os olhos.
Ela segurou a m ão dele e a estendeu até que tocasse a parede. Seus
próprios dedos tocaram nela. Cedro.
— Cedro — sussurrou Zeke.
Keelie afastou-se da cam a. De que se tratava aquilo? O pai cham ara
de dom . A m ãe, de alergia a m adeira. No entanto, ia além disso. A m ãe
m entira. Para a filha, era um a m aldição. Ela pensou em seu agressor
dançarino, nos bonecos de graveto m ovendo-se e na voz debaixo da ponte.
Aquela hum aninha m estiça precisava ouvir a verdade do pai.
Um a raj ada de vento abriu a porta de supetão atrás dela.
Raven apareceu.
— Vam os, Keelie. Você tem que ir na frente. É m uito perigoso aqui.
Preciso que m e guie e fique de olho no céu.
— Se é perigoso dem ais, não podem os deixar m eu pai.
— Ele vai ficar bem , e não podem os carregá-lo e colocá-lo na frente.
Vam os. Quanto m ais rápido a gente partir, m ais rápido chegarem os lá ao
festival.
Keelie m eteu a cam a de rena de Knot sob a cabeça do pai, com o
travesseiro. Deu um a últim a olhada nele, daí saiu do trailer e trancou a
porta. Entrou na cam inhonete e colocou o cinto de segurança. No alto, o
céu am eaçador estava cheio de nuvens brancas e cinza, rodopiando em
círculos lentos. A luz oriunda do oeste era am arelo-pálida, sim ilar a um a
lâm pada bruxuleante num am biente escuro. Parou de ventar, e, em m eio
ao silêncio lúgubre, Raven ligou o carro e deu ré no estacionam ento.
— Fica de olho nessas nuvens — disse Raven. Deu a im pressão de
estar calm a, porém suas m ãos agarravam com força o volante,
esbranquiçando os nós dos dedos.
— O que estou procurando? — Keelie ergueu os olhos. Nuvens e m ais
nuvens. Lindas, escuras e em m ovim ento constante.
— Quando um a delas com eçar a baixar, grite.
— Baixar? Elas j á estão bem baixas.
— Estou m e referindo a um tornado, sua boba.
Keelie vira o seriado com histórias de tem pestades no canal do tem po.
Não fez m ais perguntas, sim plesm ente m anteve o rosto colado no vidro,
observando o céu traiçoeiro.
A viagem foi m ais rápida, j á que sabiam aonde ir. Ela não viu nenhum
tornado. Elas deixaram o carro no estacionam ento de visitantes, e Keelie
ficou com Zeke enquanto Raven buscava aj uda para levá-lo até
Heartwood.
Tarl foi até lá, pegou o pai de Keelie no colo com o se ele fosse um
bebê e o carregou a m aior parte do cam inho. Antes que chegassem à loj a de Janice, Zeke acordou.
— Já m e sinto m elhor.
— Você parece m elhor. Melhor que um defunto. — Tarl riu.
Keelie os seguia com dificuldade, por causa das sacolas pesadas de
com pras. Ela parara para calçar o tênis velho de novo. Havia cogum elos
noj entos por toda parte. Precisavam j ogar água sanitária naquele lugar.
— Posso cam inhar, Tarl.
— Eu digo que não — disse o hom em , sem soltá-lo.
Raven foi depressa à frente para abrir a porta do apartam ento para
eles. Os dois desapareceram no quarto cortinado de Zeke.
Keelie colocou seus novos tesouros no guarda-roupa e o fechou com
firm eza. Knot piscou para ela.
— Fora. Não toque. Bem que eu queria dizer isso em dez idiom as.
O gato se espreguiçou, erguendo o traseiro, e se retirou saracoteando.
Tarl foi com er j unto com elas o frango com arroz levado por Janice. A
m ãe de Raven levou o j antar para que Zeke com esse na cam a, e Keelie pôs
a água do chá para ferver.
Lá fora estava escuro, e as nuvens passavam entrecortadas. Estrelas
cintilavam aqui e ali, m as logo eram encobertas outra vez.
Tal com o as nuvens, um a série de perguntas rodopiava na m ente de
Keelie sobre o que acontecera quando os pais se separaram , quem ela era
e o quanto a m ãe sabia a esse respeito.
O pai dissera de novo que a m ãe não pôde viver no m undo dele.
Certo, a própria filha achava difícil ficar ali. Mas não entendia com o o pai e a m ãe tinham se unido, antes de m ais nada.
Pai. Lá estava ela pensando nele com o pai outra vez. Isso a
perturbava. Era com o se estivesse com eçando a ficar do lado dele, em bora
a m ãe não estivesse ali para se defender. Com o se sentia confusa!
Lem brou-se da placa que vira na estrada, reluzindo num a m ontanha
do outro lado da rodovia. Ela a observara pelo retrovisor e lera a escrita de
trás para a frente: "Tatuagens e piercings corporais Tio Harry Mac. Aberto
24 horas!"
Era exatam ente o que vinha procurando. Se Zeke tinha se espantado
com a regata da Vam pira e os j eans de cintura baixa, teria um troço com o
piercing de um bigo. Claro que tinha acabado de passar m al, de qualquer
form a, apesar de Janice haver dito que apenas dorm ia. Qualquer que fosse
o vírus que o tivesse atacado, chegara de form a repentina.
O que Keelie fazia ali? Não era sua casa. Gostava de Raven e de
Janice, m as em breve a am iga voltaria para a universidade no fim do verão
e, além disso, todo o festival acabaria, dispersando-se por aquele ano. Ela
ficaria ali em pacada com Zeke, e sabe-se lá com o seria o próxim o festival.
