A garota do calendário: Dezembro

Audrey Carlan · Capítulo 6 de 15

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A garota do calendário: Dezembro

Capítulo 5

 

A mão de Wes apertou a minha a ponto de doer. Arranquei minha mão da sua e cambaleei. Ele me pegou instantaneamente, me prendendo firme a seu lado.

Kathy finalmente entrou, sacudindo a neve do casaco e estendendo a mão para minha mãe.

— Olá, eu sou a Kathy, esta é a Mia Saunders e o noivo dela, Weston Channing. Obrigada por nos receber. Desculpe pelo atraso...

— Noivo? — Minha mãe ofegou e seus olhos analisaram atentamente meu futuro marido. — Hum, parabéns. — Seu esforço para conversar como se nada tivesse acontecido e a congratulação falsamente educada soaram mal para mim.

— Quais as chances de eu entrar numa galeria de arte para entrevistar a mulher que me destruiu quinze anos atrás? — Minhas palavras eram afiadas o suficiente para cortar um pedaço de vidro. Na verdade, eu esperava que atingissem diretamente o coração sombrio dela.

Ela respirou fundo, assim como Kathy. A sala inteira ficou em silêncio.

Kathy remexeu os pés, olhando para mim, em seguida para minha mãe e, finalmente, para Wes.

— Err... eu imagino que a gravação esteja encerrada.

— Kathy, pode voltar para o chalé com o restante da equipe. Acho que temos material suficiente para o quadro com os três artistas. Vão jantar. A Mia e eu não vamos demorar. — Wes tomou as rédeas, salvando o dia, como de costume.

Kathy se aproximou, segurou minha mão e a apertou, em uma demonstração de apoio.

— Eu vou estar por perto se você precisar de uma amiga, Mia. — Ela me chamou pelo nome. Finalmente.

Ouvi-la dizer aquelas palavras significou mais para mim do que ela percebeu, mas tudo que consegui fazer foi um gesto curto de cabeça enquanto ela instruía os rapazes da equipe de filmagem e todos deixavam a galeria.

Sozinhos, nós três permanecemos parados. Minha mãe umedeceu os lábios novamente, olhando ao redor — provavelmente para ver se alguém entraria para salvá-la daquele pesadelo. Porque era exatamente isso. Um pesadelo de proporções épicas. Eu tinha me resignado a nunca mais ver essa mulher de novo, sem saber por que — ou como — ela havia abandonado seus filhos do jeito que fez.

— Hum, que tal sentarmos ali para conversar? — Sua voz e as mãos tremiam quando ela apontou para uma área ao lado.

Eu? Fui até ela, olhei em seu rosto e vi quando seus olhos se encheram de lágrimas. Num momento de puro descontrole, levantei a mão e dei um tapa no rosto dela. O mais forte que pude. Lágrimas que eu não sabia que tinha derramado escorriam pelo meu rosto. Ela gritou com o golpe e colocou a mão na bochecha. Suas lágrimas caíam como grandes e grossas mentiras, nas quais eu não acreditei nem por um momento.

Sua voz falhou quando ela disse:

— A-acho que eu mereci isso.

— Você merece coisa pior. Muito pior — rosnei, com os dentes cerrados.

Ela limpou a garganta e empurrou o cabelo para trás.

— Por favor, Mia. Eu gostaria de explicar.

Ironizei.

— Explicar? Você gostaria de explicar? — Minha voz se ergueu ao que parecia ser um milhão de decibéis, mas provavelmente foi mais como um grito sussurrado. — Explicar o quê... mãe? — falei com sarcasmo. — Que você deixou a sua filha de dez anos sozinha? Ou talvez que deixou a sua filha de cinco anos sozinha? Não, espera... — Dei um passo para mais perto. Quando estava prestes a atacar a mulher novamente, Wes me agarrou pelos braços, me puxou contra seu peito e me manteve encostada a ele.

