A garota do calendário: Dezembro

Audrey Carlan · Capítulo 9 de 15

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A garota do calendário: Dezembro

Capítulo 8

 

— E quanto a mim? — Max indagou.

Fiquei me perguntando a mesma coisa.

Ele completou:

— Você me abandonou cinco anos antes de conhecer Michael Saunders.

Meryl inspirou lentamente e assoou o nariz.

— Sim, você está certo. O Jackson era um bom homem. Ele queria cuidar de mim, formar uma família. Na época, eu ainda achava que seria uma dançarina famosa. É preciso lembrar que, naquele tempo, a minha doença ia e vinha. Era um caos. Meus pensamentos eram confusos. Eu achava que o Jackson queria me colocar numa gaiola dourada. Me prender me fazendo engravidar.

Ele bufou.

— Te prender?

— Você está entendendo errado. — Ela chorou ainda mais. — Eu fiquei grávida de você logo depois que conheci o Jackson. O meu transtorno estava fora de controle. Eu não confiava em ninguém. Eu amava o seu pai, mas não estava apaixonada por ele. Não era o tipo de amor que dura para sempre. Eu estava cada dia mais confusa. Não sabia o que estava acontecendo. A minha terapeuta diz que provavelmente era depressão pós-parto, agravada pelo meu estado mental. Quando os hormônios de uma mulher bipolar ficam desequilibrados desse jeito, o resultado pode ser desastroso.

— Sim, acho que desastroso define bem — Max falou, sem emoção.

— Isso não significa que eu não me importasse ou não te amasse, Maxwell. Eu me importava. Ainda me importo! Muito. Mas eu não sabia cuidar de você. Eu tinha pensamentos horríveis sobre o Jackson, sobre me matar e matar você. Fiz a única coisa que poderia fazer... — Mais lágrimas desciam pelo seu rosto e seu nariz escorria.

— ... ir embora — ele completou. Essas palavras me destruíram e aumentaram o peso em meu peito.

Ela assentiu.

— Eu sabia que o Jackson tinha dinheiro, poder e uma rede de apoio. Ele iria cuidar de você até que eu colocasse a cabeça no lugar. Mas isso nunca aconteceu. E então, quando eu conheci o Michael, ele foi tão gentil e amoroso. Cuidou de mim. Me venerou. — Ela soluçou. — No início, nós dois éramos loucos e excêntricos, e eu gostava disso na gente. Éramos nós dois contra o mundo. Logo depois, em um dos meus momentos maníacos, nós nos casamos em uma capela em Las Vegas. Em pouco tempo eu engravidei da Mia. E, bem... vocês sabem o resto. — Ela fungou e secou as lágrimas.

— Por que você nunca mais procurou a gente? — Maddy perguntou, com a voz baixa e triste.

— Ah, querida, eu quis procurar. Todos os dias. Mas eu tinha medo. Medo do que vocês iriam dizer. Medo do que o Michael iria dizer. Medo de ir para a cadeia. E depois eu tive medo de perder o Kent. O único homem que percebeu que tinha alguma coisa errada e me conseguiu ajuda.

— Então você não sabia que a gente existia? — perguntei a Kent.

— Não. A Meryl desabou quando viu você no programa do dr. Hoffman. Então ela me contou tudo, toda a verdade. Eu entrei em contato com a produção. Contei a eles que era seu padrasto e que sabia onde a sua mãe estava, que ela estava desaparecida havia muito tempo e que eu queria reunir a família.

Suspirei, deixando todo o ar sair dos meus pulmões. Shandi filha da mãe. Nós poderíamos ter sabido dessa bomba bem antes. Eu não via a hora de colocar as mãos naquele pescoço fino.

— O que você espera que aconteça agora? — perguntei friamente, os olhos focados como um laser na mulher arrasada a minha frente. Infelizmente, o monstro dentro de mim não dava a mínima para o sofrimento dela. Nós três tínhamos sofrido por anos enquanto ela vivia nas montanhas, pintando alegremente a paisagem e passando os dias como artista e dona de casa sem responsabilidades. Mas ela tinha responsabilidades. E sempre se esquivou delas.

