A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers · Capítulo 1 de 6 · parte 1/3

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A Filha do Pastor das Árvores

Gillian Summers

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Gillian

Sum m ers

Com a m orte da m ãe,

, um a j ovem de apenas

quinze anos, é forçada a deixar sua adorada Califórnia para viver com

o pai nôm ade no Festival da Renascença de Montanha Alta, no

Colorado. Lá, coisas estranhas com eçam a acontecer — estranhas

m as fam iliares. Keelie percebe que algum as pessoas do festival têm

orelhas pontudas, incluindo o cavaleiro m ais bonito do lugar, Lorde

Sean do Bosque. Quando ela com eça a ver seres estranhos e a se

com unicar com árvores, descobre que existe um segredo a seu

respeito e percebe que seu pai lhe deve explicações.

GILLIAN SUMMERS

Muito obrigada a Maureen e Nancy por seu entusiasm o e sabedoria; à

equipe de pesquisa do Festival da Renascença — Shannon, Christina,

Graham e Jack —, que teve de aguentar coxas de peru, torneios,

queim aduras de sol e vários beij os de donzelas; a Sum m er pela avaliação

cuidadosa; aos m eus editores m aravilhosos Andrew Karre e Rhiannon

Ross, que leram , releram e deram sugestões incríveis e valiosas; ao m eu

excelente agente Richard Curtis (você é ótim o!) e a todas as pessoas

criativas e encoraj adoras que participam do grupo de autores de literatura

j uvenil da Yahoo.

GILLIAN SUMMERS

Um

sua vida não poderia se tornar m ais deprim ente do que j á era, a

visão da floresta verdej ante deixou-a ainda m ais triste. Ela j á

podia sentir a com ichão provocada por sua alergia. Se qualquer

tipo de m adeira fazia com que se sentisse m al, as árvores vivas eram ainda

piores.

Keelie deu um passo à frente, escorregando um pouco, e sentiu um

cheiro horrível. Olhou para baixo. Havia pisado num m ontículo de

cogum elos podres em decom posição.

— Eca!

Um trovão ressoou em m eio às nuvens escuras no céu nublado, que

prom etia m ais chuva. Outra péssim a notícia para seus tênis brancos. Nos últim os tem pos, todas as novidades haviam sido ruins.

A lam a preta no cam inho sinuoso, am plo e ladeado de árvores sugava

seus tênis, m anchando-os, enquanto ela se esforçava para acom panhar as

passadas rápidas da sra. Talbot. A m ulher era a advogada de sua m ãe, e

Keelie a odiava quase tanto quanto j á detestava o Colorado. Atrás delas, as

rodas do táxi que as deixara giraram no cascalho solto, fazendo o carro

arrancar, derrapar na estrada pavim entada e partir a toda velocidade.

Keelie preferiu não olhar, para evitar que sua vontade de voltar à

Califórnia se estam passe em seu rosto. Jurara a si m esm a que não

choraria, m as as lágrim as teim avam em despontar, tentando encontrar

vazão. Talvez fossem as árvores. Havia m uitas ali, e a com ichão com eçava

a se transform ar num a séria crise de nervos.

Com o coração acelerado, Keelie puxou m ais para cim a do om bro a

alça da pesada m ochila de couro, sem querer correr o risco de estragar as

poucas roupas que lhe restavam . A com panhia aérea havia perdido sua

bagagem , outro ponto negativo em seu dia horroroso, em sua vida

horrorosa.

O arom a apetitoso de carne assada percorreu o ar, cortando o cheiro

úm ido e terroso que encobria tudo com o um cobertor m ofado. A barriga

de Keelie roncou. As únicas coisas que ela com era durante o dia tinham

sido o pacotinho de am endoim e os m inissalgadinhos que a com issária de

bordo lhe oferecera no voo de Los Angeles. Pena que se sentira deprim ida

dem ais para aceitar a oferta da sra. Talbot de lhe com prar um sanduíche

na Au Bon Pain, no Aeroporto Internacional de Los Angeles.

Pelo m enos j á não chovia, em bora, a j ulgar pelos trovões e pelo tem po

fechado, um tem poral pudesse cair a qualquer m om ento. Nuvens escuras

com o bolas de canhão esponj osas adej avam sobre as sem pre-vivas. Mais

adiante, a quantidade de árvores dim inuía, revelando duas torres am arelas

bem altas, de aspecto antigo, nas laterais dos im ponentes portões de

m adeira com dobradiças de ferro preto. A entrada era ladeada por leões

gigantes de topiaria. Um deles estava sentado no chão cheio de folhas, a

pata num im enso escudo, no qual se lia "Bem -vindo ao Festival da

Renascença de Montanha Alta"; o outro se encontrava agachado, com o se

prestes a dar um salto.

Circundada pelas árvores altas da floresta, a entrada parecia um

cenário abandonado de O senhor dos anéis.

Artificial, pensou Keelie. Tudo ali havia sido m ontado, exceto as

árvores. As pontas dos dedos da garota form igavam , por causa da m adeira

viva ao seu redor. Nunca estivera num a floresta tão grande. A qualquer

m om ento teria urticária. As pessoas peram bulavam na frente do quiosque

que servia de bilheteria, algum as se reagrupando, prontas para partir,

outras procurando o dinheiro do ingresso nas bolsas e carteiras. Ao lado do

quiosque, um gigantesco m apa do festival m ostrava que o lugar era

enorm e, cheio de ruas, e até m esm o um lago. E um a desanim adora área

florestal im ensa. Nada de alm oço. Keelie estava enj oada.