O rosto dela desmoronou.

— Você não entende! — ela gritou. — Eu não queria ir embora.

Bufei.

— Você não tem ideia do inferno em que colocou a Maddy e eu. Depois que você sumiu, o pops se tornou alcoólatra. Com dez anos, eu cuidava dele e da minha irmãzinha!

Seus olhos se arregalaram.

— Ah, sim. Aposto que você não planejou isso. Você abandonou a gente e o meu pai foi parar no fundo do poço. Metade do tempo ele esquecia até que tinha duas filhas. A Maddy e eu ficávamos sem comer durante dias. Dias!

As mãos de Wes apertaram meus braços. Eu não tinha certeza se era uma demonstração de apoio ou se ele estava me segurando para eu não arrancar os olhos dela. De qualquer forma, ele estava me ajudando a me manter de pé.

— Eu tive que roubar comida dos cassinos e fuçar caçambas de lixo pra nós duas não morrermos de fome! — rosnei. — Você não tem ideia do que fez com a gente.

Minha mãe chorou e caiu de joelhos, com as mãos no peito.

— Mia, meu Deus. Me desculpe, meu amor. Me desculpe. Eu achei que estivesse fazendo a coisa certa. Eu não sabia! — Seu corpo balançava com os soluços. A culpa no ar era pesada.

— Desculpa? — Balancei a cabeça. — Você está pedindo desculpa por ter ido embora ou por não ter feito isso antes? — Minha voz fervia como ácido, tão corrosiva quanto.

— Não, eu nunca quis ir embora. Eu precisei. Foi o melhor a fazer. Para manter vocês duas em segurança! — Ela colocou as mãos na frente do rosto e chorou.

— Em segurança? — gritei. — Teria sido seguro ter uma mãe que pusesse comida na mesa para as filhas, que garantisse água quente no chuveiro e roupas limpas para elas vestirem. — A emoção obstruiu minhas palavras, mas eu não me importei.

— Meu Deus! Eu não imaginei que ele fosse sentir tanto a minha partida. Eu amava o Michael. Queria que ele seguisse em frente...

Gargalhei e tentei partir para cima da mulher, que estava desmoronando. Wes me segurou novamente.

— Linda... — Seu tom era de comando, mas suave. — Eu entendo que você esteja nervosa, mas violência não é o melhor caminho. Diga para ela o que você precisa dizer, depois vamos embora.

Seus olhos verdes estavam cheios de raiva também. Assenti e me agachei, ficando na altura dela.

— Você era tudo para o meu pai. O sol, a lua, o chão que ele pisava. Nós éramos imitações fajutas de você.

Ela balançou a cabeça e repetiu:

— Não, não, não, não. Não era para ser assim. — Seu corpo tremeu novamente com um ataque de lágrimas.

— E o que você esperava? Que ele se comportasse do mesmo jeito que o Jackson Cunningham?

Ela olhou surpresa para mim.

— Você encontrou o Jackson? — ofegou.

— O Jackson está morto — respondi, inexpressiva.

Seu corpo sacudiu como se tivesse levado um tiro no peito.

— O quê?

— Ele morreu há alguns anos. Mas não antes de deixar um rastro. O rastro do dinheiro, com o meu nome no testamento. Imagine a minha surpresa quando o meu irmão, Maxwell Cunningham, veio me procurar.

— Max... — ela sussurrou, seu rosto se contorcendo de dor escancarada.

Assenti.

— Sim, eu sei sobre o Maxwell... o meu irmão. E nós também sabemos que a Maddy é filha do Jackson.

As sobrancelhas dela se estreitaram.

— Isso não é verdade! — ela retrucou.

— Você acha que nós não confirmamos? Madison não é filha biológica de Michael Saunders. Ela é filha do Jackson. Nós fizemos o exame de DNA para comprovar. — Cerrei os dentes. — Você acha que eu acredito que está surpresa com essa informação? Você traiu o meu pai mais de uma vez. Eu me lembro de ter visto o Maxwell quando nós éramos crianças.