Ela passou a mão para cima e para baixo em sua coxa.

— Hum... eu realmente não pensei nisso. Estava mais preocupada em tirar esse peso que ficou no meu peito durante quinze anos. E eu juro que não tinha ideia a respeito da sua paternidade, Madison. Eu bebia muito naquela época. Para atenuar a dor. O Jackson ia até Las Vegas a negócios e muitas vezes tentou me levar de volta para o Texas, mas eu não queria. Eu dizia para ele que estava casada. Ele gostava da Mia. — Ela sorriu suavemente para mim. — As visitas dele são um borrão de altos e baixos causado pelo álcool. Eu não me lembro de quase nada.

Maddy brincou com seu anel de noivado, girando-o no dedo.

— Mas eu deveria saber. Vendo vocês dois juntos... é incrível como vocês se parecem com o Jackson. Ele teria ficado tão orgulhoso de você, Madison.

Minha irmã assentiu e seus ombros tremeram. Max a puxou para seus braços, onde ela enterrou a cabeça e chorou.

Apontei o polegar em direção a eles.

— Está vendo isso?

Os olhos assustados de Meryl se arregalaram.

— Isso é o que você causou. Eu não tenho certeza de como podemos superar o que aconteceu... com todos nós.

Meryl umedeceu os lábios e, em seguida, mordeu o inferior.

— Eu entendo. Acho que a minha maior esperança é que a gente possa recomeçar. Eu sei que nunca vou ser a mãe que vocês queriam ou mereciam, mas eu sou sua mãe e gostaria de tentar conhecê-los. Se vocês permitirem.

Dei de ombros, sem saber como responder. Eu a odiei por tanto tempo e guardei tanto rancor pelo fato de ter nos abandonado que era bem difícil agora aceitar essas novas informações e apagar o passado. Eu entendia que ela tinha uma doença mental. Logicamente, eu entendia que muito do que ela havia feito não era sua culpa. Mas isso não mudava o fato de que eu tinha anos e anos de dor para superar antes de ser capaz de encontrar a compaixão dentro de mim para ter um relacionamento com ela novamente.

A voz de Max estava rouca e áspera como rochas raspando o concreto quando ele disse:

— Apesar de estar chateado, eu gostaria de tentar.

Meryl piscou e sorriu.

Claro que ele gostaria. Max era a personificação do homem de família. Isso era tudo para ele, que era rápido em perdoar e ainda mais rápido em amar. Esse era o seu maior dom e a sua falha mais vulnerável. Desejei ser mais parecida com ele.

— A minha mulher, Cyndi, e eu temos dois filhos. A Isabel tem quatro anos, e o Jackson, pouco mais de dois meses. Seria bom para eles conhecerem a avó.

Meryl levou as mãos aos lábios. As lágrimas começaram a cair novamente.

— Netos. Ah, meu Deus, Kent, nós temos netos! — ela exclamou, a felicidade revestindo cada palavra. O peito de Max inchou com orgulho óbvio.

Fechei os olhos, esperei e ouvi a resposta na voz trêmula de Maddy.

— Eu também. Eu gostaria de tentar. Mas vai ser difícil. Eu não conheço você. E, hum, o meu noivo e eu moramos em Las Vegas. A Mia mora em Malibu, e o Max, no Texas.

A voz de Meryl estremeceu com esperança quando respondeu:

— Tudo bem. Nós podemos começar com telefonemas e e-mails. Depois, talvez o Kent e eu possamos viajar. A minha galeria está indo bem. Eu tenho um dinheiro guardado que posso usar para isso.

Kent esfregou os ombros dela.

— Você quer encontrar os seus filhos e netos, Meryl, e eu não vejo problema em pegarmos um voo para isso. Temos todo o tempo do mundo para compensar, querida.