Ou pior, a Floresta do Pânico.
Essa seria sua nova vida? De j eito nenhum . Keelie nem queria um a
nova. Queria um a casa, que para ela significava Los Angeles, as am igas e
os lugares que lhe eram fam iliares. Não bizarrice. Não m agia terrena,
visões estranhas e m óveis que conversavam com ela. Los Angeles podia ser
considerada um a cidade norm al. E ela, podia?
Dez
aspecto de seu reflexo no espelho. A regata e o j eans azul novos
faziam -na sentir-se com o a Keelie de antes, aquela que ainda tinha m ãe.
Ela levantou a blusa para ver o um bigo, im aginando o piercing que
colocaria ali. Do lado esquerdo ou direito?
A garota pôs as pontas dos dedos no espelho e fingiu que a m ãe estava
lá, atrás dela, que Katherine se achava ali com Zeke, e que os três estavam
j untos, com o um a fam ília. No entanto, por m ais que Keelie tentasse visualizar a m ãe, ela não aparecia no espelho.
De súbito se perguntou se sua im agem m ental da m ãe estava certa.
Será que esquecia algo? O caim ento dos cabelos e o leve sorriso, que
deixava claro que não se sentia m uito brava, continuavam lá, em segurança
na lem brança de Keelie. Mas o que escapulira? Ela se sentiu m al.
Será que um dia acabaria aquela dor lancinante e forte no peito
sem pre que pensava na m ãe? Será que conseguiria superar a saudade e a
vontade de que a vida voltasse a ser com o era antes daquele desastre de
avião? Será que um dia passaria a esperança de que a m ãe entraria porta
adentro e de que sua m orte não tivesse passado de um pesadelo?
O tem or que corroía Keelie, o que ela não podia suportar, era perder a
m ãe por com pleto, até m esm o em seu coração — se se perm itisse am ar
alguém tanto quanto a ela. Receava que o am or fosse com o um arquivo de
com putador, o novo sobrescrevendo o antigo. Jam ais deixaria que isso
acontecesse. Sentiu um calafrio percorrer a espinha quando se lem brou
das palavras de Elianard: a hum aninha m estiça de Heartwood.
O telefone tocou. Ela abriu as cortinas do quarto e saiu depressa, m as
seu pai atendeu. Não. Apesar de ter se aproxim ado dele ontem , no
shopping, não podia cham á-lo de pai. A m ãe saíra de seu m undo, e ele
deixara que ela fizesse isso. Para Keelie, continuaria a ser Zeke.
— Alô? — O pai olhou de esguelha para a filha, com o fone ao ouvido.
Recuperara o aspecto de sem pre. — Sim , é — prosseguiu. — Ah, sério?
Interessante. Tudo foi checado e registrado. — Ele fez um sinal de
aprovação com o polegar.
Keelie sentiu um frio na barriga. Sua bagagem devia estar vindo de
Istam bul.
— Obrigado. Pode enviar as m alas de avião até aqui e, se tudo der
certo, devem chegar em alguns dias.
Zeke desligou o telefone.
A filha m al pôde disfarçar a alegria na voz.
— Bom , o que falaram ? A m inha bagagem vai chegar?
Ele riu.
— A boa notícia é que todas as suas dez m alas foram etiquetadas... em
Am sterdã. E vão sair de lá daqui a alguns dias.
— Am sterdã. Tipo na Holanda. Nos Países Baixos. — A im agem que
lhe veio à m ente foi a de suas m alas isoladas, abandonadas num a rua
calçada com pedras, cercada de tulipas, m oinhos de vento e pessoas
andando de bicicleta.
— Acho que sua bagagem viaj ou m ais longe do que qualquer pessoa
que eu conheça — com entou ele, adm irado.
— Im pressionante.
— Gostei do seu conj unto — com entou o pai. Ele estava sentado no
sofá, tom ando chá de ervas na caneca. Mostrava-se ligeiram ente pálido
ainda. — Você está linda com estas roupas novas.
Ela não conseguia parar de sorrir. Está bem , daria a Zeke aquele
gostinho.
— Obrigada, tam bém gostei delas. Cadê o Knot? — Ela perscrutou a
sala em busca de algum sinal revelador de sua nêm esis laranj a e felpuda. — Ele está cuidando de alguns serviços.
— Serviços?
Alguém bateu à porta.
— Pode entrar — gritou o pai.
— Oi, Zeke — saudou Scott, m etendo a cabeça no vão da porta. Seus
om bros eram tão largos que o preencheram . Usava um a cam iseta suj a de
lam a do Festival da Renascença de Sterling 2002. Olhou para Keelie. —
Você ficou bem de cara lavada.
— Valeu, eu acho — agradeceu a garota. Na verdade, ela nem queria
que o rapaz a olhasse daquele j eito. Não fez nenhum com entário sobre o
que achava da aparência dele. Não em voz alta.
Scott se virou para ela com um sorriso.
— Ei, Keelie, quem sabe neste fim de sem ana, durante o festival, você
não queira ir tom ar um chá ou algo assim com igo?
Chocada, ela ficou m uda. Ele a estava convidando para sair?
— Você vai ficar ocupado dem ais trabalhando na loj a este fim de
sem ana, Scott — disse Zeke com firm eza.
Ainda bem que Zeke intercedeu.
— Está bem , j á saquei. Nada de cham ar a filha do chefe para tom ar
chá. Vou incluir isso na m inha lista de proibições — salientou o rapaz,
revirando os olhos.
Scott olhou para Keelie e piscou para ela.