Ela balançou a cabeça e pressionou as têmporas com a palma das mãos.

— Não, não, não, não. Eu não estou entendendo. Não me lembro de nada disso — ela chorou.

— Mentira! — gritei, alto o suficiente para ela se esconder atrás dos joelhos.

Wes me segurou pelas axilas e me levantou.

Um estrondo explodiu atrás de nós, como uma porta se fechando. Kent Banks entrou. Ao ver minha mãe no chão, ficou de joelhos e a envolveu em seus braços enormes.

— Que diabos está acontecendo? — ele rosnou.

— Por que você não me conta? Foi você quem nos trouxe até aqui! Você sabia que ela era minha mãe!

Ele levantou a cabeça para encontrar meu olhar. As narinas de Kent se abriam e fechavam, e sua boca formou uma carranca profunda.

— Sim, eu sabia que você era filha dela. Ela me contou quando te viu na TV. Me falou sobre você, a sua irmã e o seu irmão. Eu pensei que estivesse fazendo uma coisa boa. Reunindo a família...

Bufei.

— Você é louco? Esta mulher me abandonou! A mim e aos meus irmãos. Merda, minha irmã e eu nem sabíamos que tínhamos um irmão até poucos meses atrás. Teria sido bom saber pela nossa mãe! — ironizei.

— Saiam daqui! — Kent rugiu.

Ao ouvir o tom do homem, Wes se colocou na minha frente.

— Eu não tenho certeza se a minha noiva terminou de falar com a mãe dela.

Minha mãe estava murmurando algo, encolhida contra Kent. Ele a ergueu no colo, como uma princesa.

— Acho que você já falou o suficiente. Tem muita coisa que você, obviamente, não sabe. Eu te ligo mais tarde.

Bufei novamente.

— Não se dê o trabalho. Não tenho mais nada a dizer para este projeto patético de ser humano.

Com isso, me virei e saí da galeria. Wes me seguiu rapidamente.

Comecei a descer a rua, a raiva fervendo em minhas veias e me impulsionando para a frente. Minha respiração era entrecortada no ar congelante.

Quando finalmente parei, não tinha certeza de onde estava ou do que estava fazendo. Só sabia que me sentia com frio e sozinha. Ofeguei, deixando escapar um soluço, e senti que estava perdendo o equilíbrio quando braços fortes me ergueram e me abraçaram apertado.

— Eu estou aqui, linda. Eu estou aqui. Vamos pra casa.

— Eu não vou conseguir encarar ninguém. — Chorei contra seu peito. A dor em meu coração o espremeu e se tornou insuportável. Como se ele estivesse se quebrando ao meio.

— Não precisa. Deixa comigo. Eu vou cuidar de você — ele sussurrou e me levou até o carro.

O tempo pareceu passar em uma névoa até que finalmente eu estava sendo levada pelas escadas, despida e abrigada em uma nuvem quente. Assustei quando senti um calor em minhas costas, até me ver envolta em um corpo que reconheceria em qualquer lugar. Eu estava enrolada em Wes Channing. Agarrei-me a ele, a nossa vida e a tudo o que me fazia sentir segura. Seu abraço era firme e inflexível. Em seus braços, envolvida em seu amor, fechei os olhos.

 

Acordei no dia seguinte ainda cercada por Wes. Ele me manteve dentro da segurança de seus braços a noite toda, sem me soltar. Pisquei algumas vezes e, em seguida, vi o rosto de Wes. Sua respiração vinha em lufadas suaves contra mim. Levantando a mão, passei a ponta do dedo em seu nariz. Ele se mexeu e abriu os olhos preguiçosamente. Os olhos de Wes eram diferentes de quaisquer outros. Eram de um verde brilhante, muito parecido com grama recém-cortada. Ele sorriu de maneira suave, se inclinou alguns centímetros e beijou meu nariz.