Argh. Eu não queria gostar daqueles dois. Kent estava provando ser um homem gentil, solidário e paciente. Ele seria um excelente avô para os filhos de Max.

Nesse momento, todos os olhos se voltaram para mim. Fechei os meus, não querendo ser julgada por meus sentimentos. Eu passara anos amando aquela mulher e, mais ainda, sentindo a falta dela... Depois, por fim, passara anos a odiando.

— Mia? — ela perguntou. — E você? Existe alguma parte sua que sente a minha falta e deseja que as coisas sejam diferentes? — Sua voz falhou e mais soluços vieram.

Minhas mãos estavam fechadas em punhos, as unhas enterradas na carne macia das minhas palmas.

— Eu senti a sua falta todos os dias, durante anos. Toda vez que um menino me magoava, eu sentia falta da minha mãe. Sempre que o meu pai esquecia de dar comida pra gente, eu sentia falta da minha mãe. Toda vez que o pops enchia a cara e apagava de tanto beber, eu sentia falta da minha mãe. Todos esses anos de sofrimento... Eu tive que cuidar do meu pai e ser a mãe e a irmã da Maddy. Por sua causa, eu roubei, fiquei sem comer mais vezes do que consigo contar e menti sobre a nossa vida para cada orientador escolar e cada médico que encontrávamos.

Meryl ofegou.

— Eu lamento tanto...

— Tenho certeza que sim. E eu lamento por ter precisado roubar quando não era nem uma adolescente. Lamento por ter precisado lavar a nossa roupa na pia com detergente quando tinha doze anos. Lamento que a minha irmã e eu nunca tenhamos tido um Natal de verdade, nem festas de aniversário, onde seríamos mimadas, como as mães de todos os nossos amigos faziam. Mas, acima de tudo, mãe — pronunciei a palavra com os dentes cerrados —, eu lamento por não termos sido suficientes pra que você buscasse ajuda. Que o pops não tenha sido homem o suficiente para assumir a responsabilidade e te ajudar. Não só por vocês, mas por nós também. A Maddy e eu. Eu não posso nem começar a explicar a loucura que foi descobrir que eu tinha um irmão cinco anos mais velho que eu. Vinte e cinco anos, mãe! — grunhi. — Vinte e cinco anos que eu poderia ter tido o Max. Você faz alguma ideia de como teria sido a nossa vida se a gente soubesse que ele existia? Ele agora é tudo pra gente! E você... você o afastou da gente. Com doença mental ou não. Você sabia que tinha um filho e não falou uma palavra sobre isso. Só por isso, eu não sei se posso te perdoar, se tenho espaço no meu coração agora. Talvez no futuro, mas, definitivamente, hoje não.

Com isso, fiquei de pé. Meu corpo inteiro estava tremendo.

— Vou esperar no carro — falei para Max, que já estava de pé com Maddy, provavelmente planejando me segurar para que eu não batesse nela de novo. E eu queria. Ah, como queria, mas isso não aliviaria a dor no meu coração. Não fecharia o buraco que ela tinha causado durante todos aqueles anos. Só o tempo iria curar essas feridas.

— Me desculpe! — Meryl se lamentou atrás de mim.

Eu não me virei. Em vez disso, tampei as rachaduras ao redor do meu coração que haviam sido abertas ao ver minha mãe. Calafetei e vedei com concreto, lambuzei com gesso e passei os braços em volta do peito em uma gaiola de proteção. Ela não quebraria esse muro. Ainda não.

Em última análise, independentemente da sua doença ou transtorno, eu precisava que ela se preocupasse mais comigo do que consigo mesma. Eu imaginava que um problema grave como o dela fosse difícil, mas precisava de pessoas solidárias no meu mundo, pessoas que se preocupassem umas com as outras. Naquele momento, eu não tinha espaço para ajudar a juntar os cacos do meu passado com uma mulher que não tinha feito nada além de me deixar para trás.