— Você está ótim a de roupa nova. Melhor tom ar cuidado com os
piratas, os cavaleiros errantes e os outros caras do festival.
A garota enrubesceu quando ele disse piratas. Será que Scott sabia?
— Bom , estou tendo a m aior dificuldade com a m adeira que chegou
ontem do Oregon — disse o rapaz. — Queria saber se não podia dar o
velho toque de Zeke e m e explicar o que fazer.
— Está no carvalho?
Scott assentiu.
Keelie ficou m orrendo de invej a. Odiava ver aquela enorm e afinidade
entre os dois hom ens. Se ela tivesse convivido com Zeke nos últim os treze
anos, poderia aj udá-lo com o carvalho.
O pai franziu o cenho.
— Deixe para lá, é um caso com plicado. Eu m esm o vou cuidar disso.
— Knot tam bém está perturbado. Estam os sentindo aquele zunido,
sabe? Ele está correndo em círculos e tentando m order o rabo. Acho que
precisa tom ar um banho com rem édio antipulga.
— Vou fazer isso à tarde, assim que puder — disse Zeke. Ele m exeu o
chá, revirando de leve a caneca e, em seguida, tom ou um gole. Ainda
estava com olheiras, m as m antinha um sorrisinho travesso. — Vou fazer
espaguete hoj e, com bastante alho no m olho. Isso vai aj udar Knot a se
livrar das pulgas.
Pulgas. Aquele gato não ia dorm ir com ela de j eito nenhum . Keelie
coçou o braço.
Ela olhou para o relógio em form a de (o que m ais!) árvore pendurado
sobre o fogão.
— Está na hora de ir até a gaiola alim entar Ariel.
— Eu vou com você. — Scott agitou as sobrancelhas, m ovendo-as para
cim a e para baixo, e deu um sorrisinho idiota. Precisava usar fio dental,
pois algo m arrom grudara entre os dois dentes da frente.
— Não vai, não. Cam eron não convidou você.
— Scott só vai acom panhar você até as gaiolas. Eu pedi que fizesse isso
— disse o pai, usando seu tom paternal direto.
Keelie olhou zangada para ele.
— Eu j á estou no ensino m édio. Não preciso que ele vá com igo até as
gaiolas — ressaltou a garota, apontando para o rapaz. Ela esperava deparar
com Sean com suas roupas novas. Ter o aj udante do pai ao lado,
arrebanhando-a com o um cão pastor, acabaria tolhendo-a.
— Scott vai com você. Fim de papo — salientou Zeke. — Volte daqui
a três horas. Às quatro. Se vier m ais tarde, será m inha m issão pessoal
acom panhar você aonde quer que vá até com pletar dezoito anos.
Keelie deixou escapar um resm ungo. Cam inhando com passadas
rápidas na frente de Scott, ela ficou decepcionada com o festival vazio.
Alguns dos m oradores da área usavam roupas norm ais, do dia a dia,
com o ela vira no Condado no dia anterior. Já outros usavam fantasias. A
garota j ulgou que suas m entes estavam fixadas em outra época, no período
m edieval.
Ela sentiu falta da m ovim entação da m ultidão, caso em que, m esm o
com aquela roupa enlam eada, ela pôde passar despercebida. Mas, por
algum m otivo, em m eio à quietude e às suas roupas m undanas, sentia-se
m uito diferente.
Scott alcançou-a, as pernas tentando acom panhar suas passadas
aceleradas.
— Fiquei sabendo da sua aventura no Condado com o capitão Dandy
Randy — com entou ele.
Keelie sabia. Em bora tivesse ficado rubra de vergonha, não conseguiu
evitar a olhada de esguelha que deu para o rapaz; com certeza, se tivesse
um a bola de lam a, esfregaria bem em cim a daquele focinho afetado dele.
Nem se daria o trabalho de responder.
Scott prosseguiu.
— Ele contou para todo m undo que você estava dando várias am ostras
grátis.
A garota parou.
E o rapaz tam bém . Deu um largo sorriso, abrindo tanto a boca que ela
viu bem seus últim os m olares.
— Ele disse o quê?
— Que você estava dando várias am ostras grátis e que eram m uito
doces.
Keelie deu a volta, tom ando a direção do Condado.
— Cadê ele? — Ela bateu com o punho na outra m ão, antevendo a
face do capitão Randy com o nariz quebrado. Aquele babaca
provavelm ente ficaria ótim o daquele j eito.
— Pelo que sei, está trabalhando num novo j ogo de software. Pirata
Perigoso ou algo idiota assim .
— Vou m ostrar para ele um a pirata perigosa. Eu.
— Nem m e daria o trabalho. Raven j á esclareceu tudo. Além do m ais,
ele sabe que, se dissesse algo para m ais alguém , ela contaria para Zeke. E
todo m undo está careca de saber que, apesar de seu pai trabalhar com a
gente, as pessoas norm ais, ele é diferente. O capitão Randy ficou com
m edo.
— Com o assim , o m eu pai não é norm al? Quem é norm al neste lugar?
— Ah, vai, Keelie. Você sabe do que estou falando.
— Está bem , sabichão. Pode m e dizer o que m eu pai tem de diferente,
j á que acabei de chegar e você convive há m uito tem po com ele.
Scott estudou Keelie, m as piscou nervosam ente diversas vezes
enquanto ela o encarava. De repente, a garota se tocou: o rapaz estava
tentando arrancar inform ações dela.
Pôde sentir os cantos de sua boca erguerem -se num sorriso.
— Esse vai ser nosso segredo.