— Como você está? — Sua voz estava profundamente rouca, e eu a senti por todo o meu corpo, até os dedos dos pés.

Eu poderia mentir e dizer que estava bem, mas ele saberia que eu não estava falando a verdade. Porém aceitaria. Ele era esse tipo de homem. No entanto, eu estava cansada de esconder minha dor, de manter erguido o muro ao redor do meu coração. A única pessoa que merecia esse tratamento era a perdedora da minha mãe. Isso não mudava o fato de que eu gostaria que as coisas fossem diferentes. Desesperadamente.

Meninas precisam da mãe. Alguém que esteja lá para beijar seus machucados, juntar os pedaços de seu coração quando um menino as magoa, ensiná-las a ser mulheres das quais o mundo possa se orgulhar e, acima de tudo, ensiná-las a ser mães, a cuidar de outra alma mais que da sua própria.

— Eu não estou nada bem, Wes — admiti. Demorou muito para que eu abrisse o coração, mas eu o faria por ele, a única pessoa no mundo que me amava mais do que a si mesmo. Eu sabia disso com todo o meu coração.

— É, eu não imaginei que você estivesse. O que está acontecendo aqui? — ele apontou para minha cabeça.

Fechei os olhos, saboreando seu toque. Para mim, aquilo era mais que um gesto. Era uma ligação. Algo a que eu podia me agarrar quando tudo ao redor parecia estar desmoronando.

— Ver minha mãe na galeria dela... parecendo perfeita, saudável... — Balancei a cabeça e apertei sua mão, que estava entre nós.

— Dói saber que ela seguiu em frente. Que ela estava numa boa enquanto você e os seus irmãos sofriam pela ausência dela. Especialmente você e a Madison. Eu entendo, baby. — Sua voz era suave e compreensiva.

Levei sua mão à boca e beijei todas as juntas.

— Por que machuca tanto? — Lágrimas se formaram em meus olhos e deslizaram pelo meu rosto.

— Porque, não importa o que ela tenha feito, quanto tenha te machucado, ela ainda é a sua mãe. Você a ama.

Inspirei fundo.

— Não se pode amar um fantasma.

— Ah, baby, mas você pode. E você ama. Eu posso ver isso no seu rosto. E sabe de uma coisa?

— O quê? — Funguei. Não queria dar àquela mulher nem mais uma lágrima.

— Amar a sua mãe não é errado. Mesmo que ela tenha te machucado tanto.

E as lágrimas vieram mais fortes. Eu não podia segurá-las, ser a Mia forte que eu era com todo mundo.

— Não é errado? Uma mulher que me deixou sozinha, para cuidar de mim e da minha irmã, quando eu só tinha dez anos?

— Seu pai tinha responsabilidade nisso também, linda. Se você vai culpar alguém, ele tem que ser incluído.

Bufei.

— Ela o destruiu numa tacada só. — Balancei a cabeça. — Eu queria que você tivesse conhecido o meu pai antes de ela ir embora. Um pai amoroso, um bom marido. Ele venerava o chão que ela pisava. E pra quê? Pra ser deixado pra trás, feito lixo. Ela arruinou a nossa família. Não só isso... Ela arruinou a família do Max também. — Engasguei com um soluço.

Wes baixou o queixo.

— Eu não acho que isso seja verdade. O Max é um dos homens mais amorosos que eu conheço. É muito evidente. Ele pegou você e a Madison e tornou vocês duas parte da família dele poucos minutos depois de descobrir quem vocês eram. Isso diz muito sobre o tipo de homem que Jackson Cunningham era. Ele deu ao filho tudo o que podia, apesar de o menino não ter mãe. Ele amou o filho e o ensinou a amar. E o Max aprendeu muito bem. Ele ama a esposa, os filhos e as irmãs. Pode não ter tido mãe, mas a vida dele está longe de ter sido arruinada.