 

Meu corpo tremia enquanto eu caminhava pelo chalé em direção ao quarto. Quando cheguei lá, tirei toda a roupa, exceto a regata e a calcinha boxer. Afastei o edredom grosso e deitei na cama. Agarrando o travesseiro de Wes, afundei o rosto em seu perfume. Antes que eu soubesse o que estava acontecendo, um corpo quente se colou ao meu e um braço pesado envolveu meu peito.

— Quer conversar? — Wes perguntou.

Levantei sua mão, levei seus dedos aos lábios e beijei cada uma das juntas.

— Na verdade, não.

— Quer transar? — ele perguntou, com uma pitada de humor. O velho Wes voltava cada dia com mais força. Eu estava mais que grata por esse milagre médico e mental.

Deixei escapar um suspiro relaxado.

— Na verdade, não.

Ele esfregou o nariz quente no meu pescoço.

— Essa vai ser a sua resposta pra tudo hoje?

Dei de ombros.

— Talvez.

— Linda, você precisa falar sobre isso. Me dizer o que está se passando nessa sua cabeça bonita. — Para ilustrar, ele começou a massagear meu couro cabeludo.

A massagem era divina e exatamente o que eu precisava para ajudar a aliviar um pouco do estresse depois de ter visto Meryl.

— Eu sou uma má pessoa — finalmente admiti.

Seus dedos pararam momentaneamente e depois voltaram a se movimentar.

— Não é, não. Me diz quem colocou essa ideia na sua cabeça pra que eu possa socar essa pessoa.

Eu ri. Tão protetor.

— Bom, não precisa ir muito longe, porque essa pessoa sou eu.

Ele passou os dedos ao longo de todo o comprimento do meu cabelo, afastando-o do meu ombro.

— Certo, então me explique por que a mulher que eu amo, adoro e venero pensa tão mal de si mesma.

Deus, como eu o amava. Mesmo em momentos como esse, quando eu queria me esconder e me isolar de qualquer interação pessoal, ele era o único que podia fazer isso passar. No caminho de volta para o chalé, Maddy e Max tinham tentado conversar comigo, descobrir o que eu estava sentindo, mas eu os afastei. Na verdade, fui meio cruel com eles, pedindo que me deixassem em paz com meus problemas e parassem de encher o saco. Não foi um dos meus momentos de maior orgulho.

Beijei seus dedos de novo, descansando os lábios no calor familiar de sua pele.

— O Max e a Maddy estão dispostos a permitir que a Meryl se aproxime.

— E isso faz de você uma má pessoa porque...

— Porque eu não estou disposta a isso. Ainda estou com raiva. Ainda mais chateada do que antes. Ok, eu entendo que ela nem sempre teve controle sobre a própria mente, mas e nos momentos em que ela estava bem? E quando estava lúcida? Ela poderia ter estendido a mão, ligado pra gente, procurado os filhos. Poderia ter se divorciado do meu pai, pra ele poder seguir em frente. O sumiço dela deixou um buraco gigantesco na família Saunders, que nunca pôde ser preenchido. E, pior: eu não sei se ela está preocupada com isso. Nós só conversamos sobre o fato de que fomos abandonados por causa da doença dela, mas é bem mais que isso.

— Ficar com raiva é normal. Baby, até eu estou com raiva por você. Mas em algum momento a raiva vai diminuir, e então, quem sabe?

— E o fato de ela nunca ter contado pra gente sobre o Maxwell? Na minha opinião, isso é imperdoável. Se Jackson Cunningham não tivesse colocado o meu nome no testamento, eu jamais conheceria o Max. Não teria havido nenhuma reunião de família feliz, nada de sobrinha e sobrinho. Nenhum rancho no Texas pra ser a nossa segunda casa.

Wes gemeu no meu pescoço e me beijou.

— Eu te entendo. Você está certa. Acho que ela poderia ter encontrado uma maneira de esclarecer esse assunto. Aliás, se ela está medicada desde que conheceu o Kent, isso significa que ela esteve lúcida durante quase todos os anos em que ficou desaparecida. Por que ela não entrou em contato?