À frente, a sra. Talbot ignorou a bilheteria e desapareceu portões

adentro, andando com determ inação. Keelie fora abandonada para seguir

cam inho sozinha. Grande novidade! Sua m ãe tam bém havia sido um a m ulher m uito ocupada. Keelie estava acostum ada a se virar sozinha. Em

breve faria dezesseis anos, e não seis.

Dois guardas grandalhões, com arm aduras cinem atográficas, correram

atrás da sra. Talbot.

— Ei, senhora, pare! Precisa com prar o ingresso.

Keelie sorriu, satisfeita ao ver que a advogada fora pega em flagrante.

Bem feito!

A garota deu um sorrisinho dissim ulado para o atendente, prendendo

os cabelos atrás da orelha. Esperaria ali pelo táxi que as levaria ao

aeroporto assim que La Talbot fosse expulsa dó festival.

Um atendente arregalou os olhos ao vê-la e fez um a exagerada

reverência.

— Sej a m uito bem -vinda, senhorita. Seu pai a aguarda. Bem -vinda ao

Festival da Renascença de Montanha Alta.

Ele lhe entregou um m apa e um folheto.

Keelie o fitou espantada, segurando os papéis. Será que aquele

hom em era vidente?

— Ei, ande logo! — A sra. Talbot acenava, cham ando-a para entrar.

Os dois guardas j á voltavam à área da bilheteria, um deles contando o

dinheiro.

Keelie soltou um resm ungo, pois sua alegria durara pouco.

Aproxim ou-se dos leões. Ninguém bloqueou seu cam inho. Mas um

m ovim ento, detectado com o canto dos olhos, levou-a a se virar. O leão

tinha m esm o encolhido os om bros? Podia j urar ter visto um a ondulação esverdeada percorrer o corpo do felino. Im possível. Devia ter sido um a

raj ada de vento.

Um a vibração à sua direita. O rabo com ponta peluda do anim al

oscilara, com o se ele estivesse prestes a saltar da base de pedra e correr

para a floresta. O hom em fantasiado à entrada olhou de esguelha para

Keelie e fez sinal para que ela prosseguisse. Ele não notara o m ovim ento e

a deixara passar: ou ela era aguardada, ou aquele lugar podia ser

considerado negligente no que dizia respeito à entrada das pessoas.

Keelie estrem eceu ao passar pelo estandarte e pelo enorm e portão.

Parecia um a fortaleza barulhenta. Um a ruidosa prisão. Rufos prim itivos

m arcavam o com passo das gaitas de foles, dos violinos e das trom betas

desafinadas, em um a m istura estonteante, pelo visto apreciada por aqueles

pobres coitados.

Apesar da saudação sim pática no escudo do leão, não haveria

nenhum a acolhida para Keelie. Ela com certeza, que, não queria-estar ali.

A garota deu um a olhada no relógio. Duas horas naquela nova vida e

seus tênis j á estavam acabados; sua bagagem , perdida; e sua coluna,

dolorida. Além disso, na certa suas unhas deviam estar um desastre. Sem

falar nos form igam entos e na náusea que sentia por causa da floresta. E,

para com pletar, estava vendo coisas.

Queria — não, precisava de — um banho quente e um a m assagem .

Tem pos atrás, sua m ãe ligaria para TJ no spa diurno Belos Sonhadores e

m arcaria um a hora para fazerem m assagem lado a lado, com pedras

quentes. Keelie tinha vontade de pegar o próxim o avião de volta à Califórnia e à civilização. De volta para sua m ãe. Sua m ãe, que dizia "Está

bem , querida. Vam os conversar a respeito" sem pre que Keelie via ou sentia

algo estranho, inexplicável. Quanto m ais am adurecia, m ais as duas

trocavam ideias daquela form a. Sua m ãe sem pre fazia com que se sentisse

norm al de novo. No entanto, ela não estava m ais ali. Keelie inalou

profundam ente, achando difícil respirar. Sentia a presença dos pinheiros

ao redor e tinha a sensação de que lhe sussurravam algo. Estava prestes a

ter um ataque de claustrofobia, m as para onde fugiria com aquele m onte

de árvores ao redor?

— Ande logo, Keelie. — A voz da sra. Talbot veio de algum lugar à

frente. — Se eu não for em bora daqui a trinta m inutos, vou perder o voo

de volta.

Pelo visto a sra. Talbot, que tam bém trabalhava na firm a de advocacia

da m ãe de Keelie, recebera um a tarefa ingrata, a qual, obviam ente,

executava a contragosto. Keelie im aginou com o a sra. Talbot teria reagido

na reunião: "Levar a pirralha até o Colorado?", perguntara na certa. "Não

podem os sim plesm ente deixá-la no aeroporto?"

Mas, não, isso teria sido m uito arriscado, j á que havia a possibilidade

de a m enina fugir, após o incidente no prim eiro fim de sem ana. Keelie

passara a ser considerada um a fugitiva em potencial, que precisava de

acom panhante, com o um bebê. Em bora fosse verdade, era de

enlouquecer.

Irritada, a garota conteve as lágrim as, que am eaçavam voltar.

— Engula o choro — m urm urou para si m esm a. — Não dem onstre seu m edo. — Não queria parecer um a chorona quando encontrasse o pai,

que não via desde pequena. Meu pai biológico, lem brou a si m esm a.

A lam a fazia barulho a cada passo de Keelie, que tentava, com

dificuldade, acom panhar a advogada em seu form al terninho azul-m arinho.

A m ulher vestia um a roupa totalm ente inadequada para aquele lugar. Por

sinal, a própria Keelie tam bém .

Em bora os visitantes que se dirigiam em bando à saída parecessem

cansados, relem bravam às gargalhadas os m elhores m om entos do dia. Se

haviam acabado de fazer os m esm os program as, para que recontá-los? Será

que sofriam de algum tipo de am nésia?

