A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 2 de 6 · parte 1/3

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A Filha do Pastor das Árvores

legal nem sim pático com ela. Era…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

legal nem sim pático com ela. Era m elhor assim . Keelie Heartwood se

m andaria dali na prim eira oportunidade que tivesse.

— Bom -dia, Keelie. O que posso lhe servir? — A bonequinha de

gengibre sorriu, os olhos pretos com o passas reluzindo no rosto m oreno. A

garota resistiu à tentação de se inclinar e cheirá-la.

— Dois m uffins, por favor. — Carboidratos dem ais, só que depois

daquela m anhã, podia considerá-los um agrado m erecido.

— De que tipo?

— Tem de m irtilo?

— Claro. Mas são para os m undanos. Para nós tenho m uffin de fruta

de unicórnio e sem entes de cristal. Claro que talvez sej am m ais do seu

gosto. — Ela m ostrou um com um a cobertura dourada, cheio de

pedacinhos de frutas verm elhas. —- Frutinhas m ágicas cintilantes. Seu pai

adora esses m uffins.

— Frutinhas m ágicas cintilantes — repetiu Keelie, esperando não estar

ficando surda.

Os olhos da m ulher brilharam .

— Isso m esm o, frutinhas m ágicas cintilantes. Não os faço com m uita

freqüência, pois essas frutas são raras por estas bandas. Acontece que um

dos cavaleiros encontrou um pé cheio delas no prado outro dia e trouxe

um a cesta para m im .

Frutinhas pareciam m ais norm ais que sem entes de cristal. Pelo que

ela sabia, esse m uffin de sem ente de cristal poderia ter pedacinhos de

quartzo. Keelie se lem brou do banguelo do dia anterior. Não restava dúvida. O suj eito podia ter sido vítim a de um bolinho com sem entes de

cristal.

— Está bem . De frutinhas m ágicas cintilantes. Mas, com o é tão

grande, só vou querer um . E um chai.

— Infelizm ente, não tenho esse, m as um de ervas, que com bina m uito

bem com os m uffins. — A sra. Butters pegou um a bandej a de um a pilha e

pôs o bolinho ali, sobre um guardanapinho de papel rendado.

Nada de chai, o chá com leite e especiarias, ali. Claro que não. Keelie

lem brou-se das idas à cafeteria com Laurie e a galera depois da escola.

Chai e café eram suas bebidas favoritas. Aquele lugar era totalm ente

prim itivo.

— Que tal um café, então, bem torrado? — quis saber Keelie.

— Você não está nova dem ais para tom ar café? Acho que Zeke não

aprovaria. — A voz fem inina atrás dela parecia censurá-la.

Keelie virou-se depressa para ver quem falara com ela. Fora a m ãe de

Raven, a m ulher das ervas, que traj ava um a roupa roxa e branca, com

m angas bufantes cheias de bordados de plantas. Suas pulseiras tiniam e

balançavam com seus m ovim entos.

A garota ficou rubra ao olhar para a própria vestim enta descom bi-

nada do show de lam a. E a m ulher exalava um perfum e m aravilhoso,

lem brando algo de um a terra exótica. A m ãe de Keelie nunca usara um .

Achava pouco profissional.

A lem brança de Katherine trouxe a garota de volta à realidade. Quem

era aquela senhora para questionar se ela devia ou não tom ar café? Para falar de seu pai, Zeke, e fingir saber quais regras ele estipulava? A m ãe de

Keelie sem pre a deixara tom ar café. E não era da conta daquela m ulher se

ela tom ava. Sua atitude m aternal irritou a garota.

Talvez estivesse tentando im pressionar m eu pai, pensou Keelie. Se era

esse o caso, fazia um teste para um papel inexistente.

— Acho que sou eu que tenho que decidir — salientou a garota. — Já

sou bem grandinha para escolher m inhas bebidas e com idas.

— Sei que seu pai segue a linha m ais natural possível, com o sua avó —

insistiu a m ulher das ervas com tranqüilidade. — Além disso, hoj e vai ser

um dia quente dem ais para tom ar café.

Em bora Keelie não quisesse que aquela m ulher enxerida a dedurasse,

não desistiu por com pleto. Virou-se para a sra. Butters.

— Tem Coca-Cola?

— Não — respondeu a senhora. — Mas a barraca da coxa de peru vai

abrir daqui a um a hora, e eles vendem refrigerantes lá.

A garota suspirou. Que tipo de lanchonete não os vendia? Aquilo era

levar o tem a m edieval a sério dem ais.

— Está bem , vou tom ar o chá de ervas.

As duas m ulheres sorriram um a para a outra. Keelie desviou os olhos.

Não queria fazer am izade com ninguém que a tratasse feito criança, m as o

sorriso am ável da m ulher das ervas levou-a a ansiar pelo de sua m ãe. Era o

tipo de sorriso que dizia: "Não, não pode contar com isso" de um a form a

carinhosa, m as firm e. E ainda: "Am o você o bastante para dizer não."

Tratava-se desse tipo de sorriso.

Keelie pôde sentir o nó na garganta se form ando, o que ocorria toda

vez que o rosto risonho da m ãe lhe vinha à m ente, pois ela se

conscientizava de que nunca m ais o veria de novo, exceto em fotografias. A

m ãe nunca m ais lhe diria não. A filha se lem brou com clareza da últim a

briga que tiveram . Queria fazer um piercing no um bigo, com o as am igas

Laurie e Ashlee. Keelie acariciou a barriga. Podia fazer isso agora, se

quisesse. Quem a im pediria, a m ulher das ervas? O pai?

Ela aceitou distraída a bandej a com o im enso m uffin de cobertura

dourada e a xícara de chá quente. A m ulher das ervas entregou para a sra.

Butters um a xícara verde igualzinha à que o pai usara m ais cedo, naquela

m anhã.