Naquele momento, contei a Wes que ela tinha sido presa por dirigir bêbada e acusada de negligência infantil. Mas quer saber? Praticou um crime, cumpra a pena. A probabilidade de o estado de Nevada prender uma mulher diagnosticada com transtorno bipolar logo após o incidente acontecer era quase nula. Além disso, eu sabia que muitas pessoas detidas por dirigir embriagadas nunca tinham sido presas. Claro que ter colocado duas crianças no banco de trás e assumir a responsabilidade pelo risco provavelmente a faria ficar afastada das filhas durante um tempo, mas nós saberíamos onde ela estava. Saberíamos sobre o Max. O pops não teria se tornado um bêbado. Pelo menos havia uma possibilidade de ser assim.

— Olha, Mia, você não pode se culpar por se sentir assim. Você foi a mais afetada pelo abandono. É claro que precisa de um tempo pra filtrar essas informações na sua cabeça dura. — Ele esfregou meu couro cabeludo de novo e eu gemi. — Dê um tempo pra você mesma. É muita coisa acontecendo. Todos nós enfrentamos muita coisa nos últimos meses.

Assenti, me virei e apoiei a cabeça em seu peito, vestido com uma camiseta. Ele cheirava a cola e biscoito. Inspirei mais fundo.

— Por que você está cheirando como uma criança de cinco anos no jardim de infância?

Ele sorriu.

— A Cyndi, o Matt e eu estávamos fazendo enfeites caseiros com a Isabel. Você estaria interessada em fazer o seu primeiro enfeite para a nossa árvore? — Ele sorriu e eu me inclinei o suficiente para beijar aquele sorriso. O beijo se aprofundou por um momento, então eu me afastei.

— Criar memórias? — Levantei uma sobrancelha.

Ele sorriu e concordou.

— É melhor você acreditar. Só as melhores.

— Você faz chocolate quente pra mim? — Fiz beicinho. Wes não conseguia negar nada quando eu fazia beicinho.

Recentemente ele havia descoberto que eu gostava de chocolate quente com marshmallow. Encontrei uma caixa no armário quando fiz o café, de manhã.

— Eu faço qualquer coisa que coloque um sorriso de volta no seu rosto e o espírito de Natal de volta no seu coração.

— Eu te amo. Você sabe disso, né?

Ele afastou uma mecha do meu cabelo.

— Eu não tenho certeza se conseguiria lidar com tudo isso sem o seu apoio. Você torna tudo mais fácil. Eu posso conquistar o mundo se você estiver ao meu lado — admiti.

Ele beijou a ponta do meu nariz.

— É assim que deve ser. Você acha que não me salvou quando eu cheguei da Indonésia? — Seus olhos assumiram um tom verde-escuro, estreitando-se em pontos de foco. — Meu Deus, Mia. Eu teria ficado louco se não tivesse você. As coisas que eu te fiz. O que você me deixou fazer... Você me trouxe de volta à vida. Eu devo tudo a você.

— Você não me deve nada. Lembre-se: eu dou, você dá. Enquanto nós estivermos juntos, sempre vamos ter o que precisarmos. — Sorri e esfreguei o nariz no dele. — Agora, eu só preciso de uma xícara gigante de chocolate quente, meias e música natalinas, a risada de uma criança e a minha família. Preparado pra me dar tudo isso? — desafiei.

Wes se moveu rápido, me levantou e me colocou sentada na beira da cama. Foi até o armário, pegou uma legging e a jogou para mim. Em seguida abriu a gaveta e tirou um par de meias verdes com bolinhas vermelhas e brancas que iam até os joelhos. Os dedos eram marrons. No alto havia um par de olhos negros e, no tornozelo, uma grande bola vermelha brilhante. Não era o tipo de meia que se pode usar com sapato, mas era muito divertida. Ginelle tinha comprado para mim, recomendando: “Pra você pirar com o Rudolph”.