A sra. Talbot cam inhava contra a m aré hum ana, desviando-se com

agilidade para evitar colidir com os turistas. Com o conseguia? Em bora o

salto alto devesse afundar na lam a, ela se m ovim entava com o se o cam inho

de terra fosse igual ao piso de granito polido da firm a Talbot, Talbot &

Turner em Los Angeles.

Keelie apertou o passo, decidida a não parar. Não reclam e, não, disse a

si m esm a. A sra. Talbot fez um a pausa em um a barraca de bij uterias e

perguntou algo à atendente atrás do balcão. Em seguida, apontou para sua

acom panhante e agitou um a pasta. Keelie sabia que a dim inuta etiqueta

branca colocada ali dizia "Keliel Heartwood", proj eto núm ero sej a lá qual

fosse na vida tum ultuada da advogada.

A atendente rechonchuda e de rosto corado, que usava um traj e

m edieval com um corpete superapertado, balançou a cabeça.

— Não sei, senhora — respondeu. A im pressão era de que a qualquer m om ento seus seios enorm es arrebentariam o corpete, com o m elões

arrochados. Olhando para Keelie, franziu o cenho.

Um suj eito que parecia ser de outra era, com um avental de couro

asquerosam ente gorduroso na parte da frente da estranha roupa m edieval,

cutucou o om bro da sra. Talbot.

Keelie disfarçou o sorriso ao ver que a advogada conteve um grito.

— Ela se referiu ao m arceneiro — disse o velho à atendente, falando

com um sotaque inglês escancaradam ente falso. Em seguida, virou-se para

Keelie. — Então é um deles? Ouvim os falar que você viria. Continue um

pouco m ais por esse cam inho, senhorita. Heartwood está na construção de

m adeira de dois andares, perto da j usta. Não é, Tania? — perguntou ele,

arqueando um a das sobrancelhas grossas para a atendente peituda.

Justa. Keelie m eneou a cabeça. Dem ais. E o que ele quisera dizer com

"é um deles"? Ela não tinha nada a ver com aquele lugar. Fingiu observar

os colares e am uletos expostos. Um a caixa com pedras polidas cham ou sua

atenção.

— Quanto custa esta?

— Apenas dois dólares, querida. — As palavras foram ditas com

suavidade, porém o tom de voz da m ulher era frio.

Keelie tirou duas notas novas da m ochila e colocou-as no balcão,

tom ando o cuidado de não tocar na m adeira. A sra. Talbot cham ou-a de

um ponto m ais distante, no cam inho de terra. A garota ignorou-a.

Exam inou as pedras na caixa e pegou um a ovalada, cor-de-rosa e cheia de

veios.

— Vou levar esta aqui. É o quê?

— Quartzo rosa. — Os dólares haviam desaparecido. — Anda, a

m ulher está cham ando você. E obrigada pela com pra. Esta j á é a segunda

sem ana de m au tem po. Mais um a igual a essa e vam os virar um show de

lam a.

Keelie pegou o quartzo, receando que a m ulher iniciasse um a

im posição das m ãos ou um a cantoria aos deuses. Com eçou a trovej ar de

novo, o que levou Tania, a contrabandista de m elões, a fazer um a careta,

preocupada.

— Ainda bem que está quase na hora de fechar — com entou ela. —

Pelo visto, vai cair um a trem enda tem pestade.

Raj adas de vento fizeram os estandartes coloridos no alto esvoaçarem ,

esticando as cordas. A brisa trazia um forte arom a de ozônio — certam ente

choveria em breve. Keelie colocou a m ochila de couro nas costas e, em

seguida, olhou de soslaio para seu conj unto de blusa e casaquinho de lã

brancos e a calça capri, de linho azul, e sussurrou:

— Eu não devia zom bar de La Talbot. Tam bém estou arrum ada dem ais

para esta Terra do Nunca.

Do outro lado do am plo cam inho de terra, pessoas de um a fam ília

gargalhavam ao sair cam baleantes, esbarrando um as nas outras, de um a

barraca em que se lia "Labirinto Mágico". Keelie odiou-as por estarem

felizes e unidas. A m ãe olhou-as de relance ao passar e arqueou a

sobrancelha ao ver o terninho da sra. Talbot. Keelie percebeu que as

roupas das duas as tornavam m ais cham ativas que os bobos da corte, os hom ens com pernas de pau e os cam poneses m edievais que

peram bulavam aos m ontes por ali. O estôm ago de Keelie roncou de novo.

— Sra. Talbot, será que podem os...

A advogada havia sum ido. A garota olhou ao redor. Nem sinal da

m ulher de terninho azul-m arinho.

Um estrondo fez Keelie olhar para trás. Um a prateleira com bij u-

terias expostas despencara. Colares espalharam -se pelo chão lam acento.

— Meus produtos! — Tania com eçou a pegá-los. — Este festival está

am aldiçoado!

— Shhh, m inha j ovem . Não deixe a adm inistração ouvi-la dizer isso. —

O velho perdera o sotaque.

O lugar continuava apinhado de visitantes; nem todos se dirigiam à

saída. Era difícil cam inhar em linha reta. Quando Keelie j ulgou ter

vislum brado o terninho azul-m arinho da advogada, foi cercada por um

grupo de falsos cam poneses, que, cantando anim adam ente, chegara pela

trilha do alto da m ontanha.

Um grandalhão de casaco verm elho, orlado com pele falsa e adornado

com dúzias de sininhos prateados retinindo, vociferou com voz de

m egafone:

— Abram cam inho para o rei e a rainha.

— O grupo de pessoas vestidas com o cam poneses que circundava

Keelie gritou:

— Hurra! Hurra!