Keelie levou a bandej a até a m esa m ais distante do deque. Pegou o

m uffin e tocou nos pedaços de frutinhas m ágicas cintilantes. Na certa, um

nom e bonitinho para oxicoco.

A m ulher das ervas sentou-se na cadeira diante de Keelie. A garota

lançou-lhe um olhar furioso e com eçou a partir o m uffin. Mordeu o

bolinho, esfom eada, m as decidida a não devorá-lo na frente daquela

senhora.

— Não fom os apresentadas antes. Sou Janice. Acho que conhece

m inha filha.

— Onde Raven está hoj e?

— Atendendo lá na loj a para que eu possa cuidar de algum as coisas.

— Ela tom ou um gole de chá. — Eu soube quem você era no instante em

que pisou no herbanário. É a cara do seu pai. Ontem você sorriu um pouco.

— Sua loj a tem um cheiro delicioso — com entou Keelie.

— Obrigada. Será bem -vinda sem pre que quiser ir até lá. Ouvi dizer

que suas m alas não chegaram j unto com seu voo ontem . Não é horrível

quando isso acontece?

Keelie colocou o m uffin na bandej a.

— Com certeza, m as o que eu posso fazer? Vou ter que ficar com esta

roupa ridícula, da m esm a form a que vou ter que ficar neste festival idiota.

Janice cruzou os braços.

— Um a droga, né? Ser tirada da escola e separada das pessoas que

conhecia e am ava para, de repente, vir para cá. Eu perdi m inha m ãe

quando tinha dezesseis anos. Ela m orreu de câncer. Acho que foi por isso

que m e dediquei às ervas. Queria curar o m undo; só que nunca m e

esqueci dos dias terríveis no hospital. Nada de escola de m edicina

tradicional para m im .

A intenção de Keelie de ser grosseira passou um pouco.

— É... bom ... só quero as m inhas roupas. — E a m ãe de volta tam bém .

A garota percebeu que estava brava. Brava com a m ãe, que m orrera; com o

pai, que só aparecera na sua vida depois que Katherine partira; com o

m undo, que seguia adiante quando a pessoa m ais im portante da face da

Terra j á não estava m ais lá para dizer não à filha.

— Zeke ficou tão anim ado quando soube que você vinha. Ficou

falando para todo m undo. Mas acham os que era só no m ês que vem . Este

festival está quase term inando, e seu pai achou que você chegaria perto do final.

Janice não desistia. Será que não tinha se dado conta de que Keelie

não estava a fim de conversar? Mas, j á que a m ulher não ia em bora, a

garota pensou em arrancar inform ações dela.

— Então quer dizer que o festival está quase acabando? E o que

acontece depois?

— Alguns dos funcionários são desta região e trabalham aqui para

ganhar um dinheiro extra. Já outros, com o é o caso do seu pai, por

exem plo, fazem parte do circuito. Há Festivais da Renascença por todo o

país em diversas épocas do ano. Vários artesãos e artistas vão participar de

outro após este.

Surpresa, Keelie se perguntou aonde iriam . E a escola? Ela j á recebera

as notas finais, m as e o ano que vem ? Talvez o pai a levasse para a

Califórnia. Quem dera!

— Aonde você vai?

— Para o grande festival no norte do Estado de Nova York. Cham a-se

Festival de Wildewood. Dura três m eses, daí chega o inverno; então,

algum as pessoas vão para o sul, outras para casa, até a prim avera.

Keelie foi com endo o m uffin. Estava delicioso. As frutinhas m ágicas

cintilantes tinham um sabor de m orango com baunilha e se espalhavam sa

boca com gosto reconfortante. Ela tom ou um gole de chá. Caram ba, estava

m uito gostoso tam bém !

— Keelie, vá com calm a com seu pai — disse Janice. Então hesitou e.

em seguida, acrescentou: — Ele ficou arrasado com a m orte de sua m ãe.

O gostôm etro de Keelie baixou para total antipatia. Com o ousava? A

garota se levantou.

— Melhor eu voltar para a loj a. Zeke vai querer saber onde eu estou.

— Ah, claro, com certeza, da m esm a form a que sentira sua falta nos

últim os catorze anos.

Janice apontou para a bandej a.

— Mas você não vai term inar?

— Perdi o apetite. —Agora chegara a hora de Keelie ter um a conversa

com o pai. Além disso, precisava voltar, caso algum a m ala sua aparecesse,

a tem po de im pedir que aquele gato danado aprontasse algo com seus

pertences. — Até m ais — despediu-se, educadam ente, em brulhando o

restante do m uffin, por via das dúvidas.

Janice sorriu com tristeza, com o se tivesse percebido que dissera algo

errado.

Keelie saiu da casa de chá e pegou o cam inho principal, banhado

pelos raios de sol. As árvores ali não eram velhas e gigantescas, m as altas e

delgadas; suas folhas pareciam verdes e suaves em contraste com o céu

azul. Ela nunca estivera tão perto de tantas árvores antes, m as, exceto

aquela m anhã, não tivera quaisquer sensações esquisitas. Afastou o

pensam ento. Fora um a coincidência.

A garota chegou à conclusão de que gostava de árvores. Ergueu a face

na direção do sol, apreciando seu calor nas m açãs do rosto. Lem brou-se de

ter lido algo sobre um a floresta encantada num livro de conto de fadas, um

que tivera por pouco tem po. A m ãe odiava esse tipo de historinhas, e agora Keelie entendia por quê. Katherine sem pre dissera que Zeke vivia num

m undo encantado, o que a filha constatava naquele m om ento. Aquele

lugar era irreal.

Keelie fora criada para se basear na realidade. Seus pés estavam

firm em ente arraigados, com o raízes de um a árvore. Era Keelie Heartwood,

um a adolescente independente, que tom ava as próprias decisões. Quase

todas. Ela tocou na saia, à altura do um bigo. Ia fazer um piercing nele

assim que pudesse. Por que esperar? A m ãe não podia im pedi-la agora.