Refleti sobre o que Wes disse. Ele estava certo, é claro. Jackson Cunningham podia ter amado muito a minha mãe e ter sido magoado por ela, mas seguiu em frente. Cuidou do filho, o ensinou a ser homem. Um bom homem. O melhor. Mostrou a ele a importância da família.

— Eu preciso falar com o Max e a Maddy.

Wes se virou e me enrolou em seu peito.

— Eles vão estar com a gente daqui a dois dias. Você realmente quer ligar e preocupar os dois agora?

— O Max vai ficar irado se eu não fizer isso — respondi.

Wes sorriu.

— É, isso é verdade. Ele tem um temperamento explosivo quando se trata de você e da Maddy. O que você vai dizer?

Eu me inclinei para ele.

— Não sei. A verdade. Ele merece saber. Depois ele decide como quer lidar com a questão.

— E quanto à sua mãe?

Eu me encolhi.

— O que tem ela?

— Você vai falar com ela de novo? Alguma coisa não se encaixou na noite passada. Ela pareceu surpresa ao te ver, pediu desculpas e falou o tempo todo que você não sabia da história toda.

— Provavelmente porque ela não gostou de ter que encarar o que fez.

Wes suspirou.

— Talvez. Não sei. Ela caiu no chão muito rápido. Pareceu entrar em colapso de uma forma que não se vê muitas vezes, mesmo em um confronto difícil.

— Quem sabe? Ela deve estar tentando se convencer de que tinha uma boa razão para nos deixar. Todos nós. E, vou te falar, eu não engulo isso. Não tem nada que ela possa dizer que me faça perdoar o que ela nos fez passar. Nada.

 

O telefone tocou quatro vezes, o que era incomum para Max. Ele era uma daquelas pessoas que mantêm o celular no bolso de trás, e eu sabia que não estava trabalhando.

Finalmente, no quinto toque, ele atendeu. Um bebê gritando podia ser ouvido ao fundo.

— Um minuto, um minuto... O seu sobrinho está colocando a vizinhança abaixo. O garoto se cagou todo. Até as costas, mana. Tem cocô por todo lado, até no cabelo. Agora, como será que ele fez isso? — Max gritou ao telefone.

Percebi rapidamente que eu estava no viva-voz e esperei enquanto ouvia Max passar o garotinho para Cyndi. Homem típico. Sorri pela primeira vez desde que vira nossa mãe, no dia anterior.

— Ele cagou nas costas inteiras! — Max reiterou.

— E o que você quer que eu faça? Limpe o seu filho! — Cyndi retrucou e eu ri.

— Cyndi, amor da minha vida, eu pago um milhão de dólares pra você limpar o nosso filho — Max propôs.

— O seu dinheiro é meu, esqueceu? — ela rosnou de volta, soando um tanto irritada.

Eu não tinha necessidade de participar daquela situação, nem queria.

— Pessoal, que tal me ligarem depois?

— Mia, querida, é você? — Cyndi interveio.

— Sim, oi! Desculpe interromper. Eu precisava falar com o Max sobre uma coisa... hum... muito importante, mas ele pode me ligar de volta depois que limpar o bebê Jack.

Eu a ouvi suspirar.

— Não, não. Tudo bem. Max, eu vou lavar o nosso filho, mas você vai ter que trocar a fralda dele por dois dias seguidos! — ela disparou.

Ouvi ruídos de crepitação e, então, apenas a voz de Max. Ele devia ter desligado o viva-voz.

— Meu anjo, é melhor que seja importante. Ter que trocar a fralda de um garoto como o Jackson é terrível. Parece que tem alguma coisa morta dentro do intestino dele. Terrível!

Sem querer fazê-lo esperar, além do fato de os meus nervos estarem prestes a explodir, soltei de uma vez o que precisava dizer:

— Eu encontrei a nossa mãe.

A linha ficou em silêncio por um longo tempo.

— Você conversou com ela?