Prendendo a respiração, Keelie tentou abrir passagem . Estava quente e úm ido, e vários cam poneses levavam longe dem ais sua atuação. A garota

sentiu que alguns precisavam urgentem ente se fam iliarizar com o

desodorante dos tem pos m odernos.

Ela vislum brou algo azul-m arinho passando por entre as árvores, no

outro lado da trilha. A sra. Talbot.

Keelie abriu cam inho e, então, viu a advogada agitando a pasta diante

do rosto de um hom em . O suj eito usava chapéu de bobo da corte e calças

de seda com retalhos coloridos. E pernas de pau. Ele se inclinou da

cintura para baixo, tentando ler os papéis m ostrados pela sra. Talbot. Um a

j ovem gótica de cabelos negros aproxim ou-se, traj ando um vestido preto

j usto, de m angas longas e soltas, arregaçadas para exibir um a segunda

m anga abotoada do pulso ao cotovelo. Ela conversou com a advogada e

apontou para um a clareira do outro lado da colina; em seguida, virou-se e

desapareceu em m eio à m ultidão. O hom em de pernas de pau bradou:

— Vida longa ao rei e à nova rainha.

— Ah, tanto faz — disse Keelie. Vida longa ao rei e à nova rainha.

Bom , tom ara que sim . Que vivessem m uito m esm o. Perguntou-se o que

teria acontecido com a antiga com panheira do suj eito. Na certa criara j uízo

e se m andara daquele lugar m aluco.

Keelie conteve as lágrim as, que teim avam em surpreendê-la de vez em

quando, em bora todos achassem , com o com entara a m ãe de Laurie,

Elizabeth, que ela vinha lidando bem com a situação. Bom , Keelie podia

fingir estar ótim a em público, e era exatam ente o que continuaria a fazer.

Ela piscou rapidam ente, na tentativa de secar as lágrim as que m arej avam seus olhos, sem ter de enxugá-las e dem onstrar seu estado de ânim o.

Pela visão em baçada, vislum brou m ais um a vez o terno azulm arinho.

Abriu cam inho entre a m ultidão que se acotovelava, ignorando os olhares

curiosos lançados em sua direção. Percebeu, de repente, que j á não se

sentia enj oada. Olhou para a pedra rosa e lisa que segurava. O que quer

que fosse, funcionava. Meteu-a no bolso.

Do outro lado da m ultidão, havia um grupo de pessoas observando um

hom em com um a ave, cuj a cabeça estava coberta por um capuz de couro.

Falcoaria. Puxa, aquilo, sim , era interessante. Keelie estudara história

m edieval no nono ano, na Escola Bay wood, e fizera um trabalho sobre a

arte de treinar falcões.

Aproxim ando-se, notou as longas tiras de couro am arradas nos pés do

anim al. Piós, lem brou.

Pobres aves. Tam bém eram prisioneiras. Tal com o dissera sua m ãe, as

pessoas ali não passavam de um bando de bobalhonas im aturas tentando

viver na Idade Média. Estavam totalm ente desconectadas da realidade.

Quem ia querer reviver um a época em que não havia saneam ento e as

pessoas peram bulavam com sachês ao nariz para cobrir o fedor dos corpos

sem banho?

A m ãe a alertara sobre com o vivia aquele pessoal renascentista. E

com o vivia seu pai, que levara adiante a versão m edieval da velha escapada

para se j untar às pessoas do circo.

Um a coruj a piou perto de Keelie, que percebeu a presença de outras

nas gaiolas, j unto aos falcões.

Ela vira um a coruj a em palhada no laboratório de biologia do sr. Stein,

na Escola Bay wood, que lhe parecera careca e atacada por traças. A ave

branca que estava ali girou a cabeça para acom panhar Keelie, sem piscar

os enorm es olhos am arelos, e tinha penas felpudas e m acias. Keelie

gostaria de poder tocá-la.

Um hom em de cam isa branca, com m angas bufantes e sedosas, e

botas pretas à altura do j oelho posicionou-se no m eio do círculo, com um

falcão na m ão enluvada. Apesar do tam anho da ave, segurava-a com o se

nada pesasse.

— Alguém pode m e dizer por que os olhos do falcão estão vendados?

— Sua voz era potente, e ele tam bém sim ulava um sotaque inglês.

Algum as pessoas responderam .

Keelie observou a ave, que agitava as asas, alternando o peso de um pé

para o outro, com o se estivesse im paciente.

— Olá. Você gosta de pássaros? —A voz levou-a a se virar depressa.

Não ouvira ninguém se aproxim ar. A m ulher usava um cabelo bem

curtinho e vestia um a versão fem inina do traj e de falcoeiro, com cam isa

estilo pirata e botas de cano longo. Fez um gesto em direção à coruj a

adm irada por Keelie. — Aquela é Lua. Nossa coruj a-das-neves. Ela m orde,

viu? Então é m elhor nem chegar perto.

— É linda. — Seu próprio tom de voz lhe pareceu contrariado. Não

queria estar ali, m as, em bora não tivesse planej ado m orar num a floresta do

Colorado com um bando de ripongas esquisitos, não era m entirosa. As

aves eram incríveis.

O ruído de alguém correndo fez as duas se virarem .

— Preciso de m ais isca — inform ou um suj eito sem fôlego, cuj o suor

escorria pela face queim ada do sol e contornava os afluentes form ados

pelas rugas ao redor dos olhos. —Ariel está na árvore. — Ele apontou para

cim a, para a parte superior dos pinheiros altos que contornavam a clareira.