E, naquele m esm o instante, diria a Zeke que voltaria para a Califórnia

a fim de m orar com a am iga Laurie. Não podia acreditar que ele a queria

ali, que fizera um rebuliço por causa da sua vinda. Na certa ficaria feliz ao

ouvir isso da filha. Ela sabia que tolhia o estilo de vida dele. Ainda estaria

na Califórnia se, no testam ento, a m ãe não o tivesse nom eado tutor em vez

de Elizabeth. De outro m odo, ninguém saberia.

Caso Zeke se negasse a enviá-la, Keelie podia pedir sua em ancipação.

Tinha feito pesquisas com Laurie a respeito disso. Mal podia esperar para

falar com a am iga. Seu celular estava todo suj o de lam a, m as talvez depois

de um a boa lim peza voltasse a funcionar. Caso contrário, usaria o telefone

de Zeke e depois lhe pagaria a ligação.

A lam a fazia ruído a cada passada que Keelie dava. Pelo m enos não

estava chovendo forte, com o ontem , e ela usava um a roupa íntim a lim pa.

A situação quase m elhorara. Ela passou pelo herbanário e sentiu o arom a

silvestre vindo de lá. Hesitou. Queria entrar e dar um a olhada. Estava

louca para tocar em algum as daquelas ervas expostas em vasos. Queria esm agá-las entre os dedos e sentir sua fragrância.

— Quer entrar e dar um a olhada? — A m ulher gorducha, de cabelos

eriçados da barraca ao lado, achava-se à porta, segurando m ais um a

daquelas canecas parecidas com a de Zeke.

— Não, obrigada. Só estou sentindo o ar fresco. Lá em Los Angeles é

bem diferente.

— Foi o que ouvi dizer. — A gorducha sorriu. — Sou Ellen, a

ceram ista. — Ergueu a caneca. — Eu que faço estas.

— Ah. Todo m undo tem um a. Achei que possuir um a significava algo.

— Quer dizer, um a espécie de sím bolo? — Ela riu. — O único sig-

nificado é que convenci as pessoas a com prá-las.

Keelie riu. Gostou dela.

Janice vinha chegando, equilibrando com cuidado um a caneca

rum egante. A saia longa esvoaçava com suavidade ao redor.

— Oi de novo, Keelie. Vej o que j á conheceu Ellen. — A m ulher das

ervas sorriu. — Deixe a garota escolher um a caneca. Será um presente

m eu. Um pedido de desculpas. Não deveria ter falado com você daquele

j eito.

Keelie ficou surpresa. O ponteiro do gostôm etro subiu com firm eza.

Um pedido de desculpa? Estava sendo tratada com o adulta.

— Obrigada.

— Ótim o! Entre, m enina, e escolha um a. — Ellen desapareceu na

loj inha com toldo.

Assim que Keelie entrou, espirrou. Cheirava a barro, um arom a de sala de arte de que ela sem pre gostara. Prateleiras de vidro ladeavam as

j anelas da dim inuta loj a, cheias de vasos, canecas e estatuetas engraçadas,

de dragões.

— Tenho um a que acho que vai adorar — disse a ceram ista. Em

seguida, pegou um a caneca verde na estante. Não era a m aior, m as tinha o

desenho de um a folha na lateral. Ela o entregou a Keelie.

— Olhe dentro.

A garota pegou a caneca. Teve a sensação de que pertencia a ela.

Inclinou-a para olhar a parte interna e sorriu. No fundo da xícara, havia

um rosto de nariz adunco em alto relevo. A criatura de nariz adunco

piscava para ela.

— Que legal! Eu vou ver esse hom enzinho sem pre que term inar o m eu

café, ou sej a lá qual for a bebida de ervas que m e deixarem tom ar.

— E essa a ideia— salientou Ellen, ignorando a observação sarcástica

sobre o chá. — Só lave sem pre à m ão. Não que vá encontrar algum a

m áquina de lavar louça por estas bandas.

Keelie riu.

— Im agino! — Ergueu a caneca à altura dos olhos e observou a folha

m ais de perto. — Um a folha de carvalho. Am ei. É perfeita.

— Fico feliz em saber disso. — Ellen se virou de repente, distraída.

— Ah, m eu forno está quase na tem peratura certa. Com licença,

Keelie, tenho que trabalhar agora.

— Claro. — Ela acabou não se oferecendo para aj udar. Até que seria

divertido pôr as m ãos na m assa e criar obj etos. Keelie tocou no m inidragão que segurava um cristal. Tinha m ais era que se divertir um pouco no curto

período em que estivesse ali. Havia um m onte de loj as enigm áticas

naquele lugar. E fazer com pras era fazer com pras.

Janice a esperava do lado de fora do herbanário. Havia um a m ulher

dentro da loj a, e um casal de short cam inhava em sua direção. Hora dos

turistas.

Mundanos, lem brou Keelie. Janice estava bonita com o vestido roxo.

Talvez, se a garota ficasse m ais ali, podia pedir que a m ãe de Raven a

aj udasse a conseguir um a fantasia m elhor. Ela m esm a se repreendeu. Ei,

Keelie? Caia na real! Ficar ali na Bizarrolândia?

— Você escolheu um a bonita? — quis saber Janice, sorrindo ao ver a

caneca verde na m ão da j ovem .

— Escolhi, obrigada. — A garota ergueu a caneca para que a outra

pudesse vê-la.

— Um a folha de carvalho — com entou a m ulher das ervas, notando a

figura dentro. — Por que escolheu essa?

Keelie deu de om bros.

— Adoro folhas e árvores. — Aquilo era novidade. As árvores sem pre

lhe pareceram repulsivas.