Ele não conseguiria arrancar nada de Keelie, que ignorava m uitos
detalhes a respeito de Zeke. E o que ela sabia não com partilharia com o
rapaz. Tinha outros problem as, e um deles era um pirata cham ado capitão
Dandy Randy . Queria que o pai só ficasse sabendo do que acontecera no
Condado naquela noite depois que ela fosse para casa, na Califórnia. O
pior era que se ele descobrisse talvez se tornasse bem paternal, com o agira
lá no apartam ento alguns m inutos atrás. Insistiria que ela voltasse a m orar
com ele até fazer dezoito anos. Com o a m ãe e o pai não tinham se
separado, isso colocava um grande em pecilho em seus planos de ir m orar
com Elizabeth e Laurie. Na Trilha do Ferrageiro, a m ulher chata da barraca de bij uterias cam inhou na direção deles. Seu nariz até parecia
m eio norm al com aqueles seios gigantescos para contrabalançá-lo. Ela
usava um a blusa cor-de-rosa e j eans e olhava o tem po todo para um a
prancheta. Era estranho ver aquela gente renascentista com roupas
norm ais. A m ulher desviou os olhos e fechou a cara quando viu Keelie; no
entanto, sorriu quando olhou para Scott. A garota continuou andando.
Nem prestaria atenção nela. Fosse com o fosse, Ariel j á aguardava que ela
lhe desse seu alm oço. Em bora anim ada para ver o falcão, Keelie não
gostava da ideiade tocar num rato m orto nem de vê-lo ser devorado.
— Boa-tarde, Scott. Com o foram as vendas em Heartwood nesse fim
de sem ana? — perguntou a m ulher das bij uterias.
— Oi, Tania. Nada m al. Já sabe com o é Zeke. Com o atrai as m ulheres,
vai bem . Com o anda a sua loj a?
— Com essas m alditas chuvas afugentando os clientes? Todo m undo
está sentindo no bolso. Este ano tem sido ruim para m uitos de nós, com
exceção da equipe de Elianard. Eles nunca parecem ter problem as
financeiros. Os negócios daquele grupo vão de vento em popa. — Tania se
aproxim ou m ais. — O Al, lá do pub, diz que herdou o dom da prem onição
da avó irlandesa Janie. Afirm a que algo terrível am aldiçoou o festival. —
Ela ergueu a cabeça, aguardando a reação de Scott, m as fitando Keelie.
O rapaz anuiu.
— É, Cam eron anda preocupada. Disse que viu um hom enzinho
esquisito e com um a risada estranha perto das gaiolas ao crepúsculo e, às
vezes, ao pôr do sol.
A m ulher ressaltou:
— Não falei? Cam eron é um a das que eu acredito que tenha o dom da
prem onição. Ontem à noite, no pub, ouvi dizer que acham que foi o
hom enzinho de barrete verm elho que com eçou o incêndio. Um a das
dançarinas do ventre pensou ter visto o suj eitinho se dirigir à floresta
depois do prado.
Keelie parou e se virou. Barrete verm elho. Floresta depois da clareira.
Mais de um a pessoa vira o anãozinho m aníaco. Ela não fora a única vítim a.
Ele era um incendiário.
Scott assobiou.
— É m esm o? Eu m e pergunto o que a adm inistração vai fazer.
— Não sei não. Aposto com o alguém daquela em presa de
desenvolvim ento rural o contratou. Por que você não faz um a pausa e tom a
um cafezinho com igo? Podem os conversar m ais. — Tania pestanej ou para
ele.
Keelie acabaria ficando enj oada.
— Puxa, não posso. Tenho que fazer um servicinho. Preciso levar a
filha de Zeke até as gaiolas — explicou Scott.
— Ela é a filha de Zeke Heartwood?
A garota achou que a m ulher ia se engasgar com as próprias palavras.
Keelie se aproxim ou de Scott, sentindo-se bem m elhor. Observar a
reação da outra ao ficar sabendo que ela era filha de Zeke Heartwood
fizera o atraso valer a pena. A garota com eçava a se dar conta da
im portância do pai no festival.
— Eu a vi ontem , m as achei que fosse um a nova participante do show
de lam a.
— Foi legal da parte de Tarl ir m e aj udar e em prestar um as roupas,
pois todas as m inhas de bater estão na Europa. — Keelie tam bém
pestanej ou. Se Scott tam bém fizesse isso, a brisa dos três pares de olhos se
faria sentir.
— Europa. — Tania olhou para ela de alto a baixo, com o se
com putasse o custo de sua roupa. — Minha nossa, não tinha m e dado
conta de que era a filha de Zeke. — Ela sorriu, em bora não com since-
ridade. Da m esm a form a com o a rival das quadras de tênis da m ãe de
Keelie sorria quando as duas se encontravam no superm ercado. A m ãe
perguntava: "Beverly , querida, tudo bem ?" A outra respondia: "Tudo
m aravilhoso, Katy , querida. Mal posso esperar por nossa próxim a partida
no clube." Em bora seu diálogo parecesse sim pático, Keelie sentia o veneno
escorrer a cada palavra que trocavam . Beij inhos no ar a m etros de
distância. — Olha, sei que você gostou daquele colar da fada. Ainda estou
com ele — prosseguiu a m ulher, apontando para a direção em m eio à
floresta em que se encontrava sua barraca. — Posso pegá-lo para você, se
quiser.
Balançando a cabeça, a garota disse:
— Não, obrigada. Eu tenho que ir. Preciso chegar às gaiolas. Cam eron
está m e esperando.