Keelie olhou para as copas esvoaçantes, sem saber ao certo o que

procurar. Um a m ulher teria subido ali? Os ram os sacudiam , e os galhos

com folhas em form a de agulha balançavam freneticam ente ao vento;

então, perto de um a forquilha no tronco de um a árvore enorm e, ela viu o

contorno vultoso de um a ave. Ariel\ apostou. Queria avisá-lo que devia voar

para bem longe dali se pudesse. Se a própria Keelie tivesse asas,

regressaria voando para casa.

Ou então faria um voo de volta ao passado e aproveitaria cada dia que

ficara com a m ãe. Diria a ela que não pegasse o voo de San Francisco a

Los Angeles. Avisaria que não devia confiar na com panhia aérea regional.

Keelie sentiu um a dor no peito. Respirou fundo. Nada de chorar. Não

m ais.

— Voe livre, sem olhar para trás — sussurrou.

— Keelie, ande logo. Estou superatrasada — pediu a sra. Talbot. Ela

estava a uns seis m etros da m enina e, pela prim eira vez, m ostrava-se

aborrecida. Um respingo de lam a m anchara sua m eia-calça.

A tratadora de pássaros olhou para a advogada de cim a a baixo e, em

seguida, m ordeu os lábios, com o se tentasse conter o com entário que faria.

Pode m e inform ar onde encontro o sr. Zekeliel Heartwood? Esta é a filha dele. Prom eti trazê-la pessoalm ente, e j á está ficando tarde. Tenho

que pegar um avião de volta para a Califórnia. — O sorriso da advogada

não parecia sincero.

A m ulher dos pássaros apontou para um poste inclinado no

cruzam ento, cheio de placas de rua pregadas de form a negligente.

— Vá pela Travessa do Espírito da Água até a Fileira das Arvores. , Ele

m ora no lado esquerdo. Im possível não vê-lo. — Ela se virou para Keelie.

— E você é a filha dele. Estou envergonhada por não ter m e dado conta

disso. É igualzinha a ele. — Deu um largo sorriso. — Sou Cam eron, um a

am iga do seu pai.

Um a am iga? Keelie podia apostar! Mas, apesar de ela ter certeza de

que o festival estava cheio de gente bizarra e esquisita, por algum m otivo

gostou de Cam eron. Franziu o cenho e afastou-se, apertando o passo,

então desacelerou ao se dar conta de que não precisava seguir a sra.

Talbot. Já sabia qual era o cam inho. As instruções da falcoeira haviam sido

claras.

A alguns m etros dali, o cam inho se bifurcava. A placa voltada para o

lado esquerdo dizia "Fileira das Árvores". Que trem enda sorte! Mais

m adeira. A do lado direito trazia "À Pista de Justa". Keelie abriu o m apa.

De fato, havia um a grande pista de corrida, sobre a qual estava escrito

"Justa". Curiosa e sem a m enor vontade de ver a sra. Talbot concluir com

sucesso sua m issão, ela seguiu o cam inho da direita.

Sobressaltou-se quando um a ave enorm e esvoaçou à sua frente,

fazendo um voo rasante sobre o cam inho antes de se dirigir às árvores. Por um instante, Keelie achou que ela a atacaria. Fora o falcão? A m enina

olhou para cim a, e um tom verm elho-vivo reluziu diante de seu rosto. Não

fora ele. Havia fauna selvagem dem ais ali para seu gosto.

A pista de j usta não lem brava em nada o que o próprio nom e sugeria.

Mais parecia um cam po de futebol arenoso, com um a tribuna de um lado

e um m uro de m adeira do outro. Ainda havia um m onte de gente anim ada

ali e no palanque. Vendedores de com ida anunciavam aos gritos seus

produtos: espetinho de carne e coxa de peru.

— Pegue sua intoxicação alim entar em um desses espetos —

m urm urou Keelie, segurando com firm eza a m ochila. Sua m ãe lhe dissera

que aquele lugar estava cheio de ladrões e de batedores de carteira.

Quando subiu a trilha inclinada, Keelie pôde ver m elhor o que havia

adiante e parou, boquiaberta. Cavaleiros de arm adura galopavam na

direção uns dos outros em cavalos im ensos, com o nos film es. Por um

m om ento, ela teve a sensação de estar na Inglaterra do século XVI, e não

num Festival da Renascença do século XXI.

Mantos coloridos cobriam os cavalos e oscilavam com o m ovim ento.

As arm aduras dos cavaleiros pareciam verdadeiras, em bora a m aioria não

brilhasse, aparentando estar am assada e gasta.

Os hom ens em punhavam longas lanças de m adeira e, cada vez que se

cruzavam no cam inho, um deles tentava derrubar o outro com a arm a,

em polgando m uito a plateia. Aberrações sedentas de sangue — que ideia!

Atrás de Keelie, as aves gruíram , seus cantos lam entosos com petindo

com os toques das longas trom betas, os gritos da m ultidão e o som m etálico das arm aduras e das espadas, um a m istura de ruídos que ecoava

e percorria em ondas o corpo dela.

Seu pai estava por perto. Supostam ente, aquele lugar era seu lar agora.

O que podia ser m ais assustador? Keelie olhou ao redor, observando a

platéia anim ada e os j ogadores fantasiados. Não conhecia ninguém além

da sra. Talbot. Em bora não gostasse da advogada, a m ulher fazia parte de

sua antiga vida, e ela queria se agarrar a cada fragm ento que lhe restava.

Quando a sra. Talbot fosse em bora, Keelie ficaria sozinha naquela

terra encantada. Bom , não exatam ente sozinha. Moraria com o pai; e j á

ouvira o bastante a respeito dele para saber que a vida seria m ais um

pesadelo que um conto de fadas.

Im aginou o que aconteceria se as am igas descobrissem que seu pai

não passava de um cigano, um hom em que ganhava a vida indo de um

Festival da Renascença a outro, de um show a outro, vendendo seus

artefatos para o público com o um a espécie de vendedor de poção m ágica

do faroeste. Keelie sentiu ondas de constrangim ento percorrerem seu

corpo.