— Você é m esm o filha do seu pai — salientou Janice. Em seguida,

ficou séria. — E sinto m uito m esm o ter dito o que disse, Keelie. Não era

da m inha conta.

A garota encolheu os om bros de novo. Ficou sem saber o que dizer.

— Você está planej ando voltar para Los Angeles? — perguntou a m ulher das ervas.

— Assim que puder. Um a am iga da m inha m ãe está disposta a ser

m inha tutora, se Zeke concordar, e tenho certeza de que é o que ele vai

fazer. Assim que ela ligar para ver com o estou hoj e, vam os levar o plano

adiante. Todo m undo tem sido m uito legal com igo... — Recordou-se de

Knot e Elia, a aspirante a princesa de nariz em pinado. — Quer dizer,

quase todo m undo. Mas este lugar não é para m im .

Janice franziu o cenho.

— Tem certeza de que deu um a oportunidade ao festival e ao seu pai,

Keelie? Se ficar, pode descobrir aspectos a seu respeito que nunca

im aginaria possíveis.

A garota sentiu um calafrio percorrer o corpo. Não podia dizer a Janice

que estava se esquecendo do tom de voz de Katherine, que, se m orasse

com Laurie e Elizabeth em Los Angeles, conseguiria m anter a m ãe j unto

de si por m ais tem po.

— Ah, bom , acontece que eu gostava da m inha vida em Los Angeles.

Se Zeke quiser m e conhecer, então pode ir m orar com igo lá.

Um a expressão estranha perpassou o rosto de Janice.

— Ele queria ir ver você, m as tem que viver entre as árvores.

Aquela m ulher devia ter fum ado algum as das ervas dela, pensou

Keelie.

— Ah, está bem . A gente se vê por aí.

Apesar de sua vontade de conhecer m elhor a loj a, ia se m anter

afastada. Janice estava passando dos lim ites, e a m ãe de Keelie tinha razão: nunca quis que a filha explorasse plantas, árvores e propriedades

fitoterápicas porque receava que isso interferisse em sua educação. A

garota sorriu, lem brando-se de que a m ãe nunca aprovara seu trabalho

voluntário no hospital com a avó Jo, m as que as duas iam até lá de

qualquer j eito. Ele poderia brincar com ervas depois do colégio e da

faculdade de direito.

Keelie se afastou depressa do herbanário, com o se até sua vontade de

entrar ali contam inasse os sonhos que a m ãe tivera para ela. Mais adiante,

na colina, a loj a de espadas estava aberta, e ela ficou olhando as diversas

variedades, todas de verdade, penduradas do lado de fora, atadas à barra

de exposição. Sean estivera com um a delas. Não era perigoso todos

andarem arm ados?

Outra loj a, tam bém naquela trilha, cham ou sua atenção, e Keelie foi

depressa até ela. A Horda de Dragões tinha um a placa pendurada com

correntes em que se lia "Pedras e Cristais".

Talvez ela encontrasse m ais quartzos rosa.

A loj a parecia m ais antiga que algum as das outras construções.

Colunas talhadas apoiavam o pequeno telhado acim a da porta da frente:

dois dragões retorcendo-se rum o às telhas de ardósia. Ela vira esse m aterial

em j ardins antes, m as nunca num telhado. O interior era fresco e escuro

com o um a caverna. Em vasilhas de pedra esculpidas e cestas, havia

bij uterias e pedras de todos os tipos.

Alguém de voz profunda perguntou a Keelie:

— Posso aj udá-la?

Ela procurou o dono da voz, m as não o encontrou. Então, um hom em

pequeno saiu detrás do balcão. Tinha um bigode enrolado nas pontas e

vestia-se com o um valentão de um film e antigo de Holly wood, um

dim inuto m osqueteiro.

Ele tirou o chapéu com pena extravagante e fez um a reverência

exagerada. A pena continuou a balançar por m uito tem po depois de ele ter

term inado.

— Tenho o prazer hoj e de conhecer um a nova participante do show de

lam a?

— De j eito nenhum ! — respondeu Keelie, com m au hum or. Não

agüentava m ais ouvir aquela história daquele show. — Sou Keelie

Heartwood.

— Ah! — exclam ou o hom enzinho, retorcendo as pontas do bigode.

— Já devia ter adivinhado. Acho que preciso de m ais café. — Ele se

dirigiu aos fundos da loj a. — Um a infusão diabólica. Quer um pouco?

Keelie ficou surpresa. Ele lhe oferecia café sem dizer que o pai

desaprovaria. Algo inédito para ela ali naquela Colônia de Perdedores.

— Quero, sim , obrigada. Tom o com um pouco de crem e se tiver.

— Claro que tenho. Açúcar? Não? Ah, bom , você com certeza j á é

doce o bastante.

Ela enrubesceu, com o se ele fosse um cavaleiro fascinante. O que

faltava em altura ao hom enzinho ele com pensava em dose tripla com o

charm e.

O suj eito pegou sua nova caneca verde e a encheu com um a delicada garrafa térm ica de prata, com o interior em vidro azul-cobalto. Em seguida,

acrescentou o crem e com um a garrafinha sim ilar, entregou-lhe a caneca e

fez um gesto em direção a dois bancos com assento de couro.

Ela se sentou e, então, sorveu a bebida. O café estava forte e perfu-

m ado.

O hom ezinho gesticulou com a m ão.

— Já eu gosto do café bem doce, m as sem crem e. A propósito, m eu

nom e é David Morgan. Meus am igos m e cham am de Davey . Sir Davey ,

aqui.

— Com o vai, Sir Davey ? — disse Keelie, solenem ente. Ele a tratava

com o um a adulta, com respeito, e ela achava que devia retribuir a gen-

tileza.

— Vou bem , Lady Keelie. — Ele estava sentado no banco à frente

dela. Um gole, um a revirada de olhos e Sir Davey a exam inou. — Ah,

m inha querida. Não se im porta se eu a cham ar de m inha querida, não é

m esm o? Sou m ais velho do que pareço. Praticam ente ancião.