Wes me ajudou a calçar as meias e vestiu uma de suas camisetas térmicas de manga comprida por cima da minha regata.

— Deliciosa — ele murmurou.

Dei risada, olhando para minha aparência. Eu não sabia como ele podia amar alguém tão pateta, mas com certeza estava grata. Ele me segurou pela mão e nós saímos do quarto, em direção à sala de estar.

Maddy estava abraçada a Matt no sofá, olhando para o fogo. Cyndi brincava com o bebê, fazendo barulhinhos para ele. Isabel estava concentrada em fazer outro enfeite enquanto Max a ajudava. Todos os olhos se voltaram para mim quando entramos na sala.

Era a hora da verdade. Eu precisava ficar ao lado de todas aquelas pessoas que me amavam, e esperava que a reação delas não fosse mais do que eu poderia aguentar.

— Muito bem. Estou cansada de ficar deprimida. Ainda estou brava com a nossa mãe. Não estou pronta para lidar com ela na minha vida todos os dias, mas preciso muito de todos vocês. Então, se vocês puderem perdoar minha manha e minha falta de educação, eu peço desculpas e espero que vocês possam esquecer tudo isso.

Max sorriu.

— Ei, mana. Quer fazer um enfeite? A Bell escolheu um especialmente para a tia Mia.

Olhei para Maddy e ela abriu um sorriso enorme.

— A menina mais linda do mundo — eu disse, engasgando de orgulho com quanto eu a amava, e a Max, por seguirem em frente como se nada tivesse acontecido.

— Mas só quando sorri! — Isabel gritou da mesa. — Eu sei essa. O papai fala pra mim!

Fui até ela, me inclinei e beijei o alto da cabecinha loira.

— Ele fala? — confirmei, capturando o olhar de Max.

— Sim. Aprendi com uma mulher muito sábia que eu conheço — ele admitiu.

Saber que o meu irmão estava pegando coisas minhas e compartilhando com a filha aqueceu meu coração de todas as maneiras.

Em pouco tempo, a música de Natal começou e nós estávamos cantando. Momentos depois, uma enorme caneca fumegante de chocolate foi colocada à minha frente.

— Para a minha rainha — Wes piscou.

— Ah, rainhas! — Isabel gritou. — Eu tenho uma coroa pra você decorar, tia. Aqui, esta é pra você, esta é pra Maddy e esta é pra mamãe. Todas nós podemos ser rainhas e princesas no Natal! — Ela guinchou e riu ao mesmo tempo.

Sorri e peguei a pequena coroa de espuma. Espalhadas em volta da minha sobrinha, havia canetas com glitter, cola, pedrinhas e afins. Tudo de que um verdadeiro artesão precisa para conseguir elogios pelo Natal caseiro. A menina estava no paraíso do artesanato. Eu, por outro lado, não tinha ideia do que deveria fazer primeiro. Então, me sentei ao lado dela e a criança de quatro anos me ensinou a fazer um enfeite.

Apesar das questões a respeito da minha mãe, esse já estava se provando o melhor Natal de todos, mas ficaria ainda melhor quando a família de Wes chegasse no dia seguinte, véspera de Natal. Tínhamos planejado um banquete. Cyndi ia assar o peru com recheio caseiro, enquanto eu planejava seguir a vida sem a lembrança nojenta de colocar as mãos em uma carcaça morta. Embora eu adorasse o sabor, a ideia me dava calafrios. Entretanto, eu ia preparar uma torta ou alguma outra coisa com Maddy. Nós duas juntas podíamos assar quase qualquer coisa.

Um dom que talvez tenhamos herdado de uma bailarina que dançava num piso forrado de farinha.

Essa era provavelmente a única característica que a mulher que nos deu à luz me transmitira. Eu podia me parecer fisicamente com minha mãe, mas era bem diferente dela. Eu jamais seria uma mulher com quem não se pode contar, não importava quais fossem as circunstâncias.