Quando as am igas perguntavam o que seu pai fazia, ela dizia que ele

trabalhava para o governo no Serviço Nacional de Parques, no Alasca, país

que ficava longe dem ais para o pai voltar para casa. Isso com certeza era

m elhor que a verdade. O Alasca parecia um lugar bem legal e agradável; j á

aquilo ali — aquilo ali não passava de um a fuga da realidade. Keelie

observou um a m ulher passar levando guirlandas de flores para serem

usadas com o enfeites de cabelo. Pelo visto, tratava-se de um a espécie de uniform e ali. Algum as usavam os corpetes m ais apertados do que outras:

apertados de um j eito brega.

Sentindo respingos-d'água, Keelie tocou os cabelos de corte desfiado,

que haviam ficado sedosos e brilhantes após a sessão m atinal de gel e

chapinha. Agora iam encrespar e espetar para todos os lados. Passara um a

hora dedicada a eles à toa.

O falcão gruiu em um a árvore atrás dela. Keelie sentiu-se com o ele,

am arrada e vendada, recebendo ordens, m as talvez a ave estivesse

am edrontada. Quem sabe o falcão não quisesse a segurança do braço do

falcoeiro? Ninguém lhe perguntara antes de capturá-lo e dom esticá-lo.

Ninguém perguntara a Keelie antes de virar sua vida de cabeça para baixo.

Carregando a m ochila, ela sentiu um leve resquício de algo com um a

fragrância de vegetação deliciosa. Nada que se assem elhasse ao assustador

cheiro de árvore. Um arom a m ais parecido com o da cam pina pela m anhã;

ou, ao m enos, era o que Keelie im aginava. Suas alergias haviam -na

m antido longe de bosques e parques. Ela foi seguindo o perfum e até

chegar a um a barraca com um letreiro de m adeira que dizia "Ervas". À

porta, havia um cartaz m enor: "Rem édios para m úsculos doloridos e

com idas m alfeitas." Era algum tipo de brincadeira?

Nas prateleiras, na parte interna, havia cestas, frascos e diversos tipos

de sabonete e de loção. Um a seção inteira havia sido classificada com o

"rem édios fitoterápicos". Isso cham ou a atenção de Keelie. Ela adorava

tudo relacionado à m edicina. A m ãe certam ente a teria tirado à força dali,

pois brigara com a filha quando ela falara em se tornar voluntária no hospital e a m andara se concentrar nos estudos — que deveriam enfocar,

obviam ente, a área de direito.

Keelie sentiu-se culpada por ter entrado naquela barraca, apesar de a

m ãe j á não estar m ais ali e não poder m andá-la sair. Será que estava

traindo a vontade dela ao apenas dar um a olhadinha nos extratos herbais e

nos unguentos e cheirar alguns? Os potes com am ostras exalavam um

arom a delicioso.

A atendente da loj a usava um vestido lilás folgado, am arrado na frente

com um cordão de couro prateado. Um avental branco estava preso à parte

de cim a com alfinetes e atado nas costas. As m angas esvoaçantes e

com pridas quase arrastavam no chão e haviam sido presas à altura do

om bro com os cordões prateados.

Ali estava um a roupa que Keelie até se via usando — se ficasse ali,

claro.

— Posso aj udá-la a encontrar algo?

A garota ergueu um pote intrigante.

— Para que serve isso?

— E um tipo de unguento para j oelhos doloridos.

— Keelie Heartwood, cadê você? — A cham ada vinda lá de fora

sobressaltou a garota. Ela se esquecera da sra. Talbot. Fora com o se a voz

da m ãe a houvesse cham ado, lem brando que a filha não estava em seu

m undo. A m ulher das ervas pareceu ter se surpreendido tam bém e deu a

im pressão de estar prestes a fazer algum com entário.

Keelie não lhe deu oportunidade. Saiu olhando para o local na colina em que ressoara a voz da advogada. Tropeçou na ponta elevada de um

calçam ento cinza e estabacou-se, batendo os j oelhos com força.

A m ochila caiu de seu om bro e atingiu a lateral da pedra, espalhando

seus pertences colina abaixo. Keelie levantou-se de um salto e pôs-se

depressa a recolher tudo, antes que alguém pegasse algo. Sua escova de

cabelo, cheia de folhas grudadas; suas calcinhas extras, enlam eadas; seu

diário — que não suj ara, felizm ente. A cada item que ela pegava as

lágrim as contra as quais vinha lutando desde cedo iam despontando. Não

houve pestanej o que as im pedisse. Ela lim pou o rosto com o braço e

tentou pegar seu nécessaire de plástico transparente.

No entanto, a m ão de alguém alcançou a bolsa prim eiro, e Keelie foi

acom panhando-a, conform e a pessoa se endireitava. Botas de am arrar até

os j oelhos, m eia-calça verde-esm eralda, um a sofisticada j aqueta preta e

dourada j usta, com um falcão bordado à altura do peito, e um m anto preto

e verde.

Que roupa! Coroando tudo, havia um rosto charm oso, com o o de um

surfista californiano, bronzeado e louro.

O rapaz sorriu e entregou-lhe o nécessaire. Keelie pegou-o, sem

conseguir dizer um a palavra, sentindo-se a um só tem po superem pol- gada

e bastante constrangida.

— Aqui está sua m ochila, Keelie Heartwood. —A m ulher da barraca

de ervas a pegara. O que não havia despencado colina abaixo estava

parcialm ente para fora, em ângulos m alucos.

— Obrigada. — A garota guardou as calcinhas antes que o rapaz as visse e, em seguida, m eteu lá dentro o que conseguira recolher.