— Não m e im porto — respondeu a garota, sorrindo. Os m úsculos de

seu rosto rangeram de tão desacostum ados que estavam com o riso.

— Ótim o. Vi o que aconteceu na j usta esta m anhã. Gato levado,

aquele Knot. Um a cena e tanto com o cavalo de batalha de Sir Oscar. Ele

teve m uita sorte.

— Aquele gato m aluco quase foi esm agado — acrescentou Keelie,

passando o quartzo rosa por entre os dedos da m ão esquerda.

— Sim , com certeza. Mas não espero que ele lhe agradeça por tê-lo salvado.

Ela abaixou de supetão a caneca.

— Hein? Eu?

Sir Davey acariciou o bigode.

— Vi o que vi, m inha querida. Então m e conte, há quanto tem po vem

praticando m agia terrena?

Seis

com força o quartzo rosa. O que ele vira? Ela não fizera nada

especial. — Um procedim ento m ágico? Com o o que David Copperfield

faz? Acho que o senhor se enganou. E eu tam bém , pelo visto.

Ele pareceu surpreso.

— Em que sentido?

— Bom , achei que o senhor fosse norm al. Mas vej o que é igual aos

outros naturebas daqui.

— Naturebas?

— Isso, naturebas pirados, que curtem o estilo de vida alternativo. Obrigada pelo café, m as tenho que ir.

Sir Davey ergueu a m ão, m as Keelie vira o sorriso. Quer dizer que

tam bém achava que era engraçada? Bom , ha-ha-ha para ele. Ela ia se

m andar dali.

Ele não tentou im pedir quando Keelie com eçou a se dirigir para a

saída da loj a. Quando ela estava prestes a pisar no lado de fora, o

hom enzinho gritou: Cuidado!

Sir Davey agarrou seu braço antes que ela o fizesse. A garota tentou se

desvencilhar, m as ele a segurou com m ais força

Keelie cerrou o punho e posicionou o braço atrás. Se aquele cara

baixinho não a soltasse, ia lhe dar um m urro naquele im enso nariz adunco.

O estrondo retum bante de cascos de cavalos ressoou vindo da curva

no cam inho. Ela deu um passo atrás, saindo da trilha e ficando sob o

portal. O aperto do anão relaxou, e ela então puxou a m ão com força.

Cavaleiros de arm adura passaram galopando em corcéis m aravilhosos,

o ruído dos cascos de suas m ontarias entrem eado pelo som m etálico de

aço batendo contra aço, conform e suas arm aduras chocalhavam . Algum as

dessas vestim entas reluziam feito prata, outras se m ostravam opacas ou

arranhadas, com o panelas areadas com freqüência. Um cavaleiro de preto

e dourado carregava um estandarte verde ornado com um leão prateado.

Keelie prendeu a respiração, im pressionada com o incrível poder daqueles

cavalos e cavaleiros.

Por alguns instantes, ela se dispôs a deixar a realidade e fingir que

estava em Cam elot, aguardando seu Cavaleiro da Távola Redonda voltar de sua busca.

Observou o últim o hom em cavalgar atrás dos outros. Assim que ele

passou à porta da loj a, seu cavalo salpicou lam a em Keelie e no anão. Ela

tentou tirar as gotículas geladas de lodo dos braços e suspirou. Pelo visto

estava destinada a ficar cheia de lodo durante todo o tem po que passasse

ali.

Sir Davey tirou o chapéu e fitou-o com tristeza. Ficara cheio de

fragm entos de lam a e terra. Felizm ente, a pena não fora atingida.

— Malditos desordeiros presunçosos, pondo as pessoas em perigo ao

galopar por aí desse j eito.

Um dos cavaleiros deu a volta e regressou, dim inuindo a velocidade do

cavalo. Então parou bem na frente de Keelie. Quando ele tirou o capacete,

ela sentiu um aperto no coração. Sean. Ela não reconhecera sua arm adura,

com a capa preta e verde.

O rapaz inclinou a cabeça para a direita, sorrindo para a garota. Seu

cabelo escorregou da orelha, e Keelie notou que era pontuda, com o a dos

elfos de O senhor aos anéis. Será que usava um a prótese com o parte do

show?

A garota sentiu a ponta angulosa de sua orelha direita. Sem pre a

m antivera escondida, m as, ali, parecia ser um defeito congênito bem -

vindo.

— Gosto do seu cabelo cacheado, Keelie. — Os olhos verdes dele

m ostravam -se tão escuros quanto sem pre-vivas.

Keelie ficou parada feito um a boba, incapaz de pronunciar um a só palavra. Será que ele notara?

Sir Davey saiu da loj a em punhando um florete na direção de Sean.

— Vá em bora, escudeiro. Ela não serve para gente da sua laia.

A garota sentiu um calor percorrer seu corpo até a nuca. Queria que o

chão se abrisse e a engolisse.

— Sir Davey , por favor. — Keelie olhou de relance para Sean. Ele

sem icerrou os olhos ao fitar o pequeno m osqueteiro.

— E a senhorita designou o senhor com o protetor dela? — quis saber

Sean.

— Não, m as Zekeliel Heartwood, o pai, não ia querer ver a filha com

gente do seu tipo.

Ela teve vontade de golpear a cabeça de Sir Davey para que ele calasse

a boca. Aproxim ou-se do cavalo de Sean.

— Na verdade, não conheço esse senhor m uito bem . A gente acabou

de se encontrar. Ele não fala em m eu nom e.

O sorriso estonteante do rapaz ressaltou as covinhas do lado esquerdo

de seu rosto. Keelie desej ou que ele estendesse a m ão para colocá-la no

cavalo e, em seguida, saísse galopando com ela. Seria tão rom ântico! Em

vez disso, Sean colocou o capacete na cabeça e ergueu a viseira.