Ao se afastar, ela sentiu a hostilidade que fluía de Tania, do m esm o
j eito que ocorria com a rival da m ãe. Sentia-se m ais que satisfeita. Na certa, aquele colar de fada deixaria seu pescoço verde. Talvez fosse por
isso que a dona da barraca de bij uterias não estava ganhando m uito
dinheiro: m ercadoria ordinária.
Ao chegar às gaiolas das aves de rapina, Keelie foi correndo até a de
Ariel. O falcão, sentado no poleiro, abriu os olhos e virou a cabeça para
observá-la se aproxim ar. Seu olho dourado reluziu, e ele parecia bastante
im ponente. A garota sabia que o outro olho, o leitoso, im pedia a ave de
voar a grandes altitudes e se sentia triste pela pobre ave.
— Aqui está você. Foi entregue sã e salva. Eu vou voltar às 15h45 para
pegá-la. Divirta-se com os ratos m ortos. — Scott m eneou a cabeça para
um dos funcionários das gaiolas e foi em bora.
Cam eron se aproxim ou de Keelie com um saco de papel em que
estava escrito "Ariel" com m arcador preto.
— Saudações, Keelie. Ariel j á estava esperando por você. — Ela
entregou para a garota duas luvas de couro grossas.
— Mal posso esperar. — Mentira.
— Cadê o seu pai? Eu precisava falar com ele. — Rugas de preocu-
pação m arcavam seu rosto.
— Está descansando. Não se sentiu bem quando fom os até o shopping
ontem . — A garota colocou as luvas. — Talvez tenha sido o glutam ato
m onossódico no tofu.
— O seu pai foi até o shopping? — Cam eron ficou boquiaberta.
— A-hã. Segundo a Raven, um evento histórico. Eu precisava de
roupas. Só tinha aquelas do show de lam a para vestir. A com panhia aérea perdeu a m inha bagagem , e Knot fez xixi nas m inhas calcinhas e nos m eus
sutiãs. — O com entário sobre o gato fazendo necessidades em sua roupa
íntim a sem pre despertava solidariedade.
— Knot urinou na sua roupa íntim a?
Keelie anuiu.
Cam eron franziu o cenho e balançou a cabeça.
— Conhecendo aquele bichano, ele devia estar dizendo a alguém ou
algo que você pertence a ele. Marcando você com o território dele, com o
dizem . Alguns gatos fazem isso.
A garota fitou a falcoeira totalm ente m uda e chocada. Alguém vinha
lidando com seus sofisticados am igos em plum ados por tem po dem ais.
— Não sou o território dele, de j eito nenhum . Acho que foi um a
m ensagem de ódio: se m anda agora.
Sorrindo, Cam eron com entou:
— Bom , Knot sem pre foi m eio diferente, m esm o para um gato. Espero
que Zeke estej a se sentindo m elhor. Acha que ele topa receber um a visita
am anhã?
— Acho que sim .
A m ulher abriu o saco.
— Então, Keelie, ponha a m ão aqui e pegue a com ida de Ariel.
O couro grosso das luvas fez seus dedos parecerem toscos. Ao m eter a
m ão dentro do saco, ela pegou algo m agro, m as pesado. Aos poucos, tirou
um rato branco m orto de lá. O rabo do bicho estava flá- cido e asqueroso,
porém , felizm ente, ele estava de olhos fechados. Keelie desviou o olhar, receando vom itar o alm oço.
— Noj ento, m as necessário, Keelie. Pode levar para Ariel — disse
Cam eron.
A garota foi até a gaiola. O olho bom do falcão a observava — ou
m elhor, observava o rato.
Um m ontículo de pelo cor de outono correu na direção de Keelie. O
que aquele gato sádico fazia ali? Será que ouvira a conversa das duas sobre
ele? Deixa para lá.
Keelie se concentrou em Ariel. Olhava direto para o falcão à m edida
que se aproxim ava, am aldiçoando m entalm ente Knot por passar se
enroscando em suas pernas. Quando ia abrir a porta da gaiola da ave,
sentiu garras em seu tornozelo e deu um passo atrás, tropeçando no gato.
Ela estendeu a m ão rum o à gaiola de m adeira para atenuar a queda. Ao
fazê-lo, derrubou o rato, que caiu, provocando um baque quando a porta
da gaiola abriu.
O bichano soltou um lam ento sim ilar ao de um a banshee, a m ítica
fada m á irlandesa, quando o roedor caiu em cim a dela. Ariel esticou as
asas um a vez e, em seguida, voou em m ovim entos espirais até as árvores.
Knot se m eteu correndo na floresta, com o se ciente do caos que
causara.
Cam eron gritou para que o gato parasse, m as ele deixou um rastro de
capins oscilantes ao passar.
No ar, Ariel parou com o se tivesse avistado um a nova presa e, então,
desceu a toda velocidade, em perseguição.
Todas as aves com eçaram a grasnar e a agitar as asas contra as barras
das gaiolas. Keelie teve a im pressão de que incentivavam Ariel enquanto
ela perseguia Knot, que fugia correndo. A garota queria correr tam bém .
Seu segundo dia no trabalho, e ela j á perdera o falcão.
Onze
Tinha corrido atrás de Ariel por toda a área do festival. Por sorte,
Cam eron conseguira subornar o falcão com outro rato. Com o havia
sido ideia de Keelie, ela reparara o estrago que fizera — ao m enos
em parte.
Ela parou na frente do Labirinto Mágico. Um grupo de universitários
fortões, que trabalhavam nas barracas nos fins de sem ana, j ogava futebol
no cam inho e na clareira, em am bos os lados. A garota contornou os
j ogadores e o Labirinto Mágico. Um a pequena trilha conduzia à floresta.