— Se por conversar você quer dizer gritar, repreender e dar um tapa na cara dela, então, sim, acho que podemos dizer que eu conversei com a nossa mãe.

— Onde você a encontrou? — ele perguntou.

Eu ri para dar ênfase, não porque fosse engraçado.

— Escuta essa. Ela é uma das artistas que eu vim entrevistar no Colorado.

— Ela está no Colorado?

— Nesta mesma cidade. Sim.

— Meu Deus — ele sussurrou.

— Sim, exatamente. — Soltei uma respiração pesada.

— Você está bem? — Seu tom continha preocupação genuína, e eu o amava por isso.

Pensei em mentir, dizer que estava bem, da mesma forma que pensei em fazer com Wes esta manhã na cama, mas não pude. Ele merecia mais que isso. Ele merecia honestidade.

— Não, não estou. Não tenho certeza de como lidar com isso. Foram quinze anos de abandono.

— E trinta pra mim — ele disse, sombrio.

— Ah, Max, eu sinto muito. Nós precisamos lidar com isso juntos. Quando você chegar, no fim de semana, vamos conversar e descobrir o que fazer com essa informação.

— Você acha que eu vou deixar você lidar sozinha com esse tsunami? Amanhã, o mais tardar, eu estou aí. Vou pegar todo mundo e vamos adiantar a viagem.

— Max, sério, isso pode esperar. — Tentei racionalizar, mesmo que o quisesse a meu lado mais do que qualquer outra coisa.

— Você está mal? — ele quis saber.

Suspirei.

— Você sabe que sim, Max. Foi um baita golpe.

— Então eu estou indo. Ponto-final. Vou falar com a Cyndi. Temos que começar a fazer as malas. Os quartos estão disponíveis ou vamos precisar de um hotel?

Um alívio imediato me envolveu.

— Eu te amo, Max. Muito mesmo.

— Querida, você sabe que eu também te amo. Este é um assunto de família, e, se um de nós está tendo maus momentos, os outros precisam estar presentes. Agora, tem um quarto pra gente ou eu preciso arrumar um hotel, meu anjo?

Engoli o caroço de estresse que revestia minha garganta.

— Está tudo pronto pra você e a sua família. O Wes até pediu um berço para o Jack. O caseiro colocou no quarto. E tem uma cama desmontável para a Isabel.

— Ótimo. Mia, não se preocupe mais com isso. Estou aí amanhã. Assuntos de família nós resolvemos juntos. Certo, maninha?

— Assuntos de família nós resolvemos juntos. Entendido, Maximus — repeti, acreditando em cada palavra.

Ele riu.

— Certo. Ligue para a Maddy e veja se ela quer ir antes. Se ela quiser, o meu avião pode fazer uma parada em Las Vegas antes de ir para o Colorado.

Claro que Max seria a voz da razão em tudo isso. Seguindo suas instruções ao pé da letra, liguei para Maddy e contei a ela o que estava acontecendo. Minha irmã ficou tão chocada quanto eu. Ela e Matt concordaram em tirar uns dias de folga da faculdade e vir mais cedo, já que teriam férias de Natal de qualquer jeito. Pedi a Maddy que ligasse para Max e confirmasse a data e a hora em que ele a pegaria no aeroporto.

Então, fui em busca da minha sanidade — sob a forma de um surfista que faz filmes e tinha se tornado um cara das montanhas. Eu o encontrei na cozinha, preparando o café da manhã.

— O que você quer fazer hoje? — Wes perguntou enquanto colocava panquecas num prato.

— Vamos esquiar — sugeri, precisando sentir o vento em meu cabelo, a sensação gelada no rosto e a velocidade das montanhas me lembrando de que eu estava viva. Que isso também passaria.

Minha família estava a caminho, e juntos nós lidaríamos com a mulher que havia quebrado cada um de nós de uma forma que nunca poderia ser reparada ou esquecida.