— Talvez haj a m ais de m im e de gente com o eu em Keelie do que Zeke

Heartwood queira adm itir, Sir Jadwy n — salientou Sean.

Keelie olhou para o anão e para o rapaz.

— Com licença, m as, caso vocês dois tenham se esquecido, estou bem

aqui, parada. E achei que o seu nom e fosse Davey .

O hom enzinho deu de om bros.

— Eu disse que m e cham avam de Davey . Jadwy n é outro nom e.

Ela olhou para Sean.

— Com o assim "talvez haj a m ais de você e de sua gente em m im "? De

j eito nenhum , Sean. Eu gosto de cavalos, m as isso não significa que vou

com eçar a participar das j ustas.

Um hom em m ontado num belo cavalo branco parou ao lado do rapaz.

— Lorde Sean, a rainha requer sua presença na pista.

O j ovem sorriu para Keelie e piscou o olho.

— Espero que tenha um ótim o dia, Keelie Heartwood. — Ele fez o

cavalo dar a volta e seguiu os outros cavaleiros.

Em bora o rapaz não tivesse respondido à sua pergunta e, obviam ente,

não houvesse sido sim pático com o carrancudo Sir Jadwy n, o coração de

Keelie bateu acelerado porque ele dissera que ela era com o o povo dele,

apesar de sua roupa lam acenta e do cabelo curto e encara- colado. Até

piscara para ela.

— Lady Keelie, fique longe dele. Pode parecer j ovem , m as é m ais velho

em m ais aspectos do que você im agina. Melhor voltar para o seu pai.

Sir Davey sim plesm ente não tinha cara de Jadwy n.

Keelie o ouvira, porém fingira não tê-lo ouvido. Aquele lugar estava

cheio de gente que achava que ela precisava de cuidados m aternos. A

única pessoa que se encaixava naquela tarefa j á não estava m ais ali.

A garota não desgrudou os olhos da im agem cada vez m ais longínqua

de Sean. Será que era realm ente com o Keelie? Parecia ter dezessete anos. Mas Sir Davey afirm ara que o rapaz tinha m ais do que aparentava. Teria

vinte? Nesse caso, só três anos m ais velho. Não tão m aduro quanto o

capitão Randy . Keelie im aginou a reação das am igas na Escola Bay wood

quando se j untassem diante do arm ário dela para ouvir tudo sobre seu

nam orado, o ator e dublê de vinte anos.

Ela voltou ao balcão, pegou a caneca e tom ou outro gole, apreciando a

bebida.

— Obrigada de novo pelo café delicioso.

Sir Davey arqueou a sobrancelha cinza, ainda tirando os restos de

lam a do chapéu.

— Vá direto para a loj a do seu pai, sem ficar conversando nem se

m isturando com estranhos.

— Então não posso falar com ninguém , posso? Todo m undo é estranho

por aqui. — Com um aceno ligeiro e bem -hum orado, Keelie saiu da loj a

levando a caneca.

— Vam os tratar daquele outro assunto em outra ocasião — gritou o

hom enzinho.

Aquele outro assunto? Magia terrena. Ela se lem brou de que Janice

lhe dissera que, se ficasse, descobriria aspectos a respeito de si m esm a que

teria achado im possíveis antes.

Não se pudesse evitar. Pensou sem parar na palavra "direito", até todo

o pensam ento relacionado à m agia sair de sua cabeça. Ainda bem que

evitara aqueles m uffins de sem ente de cristal.

Apesar de estar a cam inho da loj a do pai, Keelie ainda podia conhecer um pouco m ais a área. Ficou im aginando se havia um lugar ali em que

pudesse fazer o piercing no um bigo. Será que Raven tinha um ?

Ela viu ao longe a barraca de bij uterias onde com prara o quartzo e foi

depressa até lá. Não conseguira ver nada direito, com a sra. Talbot

apressando-a com o um cachorro galés enlouquecido com um a ovelha

teim osa.

Em bora não houvesse piercings para o um bigo, num expositor de

veludo cintilou um pequeno colar de prata. Na corrente havia um pin-

gente de fada. Keelie tocou-o, im pressionada com as asinhas.

Um a m ulher traj ando um a roupa bem -elaborada de Renascença, com

corpete alto e apertado, e m angas enorm es e que se arrastavam no chão

exatam ente com o seu nariz im enso, foi até a garota e disse, em m eio às

rugas de sharpei:

— Por favor, não toque na m ercadoria, a m enos que tenha intenção de

com prá-la, garotinha.

Keelie observou-a de perto. Sob o vestido enorm e havia seios im ensos.

Era Tania, atuando com o a Rainha Má em vez de Contrabandista de

Melões. A garota deixou o colar escorregar em sua m ão e cair no expositor.

Garotinha? Hum ilhada, ela teve vontade de sair correndo, m as decidiu

que se retiraria cam inhando, de cabeça erguida.

Quando deu a volta, quase esbarrou em Elia, a Princesa Melhor- do-

Que-Você, que em pinou o nariz petulante ao fitar Keelie. Ela carregava

um a harpa naquele dia e segurou o instrum ento com força, com o se o

contato com a m enina de Los Angeles fosse contam iná-lo.

Os lábios perfeitos e rosados de Elia se curvaram ironicam ente.

— O que aconteceu com o seu cabelo? Você cortou?

Tania riu.

Keelie não se deu o trabalho de explicar que só parecia m ais curto por

estar enrolado. Teria sido perda de tem po. Cachinhos Dourados não tinha

sentim entos hum anos. A garota de Los Angeles deu um passo ao lado e

seguiu em frente.

Elia a seguiu.

— Ei, eu estou falando com você, garota californiana. Quem cortou o

seu cabelo? Quero saber para avisar m inhas am igas para não irem lá! —

exclam ou, rindo.