— Você pegou tudo? — A voz dele era baixa e suave.

— Peguei. Quer dizer, não sei.

— Olhe aqui o espelho dela.

Ela se virou. Um hom enzarrão estava com seu espelho de bolso — um

pequenino que lem brava um a concha de plástico azul — encaixado entre

dois dedos im undos. Cada centím etro do suj eito estava coberto de lodo, e,

atrás dele, havia três outros hom ens suj os de lam a.

Um deles estendeu a m ão com o espelhinho. Quando Keelie fez

m enção de pegá-lo, o suj eito riu e j ogou-o para um dos com panheiros. Ela

sabia que era apenas um a brincadeira, m as só conseguia pensar no Natal

do ano anterior, quando o encontrara no fundo da m eia natalina que a m ãe

lhe preparara. Batons e espelhos. Era a tradição.

Lágrim as com eçaram a rolar por seu rosto, e ela não as enxugou. Por

que não chovia? Por que não chovia para que todos aqueles idiotas, com

suas brincadeirinhas sem graça e infantis, entrassem nas barracas e a

deixassem em paz? Ninguém teria notado seu pranto se estivesse

chovendo, e Keelie tinha a sensação de que choraria a noite e o dia

inteiros.

— Pare, Blurp — ordenou o príncipe ao lado da m enina. — Devolva o

espelho para a dam a ou vou golpeá-lo com m inha espada.

Blurp, o enlam eado, deu um a sonora gargalhada e, então, olhou de

soslaio para Keelie. Sua expressão deixou claro que algo lhe passou pela

m ente. Arrependim ento, talvez, em bora ele estivesse por dem ais coberto de lam a para que a garota conseguisse saber ao certo.

— Tom e, rapaz — falou o grandalhão, j ogando o espelho para o garoto.

O príncipe lim pou-o com o belo m anto de cetim e devolveu-o a

Keelie, com um a acentuada reverência.

A m enina m eneou a cabeça, m as seu nariz com eçaria a escorrer se

dissesse algo; aliás, ela nem conseguiu sorrir.

Um a garota de saia-ballo cor-de-rosa e dourada foi se aproxim ando,

contornando os trechos com m ais lam a, segurando um a harpa am arelo-

cobre. Olhou de form a zom beteira para os hom ens cheios de lodo e, em

seguida, franziu o cenho ao fitar Keelie e o príncipe. Longos cachos

dourados im pecáveis caíam por suas costas, com o os de um a princesa de

conto de fadas.

— Lorde Sean do Bosque, a rainha o aguarda — inform ou a recém -

chegada, exam inando Keelie de alto a baixo.

Lorde Sean? Quem diria!

— Obrigado, Lady Elia. — Ele se virou para Keelie, dando a im pressão

de estar constrangido. — Tenho que ir. Espero que tenha encontrado

tudo.

— Acho que sim , obrigada. — Sua voz pareceu m eio em bargada, m as,

ao m enos, conseguira falar.

— Ah, pobre criança! — exclam ou Lady Elia, fazendo beiço.

Criança? De onde aquela m enina tirara a ideiade cham á-la de

criança? Ao que tudo indicava, tinha a m esm a idade que ela. Keelie

sem icerrou os olhos, desconfiada. A graciosa princesa fez a carinha am uada de quem quer ser adm irada. Keelie conhecia bem o tipo. Os

cabelos longos e cacheados e os olhos verdes provavelm ente cham avam

bastante atenção.

— Você sofreu um acidente? — quis saber Cachinhos Dourados. —

Não seria m elhor cham arm os o pessoal da segurança? — Ela puxou a saia

para trás, com o se Keelie fosse suj á-la de lam a. A filha de Heartwood j á a

odiava.

— Não é necessário — respondeu Lorde Sean do Bosque. — Ela está

dizendo que está bem . E eu concordo. Não é, Keelie? Posso cham á-la

assim , não posso?

Será que tinha m esm o acabado de ouvir aquilo? Keelie anuiu, calada,

receando fitá-lo caso ele não tivesse tido a intenção de dizer o que ela

achava que dissera.

— Keelie Heartwood! Venha j á para cá. Encontrei seu pai. — A voz

estridente da sra. Talbot fez-se ouvir em m eio à m ultidão. — Você vai ter

tem po de brincar com seus novos am igos depois.

Brincar? Envergonhada, Keelie ficou paralisada. A m enina vestida de

cor-de-rosa e dourado cruzou os braços e olhou fixam ente para ela,

estreitando os olhos.

Keelie tinha certeza de que a advogada usara o term o "am igos" de

form a precipitada.

Houve um burburinho a seu redor. Ela achou ter ouvido alguém

sussurrar "Heartwood".

Não esperou para ouvir o que diziam . Idiota!, pensou. Era um a idiota por ter ido até lá, um a idiota por ter paquerado o príncipe. Lorde Sean. Até

parece!

Keelie deu a volta e subiu depressa a colina, tentando deixar para trás

a hum ilhação que sentia. Em bora escorregasse na lam a, conseguiu se

m over rápido o bastante para chegar ao topo sem olhar para trás. Seu pai

estava ali, em algum lugar, o que j á era por dem ais inquietante.

Dois

de incredulidade, ficou observando Keelie se aproxim ar. Um a

m ulher m orena, pequenina e sorridente estava ao lado dela;

parecia a esposa do bone- quinho de gengibre do conto infantil.

Keelie olhou para a própria calça capri e percebeu que estava suj a de

lam a. Constrangida, parou diante da advogada.

— Sou a sra. Butters, da casa de chá do outro lado da clareira —

inform ou a m ulherzinha m orena. — Quando a vi cair, pensei: "Sra.