Beleza, um atalho. Na certa ia dar na j usta. Com o era estreito, ela
esbarrava nos ram os perfum ados, os dedos roçavam de vez em quando as cascas rígidas das árvores que o ladeavam . Pinheiro, pensou.
Seu cabelo enroscou num galho, o que a fez abaixar para se
desvencilhar. Sua cabeça foi para trás. Keelie estendeu as m ãos tentando
soltar as m echas que estavam em aranhadas em dois galhos. Com eçava a
doer. A garota pegou um deles e sentiu um a textura aveludada. Então a
m ão esquelética, leve com o graveto, segurou seu dedo e o envolveu.
Seria um pássaro? Ela tateou com a outra m ão ao redor, lutando
contra o pânico que fazia seus om bros se contraírem e sua pele pinicar.
Ela tocava em pele ou em penas? Pareciam galhinhos, folhas e m usgo. E
se m overam contra seus dedos perscrutadores.
Keelie gritou e correu, livrando os cabelos à força. Doeu m uito, m as
ela quis se soltar do que quer que fosse aquilo. Parou perto de um a árvore,
sem fôlego, o coração disparado. O que será que fora?
Olhou à sua volta. Estava cercada de árvores em m eio à quietude.
Onde tinha ido parar? Já devia ter chegado à j usta àquela altura. Perdera-
se.
Algo se m oveu em seus cabelos. Ela ficou paralisada. E a coisa foi
descendo pela parte posterior de sua cabeça rum o aos om bros. Receando
se m exer, Keelie olhou para seu lado direito. Gravetos. Virou um pouco o
rosto. Nada m ais que gravetos, unidos por m usgo.
E não só isso. Ela pôde ver m ãozinhas de tom m arrom , rígidas e
brilhantes, e olhos que reluziam em m eio ao m usgo da face. A criaturinha
ergueu um a das m ãos, tocando a m açã do rosto de Keelie.
Não podia ser real, disse a garota a si m esm a. Devia ser um boneco de um dos vendedores, um a m arionete deixada nas árvores de brincadeira. A
criaturinha apontou para a direita, em direção à floresta.
A garota seguiu o dedinho em form a de vareta. Houve um m ovim ento
nos arbustos, na certa de algum anim al.
— Perigo. — A voz assem elhava-se a um sussurro de folhas secas. —
Corra, Keliel.
Bom . A criatura de gravetos sabia seu nom e verdadeiro. Arbustos
m exeram -se a poucos m etros de distância. Ela viu algo averm elhado passar
rápido.
Keelie saiu dali, seguindo a trilha, correndo o m ais depressa que
podia. Em seguida, ouviu vozes. Vozes de pessoas. Tom ou aquela direção e
viu luzes adiante. Então tinha saído da floresta.
Estava na extrem idade de um a clareira. Parou, com o coração ainda
disparado, e olhou por sobre o om bro, m as a criaturinha sum ira. A garota
tinha certeza de que não im aginara nem o pequeno ser de gravetos nem o
vislum bre do barrete verm elho.
Aquilo j á estava passando dos lim ites! Aquele diabinho estava
seguindo Keelie. Ela pensou em Sir Davey , que tinha m ais ou m enos a
m esm a altura. Não vira m uito bem seu agressor, m as sabia que não era
bonzinho.
À sua frente, havia um a construção grande, de um andar, com vigas de
m adeira im ponentes e um grande deque que circundava o am biente e
estava cheio de gente rindo. Ela foi até lá e notou que ficava à m argem de
um lago, no qual havia um a ilha no m eio. Um a ponte de m adeira am pla, m ais abaixo, na orla, levava à ilha, que era grande o bastante para ter várias
construções.
Agora que Keelie saíra da floresta, podia pensar com clareza de novo.
Estava furiosa consigo m esm a por ter corrido, e do quê? De um m onte de
gravetos e de um anão m aníaco com roupas iguais às de um gnom o de
j ardim ? Se aquilo era m agia terrena, ela a dispensava. E o cara
pequenininho batia apenas em sua cintura. Se ele chegasse perto de novo,
a garota lhe m ostraria um feitiço à la Keelie: ela o esm urraria até enterrá-lo
no solo.
As pessoas no deque pareciam arruaceiras, e Keelie hesitou em pedir
inform ações. Então reconheceu dois deles, eram os piratas que tinham
passado de carro depois de pegar seus contracheques outro dia. Ela com
certeza não pediria orientação a eles.
O tocador de tam bor do Condado acenou para a garota.
— E aí, Keelie? Está com fom e?
Um hom em que estava de costas para a grade se virou. Era Scott.
Beleza.
Dois piratas saltaram do deque e foram cam inhando cheios de ginga
até ela. Keelie sentiu desânim o. O capitão Randy era um deles. Tinha de
adm itir que ficavam gatos com aquelas botas longas e cam isas bufantes.
— Mas que gostosura tem os aqui — disse o outro pirata. Cam baleava
um pouco ao cam inhar.
O capitão Randy lançou um olhar cheio de m alícia para a garota, m as
agarrou o braço do colega e colocou o suj eito de frente para ele.
— Ela é m enor de idade. Pode esquecer a ideia, e só lem bre quando a
m enina j á estiver m adura.
Keelie fuzilou-o com os olhos. Valeu, capitão Babaca.
O outro pirata abriu um largo sorriso.
— Para m im , parece ter idade suficiente. — Segurava um a caneca de
cervej a de peltre. —A todas as m ocinhas bonitas — brindou, antes de
tom ar um gole grande e engasgar quando a voz baixa de Scott fez-se ouvir
na clareira.
— Ela é a filha de Heartwood.