Continue andando, pensou Keelie. Não se m eta com ela. Não há

cérebro sob aqueles cabelos dourados.

Mas Keelie fervilhou de raiva. Segurou com força a caneca. Queria

dar um soco no nariz da Miss Perfeição.

Ficou surpresa ao continuar ouvindo os passos da m enina atrás dela.

Não lhe daria a satisfação de olhar. Elia passou os dedos pelos cordões da

harpa, e um a m úsica suave encheu o am biente. Com eçou a cantar em

ritm o anim ado:

Era um a vez um a m enina de corte de cabelo rente

Que m ais parecia ovelha, não filha de gente

Quem podia culpá-la pelo ar deprim ente?

Um grupo de espectadores, incluindo o hom em de perna de pau que

Keelie vira ao chegar no dia anterior, aglom erou-se para ver aquela apresentação. Elia dedilhou as cordas de novo e sorriu para as pessoas

com o se fosse um anj inho inocente. Então, continuou a cantar:

Suas roupas estavam suj as, cobertas de lam a,

Digna de riso para m uitos, que visão era a dam a.

— Não estou nem aí para isso, Lady Panaca — sussurrou Keelie.

Fechando os olhos, tentou evocar o poder m om entâneo que sentira

antes. Im aginou as cordas da harpa se partindo. Sentiu as árvores ao seu

redor, com o se se agrupassem para protegê-la. Aquilo era bem diferente

das sensações claustrofóbicas que a assolaram no passado. Podia perceber

a afabilidade delas, com o se dissessem "vam os protegê-la".

Um a brisa acariciou o rosto de Keelie, reconfortante, com o os m obiles

m usicais do apartam ento do seu pai, e ela abriu os olhos, surpresa.

O vento delicado soprou pela filha de Zeke, deixando um arom a de

pinheiro e folhagem , que se aferrou a ela com o incenso. Os pinheiros

altos, que cresciam atrás da barraca de bij uterias, com eçaram a balançar.

Um vestido dourado da Renascença, pendurado ali perto, com eçou a

oscilar ao vento com o um a bailarina saltitante. Diversos silvos surgiram na

área, e Elia pôs-se a gritar.

Keelie a olhou com um m isto de pavor e satisfação. As cordas da

harpa de Cachinhos Dourados arrebentaram ao vento, com o os fios

sedosos de um a teia de aranha.

A extrem idade pontuda da orelha de Elia apareceu quando ela

inclinou a cabeça sobre a harpa. Igual à de Sean. Um a m oda do festival ou

eram todos parentes?

Elia olhou para Keelie, os olhos verdes brilhando de ódio. Algo m ais

escuro perpassou por trás de sua cor intensa e se espalhou, circundando

suas íris de preto.

Uau. A garota de Los Angeles afastou-se da m enina de olhos

assustadores.

— Você fez isso. Eu não sei com o, m as, de algum a form a, fez isso —

gritou Cachinhos Dourados, agitando a harpa nos braços.

Mais e m ais pessoas se j untaram em torno da m enina, que estava aos

prantos. Tania uniu-se à m ultidão e olhou zangada para Keelie.

— O que você fez com ela?

— Eu não fiz nada. Estava parada aqui. Não toquei na harpa dela. —

Não tocara, m as desej ara o ocorrido. Seria aquilo a m agia terrena de que

Sir Davey falara? O gato e, agora, a harpa? Ia m uito além do que tia fizera

na Califórnia.

Elia contem plou os presentes com olhos m arej ados.

— Não poderei tocar hoj e, porque não só as cordas da m inha oarpa

partiram com o tam bém m eu coração.

Mas que dram ática!

Keelie com eçou a se afastar, m as a m ão de alguém apertou seu om bro.

A j oalheira de fantasia elegante m anteve-a no lugar.

— Não se m ova — ordenou Tania. Em seguida, olhou para os

m undanos ali reunidos, puxou Keelie até a parte de trás de sua barraca e

sacudiu seus om bros. — Já causou problem as suficientes, garota. Vocês,

gente do show de lam a, precisam se m anter no próprio canto. Se eu a vir por aqui de novo, vou cham ar a segurança.

— Eu não fiz nada — insistiu Keelie, livrando-se das garras da m ulher.

Então olhou furiosa para Tania, que tam bém a fuzilou com os olhos e

pegou-a de novo.

— Vai. Vai em bora da m inha loj a — vociferou a j oalheira. A m ulher se

virou para fitar Elia, ainda chorando no cam inho. Então cuspiu no chão e

esfregou a saliva com a ponta do sapato. Murm urou algo por entre os

dentes.

Por sobre os om bros da m ulher, Keelie viu Elia se virar devagar, com o

se farej asse algo no ar. Achou que Cachinhos Dourados a procurava, m as a

m enina fixou os olhos na j oalheira.

Tania ficou boquiaberta.

Elia deu um passo na direção da vendedora de bij uterias.

— Acha que suas m aldições insignificantes podem m e fazer m al?

A m ulher deu um passo atrás, pálida. Realm ente pareceu ter ficado

apavorada. Keelie ficou indignada. Aquele devia ter sido um show feito

para os m undanos. Ela gostaria que a tivessem inform ado. Aquela era a

lição a ser lem brada. Tudo ali era falso.

Sean apareceu cam inhando, seguido por alguns dos cavaleiros que

Keelie vira m ais cedo. Elia correu até ele, as cordas da harpa esvoaçando

atrás de seu instrum ento m usical arruinado. O rapaz a abraçou, m as ficou

olhando para Keelie. Cachinhos Dourados apontou para a j ovem

californiana e, em seguida, com eçou a chorar.

Keelie afastou-se. Elia ergueu a cabeça, que apoiara no om bro de Sean, e sorriu com m alícia para a inim iga. Com o a outra suspeitava, as

lágrim as eram fingidas.