Butters, tem os que fazer algo para aj udá-la a se lim par." — Estendeu,

então, um a toalhinha de rosto úm ida e um pano de prato.

A garota estava prestes a pegar o que a m ulher lhe entregara quando a sra. Talbot ergueu a m ão, o cenho m ais franzido do que nunca.

— Você m e atrasou dois m inutos, Keelie. Tenha a santa paciência! —

Virou-se para a m ulher e deu um sorriso nervoso. — Sra. Butters, ela j á

volta. Precisa se encontrar com o pai prim eiro. Vam os lá. Estam os quase

acabando.

Quase acabando, disse ela, com o se a garota fosse um a tarefa a ser

term inada logo. Keelie ignorou os olhares e os sorrisos dos transeuntes.

Devia estar parecendo um a garotinha, suj a, levando bronca, correndo atrás

da m ãe zangada.

A sra. Butters seguiu-as pela estrada, sabe-se lá se m urm urando algo

para si m esm a ou falando com elas. A sra. Talbot foi andando na frente,

ignorando o que a m ulher dizia.

Keelie ouviu a ovação de um a m ultidão. O som chegou por entre as

árvores e, quando elas chegaram ao topo do cam inho, a garota pôde ver os

estandartes coloridos e cham ativos da j usta lá em baixo. As aclam ações

vinham da tribuna coberta.

Dois cavaleiros de arm adura galopavam na direção um do outro,

m ontados em cavalos enorm es, cada um em punhando um a longa lança.

Parecia de verdade. Keelie andou m ais devagar e, em seguida, foi correndo

ao trecho do cam inho em que não havia árvores. Dali podia ver m elhor o

torneio. Um dos cavaleiros e seu cavalo usavam vestim entas com listras

pretas e brancas; j á seu adversário vestia um a roupa verde.

Keelie continuou andando devagar, certa de que eles não se atingiriam

de verdade. Fazendo ressoar um forte som m etálico, as lanças dos j ustadores atingiram os escudos de cores vivas que seguravam . O golpe foi

tão forte para o cavaleiro de preto e branco que o em purrou para trás,

fazendo-o inclinar-se tanto que quase se deitou na traseira do cavalo. Mas

ele se recuperou e se endireitou na sela de form ato esquisito.

Eles realm ente haviam feito aquilo, haviam atingido um ao outro.

Estupefata, Keelie notou que a platéia se levantara, ovacionando e

gritando, tal com o num j ogo de futebol.

Quando o cavaleiro de verde deu a volta, ela notou que em seu escudo

havia o desenho de um leão. Ele estendeu a m ão protegida com arm adura.

Um escudeiro no chão j ogou-lhe um a lança.

— Keelie Heartwood! — A voz da sra. Talbot sobressaiu em m eio à

ovação.

A garota parou de fitar a j usta. Era a m elhor atração que vira até

aquele m om ento.

Dirigiu-se depressa a um a clareira contornada por diversas

construções; não que ansiasse acabar logo com aquilo, porém , sem pre que

a advogada a cham ava, todos se viravam para olhar.

O poste de m adeira no final do cam inho continha quatro placas. A

m ais alta dizia "Pérgula das Rosas, Chás", daí "Cantinho de Galadriel",

"Ferraria da Aldeia: Espadas, Arm aduras, Ferraduras" e, por fim , um a que

cham ou a atenção de Keelie. Dizia apenas "Heartwood". Ela deu um a

olhada no m apa. Com efeito, lá estava. O fim de tudo.

Seu coração batia acelerado. Keelie entrou na clareira. À sua frente, a

sra. Talbot aguardava, de braços cruzados, em um a construção de pedra e m adeira de dois andares, com telhado de palha, igual à que se via nos

contos de fada. O local pareceu-lhe fam iliar e, na m esm a hora, ela

descobriu por quê.

Seu pai lhe m andara um a réplica daquela construção no Natal,

quando ela fizera cinco anos. O brinquedo incluía um a casa m edieval com

m óveis e anim ais. Na verdade, ele lhe enviara um a cópia de sua loj a.

A advogada foi até a som bra oferecida pelo térreo da construção, que

era aberto, e um hom em alto m agro apareceu na penum bra. Keelie não

conseguiu ver seu rosto, m as agarrou com força a m ochila, aper- tando-a

contra o peito, com o se a bolsa fosse um a daquelas cobertas favoritas

usadas pelas criancinhas. Tinha que ser ele.

Zeke Heartwood. Seu pai.

Keelie percorreu a clareira depressa e pisou na laj ota fresca da

construção. Viu-se cercada de m óveis de m adeira e do cheiro de serragem .

Apesar da presença desses artefatos, em vez das im portunas sensações que

esse m aterial costum ava lhe trazer, sentiu-se rodeada de am igos. Ainda

havia clientes peram bulando por ali, e a garota abriu cam inho entre eles,

pelas passagens estreitas entre os m óveis em exposição, procurando o

hom em que vira antes.

Um a m esa perto dela reluzia com o m el quente. Era linda. As m ãos de

Keelie com eçaram a trem er, e sua respiração se tornou irregular. Algo m ais

relacionado, na certa, à m adeira que à proxim idade do pai. Ela com certeza

não iria chorar.

Daria um basta àquela sensação. Mesm o se vom itasse ou tivesse um a reação alérgica, acabaria com aquele trem elique. Deixou que a m ão

trêm ula percorresse o tam po da m esa. Apesar de a superfície ser sedosa, as

pontas dos dedos form igaram com o contato, com o se estivessem sendo

arranhadas. A visão de um a árvore com um a copa de folhas serradas lhe

veio à m ente. Am ieiro, pensou. Keelie franziu o cenho e esfregou as pontas

Continuar: parte 2 de 3