A caneca escapou da m ão subitam ente fraca do suj eito. Fez um arco
em câm era lenta, e seu conteúdo derram ou e caiu no j eans de Keelie.
Ótim o. Agora ia ficar fedendo a cervej a.
Os piratas ficaram im óveis e, em seguida, foram se afastando.
A filha de Heartwood. Parecia um a m aldição. Pelo visto, ela estava
condenada a ficar sem nam orado. Cascos ressoaram atrás dela, com o a
cavalaria no Velho Oeste. Quando Keelie se virou, viu cavalos brancos
galopando rum o à clareira, m ontados por cavaleiros com traj es
exuberantes.
Sean. Sean era um deles. E, então, o cavalo de Elia aproxim ou-se dele.
A últim a pessoa que Keelie queria ver, ainda m ais fedendo a cervej a.
A m enina viu que Scott fora ficar a seu lado. A atm osfera cheirava a
bebida, canela e ozônio. Nuvens escuras form aram -se sobre eles,
refletindo seu estado de ânim o.
Ela podia sentir a tensão entre as pessoas do deque e os cavaleiros.
Olhou de esguelha para trás. Alguns dos universitários que atuavam com o
piratas agarravam a grade, com o se esperassem o início da luta.
Sean sorriu para os beberrões.
— Ótim o dia para um a m ontaria. Nós viem os colocar os cavalos nos
abrigos, pois um a tem pestade está vindo por aí.
O olhar de Elia concentrou-se em Keelie, os lábios com prim idos.
— Está a cam inho do Enlodado? Opa, foi m al. Eu quis dizer Condado.
Relam pej ou, e, em seguida, ouviram -se trovoadas. Com eçou a chover.
Keelie ficou ensopada em segundos. Olhou para o próprio corpo, pasm a.
Suas roupas novas estavam encharcadas.
A risada sonora de Elia reverberou no alto. Keelie cerrou os punhos,
pronta para a luta, m as, então, parou. A outra garota estava seca. Em bora
não houvesse sinal de guarda-chuva, os cachinhos dourados continuavam
perfeitos, e o vestido verde longo sem o m enor sinal de pingos-d'água.
Nenhum dos outros cavaleiros tivera essa sorte. Tanto eles quanto os
cavalos estavam ensopados, incluindo Sean.
Os cavaleiros deram a volta e se dirigiram à ponte. Até m esm o de trás,
Elia estava seca. O que diabos acontecia naquele lugar?
Keelie sentiu vontade de m ostrar a língua, m as receou provocar um a
briga. Quando fosse enfrentar Elia, não queria m eter na parada um bando
de caras inocentes. Seriam apenas ela e a bruxinha do Inferno Medieval,
frente a frente. E os cachinhos dourados de alguém iam ser arrancados
pela raiz.
Scott agarrou seu om bro. Antes que pudesse protestar, ele a levou para um cam inho am plo, coberto pela copa das árvores. A trilha que Keelie
j ulgara ter percorrido m ais cedo. Passaram por um estrado longo e baixo,
com um a faixa no alto, anunciando apresentações de esgrim a, e pela
barraca fechada da Aviva, a Cabana do Rebolado. Um a loj a com produtos
para dançarinas do ventre! Ela se lem braria daquele lugar, com certeza.
Talvez pudesse dar um pulo ali com Raven quando o tem po m elhorasse.
Um grito vindo de trás fez com que a garota parasse.
— Ei, Keelie, dá um pulo lá no Condado hoj e à noite. A gente vai fazer
um a roda de tam bor na clareira. Se chover, será dentro da barraca. — O
tocador acenou para ela, e vários piratas do deque fizeram o m esm o,
sorrindo.
Ela retribuiu o sorriso e agitou a m ão livre. Scott puxou o braço dela.
— Pare de ficar flertando. Você está ferrada. Seu pai avisou para não
ficar andando por aí sozinha.
Keelie puxou o braço e se soltou.
— Ah é? Bom , ele encarregou você de m e acom panhar. E onde você
tinha se m etido? Bebendo com os am igos de Jack Sparrow!
Ele em palideceu? Ela esperava até que adoecesse. Difícil dizer com a
água da chuva escorrendo pelo rosto do rapaz.
— Onde você se m eteu? Está cheia de gravetos no cabelo. — Scott
olhava para sua cabeça.
Keelie ergueu a m ão, em pânico, m as os galhinhos em seus cabelos
eram apenas gravetos com um pouco de m usgo. Nada se m oveu.
O rapaz a olhou de um j eito estranho.
— Vam os.
Sentindo que estavam quites, a garota andou rápido para acom panhar
as passadas longas dele, tirando os fragm entos de árvore dos cabelos
m olhados.
Eles passaram por áreas de apresentação e loj as fechadas, e então
Keelie notou a placa que vira no prim eiro dia com a sra. Talbot. Tinha
pegado o lado oposto. Talvez fosse bom com prar um a bússola e aprender a
usá-la.
— O tocador de tam bor, qual é o nom e dele?
— A gente cham a de Peles.
— Puxa, bem na onda atual da ONG Pessoas pelo Tratam ento Ético
dos Anim ais. Peles disse que a roda de tam bor, sej a lá o que for isso, vai
ser na clareira, só que eu passei por ela ontem à noite, e é um lugar
assustador pra caram ba!
— É, o seu pai m e disse que você foi para a ala do Elianard. Fique
longe dele. É pior que a filha. — Scott a olhou de soslaio. — Mas o
Condado é a m aior curtição.
Keelie ignorou o com entário.
— E o cara de gorro verm elho? O que você sabe sobre ele? Trabalha
aqui? O suj eito tem problem as. Problem as do tipo assassino em série. Meu
pai nem m e deixou cham ar a polícia.