A garota californiana ficou confusa. Será que havia algo real ali? Foi

abrindo cam inho pela m ultidão cada vez m aior e, assim que se viu fora do

aglom erado de pessoas, com eçou a correr, sem prestar atenção aonde ia.

Daquele j eito acabaria entrando para a equipe de corrida de longa

distância na Califórnia.

Quando com eçou a sentir pontadas na lateral do corpo, parou. Teve

de respirar fundo diversas vezes para se acalm ar. Chegara perto das torres

de entrada. Um a fam ília pagou a entrada e passou pelos portões. O pai

cam inhava com dois garotinhos e, atrás deles, a m ãe em purrava um a

m enininha num carrinho. Pareciam tão norm ais.

Keelie teve vontade de gritar: "Deem a volta, não entrem . Este lugar

não é para gente norm al."

Observou enquanto os dois m eninos, com capas de chuva e espadas

de m adeira, bradaram : "Hurra!" O vento fez os cabelos deles esvoa- çarem

para trás, e os garotos gritaram em m eio à corrente de ar. O pai se virou

para apressá-los.

— Vai com eçar a chover, crianças. Vam os sair da lam a. — Acim a

deles, o céu escurecera de novo, e o ar trouxera o cheiro de ozônio. — Que

verão m ais esquisito, hein, m eninos?

Keelie se virou, enquanto os garotinhos protestavam dizendo que a

lam a era divertida. Era doloroso observar um a fam ília feliz. Será que um

dia ela fora com o a m enininha no carrinho? Katherine e Zeke teriam sido felizes j untos? Seu pai, que não podia m orar longe da floresta? Pai. Ele não

era um para ela. Só podia ser considerado assim com o denom inação, pois

estava quinze anos atrasado para ser seu pai.

Ela deu um a olhada na entrada e ficou im óvel. Mal pôde acreditar no

que viu. Será que era m esm o? Não, não podia ser. Mas era. Um a

engenhoca anacrônica naquele festival feudal — um telefone público

instalado num a cerca de m adeira entre a saída e os banheiros.

Keelie m eteu a m ão no bolso e encontrou o troco que a senhora da

casa de chá lhe dera. Tirou-o: um a m oeda de cinco centavos, duas de vinte

e cinco, quatro centavos e seis notas de um dólar.

Ela não vira as propagandas de ligações a cobrar na TV? Telefonaria

para Elizabeth, que com certeza tom aria providências de im ediato para

que Keelie voltasse para casa assim que a garota lhe contasse as condições

terríveis que vinha enfrentando ali.

Dois hom ens com coletes de couro, cam isas de m usselina branca e

calças de tecido passaram depressa por Keelie, rum o à saída.

— Se ela sair voando daqui, nunca vam os conseguir pegá-la —

com entou um dos hom ens. — Vai m orrer lá fora.

— E verdade. Vam os ter que avisar a adm inistração. Nunca vi um ser

tão obstinado quanto ela.

Keelie ficou se perguntando de que se tratava aquilo, m as não era da

sua conta. Estava a cam inho de casa. Tirou o fone do gancho. Parou ao

ouvir um a harpa ali perto. Será que Elia a seguira? Olhou ao redor, m as

não havia nenhum a bruxa de cabelos dourados naquela área. Assim que o som cessou, ela ouviu o sinal de linha e discou um dos núm eros para fazer

cham adas a cobrar de que se lem brava. Um a telefonista atendeu.

— Para quem gostaria de fazer um a cham ada a cobrar?

— Laurie Abernathy , em Los Angeles, na Califórnia. Aqui é Keelie

Heartwood.

Ela deu o núm ero da am iga à telefonista. Com eçou a trovej ar no alto,

enquanto o telefone tocava. O coração da garota batia acelerado no peito

e, no outro lado da linha, um a voz fam iliar disse:

— Alô?

A telefonista perguntou:

—A senhorita aceita um a cham ada a cobrar de Keelie Heartwood?

— Aceito!

A voz de Laurie equivaleu a um raio de sol quente depois de um dia

chuvoso. Equivaleu a casa, a escola, a ouvir CDs novos perto da piscina.

Keelie teve vontade de se transform ar em fragm entos m icroscópicos de si

m esm a e viaj ar pelo fio do telefone e pela rede de fibra óptica até a am iga.

Um a som bra escura adej ou sobre ela. Keelie olhou para o céu para ver

o que era — e gritou quando garras afiadas rum aram para seus olhos.

Sete

Ela ouviu a voz de Laurie, bem baixinho, em cim a. Ela se j ogara

e rolara no chão, com os braços na cabeça. Um grasnido alto

ressoou sobre Keelie, que se encolheu conform e algo roçou

suas costas.

De olhos fechados, im aginou as garras estendidas com o poderosas

ceifadeiras, prontas para estraçalhar seu rosto. Ela dobrou ainda m ais as

pernas e protegeu a face com os braços. Um falcão. Im enso.

Os m úsculos de Keelie congelaram ante o grasnido assustador e o

bater das asas. O fone e o fio balançavam em algum lugar acim a de sua cabeça, e a voz de Laurie foi substituída pela voz m onótona de um a

m ulher.

— Se desej a fazer um a ligação, queira desligar e tentar novam ente.

Keelie fechou os olhos com força e cobriu a cabeça. Todos aqueles

anos de treinos contra terrem otos na escola finalm ente foram úteis.

Aguçou o ouvido em busca dos m ovim entos da ave; em vez deles, ouviu

apenas os bipes irritantes do telefone. Então virou a cabeça e espiou por

entre os dedos. Nuvens escuras, em torvelinho, m as nenhum outro

m ovim ento. Keelie m oveu o braço com cautela. Não havia falcão pairando

sobre ela, esperando para destroçá-la.

Continuar: parte 2 de 3