O rapaz deixou escapar um suspiro.
— Tem m uita coisa que você não entende sobre o festival. Mas um dia
vai entender. Nunca se cham a a polícia.
— Nunca? Tipo, encontre um cadáver e o enterre na floresta?
— Está planej ando m atar alguém ?
— Só você. — Ela precisava andar rápido para acom panhar as passadas
largas dele. — E o cara de barrete verm elho?
— Conversa com o seu pai a respeito dele. E a clareira não é tão ruim
assim . O que tem de assustador? A adm inistração do festival m antém o
gram ado perto do Condado cortado, e as crianças brincam ali. Fazem
fogueiras ao ar livre e coisas assim , longe das árvores.
— Isso parece m esm o divertido. Mas não sente nada estranho naquela
área?
— Não. Não perto do Condado. Esta tem porada tem sido fora do
norm al. Além do tem po, tem havido roubos e brigas, e Peles disse que tem
um as m ás vibrações por ali.
— Más vibrações, hein? Agora quem está falando com o se fosse da
Califórnia?
— Então, nada de escapadas, está bem ?
— Eu não escapei! Estava com Cam eron nas gaiolas.
— As gaiolas ficam na outra extrem idade da área do festival.
— Eu m e perdi.
Scott fitou-a com ceticism o.
— Me lem bra de não andar na floresta com você.
Ela quase perguntou: "Por quê, está com m edo?" Mas, em vez disso,
ergueu o queixo.
— E quem disse que eu quero andar na floresta com você?
Por que ela fizera essa pergunta? Não queria encoraj á-lo. Sean, sim .
Scott, de j eito nenhum . Mas ele não pareceu notar. Covarde despistado.
Keelie foi andando, pisando na lam a, rum o a Heartwood. O vento
m udara de direção, e esquentara. O que, ao m enos, era um a bênção. Não
precisava ficar encharcada e m orrendo de frio. E tinha roupas secas à sua
espera. Apertou o passo, quase passando Scott.
As luzes estavam acesas na loj a, e o rapaz passou pelos m óveis, agora
protegidos por lona. Keelie subiu, acom panhada dos ruídos típicos de
quem cam inha m olhado.
O apartam ento encontrava-se escuro, m as havia um arom a delicioso
de cebola refogada. Ela ficou surpresa ao ver raios de luz vindos do piso.
Por um instante, supôs se tratar de outra piração do festival, m as então
percebeu que eram apenas as luzes da loj a passando pelas frestas do
assoalho.
Keelie aj oelhou-se no piso de tábuas am plas de m adeira (cedro) e
espiou por um a abertura estreita. Por um instante, as im agens não fizeram
sentido, daí ela se deu conta de que via um a tora de m adeira im ensa, ainda
com casco, am arrada em um cavalete. Zeke e Scott estavam de pé, cada
um num a ponta, exam inando-a.
Um ronronado profundo ecoou perto dela, e a cabeça peluda de Knot
esbarrou em sua bochecha. Keelie ficou im óvel, receando que ele
arranhasse seus olhos.
— Gatinho bonzinho. — O ronronado cessou. — Seu felino m iserável.
— O ruído surdo recom eçou. — Você é m uito esquisito.
Ela se levantou e foi até o banheiro se enxugar. Knot a seguiu,
observando com olhos sem icerrados enquanto a garota tirava a roupa e
arrancava as etiquetas de algum as de suas novas aquisições.
— Onde você estava quando deparei com o duende de barrete
verm elho na floresta?
O gato arregalou os olhos e fitou-a, quase com o se com preendesse
suas palavras.
— E aquela m arionete de gravetos? Os estúdios Henson precisam
aprender essa tecnologia. Parecia m esm o de verdade.
Knot j á não ronronava. Observava Keelie com cuidado. Ela parou de
pentear os cabelos.
— O que foi? Nunca viu um a garota com m usgo no cabelo? E a últim a
m oda nas florestas do Colorado.
Um galhinho caiu da escova e foi parar na pata do gato. Ele o puxou
para m ais perto e cheirou; em seguida, com eçou a ronronar de novo.
Keelie riu ao observar que faltavam pelos em um im enso pedaço na
parte posterior da cabeça dele.
— Deve ter sido Ariel. Bem feito para você!
Já aquecida e seca, ela foi até a cozinha, pretendendo tom ar um a
xícara de chá. Havia um pacote grande na m esa. A garota leu a etiqueta.
Floresta do Pânico, Oregon? Keelie se lem brou do cartão de crédito do pai.
Devia ser fam iliar.
Ela pegou a chaleira na estante e abriu a torneira. Knot sentou em um
de seus pés. Com o outro, a garota o afastou. Ele não se m oveu. O danado m eteu as garras em sua pele.
— Ai!
Então Keelie o em purrou com força. Knot a soltou, deslizando de
barriga para baixo no assoalho. Em seguida, encolheu-se todo, com o um a
bola. Balançou o rabo. Daí ergueu o traseiro, pronto para atacar.
— Vem , seu gato psicótico, que eu enfrento você. — Ela agitou o pé na
direção dele. Knot endireitou-se, sentou-se e a exam inou, subitam ente
calm o, enquanto Keelie enchia a chaleira. A garota tentou ignorá-lo, m as o
bichano continuou a olhar fixam ente para ela, os olhos se transform ando
em esferas grandes e pretas.
Ele se dirigiu, serpenteante, até a cortina do quarto e, então, sentou-
se.
— Nem pense, hein? — avisou a garota, colocando a chaleira no fogo e